terça-feira, junho 20, 2017

Hubris


Diz muito de mim que uma das minhas histórias preferidas acerca do espírito humano envolva uma tragédia que matou dezenas de pessoas. A 20 de Março de 1980, o monte St. Helens, um vulcão julgado extinto no interior do estado de Washington dos EUA, anunciou ao mundo através de rugidos que os rumores da sua morte haviam sido manifestamente exagerados. Os vulcanólogos americanos não sabiam muito bem o que julgar disto, pois apenas estavam habituados aos vulcões do Hawaii, que são mais escorredores de lava. Adoptando uma política de esperar para ver, à medida que o vulcão começou a expelir magma em pequenas quantidades e o barulho aumentava, decidiu-se criar um perímetro de 13 kms em redor do vulcão, proibindo a passagem de pessoas. Mas o cidadão comum não sentia como um perigo potencial: era uma atracção turística, um divertimento e todos os fins de semana, centenas de pessoas subiam as encostas do vulcão para sentir e ver o espectáculo. Equipas de televisão chegaram de todo o lado para reportar o fenómeno, apontar os melhores pontos de observação. Helicópteros voavam por sobre a cratera esfumaçante, com reportagens divertidas. No entanto, o tempo foi passando e tanto barulho não dava em nada. As pessoas, impacientes, achavam que o vulcão não ia explodir e que desilusão seria esta. A 19 de Abril, o lado esquerdo da montanha começou a inchar. Os cientistas foram incapazes de reconhecer um sinal básico de explosão iminente, pois não estavam preparados. A História registou o final deste regabofe: um mês depois, esse mesmo lado esquerdo rebentou de tal forma que lançou monte abaixo uma tempestade de rochas e matéria a 250 kms hora, que apanhou tudo o que pôde pelo caminho. Para terem uma ideia da coisa, este material era suficiente para soterrar a ilha de Manhattan até 120 metros de profundidade. Pouco depois, o vulcão explodiu e a nuvem decorrente transformou-se numa cortina assassina que tudo varreu a uma velocidade de 1050 kms hora. Malta a 30 kms de distância foi apanhada e no meio disto tudo morreram 57 pessoas. Foi sorte, era um domingo: à semana, haveria centenas de madeireiros a trabalhar nas florestas no sopé da montanha. Noventa minutos depois, uma chuva de cinzas arejou a cidade de Yakima, a 130 kms. O dia transformou-se em noite, a cidade ficou isolada durante três dias.

Reparemos que estamos a falar de um local habitado num raio aceitável de um vulcão que exibia um comportamento perigoso. Como não foi feito nada Não havia procedimentos de emergência ou preparação. Os cientistas falharam nas previsões, foram incapazes de reconhecer o óbvio; e por sorte, o número de mortos, perante a proporção da catástrofe, revelou-se baixo. Penso que já terão reconhecido o motivo deste relambório e não, não vou apontar dedos nem discursar sobre métodos e mudanças; nem sequer me vou armar em protector das florestas e amante do verde quando, provavelmente, nunca meti os pés numa, a sério, nem sei apreciar a beleza intrínseca de uma árvore. Há, no entanto, algo sobre o qual quero falar e a razão que me faz adorar este relato escabroso, e não é o meu humor negro. Tudo isto revela uma das nossas características mais óbvias como seres humanos e em muitos bitaites ocorreu-me muitas vezes. Os Gregos, povo com jeito para metáforas e mitos, produziram uma palavra para designá-la, de que gosto muito: hubris. Numa explicação muito simplória, significa, basicamente, a ideia do Homem de que é superior a qualquer coisa, um orgulho indestrutível que torna qualquer um invulnerável aos factores que lhe são claramente superiores. Há disso aos montes na história do St. Helens, como expliquei, e reflecte-se simplesmente na incapacidade que toda a gente teve em reconhecer não só um perigo, mas também a sua inevitabilidade. Depois da revolução científica do século XVII, o ser humano expulsou qualquer deus do seu trono e assumiu o seu lugar como descodificador do mundo. Eu percebo o planeta, declarou, consigo dominá-o e traduzi-lo simplesmente. Nada me é superior; e este "deus" não é uma entidade espiritual, mas sim a própria Terra, um ente de rocha caprichoso, com humores incontroláveis, com espirros que despertam tempestades e arrotos em escala de Richter. O Homem, como sempre, esquece-se que não é senão uma partícula pequenina no grande esquema universal, animado por inteligência, mas condenado pela fraqueza da sua carne e da sua pequenez. Por muito que insista e se debata, não pode contornar isto: está à mercê e como em tudo, é uma situação muito difícil de aceitar. Uma tragédia assim é uma experiência de humildade, de reconhecimento de que podemos ser dominados e sempre seremos, mas muito não aceitam e querem justificar e racionalizar o que está para lá da mão com que queremos guinar a Natureza.

A minha relação com a zona do Pinhal Interior é sentimental: passeei ali muitas vezes, fotografei e fui momentaneamente feliz nos seus espaços de Pedrógão Grande a Castanheira. Custa-me muito ver arder algo que é meu património mesmo que não seja eu o dono, que me constrói de alguma maneira, de ver a destruição de qualquer coisa que sempre julguei imutável e permanente. É uma das razões pelas quais estes acontecimentos me tocam. Uma segunda razão é precisamente a hubris. Em cada testemunha que fala na TV, reconhece-se o pânico e a tristeza, mas por detrás dos olhos, num local que temos de saber procurar, está ainda o nosso antepassado original. ele não possuía ilusões de grandeza. Desconhecia, temia, tacteava e o seu mundo era a permissão do temor. Os relâmpagos tremiam-lhe a espinha, as chuvadas secavam-lhe a boca, os terramotos tiravam-lhe o tapete dos pés. Tudo era um risco potencial; e nos seus descendentes em 2017, depois de uma sova tremenda, injusta da aleatoriedade desta tômbola planetária onde somos bolas sem número, o antepassado espreitou. Esquecido de que as leis e os planeamentos são apenas precauções e não garantias, encontrou uma força sempre presente, raramente reconhecida, que ma sua fúria deixou estrago muito maior do que cinza. O que os críticos e juízes dos tribunais digitais esquecem, na sua soberba de homens-deuses, é que a Natureza é isto: não é amor nem boas energias, nem o recreio do Homem - é em definitivo o dono da propriedade. Nós só cá estamos a atrapalhar e quando se dá o imprevisível, não há muito que se possa fazer. Reconhecer isto é o primeiro passo para encarar as catástrofes e até para nos tornarmos pessoas melhores.

É sempre difícil lidar com o luto e a dor, principalmente quando é tão arbitrário que 64 pessoas sumam, assim, sem identificação e sarcófagos de cinza à beira da estrada. É duro e qualquer um de nós, em empatia, imagina-se no soçobro da existência do limite da vida. Custa, no nosso orgulho, aceitar que aconteça, mas é o mundo, horrível, sem grande sentido no geral, com a morte em potencial em todos os elementos à espera da tempestade perfeita. Ainda assim, este mesmo mundo, em que teimamos em ser maiores do que devíamos, é o mesmo em que minúsculos primatas com cérebro avançado combatem um elemento fogoso sabendo-se inferiores e ainda assim, erguem-se como heróis; é o mundo em que as pessoas dão as mãos e delas brota comida, água e abrigo para quem precisa; é o mundo em que no regresso à destruição, a pessoa dobrada se ergue para reconstruir o que foi seu, para recuperar no máximo do seu sonho aquilo que já foi, mas no fundo sabe que não volta. Neste duelo que desde sempre o planeta trava com a nossa espécie, e com traições da nossa parte, o nosso corpo pertence ao pó e ao domínio da Terra, mas o nosso espírito é o único capaz de justificar um orgulho próprio gigante, incomensurável. é um outro tipo de hubris, mas é nesta que, ao invés de nos agigantarmos em orgulho, humildemente reconhecemos que sem os outros não somos nada; e isto não é mito: é a realidade dos nossos dias, se assim quisermos fazer parte dela, abraçá-la e, num conforto de alma, reconhecer que só somos maiores do que nós próprios.

terça-feira, junho 13, 2017

Listas pequeninas


No grande esquema das coisas, o esquema das coisas grandes passa-me um pouco ao lado. Os objectivos maiores da existência de uma pessoa, aquilo que compõe os sonhos da gente comum, fogem-me como uma maré que recua à boca do mar, devorada pelo ciclo da Terra. Como tal, a tarefa de abrir os olhos nas manhãs e convencer-me a sair da cama é hercúlea e não poucas vezes um exercício de negociação entre, pelo menos, uns quarenta sete pedaços da minha mente. O acordo é complicado, mas alcança-se e as partes que defendem, fincando os dedos dos pés na terra ocre do meu cerebelo, que nada vale a pena, que deambular pelos dias respirando e apanhando com os estímulos do mundo nada mais é do que uma antecâmara do inevitável, são convencidas por um pequeno conceito, uma artimanha digna de um Ulisses anímico, que construí para derrubar as muralhas resistentes da dúvida: a importância do subtil e do discreto, da poeira que polvilha na estrada dos nossos dias o barulho das solas crocantes, os momentos pequenos que tantas vezes passam ao lado como órfãos da nossa estima. Parece que têm asas e nem as agarramos e vamos a ver, se passarmos num crivo os nossos instantes diários, estão ali como cola que segura a encadernação de um livro maravilhoso e de preciosidade superlativa. Agarro-os. Sei-os, conheço-os e cá em baixo, empurram-me no calendário.

A brisa do fim de tarde. As estradas longas onde solto o carro nas minhas mãos, o volante como uma lente com a qual absorvo um transe mediúnico que me põe em contacto com os fantasmas do prazer da estrada. O sorriso de garotos depois de uma piada solta a correr pela sala, rodeando-lhes os pés até à cabeça. Caminhar entre os campos, o sol transformando-os na maior mina de outro a céu aberto deste lado do Guadiana. Os meus ritmos, as minhas horas, as minhas escolhas numa casa onde pairo e navego à deriva boa das vontades impulsivas. Receber um "boa tarde" de toda a gente pela qual passo. Viagens de comboio que embalam a mente revolta num berço de estática. Praias desertas, mergulhos num mar sem ninguém, secar e voltar ao mesmo. Uma fatia de gelado depois do jantar. Ver o John Oliver à segunda-feira enquanto janto, num ritual que se repete. Pôr leituras em dia estendido na cama, encaixada num pequeno quarto que é tão literário quanto as páginas. Fechar a porta e sentir a chave no bolso antes de ir para a escola. Dançar sozinho na cozinha enquanto preparo uma refeição, sem julgamentos, sem me esconder. Ouvir chamar "Professor!" no recreio da escola e ouvir a pergunta mais idiota de sempre, todos os dias uma diferente, e querer rir mas não podes, só na sala dos professores. Auscultadores nos ouvidos no meu percurso para o local de trabalho. O sol das manhãs que começam às oito e tal, tímido e ainda frio, mas tornando a violência do despertar em algo de aceitável, como um regaço no qual me instalo para ser sussurrado e amado. A observação dos hábitos de gente diferente, num contexto removido do meu, aprender a ver o outro em perspectivas que não são minhas. Podcasts em ladainhas. Buscar as toalhas penduradas no terraço, o calor lambendo-me a pele com a ponta Fahrenheit. Pés no mosaico frio em tardes de Verão. As expressões de admiração depois de revelada uma informação mesmo incrível. Sentir-me em paz na solidão, mesmo que morda algo aqui dentro, um lobisomem insatisfeito que mais parece não querer lugar algum para voltar a ser homem.

São alguns dos meus berlindes, estes. Cheios de cores, encerrados em cápsulas de vidro, brinco com eles sempre que a ocasião se faz ladrão do meu bom humor. São uma ignição cuja chave guardo com firmeza dentro de mim, atrás de certos retratos de certas pessoas em acertos constantes. Metrónomos do ímpeto, agentes secretos na espionagem do meu relógio de humor, armas de arremesso fundas em estilhaço. Mantêm-me à tona, flutuando num alentejo com o mar longe, mas um oceano permanente onde manter.me à tona é o prazer no final de cada dia, quando me deito, quando sei que o sono tarda, mas que passou mais um desafio. Ganhe ou perca, é meu e o maior prazer é esse: a posse de mim e do que sou. Para dar a mim mesmo e a quem mais deseje receber uma prenda embrulhada de surpresa.


terça-feira, junho 06, 2017

Colos e Companhia


Durante praticamente todos os anos da minha adolescência, e alguns da pós, tive um sonho bastante recorrente. Deitado num chão branco de mármore, frio e passado por repulsa, abria os olhos sem entender muito bem onde me encontrava. Erguendo-me, rodeiam-me paredes pálidas de dó, erguidas à força do arrepio e sustentadas por um certo pavor que se encontra nas morgues. Dentro de mim, o sentimento é de que a morte não anda longe, puxa-me pelas narinas, lambe-me o pavilhão auditivo numa aspereza rouca. Vagueio, perdido e num vago instinto, para, sem entender bem como nem por que corredores e distâncias, dar pela minha pessoa numa imensa sala vazia, povoada em demografia única por um objecto lá ao fundo, no meio, equidistante dos quatro cantos. Aproximo-me, é um caixão castanho, muito simples, sem tecidos, só com a madeira como decoração. Olho para dentro e contemplo, assombrado, a minha própria imagem. Morri, mas vivo em desconhecimento de mim mesmo. veste-me um fato azul veludo, uma camisa branca. Não tenho marcas na cara nem expressões de terror: estou ali, mas o facto é que já deixei de estar de todo. A prova é que me observo, do exterior, e existo em simultâneo quando não existo. No sonho, demoro alguns segundos a percebê-lo e o dobro do tempo a aceitar e o triplo a sentir-me confortável, talvez um pouco mais. Mas cedo cai em mim uma perturbação lancinante que corta, constato que a sala está vazia por completo. É o meu funeral, deduzo, e ninguém veio. Ou será apenas no dia seguinte? Terei aparecido cedo demais? As portas estarão abertas para os convidados? Pressinto que tudo isto é inerte, que eu deixei de ser e ninguém apareceu. Só o meu fantasma desencarnado e embarco numa viagem mental buscando por justificações de desprezo e não encontro e pouco tempo depois acordo e sinto-me na pessoa mais só do mundo e só não choro porque nem tenho presença de espírito para invocar lágrimas.

Desde então, a solidão é o meu maior medo. E reparem que não é estar sozinho, erro comum cometido por muita gente, o de julgar que ambos os conceitos são iguais. A maior parte das pessoas tem, de facto, medo de estar sozinha, de fazer coisas a solo, de viver um mundo interno e experiências pessoais. O júbilo faz-me cócegas sempre que me lembro da expressão que algumas pessoas fazem quando lhes digo que quase sempre vou ao cinema na companhia de mim mesmo. Há ali um misto de surpresa, admiração e terror onde este último domina e uma incompreensão quase total acerca do que pode levar alguém a experimentar tal aventura épica. Sempre fiz muitas coisas sozinho: passear, caminhar, ver espectáculos, viajar, até mesmo existir. Se bem que nalgumas fases tenha sentido que tal se devia a uma extrema repelência da minha parte, com algum trabalho e encaixe fui percebendo que faz parte da minha natureza. Uma das minhas grandes lutas foi tentar conciliar a minha natureza solitária com uma outra necessidade, que existe em todos nós, de conviver. A solidão está ,aqui, o medo de que por mais gente que conheça e com quem conviva, todos vão, inevitavelmente abandonar-me. Não é tão idiota assim e tenho exemplos práticos, que não vou desenvolver. Talvez a grande parte da culpa seja minha, estou há anos para entender se sou boa pessoa ou não e acho que mudo de opinião umas dez vezes ao ano. Quero ser útil para os outros, estar lá, quero que se preocupem comigo e me recordem, quero que me deixem preocupar-se com as pessoas. Acima de tudo, quero partilhar o meu mundo e partilhar do mundo dos outros e tantas vezes me apercebo que estou tão mal equipado para ser social.

A solidão aqui em Colos leva-me a pensar ainda mais vezes nisso e factores da minha vida recente pesam ainda mais nesse pequenino mal-estar dramático, problema de primeiro mundo destacado. neste fim de semana, recebi visitas de amigos. Cada um está na minha vida há relativamente pouco tempo, não os conheço há mais de dois anos e meio. Com tempo, e num projecto pessoal, fui-lhes dando espaço, talvez provando que posso ter amigos e conquistar pessoas que não me conhecem desde a infância. Sei que esta ideia poderá parecer tola a muitas pessoas, principalmente quem me conheceu nos últimos cinco anos e ainda cá anda, e não sou nenhuma ilha, tenho quem se interesse por mim, quem ocasionalmente pergunte como estou e queira combinar coisas, mas parece haver em mim um tremendo medo, de abismo, que um dia o meu funeral não tenha alguém. Mas eles tinham dito que vinham, e vieram. Foi um fim de semana divertido e animado, passeámos e mostrei-lhes um pouco do meu quotidiano da casa, da escola, passeámos pelas praias da Costa Vicentina, visitámos monumentos e locais abandonados, rimos e mandámos piadas, entendemos as peculiaridades uns dos outros com portais e piadas idiotas à mistura, inseguranças e cansaço de viagens de carro, com a paciência para perceber ritmos e gostos diferentes, com a noção de que a amizade é o único local onde a teoria da relatividade não pode funcionar, pois o tempo nem existe, nem passa e pode-se dobrar e pontapear à vontade de quem aceita; e foi bom e gosto destas pessoas e sei que têm apreço por mim, não sou um idiota que considera que um trio com vida e ocupação viaja 350 km só num projecto de piedade, é algo que se faz por afecto, mas naquele local maligno na parte de trás da minha cabeça, há sempre algo que me devora em dentadas vorazes, uma boca de um inferno, onde tremo e vivo numa insegurança tremenda. Vai sempre existir, acho, vou aprendendo a lidar com ela sem danos colaterais e amigos como estes, por quem tenho mais do que respeito, uma amizade sincera e nalguns casos uma admiração que não nego, que me mantêm à tona.

Em dois dias fui um bocadinho mais eu, muito por causa de outros. Não sou o que o alheio faz de mim, sou o que sou, o que me constrói, mas partes de mim só revivem quando outros lhes tocam. Aprendo a ser humano, mais e mais, vendo e sentido quem me está exterior. Podemos viver connosco, mas há sempre um apelo qualquer, uma reacção química que nos torna moléculas que se querem agregar a outras. Neste fim de semana, a minha casa foi um laboratório e a reacção em cadeia atómica, ao ponto de me dar energia para algumas semanas. No fundo, nós, pessoas, somos um bocado isso: energia; e no mármore branco do funeral do meu sonho, são elas quem enche o espaço de flores e faz a festa enquanto o meu fantasma percebe que não morreu de todo: apenas se tornou matéria viva nos outros.

segunda-feira, maio 29, 2017

Acção


Já me debrucei nestes meus relatos alentejanos acerca do que é, para mim, ser professor. Não sou bom, mas também não sou mau e dificilmente inspirarei uma turma de garotos a fazer o impossível.Tento encaminhar alguns para chegarem às notas que correspondem ao seu potencial - através, habitualmente, de tiradas de absoluta ameaça - e se conseguir fazê-lo, já me dou por contente. Agora, uma coisa que passa por mim e nunca abdicarei é a de tentar abrir a mente dos meus alunos a outras realidades que, na sua vida normal, nunca lhes passariam pelos olhos; e neste terceiro período decidi ser literal e apresentar-lhes, nas minhas aulas de Direcção de Turma, um pequeno e muito rápido curso de estética cinematográfica: uma Introdução à 7º Arte, se quiserem. Em oito semanas, e nada mais, o meu 7º A, composto por alunos bem diversos e quase todos habituados a vida de campo e da terra, sentar-se-ia para me ouvir falar de Cinema. Ou seja, um serão que alguns amigos meus descreveriam como o inferno na Terra.

É consabido que eu e a Imagem temos uma relação profunda. Não tanto como a escrita, da qual dependo para funcionar e viver e organizar-me, mas ainda assim, dedico-me ao ecrã e ao movimentos das cores e dos sons numa narrativa como alguém que precisa de perceber o mundo através do que é indirecto. A Música esmaga-me e arrebata-me, mas é através da Visão, mais do que qualquer outro sentido, que consigo atingir uma certa plenitude do Ser que só se pode encontrar por quem ama algo mais do que a si mesmo; e se amei algumas pessoas a um ponto da ulterioridade e da elevação da minha matéria acima de qualquer espírito ou alma penada, e na combinação da forma e da paleta cromática que sinto, por fim, estar na alma do mundo. O Cinema mexe demasiado comigo e tudo o que mexe comigo está condenado aos outros, em dissertações exclamativas acerca do quão bom e e importante é no grande esquema das coisas: filmes, séries, locais, luminárias, até mesmo as mulheres que amo, tão poucas - são pretextos para me explodir em entusiasmo e afirmar verdades aparentemente imutáveis que mudam, claro, segundos depois de o meu assomo exultante. Se adoro algo com fervor e vapor, anuncio-o ao mundo, espalho entre conhecidos e posso dar por mim, assim de repente, a ver a colecção de fãs de Ludovico Einaudi crescer nas minhas amizades próximas, só para dar um exemplo prático. Claro que passo por arrogante e alucinado, mas sempre passei por isso, em parte porque sou demasiado apanhado pelo calor da conversa e da discussão, pelo prazer de divulgar e espalhar palavra. Porque sou eu e não sei ser de outra maneira.

Fazer compreender este entusiasmos a garotada de 12 e 13 anos que cresceu a sua vida acreditando que Vin Diesel é o Marlon Brando da nossa geração não é complicado; o pior é explicar-lhes porque é que há coisas boas e coisas más, quando vamos crescendo com a ideia da subjectividade total. Nada é bom ou mau: nós gostamos e pronto; e é assim que o mundo se vai afundando numa certa depreciação estética que urge combater. Há Bom e há Mau. Não necessariamente pelo nosso gosto, mas pelo trabalho que encerram, pelas escolhas do autor, pela qualidade e importância da obra. Quis fazer perceber-lhes isso. Falei de edição e direcção de fotografia; a boa e a má realização; as diferentes formas de interpretar (e bem) uma mesma emoção; a importância de ritmo e banda sonora na definição de uma cena; a maneira como o casamento entre imagens e som pode mexer com os nossos sentidos e percepção. Este trabalho com miúdos pode ser incrivelmente frustrante, mas se formos entusiásticos o suficiente, e eu quero acreditar que sou até com História (quanto mais Cinema), explícitos e escolhermos as obras adequadas, nunca esquecendo que eles pertencem a uma geração que mal conhece os nossos clássicos dos anos 90, as recompensas podem ser múltiplas. Ter uma turma presa ao duelo a três final de "The good, the bad and the ugly" fez-me sentir como uma vitória; explicar-lhes o jogo de olhos de Michael Corleone antes de matar o capitão de Polícia em "the godfather" e sentir que pelo menos alguns perceberam a diferença dessa genialidade e de muito over-acting que vêm em filmes também; querer sair da aula e um aluno pergunta-te acerca do filme cujo trailer mostraste - "The fall" - sabe mesmo bem, assim como ter uma turma em pulgasd para assistir a uma cena de uma obra rodada no só take. Fi-lo perceber lentamente que Kubrick e Scorsese são génios absolutos, ao ponto de me perguntarem se podíamos ver "The shining" na aula ou mostrarem curiosidade por "Goodfellas" e fazê-los partilhar a minha paixão por outros realizadores como David Fincher ou Guillermo del Toro ou mesmo Hitchcock é uma benesse que guardo na solidão de Colos.

Nas últimas aulas do período, o desafio está a ser o visionamento de um filme a preto e branco: "Casablanca". Viram a primeira meia hora: Rick Baine já entrou em cena dominando, Ilsa acabou de chegar ao seu café e a intriga dos vistos está completamente em marcha. Ninguém adormeceu ainda, só um mânfio (que tem a mania de que é moderno) reclamou por vermos uma obra sem cores vivas e até agora não tem corrido mal. Já me perguntaram se no final lhes posso dar uma lista das fitas cujos excertos passei na aula. Talvez sim, talvez não: neste tipo de coisas, sei que há certas regras de conduta, mas o professor é que tem o director's cut.

segunda-feira, maio 22, 2017

Faz-se caminhando



De há duas semanas para cá, tenho cumprido um regime com disciplina: dia sim dia não, calço as minhas Merrell e faço-me à estrada em hora e meia de caminhada. Este acesso de lucidez serve dois propósitos - ajudar à limpeza da minha saúde mental, porque demasiado tempo livre fechado em casa não faz bem a ninguém; e a proximidade de um limite de peso que estabeleci há muito tempo que nunca ultrapassaria. À medida que a balança me revela a aproximação galopante de esse número que de mágico só tem mesmo o hermetismo egípcio, o meu corpo dá por si tendo vontades que habitualmente não geraria. Atenção: o meu 1,86 m permite, com normalidade atingir este cálculo de tonelada com naturalidade; no entanto, o que ainda sobre, em estertor, de um certo amor próprio lança-me numa tentativa desesperada de jamais ultrapassar essa marca. Portanto, tomei duas decisões rápidas: caminhar regularmente e comer cada vez menos às refeições. Podia comer melhor? Mais vegetais e sopinha, abdicar da carne e de outras coisas boas com açúcar? Claro que sim; mas por favor, já estou sozinho no meio do Alentejo onde por vezes necessito de falar alto comigo mesmo só para não dar em doido. Não peçam à minha sanidade que se estique ao ponto da transparência. Inevitavelmente partira. Do mesmo modo, nem me venham com histórias de corridas, que a minha biologia é bem sábia e as rótulas com que nasci desaconselharam-me, em rapidez record, essa iniciativa. Assim como assim, a caminhada e a corrida contribuem para uma perda semelhante de calorias (parece estúpido, e é, mas estudos médicos dizem-no) e apesar do que a minha reputação aparenta, eu não gosto de sofrer.

O segundo passo, após a decisão, foi o de descobrir um pedaço de caminho para me dedicar. Em Coimbra, onde de quando em vez também me entregava ao pé após pé, o Choupal era a minha Meca e Medina, mas com menos mortos por asfixia. Aqui, florestas são tão comuns quanto rios com caudal e caminhar à beira das longas rectas alentejanas é um pouco como subscrever um serviço bem supimpa de suicídio por atropelamento. A minha primeira expedição pedestre levou-me a descobrir uma estrada de acesso público, entre pastos, que não sendo agradável era pelo menos utilitária. Não me livrei de um susto quando, entre divagações mentais, reparo numa manada de vacas acompanhando em paralelo o meu movimento do outro lado da cerca. Era umas quarenta, e ali, com ou sem baba, atiravam-me com o olhar. Lera nessa semana, no último (e divertido) livro de Bill Bryson sobre a Grã- Bretanha que por terras britânicas tem crescido o número de pessoas que são atropeladas por vacas enquanto disfrutam dos trilhos locais. Olho para a cerca e são paus de metro e meio com arame entre si. São tão seguras e protectoras quanto Marcelo Moretto. Seguem-se umas dezenas de segundos tensos. Enquanto nos meus ouvidos vai debitando a voz de David Paulides, entrevistado num programa de rádio (um homem que conta coisas esquisitas, mas cuja voz funciona como barulho estático que acalma a minha mente), o outro canto a minha consciência tenta sossegar-se e só o consegue no momento em que, tão subitamente quanto aceleraram o passo, os seres bovinos estacam como que ordenados e hipnotizados, controlados por uma linha imaginária. Nenhuma delas fala inglês, suspirei. Devia ter desconfiado quando, no início do caminho, vi a referência a uma quinta chamada "Coito Grande": ia-me fodendo com estrondo, de facto. Ainda cheguei a repetir estas paragens, mas rapidamente descobri uma mina diferente de quilometragem.

Mesmo em frente à minha rua, do outro lado da estrada, segue uma outra que se transforma num ápice em estrada de terra batida. Vai dividindo os vários montados entre si, longas planícies com ocasionais elevações e tem a beleza própria do Verão alentejano, quando a terra parece escandinava de tão loura e o verde é sugado por um castanho muito baço, que brilha com a luz solar. A longa estrada segue até uma aldeia chamada Relíquias e é frequentada principalmente por tractores e motas; algures, ramifica-se noutros caminhos que oferecem possibilidades de descoberta e mistérios. Anseio por descobri-los, mas neste fim de semana ocorreu um daqueles acasos que me faz sempre pensar se a existência não é uma partitura musical matemática. No sábado à tarde, o calor ia-me adiando a saída, mas algures dei um murro na mesa e saí de casa. Decretei que nesse dia faria duas horas de passos largos e em ritmo acelerado. Dez minutos não eram passados quando, dando uma curva que me retira do casario e me lança nos campos, ouço por entre a voz de David Paulides, explicando misteriosos desaparecimentos nos matagais norte-americanos, aquele crepitar facilmente reconhecível por quem tem uma lareira em casa. Acaba de passar um tractor e pensei inicialmente que era o barulho das rodas na terra, mas tal barulho é inconfundível. Olho para o meu lado direito e no chão, do nada, inicia-se um fogacho com risco de incêndio. Na rapidez reflexos que é a única característica física que um dia me poderá valer a sobrevivência, os meus pés servem de pá, calcando o incipiente fogo que morde o mato seco, atirando-lhe terra, matando-o. O meu alívio durou o tempo de encontrar outros dois pontos de impacto a poucos metros, um junto ao outro, com um apetite mais voraz e satisfeito. Fazendo o que posso não é suficiente e estranhamente, o meu raciocínio é rápido o suficiente para chamar os bombeiros sem me querer armar em herói. Enquanto isto acontece, o fumo chama a atenção de vários populares de Colos, que numa questão de minutos acorrem ao local e combatemos o incêndio que fica controlado antes da chegada dos bombeiros. Beneficiamos da sorte do terreno e dos caprichos das chamas, que viram para um lado quando o outro era muito mais potencial de desgraça, mas o importante é que tudo se controlou e acabou em bem. Os soldados da paz já só chegam a tempo se brincar com a mangueira. Pedem-me fotos da ocorrência, que me haviam requisitado por chamada telefónica e com essa questão arrumada, volto ao caminho.

Desta vez, não consigo abstrair-me, Paulides é impotente. Penso em todo o conjunto de pequenas decisões e disciplina que me levaram àquele ponto ali, no momento mais exacto, na lucidez necessária para cumprir os passos certos. Que mecânica esta que me trouxe para tão longe e ser útil da maneira mais inesperada, que me leva a ser um bocadinho herói quando penso mais em mim como um vilão. Desta vez, os passos não são metrónomos e num desvio propositado, encontro subidas que me cansam o corpo e me impedem de pensar em destinos e acasos, em coincidências e pessoas, fogos que queimam muito mais do que aquelas chamas que apaguei e me tornaram mais peão na vida do que herói na mesma. Dê por onde der, sinto que não me podia desviar de nenhuma decisão errada e que todas me conduziram ali mesmo, ainda que não me aperceba. Encolho os ombros: a vida é caminho e nenhuma disciplina é necessária: só pernas com vontade e corpo com arcaboiço para aguentar o desgaste. Tudo o resto é fogo posto sem hipótese de rescaldo.

segunda-feira, maio 15, 2017

A partida


Ao longe, a neblina dengosa, amando o mar. Paulo, pés na doca, esperava o barco, o único sorvo de oxigénio num raio de centenas de metros. A mochila às costas indicava viagem, mas no seu espírito queria apenas ficar. No entanto, a honra, esse bicho bravio que conduz os humanos aos rochedos do risco, obrigava-o a renegar-se. Tudo começou por uma aposta, encapotada, inocente: Pedro e Patrício, amigos de infância, traçaram à mesa de jantar uma proposta irrecusável - aquele que de entre os três fosse o último a correr todos os concelhos de Portugal sujeitar-se-ia como castigo a uma viagem à escolha dos vencedores. São 308 concelhos, mas caramba, eram amigos, estavam mesmo a entrar naquela fase da vida em que os sonhos ainda são possíveis, algures entre os 20 e os 25, e o projecto era sem prazo. Apertos de mão firmes e acordo assinado num guardanapo, guarda-se na carteira de Pedro (afinal, o único capaz de ser o fiel da balança, pois pouco antes daquele jantar doutorara-se em Direito) e Paulo foi confiando que aquilo fora apenas um assomo de juventude exaltada, pronta a ser esquecida mal o fermento do álcool baixasse. Mas não, os seus amigos tomaram muito a peito o desafio. Pedro foi o primeiro, terminando a sua jornada em Castro de Aire, no topo da serra de Montemuro, passando aí a noite para ver nascer o Sol e plasmar a eternidade do momento numa publicação de Instagram; Patrício, nortenho em todas as linhas do sotaque, escolheu a contemplação do Douro a partir dos Jardins do Palácio de Cristal, um rio que é veia de uma cidade e, caso raro, também o seu coração, e terminou no Porto seu; e quando comunicou a conclusão da demanda a Paulo, ainda este não ia a meio. Não o surpreendera, nem aos amigos, que sempre o tiveram como o homem que não sabe seguir, apenas ficar.

Quando a aposta foi lançada, um sabor a culpa manifestou-se naquele jantar, misturado com as grelhadas mistas. Como um mafarrico ressuscitado, Pedro convencera Patrício que precisavam de meter um cabo de alta tensão pelos olhos de Paulo, que desde criança mostrara uma inércia exasperante. Não se decidia, ruminava; para escolher o curso académico fora um suplício e o irmão mais novo, diferença de dois anos, ficava sempre com os melhores brinquedos e roupas porque Paulo se adiava em escolhas e opções. As desculpas eram sempre múltiplas, sem escolha, e para quê optar se a vida é isto e pronto? Tudo desliza, como se os dias fossem gelo, tudo passa, nada fica: isto ou aquilo é o mesmo que tudo e nada e portanto, uma inconsequência. Ele estava na vida como quem , no público de um concerto, não canta aquilo de gosta, mas apenas o que deixam e só pula quando a maralha sopra na sua direcção. Paulo era bom tipo, mais do que um gajo porreiro, e preocupava-se. Inteligente, se bem que de uma inteligência nauseabunda em ocasiões, e custava a Pedro ver um tão grande desperdício de bom ADN numa massa amorfa que se equiparava a uma esponja do mar. A aposta era o empurrão, o atalho até ao ponto fraco do Paulo - a sua honra. Patrício concordava: apenas namorava com Filomena, loura que gostava de ser sua nos últimos três anos, porque Paulo lhe prometera que nunca por nunca atrapalharia a vida amorosa daqueles que eran os seus dois grandes referenciais de amizade; cumpriu e sabe Patrício que, se estivesse na sua pele e principalmente nas suas calças, tal teria sido impossível, pela maneira como Filomena acossou o honroso rapaz. Mas Paulo não escolhe, marca uma posição e funciona a partir daí; mas também a Patrício enfartara a visão de tão bom tipo sem capacidade de reagir. Concordou com Pedro, que era preciso fazer algo e que esse algo devia ser dramático. Uma viagem, sim, mas uma viagem gigante e arriscada, não o suficiente para cortar uma vida em dois, mas pelo menos capaz de arrepiar a epiderme em espasmos de dúvida.

A escolha recaiu em St. Kilda, um ilhéu medonho, habitado em rarefeição, ao largo da Escócia. Eles tinham a certeza que Paulo perderia, e perdeu, e que chegada a hora não recusaria a pena, e não recusou. Simpáticos, pagaram-lhe a viagem, sabiam que era mais um investimento do que um custo e esperaram que, por uma vez, a ausência de escolha fosse benéfica. Naquela manhã envolta em lençóis
de vapor de água, a cama do mundo despertando mais do que o dorminhoco Paulo, que bocejava ao som das gaivotas, o peso continuava dentro dele. A aposta perdida forçava-o a um vínculo e era apenas mais um traço do passado que o empurrava a fazer algo que nem queria. O seu grande problema, ignoravam Pedro e Patrício, nem era a escolha ou falta dela: era uma incapacidade rochosa em deixar para trás os pesos, como se amasse abraçar as âncoras dos barcos e cair assim ao fundo do mar na ignorância da asfixia. Mesmo que lhe fizesse mal, que o corroesse e lhe parasse a vida, o passado era sempre menos assustador e desconfortável do que um futuro de tenebroso desconhecimento, o mistério da vida transformado na morte da vez que erra e torna a errar, escolhas erradas que ditam desfechos cerrados, um medo tremendo de ser feliz por nem conseguir acreditar que tal era possível. Paulo era um conas, também, mas um conas que se auto-justificava em quase tudo, se a desgraça acontecia tinha um motivo e por muito que desse voltas no pavilhão do Cosmos, esse motivo podia ser ligado a si, aos seus defeitos, às suas agruras. Cada falhanço era uma profecia auto-cumpridora, cada sucesso uma antecâmara da dor posterior e no anterior do peito. Nenhuma viagem poderia curar Paulo, talvez, pelo menos nunca acreditaria nisso, como se pudesse blasfemar contra o credo doutrinário de si próprio.

Quando o barco chegou, mochila molhada da cacimba matinal, nem reparou que era o único passageiro. Mas o nevoeiro levantava e enquanto assistia ao lento atracar da embarcação, o telemóvel tocou. Era uma sms. Número desconhecido. Uma língua desconhecida também, pelo andar, talvez gaélico. Era natural, a Irlanda ficava ali ao lado. Com certeza fora engano, não podia ser ele o destinatário. Ao início tentou respeitar a privacidade, mas ainda faltava meia hora para o barco sair e uma consulta rápida no Google tradutor revelou-lhe o conteúdo. Breve, três linhas no seu ecrã, mas um mundo por entre as palavras: "O lençol rendilhado aquece quando sopro o teu nome. Voltas, eu sei, o vento desenha o teu nome nas gotas de chuva. Quero viver no futuro para te encostar ao meu turbilhão quente. Camhoie" E não conseguia não sentir-se arrepiado, ele que tanto temia o futuro e confrontava-o alguém para quem esse tempo era o único presente que desejava. Lembrou-se de vários lençõis, menos rendilhados, quis esquecê-los, mas sabia que para sempre os carregaria, para St. Kilda ou até para os confins do mundo, nesse passado que tanto o assustava. O barqueiro chamou-o, três vezes, nunca negou qualquer uma. A mochila às costas, um passo decidido para o barco e aquelas palavras ternas, acerca de um futuro que não era o seu, mas que desejou, como não desejava assim algo há anos. Mexeu consigo, no âmago e no fundo e quando começou a chover, não se deixou proteger. Era baptismo, pensou, talvez nascesse outro. Ou pelo menos, enquanto as suas lágrimas se misturavam com a chuva, este choro possa ser um parto enquanto eu próprio parto, respirar pela primeira vez, asfixiar como sempre e nunca.

terça-feira, maio 09, 2017

Um dia de passeio


A minha paisagem preferida é a emocional e a memória, em alto e baixo relevo, é uma topografia perfeita desse recorte que nos encolhe e aumenta na proporção da medida de dor. Muito antes de estar em permanência temporária nesta vila com forma de aldeia, o Alentejo já me dizia algo em sussurros, só de vez em quando, espaçada e lentamente, em histórias de farrapos e piar de fim de tarde, de sol em queda e abraços que se apertam ao ponto da libertação. Em Sines se passou e é por isso que a considero um dos meus locais preferidos do Sul do país. Não vivi lá muito em tempo, mas qualquer coisa de intensidade factual, da refracção das intenções e do que se quer, a inconsequência do futuro, mas com um presente, não só temporal, mas em maneira de pessoa. Sempre me surpreendi com o meu estranho paradoxo: não me apego a qualquer desenho exterior de emoções e necessidade humana, mas no meu âmago, aquela alma que dentro da alma almeja, há uma sensibilidade que voa nas palavras, mas incomoda nas horas que se prende aos pequenos gestos que são agora fumo, às sensações que não se repetem, às pessoas que agora são outras, apesar de um dia terem sido mais tudo do que uma parte. Tenho uma dificuldade considerável em me libertar de quem me prende, principalmente de que é feito das correntes que não largam as cordas da emoção, e Sines representou um pouco isso durante uns tempos. Outros locais tomaram a sua posição, feitos de aço mais denso, mas nunca me esqueci onde tudo começou.




Regressei lá há dois fins de semana. A logística da região leva a que uma ida ao cinema se torne num plano a médio prazo. As salas de exibição têm uma sessão, e com filmes atrasados, e foi com surpresa que descobri haver em Sines uma que iria estrear, a tempo e horas, a sequela de "Guardians of the Galaxy", em várias sessões, durante uma semana. No entanto, fazer 50 km apenas para ver um filme vai totalmente contra a minha natureza somítica, enraízada até à medula dos ossos, e uma rápida pesquisa levou-me a encontrar um evento na cidade precisamente no sábado que pretendia: uma parada de veleiros. Talvez não seja a coisa mais excitante do mundo, mas o certo é que nunca pus os pés num veleiro. Uma pessoa não põe morrer idiota em tudo, certo? Tentei combinar isso com, afinal, a razão pela qual Sines se tornou num local do meu próprio país emocional, mas a P. (chamemos-lhe assim) não podia. Quando Sines se mexe, também ela balança e adiar a nostalgia foi a solução encontrada. No entanto, estava articulada uma tarde que já justificava os quilómetros e adoro fazer a estrada que de Milfontes conduz a Sines pela costa. É um dos meus pequenos prazeres aqui em baixo e um sorvedouro do orçamento mensal que de bom grado me submeto à extravagância. Para além disso, a minha saúde mental pede que, ao fim de semana, saia daqui. Colos não é um Sobral Cid, mas a minha mente tem algo de lobo solitário e não de  eremita pungente. Preciso de respirar e ver outro ar, de me sentir a mexer, de não mirrar e esmifrar. Como um dia ganhei vida em Sines, a mesma vila iria, pelo menos, carregar-me em ombros numa necessidade permanente.


O estacionamento na vila foi mais fácil do que esperava em semana de evento. Ainda procurei pela sala de cinema e esfregando a cabeça, fiz uma sessão de power walking inesperada. O motivo, claro, tem a ver com particularidades da província: o local encontra-se instalado no hall de um prédio de habitação, em que o único sinal que revela a localização está mesmo no interior, um poster colorido que passaria despercebido à pessoa menos informada. É estranho dirigir-me ao Cinema como quem vai ao  cabeleireiro. A mesma pessoa que vende os bilhetes trata da projecção do filme e da condução do espectador ao seu lugar. É como no "Cinema Paraíso", mas a mulher que faz tudo isto apresenta-se mal encarada e duvido sequer que tenha uma bobine de beijos à minha espera quando for mais velho. O filme diverte, o que se pede, numa sala de cento e poucos lugares e que pelos quatro euros e meio do bilhete, é bastante aceitável. Mas o que me agrada mais em SInes, sempre que cá venho, é a sensação de que há uma autarquia que quer, pelo menos, dinamizar a cidade onde interessa: no Centro. Tantas vezes na Coimbra onde cresci existe uma sensação opressiva de abandono na Baixa e na parte histórica, como se o que interessasse fosse abandonar o que é antigo à bicharada (e estes bichos incluem estudantes académicos). Aqui não: aquilo que interessa está concentrado na zona central, desde um centro de artes até agradáveis esplanadas viradas para a Baía, e é possível descer comodamente a pé, sempre com motivos de interesse e uma luz receptiva, até à Marginal. Apenas opto por ir de carro pelo simples motivos de ter mais coisas a fazer.


Na exposição de Veleiros, a maior parte só pode ser visível do exterior. O navio-escola Sagres é uma excepção e a fila para visitar faz-me questionar se, por acaso, não vamos afundar afinal um dos maiores símbolos da Marinha Portuguesa. As camaratas e corredores estão vedados, mas o festival de cordames e velas, os mastros que anunciam viagem e aventura, a seriedade alegre dos marinheiros e oficiais (com a distinta sensação de existir uma zona VIP que ignora por completo o visitante regular...), o sol que joga connosco às sombras tornam o final de tarde muito agradável. Há chico-espertos que pensam perceber tudo sobre o Mar e a navegação (ter de envergonhar um tipo que se armava ao pingarelho por achar que entendia de nós foi um ponto alto - e só atinou quando lhe expliquei que fui vinte anos escuteiro e lhe mostrei aquilo que era óbvio a que percebesse da coisa), há curioso profissionais e de olhar arguto - outros de olhar langão e distraído que vagueiam e vagueiam - famílias com cumplicidade e outras onde as ligações se forçam, crianças vagabundas que se agarram às minhas calças por engano quando se perdem dos pais, selfies e foodies, uma amostra de mar humano no oceano. Admiro e fotografo, mas acima tudo absorvo, observo, estudo, retenho. É do que mais gosto de fazer quando, sozinho, faço dos distantes e transeuntes uma companhia de distracção. A madeira que piso retém passos, mas também guarda gritos, com certeza, e penso em como estes sorrisos e tiradas alegres equilibram a embarcação e levam a bom porto a moral dos tripulantes. Desperta um orgulho ver nos outros a admiração que por vezes perdemos pela magia que se torna quotidiana.


Acabei o dia a ver o pôr do sol na praia do Norte, ventosa e inclemente. No rádio do carro, Jonas acaba de marcar o seu segundo golo pelo Benfica, mas a única papoila saltitante que vejo desce lentamente para saltar à corda com o horizonte. Pescadores aproveitam os últimos instantes de luz, mas sopra uma força que não é fria, mas congela passado algum tempo. Com a máquina, guardo alguns instantes, preciosos, levo comigo um dia de passeio e de alívio, em que a minha mente divagou para onde deve: o presente. Demasiado tempo de futuro só pode levar ao passado e tento evitar como pessoa. Sines, no regresso, é muito diferente de quando a visitei: o castelo mantém-se, o mar também, mas já não me assombra. Os fantasmas estão comigo e o dia não os leva com o seu final. Mas em Sines, evito-me e só isso já a torna num marco geodésico no meu mapa de emoções, daqueles seguros pontos de orientação onde nunca me perco.

segunda-feira, maio 01, 2017

Explicações


A função principal de um professor nem é pegar num programa elaborado por nem sabemos quem (e que tantas vezes está incompleto e desinformado, naquilo que à História diz respeito), nem meter garotos na ordem. Se eu fizesse da minha vida debitar factos e lições a pessoas à minha frente, ficava-me por Coimbra e continuava assim na minha saga de perder amigos a cada revelação de uma trivialidade aborrecida. Numa sala de aula, está sentado um punhado de jovens alienados, que hoje em dia, e cada vez mais, parecem prescindir do bom senso. Vocês notam isso também, principalmente em adultos: a estupidez desloca-se galopante e parece não haver solução para resolver este problema. Podem falar de doenças, fome, do aquecimento global, das claques de futebol, da maneira como as pessoas hoje em dia se tratam umas às outras como rodapés e objectos (e na verdade, esta última parte será intemporal e não me parece que mudará, porque enquanto existirem humanos, a crueldade sentimental ainda que inconsciente, será uma presença... chamem-me pessimista, mas é o que é), mas tudo tem origem na grande semente da estupidez. Dois cientistas norte-americanos publicaram um estudo, na passagem de século, que quase inaugurou uma nova ciência, a "estupidologia", defendendo que não só estamos a ficar mais estúpidos como também tal fenómeno nos impede de ver o quão estúpidos estamos a ficar.

Entre jogos de Baleia Azul (mas que nome idiota para um desafio suicida, hein?) e gente que acha que as vacinas não resultam - ou que são prejudiciais - , passando por um mundo em que narcisistas chegam a presidente, o racismo é aceite como normal e a incompetência um requisito necessário para se ser bem sucedido, principalmente de mão dada com a obediência cega, ser professor, para mim, passa também por aplicar aquilo a que chamo chapadões noticiosos. A miudagem é nova e a inconsciência quase faz parte dos pré-requisitos para se sobreviver ao 3º ciclo, mas não é estúpida. Pode ter a densidade de sofá-cama, mas se puxarem pelas suas cabecinhas, certas coisas percebem-se. Há que confrontá-los com a realidade e não mascará-la e o que vejo em todos estes problemas é que os papás não se dão ao trabalho de parar cinco minutos e explicar o que está certo ou errado. Pelo menos o que é importante. No meu primeiro encontro com os pais, fiquei surpreendido por ninguém ter pestanejado quando se depararam com um semi-homem responsável pelos seus filhos. Sou o professor mais novo da escola e ainda tenho uma diferença de dez anos para o seguinte. No entanto, à medida que ia entregando notas e tentando fazer alguns perceber os motivos das mesmas, deparei-me com dois tipos de educação: o cobertor e a janela aberta. Na educação de cobertor, os papás, tomam conta de tudo na vida dos filhos e querem saber à minúcia a totalidade do que se passa: perguntam não só sobre as nota,s mas sobre as aulas, os métodos, o papel da directora da escola, se eu respeito os penteados das crianças, porque é que a Xana Tok Tok não pode vir das umas aulas de vez em quando, se não tenho um cinto melhor para prender as calças e que ainda posso ficar sem ver televisão uma semana se não me portar bem. Uma das mães, juro, quis saber, passo a passo, o que faço na aula com um dos filhos (tenho ambos os tesouros na minha direcção de turma...) em todos os pormenores, desde a maneira como falo e explico até ao controlo que tenho sobre a sua atenção e trabalho. Para equilibrar a balança, a educação de janela aberta é aquela em que um pai não aparece porque não lhe apetece ou quando aparece, nos diz "Eu nem quero saber das notas" e lemos-lhes nos olhos que a escola é um local para passar o tempo e impedir que os moços e moças chateiam as suas cabecinhas. O professor é uma espécie de polícia e no fundo, se algo acontecer, a culpa é sempre nossa. "Mas porque não lhe deu uma lambada?", ouvi eu numa experiência anterior noutra escola e que posso eu responder a isto sem perder as estribeiras?

Não está nos meus planos ser professor para sempre, mas é também por estas coisas que levo muito a sério o meu papel de abrir mentes. Pelo menos esses. Há certos princípios de que não abdico: o fascismo é mau, não utilizarão palavras racistas na minha sala de aula ou teremos problema, a vacinação é essencial e nem venham cá questionar isso, a vida é um valor universal (duas aulas que dei recentemente sobre o Holocausto foram de tal forma esclarecedoras que no final, alguns alunos estavam com cara de quem me queria vir pedir desculpa pelo evento, e nem tinham estado envolvidos) e apesar de alguns maus da História serem de facto maus, os "bons" não o são tanto quanto isso e aquilo que se varre para debaixo no tapete e não aparece em manuais de História é posto à luz do dia por minha indicação. Para além disso, neste terceiro período, uma turma minha começou a ter aulas de cinema na aula de direcção de turma que têm comigo todas as semanas. Aprenderão conceitos técnicos e narrativos básicos e ainda verão um filme a preto e branco (a saber, "Casablanca"). Eu recuso-me a acreditar que é impossível parar a vaga de estupidez que varre o mundo de uma ponta à outra, que jovens não entendem certas noções da vida quando lhes são explicadas, que é normal amar a mediocridade e conformarmo-nos com isso. Penso em mim mesmo, em como fui incapaz de melhorar-me durante anos, caindo em padrões que me magoaram, repetindo e mantendo pessoas que por muito bem que saibam e que aqueçam e que brilhem, são apenas dor e entulho nos meus dias e se não me consigo aperfeiçoar ao ritmo que quero, ao menos que possa intervir em vidas alheias e deixá-las, pelo menos, um bocadinho mais conhecedoras. Não quero que a estupidez vença, nem a de pais e muito menos a de filhos que aqui em baixo, mais a sul do que qualquer norte nacional, se parece saber tão pouco acerca de certas coisas boas da vida.

Na semana passada, numa aula, mostrei-lhes o duelo a três do filme "The good, the bad and the ugly", logo depois a explicar-lhes o brilhantismo do famoso corte de edição do osso do filme "2001". A aula tinha acabado e ninguém reparou (e estes miúdos estão sempre a olhar para o relógio). Estavam presos a um filme de 1966, um western sem particular acção ou frenesim, queriam saber o que se ia passar. Vi-me obrigado a quebrar o encanto e fazê-los sair da sala. Na verdade, a estupidez só prolifera e se espalha porque não a paramos. As pessoas querem saber e conhecer, mas se não forem orientadas e aconselhadas, é normal que acabem nos locais errados. No meu pequeno quintal de 60 alunos, uma parcela minúscula na imensidão do mudo, isso não acontecerá. Porque não deixo, porque não quero; e quando uma pessoa não se controla a si mesmo, que pelo menos controle os outros. É um dos poucos benefícios de sermos imperfeitos por natureza.



segunda-feira, abril 24, 2017

A vida normal


Quando cheguei a casa na última terça-feira, aí pelas oito da noite, limitei-me a arrastar malas e sacos e tralhas, basicamente, mais leves do que as que habitualmente recheiam o meu sótão em forma de cabeça. A viagem de carro durara três horas e pela proporção de insectos esmagados no meu pára-choques, a velocidade média fora a suficiente para abrir o contínuo espaço-tempo entre Grândola e Alcácer do Sal. A lentidão estava guardada a memória das férias, escoando como uma ampulheta de pedras de xisto: a parte das férias nem é a pior de deixar para trás, trabalho é cíclico e regressa, de certa forma até aceito-o como quem está manco e pede uma embalagem de Voltaren só para aliviar e sim, sei que revela muito do estado mental de alguém quando o trabalho ocupa um lugar na vida correspondente aos analgésicos, mas a verdade é que aqui por baixo, no debate dos dilemas que trago num saco pelos ombros, daqueles que fazem inveja ao Pai Natal, ocupar a cabeça tornar-se primordial. Nessa noite, aqueci jardineira no micro-ondas e enquanto comia ao sofá (sim, mesas são para quem tem classe e já sabemos que o meu reservatório disso acabou algures quando Donald Trump era apenas uma anedota em vez de pesadelo), caí num marasmo cerebal apenas comparável a cair de bicicleta, dar com as trombas num pinheiro e ficar meio azamboado durante uns momentos, suficientes para julgar que estou no Sri Lanka discutindo termo-dinâmica com Sandokan e Margaret Thatcher. É igualmente deprimente. O mal-estar cai como um metrónomo e no meio de tudo isto, perco a fé em todas as minhas capacidades e julgo que na primeira aula do dia seguinte, me dará uma branca tal que os alunos darão eles próprios a aula, só para humilhar. O susto agitou-me da nuca ao tornozelo e dei a mim próprio um trabalho de casa - resmunguei e maldisse-me, claro, os trabalhos de casa são chagas pútridas que os professores entregam aos seus discentes porque os odeiam, odeiam, odeiam - que não se podia contornar: descobrir a pequena beleza na minha rotina. Cheguei aqui há mês e meio e se não consigo fazer isso, é melhor que me encomende à imaturidade com faixas de campeão crónico levado ao colinho. Ou de Colos, pelo menos.

Mas então, que dias são estes que tomo como meus e ofereço aqui aos outros por escrito? Por norma, acordo às 7.40 ao som do tema de John Reese (não sabem quem é, googlem e envergonhem-se de nunca ter visto a série), que injecta adrenalina nas minhas veias e me convence que consigo dobrar aquele aluno que não sabia até ontem quem era D. Afonso Henriques, mas sairá da minha aula capaz de explicar, em detalhe, o que é o mercantilismo. Tomo o pequeno-almoço enquanto escuto música - recentemente, Caravan Palace e não, não tenho vizinhos do lado, nem por cima, nem por baixo, nem emparedados - e depois de levar aos meus den tes a dose de frescura necessária para não me entaramelar com bafo de sacristia, pego na sacola, tranco a porta e de phones nos ouvidos, percorro o caminho para a escola passo a passo, cinco minutos em que não quero saber de ninguém. O momento é meu e às 8.15 da manhã, Colos é ainda mais um deserto, uma estrada nacional que rasga por entre as casas, brancas e mortiças, dormentes,, ainda mal se apercebendo que lá mora alguém. Contorno o campo de jogos e desço pela ladeia que conduz à entrada da escola. Nalguns dias atravesso o magote de alunos que chega de camioneta, noutros não. Quase sempre encontro as mesmas caras na sala de professores e nos corredores da escola o impossível é não me cruzar com algum aluno meu - ensino seis turmas, todas elas de irrequietos imberbes que vão despertando para as reais coisas da vida, namoros e amizades, alguma palhaçada, perguntas ao professor e comentários, "o professor tem Instagram?", "Professor, não se sente doente, não quer ir para casa?", "Oh professor, como se chamava aquela banda que nos mostrou no outro dia na aula?", e dizem mais coisas sem que eu ouça, de certeza, que nas aulas há espaço para rabecadas e entradas a pés juntos, mas no geral transmito conhecimento (ou tento) a miudagem que não se expande para lá dos limites do aceitável e até ri de histórias e piadas, as palavras assentam-lhes na cabeça como post-its de conhecimento e mais tarde repetem verbatim em testes e começo a questionar tudo, se tenho uma voz radiofónica ou simplesmente os esquemas que lhes dou são banais e fumo que se esbate na memória.


Ser professor não é um sonho meu e ainda que trabalhe muito em piloto automático (o meu modus operandi desde que sou aluno, cortesia de um cérebro ágil para as coisas supérfluas e perro para as que mais interessam), sei que não sou mau, pelo menos, que em alturas fascino a audiência, presa pelo encantamento de uma narrativa, que gera perguntas e dedos no ar que não têm a ver com a matéria, mas a vida não é um conteúdo programático, é mais do que isso, é a curiosidade selvagem e a transmissão de valores: eu ensino, mas tento separar o errado do certo - não como professor, mas como alguém que vê o mundo como a acção do amanhã que foi futuro ontem. Fascismo é algo errado e mau; o colonialismo foi prejudicial, mas o tempo não volta atrás e cada um se torna responsável pelas suas falhas, a Ciência é um auxílio e não uma crença; a História não é a preto e branco, mas certos conceitos são-no de imediato. Estive fora da docência durante seis anos e por isso vou atirando aqui e ali, pedindo ajuda, encontrando-a nos meus colegas que felizmente têm pouco de filhos da mãe e sabem que quanto menos asneiras der, menos lhes sobra. Se isto não é espírito comunitário.

Saio da escola e regresso a pé para casa. Saio sempre a meio da tarde e tenho demasiado tempo livre. Ponho-me a par do mundo, leio, escrevo, percorro os meus canais de vídeo habituais. As pessoas ajudam sempre ao engano de que, em quatro paredes sou só um e por vezes o engano leva-me tão longe quanto o esgar de um sorriso. Banho tomado, jantar feito e comido e a noite é preenchida por filmes, séries e uma pequena revisão da aula do dia seguinte. Ciclo que se repete e quando a semana termina, o fim de semana é de pegar no carro e ter liberdade condicional, sendo que à condição pego na máquina e vou descobrir os limites da prisão, em passeio. É assim. Por vezes, permito-me a algo de diferente. Neste sábado, fui até ao café local ver o derby de Lisboa. Uma sala cheia de benfiquistas, mais velhos do que novos, e vejo, pela primeira vez, gente que tem mais de 18 e menos de 35 por estas dunas. Ederson enterra num lance, penalty para o Sporting. Ninguém reclama, apenas com um pobre brasileiro que se estivesse por cá, sambava no desespero de ver garrafas a voar na sua direcção. O jogo passa, o Benfica controla, o golo não aparece. No intervalo, reparo que o estabelecimento é um altar benfiquista com cachecóis, cartazes e posters, e a sala vai resmungando. Na segunda parte, no entanto, um deus nórdico Lindo em on e em Of, envia, à cobrança, um livre directo para a caixa postal de Rui Patrício e o grito colectivo de golo escuta-se por toda a planície e creio ter feito cair duas tíbias na Capela dos Ossos. Salto com quem lá está dentro, chamamos nomes a toda a gente e segundos depois, caindo em mim, lembro-me de que me esqueci que não estava em casa ou no que é familiar, que vibrei e senti uma alegria arrasadora num local que só me tem trazido a corda bamba do humor, que nalguns dias me levo com suavidade e noutros me arrasto de tal forma que só Einaudi e algum totens pessoais me salvam. Aquele grito de "Golo!" foi do Benfica, sim, mas também o encarnado do meu sangue a rugir e rebentar, a encher-me de uma certa certeza de certeira possibilidade de conseguir ser eu mesmo quando o local tem o menos possível de mim. De que posso ser em muitos lados.

Nessa noite, quando cheguei a casa, dormi, pela primeira vez desde que cheguei sem acordar às cinco e meia da manhã - não justifico esta hora, não consigo -  e não sei se foi do festejo, da água a 55 cêntimos ou da luz trémula amarelenta na rua da noite anterior, registei no meu bloco de notas os pequenos prazeres do meu eremitério: à cabeça, a redescoberta do que não sou, mas que existe bem em mim; e não precisei da ajuda do Sandokan.

terça-feira, abril 18, 2017

Pausa lectiva


Posso viver num lugar e mesmo assim voltar a casa noutro. O sentimento manteve-me acordado durante estes dias em que, por virtudes das férias da Páscoa da garotada, voltei a Ceira para uns dias que, à falta de uma definição melhor, foram um pouco como quem calça sapatilhas depois de ter feito o caminho de Santiago em chinelos de lona: é possível e uma aventura interessante, no entanto não será a mais desejável das formas de empreender uma longa caminhada. O Alentejo, esse misto de ganha-pão e pão nosso de cada dia, é-me estranho e acho que sempre será. Podem tirar-me do que sempre foi meu, mas a pertença não morre e não foge. O lá em baixo é apenas um estado passageiro e gasoso, pois é como de um vapor que me vejo nas longas horas só numa casa vazia, onde me entretenho a criar condições mínimas para alguma sanidade. Este quarto onde escrevo é onde sou mais eu, para infelicidade da Humanidade, e amanhã, quando as voltas do volante me fizerem regressar ao teatro de operações, a maneira cirúrgica de me remover do que me preenche, estarei de novo na terra quente, na planície que não termina, nos papéis e manuais e apresentações em computador, cálculos de como entreter gandins. As férias, mesmo quando aluno, sempre me pareceram um faz de conta, um pouco como quando Alice se esgueira por um buraco e dá por si do outro lado da realidade. Colos é a  realidade, Ceira a ilusão e estranho como há menos de um ano, lá longe da Ásia Central, esta vila onde cresci era a dureza do mundo e agora me soa a um colchão de penas. Platão tinha razão: a realidade é uma percepção, tantas vezes falhada, nunca fora da influência de drogas várias.

Vale-me redescobrir Coimbra mais a sério, o valor do Choupal e de uma caminhada ao sol, por entre o malhadiço da folhagem num dia de Verão entre insectos irritantes e folhas que tombam, pétalas que preenchem o chão debaixo dos meus pés, enquanto escuto entrevistas em rádio acerca de temas cujo bom senso me impede de mencioná-los em abordagens a quem não me conhece, sob pena de aparecer como uma curvatura distorcida da realidade. Pegar no carro e percorrer locais mais santos do que Jerusalém, entre a serra da Lousã e uns penedos em Góis que me viram os pulmões do avesso e do avesso me iluminam o interior. Reencontro amigos e há abraços, conversas de situação e sobre situações, combinar cenas e takes, rir à volta de uma mesa de café, saber o que é companhia e calor humano, a vontade que outros têm de disfrutar da companhia de alguém que tem as paredes de casa por companhia e a uma opinião de si mesmo ao nível das galerias mais baixas das minhas de S. Domingos. Sentir-me no meu quarto, sentar-me na minha cama, sem ter-me por adquirido, coisas banais e pequenas, quotidianas, ver filmes antigos com amigos, rir deles, comentar e achar que é tudo bom, tudo normal, que quando amanhã, por esta hora, já estiver a dormir, será numa casa onde só me tenho por companhia e numa tarefa de redescobrir o equilíbrio do exército funâmbulo de um só homem. As férias da Páscoa são um exercício de alta finança, uma reavaliação da minha bolsa de valores, a ideia de que todos os grandes planos e desejos e ansiedades são um engodo e que nos anões da minúcia diária existe algo de mágico lá dentro, intrínseco e tão complicado de descodificar como um cubo de Rubik, mas simples de gozar, de apreciar, de se tornar importante.

Levo para baixo tudo isso, um bocadinho mais seguro e protegido, como se o que é familiar e quem nos vêm como um bocadinho de família e de mobília nos fizesse sentar na mais segura das cadeiras.Vai também comigo uma semente de novidade, o inesperado em tons de amarelo, a possibilidade de novos capítulos, um pouco mais de coragem para encaixar o desconhecido e desembrulhá-lo, ou até debulhá-lo, à boa maneira do campo. No meio, tento não perder-me de mim próprio, mas perder o que a mim próprio me tenta, Não é tarefa fácil, mas grandes obras humanas vieram de períodos de exílio. De uma certa maneira, o Alentejo acentua o que há em mim de megalómano. A sorte de todos é que, apesar da queda de cabelo, ainda não uso uma peruca dourada. Mas há raposas nos campos do Alentejo. Não tarda, coloco uma em cima da minha cabeça.

segunda-feira, abril 10, 2017

O eterno porquê dos meus sentidos e sentimentos


Onze dias em Coimbra para descansar a cabecinha, respirar um pouco de outros ares, recordar um sítio mais que não seja o deserto. Esta semana não se fala sobre o Alentejo ou sobre a minha vida nova, nem acerca do pitoresco e do engraçado, do curioso e das miscelâneas a Sul que tornaram alguns dos meus dias na habitação de um mundo novo e diferente. O que lerão falará de demónios antigos, do maior deles aliás, de um monstro que domina a minha existência há muitos anos, um ponto fraco que é o mais forte, a verdadeira razão pela qual escrevo este blogue há doze anos e nunca deixei de ter assunto, palavras, frases e gramáticas, caligrafias emocionais de exclamação e interrogação, uma cornucópia invertida de tema que se dilui nuns pontos, se reforça noutros e aparece encapotado nos restantes, estando sempre no centro de tudo o que escrevo, crio e penso: o amor. Também lhe chamo a doença psiquiátrica não diagnosticada, ou o camelo do deserto que te leva a um oásis de areia ou também a ladeira de empedrado à qual chegaste com um arado de madeira, ou uma insónia permanente que me rouba anos de vida em segundos de desespero. É pouco simpático, bem sei, retribui-se aquilo que se recebe.

Torna-se complicado escrever sobre isto sem soar repetitivo. Leitores mais recentes não terão essa sensação, habituados a crónicas de viagem e de emigração, de um olhar sobre o exterior, mas é do interior que os mais fiéis e duradouros frequentadores da ilha deste gajo complexo se recordam e até se fartaram. O que é normal, concedo: eu tenho um hábito, péssimo como muitos, de me queixar e queixar e queixar sobre os meus problemas pessoais, ao ponto de fazer com que o Calimero pareça o Clint Eastwood. É legítima a queixa, mas quem gosta das divagações curiosas deve perceber que sem esta eterna interrogação da minha vida, nada mais existiria. O que escrevo sempre foi a tentativa de responder ao que me atormenta e a minha máxima dor reside não no lado esquerdo do peito (amigos, o coração bombeia sangue, não amor) mas aquela área atrás do estômago e abaixo do cérebro que rebola quando a paixão é alimento. Sou um corpo de 34 anos com muito pouco de adulto no espírito, mais preocupado com a ausência de uma outra pessoa do que com o desemprego longo ou ainda morar com a minha mãe. Sim, esse tipo de indivíduo que parece recusar-se a crescer e transportar durante toda uma vida uma adolescência perpétua. Poderia justificar-me (porque existem justificações, quer percebam ou não), mas nem tento fazê-lo. Sou assim e tento aceitar, se é que isto se torna aceitável com o tempo - que não torna, continuo a sentir-me tão infantil que ainda me olho como incapaz de ser responsável o suficiente para fazer vida comigo, quanto mais com outro alguém - mas acima de tudo compreender a razão e o motivo, se está em mim (que está, só pode) e qual é.

A bem dizer, teoria não faltam. Decerto alguns se reconhecerão como interlocutores neste longo diálogo que mantenho com outros acerca deste assunto. Uns até mais, porque têm sido permanentes ao longo dos anos na pergunta que não quer calar e na resposta que muda e é muda. A minha própria reflexão já passou por várias fases: primeiro quis acreditar que simplesmente não merecia; depois, a tese central defendeu que sou, na verdade, um misto de vómito e caganeira. Quando, algures no meu caminho, algumas coisas começaram a acontecer, claramente essa justificação se esvaziou como um balão colorido a quem desatam o cordel no final da festa e vi-me perdido, pois assentara toda a minha personalidade na verdade insofismável de que era o condensador de estrume de toda a Terra. O passo lógico seguinte era, claro, a ideia de quem ninguém me compreende, de que sou um ser único e especial e fantástico, difícil de contentar, a total inversão dos valores anteriores. A seguir, disse a mim mesmo que não conseguia amar, que era um bloco de basalto arrefecido pelas águas do tempo e pelo sal do pessimismo, um sódio que corrói agreste, mas surgiu, totalmente fora de rota, um asteróide chamado D. para desmentir isso e novamente fiquei baralhado: como é que alguém deixava, sem medo, que me encolhesse na palma da sua mão e assim me tornasse maior do que alguma vez me senti? Como é que uma criatura de aparente amor infindável me aceitava e desejava e puxava para a sua vida com a força de quem morde a terra quando não estamos presentes? Fiquei baralhado, sim, por ela, por ser feliz com ela e por ser feliz de todo. Quando a aventura chegou ao fim, reforcei tudo o que de pior pensava e tal durou apenas o tempo de outro mundo se abater sobre mim e questionar praticamente todas as teorias que defendi a mim e a outros ao longo dos anos, desde a adolescência, desde que a minha personalidade é um cimento por dentro. Também essa aventura acabou e depois de um ou outro desvio mais importante ou não, alguns negros e outros cinzentos e um bem violeta, continuei a perguntar: porquê? E porque é que todas as alegrias da minha vida, porque é que um novo emprego, porque é que regressar a casa de férias, porque é que a oferta da amizade sincera em risos e gestos e convites, porque é que graça de outras pessoas, não me coloca na cara um sorriso, não é uma felicidade tal que me faça esquecer o resto?

Sim, é possível que haja em mim um crónico insatisfeito. Ser infeliz não é, para mim, um gosto ou um objectivo, mas quando me sento e penso, não ter essa pessoa especial para partilhar a vida e as minhas coisas, alguém com quem construir outro mundo, que me tire de uma solidão que ergui quase à medida e com quem aprenda a ser mais do que sou, é demolidor. Opiniões alheias já avançaram que o meu problema é centrar-me demasiado nisto, e é verdade, que devia relaxar, o que não é falso, que acabará por aparecer e neste ponto duvido sempre, lanço uma frase derrotista que quase acaba a conversa, sou contraposto com uma máxima que quer resumir todo o esforço e luta da vida a um conjunto de palavras, um conselho que procure outro tipo de ajuda mais clínica (o que já fiz), que ninguém deve viver sem ter os lábios como uma persiana aberta para o sol e têm razão, ninguém merece, mas eu vivo para perceber a causa das coisas e não só a raiz dos problemas como também o caule, as folhas e os frutos; a falta de confiança não tem charme e o aspecto descuidado não ajuda, também já as ouvi, e devias "dar mais para trás, porque elas gostam de luta", o que me parece logo um motivo para nem me interessar por alguém assim, porque para jogos já basta o Benfica. Tudo é sempre uma lotaria, é o que sinto, que há ondas de sorte e de azar, que o imprevisto reina e nós apenas balizamos o seu efeito, mas ainda nem entendi o meu. Nem o que posso fazer, nem como ser menos um ser deformado aos trambolhões na vida, muito menos impedir-me de tornar numa espécie de estrela morta que se contrai ao ponto de implodir e consigo arrastar toda a luz.

E não é a última vez que me debruçarei nesta varanda, decerto. Gostava de poder descansar-vos e dizer que sim, que não mais vos perturbarei com estas preocupações pueris, mas sei que quando desligar este computador e a minha cabeça pousar sobre a almofada, uns minutos serão gastos a questionar: Bruno, porque é que estás só? Ou melhor, porque é estás só dessa maneira? A resposta não surgirá racional, mas sim na forma de uma gigantesca agressão mental que me tira um pouco do sabor de tudo o resto. É um problema sério, tratado com seriedade, mas do qual me rio de vez em quando e o qual transformo em livros séries, e em doze anos de um blog, e vejam bem como não consegui responder-lhe. Da próxima vez que me perguntarem porque é que não durmo bem e eu der como resposta "Insónias", saibam que o problema não é falta de sono: é excesso de batida, e quem passa a semana da Queima das Fitas perto do recinto sabe bem que com excesso de batida não há sono que resista: olhos bem abertos, o mundo abre e fecha e no dia seguinte, a angústia continua. Talvez esta última comparação seja demasiado dramática, mas lembrem-se que não estão a ler "A Pipoca Mais Doce".

segunda-feira, abril 03, 2017

Fixar-me


Viver no nenhures do Alentejo exige uma certa disciplina de espírito: estar solitário é um dado adquirido e nos tempos livres, torna-se essencial dominar duas artes quase milenares: a vivência connosco mesmos e saber preencher o tempo de forma a não criar raízes no tédio. Ao longo da minha vida, sou mais artista de uma do que de outra, mas nunca mestre absoluto em qualquer uma delas. Sabermos estar com a nossa companhia é um exercício complicado quando o “eu” tem a inquietude mental de um esquilo rodeado de avelãs e, como é meu apanágio, um dom fulminante de dar ao chicote sobre o meu próprio lombo mental. Ao contrário de certos mitos que se espalharam entres os meus conhecimentos, a minha convivência comigo,nunca pacífica, pauta-se por um respeito pessoal e uma incapacidade de me aborrecer quando estou sozinho. As minhas ideias são por norma tão idiotas e descabidas que passo metade do tempo a matutar sobre elas e a outra metade interrogando-me sobre onde a sua origem. Assim se passam horas que de engraçado têm pouco, mas de fascinante são camiões TIR em tamanho. A guerra que ocorre de mim para comigo nunca me impede de reconhecer que o meu cérebro é das melhores coisinhas que tenho e colocá-lo a trabalhar é ao mesmo tempo perigoso e de enorme gulodice. Sobrou-me assim cá em baixo arranjar um hobbie para me entreter. A escrita estava fora de questão, pois é demasiado importante e medular, demasiado essencial e sanguínea para encará-la de ânimo tão leve. Ainda assim, surgiu há uns anos na minha vida algo que se desenvolveu e entranhou e tem funcionado melhor do que qualquer meditação transcendente ou yoga.


Ora, não me recordo quando comecei a levar a Fotografia mais a sério. Terá sido antes de adquirir a minha actual máquina, uma Nikon D3200 que embora modesta nas suas ambições, já permite umas brincadeiras. O prazer que retiro na construção de uma imagem podia perfeitamente ser imputado à minha paixão pela 7ª Arte, mas reconheço lá na profundidade dos motivos, quase numa vergonha pública, que o principal motivo se deve ao facto de ter como mãos um par de tamancos de madeira e não poder, assim, desenhar ou fazer qualquer coisa de criativo com as mãos. Como tal, virei-me para a outra forma que conhecia de criar desenhos, mas da vida real. De pequenas máquinas digitais passou-se a algo mais sério, tentando convencer-me de que sabia fazer alguma coisa com aquilo e a pouco e pouco, sem estudar técnica fotográfica ou regras de composição, fotografar passou a ser algo tão natural e presente que o meu estojo fotográfico vai sempre comigo em viagem, não vá eu cruzar-me com um daqueles cenários únicos e fascinantes que ficam bem imóveis num formato digital para dezenas de likes no Facebook. É certo que elogios nas redes sociais também contribuem para que me convença a continuar, mas acima de tudo há dois motivos pelos quais fotografar se tornou numa recorrência regular.


O primeiro é a abstracção que me causa quando me encontro apenas eu com a paisagem. Invariavelmente é a paisagens que me dedico: a minha falta de jeito para lidar com pessoas transferiu-se também para a sua captura no jogo de espelhos da máquina. É aí que a luz penettra e fixa as imagens e está visto que eu de luz tenho pouco, sou mais negrume e breu e na verdade a minha fé nas pessoas tem diminuído recentemente, o que também não ajuda. No entanto, e como na vida, quero muito acreditar que consigo também apanhar a essência de alguém numa imagem e não desisto.  Olhar o mundo como ele é, no entanto, é o meu ponto forte: o enquadramento, a composição, jogar à apanhada com a luz apenas para vê-la esvair-se por entre as minhas mãos transforma o simples acto de ver a paisagem por um quadradinho pequenino e tolo numa meditação sobre a vida e num ponto de fuga a mim mesmo. Calculo números, testo luminosidade e sombra , em pé ou de joelho à profissional, agora a verticalidade e depois a horizontalidade, tudo isto que se segue à atenção que os meus olhos dedicam a um pequeno instante do mundo que passou e fica firme, esperando que na minha paciência me dedique a jogar xadrez com o mundo. Toda a vida me programei para uma relação visual com montanhas e altitude e tal é algo de pouco abundante na paisagem alentejana. Sair em safari fotográfico aqui pelo sul é desprogramar-me e aprender a gozar a planície, apreciar uma luz diferentes e a redescoberta do gozo que a profundidade pode trazer a uma fotografia. Vai-se do mar ao campo e há razões em todo o lado para dar dedo, pede-se apenas atenção e uma oportunidade de experienciar novos cenários e belezas. Não é fácil, mas se me quero distrair aqui por baixo, insisto e já levo que mostrar.



O segundo é o meu apego ao espaços abertos e livres, ao convite da estrada à frente de um volante, à acção de duas pernas que abrem a boca para engolir a terra. A máquina fotográfica é a maneira de contar a história sem impedimento de gramáticas e pontuações e embora seja mais fácil trazer o fascínio em frases encadeadas ao ritmo de quilómetros, uma imagem vale não só mais do que mil palavras, mas também cem espantos. Soltar um suspiro fotográfico é devolver ao mundo um obrigado egoísta e se fotografar é, acima de tudo, negociar com a luz, lidar com ela, domá-la para que nos oferte a imagem que queremos, é acima de tudo uma homenagem ao mundo, a vénia de reconhecimento que algo é tão esplendoroso e dominador, tão rei de nós e tudo o mais que queremos levá-lo connosco sem poder. Nas paisagens do Alentejo, perco a minha mente e vou aprendendo a construir uma ligação a este novo canto do país onde sou, e serei sempre, um estrangeiro. Sento-me às vezes no Nada dos chaparros e dos montados, escutando os pássaros e o silêncio, olhando sem obstáculos uma distância sem fim, sentindo-me regurgitado por um ambiente que não é meu, mas que pedi emprestado. Quando o fotografo, roubo-o. Sempre gostei de me sentir transgressor e em calhando, é com a máquina que, feito rebelde, irei desaparecendo no calor das cores do Alentejo, na clareza do céu, nas filas de sobreiros que tombam e murcham na sua copa, em protesto contra o esquecimento que a esta zona foi votada. O meu único trabalho e ajuda é guardá-los numa câmara escura, para que todos saibam que existem e que também eu vou vivendo, ocasionalmente, abaixo da linha do Tejo.

segunda-feira, março 27, 2017

O Alentejo que vos deixo 1


Cinco dos quinze maiores concelhos de Portugal, em área, situam-se no distrito de Beja, e um deles é o meu adoptivo, Odemira. Como devem calcular, nenhum deles está sequer perto do mesmo top em população. Nem se dobrarem ou sequer triplicarem e podem avançar até aos quintuplos que precisam de chegar à posição oitenta para encontrar Beja como o mais populoso. Odemira ainda aparece nos 100 primeiros, mas com um rácio de 15 habitantes por quilómetro quadrado. Só surpreende quem passa cá o Verão. Viver nesta região do Alentejo é ter por companhia a própria solidão e encolher os ombros. Ou se tem um mundo interior ou então é o apocalipse: se gostar de correria e animação, apareça por cá nos fins de semana de festa. Caso contrário, aprenda a gostar de ler e do silêncio. Em alternativa, o meu conselho é que aprenda a gostar de fotografia, arranje um carrinho poupado e parta em busca de recantos alentejanos. Para um beirão como eu, para quem a montanha é um património dado e um recreio, o Alentejo pode oferecer dificuldades no que toca ao lazer predilecto. No entanto, não só porque sou amigo mas também porque vos quero ver cá por baixo (para me continuarem a dizer "Bruno, estás em Odemira, essa zona é tão fixe, vais todos os dias à praia" quando, na verdade, estou a 35 km da costa mais próxima e o calor está com aspecto de só vir lá pela altura em que José Sócrates recuperar a sua alma, negociada com o Diabo por intermédio de Jorge Mendes) deixo aqui algumas pequenas anotações turísticas sobre os passeios que já fiz aqui na zona. Antes de mais, um conselho: não se aleijem a sério - fracturas exigem raio X e de Colos à máquina mais próxima vão 100 km. Não se andam uma semana com um mindinho inchado depois de um espalho em calhaus só porque se quer a fama de duro.


Colos - Também conhecida como a Veneza do Alentejo (só por mim e quando uso um tom tão sarcástico até o ar fica ácido), é a terra preferida de monges tibetanos, São Bento de Múrcia e daquelas pessoas que não estão mesmo para aturar outras pessoas. Prolonga-se ao longo de uma faixa de estrada, tem uma escola e uma igreja com o mais aborrecido e irritante sacristão da raia alentejana, que faz suspirar pelo regresso das rotas de contrabando, mas para vê-lo daqui para fora. O destaque vai todinho para a mercearia Paga Pouco, talvez o estabelecimento com mais classe da vila e porventura a única coisa que faz com que Colos mereça o título de vila mesmo. Outra coisa positiva é a presença de 100% de benfiquistas nas transmissões de futebol dentro do café "O piriquito" (assim mesmo). Ainda dizem que só o ar da montanha é puro e limpo.


Ourique - Também conhecido como "Aquela terra onde há o Pingo Doce". 50 km ida e volta, levop eu lista de compras para me aviar um mês inteiro, que a gasolina está cara. Um belo miradouro encima esta sede de conselho, inspiração árabe e RDP.  No topo de uma antena, existe um terraço para estender a roupa, mas nem se estende, é mesmo o patamar superior do miradouro. Uma estátua de D. Afonso Henriques marca o orgulho do local e abstenho-me de explicar a qualquer nativo que a batalha de Ourique nunca se podia ter realizado ali... Ou então não foi uma batalha. Os restaurantes são calmos e pacíficos, mas também o são as suas cozinhas e se esperarem 45 minutos para manjar, não se admirem. Interiorizem que é o "Alentejo way of life" enquanto disfarçam a fome e se imaginam numa aula de zen New Age. Ourique é a coisa que encontrarão por aqui mais parecia com o labirinto do Minotauro, com ruas de sentido único que vos obrigam a conhecer a vila e culminam, inevitavelmente na Avenida as Laranjeiras, onde podem provar citrinos que foram aprovados pela própria GALP. Ourique denomina-se a terra do porco preto. Preto ou sujo: perguntem a um turista inglês que, estando à beira da estrada fotografando estes suínos pastando, comentava com a melhor: "These animals are muddy, they really like to bathe in mud".


Mértola - Também conhecida como "Aquela foto do Guadiana e do Castelo". Mértola tem a menor densidade populacional de Beja, que é um bocado como dizer que a Khloe é a Kardashian com menos plásticas. No entanto, compensa-o com um excelente aproveitamento do património arquitectónico que lhe calhou em sorte: a zona histórica é agradável, com uma vista excelente sobre o rio e vestígios romanos e árabes em redor de um castelo dos tempos da Reconquista que observa a paisagem. Podem atravessar o rio de barco e pagar, se desconhecerem por completo o conceito de pontes. existe um núcleo sportinguista cujo tamanho da sede o torna no segundo concelho com mais densidade populacional do distrito de Beja. O castelo é ideal para tirar fotos ou escutar idiotas que têm a mania de que são arqueólogos amadores e tentam impressionar os amigos confundindo o poço de água que abastecia o castelo com masmorrras onde "eh pá, os gajos queimavam-nos com azeite a arder e depois cortavam-lhes as pernas e os braços, era tudo aqui". Quando se fartarem destes energúmenos, têm duas hipóteses: ou escavam em direcção às Minas de S. Domingos ou dão um salto ao Pulo do Lobo. As Minas guardei para outras calendas (talvez quando lá passar com hobbits), mas a lupina referência é um interessantíssimo fenómeno geológico que, entre outros, impressionou José Saramago; no entanto, este também se impressionou por Pilar, logo... que sabe ele da vida? Confiem mais em mim: a cascata ruge e perde-se na rocha negra, revolve-se em ondas como se fosse um mar que brota da terra violento e agreste, impetuoso e em bofetadas e quando dão por vocês a tirar fotos fascinados caem e esbardalham-se todos nos calhaus à margem e se calhar até partiram um dedo, mas nem interessa. Ponto alto: as rectas de Mértola oferecem excelentes fotos de ocasos solares que vos darão a fama de saber fotografar.

Folheto 2 chegará brevemente...

segunda-feira, março 20, 2017

O decente docente


Às vezes temos jeito para umas coisas que não gostamos muito de fazer e é essa a minha relação com a carreira de professor. Soa gabarolas, mas não é: das poucas coisas que consigo gabar em mim sem ter um ataque de eczema agudo é a minha capacidade de entreter um auditório com três ou quatro histórias. Ser professor é muito isto e se pensarmos que é mais e mais é porque vimos demasiados filmes e séries. Sim, podemos inspirar os alunos e preocuparmo-nos e conduzi-los e essas coisas, mas o importante mesmo é dispô-los na sala de aula e convencê-los de que na próxima hora e meia ouvirão informações não apenas incríveis, mas indispensáveis em absoluto para o seu bem-estar e saúde. No fundo, ensinar é uma long con em que ninguém fica prejudicado: o aluno aprende até mesmo o que não quer e dá por si curioso em relação ao mundo e a assuntos em que nunca pensara; o professor engana-se e acha que é muito mais importante no grande esquema das coisas do que realmente é. A docência é o seu super poder, a sala de aula o trono, aqueles jovens súbditos e enquanto se discerne acerca da matéria ou manda aquela piada que acende a sala em júbilo. é grande por uns momentos. Finda a hora e meia, volta a ser uma roda de engrenagem e regressa ao mundo real.

A escola onde me encontro a trabalhar anuncia-se como agrupamento vertical, uma designação do Ministério da Educação que evoca sempre em mim jogos de Tetris. Existe numa vila com menos de 2000 habitantes e deve a sua existência à inclemência do deserto populacional alentejano: tudo é afastado de tudo e certas referências devem permanecer para servir as populações; é assim que existem seis turmas de 3º ciclo e eu sou o único docente de História da escola. Torna-se complicado passar despercebido por aqui, pois em todo o lado há um aluno, em cada canto um chico esperto que quer dizer bom dia ao professor e sair com vida. Quando aqui cheguei, faz hoje um mês, pouco faltou para me estenderem uma carpete vermelha e lançarem balões jubilantes. Colos estivera sem professor de História durante dois meses e meio e ali aparecia eu, o Desejado. Não me recordava da última vez em que estive nessa posição e por momentos apreciei a sensação; foram segundos de luz que se apagaram quando me recordei de que estive seis anos sem leccionar. Depois chorei por dentro, mas ninguém reparou. Ainda sou "o professor de História", porque antes, cinco mânfios recusaram e este cargo foi um "passa a morte" que chegou até mim. O desprezo de outros torna-me especial e isso é também uma inversão da ordem das coisas.

Esta sensação de que a escola de Colos é uma dimensão à parte de todas influencia o comportamento de todo o pessoal docente: rapidamente orientaram o caçula e fizeram essa coisa linda e que fica sempre bem em avaliações que é "Integrar". Na verdade, sente-se um espírito relaxado na escola. Não de incúria, mas de calma mesmo e a noção de que o nosso trabalho decorre e ninguém morre se houver um ou outro atraso. É preciso cumprir os horários semanais, estar nas reuniões e dar as aulas. Ajuda se, pelo meio, expandirmos os pequenos mundos que estas crianças receberam de herança ao nascerem no interior do concelho de Odemira. Não é obrigação, mas apela a um sentido de caridade e empatia inato, que rasa um pouco aquela sobranceria de gente branca que vai passar um mês num projecto de voluntariado e acha que não só mudou o mundo como sabe o segredo da vida. No dia a seguir, é egoísta como dantes, mas nem interessa. No entanto, agrada-me isto de divulgar e levar coisas novas, logo eu que espalhei a santa palavra de Einaudi como um fogacho em folhas de eucalipto secas por todos os meus amigos. Aulas há em que a divulgação do saber adquire estranhos contornos: quando derem por vós a ter de explicar conceitos religiosos a turmas inteiras que nunca tiveram catequese, perceberão. Diziam os outros que o Alentejo seria novamente seu e pela irreligiosidade dos meus alunos, nunca deixou de sê-lo.

Há certos pormenores neste retiro em Colos que me aborrecem, mas a escolha que me calhou em sorteio de tômbola não é um deles: as turmas são pequenas, o que é sempre bom; os meus colegas não fogem da simpatia e tiveram piedade de um maçarico; as aulas decorrem até às 16.30; e no geral, a pequenada não abusa e o seu conceito de mau comportamento estende-se até ao limite máximo de falar quando não deve. A ausência de toque de entrada e saída ainda me causa confusão, mas é tudo uma questão de decorar as horas e ter um papelinho com o meu horário sempre à mão. Até agora vou conseguindo enganar toda a gente e parece que sou um docente à séria: os alunos vão aprendendo sem grande tédio, as reuniões são feitas e dirigidas e apareço sempre a tempo e horas. Dou mesmo ar de profissional, mas respiro com o coração na ansiedade e só com o tempo, acho, recuperarei o fôlego. Até lá, a vossa presença desse lado é um balão de oxigénio.