segunda-feira, outubro 16, 2017

As Ilhas Far Away: a bagagem que se leva



Sou uma pessoa de mochila. Pode haver a hipótese de levar malas em viagens, de o conforto ser maior, de o que é prático se transformar no que é indicado, mas há qualquer coisa nas minhas costas que implora pela sensação de peso quando a viagem se aproxima. São tiques nervosos, acho. Restos mortais que vivem na minha memória de uma vintena de anos como escuteiro. Os meus dedos recuam no tempo, a carícia daquela agressiva fibra plástica apertando os ombros, tentando equilibrar o peso em ambos os lados para não me incomodar a coluna. A mochila, para mim, é o engodo da viagem. Desta vez, estou a umas horas de descolar a partir de Portugal rumo ao Norte da Europa. Nos dias anteriores, partilhei com muito poucos o desígnio. Rumor em surdina foi crescendo e quando partilho que dentro de alguns dias visito as Ilhas Faroé, a surpresa é apenas uma pequena baforada. Há um ano e pouco, estava na Ásia Central, num país cujo nome os meus amigos mal conseguiam pronunciar. Neste momento, pouco pode sobressaltá-los no que à minha pessoa lhes diz respeito. Limitam-se a mostrar curiosidade, perguntam onde é, o que se faz, nem sequer questionam os motivos, e ainda bem porque não saberia responder-lhes. A minha lógica de escolha é habitualmente simples e bruta: procuro e olho. Se gosto e está dentro do que a minha bolsa pode comportar, vou. O único critério, desta vez, foi o de uma região geográfica bem diferente da anterior, para variar cenários, moldura humana. Tudo o resto é acaso e instinto.

Ainda assim, fiz uma pesquisa prévia sobre o meu destino. As Ilhas Faroé situam-se a meio caminho entre a Islândia e a Noruega, mas o país mais perto é o Reino Unido, através de uns ilhéus da Escócia. Ainda assim, o arquipélago de dezoito ilhas pertence à Dinamarca. Habitam-na quarenta mil. faroeses, que ainda assim são menos do que o imenso rebanho de ovelhas que se propagou por todo o lado e deu às ilhas o seu nome ("Faroe" significa "Ovelhas" no idioma local que nem é o dinamarquês, mas sim o Faroês). Os faroeses gerem-se através de um governo autónomo dependente da da monarca sediada em Copenhaga, mas não podem ver dinamarqueses nem pintados. Têm selecções desportivas própria, a sua língua é muito mais parecia com o norueguês e já fizeram um referendo à catalão para se desvincularem do país ao qual pertencem e que basicamente só os mantém por ali porque a zona económica exclusiva marítima dá um jeitão nas negociações com a UE. São donos de uma moeda própria - a coroa faroesa, que é muito parecida com as nossas antigas notas de escudo - e tirando as partes militar e judicial, auto-governam-se da maneira que entendem. O que dá jeito porque, venho a descobrir mais tarde, há zonas desta ilha que se instalaram onde toda a gente se esqueceu que era possível habitar. Ao longo da História, foram terreno predilecto para renegados da sociedade, que procuravam aqui refúgio sempre que um conflito interno os obrigada a fugir dos respectivos reinos, fossem na Grã-Bretanha ou na Noruega, que já aqui mandou. Quando os reinos norueguês e dinamarquês se separaram em 1814, a pátria de Mads Mikkelsen levou no bolso estas dezoito ilhas e ainda hoje as tem. Hoje, lutam pela independência e querem ser deixados em paz. Isto é tão evidente que se recusaram a juntar à União Europeia, quando os dinamarqueses o fizeram. A religião maioritária é a Cristão, esmagadoramente, e no meio das restantes, algumas há em que não se arranja sequer uma equipa de futsal. Há três sikhs, por exemplo, em todas as Faroe.

Algures parei nas buscas e pesquisas. Não me interessava saber mais, a necessidade de partir e desligar-me era premente; mas quis a ironia que o início deste percurso fosse na cidade de Porto, que é com toda a probabilidade p único ponto do mundo onde gostaria de exercer uma prerrogativa divina de destruição. Detesto a cidade do Porto com uma tal energia que Oppenheimmer me teria fechado numa gigante bola de metal. Nunca gostei dela, de uma altivez negra e acabrunhada, um engano urbano, o único local onde já fui ameaçado de morte e a dobrar. Nos últimos anos, ganhei ainda mais motivos para me sentir desconfortável na maior cidade do norte português e passei algum tempo a tentar descodificar isto, se era do meu percurso emocional ou do próprio espírito portuense, de uma aparente simplicidade genuína que é labreguice e chico-espertice. Concluí que a culpa é geográfica, que nunca senti em Lisboa, por exemplo,a mesma opressão e desconforto que tomam conta das minhas linhas físicas quando calcorreio o chão portuense, quando o rio Douro é apenas uma ilusão prateada na retina e as pontes de metal são grades. As ruas do Porto são um labirinto de Minotauro, com os Clérigos como Knossos. Percebo o fascínio de Sophia pela cultura clássica, também o devia saber. Se vives o que é forte e quase do avesso no Porto, o mel emocional fica contigo, mas os favos cheios de abelhas que picam, a dor lancinante, está presa e capturada no escuro do Porto, no seu angustiante e abafado desenho, na arquitectura com te prende uma âncora que te afunda bem longe das águas fluviais ou das ondas da Foz. É nesta cidade que desaguam as dores do coração e estar aqui, por muito que seja tangencial, amarra-me as pernas aos ventrículos.

Mas a viagem foi-me marcada para o Sá Carneiro. Não fui, foi... alguém, um alguém que não me conhece e que apenas vê na proximidade do Porto um auxílio à minha viagem. Tento ignorar a cidade, mas é-me impossível. Passo por ela, nunca incólume, mas tão de fininho como aquele maior da Cantareira. Chegado ao aeroporto, as alças da mochila devolvem-me alguma estabilidade e avanço, é a viagem que me acalma e me dá a certeza de que algures no mundo, há um local onde não penso nesta, onde a D. só existe no nevoeiro e onde mundos em forma de L. podem tomar outras formas, outros contornos de alto coturno. Check-in feito, aeroporto cheio de gente e quando me sento já depois da segurança, a música preenche-me na espera, enquanto leio um livro de Sam Shepard e tento isolar-me, voltar a mim, colocar-me no centro do meu mundo antes de desvendar um recanto daquele que partilho com os outros. Uma viagem não começa noutro local que não em mim, e o seu término sou eu também; e antes de entrar no avião, sinto-me um risco abstracto, não tenho medo nem temor como há um ano atrás, passei pela transformação do Quirguistão e numa poltrona de confortável hábito, sinto-me um passageiro pouco acidental. Sinto que estou onde escolhi e onde desejo. Sinto que estou perto, mas nas Faroé, estarei Far Away. O trocadilho é infantil, mas em mim, sinto-me pronto a referendar a independência do que me incomoda, se preciso for. Quando me sentar no avião, já nem penso na dor e o avião, ao levantar voo, deixa um pouco de mim para trás, a parte que não interessa, a Ryan Air aliás tem uma apertada política de bagagem. O que conta, a multiplicar, sai rumo a Copenhaga e eu sinto-m e um arquipélago perto de se reunificar.

quarta-feira, setembro 20, 2017

Mais uma rodada, mais uma viagem


Quando lerem isto, é provável que já não esteja em solo português. A minha senda, quase desígnio de vida, de visitar locais com nomes esquisitos e desconhecidos da maioria levar-me-á agora perto do Círculo Polar Árctico, até um arquipélago de dezoito ilhas que pertence à Dinamarca. As Ilhas Faroé serão o solo debaixo de mim (e nalgumas alturas, pelo que li, por cima também) nos próximos sete dias. Ora, porque não ir à praia que até está solzinho em Setembro? O Algarve aqui tão perto e Figueira da Foz com os seus belos areais... Ou então simplesmente visitar capitais europeias tão belas e movimentadas? Coisas boas... Mas por outro lado, para quem já foi ao Quirguistão, uma região autónoma dinamarquesa é Londres. Fará frio, que estamos a sair da altura quente do ano, e mesmo com o aquecimento global a chegar fogo ao rabo e à tola do mundo, o ambiente para aqueles lados puxa para o geladinho. Nada que agasalhos não resolvam e assim como assim, andar de gorro em Setembro é uma experiência quase tão fora da realidade portuguesa como visitar cidades com redes de transportes e parques urbanos como deve ser.

Numa confissão mais interna, cada vez mais sinto a minha cabeça como uma panela a fervilhar coberta por uma tampa que só ainda não deixou marca no tecto porque algures em mim, num local que desconheço, surge um controlo que nem consigo explicar e vai mantendo a fervura num controlo muito frágil. Já namorava esta viagem há algum tempo, sem grande convicção, um daqueles namoros em que a atracção existe, mas o compromisso é ténue e arrasado ao mínimo percalço. No entanto, há umas semanas, descobrir uma necessidade prioritária de levantar a tampa da panela para que o vapor explodisse e me aliviasse. A mudança da realidade e do mundo em que damos por nós a respirar costuma ajudar a este alívio, uma estranha ilusão de que somos outros, de que temos outra vida, de que as oportunidades podem surgir de uma forma que nunca surgirão enquanto nos mantivermos nós, aquele que conhecemos desde sempre. É um pouco isso que procuro nesses locais que se escondem nas frinchas do mundo, abrigados da curiosidade turística massiva e ainda com isolamento suficiente para que me possa sentar a olhar o mundo como se fosse a imensa sala de estar da melancolia. Enfim, é o que temos por agora, pelo menos.

Nada temam, que não desapareço de vez. Se a civilização me permitir (e reparem que mesmo no Quirguistão havia Internet, estou optimista em relação ao que é, para todos os efeitos, território dinamarquês!!), darei notícias nestes dias, à maneira de pequenos telegramas e fotos variadas. Mais tarde teremos uma nova série de relatos deste turista menos acidental e mais dado a acidentes, discorrendo sobre a realidade através da sua visão surreal. Já sabem com o que contam. Até lá, não matem nenhuma baleia, sim? Beijinhos e abraços.

quinta-feira, setembro 07, 2017

Sonho


Fez-se luz e quando os meus olhos escancararam o mundo, descobri que eras uma manhã. Umas horas antes, deste por ti como uma noite que me tapa e cobre e envolve e num fumo me preencheu o corpo tornado duplo. "Bom dia", e era uma observação óbvia, calma e, no gesto seguinte, rematada por um beijo. Lençóis azuis envolvem-te o corpo, deitou-me ao lado do céu. "Sonhaste ontem?", e sim, sonhei, mas porque perguntas? "Resfolegaste bastante... Resfolegar, adoro esta palavra!", e o teu corpo contorceu-se um pouco nas rugas da cama, como se as tuas pernas dessem início a um rio imenso que rodeia as rochas com a corrente; e tentei lembrar-me do meu sonho, sabia que sim, que sonhara, quando tal acontece sinto-me sempre um pouco mais cansado, um pouco mais desprovido de jeito para lidar com os dias. Sonhos deixam nas margens do rio uma poeira fina, roliça na pele, algum ouro nos olhos. O pesadelo tornava presente aquilo que o roía lá dentro, aquele uivo crespado sem som mas total impacto, o nevoeiro ácido a pôr liquido nos juntas interna do corpo, era mesma uma dor sem forma, um fumo indefinido de gritos carregados como nuvens de chuva num céu de Inverno. Não se apresentava com identificação, apenas o habitava sem renda paga ou aviso. Nem conseguia recordar-se da sua entrada ou se eventualmente nascera com aquela tinta negra dos anos que passam, dos dias que estão, de uma divagação simples nos cantos do quotidiano. Pedras nas margens, um grosso calhau que obriga o rio a desviar o curso, capaz até de resistir à sua milenar e telúrica força. A dor é mais primitiva e original do que a felicidade, que é um dado adquirido da evolução.

O afogamento não se apresentava, mas também não refulgia nos seixos aquele raio de sol que por vezes encontro no sorriso daquela que me inquiria com olhos negros. Ajuda-me a recordar. "E como posso ajudar? Acaso sou filha de Orfeu?" Nunca, ora, Orfeu é o encantador de sonos e tu deixas-me bem acordado. "Talvez isto ajude" Os ombros descaíram um pouco e com um trejeito da tua cabeça, cabelos deslizaram sobre o meu peito, uma cortina onde se entrevê algo que só pode ser visível a quem se abre ao mundo. Ao teu mundo. Estranho ao início, mas que técnica pateta, mas cada fio de cabelo deixa em mim uma semente e o que cresce é a árvore da abstracção, como se da tua cabeça brotasse uma fonte, em tons de negra luminescência que me envolva novamente na minha inconsciência. "Oniris bate à porta. Já consegues abrir?" A carne lateja, um ligeiro formigueiro mergulha-me então num passado próximo e começo a dar corda ao coração, a regressar ao outro eu que se atreve fora do que é real e começo a ver, na luz que quebra os fios de cabelo em estrelas, um ponto de fuga. Escapo-me e o sonho regressa.

Estou num imenso planalto de estepe, onde tenho por única companhia um exército equídeo que pasta verde. Não é erva, é mesmo cor, e os lábios ficam verdes, o corpo também se malha no viço da cor. Perto de mim, um lago de margens defendias, uma fronteira entre o céu e esta terra que piso. A abóbada celeste é de berço e sinto-me tão bébé, como se renascesse nos grandes espaços, no brilho das águas, no tamanho impossível das montanhas nevadas que me rodeiam . Sou dominado pela ideia de já aqui ter aberto os meus olhos, mas fecho-me a essa ideia, nunca podia ter estado, lembrar-me-ia, como se alguma vez me esquecesse do que me faz ter vontade de abrir os olhos. No delírio onírico, caminho até à água e caio, sou submerso mas não me afogo. Um breve apagão e quando volto a mim, saio de um frigorífico, congelado, gelo verde como o viço das vacas, eu desenho-me vermelho do frio e despido despojado, encontro um par de pés. Um olhar não captura ninguém, apenas um contorno que apenas se define na sua incerteza. Bate palmas e na minha mão, um cofre engole-me e prende-me e sem chave, captura-me. Quero sair, bato e esmurro, grito e urro, mas a total liberdade dos grandes espaços encolheu-se sobre si própria. O tempo passa sem que note e aqui estou. Sou um dos que resta, e o cofre estreita-se num aperto e não sei como estou agora fora e na minha nudez a raiva toma conta dos meus músculos e rebento o estuque de uma parede branca com punhos encarcerados na dor e quando não sobra mais estuque há parede e quando não há mais parede, existes tu, a palma da tua mão.

E regresso a mim, no hipnotismo da curvatura que me sustenta e te dá graça, no cabelo que voltou ao sítio, num exército feliz que na tua boca alinha a paz no mundo. "Então, esclarecido?"; e claro que sim, puxo-te para mim, beijo-te a cara e os lábios, a ponta da língua no nariz e no queixo, uma boca que convida o teu peito a gemer por interposta abertura, e o teu sorriso como carta branca para tudo o mais, para me libertar num largo espaço. "Novo sonho nos espera, olhos abertos e consciência ao desafio" e o planalto tem o tamanho de uma cama e quatro pernas para correr até às montanhas e ao lago.

sexta-feira, agosto 25, 2017

Esquecer


Se pudesse agarrar o fumo da memória, de maneiras quem nem eu entendo nem a Física permite e nem a Química gera, as minhas mãos seriam uma caverna. Não sei se alguma vez observaram de perto uma pintura rupestre. Não é exactamente uma pintura: na verdade, é feita tão em braille, com entalhes e depressões, que não é loucura  pensarem que os nossos antepassados eram cegos ou viam com as mãos. Figuras e desenhos são, na verdade, a expressão física de alguém que quer deixar marca, que se recusa a simplesmente vaguear no sopro de vida que lhe foi concedido e não se importa com a inexpressiva e bruta rocha que tem pela frente, ou com o frio medonho e incapacitante dos Invernos glaciares, quando só existe, à entrada da caverna, uma pequena fogueira; ou que de repente um urso entre e o apanhe desprevenido. O importante é o prolongamento de si para o mundo que conhece, para o real que faz parte dos seus dias. Ele vai, mas ao mesmo tempo, há-de ficar.

São assim as recordações. A inevitabilidade do seu sumiço é certa em quase todos os casos, mas enquanto existem são marca do que já não é, e o que não é pode ser um momento fugaz, uma longa história que se estica ao ponto da transparência ou a pessoa que quando esteve era tudo, e mesmo não estando é um bocadinho mais do que devia ser. Os dias são casas de memória. Não sei em qual destas categorias coloque a Olívia, que passou em mim como um pincel pré-histórico. Eu, superfície rugosa; ela uma palha de aço encarniçada. Juntos só podíamos criar faísca e daí ao fogo é uma baforada. Tudo o que me lembro é de ter desaparecido, porque eu caibo aqui e nesse passado fui tanto que a minha existência passou de certeza por um estado da matéria desconhecido, no meio ponto entre acontecer e simplesmente apagar-se, onde quando nos sentamos explodimos em trezentas e setenta mil partículas, cada uma delas um ponto que a Olívia beijou, e por isso não pode ter durado meses, nem sequer o meu tempo de vida. Se cada átomo é um segundo, a Olívia fez de mim em relógio em cada reacção. 

Não me consigo lembrar, sabem, é o maior problema das memórias, é que nunca nos lembramos delas, nem quando as temos presentes. Por natureza, não se pode confiar na memória, nem para consolar. Nunca é bem o que se viveu, mas pode ser até bem mais do que houve. São tudo o que temos, mas são nada ao mesmo tempo. A Olívia simplesmente seguiu o seu trilho de amnésia, ou não, nem sei, nunca lhe perguntei nem posso e fiquei com este saco de memórias que é também um saco de nada, cheio de ar, que virado do avesso deixa cair precisamente o que já existe no chão. Criar este palácio de lembranças dói na destruição, porque até que ponto não ficámos só nós com a fotografia mental da sua construção? Viver com outro acolhe um desejo que não é egoísta nem ecuménico de ser uma recordação em outrém, deseja-se que mesmo ao longe, mesmo quando um regressa ao estado binário, o palácio continue a existir de certa forma, de uma maneira que ambos partilham, que em noites quando sopra o vento e eu me aperto na dúvida de que o meu corpo ainda exista por completo quando sinto tanto a tua falta, desmembrado e espalhado pelos cantos da cama, também a Olívia, também tu te desfaças um pouco e nas fendas refulja um brilho de mim, que ainda me guardas e só na ruína da noite permitas que espreite e saia de ti e também me abraças na mágoa de que não me tens nos teus braços. Revives, como eu, outros enlaces no chão e mãos livres para nos sustermos, mas não nos sustínhamos de todo pois a roupa caía mais rapidamente do que nós na realidade do reencontro. Minutos depois, a queda era uma falha tectónica, e tremo ainda hoje quando o revejo.

No entanto, pode apenas ser memória, ainda que a tua pele tenha existido na realidade das minhas cavernas com dedos; e agora, que relembro, sou os teus olhos. Vejo-me por deles e não sei se é a adoração do passado ou a ignorância do presente. Não sei se esse olhar chega ao futuro, se me vês também lá, e o truque derradeiro da memória é a viagem no tempo, de julgar que o futuro acontecerá exactamente da maneira como o vejo, e que é passado e que a Olívia foi-se e não volta sequer para me dizer que tudo estará como eu penso, que pelo menos me posso recrear novamente nos espaços em aberto de um sorriso genuíno que mentia aos recantos escuros da vida da mesma maneira que a memória me engana nas manhas do que me lembro, ou penso que lembro, pois recordar é o coração aemfantasia e a realidade em negação.

Mas a Olívia é, em totalidade. É tudo isto, é tudo o que nela projecto; e é também o que sempre me deu e tirou. Ela é eu e é ela; e um dia, seremos ambos qualquer coisa, quanto mais não seja uma memória um do outro.

sexta-feira, agosto 18, 2017

Charlottesville



O que me espanta em tudo o que se está a passar de momento nos EUA não é a morte de alguém num confronto directo entre um movimento nacionalista violento - uma das minhas áreas de especialização foi a evolução da Ideologia Nazi, não há grande coisa no modo de acção da alt-right norte-americana que me surpreenda; a reacção de Donald Trump, um bacoco racista e demagogo, egocêntrico e vaidoso, ruídoso suíno e pose altiva e teatral, calando e acusando jornalistas, deve muito mais a Mussolini do que a Hitler. Hitler, pelo menos, escolheu uma equipa competente para lhe armar o caminho, algo que, sabemos, o agente laranja mostra uma clara incapacidade. Não, o que me deixa surpreendido é a velha tradição norte-americana de erguer uma outra tocha, a da Democracia, proclamando perante todos que estas situações são anómalas, pois a velha união federal de estados das Américas mais setentrionais é sinónimo em todo o globo de liberdades e valores humanos, a nação que por isso lutou e que defenderá até à morte. No entanto, etalvez o meu talento não esteja em abordar a filosofia e moralidade da coisa, qual Heidegger de Ceira; mas visto que tenho aprendido uma ou outra coisa de História, permitam-me que deixe aqui uns apontamentos que talvez desmintam este mito fundador da especialidade norte-americana.

Ora, começo já por desmentir que a Guerra Civil Americana, porventura o o verdadeiro evento fundador da identidade actual deste país, não acabou. A divisão dos EUA entre Norte e Sul durou quatro anos, e curiosamente começou e acabou no mesmo estado: a Virginia, esse mesmo onde Charlottesville fica situado. A Virginia é assim uma espécie de fronteira limite entre as duas Américas, uma com capital em Washington e outra em Richmond. Apesar da ideia generalizada de que tudo se sucedeu por conta da escravatura, outros motivos mais práticos e menos morais precipitaram esta guerra fratricida. para além de questões económicas, a ideia sempre presente de que estes Estados Unidos eram um acordo e não um casamento eterno levaram sempre alguns estados do Sul a crerem que, se assim o quisessem, podiam simplesmente separar-se da chamada União e seguir o seu caminho. Um conjunto de eventos e guerra independentistas noutras federações europeias deram mais credo a esta ideia e as diferenças entre um norte industrializado e cosmopolita e um sul feudal e com base em mão de obra manual e esclavagista levava a crer que se assistiam a diferenças incontornáveis. A Independência em 1776 envolvera na sua maioria estados localizados a Norte, que valorizavam essa conquista de uma maneira diferente. Pensando que a Norte ninguém se importaria muitos, sete estados do Sul decidiram declarar uma nova confederação poucos dias depois da eleição do rpesidente Abraham Lincoln, que tinha fama de pragmático e anti-escravatura. Mas o norte estava decidido a não quebrar a ligação entre todos os estados e desse conflito, surgiu a Guerra Civil.

Como se sabe, o Norte venceu teoricamente a guerra; no entanto, e apesar de os termos de rendição não terem sido particularmente humilhantes - Lincoln evitou sempre julgamentos sumários e considerar como traidores aqueles que haviam secedido - a situação posterior a 1865 não foi exactamente a que o Sul tinha na ideia. Ainda que alguns estados fossem periféricos, outros como o Louisiana, o Kansas e a própria Virginia possuíam grande peso populacional e económico e acalentavam a esperança de discutir a rendição como uma conversa entre dois países diferentes, que algo que Lincoln colocou imediatamente de lado. A reentrada na União fez- se a contragosto e o preço a pagar foi quase um século de pobreza permanente na região e uma divisão económica clara dentro dos EUA. Por esta ideia de destino não cumprido, de traição nortenha e dos intelectuais à causa sulista de viver de acordo com os seus valores e preceitos, a guerra nunca terminou realmente. A animosidade entre ambos os lados permaneceu durante décadas e a única coisa em comum era o ódio que tinham uns pelos outros e por outra ideia que tem sempre solo fértil em pós-conflito: o Ouro, o Diferente, o Estrangeiro. Carregando este espírito de desprezo por todo aquele que não é americano ( uma definição que não incluía necessariamente todos os brancos: irlandeses, italianos, polacos e outros emigrantes europeus foram tão mal vistos e mal tratados tanto quando os negros ou os judeus nos finais de século XIX e inícios do século XX), o Klu Klux Klan (KKK) surge no ano em que a Guerra Civil termina, 1865, e com períodos áureos e de ocaso, permanece hoje como uma organização. 

O século XX é charneira em muita coisa nos Estados Unidos, mas com este caldinho todo preparado, acabou por ser, acima de tudo, uma era de nós contra eles, independentemente de quem eram eles. O elemento racial era importante, mas também o religioso e político. O Diferente assustava e a única maneira de tratar dele era através da violência. Um supremacista branco ou um nazi não encaram outra forma de contemplar o problema, porque isso pressupunha que se dispusessem a ver o mundo de outra maneira. Não vêem, não podem: há amigos e inimigos, nada mais, apenas essa categoria. As décadas de 20 e de 30 são de um particular nojo: não só a política a nível nacional abraçava abertamente ideias eugénicas e racistas de uma forma perfeitamente relaxada - afinal, foi nos EUA, e não na América, que estas surgiram e foram aplicadas em larga escala, de maneira oficial, principalmente entre comunidades de negros - como aplicava um desprezo por raças diferentes, mulheres e até termos inocentes (a New Yorker, hoje grande bastião do intelectualismo liberal de Esquerda, não usou a expressão "papel higiénico durante anos, porque vários editores a consideravam nojenta) apanhavam por tabela. Os nossos amigos do Klan viveram uma era de furor, jogando inteligentemente com ódios específicos das regiões onde se queriam instalar e a sua popularidade era de tal forma que chegaram a ter, segundo alguns, oito milhões de membros a nível nacional, não apenas campónios e plebeus, mas também gente em lugares muito importantes, como governadores, senadores ou congressistas. Eram não apenas um grupo de terror, mas uma estrutura social: faziam piqueniques comunitários (chamados Klonklaves...) e na cidade de Detroit organizaram uma tradição natalícia em que um Pai Natal vestido de klansmen destribuía brinquedos aos petizes. A paranóia chegou a tal ponto que no Indiana, estado onde o Klan era particularmente numeroso, acreditava-se com seriedade que o Papa elaborara um plano secreto que mudaria a sua base de operações a partir do Vaticano para o Indiana. Imagine-se. Notícias loucas, notícias exageradas. Por outras palavras, notícias falsas. 

A ideia de uma raça superior como elemento presente no espírito norte-americano vem também deste período. Um grupo de académicos e cientistas, levados a sério, apresentaram uma preocupação: demasiados norte-americanos estavam a nascer defeituosos ou inferiores e sucessivas vagas de emigração obrigavam o país a acolher também a inferioridade estrangeira. Uma chatice. Os genes condenavam praticamente todas as raças e nacionalidades. Se acham que isto foi apenas uma teoria doida que mais tarde viria a encontrar eco na Alemanha, repensem: estas ideias levaram a restrições de deloscação, impedimentos de emigração, deportações massificadas, suspensão de liberdades civis e a esterilização voluntária de milhares de pessoas inocentes. Não surpreende saber que um presidente norte-americano, Herbet Hoover, era abertamente racista e considerava negros e asiáticos como valendo um quarto de produtividiade - ou nem isso - de qualquer homem branco. Não surpreende que os principais adeptos destas teorias fossem, como Hoover, ricos e possuindo um desprezo tremendo por qualquer pessoa em situação de pobreza. As relações entre os EUA e a Alemanha nazi foram por isso, nos primeiros anos, previsivelmente cordiais, ainda que a subida ao poder Franklin Roosevelt tenha colocado um outro tipo de político e de mentalidade na Casa Branca, que fez dissipar lentamente a influência da eugenia, mas não do racismo. A existência de vários partidos de inspiração nazi na América do Norte, dos quais os "Flechas prateadas" são os mais destacados, e vergonha que foram os campos de detenção de asiáticos no período pós-Pearl Habrour, juntamente com a continuação de testes médicos e experiências científicas não autorizadas em negros marcaram os meados do século XX neste país. A partir da década de 50, os Direitos Civis das minorias entram num periodo de enorme crispação do qual ainda não saíram, podemos dizê-lo com grande segurança.

Ora, um país com este historial não ganhou qualquer direito a surpreender-se com os eventos em Charlottesville, nem sequer a etiqueta de bastião da decência, da liberdade, do que quer que seja. A primeira Revolução Americana foi, de facto, uma luta para pagar menos impostos, algo que se vê pouco em livros de História e não tão inspirador quanto os eloquentes discursos de Ben Franklin e Thomas Jefferson. O mundo actual vive um período estranhamente familiar, mas em medidas diferentes. A comparação com o período do fascismo europeu na década de 30 é um logro, assim como a ideia de que estas forças de intolerância não são um reaparecimento do que seja. Sempre lá estiveram, sempre andaram por cá, este desprezo pela normalidade e pelo respeito mútuo é uma constante em vários países ocidentais e tomou proporções bem mais assustadoras em tempos recentes (como é o caso, por exemplo, de toda a Operação Gladio na Europa). A ideia da diferença como problema manifesta-se em todos os regimes ditatoriais ou democráticos e é sempre o ponto de partida de todas as atrocidades e atropelos do normal funcionamento democrático. No entanto, enquanto a deixarmos à margem, será sempre um corpo estranho e rejeitado por todos aqueles que desejam um bem comum. Mas nesta marcha, revelou-se que este período de vergonha e njo acabou: andar às claras já é permitido, assumir um comportamento racista é algo equivalente a qualquer posição conciliadora e tudo não passa de uma questão de liberdade de expressão a aceitação. Um presidente dos EUA recusou-se a condenar de livre vontade um acto de ódio, algo que não me lembro de ver acontecer em qualquer democracia da Europa ou do Norte da América depois da Segunda Guerra Mundial. Isto sim, é grave: não a existência de grupos de ódio, não a quebra da especialidade norte-americana, mas principalmente a normalização do que é, por natureza, anormal e errado em todos os sentidos.

Mais do que com Le Pen e os seus discursos ou o fantasma da extrema-direita europeia, este é um ponto mental importantíssimo na nossa História como espécie e como sociedade. O momento em que se aceita esta comparação é deitar ao lixo a nossa decência, o que esta dela. Os Estados Unidos não são um farol para o mundo, mas inevitavelmente tornaram-se num exemplo que dita regras e faz estender ou encolher os tentáculos da boçalidade violenta. Infelizmente, e para mal dos nossos pecado,s perante o fantasma do racismo viramos os olhos para a América. Como devem calcular pelo historial que enumerei, estes tremores que sinto são tão reais quanto a vossa estupefacção. 

sexta-feira, agosto 11, 2017

Sorriso


Vi-a pela primeira vez no último ano em que trabalhei no prédio. Não gostava particularmente do edifício, uma daquelas relíquias da mania arquitectónica no início de século cheia de transparências e curvas pretensiosas; mas gostei logo dela e da maneira como num sorriso, reescrevia quase todas as linhas. Acho que nem nunca tinha pensado como o simples acto de uma boca que se desenha em esplendor tendo pena e misericórdia pelo mundo real pode, de facto, mudar um dia, e nem sei quem ela era, como se chamava, apenas que tinha uma hora para almoço muito definida, que já nos cruzáramos várias vezes no elevador e no hall de entrada, e se calhar tanto tempo defronte de um computador, fiz uma perninha como programador durante esses meses para ganhar uns cobres, tanto tempo defronte de um computador tornou-me insensível ao mundo. Acontece, não pensem que não, a vida real é mais do que toque, é visão e audição e tudo o mais que existe lá fora quando nos dobramos por dentro. Mas ela, a sorrir, e nem devia ser para mim, ninguém me sorriria, revelava um novo tipo de linguagem que nunca aprenderia numa formação. Baqueei, estaquei e enquanto ela desapareceu na rua, até me esquecera de que a fome mordia. Era como se, de súbito, eu houvesse partido de mim mesmo.

Não tive coragem para descobrir mais sobre ela, nem sequer o nome ou a empresa em que trabalhava e encontrei-a poucas vezes mais antes de mudar de emprego uns meses depois. Cansei-me de computadores e li no jornal uma curiosa oferta de fotógrafo num parque natural. O meu irmão mais velho ensinara-me fotografia era eu um feto comparado com ele. Robusto, com mais dez anos do que eu, agigantava-se em tudo, até carácter, e sei que se aquela moça pretendia resposta ao sorriso, obviamente oferecera-o ao irmão errado. Também ele escondia um desses pormenores que altera um dia, no caso um tique de camaradagem involuntário que se manifestava pela presença calmante da mão no ombro. Não era preciso motivo, só pretexto. Sempre que eu tirava uma boa foto ou que me levantava depois de cair ou que levava um calduço desprevenido, estranho era se não sentisse a presença digital sobre mim, mas real, mais real do que uma fotografia. Quando lhe contei acerca daquele sorriso, de como pode transformar tudo apenas e só por surgir, ouviu-me mudo e mudou parte de mim desafiando-me "E porque não fotgrafaste? E porque não fotografas tudo o que nos pode mudar, ainda que pareça mais pequeno do que a mudança?". No dia seguinte li a oferta do jornal e quando me contrataram, nem pensei em mais nada. Continuo a olhar para ecrãs, mas desta vez participo, sem querer, quando observo os outros do lado de cá sou sentido como uma espécie de rede de segurança, de que alguém se expõe e mostra, mas porque a minha máquina os protege; e se capto algum pormenor transformador, capturo-o. Neste momento, tenho mais de 500: sorrisos, olhares, gestos e tiques, afirmações de estilo e de carácter, a Humanidade quando se oculta da descoberta de que pode ser tanto, mesmo quando todos nós, em conjunto, nos esforçamos por ser tão pouco.

Virou obsessão, devo confessar. Passo bastantes fins de semana pelas ruas da cidade, caçando e perseguindo, não há como disfarçar o que faço. Peço licença, não apanho ninguém desprevenido, mas sinto sempre que roubo pedaços de gente e fico com eles, que nem os mereço porque não tenho essa magia dos dias, esse triunfo sobre a mediocridade; e tenho sempre vontade de perguntar sobre pessoas, de perceber como é que alguns podem tanto e outros não têm poder algum. Se são boas ou más, se essas coisas contam quando se é especial, se apenas se limita a ser e a estar. Se abrem o peito ao mundo ou se carregam o mesmo às costas e é o sacrifício que lhes concede o dom dos nos mostrar o que há para além do que somos. Não encontro isso com a máquina, nem em ficheiros e fotos, e e mse assusta as noites, tento que não me ensombre os dias e que nem tudo tem de ter motivos, que algo pode existir por si só e causar prazer assim mesmo, redimir e mostrar, que um sorriso largueirão como um mar serve para nos lavar da tristeza, que um par de olhos verdes pode ser uma nascente de murmúrios secretos, que a tua presença, e tu és alguém que nunca vi, ausenta-me a falta de sentido e tudo o mais. Por isso pego na armadilha de imagens e acordo todas as manhãs. Isto, lembro-vos, porque um sorriso foi rastilho. É coisa pequena, sim, mas é assim que todas as explosões começam.

E não fazem, ainda assim, um barulho desgraçado?

terça-feira, agosto 01, 2017

O mergulho



Mesmo em dias de sol ardente, ou menos escaldante pelas brisas que o mar sopra em alívio de quem à sua beira se instala, obediente, noto em primeiro a areia nos meus pés. É um passo do degrau de madeira para a revolução do solo, um número contínuo e separado de partículas que afirmam a liberdade de se prenderem onde querem, a quem querem. É como não pisar sequer, uma imensa ilusão que do castanho ao amarelo, no espaço do brilho do sol, da intensidade da luz, pode parecer um campo de girassóis sem caule. Se um dia puder caminhar sobre nuvens, será assim, se ao menos as nuvens aquecessem a minha base. O que eu procuro, no entanto, está para lá das nuvens, mas também sob elas. A minha mochila descai desconfortável, um tombo que arranha. Do interior, a toalha estende-se quase sozinha, mas eu acabo sempre por dar uma ajuda. Em redor, quando há gente, morrinham na invariável preguiça do calor; quando não há, um milagre acontece e não precisa de senhoras e anjos. Surge, precisamente, por uma não existência, quando um vento sopra ao longe, um murmúrio roncando pelo areal, uma miragem de deserto lambido pelas águas, qualquer mentira que sinto nos olhos como verdade, mas tantas vezes os meus olhos me enganaram que a percepção é o engano da certeza. Mas hoje, aqui, há gente, chapéus coloridos, bolas em movimento agarrando pedaços de areia na superfície do divertimento.

A água chega para a carícia gelada, os meus pés aceitam e encolhem-se um pouco. Amar tem mar lá dentro, porque como este arrepia sempre ao toque inicial, nunca estamos preparados para a onda, para o torvelinho. Na Costa Vicentina, não sinto a gélida sensação do sangue que congela. O meu corpo está preparado. Um passo à frente do outro e cada onda estabelece uma nova marca nas minhas pernas. A frescura sobre gradualmente, um ou outro arrebatamento marítimo obriga-me sempre a saltar e o confronto com a espuma do mar transforma as gotas líquidas em alpinistas que por mim trepam. Primeiro passam o joelho, atrevem-se a chegar à cintura, na garantia de que mantenho a minha fertilidade intacta, e no momento em que o meu umbigo deixa de cuidar apenas de si e aceita que está entregue ao mar que o solta, a caminhada pela densidade da água já se torna mais leve, mais imediata: a pele aceita que a temperatura é a melhor, sem arrepios ou hesitações. O mundo é o mar, só. Dou saltinhos para escapar a uma ou outra onda, mas chega a altura de me entregar num salto de fé: é quando eles enrolam como se o mar fosse uma carpete e alguém estivesse a arrumá-lo. É nessa altura que me atiro. As mãos vão juntas, palma com palma, abrem caminho para a cabeça que não hesita. Um mergulho é atravessar um portal e do outro lado, encontra-se a delícia. Reergo-me, o corpo renovado, como se toda a superfície fosse nova. Limpo os olhos da água remanescente e quando os abro, a prata ondulante marca as vagas. Quase entrevejo uma pista de descolagem.

Faço-me de avião e levito sobre a água, braços abertos. Quando os fecho, mudo e sou um barco agora, esforço-me numa tentativa quase infantil de boiar e suportar assim, a minha solidez robusta, pesada desaparece e sou leve como me sinto poucas vezes. O que desaparece é o excesso de praticamente tudo e o mar é uma amnésia ondulante, cada vaga lava-me a memória. O oceano é traiçoeiro, ainda assim: uma distracção pode levar-nos para onde não queremos, correntes que disputam a nossa posse como se fôssemos valiosos, mas é então que me percebo que apenas me querem desgraçar. Aqui em baixo, as praias assumem uma componente rochosa por demais evidente e o banho aqui não é recomendado a cegos com pouca sensibilidade. No seu equívoco, pois o mar é apenas um génio de temperamento fogoso disfarçado de água, as ondas balouçam-me no embalo da dúvida, umas vezes puxa para um lado, noutras empurra para o outro. Os meus fincados no fundo marinho apenas tentam acompanhar a indecisão, onde não tenho nenhuma outra coisa a fazer que não esperar e resistir. Quando tudo passa, o processo de mergulho recomeça e dá-se sempre que quero; mas tudo o que é bom, termina e a toalha espera-me. Gosto de sair a caminhar com passos largos, espalhando água quando ninguém me rodeia, faço questão de brincar com uma força de muitas milhas de energia e largo, uma embocadura que rodeia continentes e amarra barcos enormes ao seu fundo. Agora, a areia congrega-se nos meus dedos, nos meus tornozelos, em cada fronteira de osso dos meus pés. Tombo como um morto cheio de vida, limpo a face sem outra ajuda que não a da toalha e num suspiro de prazer que nunca contenho, que não prendo por ser a expressão mais livre a que me permito no meu medo de ser feliz, de me sentir bem, finjo que me enrolo e que rio às gargalhadas cá dentro e que cada gota que escorre por mim nas estradas da minha carne, na minha forma que se pode descascar e a gargalhada continuaria na mesma, é um baptismo. Não todas as gotas: cada uma, individual, marca de um mergulho separado, de uma onda individual.

Não gosto de praia, mas o mar é-me fundamental. Hoje, que vou embora de Colos, sinto que a minha presença por aqui foi um pouco como entrar nas ondas e entregar-me. Levo coisas que não trouxe quando cheguei, deixo algumas nesta casa que deixo, ruminações principalmente, umas uma experiência de viver só, de reaprender os fundamentos do isolamento, de não adormecer o nervo exposto que é a minha sensibilidade e a desorientação de quem ainda não percebeu o que anda a fazer por cá. Mas no fim de contas, há a toalha onde me estendo e descanso, onde o suspiro é o que me agarra à vida, onde o meu corpo é repouso e a alma não se atreve a desassossegá-lo. Não sei o que me espera quando regressar a outros mares.Deste levo uma segunda pele, de sal e de pó, daquilo que o calor molda em nós quando deixámos. Um calor seco, uma luz do sol, ser eu quando não há mais ninguém. Levo um pouco mais do que é viver no quotidiano. No meu colo, de Colos.

quinta-feira, julho 20, 2017

Render da guarda




Há semanas, numa das idas à terra (uso esta expressão pelo simples motivo que me faz parecer um emigrante a sério, um cosmopolita desenvolvido que abandonou a sua aldeia perdida nos montes à procura de uma vida melhor, uma personalidade ao nível dos sonhos de menino de um Tony da Pampilhosa), envolvi-me numa tradição com a qual cresci, mas passei ao lado: a festa-baile, com direito a tudo de bom - bar, quermesse, porcos em currais, jogos para todos, aquele tipo de coisa que nos lembra que por muito que leia Maquiavel ou Tony Judt, que saibamos explicar de trás para a frente Tarkovski e Kubrick, sou um aldeão de cima a baixo. Maquilhem a Luciana Abreu quanto quiserem, mas ela nunca deixará de parecer uma sopeira da Trofa. No meu caso, é algo de semelhante, excepto que o meu silicone é tecido adiposo; mas passando da vaca quente para a vaca fria, a minha presença despertou desde logo sobrancelhas em arco de volta perfeita, rumando pessoas na minha direcção com a plena certeza de que era eu e não um clone ou um holograma. A minha relação com festas é semelhante à que um obeso tem com restrição e auto-controlo, logo a desconfiança era justificada. Mas quando quero, até sei ser humano, ou finjo de maneira competente,  e lá fui conversando, escutando, estando simplesmente. Num certo ponto, um rapaz que servia no bar saudou-me e no meio de todas as habituais perguntas a quem vive no Alentejo ("Faz calor agora, não é? Aquilo é muito isolado? Vens de comboio ou de carro? Passas o tempo todo na praia, admite lá"), saiu-se com uma daquelas tiradas que já ouvi várias vezes na vida: "Ainda bem que estás a dar aulas, tu nasceste para ser professor. Podes não acreditar, mas comunicas muito bem. Tornas cativante até mesmo coisas pelas quais uma pessoa não se interessa, poucos conseguem fazer isso. Os teus alunos têm sorte".

Quem já rodou por aqui, sabe dois pormenores que tornam esta afirmação algo de irónico. Em primeiro lugar, não me vejo como professor, como já admiti num texto sobre o assunto; em segundo, encaro elogios como quem leva pancada; e sim, eu sei que tenho problemas sérios e profundos, daqueles que necessitam de um psiquiatra, um exorcista e um guru New Age em atendimento permanente. Veio comigo, aquela opinião, principalmente porque me preparava para encarar a recta final do ano. Não dava aulas desde 2011 quando vim para aqui e todos os rudimentos de estar numa sala a formar crianças e adolescentes perderam-se por cima do Atlântico entre a Macaronésia e Portugal Continental. Quase seis meses passados, continuo a ser uma mangueira de alta pressão a quem fizeram um corte, cavalgando em tensão na atmosfera. Sendo justo, a experiência não é má. Tensa, sim, mas eu consigo transformar o yoga numa corda de viola esticadinha até à última fibra: é a minha cena, como diz a pequenada que passou este tempo todo a ouvir-me falar de História, numa tentativa desesperada de lhes fazer perceber que sim, é importante, e que não, não serve apenas para testar as capacidades de memória de petizes. Gosto de transmitir conhecimento, mas de maneira mais informal - à volta da mesa de café, em caminhadas pela cidade, com amigos numa sala - e embora assim invariavelmente o papel de quem quer ensinar, e se torna algo insuportável por isso, estar numa posição professoral não é algo que me agrade. A razão é simples: a responsabilidade de reduzir conceitos complexos a um público que se esforça para entender a narrativa de um filme sa saga "Fast and furious" é um esforço que me obriga a ser algo que, por muito que tente, nunca serei: um empata intelectual. A minha dificuldade em descer um pouco ao nível de quem menos sabe afecta-me de alguma maneira e sempre foi uma espada e uma parede: se sou demasiado óbvio quando o faço, parece que trato os outros como mentecaptos; se é imperceptível, existe logo a acusação de que me estou a armar. É certo que os alunos só pode trocar estas estocadas no intervalo, entre si, raramente se atrevem a dizê-lo nas aulas. Mas é sempre um risco.

Desconheço se os quase 60 garotos que se sentaram nas minhas salas de aulas este ano saem mais conhecedores de História ou menos. Dá-me ideia que alguns, pelo menos, se foram embora mais interessados. Uma das coisas boas desta posição é demolir preconceitos e esclarecer tanto lixo que se ouve, demorar-me o suficiente em pontos absolutamente necessários neste mundo actual estranho e cada vez mais subjectivo nas atitudes dos seus protagonistas. Fiz questão de explicar de forma mais demorada o que é, de facto, o nazismo e o fascismo e o perigo de qualquer um deles regressar; o arrepio que me percorreu quando senti as minhas turmas de 8º ano num silêncio beatífico perante a minha explicação do quadro "Las meninas", de Velazquez e os segredos que encerra o que é na aparência um simples retrato trouxe-me um sentimento que raramente possuo, orgulho; uma aula sobre mitologia grega no 7º ano transformou-se em 45 minutos de ter um grupo de gandins controlado pelo puro poder de pequenas narrativas que os Gregos usavam para explicar o mundo. Não estou convencido em nada que ser professor é para mim, mas para mim, sou um professor convincente, pelo menos. O trabalho burocrático (e que me acaba sempre por me calhar...) é um contra, por completo, é claro; mas a sensação de despertar qualquer coisa lá no fundo de seres humanos que ainda agora entraram numa idade de descoberta de conhecimentos e emoções mais evoluídos, que se podem ainda moldar e captivar, é algo no qual, aparentemente, sou bom. É algo a favor.

O meu trabalho aqui por baixo está quase no fim. Não sei se deixo herança ou lembrança, se para o ano os meus alunos recordarão um professor de História que surgiu a meio do ano para lhes dificultar a vida. Mas noto como, quase em tudo, a vida é sempre injusta no esforço e na memória, já me habituei a isso noutras áreas, de ser importante num momento e ignorado toda a vida. O que me interessa mesmo é que fique algo da centelha, da simpatia pela curiosidade, da vontade de parar um pouco e reconhecer que o único lugar que o saber deve ocupar em nós é naquela poltrona a partir da qual observamos o mundo com olhos de ver e um leve trejeito de sorriso reconhecendo que há tanto de fascinante como de decadente e que isso é o mais natural. O professor de poltrona: ora aí está uma maneira pela qual não me importava de ser lembrado.

quarta-feira, julho 12, 2017

12 de Junho


Soube da morte do meu pai três horas depois de ter estado com ele. Não sei se estranhei ou encolhi os ombros, não notei nada de diferente. A particularidade do padecimento de uma doença prolongada, longa, lenta, que age como um ladrão a longo prazo que vai tirando e tirando e tirando sem que se note sempre muito, mas que em pouco deixa uma pessoa sem nada, é que nunca há crises constantes. Acontecem de quando em vez e respira-se, fala-se quando se pode, mas morre-se, morre-se assim a vista de toda a gente mas escondido por dentro, uma toupeira que rói e esburaca e cada túnel invisível conduz a uma cova. É muito isto. Não vos sei dizer se havia algo de particularmente agourento no seu aspecto da última vez que o vi. Acho que não. Nos últimos dois, três meses, as diferenças são subtis e mais notórias para quem não está envolvido. Eu estava, embora passasse o tempo todo a dizer que não, até a mim mesmo. Foi por isso que quando recebi a fatal notícia, a minha primeira ideia nem foi chorar ou cair em mim. Pensei nos pormenores do funeral, de quando seria e dos horários, de quem viria, se muita ou pouca gente, da necessidade de preparar, de ajudar a minha mãe, que levou com a lambada bem mais do que eu, de estar ali. Sou uma pessoa depressiva por natureza, mas funcional, mesmo nas minhas covas mais côncavas. Assim reajo, assim vivo. Mesmo com o meu pai morto.

Rapidamente apareceram alguns elementos da família. A minha retirada de cena foi célere e já no sótão, a dois andares de tudo, cumpri uma promessa: por esses dias, eu e a D. estávamos naquela fase de ocaso que caracteriza a passagem de quarto minguante para Lua Nova. Nunca percebi muito bem o que se passou. Acho que nem ela, mas com o tempo entendi que as pessoas são assim muitas vezes, não se entendem, nem a elas mesmas, e depois é difícil entenderem-se com os outros. Éramos ambos inteligentes, mas não para aquilo. Ainda assim, o que nos faltava em entendimento sobrava no carinho que mantínhamos mútuo, um vapor tépido, e ela fez-me prometer que se algo de decisivo acontecesse, ligar-lhe-ia. Ora, a ocasião parecia pedir a minha lealdade. Do outro lado da linha, alguns segundos de silêncio. No tempo em que estivemos juntos, abri-lhe este lado da minha vida, conheceu o meu pai, acompanhou-me, susteve-me até. "Queres que vá já hoje? Saio do trabalho às 2.00". Não, era melhor não. À janela, olhava para o céu e as estrelas pareceram-me um pouco baças quando ouvi isto. "Vem amanhã de manhã, espero-te na estação". Se estava bem? Disse-lhe que não sabia, e era verdade, a dormência é elevada nestas alturas. Não desligou antes de me tentar confortar, de sentir em cada letra um beijo, em cada palavra uma cama onde nos podíamos encostar um ao outro e sentir que no mundo havia algo de bom.

Na manhã seguinte, a notícia já se espalhara. O meu pai morre a 12, o funeral é a 14 e 13 é azar, não só porque é o primeiro dia em que o meu pai não está de facto, mesmo lá longe, mas porque há muito mais gente que, não vindo substituí-lo, lhe ocupa o lugar com as memórias que traz. Já fui a vários velórios. Sei que o morto se recorda com histórias e gargalhadas, com alguém que traz mais um "Lembras-te quando...?". Ali, a justiça divina foi questionada várias vezes, para depois ser assentada como existente, que não vemos os desígnios de Deus, que este escolhe maneiras de testar os seus seguidores e senti vontade de testar a estabilidade e graça da minha mão nalgumas faces. Decidi ir buscar a D. Encontramo-nos, não sei bem como reagir. O que somos? Ela abraça-me: sei que o que somos é muito menos do que amamos e basta-me. O abraço é longo, queremos chorar ambos mas não ali. A minha mão é agarrada e só será solta no fim de tudo. No regresso a casa, vejo já imensa gente: vizinhos, antigos vizinhos, antigos colegas, gente que conheço desde criança. A D., para todos os efeitos, é apresentada como minha namorada, porque já há complicações a mais entre vivos e mortos. Ao longo do dia, e antes da chegada do corpo do meu pai, a minha casa é invadida por pessoas que sofrem e outras que querem sofrer, mas não sabem como. Vi homens que habitualmente transformam o mundo no melhor dos espaços através da sua boa disposição com ares tão cabisbaixos quanto um pântano cheio de algas. Encostados aos muros e às paredes, sustendo o sol, tentando fugir da realidade tomando para si a responsabilidade de tudo: contactar pessoas para informar que o Vitinho morreu, ajudar a coordenar o funeral com a minha mãe, pondo-me a mão pelas costas porque já me viram com um metro e menos, porque o meu pai fez parte da vida deles mais anos do que da minha, porque o conhecem sempre e agora foi-se, e eu sei que se foi e não nego nem fujo, mas a morte é sempre uma coisa tão natural e fluida, como um ar que nos dá e que se deu, como um momento de transição para nenhures.

As horas de velório são uma viagem surreal ao meu interior. Quanto mais pêsames me dão, menos me pesam. Adopto gestos maquinais, frases cliché, aceito os outros, que conheço na maioria, como estranhos que não vejo de momento. É um cortejo de espelhos foscos com a mesma cassete. No caixão aberto, o meu pai, de olhos fechados, dorme, mas não ressona. A D. está ali e não foge, mesmo quando uma e outra vez tem de falar e estar com gente que nem nunca viu na vida, nem voltará a ver. Quando me sinto a desfalecer de tédio, de sair dali e não estar, os olhos dela garantem-me que é ali que estou como devo, com ela ao lado, e de repente o que resta do mundo que conheço tolera-se, com algum contra-gosto. Não me recordo da maior parte das pessoas, se vou ser honesto. Sei que aceitei muitos sentimentos, ouvi muitas queixas de como tudo era injusto para o meu pai, de como só me apetecia arrasar a capela e gritar a todos que sim, que era injusto, que vi gente ali cuja perda não pesaria tanto, de que foda-se, o meu pai nunca esteve doente a vida toda e está uma vez e morre e que mundo é este onde a única coisa que todos querem fazer é estar e sentar e encolher os ombros porque a vida é assim? Tem de sê-lo, tem, temos de assobiar descansadinhos e numa sentença de morte levar ano e meio a sumir e encher assim um espaço de gente que sente falta? Não, não devia ser! Mas amigos antigos surgem, a L. abraça-me sem dizer palavra, num repelão como se quisesse levar-me dali e a mão da D. não larga a minha e no meio de tudo, de todo o luto e da perda, de quem chega e diz baboseiras, de quem chega e sabe que palavras colocar para que eu não caia num buraco, no meio de tudo, no meio de tudo isto a sua mão é o meu mundo. No meio da morte, é um pouco de vida; e o meu pai não me fez para estar morto enquanto respiro.

O momento mais doloroso desta experiência, para mim, foi o fecho do caixão. Nas semanas seguintes, pensei em como a imagem e a forma, o corpo e os olhos, são de facto o que nos liga ao mundo. A tampa cai e o meu pai deixa de estar visível. O meu irmão, que passou dois dias a enganar-se e com um ar fleumático, numa resignação de que sabe o que espera porque a vida está mapeada e segue determinados trâmites, cai por fim. Chora desalmado, lágrimas que salpicariam as paredes se ao menos ele deixasse e abraça-se instintivamente a mim, um fenómeno cuja ocorrência só pode ser comparável a uma decisão sensata de Donald Trump ou a Marcelo Rebelo de Sousa negando-se a uma foto. Eu choro também, um pouco porque o momento me bate tão fundo quanto uma bomba atómica detonada em profundidade, um pouco porque não deixo o meu irmão mais novo chorar sozinho. Carpimos ambos e é verdade, ele não volta. É real por fim, andámos a enganar-nos. A minha missa é passada em estoicismo, procurando pormenores de uma igreja que conheço de trás para a frente, pois uma boa parte da minha vida está dentro daquelas paredes. Só quero fingir que não estou ali. Noto que o espaço está tão cheio que gente ficou de fora. É uma segunda de manhã, atentem. Acho incrível e de certa forma surpreendo-me. A minha relação com o meu pai não foi próxima. Não me estou a queixar, às vezes é assim quando as incompatibilidades se amontoam. Mas era meu pai, claro, e ver tantas caras pungentes, pesando em si o momento numa perda inconsolável, suspiros sérios e olhares líquidos, memórias que não se perdem e só ganham substância na certeza de que são tudo o que sobra quando não há nada mais, conforta-me de alguma maneira. Catrapisca-se no enorme radar da existência, mas deixa-se marca. Não dá para a imortalidade, mas é um feito e conhecendo de onde veio aquele que me fez a meias, garanto-vos que é uma vitória sair do mundo quase em ombros.

O funeral foi o que foi. É o fim. Gente vem do nada para chorar comigo, gente que se aproxima e ainda hoje é próxima. Passaram três anos desde que recebi aquela notícia. Do alto desta torre, espreito então esse 2014 e ainda o sinto como um atropelo. Não me recordo de ter tido um ano tão intenso em toda a minha existência, em esplendor e ruína. Nunca mais fui o mesmo depois, em tudo. Quebrei regras pessoais, estiquei os meus limites e ainda hoje envergo um guarda-chuva de amianto, para me proteger da chuva nuclear resultante. Há muito mais histórias em 2014 e se a curiosidade vos espicaçar, sugiro que leiam o que está para trás nesta ilha e tentem decifrar. A D. esteve comigo até ao fim, mesmo quando criámos esses mesmo fim para nós. Sinto que passei por estes momentos de perda com os seus ganhos, pelos pingos do aguaceiro por sua causa e nunca me esqueci que apesar de se parecer tantas vezes com a tômbola do Jogos de Santa Casa, o grande desenho da existência não é linear. A nossa maior dor pode oferecer-nos uma cura milagrosa e quando alguém desaparece, o buraco só fica se o deixarmos por tapar. Ainda que o sumiço seja o mais definitivo de todos. A D. doeu-me tanto, ainda me comicha um bocadinho às vezes quanto estou sozinho e sopro bolas de sabão invisíveis, mas aumentou o meu coração em escala macro. Nunca lhe agradeci isso, nunca lho disse. Talvez o leia aqui eventualmente.

Se for sincero, o meu pai não em ensinou assim tanto sobre a vida. Não porque não soubesse, mas porque não me sabia explicar. Nasci-lhe estranho. Fui a primeira criação e talvez lhe tenha saído mais do que a encomenda. Nunca percebeu bem o que era, apenas que não seria mau ou de deitar fora e passou o resto da vida, se não a tentar entender-me, pelo menos a garantir que nada se atravessaria no meu caminho de me entender também. Não sei bem o que pensaria hoje de mim, se me tornei em algo que ele acharia aceitável como pessoa, se lhe carrego a memória como devo, se não traio de alguma maneira a expectativa de quando lhe deram também uma notícia, mas a de que ia deixar de ser apenas marido e GNR, mas também aquilo pelo qual o tratei durante esta história toda: meu pai. Talvez tenhamos deixado muita coisa por dizer, mas se a vida fosse feita de finais felizes, ninguém queria lê-los ou vê-los. Sei que estou aqui e ele não. O mundo é um pouco pior por isso: não pela minha presença, que algures levará a alguém um certo conforto, mas não estando ele, fico sempre com a sensação de que os homens decentes nunca estarão completos. Por mais anos que passem e por mais bébés que nasçam, sinto que nunca o estarão; e essa talvez tenha sido a morte mais esmagadora desse dia.

sexta-feira, julho 07, 2017

Infantilidades



Há um estranho efeito secundário de se ser professor e que nunca vem contabilizado nos problemas de saúde derivados da profissão. Não é físico, embora afecte o corpo em escalas quase imperceptíveis, e funciona um pouco como a exposição a uma substância radioactiva muito perigosa, invariavelmente letal, que causa uma dor profunda na nostalgia, no bom senso, no bem estar. Falo do adolescente, esse pequeno concentrado de hormonas, mas acima de tudo de potencial e sonhos em abertos em copa de árvores, raízes profundas, um tronco rijo que espreita o futuro a partir da sua altura e ignora por completo que este é uma moto-serra que espera apenas uma volta de corda para iniciar a sua tarefa intrínseca de abater florestas de optimismo. Tive uns 60 alunos este ano e em quase todos eles senti aquilo que já me foge, ou seja, a capacidade de acreditar que tudo é possível e que todas as hipóteses têm igual probabilidade de voar se assim lhes soprarmos.Mais do que idiotas irritantes (que também os há) ou velcros de chapadões que nunca poderei dar, os mânfios e mânfias pelos quais passei pelo corredor todos os dias lembram-me da minha própria caminhada em direcção à velhice, de que o tempo, como o crocodilo que persegue o Capitão Gancho, nada nas profundezas, esperando a melhor altura para me transportar consigo para elas, não me deixando sequer a carne nos ossos. O tempo corre e nós corremos com ele numa maratona em que perdemos por chegar em primeiro. Viver é a única prova de atletismo a subverter as regras habituais da competição e também por isso se torna cada vez mais paradoxal com o remar dos anos.

Apesar de alguns mitos de que já nasci velho e carrancudo, também eu nasci criança. Acredito haver uma ou outra testemunha a comprová-lo, se por aí indagarem. Não sei se me revejo totalmente num aluno que tenha tido jamais, mas há pedaços de mim nalguns, até nos mais parvalhões. A criança e o adolescente não são tão diferentes assim: ambos sabem pouco do mundo e querem descobrir - a criança é a única que tem o bom senso de fazer as perguntas em primeiro; e mesmo quando se chega a adulto, não se deixem enganar pelas frases feitas das redes sociais: a criança mantém-se lá, apenas desobre que afinal o recreio é outro: ninguém lhe faz a papa à borla, a sesta é muito opcional e andar nu pela rua é aceite com muito menos tolerância. Há uns dias dei por mim a pensar na minha infância e fiquei espantado por me escaparem boa parte das memórias numa primeira busca. Não estavam à mão de semear, nem ao pé de colher: de facto, pelo tempo demorado, julguei até nunca terem sido semeadas. Mas eu sabia que sim e fui desvelando; mas só isto fez-me perceber o quanto essa tal criança que não morre está a desaparecer. A criança perpétua vive na exacta proporção do optimismo. Se repararem, é tão raro ver crianças com negativismo nos olhos. É por isso que se espalham e aleijam, porque acreditam, contra todas as probabilidades da lógica, que aquele salto é possível, e que o muro não é assim tão sólido, e que deslizar em cima de uma casca de eucalipto faz tão bem às vias respiratórias quando o que conta aqui é a conta a pagar num ortopedista. São elas que crêem que os pais se amam muito, mesmo quando não amam, e que o Pai Natal pode existir, e que na Páscoa é o Jesus quem vem a casa, e que estamos quase a chegar mesmo que faltem cinco horas. As crianças não são ingénuas, porque a ingenuidade implica um desconhecimento do mundo. Elas apenas fingem que este não se encontra lá, que as regras são tão moles quanto a plasticina e fáceis de partir como rebuçados na boca. Afinal, lembremo-nos que esta é a fase da vida em que os dentes caem e crescem. Miúdos vêem-se como Wolverines. Para quê acreditar no pior?

Gostava de me ver como na minha foto preferida onde apareço desdentado da vida, mas morto de felicidade, sem me importar sequer com fotogenias. Só feliz. Ser filho mais velho é também ser o filho amado, ser aquele desejado pelos pais como nenhum depois, ser numa espécie de milagre, de realização de que duas pessoas podem produzir outra, têm essa divindade em si. O primeiro apanha com os efeitos de tentativa/erro, mas é também esse farol pelo qual certas mães sonham e outros pais, anseiam. Não sei se estou a pensar naquilo nessa foto. O mais provável é que tivesse acabado de ler um livro qualquer, uma enciclopédia. Mas quando me fui esquecendo daquilo que é tão meu, que me constrói, soube que algures em mim, num canto talvez entre o estômago e o coração, os dois órgãos preferidos das crianças, a minha infância meteu férias e não sei se volta. Podia culpar o mundo, mas na generalidade a responsabilidade é minha. Sou eu quem toma conta dela; e se bem que não posso controlar a morte e os seus efeitos, tomei gosto de adolescente e decidi, depois de anos a guardar-me como uma caixa-forte, investir em negócios que o meu coração não pode nunca pagar. Como eu disse, um adulto é uma criança potencial menos na biologia, e em questões amorosas, não existe a velha infância: existe uma burra permenante quando se quer provar o que afinal todos os autores literários sabem estar errado - que querer não é poder, é às vezes foder e quase sempre roer a corda que nos prende à inteligência. Depois de quase trinta anos de babysitting, a criança foi deixada refém dos seus próprios meios e o resultado é um castigo permanente, pior do que não ver televisão a seguir ao jantar ou ficar no quarto de luz apagada.

Nem sei bem se o desdentado regressará. Sei que pode parecer uma preocupação menor comparada com a realidade da vida dos adultos, mas é ele que mais me preocupa, que mais procuro, que quero recuperar. Sei que sem ele não estou completo e que sem o seu inestimável contributo, parei. Sou feliz na mesma proporção da estupidez natural que sempre me dominou e que leva muita gente a questionar a minha sanidade, que arranca de mim loucuras temporárias e solta interrogações permanentes, perguntas e curiosiade, voracidade intensa de conhecer e descobrir, estar nos outros e ser neles, simplesmente sorrir na presença de quem me prende num fogo de rabia. Sei que partiu, sei que anda longe, não o ouço ou sinto ou vejo. Apenas espero; e se a criança é esperança, esperar é aplicá-la em mim. Talvez se esperar, mesmo com muito compromisso, essa espera se transforme em esperança e o miúdo perceba que já chega de brincadeiras.

Está na hora do regresso.

quarta-feira, junho 28, 2017

Briefing


Há uns meses, prometi-vos que me dedicaria à escrita de um livro. Não pensem que o projecto tem sido esquecido, apenas avança mais lentamente do que desejaria. A história está delineada por completo (o que, acreditem, não é de somenos), mas colocá-la de facto na realidade tem-se revelado uma assombração. Pensei que o isolamento alentejano contribuísse para a questão, mas enganei-me. No entanto, e para provar, que as minhas intenções, como as de um cavaleiro em busca de cálices míticos, são reais e puras, deixo-vos aqui dois pequeninos parágrafos que tenho para já e que provarão duas realidades: uma é o possível tema desta empreitada; a outra é o claro equívoco de alguns de vocês quando me encorajaram a escrever um livro, convencidos de que teria talento para tal. De qualquer forma, espero que apreciem.

"Foi num livro roubado que Paulo descobriu o que era uma experiência de quase morte. Tudo o que lhe ensinaram na faculdade tentou empurrá-lo para nem acreditar que, confrontado com a finalidade da existência, algo mais se levantasse, um eu indefinido, a tal alma de que falavam os que julgam saber um pouco mais sobre a vida. Mas leu o tal livro no segundo ano académico, quando ainda prestava atenção às aulas, e na sua cabeça ficou a leitura da pesquisa feita por uma doutora canadiana. Vestindo um chamamento de algures, dedicara toda a sua carreira a estudar e a conviver com a morte, sob a forma daqueles que, no fim da linha, lhes desvelaram o novelo dos medos, das ansiedades e do desconhecimento daquilo que existe para lá epílogo da maior obra de todas. Não cabia no entendimento de Paulo que alguém passasse tanto tempo perto do agouro e da previsão certa do futuro, de escrever, minuciosamente, um retrato do que a esperava. Mas essa doutora canadiana, que explicava ter perdido um filho para o cancro e que se intrigava com espiritismo e fantasmas, embora nunca tivesse experimentado nem um nem outro, concluía o contrário: deslindar a Morte, deslindar o que está para lá do temor, era a melhor maneira de enfrentar tudo isso com calma e serenidade, de aceitar os factos e assim valorizar muito mais o ar que se respira. Na sua pesquisa, recolhera então alguns factos surpreendentes.


Morrer atrapalhava o corpo, e no momento em que morres, ambos têm um diálogo. O corpo não percebe o que se passa, e a Morte, generosa mas pouco paciente, faz-lhe perceber os factos muito depressa, o que atrapalha o corpo, que não concebe outra realidade que não seja viver. Habituou-se a ser sólido, a existir, a ser matéria e tudo o que compreende é absorvido na pele e pela experiência dos sentidos. A vida não é senão um conto sussurrado pelo mundo onde vivemos, um mundo exterior que nos estimula e agarra, cheio de sons e visões, cheiros e sensações, que nos desenham e tomam a forma bípede com que tentamos dominá-lo. A missão imediata da Morte é convencer-nos de que a realidade é a percepção de tudo. A retórica é convincente no seu tom habitual, e então a respiração diminui, o coração pára e somos pó de memória algures nas frinchas da nossa identidade. Perde-se a visão, o movimento e até a dor, sobram apenas a calma e o silêncio. No entanto, para espanto de quem espreitou para lá da cortina, ficamos nós também. Tudo parece ser mais natural, até não respirar, muito muito mais, e o mais estranho é que a vida não termina com tudo isto. Continuamos a pensar, a dizer piadas, a perceber, a pressentir, e a confusão inicial é essa: sempre nos disseram que se vive no mundo, e afinal a Morte nada mais é do que despir o corpo como se fosse um casaco. És mais tu sem o teu corpo, este é uma jaula, um caixote onde vives, e abandoná-lo dá acesso a uma liberdade que nunca pensámos. Morrer é como trocar de casa; ou melhor, é como mudar a estação de rádio que estamos a ouvir. Clica-se no botão, recebe-se o AM em vez do FM, e a nossa consciência segue, vagueando."

terça-feira, junho 20, 2017

Hubris


Diz muito de mim que uma das minhas histórias preferidas acerca do espírito humano envolva uma tragédia que matou dezenas de pessoas. A 20 de Março de 1980, o monte St. Helens, um vulcão julgado extinto no interior do estado de Washington dos EUA, anunciou ao mundo através de rugidos que os rumores da sua morte haviam sido manifestamente exagerados. Os vulcanólogos americanos não sabiam muito bem o que julgar disto, pois apenas estavam habituados aos vulcões do Hawaii, que são mais escorredores de lava. Adoptando uma política de esperar para ver, à medida que o vulcão começou a expelir magma em pequenas quantidades e o barulho aumentava, decidiu-se criar um perímetro de 13 kms em redor do vulcão, proibindo a passagem de pessoas. Mas o cidadão comum não sentia como um perigo potencial: era uma atracção turística, um divertimento e todos os fins de semana, centenas de pessoas subiam as encostas do vulcão para sentir e ver o espectáculo. Equipas de televisão chegaram de todo o lado para reportar o fenómeno, apontar os melhores pontos de observação. Helicópteros voavam por sobre a cratera esfumaçante, com reportagens divertidas. No entanto, o tempo foi passando e tanto barulho não dava em nada. As pessoas, impacientes, achavam que o vulcão não ia explodir e que desilusão seria esta. A 19 de Abril, o lado esquerdo da montanha começou a inchar. Os cientistas foram incapazes de reconhecer um sinal básico de explosão iminente, pois não estavam preparados. A História registou o final deste regabofe: um mês depois, esse mesmo lado esquerdo rebentou de tal forma que lançou monte abaixo uma tempestade de rochas e matéria a 250 kms hora, que apanhou tudo o que pôde pelo caminho. Para terem uma ideia da coisa, este material era suficiente para soterrar a ilha de Manhattan até 120 metros de profundidade. Pouco depois, o vulcão explodiu e a nuvem decorrente transformou-se numa cortina assassina que tudo varreu a uma velocidade de 1050 kms hora. Malta a 30 kms de distância foi apanhada e no meio disto tudo morreram 57 pessoas. Foi sorte, era um domingo: à semana, haveria centenas de madeireiros a trabalhar nas florestas no sopé da montanha. Noventa minutos depois, uma chuva de cinzas arejou a cidade de Yakima, a 130 kms. O dia transformou-se em noite, a cidade ficou isolada durante três dias.

Reparemos que estamos a falar de um local habitado num raio aceitável de um vulcão que exibia um comportamento perigoso. Como não foi feito nada Não havia procedimentos de emergência ou preparação. Os cientistas falharam nas previsões, foram incapazes de reconhecer o óbvio; e por sorte, o número de mortos, perante a proporção da catástrofe, revelou-se baixo. Penso que já terão reconhecido o motivo deste relambório e não, não vou apontar dedos nem discursar sobre métodos e mudanças; nem sequer me vou armar em protector das florestas e amante do verde quando, provavelmente, nunca meti os pés numa, a sério, nem sei apreciar a beleza intrínseca de uma árvore. Há, no entanto, algo sobre o qual quero falar e a razão que me faz adorar este relato escabroso, e não é o meu humor negro. Tudo isto revela uma das nossas características mais óbvias como seres humanos e em muitos bitaites ocorreu-me muitas vezes. Os Gregos, povo com jeito para metáforas e mitos, produziram uma palavra para designá-la, de que gosto muito: hubris. Numa explicação muito simplória, significa, basicamente, a ideia do Homem de que é superior a qualquer coisa, um orgulho indestrutível que torna qualquer um invulnerável aos factores que lhe são claramente superiores. Há disso aos montes na história do St. Helens, como expliquei, e reflecte-se simplesmente na incapacidade que toda a gente teve em reconhecer não só um perigo, mas também a sua inevitabilidade. Depois da revolução científica do século XVII, o ser humano expulsou qualquer deus do seu trono e assumiu o seu lugar como descodificador do mundo. Eu percebo o planeta, declarou, consigo dominá-o e traduzi-lo simplesmente. Nada me é superior; e este "deus" não é uma entidade espiritual, mas sim a própria Terra, um ente de rocha caprichoso, com humores incontroláveis, com espirros que despertam tempestades e arrotos em escala de Richter. O Homem, como sempre, esquece-se que não é senão uma partícula pequenina no grande esquema universal, animado por inteligência, mas condenado pela fraqueza da sua carne e da sua pequenez. Por muito que insista e se debata, não pode contornar isto: está à mercê e como em tudo, é uma situação muito difícil de aceitar. Uma tragédia assim é uma experiência de humildade, de reconhecimento de que podemos ser dominados e sempre seremos, mas muito não aceitam e querem justificar e racionalizar o que está para lá da mão com que queremos guinar a Natureza.

A minha relação com a zona do Pinhal Interior é sentimental: passeei ali muitas vezes, fotografei e fui momentaneamente feliz nos seus espaços de Pedrógão Grande a Castanheira. Custa-me muito ver arder algo que é meu património mesmo que não seja eu o dono, que me constrói de alguma maneira, de ver a destruição de qualquer coisa que sempre julguei imutável e permanente. É uma das razões pelas quais estes acontecimentos me tocam. Uma segunda razão é precisamente a hubris. Em cada testemunha que fala na TV, reconhece-se o pânico e a tristeza, mas por detrás dos olhos, num local que temos de saber procurar, está ainda o nosso antepassado original. Não possuía ilusões de grandeza. Desconhecia, temia, tacteava e o seu mundo era a permissão do temor. Os relâmpagos tremiam-lhe a espinha, as chuvadas secavam-lhe a boca, os terramotos tiravam-lhe o tapete dos pés. Tudo era um risco potencial; e nos seus descendentes em 2017, depois de uma sova tremenda, injusta da aleatoriedade desta tômbola planetária onde somos bolas sem número, o antepassado espreitou. Esquecido de que as leis e os planeamentos são apenas precauções e não garantias, encontrou uma força sempre presente, raramente reconhecida, que na sua fúria deixou estrago muito maior do que cinza. O que os críticos e juízes dos tribunais digitais esquecem, na sua soberba de homens-deuses, é que a Natureza é isto: não é amor nem boas energias, nem o recreio do Homem - é em definitivo o dono da propriedade. Nós só cá estamos a atrapalhar e quando se dá o imprevisível, não há muito que se possa fazer. Reconhecer isto é o primeiro passo para encarar as catástrofes e até para nos tornarmos pessoas melhores.

É sempre difícil lidar com o luto e a dor, principalmente quando é tão arbitrário que 64 pessoas sumam, assim, sem identificação e sarcófagos de cinza à beira da estrada. É duro e qualquer um de nós, em empatia, imagina-se no soçobro da existência do limite da vida. Custa, no nosso orgulho, aceitar que aconteça, mas é o mundo, horrível, sem grande sentido no geral, com a morte em potencial em todos os elementos à espera da tempestade perfeita. Ainda assim, este mesmo mundo, em que teimamos em ser maiores do que devíamos, é o mesmo em que minúsculos primatas com cérebro avançado combatem um elemento fogoso sabendo-se inferiores e ainda assim, erguem-se como heróis; é o mundo em que as pessoas dão as mãos e delas brota comida, água e abrigo para quem precisa; é o mundo em que no regresso à destruição, a pessoa dobrada se ergue para reconstruir o que foi seu, para recuperar no máximo do seu sonho aquilo que já foi, mas no fundo sabe que não volta. Neste duelo que desde sempre o planeta trava com a nossa espécie, e com traições da nossa parte, o nosso corpo pertence ao pó e ao domínio da Terra, mas o nosso espírito é o único capaz de justificar um orgulho próprio gigante, incomensurável. é um outro tipo de hubris, mas é nesta que, ao invés de nos agigantarmos em orgulho, humildemente reconhecemos que sem os outros não somos nada; e isto não é mito: é a realidade dos nossos dias, se assim quisermos fazer parte dela, abraçá-la e, num conforto de alma, reconhecer que só somos maiores do que nós próprios.

terça-feira, junho 13, 2017

Listas pequeninas


No grande esquema das coisas, o esquema das coisas grandes passa-me um pouco ao lado. Os objectivos maiores da existência de uma pessoa, aquilo que compõe os sonhos da gente comum, fogem-me como uma maré que recua à boca do mar, devorada pelo ciclo da Terra. Como tal, a tarefa de abrir os olhos nas manhãs e convencer-me a sair da cama é hercúlea e não poucas vezes um exercício de negociação entre, pelo menos, uns quarenta sete pedaços da minha mente. O acordo é complicado, mas alcança-se e as partes que defendem, fincando os dedos dos pés na terra ocre do meu cerebelo, que nada vale a pena, que deambular pelos dias respirando e apanhando com os estímulos do mundo nada mais é do que uma antecâmara do inevitável, são convencidas por um pequeno conceito, uma artimanha digna de um Ulisses anímico, que construí para derrubar as muralhas resistentes da dúvida: a importância do subtil e do discreto, da poeira que polvilha na estrada dos nossos dias o barulho das solas crocantes, os momentos pequenos que tantas vezes passam ao lado como órfãos da nossa estima. Parece que têm asas e nem as agarramos e vamos a ver, se passarmos num crivo os nossos instantes diários, estão ali como cola que segura a encadernação de um livro maravilhoso e de preciosidade superlativa. Agarro-os. Sei-os, conheço-os e cá em baixo, empurram-me no calendário.

A brisa do fim de tarde. As estradas longas onde solto o carro nas minhas mãos, o volante como uma lente com a qual absorvo um transe mediúnico que me põe em contacto com os fantasmas do prazer da estrada. O sorriso de garotos depois de uma piada solta a correr pela sala, rodeando-lhes os pés até à cabeça. Caminhar entre os campos, o sol transformando-os na maior mina de outro a céu aberto deste lado do Guadiana. Os meus ritmos, as minhas horas, as minhas escolhas numa casa onde pairo e navego à deriva boa das vontades impulsivas. Receber um "boa tarde" de toda a gente pela qual passo. Viagens de comboio que embalam a mente revolta num berço de estática. Praias desertas, mergulhos num mar sem ninguém, secar e voltar ao mesmo. Uma fatia de gelado depois do jantar. Ver o John Oliver à segunda-feira enquanto janto, num ritual que se repete. Pôr leituras em dia estendido na cama, encaixada num pequeno quarto que é tão literário quanto as páginas. Fechar a porta e sentir a chave no bolso antes de ir para a escola. Dançar sozinho na cozinha enquanto preparo uma refeição, sem julgamentos, sem me esconder. Ouvir chamar "Professor!" no recreio da escola e ouvir a pergunta mais idiota de sempre, todos os dias uma diferente, e querer rir mas não podes, só na sala dos professores. Auscultadores nos ouvidos no meu percurso para o local de trabalho. O sol das manhãs que começam às oito e tal, tímido e ainda frio, mas tornando a violência do despertar em algo de aceitável, como um regaço no qual me instalo para ser sussurrado e amado. A observação dos hábitos de gente diferente, num contexto removido do meu, aprender a ver o outro em perspectivas que não são minhas. Podcasts em ladainhas. Buscar as toalhas penduradas no terraço, o calor lambendo-me a pele com a ponta Fahrenheit. Pés no mosaico frio em tardes de Verão. As expressões de admiração depois de revelada uma informação mesmo incrível. Sentir-me em paz na solidão, mesmo que morda algo aqui dentro, um lobisomem insatisfeito que mais parece não querer lugar algum para voltar a ser homem.

São alguns dos meus berlindes, estes. Cheios de cores, encerrados em cápsulas de vidro, brinco com eles sempre que a ocasião se faz ladrão do meu bom humor. São uma ignição cuja chave guardo com firmeza dentro de mim, atrás de certos retratos de certas pessoas em acertos constantes. Metrónomos do ímpeto, agentes secretos na espionagem do meu relógio de humor, armas de arremesso fundas em estilhaço. Mantêm-me à tona, flutuando num alentejo com o mar longe, mas um oceano permanente onde manter.me à tona é o prazer no final de cada dia, quando me deito, quando sei que o sono tarda, mas que passou mais um desafio. Ganhe ou perca, é meu e o maior prazer é esse: a posse de mim e do que sou. Para dar a mim mesmo e a quem mais deseje receber uma prenda embrulhada de surpresa.


terça-feira, junho 06, 2017

Colos e Companhia


Durante praticamente todos os anos da minha adolescência, e alguns da pós, tive um sonho bastante recorrente. Deitado num chão branco de mármore, frio e passado por repulsa, abria os olhos sem entender muito bem onde me encontrava. Erguendo-me, rodeiam-me paredes pálidas de dó, erguidas à força do arrepio e sustentadas por um certo pavor que se encontra nas morgues. Dentro de mim, o sentimento é de que a morte não anda longe, puxa-me pelas narinas, lambe-me o pavilhão auditivo numa aspereza rouca. Vagueio, perdido e num vago instinto, para, sem entender bem como nem por que corredores e distâncias, dar pela minha pessoa numa imensa sala vazia, povoada em demografia única por um objecto lá ao fundo, no meio, equidistante dos quatro cantos. Aproximo-me, é um caixão castanho, muito simples, sem tecidos, só com a madeira como decoração. Olho para dentro e contemplo, assombrado, a minha própria imagem. Morri, mas vivo em desconhecimento de mim mesmo. veste-me um fato azul veludo, uma camisa branca. Não tenho marcas na cara nem expressões de terror: estou ali, mas o facto é que já deixei de estar de todo. A prova é que me observo, do exterior, e existo em simultâneo quando não existo. No sonho, demoro alguns segundos a percebê-lo e o dobro do tempo a aceitar e o triplo a sentir-me confortável, talvez um pouco mais. Mas cedo cai em mim uma perturbação lancinante que corta, constato que a sala está vazia por completo. É o meu funeral, deduzo, e ninguém veio. Ou será apenas no dia seguinte? Terei aparecido cedo demais? As portas estarão abertas para os convidados? Pressinto que tudo isto é inerte, que eu deixei de ser e ninguém apareceu. Só o meu fantasma desencarnado e embarco numa viagem mental buscando por justificações de desprezo e não encontro e pouco tempo depois acordo e sinto-me na pessoa mais só do mundo e só não choro porque nem tenho presença de espírito para invocar lágrimas.

Desde então, a solidão é o meu maior medo. E reparem que não é estar sozinho, erro comum cometido por muita gente, o de julgar que ambos os conceitos são iguais. A maior parte das pessoas tem, de facto, medo de estar sozinha, de fazer coisas a solo, de viver um mundo interno e experiências pessoais. O júbilo faz-me cócegas sempre que me lembro da expressão que algumas pessoas fazem quando lhes digo que quase sempre vou ao cinema na companhia de mim mesmo. Há ali um misto de surpresa, admiração e terror onde este último domina e uma incompreensão quase total acerca do que pode levar alguém a experimentar tal aventura épica. Sempre fiz muitas coisas sozinho: passear, caminhar, ver espectáculos, viajar, até mesmo existir. Se bem que nalgumas fases tenha sentido que tal se devia a uma extrema repelência da minha parte, com algum trabalho e encaixe fui percebendo que faz parte da minha natureza. Uma das minhas grandes lutas foi tentar conciliar a minha natureza solitária com uma outra necessidade, que existe em todos nós, de conviver. A solidão está ,aqui, o medo de que por mais gente que conheça e com quem conviva, todos vão, inevitavelmente abandonar-me. Não é tão idiota assim e tenho exemplos práticos, que não vou desenvolver. Talvez a grande parte da culpa seja minha, estou há anos para entender se sou boa pessoa ou não e acho que mudo de opinião umas dez vezes ao ano. Quero ser útil para os outros, estar lá, quero que se preocupem comigo e me recordem, quero que me deixem preocupar-se com as pessoas. Acima de tudo, quero partilhar o meu mundo e partilhar do mundo dos outros e tantas vezes me apercebo que estou tão mal equipado para ser social.

A solidão aqui em Colos leva-me a pensar ainda mais vezes nisso e factores da minha vida recente pesam ainda mais nesse pequenino mal-estar dramático, problema de primeiro mundo destacado. neste fim de semana, recebi visitas de amigos. Cada um está na minha vida há relativamente pouco tempo, não os conheço há mais de dois anos e meio. Com tempo, e num projecto pessoal, fui-lhes dando espaço, talvez provando que posso ter amigos e conquistar pessoas que não me conhecem desde a infância. Sei que esta ideia poderá parecer tola a muitas pessoas, principalmente quem me conheceu nos últimos cinco anos e ainda cá anda, e não sou nenhuma ilha, tenho quem se interesse por mim, quem ocasionalmente pergunte como estou e queira combinar coisas, mas parece haver em mim um tremendo medo, de abismo, que um dia o meu funeral não tenha alguém. Mas eles tinham dito que vinham, e vieram. Foi um fim de semana divertido e animado, passeámos e mostrei-lhes um pouco do meu quotidiano da casa, da escola, passeámos pelas praias da Costa Vicentina, visitámos monumentos e locais abandonados, rimos e mandámos piadas, entendemos as peculiaridades uns dos outros com portais e piadas idiotas à mistura, inseguranças e cansaço de viagens de carro, com a paciência para perceber ritmos e gostos diferentes, com a noção de que a amizade é o único local onde a teoria da relatividade não pode funcionar, pois o tempo nem existe, nem passa e pode-se dobrar e pontapear à vontade de quem aceita; e foi bom e gosto destas pessoas e sei que têm apreço por mim, não sou um idiota que considera que um trio com vida e ocupação viaja 350 km só num projecto de piedade, é algo que se faz por afecto, mas naquele local maligno na parte de trás da minha cabeça, há sempre algo que me devora em dentadas vorazes, uma boca de um inferno, onde tremo e vivo numa insegurança tremenda. Vai sempre existir, acho, vou aprendendo a lidar com ela sem danos colaterais e amigos como estes, por quem tenho mais do que respeito, uma amizade sincera e nalguns casos uma admiração que não nego, que me mantêm à tona.

Em dois dias fui um bocadinho mais eu, muito por causa de outros. Não sou o que o alheio faz de mim, sou o que sou, o que me constrói, mas partes de mim só revivem quando outros lhes tocam. Aprendo a ser humano, mais e mais, vendo e sentido quem me está exterior. Podemos viver connosco, mas há sempre um apelo qualquer, uma reacção química que nos torna moléculas que se querem agregar a outras. Neste fim de semana, a minha casa foi um laboratório e a reacção em cadeia atómica, ao ponto de me dar energia para algumas semanas. No fundo, nós, pessoas, somos um bocado isso: energia; e no mármore branco do funeral do meu sonho, são elas quem enche o espaço de flores e faz a festa enquanto o meu fantasma percebe que não morreu de todo: apenas se tornou matéria viva nos outros.

segunda-feira, maio 29, 2017

Acção


Já me debrucei nestes meus relatos alentejanos acerca do que é, para mim, ser professor. Não sou bom, mas também não sou mau e dificilmente inspirarei uma turma de garotos a fazer o impossível.Tento encaminhar alguns para chegarem às notas que correspondem ao seu potencial - através, habitualmente, de tiradas de absoluta ameaça - e se conseguir fazê-lo, já me dou por contente. Agora, uma coisa que passa por mim e nunca abdicarei é a de tentar abrir a mente dos meus alunos a outras realidades que, na sua vida normal, nunca lhes passariam pelos olhos; e neste terceiro período decidi ser literal e apresentar-lhes, nas minhas aulas de Direcção de Turma, um pequeno e muito rápido curso de estética cinematográfica: uma Introdução à 7º Arte, se quiserem. Em oito semanas, e nada mais, o meu 7º A, composto por alunos bem diversos e quase todos habituados a vida de campo e da terra, sentar-se-ia para me ouvir falar de Cinema. Ou seja, um serão que alguns amigos meus descreveriam como o inferno na Terra.

É consabido que eu e a Imagem temos uma relação profunda. Não tanto como a escrita, da qual dependo para funcionar e viver e organizar-me, mas ainda assim, dedico-me ao ecrã e ao movimentos das cores e dos sons numa narrativa como alguém que precisa de perceber o mundo através do que é indirecto. A Música esmaga-me e arrebata-me, mas é através da Visão, mais do que qualquer outro sentido, que consigo atingir uma certa plenitude do Ser que só se pode encontrar por quem ama algo mais do que a si mesmo; e se amei algumas pessoas a um ponto da ulterioridade e da elevação da minha matéria acima de qualquer espírito ou alma penada, e na combinação da forma e da paleta cromática que sinto, por fim, estar na alma do mundo. O Cinema mexe demasiado comigo e tudo o que mexe comigo está condenado aos outros, em dissertações exclamativas acerca do quão bom e e importante é no grande esquema das coisas: filmes, séries, locais, luminárias, até mesmo as mulheres que amo, tão poucas - são pretextos para me explodir em entusiasmo e afirmar verdades aparentemente imutáveis que mudam, claro, segundos depois de o meu assomo exultante. Se adoro algo com fervor e vapor, anuncio-o ao mundo, espalho entre conhecidos e posso dar por mim, assim de repente, a ver a colecção de fãs de Ludovico Einaudi crescer nas minhas amizades próximas, só para dar um exemplo prático. Claro que passo por arrogante e alucinado, mas sempre passei por isso, em parte porque sou demasiado apanhado pelo calor da conversa e da discussão, pelo prazer de divulgar e espalhar palavra. Porque sou eu e não sei ser de outra maneira.

Fazer compreender este entusiasmos a garotada de 12 e 13 anos que cresceu a sua vida acreditando que Vin Diesel é o Marlon Brando da nossa geração não é complicado; o pior é explicar-lhes porque é que há coisas boas e coisas más, quando vamos crescendo com a ideia da subjectividade total. Nada é bom ou mau: nós gostamos e pronto; e é assim que o mundo se vai afundando numa certa depreciação estética que urge combater. Há Bom e há Mau. Não necessariamente pelo nosso gosto, mas pelo trabalho que encerram, pelas escolhas do autor, pela qualidade e importância da obra. Quis fazer perceber-lhes isso. Falei de edição e direcção de fotografia; a boa e a má realização; as diferentes formas de interpretar (e bem) uma mesma emoção; a importância de ritmo e banda sonora na definição de uma cena; a maneira como o casamento entre imagens e som pode mexer com os nossos sentidos e percepção. Este trabalho com miúdos pode ser incrivelmente frustrante, mas se formos entusiásticos o suficiente, e eu quero acreditar que sou até com História (quanto mais Cinema), explícitos e escolhermos as obras adequadas, nunca esquecendo que eles pertencem a uma geração que mal conhece os nossos clássicos dos anos 90, as recompensas podem ser múltiplas. Ter uma turma presa ao duelo a três final de "The good, the bad and the ugly" fez-me sentir como uma vitória; explicar-lhes o jogo de olhos de Michael Corleone antes de matar o capitão de Polícia em "the godfather" e sentir que pelo menos alguns perceberam a diferença dessa genialidade e de muito over-acting que vêm em filmes também; querer sair da aula e um aluno pergunta-te acerca do filme cujo trailer mostraste - "The fall" - sabe mesmo bem, assim como ter uma turma em pulgasd para assistir a uma cena de uma obra rodada no só take. Fi-lo perceber lentamente que Kubrick e Scorsese são génios absolutos, ao ponto de me perguntarem se podíamos ver "The shining" na aula ou mostrarem curiosidade por "Goodfellas" e fazê-los partilhar a minha paixão por outros realizadores como David Fincher ou Guillermo del Toro ou mesmo Hitchcock é uma benesse que guardo na solidão de Colos.

Nas últimas aulas do período, o desafio está a ser o visionamento de um filme a preto e branco: "Casablanca". Viram a primeira meia hora: Rick Baine já entrou em cena dominando, Ilsa acabou de chegar ao seu café e a intriga dos vistos está completamente em marcha. Ninguém adormeceu ainda, só um mânfio (que tem a mania de que é moderno) reclamou por vermos uma obra sem cores vivas e até agora não tem corrido mal. Já me perguntaram se no final lhes posso dar uma lista das fitas cujos excertos passei na aula. Talvez sim, talvez não: neste tipo de coisas, sei que há certas regras de conduta, mas o professor é que tem o director's cut.