sexta-feira, agosto 18, 2017

Charlottesville



O que me espanta em tudo o que se está a passar de momento nos EUA não é a morte de alguém num confronto directo entre um movimento nacionalista violento - uma das minhas áreas de especialização foi a evolução da Ideologia Nazi, não há grande coisa no modo de acção da alt-right norte-americana que me surpreenda; a reacção de Donald Trump, um bacoco racista e demagogo, egocêntrico e vaidoso, ruídoso suíno e pose altiva e teatral, calando e acusando jornalistas, deve muito mais a Mussolini do que a Hitler. Hitler, pelo menos, escolheu uma equipa competente para lhe armar o caminho, algo que, sabemos, o agente laranja mostra uma clara incapacidade. Não, o que me deixa surpreendido é a velha tradição norte-americana de erguer uma outra tocha, a da Democracia, proclamando perante todos que estas situações são anómalas, pois a velha união federal de estados das Américas mais setentrionais é sinónimo em todo o globo de liberdades e valores humanos, a nação que por isso lutou e que defenderá até à morte. No entanto, etalvez o meu talento não esteja em abordar a filosofia e moralidade da coisa, qual Heidegger de Ceira; mas visto que tenho aprendido uma ou outra coisa de História, permitam-me que deixe aqui uns apontamentos que talvez desmintam este mito fundador da especialidade norte-americana.

Ora, começo já por desmentir que a Guerra Civil Americana, porventura o o verdadeiro evento fundador da identidade actual deste país, não acabou. A divisão dos EUA entre Norte e Sul durou quatro anos, e curiosamente começou e acabou no mesmo estado: a Virginia, esse mesmo onde Charlottesville fica situado. A Virginia é assim uma espécie de fronteira limite entre as duas Américas, uma com capital em Washington e outra em Richmond. Apesar da ideia generalizada de que tudo se sucedeu por conta da escravatura, outros motivos mais práticos e menos morais precipitaram esta guerra fratricida. para além de questões económicas, a ideia sempre presente de que estes Estados Unidos eram um acordo e não um casamento eterno levaram sempre alguns estados do Sul a crerem que, se assim o quisessem, podiam simplesmente separar-se da chamada União e seguir o seu caminho. Um conjunto de eventos e guerra independentistas noutras federações europeias deram mais credo a esta ideia e as diferenças entre um norte industrializado e cosmopolita e um sul feudal e com base em mão de obra manual e esclavagista levava a crer que se assistiam a diferenças incontornáveis. A Independência em 1776 envolvera na sua maioria estados localizados a Norte, que valorizavam essa conquista de uma maneira diferente. Pensando que a Norte ninguém se importaria muitos, sete estados do Sul decidiram declarar uma nova confederação poucos dias depois da eleição do rpesidente Abraham Lincoln, que tinha fama de pragmático e anti-escravatura. Mas o norte estava decidido a não quebrar a ligação entre todos os estados e desse conflito, surgiu a Guerra Civil.

Como se sabe, o Norte venceu teoricamente a guerra; no entanto, e apesar de os termos de rendição não terem sido particularmente humilhantes - Lincoln evitou sempre julgamentos sumários e considerar como traidores aqueles que haviam secedido - a situação posterior a 1865 não foi exactamente a que o Sul tinha na ideia. Ainda que alguns estados fossem periféricos, outros como o Louisiana, o Kansas e a própria Virginia possuíam grande peso populacional e económico e acalentavam a esperança de discutir a rendição como uma conversa entre dois países diferentes, que algo que Lincoln colocou imediatamente de lado. A reentrada na União fez- se a contragosto e o preço a pagar foi quase um século de pobreza permanente na região e uma divisão económica clara dentro dos EUA. Por esta ideia de destino não cumprido, de traição nortenha e dos intelectuais à causa sulista de viver de acordo com os seus valores e preceitos, a guerra nunca terminou realmente. A animosidade entre ambos os lados permaneceu durante décadas e a única coisa em comum era o ódio que tinham uns pelos outros e por outra ideia que tem sempre solo fértil em pós-conflito: o Ouro, o Diferente, o Estrangeiro. Carregando este espírito de desprezo por todo aquele que não é americano ( uma definição que não incluía necessariamente todos os brancos: irlandeses, italianos, polacos e outros emigrantes europeus foram tão mal vistos e mal tratados tanto quando os negros ou os judeus nos finais de século XIX e inícios do século XX), o Klu Klux Klan (KKK) surge no ano em que a Guerra Civil termina, 1865, e com períodos áureos e de ocaso, permanece hoje como uma organização. 

O século XX é charneira em muita coisa nos Estados Unidos, mas com este caldinho todo preparado, acabou por ser, acima de tudo, uma era de nós contra eles, independentemente de quem eram eles. O elemento racial era importante, mas também o religioso e político. O Diferente assustava e a única maneira de tratar dele era através da violência. Um supremacista branco ou um nazi não encaram outra forma de contemplar o problema, porque isso pressupunha que se dispusessem a ver o mundo de outra maneira. Não vêem, não podem: há amigos e inimigos, nada mais, apenas essa categoria. As décadas de 20 e de 30 são de um particular nojo: não só a política a nível nacional abraçava abertamente ideias eugénicas e racistas de uma forma perfeitamente relaxada - afinal, foi nos EUA, e não na América, que estas surgiram e foram aplicadas em larga escala, de maneira oficial, principalmente entre comunidades de negros - como aplicava um desprezo por raças diferentes, mulheres e até termos inocentes (a New Yorker, hoje grande bastião do intelectualismo liberal de Esquerda, não usou a expressão "papel higiénico durante anos, porque vários editores a consideravam nojenta) apanhavam por tabela. Os nossos amigos do Klan viveram uma era de furor, jogando inteligentemente com ódios específicos das regiões onde se queriam instalar e a sua popularidade era de tal forma que chegaram a ter, segundo alguns, oito milhões de membros a nível nacional, não apenas campónios e plebeus, mas também gente em lugares muito importantes, como governadores, senadores ou congressistas. Eram não apenas um grupo de terror, mas uma estrutura social: faziam piqueniques comunitários (chamados Klonklaves...) e na cidade de Detroit organizaram uma tradição natalícia em que um Pai Natal vestido de klansmen destribuía brinquedos aos petizes. A paranóia chegou a tal ponto que no Indiana, estado onde o Klan era particularmente numeroso, acreditava-se com seriedade que o Papa elaborara um plano secreto que mudaria a sua base de operações a partir do Vaticano para o Indiana. Imagine-se. Notícias loucas, notícias exageradas. Por outras palavras, notícias falsas. 

A ideia de uma raça superior como elemento presente no espírito norte-americano vem também deste período. Um grupo de académicos e cientistas, levados a sério, apresentaram uma preocupação: demasiados norte-americanos estavam a nascer defeituosos ou inferiores e sucessivas vagas de emigração obrigavam o país a acolher também a inferioridade estrangeira. Uma chatice. Os genes condenavam praticamente todas as raças e nacionalidades. Se acham que isto foi apenas uma teoria doida que mais tarde viria a encontrar eco na Alemanha, repensem: estas ideias levaram a restrições de deloscação, impedimentos de emigração, deportações massificadas, suspensão de liberdades civis e a esterilização voluntária de milhares de pessoas inocentes. Não surpreende saber que um presidente norte-americano, Herbet Hoover, era abertamente racista e considerava negros e asiáticos como valendo um quarto de produtividiade - ou nem isso - de qualquer homem branco. Não surpreende que os principais adeptos destas teorias fossem, como Hoover, ricos e possuindo um desprezo tremendo por qualquer pessoa em situação de pobreza. As relações entre os EUA e a Alemanha nazi foram por isso, nos primeiros anos, previsivelmente cordiais, ainda que a subida ao poder Franklin Roosevelt tenha colocado um outro tipo de político e de mentalidade na Casa Branca, que fez dissipar lentamente a influência da eugenia, mas não do racismo. A existência de vários partidos de inspiração nazi na América do Norte, dos quais os "Flechas prateadas" são os mais destacados, e vergonha que foram os campos de detenção de asiáticos no período pós-Pearl Habrour, juntamente com a continuação de testes médicos e experiências científicas não autorizadas em negros marcaram os meados do século XX neste país. A partir da década de 50, os Direitos Civis das minorias entram num periodo de enorme crispação do qual ainda não saíram, podemos dizê-lo com grande segurança.

Ora, um país com este historial não ganhou qualquer direito a surpreender-se com os eventos em Charlottesville, nem sequer a etiqueta de bastião da decência, da liberdade, do que quer que seja. A primeira Revolução Americana foi, de facto, uma luta para pagar menos impostos, algo que se vê pouco em livros de História e não tão inspirador quanto os eloquentes discursos de Ben Franklin e Thomas Jefferson. O mundo actual vive um período estranhamente familiar, mas em medidas diferentes. A comparação com o período do fascismo europeu na década de 30 é um logro, assim como a ideia de que estas forças de intolerância não são um reaparecimento do que seja. Sempre lá estiveram, sempre andaram por cá, este desprezo pela normalidade e pelo respeito mútuo é uma constante em vários países ocidentais e tomou proporções bem mais assustadoras em tempos recentes (como é o caso, por exemplo, de toda a Operação Gladio na Europa). A ideia da diferença como problema manifesta-se em todos os regimes ditatoriais ou democráticos e é sempre o ponto de partida de todas as atrocidades e atropelos do normal funcionamento democrático. No entanto, enquanto a deixarmos à margem, será sempre um corpo estranho e rejeitado por todos aqueles que desejam um bem comum. Mas nesta marcha, revelou-se que este período de vergonha e njo acabou: andar às claras já é permitido, assumir um comportamento racista é algo equivalente a qualquer posição conciliadora e tudo não passa de uma questão de liberdade de expressão a aceitação. Um presidente dos EUA recusou-se a condenar de livre vontade um acto de ódio, algo que não me lembro de ver acontecer em qualquer democracia da Europa ou do Norte da América depois da Segunda Guerra Mundial. Isto sim, é grave: não a existência de grupos de ódio, não a quebra da especialidade norte-americana, mas principalmente a normalização do que é, por natureza, anormal e errado em todos os sentidos.

Mais do que com Le Pen e os seus discursos ou o fantasma da extrema-direita europeia, este é um ponto mental importantíssimo na nossa História como espécie e como sociedade. O momento em que se aceita esta comparação é deitar ao lixo a nossa decência, o que esta dela. Os Estados Unidos não são um farol para o mundo, mas inevitavelmente tornaram-se num exemplo que dita regras e faz estender ou encolher os tentáculos da boçalidade violenta. Infelizmente, e para mal dos nossos pecado,s perante o fantasma do racismo viramos os olhos para a América. Como devem calcular pelo historial que enumerei, estes tremores que sinto são tão reais quanto a vossa estupefacção. 

sexta-feira, agosto 11, 2017

Sorriso


Vi-a pela primeira vez no último ano em que trabalhei no prédio. Não gostava particularmente do edifício, uma daquelas relíquias da mania arquitectónica no início de século cheia de transparências e curvas pretensiosas; mas gostei logo dela e da maneira como num sorriso, reescrevia quase todas as linhas. Acho que nem nunca tinha pensado como o simples acto de uma boca que se desenha em esplendor tendo pena e misericórdia pelo mundo real pode, de facto, mudar um dia, e nem sei quem ela era, como se chamava, apenas que tinha uma hora para almoço muito definida, que já nos cruzáramos várias vezes no elevador e no hall de entrada, e se calhar tanto tempo defronte de um computador, fiz uma perninha como programador durante esses meses para ganhar uns cobres, tanto tempo defronte de um computador tornou-me insensível ao mundo. Acontece, não pensem que não, a vida real é mais do que toque, é visão e audição e tudo o mais que existe lá fora quando nos dobramos por dentro. Mas ela, a sorrir, e nem devia ser para mim, ninguém me sorriria, revelava um novo tipo de linguagem que nunca aprenderia numa formação. Baqueei, estaquei e enquanto ela desapareceu na rua, até me esquecera de que a fome mordia. Era como se, de súbito, eu houvesse partido de mim mesmo.

Não tive coragem para descobrir mais sobre ela, nem sequer o nome ou a empresa em que trabalhava e encontrei-a poucas vezes mais antes de mudar de emprego uns meses depois. Cansei-me de computadores e li no jornal uma curiosa oferta de fotógrafo num parque natural. O meu irmão mais velho ensinara-me fotografia era eu um feto comparado com ele. Robusto, com mais dez anos do que eu, agigantava-se em tudo, até carácter, e sei que se aquela moça pretendia resposta ao sorriso, obviamente oferecera-o ao irmão errado. Também ele escondia um desses pormenores que altera um dia, no caso um tique de camaradagem involuntário que se manifestava pela presença calmante da mão no ombro. Não era preciso motivo, só pretexto. Sempre que eu tirava uma boa foto ou que me levantava depois de cair ou que levava um calduço desprevenido, estranho era se não sentisse a presença digital sobre mim, mas real, mais real do que uma fotografia. Quando lhe contei acerca daquele sorriso, de como pode transformar tudo apenas e só por surgir, ouviu-me mudo e mudou parte de mim desafiando-me "E porque não fotgrafaste? E porque não fotografas tudo o que nos pode mudar, ainda que pareça mais pequeno do que a mudança?". No dia seguinte li a oferta do jornal e quando me contrataram, nem pensei em mais nada. Continuo a olhar para ecrãs, mas desta vez participo, sem querer, quando observo os outros do lado de cá sou sentido como uma espécie de rede de segurança, de que alguém se expõe e mostra, mas porque a minha máquina os protege; e se capto algum pormenor transformador, capturo-o. Neste momento, tenho mais de 500: sorrisos, olhares, gestos e tiques, afirmações de estilo e de carácter, a Humanidade quando se oculta da descoberta de que pode ser tanto, mesmo quando todos nós, em conjunto, nos esforçamos por ser tão pouco.

Virou obsessão, devo confessar. Passo bastantes fins de semana pelas ruas da cidade, caçando e perseguindo, não há como disfarçar o que faço. Peço licença, não apanho ninguém desprevenido, mas sinto sempre que roubo pedaços de gente e fico com eles, que nem os mereço porque não tenho essa magia dos dias, esse triunfo sobre a mediocridade; e tenho sempre vontade de perguntar sobre pessoas, de perceber como é que alguns podem tanto e outros não têm poder algum. Se são boas ou más, se essas coisas contam quando se é especial, se apenas se limita a ser e a estar. Se abrem o peito ao mundo ou se carregam o mesmo às costas e é o sacrifício que lhes concede o dom dos nos mostrar o que há para além do que somos. Não encontro isso com a máquina, nem em ficheiros e fotos, e e mse assusta as noites, tento que não me ensombre os dias e que nem tudo tem de ter motivos, que algo pode existir por si só e causar prazer assim mesmo, redimir e mostrar, que um sorriso largueirão como um mar serve para nos lavar da tristeza, que um par de olhos verdes pode ser uma nascente de murmúrios secretos, que a tua presença, e tu és alguém que nunca vi, ausenta-me a falta de sentido e tudo o mais. Por isso pego na armadilha de imagens e acordo todas as manhãs. Isto, lembro-vos, porque um sorriso foi rastilho. É coisa pequena, sim, mas é assim que todas as explosões começam.

E não fazem, ainda assim, um barulho desgraçado?

terça-feira, agosto 01, 2017

O mergulho



Mesmo em dias de sol ardente, ou menos escaldante pelas brisas que o mar sopra em alívio de quem à sua beira se instala, obediente, noto em primeiro a areia nos meus pés. É um passo do degrau de madeira para a revolução do solo, um número contínuo e separado de partículas que afirmam a liberdade de se prenderem onde querem, a quem querem. É como não pisar sequer, uma imensa ilusão que do castanho ao amarelo, no espaço do brilho do sol, da intensidade da luz, pode parecer um campo de girassóis sem caule. Se um dia puder caminhar sobre nuvens, será assim, se ao menos as nuvens aquecessem a minha base. O que eu procuro, no entanto, está para lá das nuvens, mas também sob elas. A minha mochila descai desconfortável, um tombo que arranha. Do interior, a toalha estende-se quase sozinha, mas eu acabo sempre por dar uma ajuda. Em redor, quando há gente, morrinham na invariável preguiça do calor; quando não há, um milagre acontece e não precisa de senhoras e anjos. Surge, precisamente, por uma não existência, quando um vento sopra ao longe, um murmúrio roncando pelo areal, uma miragem de deserto lambido pelas águas, qualquer mentira que sinto nos olhos como verdade, mas tantas vezes os meus olhos me enganaram que a percepção é o engano da certeza. Mas hoje, aqui, há gente, chapéus coloridos, bolas em movimento agarrando pedaços de areia na superfície do divertimento.

A água chega para a carícia gelada, os meus pés aceitam e encolhem-se um pouco. Amar tem mar lá dentro, porque como este arrepia sempre ao toque inicial, nunca estamos preparados para a onda, para o torvelinho. Na Costa Vicentina, não sinto a gélida sensação do sangue que congela. O meu corpo está preparado. Um passo à frente do outro e cada onda estabelece uma nova marca nas minhas pernas. A frescura sobre gradualmente, um ou outro arrebatamento marítimo obriga-me sempre a saltar e o confronto com a espuma do mar transforma as gotas líquidas em alpinistas que por mim trepam. Primeiro passam o joelho, atrevem-se a chegar à cintura, na garantia de que mantenho a minha fertilidade intacta, e no momento em que o meu umbigo deixa de cuidar apenas de si e aceita que está entregue ao mar que o solta, a caminhada pela densidade da água já se torna mais leve, mais imediata: a pele aceita que a temperatura é a melhor, sem arrepios ou hesitações. O mundo é o mar, só. Dou saltinhos para escapar a uma ou outra onda, mas chega a altura de me entregar num salto de fé: é quando eles enrolam como se o mar fosse uma carpete e alguém estivesse a arrumá-lo. É nessa altura que me atiro. As mãos vão juntas, palma com palma, abrem caminho para a cabeça que não hesita. Um mergulho é atravessar um portal e do outro lado, encontra-se a delícia. Reergo-me, o corpo renovado, como se toda a superfície fosse nova. Limpo os olhos da água remanescente e quando os abro, a prata ondulante marca as vagas. Quase entrevejo uma pista de descolagem.

Faço-me de avião e levito sobre a água, braços abertos. Quando os fecho, mudo e sou um barco agora, esforço-me numa tentativa quase infantil de boiar e suportar assim, a minha solidez robusta, pesada desaparece e sou leve como me sinto poucas vezes. O que desaparece é o excesso de praticamente tudo e o mar é uma amnésia ondulante, cada vaga lava-me a memória. O oceano é traiçoeiro, ainda assim: uma distracção pode levar-nos para onde não queremos, correntes que disputam a nossa posse como se fôssemos valiosos, mas é então que me percebo que apenas me querem desgraçar. Aqui em baixo, as praias assumem uma componente rochosa por demais evidente e o banho aqui não é recomendado a cegos com pouca sensibilidade. No seu equívoco, pois o mar é apenas um génio de temperamento fogoso disfarçado de água, as ondas balouçam-me no embalo da dúvida, umas vezes puxa para um lado, noutras empurra para o outro. Os meus fincados no fundo marinho apenas tentam acompanhar a indecisão, onde não tenho nenhuma outra coisa a fazer que não esperar e resistir. Quando tudo passa, o processo de mergulho recomeça e dá-se sempre que quero; mas tudo o que é bom, termina e a toalha espera-me. Gosto de sair a caminhar com passos largos, espalhando água quando ninguém me rodeia, faço questão de brincar com uma força de muitas milhas de energia e largo, uma embocadura que rodeia continentes e amarra barcos enormes ao seu fundo. Agora, a areia congrega-se nos meus dedos, nos meus tornozelos, em cada fronteira de osso dos meus pés. Tombo como um morto cheio de vida, limpo a face sem outra ajuda que não a da toalha e num suspiro de prazer que nunca contenho, que não prendo por ser a expressão mais livre a que me permito no meu medo de ser feliz, de me sentir bem, finjo que me enrolo e que rio às gargalhadas cá dentro e que cada gota que escorre por mim nas estradas da minha carne, na minha forma que se pode descascar e a gargalhada continuaria na mesma, é um baptismo. Não todas as gotas: cada uma, individual, marca de um mergulho separado, de uma onda individual.

Não gosto de praia, mas o mar é-me fundamental. Hoje, que vou embora de Colos, sinto que a minha presença por aqui foi um pouco como entrar nas ondas e entregar-me. Levo coisas que não trouxe quando cheguei, deixo algumas nesta casa que deixo, ruminações principalmente, umas uma experiência de viver só, de reaprender os fundamentos do isolamento, de não adormecer o nervo exposto que é a minha sensibilidade e a desorientação de quem ainda não percebeu o que anda a fazer por cá. Mas no fim de contas, há a toalha onde me estendo e descanso, onde o suspiro é o que me agarra à vida, onde o meu corpo é repouso e a alma não se atreve a desassossegá-lo. Não sei o que me espera quando regressar a outros mares.Deste levo uma segunda pele, de sal e de pó, daquilo que o calor molda em nós quando deixámos. Um calor seco, uma luz do sol, ser eu quando não há mais ninguém. Levo um pouco mais do que é viver no quotidiano. No meu colo, de Colos.

quinta-feira, julho 20, 2017

Render da guarda




Há semanas, numa das idas à terra (uso esta expressão pelo simples motivo que me faz parecer um emigrante a sério, um cosmopolita desenvolvido que abandonou a sua aldeia perdida nos montes à procura de uma vida melhor, uma personalidade ao nível dos sonhos de menino de um Tony da Pampilhosa), envolvi-me numa tradição com a qual cresci, mas passei ao lado: a festa-baile, com direito a tudo de bom - bar, quermesse, porcos em currais, jogos para todos, aquele tipo de coisa que nos lembra que por muito que leia Maquiavel ou Tony Judt, que saibamos explicar de trás para a frente Tarkovski e Kubrick, sou um aldeão de cima a baixo. Maquilhem a Luciana Abreu quanto quiserem, mas ela nunca deixará de parecer uma sopeira da Trofa. No meu caso, é algo de semelhante, excepto que o meu silicone é tecido adiposo; mas passando da vaca quente para a vaca fria, a minha presença despertou desde logo sobrancelhas em arco de volta perfeita, rumando pessoas na minha direcção com a plena certeza de que era eu e não um clone ou um holograma. A minha relação com festas é semelhante à que um obeso tem com restrição e auto-controlo, logo a desconfiança era justificada. Mas quando quero, até sei ser humano, ou finjo de maneira competente,  e lá fui conversando, escutando, estando simplesmente. Num certo ponto, um rapaz que servia no bar saudou-me e no meio de todas as habituais perguntas a quem vive no Alentejo ("Faz calor agora, não é? Aquilo é muito isolado? Vens de comboio ou de carro? Passas o tempo todo na praia, admite lá"), saiu-se com uma daquelas tiradas que já ouvi várias vezes na vida: "Ainda bem que estás a dar aulas, tu nasceste para ser professor. Podes não acreditar, mas comunicas muito bem. Tornas cativante até mesmo coisas pelas quais uma pessoa não se interessa, poucos conseguem fazer isso. Os teus alunos têm sorte".

Quem já rodou por aqui, sabe dois pormenores que tornam esta afirmação algo de irónico. Em primeiro lugar, não me vejo como professor, como já admiti num texto sobre o assunto; em segundo, encaro elogios como quem leva pancada; e sim, eu sei que tenho problemas sérios e profundos, daqueles que necessitam de um psiquiatra, um exorcista e um guru New Age em atendimento permanente. Veio comigo, aquela opinião, principalmente porque me preparava para encarar a recta final do ano. Não dava aulas desde 2011 quando vim para aqui e todos os rudimentos de estar numa sala a formar crianças e adolescentes perderam-se por cima do Atlântico entre a Macaronésia e Portugal Continental. Quase seis meses passados, continuo a ser uma mangueira de alta pressão a quem fizeram um corte, cavalgando em tensão na atmosfera. Sendo justo, a experiência não é má. Tensa, sim, mas eu consigo transformar o yoga numa corda de viola esticadinha até à última fibra: é a minha cena, como diz a pequenada que passou este tempo todo a ouvir-me falar de História, numa tentativa desesperada de lhes fazer perceber que sim, é importante, e que não, não serve apenas para testar as capacidades de memória de petizes. Gosto de transmitir conhecimento, mas de maneira mais informal - à volta da mesa de café, em caminhadas pela cidade, com amigos numa sala - e embora assim invariavelmente o papel de quem quer ensinar, e se torna algo insuportável por isso, estar numa posição professoral não é algo que me agrade. A razão é simples: a responsabilidade de reduzir conceitos complexos a um público que se esforça para entender a narrativa de um filme sa saga "Fast and furious" é um esforço que me obriga a ser algo que, por muito que tente, nunca serei: um empata intelectual. A minha dificuldade em descer um pouco ao nível de quem menos sabe afecta-me de alguma maneira e sempre foi uma espada e uma parede: se sou demasiado óbvio quando o faço, parece que trato os outros como mentecaptos; se é imperceptível, existe logo a acusação de que me estou a armar. É certo que os alunos só pode trocar estas estocadas no intervalo, entre si, raramente se atrevem a dizê-lo nas aulas. Mas é sempre um risco.

Desconheço se os quase 60 garotos que se sentaram nas minhas salas de aulas este ano saem mais conhecedores de História ou menos. Dá-me ideia que alguns, pelo menos, se foram embora mais interessados. Uma das coisas boas desta posição é demolir preconceitos e esclarecer tanto lixo que se ouve, demorar-me o suficiente em pontos absolutamente necessários neste mundo actual estranho e cada vez mais subjectivo nas atitudes dos seus protagonistas. Fiz questão de explicar de forma mais demorada o que é, de facto, o nazismo e o fascismo e o perigo de qualquer um deles regressar; o arrepio que me percorreu quando senti as minhas turmas de 8º ano num silêncio beatífico perante a minha explicação do quadro "Las meninas", de Velazquez e os segredos que encerra o que é na aparência um simples retrato trouxe-me um sentimento que raramente possuo, orgulho; uma aula sobre mitologia grega no 7º ano transformou-se em 45 minutos de ter um grupo de gandins controlado pelo puro poder de pequenas narrativas que os Gregos usavam para explicar o mundo. Não estou convencido em nada que ser professor é para mim, mas para mim, sou um professor convincente, pelo menos. O trabalho burocrático (e que me acaba sempre por me calhar...) é um contra, por completo, é claro; mas a sensação de despertar qualquer coisa lá no fundo de seres humanos que ainda agora entraram numa idade de descoberta de conhecimentos e emoções mais evoluídos, que se podem ainda moldar e captivar, é algo no qual, aparentemente, sou bom. É algo a favor.

O meu trabalho aqui por baixo está quase no fim. Não sei se deixo herança ou lembrança, se para o ano os meus alunos recordarão um professor de História que surgiu a meio do ano para lhes dificultar a vida. Mas noto como, quase em tudo, a vida é sempre injusta no esforço e na memória, já me habituei a isso noutras áreas, de ser importante num momento e ignorado toda a vida. O que me interessa mesmo é que fique algo da centelha, da simpatia pela curiosidade, da vontade de parar um pouco e reconhecer que o único lugar que o saber deve ocupar em nós é naquela poltrona a partir da qual observamos o mundo com olhos de ver e um leve trejeito de sorriso reconhecendo que há tanto de fascinante como de decadente e que isso é o mais natural. O professor de poltrona: ora aí está uma maneira pela qual não me importava de ser lembrado.

quarta-feira, julho 12, 2017

12 de Junho


Soube da morte do meu pai três horas depois de ter estado com ele. Não sei se estranhei ou encolhi os ombros, não notei nada de diferente. A particularidade do padecimento de uma doença prolongada, longa, lenta, que age como um ladrão a longo prazo que vai tirando e tirando e tirando sem que se note sempre muito, mas que em pouco deixa uma pessoa sem nada, é que nunca há crises constantes. Acontecem de quando em vez e respira-se, fala-se quando se pode, mas morre-se, morre-se assim a vista de toda a gente mas escondido por dentro, uma toupeira que rói e esburaca e cada túnel invisível conduz a uma cova. É muito isto. Não vos sei dizer se havia algo de particularmente agourento no seu aspecto da última vez que o vi. Acho que não. Nos últimos dois, três meses, as diferenças são subtis e mais notórias para quem não está envolvido. Eu estava, embora passasse o tempo todo a dizer que não, até a mim mesmo. Foi por isso que quando recebi a fatal notícia, a minha primeira ideia nem foi chorar ou cair em mim. Pensei nos pormenores do funeral, de quando seria e dos horários, de quem viria, se muita ou pouca gente, da necessidade de preparar, de ajudar a minha mãe, que levou com a lambada bem mais do que eu, de estar ali. Sou uma pessoa depressiva por natureza, mas funcional, mesmo nas minhas covas mais côncavas. Assim reajo, assim vivo. Mesmo com o meu pai morto.

Rapidamente apareceram alguns elementos da família. A minha retirada de cena foi célere e já no sótão, a dois andares de tudo, cumpri uma promessa: por esses dias, eu e a D. estávamos naquela fase de ocaso que caracteriza a passagem de quarto minguante para Lua Nova. Nunca percebi muito bem o que se passou. Acho que nem ela, mas com o tempo entendi que as pessoas são assim muitas vezes, não se entendem, nem a elas mesmas, e depois é difícil entenderem-se com os outros. Éramos ambos inteligentes, mas não para aquilo. Ainda assim, o que nos faltava em entendimento sobrava no carinho que mantínhamos mútuo, um vapor tépido, e ela fez-me prometer que se algo de decisivo acontecesse, ligar-lhe-ia. Ora, a ocasião parecia pedir a minha lealdade. Do outro lado da linha, alguns segundos de silêncio. No tempo em que estivemos juntos, abri-lhe este lado da minha vida, conheceu o meu pai, acompanhou-me, susteve-me até. "Queres que vá já hoje? Saio do trabalho às 2.00". Não, era melhor não. À janela, olhava para o céu e as estrelas pareceram-me um pouco baças quando ouvi isto. "Vem amanhã de manhã, espero-te na estação". Se estava bem? Disse-lhe que não sabia, e era verdade, a dormência é elevada nestas alturas. Não desligou antes de me tentar confortar, de sentir em cada letra um beijo, em cada palavra uma cama onde nos podíamos encostar um ao outro e sentir que no mundo havia algo de bom.

Na manhã seguinte, a notícia já se espalhara. O meu pai morre a 12, o funeral é a 14 e 13 é azar, não só porque é o primeiro dia em que o meu pai não está de facto, mesmo lá longe, mas porque há muito mais gente que, não vindo substituí-lo, lhe ocupa o lugar com as memórias que traz. Já fui a vários velórios. Sei que o morto se recorda com histórias e gargalhadas, com alguém que traz mais um "Lembras-te quando...?". Ali, a justiça divina foi questionada várias vezes, para depois ser assentada como existente, que não vemos os desígnios de Deus, que este escolhe maneiras de testar os seus seguidores e senti vontade de testar a estabilidade e graça da minha mão nalgumas faces. Decidi ir buscar a D. Encontramo-nos, não sei bem como reagir. O que somos? Ela abraça-me: sei que o que somos é muito menos do que amamos e basta-me. O abraço é longo, queremos chorar ambos mas não ali. A minha mão é agarrada e só será solta no fim de tudo. No regresso a casa, vejo já imensa gente: vizinhos, antigos vizinhos, antigos colegas, gente que conheço desde criança. A D., para todos os efeitos, é apresentada como minha namorada, porque já há complicações a mais entre vivos e mortos. Ao longo do dia, e antes da chegada do corpo do meu pai, a minha casa é invadida por pessoas que sofrem e outras que querem sofrer, mas não sabem como. Vi homens que habitualmente transformam o mundo no melhor dos espaços através da sua boa disposição com ares tão cabisbaixos quanto um pântano cheio de algas. Encostados aos muros e às paredes, sustendo o sol, tentando fugir da realidade tomando para si a responsabilidade de tudo: contactar pessoas para informar que o Vitinho morreu, ajudar a coordenar o funeral com a minha mãe, pondo-me a mão pelas costas porque já me viram com um metro e menos, porque o meu pai fez parte da vida deles mais anos do que da minha, porque o conhecem sempre e agora foi-se, e eu sei que se foi e não nego nem fujo, mas a morte é sempre uma coisa tão natural e fluida, como um ar que nos dá e que se deu, como um momento de transição para nenhures.

As horas de velório são uma viagem surreal ao meu interior. Quanto mais pêsames me dão, menos me pesam. Adopto gestos maquinais, frases cliché, aceito os outros, que conheço na maioria, como estranhos que não vejo de momento. É um cortejo de espelhos foscos com a mesma cassete. No caixão aberto, o meu pai, de olhos fechados, dorme, mas não ressona. A D. está ali e não foge, mesmo quando uma e outra vez tem de falar e estar com gente que nem nunca viu na vida, nem voltará a ver. Quando me sinto a desfalecer de tédio, de sair dali e não estar, os olhos dela garantem-me que é ali que estou como devo, com ela ao lado, e de repente o que resta do mundo que conheço tolera-se, com algum contra-gosto. Não me recordo da maior parte das pessoas, se vou ser honesto. Sei que aceitei muitos sentimentos, ouvi muitas queixas de como tudo era injusto para o meu pai, de como só me apetecia arrasar a capela e gritar a todos que sim, que era injusto, que vi gente ali cuja perda não pesaria tanto, de que foda-se, o meu pai nunca esteve doente a vida toda e está uma vez e morre e que mundo é este onde a única coisa que todos querem fazer é estar e sentar e encolher os ombros porque a vida é assim? Tem de sê-lo, tem, temos de assobiar descansadinhos e numa sentença de morte levar ano e meio a sumir e encher assim um espaço de gente que sente falta? Não, não devia ser! Mas amigos antigos surgem, a L. abraça-me sem dizer palavra, num repelão como se quisesse levar-me dali e a mão da D. não larga a minha e no meio de tudo, de todo o luto e da perda, de quem chega e diz baboseiras, de quem chega e sabe que palavras colocar para que eu não caia num buraco, no meio de tudo, no meio de tudo isto a sua mão é o meu mundo. No meio da morte, é um pouco de vida; e o meu pai não me fez para estar morto enquanto respiro.

O momento mais doloroso desta experiência, para mim, foi o fecho do caixão. Nas semanas seguintes, pensei em como a imagem e a forma, o corpo e os olhos, são de facto o que nos liga ao mundo. A tampa cai e o meu pai deixa de estar visível. O meu irmão, que passou dois dias a enganar-se e com um ar fleumático, numa resignação de que sabe o que espera porque a vida está mapeada e segue determinados trâmites, cai por fim. Chora desalmado, lágrimas que salpicariam as paredes se ao menos ele deixasse e abraça-se instintivamente a mim, um fenómeno cuja ocorrência só pode ser comparável a uma decisão sensata de Donald Trump ou a Marcelo Rebelo de Sousa negando-se a uma foto. Eu choro também, um pouco porque o momento me bate tão fundo quanto uma bomba atómica detonada em profundidade, um pouco porque não deixo o meu irmão mais novo chorar sozinho. Carpimos ambos e é verdade, ele não volta. É real por fim, andámos a enganar-nos. A minha missa é passada em estoicismo, procurando pormenores de uma igreja que conheço de trás para a frente, pois uma boa parte da minha vida está dentro daquelas paredes. Só quero fingir que não estou ali. Noto que o espaço está tão cheio que gente ficou de fora. É uma segunda de manhã, atentem. Acho incrível e de certa forma surpreendo-me. A minha relação com o meu pai não foi próxima. Não me estou a queixar, às vezes é assim quando as incompatibilidades se amontoam. Mas era meu pai, claro, e ver tantas caras pungentes, pesando em si o momento numa perda inconsolável, suspiros sérios e olhares líquidos, memórias que não se perdem e só ganham substância na certeza de que são tudo o que sobra quando não há nada mais, conforta-me de alguma maneira. Catrapisca-se no enorme radar da existência, mas deixa-se marca. Não dá para a imortalidade, mas é um feito e conhecendo de onde veio aquele que me fez a meias, garanto-vos que é uma vitória sair do mundo quase em ombros.

O funeral foi o que foi. É o fim. Gente vem do nada para chorar comigo, gente que se aproxima e ainda hoje é próxima. Passaram três anos desde que recebi aquela notícia. Do alto desta torre, espreito então esse 2014 e ainda o sinto como um atropelo. Não me recordo de ter tido um ano tão intenso em toda a minha existência, em esplendor e ruína. Nunca mais fui o mesmo depois, em tudo. Quebrei regras pessoais, estiquei os meus limites e ainda hoje envergo um guarda-chuva de amianto, para me proteger da chuva nuclear resultante. Há muito mais histórias em 2014 e se a curiosidade vos espicaçar, sugiro que leiam o que está para trás nesta ilha e tentem decifrar. A D. esteve comigo até ao fim, mesmo quando criámos esses mesmo fim para nós. Sinto que passei por estes momentos de perda com os seus ganhos, pelos pingos do aguaceiro por sua causa e nunca me esqueci que apesar de se parecer tantas vezes com a tômbola do Jogos de Santa Casa, o grande desenho da existência não é linear. A nossa maior dor pode oferecer-nos uma cura milagrosa e quando alguém desaparece, o buraco só fica se o deixarmos por tapar. Ainda que o sumiço seja o mais definitivo de todos. A D. doeu-me tanto, ainda me comicha um bocadinho às vezes quanto estou sozinho e sopro bolas de sabão invisíveis, mas aumentou o meu coração em escala macro. Nunca lhe agradeci isso, nunca lho disse. Talvez o leia aqui eventualmente.

Se for sincero, o meu pai não em ensinou assim tanto sobre a vida. Não porque não soubesse, mas porque não me sabia explicar. Nasci-lhe estranho. Fui a primeira criação e talvez lhe tenha saído mais do que a encomenda. Nunca percebeu bem o que era, apenas que não seria mau ou de deitar fora e passou o resto da vida, se não a tentar entender-me, pelo menos a garantir que nada se atravessaria no meu caminho de me entender também. Não sei bem o que pensaria hoje de mim, se me tornei em algo que ele acharia aceitável como pessoa, se lhe carrego a memória como devo, se não traio de alguma maneira a expectativa de quando lhe deram também uma notícia, mas a de que ia deixar de ser apenas marido e GNR, mas também aquilo pelo qual o tratei durante esta história toda: meu pai. Talvez tenhamos deixado muita coisa por dizer, mas se a vida fosse feita de finais felizes, ninguém queria lê-los ou vê-los. Sei que estou aqui e ele não. O mundo é um pouco pior por isso: não pela minha presença, que algures levará a alguém um certo conforto, mas não estando ele, fico sempre com a sensação de que os homens decentes nunca estarão completos. Por mais anos que passem e por mais bébés que nasçam, sinto que nunca o estarão; e essa talvez tenha sido a morte mais esmagadora desse dia.

sexta-feira, julho 07, 2017

Infantilidades



Há um estranho efeito secundário de se ser professor e que nunca vem contabilizado nos problemas de saúde derivados da profissão. Não é físico, embora afecte o corpo em escalas quase imperceptíveis, e funciona um pouco como a exposição a uma substância radioactiva muito perigosa, invariavelmente letal, que causa uma dor profunda na nostalgia, no bom senso, no bem estar. Falo do adolescente, esse pequeno concentrado de hormonas, mas acima de tudo de potencial e sonhos em abertos em copa de árvores, raízes profundas, um tronco rijo que espreita o futuro a partir da sua altura e ignora por completo que este é uma moto-serra que espera apenas uma volta de corda para iniciar a sua tarefa intrínseca de abater florestas de optimismo. Tive uns 60 alunos este ano e em quase todos eles senti aquilo que já me foge, ou seja, a capacidade de acreditar que tudo é possível e que todas as hipóteses têm igual probabilidade de voar se assim lhes soprarmos.Mais do que idiotas irritantes (que também os há) ou velcros de chapadões que nunca poderei dar, os mânfios e mânfias pelos quais passei pelo corredor todos os dias lembram-me da minha própria caminhada em direcção à velhice, de que o tempo, como o crocodilo que persegue o Capitão Gancho, nada nas profundezas, esperando a melhor altura para me transportar consigo para elas, não me deixando sequer a carne nos ossos. O tempo corre e nós corremos com ele numa maratona em que perdemos por chegar em primeiro. Viver é a única prova de atletismo a subverter as regras habituais da competição e também por isso se torna cada vez mais paradoxal com o remar dos anos.

Apesar de alguns mitos de que já nasci velho e carrancudo, também eu nasci criança. Acredito haver uma ou outra testemunha a comprová-lo, se por aí indagarem. Não sei se me revejo totalmente num aluno que tenha tido jamais, mas há pedaços de mim nalguns, até nos mais parvalhões. A criança e o adolescente não são tão diferentes assim: ambos sabem pouco do mundo e querem descobrir - a criança é a única que tem o bom senso de fazer as perguntas em primeiro; e mesmo quando se chega a adulto, não se deixem enganar pelas frases feitas das redes sociais: a criança mantém-se lá, apenas desobre que afinal o recreio é outro: ninguém lhe faz a papa à borla, a sesta é muito opcional e andar nu pela rua é aceite com muito menos tolerância. Há uns dias dei por mim a pensar na minha infância e fiquei espantado por me escaparem boa parte das memórias numa primeira busca. Não estavam à mão de semear, nem ao pé de colher: de facto, pelo tempo demorado, julguei até nunca terem sido semeadas. Mas eu sabia que sim e fui desvelando; mas só isto fez-me perceber o quanto essa tal criança que não morre está a desaparecer. A criança perpétua vive na exacta proporção do optimismo. Se repararem, é tão raro ver crianças com negativismo nos olhos. É por isso que se espalham e aleijam, porque acreditam, contra todas as probabilidades da lógica, que aquele salto é possível, e que o muro não é assim tão sólido, e que deslizar em cima de uma casca de eucalipto faz tão bem às vias respiratórias quando o que conta aqui é a conta a pagar num ortopedista. São elas que crêem que os pais se amam muito, mesmo quando não amam, e que o Pai Natal pode existir, e que na Páscoa é o Jesus quem vem a casa, e que estamos quase a chegar mesmo que faltem cinco horas. As crianças não são ingénuas, porque a ingenuidade implica um desconhecimento do mundo. Elas apenas fingem que este não se encontra lá, que as regras são tão moles quanto a plasticina e fáceis de partir como rebuçados na boca. Afinal, lembremo-nos que esta é a fase da vida em que os dentes caem e crescem. Miúdos vêem-se como Wolverines. Para quê acreditar no pior?

Gostava de me ver como na minha foto preferida onde apareço desdentado da vida, mas morto de felicidade, sem me importar sequer com fotogenias. Só feliz. Ser filho mais velho é também ser o filho amado, ser aquele desejado pelos pais como nenhum depois, ser numa espécie de milagre, de realização de que duas pessoas podem produzir outra, têm essa divindade em si. O primeiro apanha com os efeitos de tentativa/erro, mas é também esse farol pelo qual certas mães sonham e outros pais, anseiam. Não sei se estou a pensar naquilo nessa foto. O mais provável é que tivesse acabado de ler um livro qualquer, uma enciclopédia. Mas quando me fui esquecendo daquilo que é tão meu, que me constrói, soube que algures em mim, num canto talvez entre o estômago e o coração, os dois órgãos preferidos das crianças, a minha infância meteu férias e não sei se volta. Podia culpar o mundo, mas na generalidade a responsabilidade é minha. Sou eu quem toma conta dela; e se bem que não posso controlar a morte e os seus efeitos, tomei gosto de adolescente e decidi, depois de anos a guardar-me como uma caixa-forte, investir em negócios que o meu coração não pode nunca pagar. Como eu disse, um adulto é uma criança potencial menos na biologia, e em questões amorosas, não existe a velha infância: existe uma burra permenante quando se quer provar o que afinal todos os autores literários sabem estar errado - que querer não é poder, é às vezes foder e quase sempre roer a corda que nos prende à inteligência. Depois de quase trinta anos de babysitting, a criança foi deixada refém dos seus próprios meios e o resultado é um castigo permanente, pior do que não ver televisão a seguir ao jantar ou ficar no quarto de luz apagada.

Nem sei bem se o desdentado regressará. Sei que pode parecer uma preocupação menor comparada com a realidade da vida dos adultos, mas é ele que mais me preocupa, que mais procuro, que quero recuperar. Sei que sem ele não estou completo e que sem o seu inestimável contributo, parei. Sou feliz na mesma proporção da estupidez natural que sempre me dominou e que leva muita gente a questionar a minha sanidade, que arranca de mim loucuras temporárias e solta interrogações permanentes, perguntas e curiosiade, voracidade intensa de conhecer e descobrir, estar nos outros e ser neles, simplesmente sorrir na presença de quem me prende num fogo de rabia. Sei que partiu, sei que anda longe, não o ouço ou sinto ou vejo. Apenas espero; e se a criança é esperança, esperar é aplicá-la em mim. Talvez se esperar, mesmo com muito compromisso, essa espera se transforme em esperança e o miúdo perceba que já chega de brincadeiras.

Está na hora do regresso.

quarta-feira, junho 28, 2017

Briefing


Há uns meses, prometi-vos que me dedicaria à escrita de um livro. Não pensem que o projecto tem sido esquecido, apenas avança mais lentamente do que desejaria. A história está delineada por completo (o que, acreditem, não é de somenos), mas colocá-la de facto na realidade tem-se revelado uma assombração. Pensei que o isolamento alentejano contribuísse para a questão, mas enganei-me. No entanto, e para provar, que as minhas intenções, como as de um cavaleiro em busca de cálices míticos, são reais e puras, deixo-vos aqui dois pequeninos parágrafos que tenho para já e que provarão duas realidades: uma é o possível tema desta empreitada; a outra é o claro equívoco de alguns de vocês quando me encorajaram a escrever um livro, convencidos de que teria talento para tal. De qualquer forma, espero que apreciem.

"Foi num livro roubado que Paulo descobriu o que era uma experiência de quase morte. Tudo o que lhe ensinaram na faculdade tentou empurrá-lo para nem acreditar que, confrontado com a finalidade da existência, algo mais se levantasse, um eu indefinido, a tal alma de que falavam os que julgam saber um pouco mais sobre a vida. Mas leu o tal livro no segundo ano académico, quando ainda prestava atenção às aulas, e na sua cabeça ficou a leitura da pesquisa feita por uma doutora canadiana. Vestindo um chamamento de algures, dedicara toda a sua carreira a estudar e a conviver com a morte, sob a forma daqueles que, no fim da linha, lhes desvelaram o novelo dos medos, das ansiedades e do desconhecimento daquilo que existe para lá epílogo da maior obra de todas. Não cabia no entendimento de Paulo que alguém passasse tanto tempo perto do agouro e da previsão certa do futuro, de escrever, minuciosamente, um retrato do que a esperava. Mas essa doutora canadiana, que explicava ter perdido um filho para o cancro e que se intrigava com espiritismo e fantasmas, embora nunca tivesse experimentado nem um nem outro, concluía o contrário: deslindar a Morte, deslindar o que está para lá do temor, era a melhor maneira de enfrentar tudo isso com calma e serenidade, de aceitar os factos e assim valorizar muito mais o ar que se respira. Na sua pesquisa, recolhera então alguns factos surpreendentes.


Morrer atrapalhava o corpo, e no momento em que morres, ambos têm um diálogo. O corpo não percebe o que se passa, e a Morte, generosa mas pouco paciente, faz-lhe perceber os factos muito depressa, o que atrapalha o corpo, que não concebe outra realidade que não seja viver. Habituou-se a ser sólido, a existir, a ser matéria e tudo o que compreende é absorvido na pele e pela experiência dos sentidos. A vida não é senão um conto sussurrado pelo mundo onde vivemos, um mundo exterior que nos estimula e agarra, cheio de sons e visões, cheiros e sensações, que nos desenham e tomam a forma bípede com que tentamos dominá-lo. A missão imediata da Morte é convencer-nos de que a realidade é a percepção de tudo. A retórica é convincente no seu tom habitual, e então a respiração diminui, o coração pára e somos pó de memória algures nas frinchas da nossa identidade. Perde-se a visão, o movimento e até a dor, sobram apenas a calma e o silêncio. No entanto, para espanto de quem espreitou para lá da cortina, ficamos nós também. Tudo parece ser mais natural, até não respirar, muito muito mais, e o mais estranho é que a vida não termina com tudo isto. Continuamos a pensar, a dizer piadas, a perceber, a pressentir, e a confusão inicial é essa: sempre nos disseram que se vive no mundo, e afinal a Morte nada mais é do que despir o corpo como se fosse um casaco. És mais tu sem o teu corpo, este é uma jaula, um caixote onde vives, e abandoná-lo dá acesso a uma liberdade que nunca pensámos. Morrer é como trocar de casa; ou melhor, é como mudar a estação de rádio que estamos a ouvir. Clica-se no botão, recebe-se o AM em vez do FM, e a nossa consciência segue, vagueando."

terça-feira, junho 20, 2017

Hubris


Diz muito de mim que uma das minhas histórias preferidas acerca do espírito humano envolva uma tragédia que matou dezenas de pessoas. A 20 de Março de 1980, o monte St. Helens, um vulcão julgado extinto no interior do estado de Washington dos EUA, anunciou ao mundo através de rugidos que os rumores da sua morte haviam sido manifestamente exagerados. Os vulcanólogos americanos não sabiam muito bem o que julgar disto, pois apenas estavam habituados aos vulcões do Hawaii, que são mais escorredores de lava. Adoptando uma política de esperar para ver, à medida que o vulcão começou a expelir magma em pequenas quantidades e o barulho aumentava, decidiu-se criar um perímetro de 13 kms em redor do vulcão, proibindo a passagem de pessoas. Mas o cidadão comum não sentia como um perigo potencial: era uma atracção turística, um divertimento e todos os fins de semana, centenas de pessoas subiam as encostas do vulcão para sentir e ver o espectáculo. Equipas de televisão chegaram de todo o lado para reportar o fenómeno, apontar os melhores pontos de observação. Helicópteros voavam por sobre a cratera esfumaçante, com reportagens divertidas. No entanto, o tempo foi passando e tanto barulho não dava em nada. As pessoas, impacientes, achavam que o vulcão não ia explodir e que desilusão seria esta. A 19 de Abril, o lado esquerdo da montanha começou a inchar. Os cientistas foram incapazes de reconhecer um sinal básico de explosão iminente, pois não estavam preparados. A História registou o final deste regabofe: um mês depois, esse mesmo lado esquerdo rebentou de tal forma que lançou monte abaixo uma tempestade de rochas e matéria a 250 kms hora, que apanhou tudo o que pôde pelo caminho. Para terem uma ideia da coisa, este material era suficiente para soterrar a ilha de Manhattan até 120 metros de profundidade. Pouco depois, o vulcão explodiu e a nuvem decorrente transformou-se numa cortina assassina que tudo varreu a uma velocidade de 1050 kms hora. Malta a 30 kms de distância foi apanhada e no meio disto tudo morreram 57 pessoas. Foi sorte, era um domingo: à semana, haveria centenas de madeireiros a trabalhar nas florestas no sopé da montanha. Noventa minutos depois, uma chuva de cinzas arejou a cidade de Yakima, a 130 kms. O dia transformou-se em noite, a cidade ficou isolada durante três dias.

Reparemos que estamos a falar de um local habitado num raio aceitável de um vulcão que exibia um comportamento perigoso. Como não foi feito nada Não havia procedimentos de emergência ou preparação. Os cientistas falharam nas previsões, foram incapazes de reconhecer o óbvio; e por sorte, o número de mortos, perante a proporção da catástrofe, revelou-se baixo. Penso que já terão reconhecido o motivo deste relambório e não, não vou apontar dedos nem discursar sobre métodos e mudanças; nem sequer me vou armar em protector das florestas e amante do verde quando, provavelmente, nunca meti os pés numa, a sério, nem sei apreciar a beleza intrínseca de uma árvore. Há, no entanto, algo sobre o qual quero falar e a razão que me faz adorar este relato escabroso, e não é o meu humor negro. Tudo isto revela uma das nossas características mais óbvias como seres humanos e em muitos bitaites ocorreu-me muitas vezes. Os Gregos, povo com jeito para metáforas e mitos, produziram uma palavra para designá-la, de que gosto muito: hubris. Numa explicação muito simplória, significa, basicamente, a ideia do Homem de que é superior a qualquer coisa, um orgulho indestrutível que torna qualquer um invulnerável aos factores que lhe são claramente superiores. Há disso aos montes na história do St. Helens, como expliquei, e reflecte-se simplesmente na incapacidade que toda a gente teve em reconhecer não só um perigo, mas também a sua inevitabilidade. Depois da revolução científica do século XVII, o ser humano expulsou qualquer deus do seu trono e assumiu o seu lugar como descodificador do mundo. Eu percebo o planeta, declarou, consigo dominá-o e traduzi-lo simplesmente. Nada me é superior; e este "deus" não é uma entidade espiritual, mas sim a própria Terra, um ente de rocha caprichoso, com humores incontroláveis, com espirros que despertam tempestades e arrotos em escala de Richter. O Homem, como sempre, esquece-se que não é senão uma partícula pequenina no grande esquema universal, animado por inteligência, mas condenado pela fraqueza da sua carne e da sua pequenez. Por muito que insista e se debata, não pode contornar isto: está à mercê e como em tudo, é uma situação muito difícil de aceitar. Uma tragédia assim é uma experiência de humildade, de reconhecimento de que podemos ser dominados e sempre seremos, mas muito não aceitam e querem justificar e racionalizar o que está para lá da mão com que queremos guinar a Natureza.

A minha relação com a zona do Pinhal Interior é sentimental: passeei ali muitas vezes, fotografei e fui momentaneamente feliz nos seus espaços de Pedrógão Grande a Castanheira. Custa-me muito ver arder algo que é meu património mesmo que não seja eu o dono, que me constrói de alguma maneira, de ver a destruição de qualquer coisa que sempre julguei imutável e permanente. É uma das razões pelas quais estes acontecimentos me tocam. Uma segunda razão é precisamente a hubris. Em cada testemunha que fala na TV, reconhece-se o pânico e a tristeza, mas por detrás dos olhos, num local que temos de saber procurar, está ainda o nosso antepassado original. ele não possuía ilusões de grandeza. Desconhecia, temia, tacteava e o seu mundo era a permissão do temor. Os relâmpagos tremiam-lhe a espinha, as chuvadas secavam-lhe a boca, os terramotos tiravam-lhe o tapete dos pés. Tudo era um risco potencial; e nos seus descendentes em 2017, depois de uma sova tremenda, injusta da aleatoriedade desta tômbola planetária onde somos bolas sem número, o antepassado espreitou. Esquecido de que as leis e os planeamentos são apenas precauções e não garantias, encontrou uma força sempre presente, raramente reconhecida, que ma sua fúria deixou estrago muito maior do que cinza. O que os críticos e juízes dos tribunais digitais esquecem, na sua soberba de homens-deuses, é que a Natureza é isto: não é amor nem boas energias, nem o recreio do Homem - é em definitivo o dono da propriedade. Nós só cá estamos a atrapalhar e quando se dá o imprevisível, não há muito que se possa fazer. Reconhecer isto é o primeiro passo para encarar as catástrofes e até para nos tornarmos pessoas melhores.

É sempre difícil lidar com o luto e a dor, principalmente quando é tão arbitrário que 64 pessoas sumam, assim, sem identificação e sarcófagos de cinza à beira da estrada. É duro e qualquer um de nós, em empatia, imagina-se no soçobro da existência do limite da vida. Custa, no nosso orgulho, aceitar que aconteça, mas é o mundo, horrível, sem grande sentido no geral, com a morte em potencial em todos os elementos à espera da tempestade perfeita. Ainda assim, este mesmo mundo, em que teimamos em ser maiores do que devíamos, é o mesmo em que minúsculos primatas com cérebro avançado combatem um elemento fogoso sabendo-se inferiores e ainda assim, erguem-se como heróis; é o mundo em que as pessoas dão as mãos e delas brota comida, água e abrigo para quem precisa; é o mundo em que no regresso à destruição, a pessoa dobrada se ergue para reconstruir o que foi seu, para recuperar no máximo do seu sonho aquilo que já foi, mas no fundo sabe que não volta. Neste duelo que desde sempre o planeta trava com a nossa espécie, e com traições da nossa parte, o nosso corpo pertence ao pó e ao domínio da Terra, mas o nosso espírito é o único capaz de justificar um orgulho próprio gigante, incomensurável. é um outro tipo de hubris, mas é nesta que, ao invés de nos agigantarmos em orgulho, humildemente reconhecemos que sem os outros não somos nada; e isto não é mito: é a realidade dos nossos dias, se assim quisermos fazer parte dela, abraçá-la e, num conforto de alma, reconhecer que só somos maiores do que nós próprios.

terça-feira, junho 13, 2017

Listas pequeninas


No grande esquema das coisas, o esquema das coisas grandes passa-me um pouco ao lado. Os objectivos maiores da existência de uma pessoa, aquilo que compõe os sonhos da gente comum, fogem-me como uma maré que recua à boca do mar, devorada pelo ciclo da Terra. Como tal, a tarefa de abrir os olhos nas manhãs e convencer-me a sair da cama é hercúlea e não poucas vezes um exercício de negociação entre, pelo menos, uns quarenta sete pedaços da minha mente. O acordo é complicado, mas alcança-se e as partes que defendem, fincando os dedos dos pés na terra ocre do meu cerebelo, que nada vale a pena, que deambular pelos dias respirando e apanhando com os estímulos do mundo nada mais é do que uma antecâmara do inevitável, são convencidas por um pequeno conceito, uma artimanha digna de um Ulisses anímico, que construí para derrubar as muralhas resistentes da dúvida: a importância do subtil e do discreto, da poeira que polvilha na estrada dos nossos dias o barulho das solas crocantes, os momentos pequenos que tantas vezes passam ao lado como órfãos da nossa estima. Parece que têm asas e nem as agarramos e vamos a ver, se passarmos num crivo os nossos instantes diários, estão ali como cola que segura a encadernação de um livro maravilhoso e de preciosidade superlativa. Agarro-os. Sei-os, conheço-os e cá em baixo, empurram-me no calendário.

A brisa do fim de tarde. As estradas longas onde solto o carro nas minhas mãos, o volante como uma lente com a qual absorvo um transe mediúnico que me põe em contacto com os fantasmas do prazer da estrada. O sorriso de garotos depois de uma piada solta a correr pela sala, rodeando-lhes os pés até à cabeça. Caminhar entre os campos, o sol transformando-os na maior mina de outro a céu aberto deste lado do Guadiana. Os meus ritmos, as minhas horas, as minhas escolhas numa casa onde pairo e navego à deriva boa das vontades impulsivas. Receber um "boa tarde" de toda a gente pela qual passo. Viagens de comboio que embalam a mente revolta num berço de estática. Praias desertas, mergulhos num mar sem ninguém, secar e voltar ao mesmo. Uma fatia de gelado depois do jantar. Ver o John Oliver à segunda-feira enquanto janto, num ritual que se repete. Pôr leituras em dia estendido na cama, encaixada num pequeno quarto que é tão literário quanto as páginas. Fechar a porta e sentir a chave no bolso antes de ir para a escola. Dançar sozinho na cozinha enquanto preparo uma refeição, sem julgamentos, sem me esconder. Ouvir chamar "Professor!" no recreio da escola e ouvir a pergunta mais idiota de sempre, todos os dias uma diferente, e querer rir mas não podes, só na sala dos professores. Auscultadores nos ouvidos no meu percurso para o local de trabalho. O sol das manhãs que começam às oito e tal, tímido e ainda frio, mas tornando a violência do despertar em algo de aceitável, como um regaço no qual me instalo para ser sussurrado e amado. A observação dos hábitos de gente diferente, num contexto removido do meu, aprender a ver o outro em perspectivas que não são minhas. Podcasts em ladainhas. Buscar as toalhas penduradas no terraço, o calor lambendo-me a pele com a ponta Fahrenheit. Pés no mosaico frio em tardes de Verão. As expressões de admiração depois de revelada uma informação mesmo incrível. Sentir-me em paz na solidão, mesmo que morda algo aqui dentro, um lobisomem insatisfeito que mais parece não querer lugar algum para voltar a ser homem.

São alguns dos meus berlindes, estes. Cheios de cores, encerrados em cápsulas de vidro, brinco com eles sempre que a ocasião se faz ladrão do meu bom humor. São uma ignição cuja chave guardo com firmeza dentro de mim, atrás de certos retratos de certas pessoas em acertos constantes. Metrónomos do ímpeto, agentes secretos na espionagem do meu relógio de humor, armas de arremesso fundas em estilhaço. Mantêm-me à tona, flutuando num alentejo com o mar longe, mas um oceano permanente onde manter.me à tona é o prazer no final de cada dia, quando me deito, quando sei que o sono tarda, mas que passou mais um desafio. Ganhe ou perca, é meu e o maior prazer é esse: a posse de mim e do que sou. Para dar a mim mesmo e a quem mais deseje receber uma prenda embrulhada de surpresa.


terça-feira, junho 06, 2017

Colos e Companhia


Durante praticamente todos os anos da minha adolescência, e alguns da pós, tive um sonho bastante recorrente. Deitado num chão branco de mármore, frio e passado por repulsa, abria os olhos sem entender muito bem onde me encontrava. Erguendo-me, rodeiam-me paredes pálidas de dó, erguidas à força do arrepio e sustentadas por um certo pavor que se encontra nas morgues. Dentro de mim, o sentimento é de que a morte não anda longe, puxa-me pelas narinas, lambe-me o pavilhão auditivo numa aspereza rouca. Vagueio, perdido e num vago instinto, para, sem entender bem como nem por que corredores e distâncias, dar pela minha pessoa numa imensa sala vazia, povoada em demografia única por um objecto lá ao fundo, no meio, equidistante dos quatro cantos. Aproximo-me, é um caixão castanho, muito simples, sem tecidos, só com a madeira como decoração. Olho para dentro e contemplo, assombrado, a minha própria imagem. Morri, mas vivo em desconhecimento de mim mesmo. veste-me um fato azul veludo, uma camisa branca. Não tenho marcas na cara nem expressões de terror: estou ali, mas o facto é que já deixei de estar de todo. A prova é que me observo, do exterior, e existo em simultâneo quando não existo. No sonho, demoro alguns segundos a percebê-lo e o dobro do tempo a aceitar e o triplo a sentir-me confortável, talvez um pouco mais. Mas cedo cai em mim uma perturbação lancinante que corta, constato que a sala está vazia por completo. É o meu funeral, deduzo, e ninguém veio. Ou será apenas no dia seguinte? Terei aparecido cedo demais? As portas estarão abertas para os convidados? Pressinto que tudo isto é inerte, que eu deixei de ser e ninguém apareceu. Só o meu fantasma desencarnado e embarco numa viagem mental buscando por justificações de desprezo e não encontro e pouco tempo depois acordo e sinto-me na pessoa mais só do mundo e só não choro porque nem tenho presença de espírito para invocar lágrimas.

Desde então, a solidão é o meu maior medo. E reparem que não é estar sozinho, erro comum cometido por muita gente, o de julgar que ambos os conceitos são iguais. A maior parte das pessoas tem, de facto, medo de estar sozinha, de fazer coisas a solo, de viver um mundo interno e experiências pessoais. O júbilo faz-me cócegas sempre que me lembro da expressão que algumas pessoas fazem quando lhes digo que quase sempre vou ao cinema na companhia de mim mesmo. Há ali um misto de surpresa, admiração e terror onde este último domina e uma incompreensão quase total acerca do que pode levar alguém a experimentar tal aventura épica. Sempre fiz muitas coisas sozinho: passear, caminhar, ver espectáculos, viajar, até mesmo existir. Se bem que nalgumas fases tenha sentido que tal se devia a uma extrema repelência da minha parte, com algum trabalho e encaixe fui percebendo que faz parte da minha natureza. Uma das minhas grandes lutas foi tentar conciliar a minha natureza solitária com uma outra necessidade, que existe em todos nós, de conviver. A solidão está ,aqui, o medo de que por mais gente que conheça e com quem conviva, todos vão, inevitavelmente abandonar-me. Não é tão idiota assim e tenho exemplos práticos, que não vou desenvolver. Talvez a grande parte da culpa seja minha, estou há anos para entender se sou boa pessoa ou não e acho que mudo de opinião umas dez vezes ao ano. Quero ser útil para os outros, estar lá, quero que se preocupem comigo e me recordem, quero que me deixem preocupar-se com as pessoas. Acima de tudo, quero partilhar o meu mundo e partilhar do mundo dos outros e tantas vezes me apercebo que estou tão mal equipado para ser social.

A solidão aqui em Colos leva-me a pensar ainda mais vezes nisso e factores da minha vida recente pesam ainda mais nesse pequenino mal-estar dramático, problema de primeiro mundo destacado. neste fim de semana, recebi visitas de amigos. Cada um está na minha vida há relativamente pouco tempo, não os conheço há mais de dois anos e meio. Com tempo, e num projecto pessoal, fui-lhes dando espaço, talvez provando que posso ter amigos e conquistar pessoas que não me conhecem desde a infância. Sei que esta ideia poderá parecer tola a muitas pessoas, principalmente quem me conheceu nos últimos cinco anos e ainda cá anda, e não sou nenhuma ilha, tenho quem se interesse por mim, quem ocasionalmente pergunte como estou e queira combinar coisas, mas parece haver em mim um tremendo medo, de abismo, que um dia o meu funeral não tenha alguém. Mas eles tinham dito que vinham, e vieram. Foi um fim de semana divertido e animado, passeámos e mostrei-lhes um pouco do meu quotidiano da casa, da escola, passeámos pelas praias da Costa Vicentina, visitámos monumentos e locais abandonados, rimos e mandámos piadas, entendemos as peculiaridades uns dos outros com portais e piadas idiotas à mistura, inseguranças e cansaço de viagens de carro, com a paciência para perceber ritmos e gostos diferentes, com a noção de que a amizade é o único local onde a teoria da relatividade não pode funcionar, pois o tempo nem existe, nem passa e pode-se dobrar e pontapear à vontade de quem aceita; e foi bom e gosto destas pessoas e sei que têm apreço por mim, não sou um idiota que considera que um trio com vida e ocupação viaja 350 km só num projecto de piedade, é algo que se faz por afecto, mas naquele local maligno na parte de trás da minha cabeça, há sempre algo que me devora em dentadas vorazes, uma boca de um inferno, onde tremo e vivo numa insegurança tremenda. Vai sempre existir, acho, vou aprendendo a lidar com ela sem danos colaterais e amigos como estes, por quem tenho mais do que respeito, uma amizade sincera e nalguns casos uma admiração que não nego, que me mantêm à tona.

Em dois dias fui um bocadinho mais eu, muito por causa de outros. Não sou o que o alheio faz de mim, sou o que sou, o que me constrói, mas partes de mim só revivem quando outros lhes tocam. Aprendo a ser humano, mais e mais, vendo e sentido quem me está exterior. Podemos viver connosco, mas há sempre um apelo qualquer, uma reacção química que nos torna moléculas que se querem agregar a outras. Neste fim de semana, a minha casa foi um laboratório e a reacção em cadeia atómica, ao ponto de me dar energia para algumas semanas. No fundo, nós, pessoas, somos um bocado isso: energia; e no mármore branco do funeral do meu sonho, são elas quem enche o espaço de flores e faz a festa enquanto o meu fantasma percebe que não morreu de todo: apenas se tornou matéria viva nos outros.

segunda-feira, maio 29, 2017

Acção


Já me debrucei nestes meus relatos alentejanos acerca do que é, para mim, ser professor. Não sou bom, mas também não sou mau e dificilmente inspirarei uma turma de garotos a fazer o impossível.Tento encaminhar alguns para chegarem às notas que correspondem ao seu potencial - através, habitualmente, de tiradas de absoluta ameaça - e se conseguir fazê-lo, já me dou por contente. Agora, uma coisa que passa por mim e nunca abdicarei é a de tentar abrir a mente dos meus alunos a outras realidades que, na sua vida normal, nunca lhes passariam pelos olhos; e neste terceiro período decidi ser literal e apresentar-lhes, nas minhas aulas de Direcção de Turma, um pequeno e muito rápido curso de estética cinematográfica: uma Introdução à 7º Arte, se quiserem. Em oito semanas, e nada mais, o meu 7º A, composto por alunos bem diversos e quase todos habituados a vida de campo e da terra, sentar-se-ia para me ouvir falar de Cinema. Ou seja, um serão que alguns amigos meus descreveriam como o inferno na Terra.

É consabido que eu e a Imagem temos uma relação profunda. Não tanto como a escrita, da qual dependo para funcionar e viver e organizar-me, mas ainda assim, dedico-me ao ecrã e ao movimentos das cores e dos sons numa narrativa como alguém que precisa de perceber o mundo através do que é indirecto. A Música esmaga-me e arrebata-me, mas é através da Visão, mais do que qualquer outro sentido, que consigo atingir uma certa plenitude do Ser que só se pode encontrar por quem ama algo mais do que a si mesmo; e se amei algumas pessoas a um ponto da ulterioridade e da elevação da minha matéria acima de qualquer espírito ou alma penada, e na combinação da forma e da paleta cromática que sinto, por fim, estar na alma do mundo. O Cinema mexe demasiado comigo e tudo o que mexe comigo está condenado aos outros, em dissertações exclamativas acerca do quão bom e e importante é no grande esquema das coisas: filmes, séries, locais, luminárias, até mesmo as mulheres que amo, tão poucas - são pretextos para me explodir em entusiasmo e afirmar verdades aparentemente imutáveis que mudam, claro, segundos depois de o meu assomo exultante. Se adoro algo com fervor e vapor, anuncio-o ao mundo, espalho entre conhecidos e posso dar por mim, assim de repente, a ver a colecção de fãs de Ludovico Einaudi crescer nas minhas amizades próximas, só para dar um exemplo prático. Claro que passo por arrogante e alucinado, mas sempre passei por isso, em parte porque sou demasiado apanhado pelo calor da conversa e da discussão, pelo prazer de divulgar e espalhar palavra. Porque sou eu e não sei ser de outra maneira.

Fazer compreender este entusiasmos a garotada de 12 e 13 anos que cresceu a sua vida acreditando que Vin Diesel é o Marlon Brando da nossa geração não é complicado; o pior é explicar-lhes porque é que há coisas boas e coisas más, quando vamos crescendo com a ideia da subjectividade total. Nada é bom ou mau: nós gostamos e pronto; e é assim que o mundo se vai afundando numa certa depreciação estética que urge combater. Há Bom e há Mau. Não necessariamente pelo nosso gosto, mas pelo trabalho que encerram, pelas escolhas do autor, pela qualidade e importância da obra. Quis fazer perceber-lhes isso. Falei de edição e direcção de fotografia; a boa e a má realização; as diferentes formas de interpretar (e bem) uma mesma emoção; a importância de ritmo e banda sonora na definição de uma cena; a maneira como o casamento entre imagens e som pode mexer com os nossos sentidos e percepção. Este trabalho com miúdos pode ser incrivelmente frustrante, mas se formos entusiásticos o suficiente, e eu quero acreditar que sou até com História (quanto mais Cinema), explícitos e escolhermos as obras adequadas, nunca esquecendo que eles pertencem a uma geração que mal conhece os nossos clássicos dos anos 90, as recompensas podem ser múltiplas. Ter uma turma presa ao duelo a três final de "The good, the bad and the ugly" fez-me sentir como uma vitória; explicar-lhes o jogo de olhos de Michael Corleone antes de matar o capitão de Polícia em "the godfather" e sentir que pelo menos alguns perceberam a diferença dessa genialidade e de muito over-acting que vêm em filmes também; querer sair da aula e um aluno pergunta-te acerca do filme cujo trailer mostraste - "The fall" - sabe mesmo bem, assim como ter uma turma em pulgasd para assistir a uma cena de uma obra rodada no só take. Fi-lo perceber lentamente que Kubrick e Scorsese são génios absolutos, ao ponto de me perguntarem se podíamos ver "The shining" na aula ou mostrarem curiosidade por "Goodfellas" e fazê-los partilhar a minha paixão por outros realizadores como David Fincher ou Guillermo del Toro ou mesmo Hitchcock é uma benesse que guardo na solidão de Colos.

Nas últimas aulas do período, o desafio está a ser o visionamento de um filme a preto e branco: "Casablanca". Viram a primeira meia hora: Rick Baine já entrou em cena dominando, Ilsa acabou de chegar ao seu café e a intriga dos vistos está completamente em marcha. Ninguém adormeceu ainda, só um mânfio (que tem a mania de que é moderno) reclamou por vermos uma obra sem cores vivas e até agora não tem corrido mal. Já me perguntaram se no final lhes posso dar uma lista das fitas cujos excertos passei na aula. Talvez sim, talvez não: neste tipo de coisas, sei que há certas regras de conduta, mas o professor é que tem o director's cut.

segunda-feira, maio 22, 2017

Faz-se caminhando



De há duas semanas para cá, tenho cumprido um regime com disciplina: dia sim dia não, calço as minhas Merrell e faço-me à estrada em hora e meia de caminhada. Este acesso de lucidez serve dois propósitos - ajudar à limpeza da minha saúde mental, porque demasiado tempo livre fechado em casa não faz bem a ninguém; e a proximidade de um limite de peso que estabeleci há muito tempo que nunca ultrapassaria. À medida que a balança me revela a aproximação galopante de esse número que de mágico só tem mesmo o hermetismo egípcio, o meu corpo dá por si tendo vontades que habitualmente não geraria. Atenção: o meu 1,86 m permite, com normalidade atingir este cálculo de tonelada com naturalidade; no entanto, o que ainda sobre, em estertor, de um certo amor próprio lança-me numa tentativa desesperada de jamais ultrapassar essa marca. Portanto, tomei duas decisões rápidas: caminhar regularmente e comer cada vez menos às refeições. Podia comer melhor? Mais vegetais e sopinha, abdicar da carne e de outras coisas boas com açúcar? Claro que sim; mas por favor, já estou sozinho no meio do Alentejo onde por vezes necessito de falar alto comigo mesmo só para não dar em doido. Não peçam à minha sanidade que se estique ao ponto da transparência. Inevitavelmente partira. Do mesmo modo, nem me venham com histórias de corridas, que a minha biologia é bem sábia e as rótulas com que nasci desaconselharam-me, em rapidez record, essa iniciativa. Assim como assim, a caminhada e a corrida contribuem para uma perda semelhante de calorias (parece estúpido, e é, mas estudos médicos dizem-no) e apesar do que a minha reputação aparenta, eu não gosto de sofrer.

O segundo passo, após a decisão, foi o de descobrir um pedaço de caminho para me dedicar. Em Coimbra, onde de quando em vez também me entregava ao pé após pé, o Choupal era a minha Meca e Medina, mas com menos mortos por asfixia. Aqui, florestas são tão comuns quanto rios com caudal e caminhar à beira das longas rectas alentejanas é um pouco como subscrever um serviço bem supimpa de suicídio por atropelamento. A minha primeira expedição pedestre levou-me a descobrir uma estrada de acesso público, entre pastos, que não sendo agradável era pelo menos utilitária. Não me livrei de um susto quando, entre divagações mentais, reparo numa manada de vacas acompanhando em paralelo o meu movimento do outro lado da cerca. Era umas quarenta, e ali, com ou sem baba, atiravam-me com o olhar. Lera nessa semana, no último (e divertido) livro de Bill Bryson sobre a Grã- Bretanha que por terras britânicas tem crescido o número de pessoas que são atropeladas por vacas enquanto disfrutam dos trilhos locais. Olho para a cerca e são paus de metro e meio com arame entre si. São tão seguras e protectoras quanto Marcelo Moretto. Seguem-se umas dezenas de segundos tensos. Enquanto nos meus ouvidos vai debitando a voz de David Paulides, entrevistado num programa de rádio (um homem que conta coisas esquisitas, mas cuja voz funciona como barulho estático que acalma a minha mente), o outro canto a minha consciência tenta sossegar-se e só o consegue no momento em que, tão subitamente quanto aceleraram o passo, os seres bovinos estacam como que ordenados e hipnotizados, controlados por uma linha imaginária. Nenhuma delas fala inglês, suspirei. Devia ter desconfiado quando, no início do caminho, vi a referência a uma quinta chamada "Coito Grande": ia-me fodendo com estrondo, de facto. Ainda cheguei a repetir estas paragens, mas rapidamente descobri uma mina diferente de quilometragem.

Mesmo em frente à minha rua, do outro lado da estrada, segue uma outra que se transforma num ápice em estrada de terra batida. Vai dividindo os vários montados entre si, longas planícies com ocasionais elevações e tem a beleza própria do Verão alentejano, quando a terra parece escandinava de tão loura e o verde é sugado por um castanho muito baço, que brilha com a luz solar. A longa estrada segue até uma aldeia chamada Relíquias e é frequentada principalmente por tractores e motas; algures, ramifica-se noutros caminhos que oferecem possibilidades de descoberta e mistérios. Anseio por descobri-los, mas neste fim de semana ocorreu um daqueles acasos que me faz sempre pensar se a existência não é uma partitura musical matemática. No sábado à tarde, o calor ia-me adiando a saída, mas algures dei um murro na mesa e saí de casa. Decretei que nesse dia faria duas horas de passos largos e em ritmo acelerado. Dez minutos não eram passados quando, dando uma curva que me retira do casario e me lança nos campos, ouço por entre a voz de David Paulides, explicando misteriosos desaparecimentos nos matagais norte-americanos, aquele crepitar facilmente reconhecível por quem tem uma lareira em casa. Acaba de passar um tractor e pensei inicialmente que era o barulho das rodas na terra, mas tal barulho é inconfundível. Olho para o meu lado direito e no chão, do nada, inicia-se um fogacho com risco de incêndio. Na rapidez reflexos que é a única característica física que um dia me poderá valer a sobrevivência, os meus pés servem de pá, calcando o incipiente fogo que morde o mato seco, atirando-lhe terra, matando-o. O meu alívio durou o tempo de encontrar outros dois pontos de impacto a poucos metros, um junto ao outro, com um apetite mais voraz e satisfeito. Fazendo o que posso não é suficiente e estranhamente, o meu raciocínio é rápido o suficiente para chamar os bombeiros sem me querer armar em herói. Enquanto isto acontece, o fumo chama a atenção de vários populares de Colos, que numa questão de minutos acorrem ao local e combatemos o incêndio que fica controlado antes da chegada dos bombeiros. Beneficiamos da sorte do terreno e dos caprichos das chamas, que viram para um lado quando o outro era muito mais potencial de desgraça, mas o importante é que tudo se controlou e acabou em bem. Os soldados da paz já só chegam a tempo se brincar com a mangueira. Pedem-me fotos da ocorrência, que me haviam requisitado por chamada telefónica e com essa questão arrumada, volto ao caminho.

Desta vez, não consigo abstrair-me, Paulides é impotente. Penso em todo o conjunto de pequenas decisões e disciplina que me levaram àquele ponto ali, no momento mais exacto, na lucidez necessária para cumprir os passos certos. Que mecânica esta que me trouxe para tão longe e ser útil da maneira mais inesperada, que me leva a ser um bocadinho herói quando penso mais em mim como um vilão. Desta vez, os passos não são metrónomos e num desvio propositado, encontro subidas que me cansam o corpo e me impedem de pensar em destinos e acasos, em coincidências e pessoas, fogos que queimam muito mais do que aquelas chamas que apaguei e me tornaram mais peão na vida do que herói na mesma. Dê por onde der, sinto que não me podia desviar de nenhuma decisão errada e que todas me conduziram ali mesmo, ainda que não me aperceba. Encolho os ombros: a vida é caminho e nenhuma disciplina é necessária: só pernas com vontade e corpo com arcaboiço para aguentar o desgaste. Tudo o resto é fogo posto sem hipótese de rescaldo.

segunda-feira, maio 15, 2017

A partida


Ao longe, a neblina dengosa, amando o mar. Paulo, pés na doca, esperava o barco, o único sorvo de oxigénio num raio de centenas de metros. A mochila às costas indicava viagem, mas no seu espírito queria apenas ficar. No entanto, a honra, esse bicho bravio que conduz os humanos aos rochedos do risco, obrigava-o a renegar-se. Tudo começou por uma aposta, encapotada, inocente: Pedro e Patrício, amigos de infância, traçaram à mesa de jantar uma proposta irrecusável - aquele que de entre os três fosse o último a correr todos os concelhos de Portugal sujeitar-se-ia como castigo a uma viagem à escolha dos vencedores. São 308 concelhos, mas caramba, eram amigos, estavam mesmo a entrar naquela fase da vida em que os sonhos ainda são possíveis, algures entre os 20 e os 25, e o projecto era sem prazo. Apertos de mão firmes e acordo assinado num guardanapo, guarda-se na carteira de Pedro (afinal, o único capaz de ser o fiel da balança, pois pouco antes daquele jantar doutorara-se em Direito) e Paulo foi confiando que aquilo fora apenas um assomo de juventude exaltada, pronta a ser esquecida mal o fermento do álcool baixasse. Mas não, os seus amigos tomaram muito a peito o desafio. Pedro foi o primeiro, terminando a sua jornada em Castro de Aire, no topo da serra de Montemuro, passando aí a noite para ver nascer o Sol e plasmar a eternidade do momento numa publicação de Instagram; Patrício, nortenho em todas as linhas do sotaque, escolheu a contemplação do Douro a partir dos Jardins do Palácio de Cristal, um rio que é veia de uma cidade e, caso raro, também o seu coração, e terminou no Porto seu; e quando comunicou a conclusão da demanda a Paulo, ainda este não ia a meio. Não o surpreendera, nem aos amigos, que sempre o tiveram como o homem que não sabe seguir, apenas ficar.

Quando a aposta foi lançada, um sabor a culpa manifestou-se naquele jantar, misturado com as grelhadas mistas. Como um mafarrico ressuscitado, Pedro convencera Patrício que precisavam de meter um cabo de alta tensão pelos olhos de Paulo, que desde criança mostrara uma inércia exasperante. Não se decidia, ruminava; para escolher o curso académico fora um suplício e o irmão mais novo, diferença de dois anos, ficava sempre com os melhores brinquedos e roupas porque Paulo se adiava em escolhas e opções. As desculpas eram sempre múltiplas, sem escolha, e para quê optar se a vida é isto e pronto? Tudo desliza, como se os dias fossem gelo, tudo passa, nada fica: isto ou aquilo é o mesmo que tudo e nada e portanto, uma inconsequência. Ele estava na vida como quem , no público de um concerto, não canta aquilo de gosta, mas apenas o que deixam e só pula quando a maralha sopra na sua direcção. Paulo era bom tipo, mais do que um gajo porreiro, e preocupava-se. Inteligente, se bem que de uma inteligência nauseabunda em ocasiões, e custava a Pedro ver um tão grande desperdício de bom ADN numa massa amorfa que se equiparava a uma esponja do mar. A aposta era o empurrão, o atalho até ao ponto fraco do Paulo - a sua honra. Patrício concordava: apenas namorava com Filomena, loura que gostava de ser sua nos últimos três anos, porque Paulo lhe prometera que nunca por nunca atrapalharia a vida amorosa daqueles que eran os seus dois grandes referenciais de amizade; cumpriu e sabe Patrício que, se estivesse na sua pele e principalmente nas suas calças, tal teria sido impossível, pela maneira como Filomena acossou o honroso rapaz. Mas Paulo não escolhe, marca uma posição e funciona a partir daí; mas também a Patrício enfartara a visão de tão bom tipo sem capacidade de reagir. Concordou com Pedro, que era preciso fazer algo e que esse algo devia ser dramático. Uma viagem, sim, mas uma viagem gigante e arriscada, não o suficiente para cortar uma vida em dois, mas pelo menos capaz de arrepiar a epiderme em espasmos de dúvida.

A escolha recaiu em St. Kilda, um ilhéu medonho, habitado em rarefeição, ao largo da Escócia. Eles tinham a certeza que Paulo perderia, e perdeu, e que chegada a hora não recusaria a pena, e não recusou. Simpáticos, pagaram-lhe a viagem, sabiam que era mais um investimento do que um custo e esperaram que, por uma vez, a ausência de escolha fosse benéfica. Naquela manhã envolta em lençóis
de vapor de água, a cama do mundo despertando mais do que o dorminhoco Paulo, que bocejava ao som das gaivotas, o peso continuava dentro dele. A aposta perdida forçava-o a um vínculo e era apenas mais um traço do passado que o empurrava a fazer algo que nem queria. O seu grande problema, ignoravam Pedro e Patrício, nem era a escolha ou falta dela: era uma incapacidade rochosa em deixar para trás os pesos, como se amasse abraçar as âncoras dos barcos e cair assim ao fundo do mar na ignorância da asfixia. Mesmo que lhe fizesse mal, que o corroesse e lhe parasse a vida, o passado era sempre menos assustador e desconfortável do que um futuro de tenebroso desconhecimento, o mistério da vida transformado na morte da vez que erra e torna a errar, escolhas erradas que ditam desfechos cerrados, um medo tremendo de ser feliz por nem conseguir acreditar que tal era possível. Paulo era um conas, também, mas um conas que se auto-justificava em quase tudo, se a desgraça acontecia tinha um motivo e por muito que desse voltas no pavilhão do Cosmos, esse motivo podia ser ligado a si, aos seus defeitos, às suas agruras. Cada falhanço era uma profecia auto-cumpridora, cada sucesso uma antecâmara da dor posterior e no anterior do peito. Nenhuma viagem poderia curar Paulo, talvez, pelo menos nunca acreditaria nisso, como se pudesse blasfemar contra o credo doutrinário de si próprio.

Quando o barco chegou, mochila molhada da cacimba matinal, nem reparou que era o único passageiro. Mas o nevoeiro levantava e enquanto assistia ao lento atracar da embarcação, o telemóvel tocou. Era uma sms. Número desconhecido. Uma língua desconhecida também, pelo andar, talvez gaélico. Era natural, a Irlanda ficava ali ao lado. Com certeza fora engano, não podia ser ele o destinatário. Ao início tentou respeitar a privacidade, mas ainda faltava meia hora para o barco sair e uma consulta rápida no Google tradutor revelou-lhe o conteúdo. Breve, três linhas no seu ecrã, mas um mundo por entre as palavras: "O lençol rendilhado aquece quando sopro o teu nome. Voltas, eu sei, o vento desenha o teu nome nas gotas de chuva. Quero viver no futuro para te encostar ao meu turbilhão quente. Camhoie" E não conseguia não sentir-se arrepiado, ele que tanto temia o futuro e confrontava-o alguém para quem esse tempo era o único presente que desejava. Lembrou-se de vários lençõis, menos rendilhados, quis esquecê-los, mas sabia que para sempre os carregaria, para St. Kilda ou até para os confins do mundo, nesse passado que tanto o assustava. O barqueiro chamou-o, três vezes, nunca negou qualquer uma. A mochila às costas, um passo decidido para o barco e aquelas palavras ternas, acerca de um futuro que não era o seu, mas que desejou, como não desejava assim algo há anos. Mexeu consigo, no âmago e no fundo e quando começou a chover, não se deixou proteger. Era baptismo, pensou, talvez nascesse outro. Ou pelo menos, enquanto as suas lágrimas se misturavam com a chuva, este choro possa ser um parto enquanto eu próprio parto, respirar pela primeira vez, asfixiar como sempre e nunca.

terça-feira, maio 09, 2017

Um dia de passeio


A minha paisagem preferida é a emocional e a memória, em alto e baixo relevo, é uma topografia perfeita desse recorte que nos encolhe e aumenta na proporção da medida de dor. Muito antes de estar em permanência temporária nesta vila com forma de aldeia, o Alentejo já me dizia algo em sussurros, só de vez em quando, espaçada e lentamente, em histórias de farrapos e piar de fim de tarde, de sol em queda e abraços que se apertam ao ponto da libertação. Em Sines se passou e é por isso que a considero um dos meus locais preferidos do Sul do país. Não vivi lá muito em tempo, mas qualquer coisa de intensidade factual, da refracção das intenções e do que se quer, a inconsequência do futuro, mas com um presente, não só temporal, mas em maneira de pessoa. Sempre me surpreendi com o meu estranho paradoxo: não me apego a qualquer desenho exterior de emoções e necessidade humana, mas no meu âmago, aquela alma que dentro da alma almeja, há uma sensibilidade que voa nas palavras, mas incomoda nas horas que se prende aos pequenos gestos que são agora fumo, às sensações que não se repetem, às pessoas que agora são outras, apesar de um dia terem sido mais tudo do que uma parte. Tenho uma dificuldade considerável em me libertar de quem me prende, principalmente de que é feito das correntes que não largam as cordas da emoção, e Sines representou um pouco isso durante uns tempos. Outros locais tomaram a sua posição, feitos de aço mais denso, mas nunca me esqueci onde tudo começou.




Regressei lá há dois fins de semana. A logística da região leva a que uma ida ao cinema se torne num plano a médio prazo. As salas de exibição têm uma sessão, e com filmes atrasados, e foi com surpresa que descobri haver em Sines uma que iria estrear, a tempo e horas, a sequela de "Guardians of the Galaxy", em várias sessões, durante uma semana. No entanto, fazer 50 km apenas para ver um filme vai totalmente contra a minha natureza somítica, enraízada até à medula dos ossos, e uma rápida pesquisa levou-me a encontrar um evento na cidade precisamente no sábado que pretendia: uma parada de veleiros. Talvez não seja a coisa mais excitante do mundo, mas o certo é que nunca pus os pés num veleiro. Uma pessoa não põe morrer idiota em tudo, certo? Tentei combinar isso com, afinal, a razão pela qual Sines se tornou num local do meu próprio país emocional, mas a P. (chamemos-lhe assim) não podia. Quando Sines se mexe, também ela balança e adiar a nostalgia foi a solução encontrada. No entanto, estava articulada uma tarde que já justificava os quilómetros e adoro fazer a estrada que de Milfontes conduz a Sines pela costa. É um dos meus pequenos prazeres aqui em baixo e um sorvedouro do orçamento mensal que de bom grado me submeto à extravagância. Para além disso, a minha saúde mental pede que, ao fim de semana, saia daqui. Colos não é um Sobral Cid, mas a minha mente tem algo de lobo solitário e não de  eremita pungente. Preciso de respirar e ver outro ar, de me sentir a mexer, de não mirrar e esmifrar. Como um dia ganhei vida em Sines, a mesma vila iria, pelo menos, carregar-me em ombros numa necessidade permanente.


O estacionamento na vila foi mais fácil do que esperava em semana de evento. Ainda procurei pela sala de cinema e esfregando a cabeça, fiz uma sessão de power walking inesperada. O motivo, claro, tem a ver com particularidades da província: o local encontra-se instalado no hall de um prédio de habitação, em que o único sinal que revela a localização está mesmo no interior, um poster colorido que passaria despercebido à pessoa menos informada. É estranho dirigir-me ao Cinema como quem vai ao  cabeleireiro. A mesma pessoa que vende os bilhetes trata da projecção do filme e da condução do espectador ao seu lugar. É como no "Cinema Paraíso", mas a mulher que faz tudo isto apresenta-se mal encarada e duvido sequer que tenha uma bobine de beijos à minha espera quando for mais velho. O filme diverte, o que se pede, numa sala de cento e poucos lugares e que pelos quatro euros e meio do bilhete, é bastante aceitável. Mas o que me agrada mais em SInes, sempre que cá venho, é a sensação de que há uma autarquia que quer, pelo menos, dinamizar a cidade onde interessa: no Centro. Tantas vezes na Coimbra onde cresci existe uma sensação opressiva de abandono na Baixa e na parte histórica, como se o que interessasse fosse abandonar o que é antigo à bicharada (e estes bichos incluem estudantes académicos). Aqui não: aquilo que interessa está concentrado na zona central, desde um centro de artes até agradáveis esplanadas viradas para a Baía, e é possível descer comodamente a pé, sempre com motivos de interesse e uma luz receptiva, até à Marginal. Apenas opto por ir de carro pelo simples motivos de ter mais coisas a fazer.


Na exposição de Veleiros, a maior parte só pode ser visível do exterior. O navio-escola Sagres é uma excepção e a fila para visitar faz-me questionar se, por acaso, não vamos afundar afinal um dos maiores símbolos da Marinha Portuguesa. As camaratas e corredores estão vedados, mas o festival de cordames e velas, os mastros que anunciam viagem e aventura, a seriedade alegre dos marinheiros e oficiais (com a distinta sensação de existir uma zona VIP que ignora por completo o visitante regular...), o sol que joga connosco às sombras tornam o final de tarde muito agradável. Há chico-espertos que pensam perceber tudo sobre o Mar e a navegação (ter de envergonhar um tipo que se armava ao pingarelho por achar que entendia de nós foi um ponto alto - e só atinou quando lhe expliquei que fui vinte anos escuteiro e lhe mostrei aquilo que era óbvio a que percebesse da coisa), há curioso profissionais e de olhar arguto - outros de olhar langão e distraído que vagueiam e vagueiam - famílias com cumplicidade e outras onde as ligações se forçam, crianças vagabundas que se agarram às minhas calças por engano quando se perdem dos pais, selfies e foodies, uma amostra de mar humano no oceano. Admiro e fotografo, mas acima tudo absorvo, observo, estudo, retenho. É do que mais gosto de fazer quando, sozinho, faço dos distantes e transeuntes uma companhia de distracção. A madeira que piso retém passos, mas também guarda gritos, com certeza, e penso em como estes sorrisos e tiradas alegres equilibram a embarcação e levam a bom porto a moral dos tripulantes. Desperta um orgulho ver nos outros a admiração que por vezes perdemos pela magia que se torna quotidiana.


Acabei o dia a ver o pôr do sol na praia do Norte, ventosa e inclemente. No rádio do carro, Jonas acaba de marcar o seu segundo golo pelo Benfica, mas a única papoila saltitante que vejo desce lentamente para saltar à corda com o horizonte. Pescadores aproveitam os últimos instantes de luz, mas sopra uma força que não é fria, mas congela passado algum tempo. Com a máquina, guardo alguns instantes, preciosos, levo comigo um dia de passeio e de alívio, em que a minha mente divagou para onde deve: o presente. Demasiado tempo de futuro só pode levar ao passado e tento evitar como pessoa. Sines, no regresso, é muito diferente de quando a visitei: o castelo mantém-se, o mar também, mas já não me assombra. Os fantasmas estão comigo e o dia não os leva com o seu final. Mas em Sines, evito-me e só isso já a torna num marco geodésico no meu mapa de emoções, daqueles seguros pontos de orientação onde nunca me perco.