quinta-feira, setembro 12, 2019

Fachinação 1: Um pequeno prólogo em forma de bico de obra


Não contava voltar à Ásia este ano. Fiz para mim próprio um regulamento de viagem e na lista impreterível de regras, sublinhei visitar um continente diferente por ano. Olhei para África, mas confesso que nada me puxou. A Oceânia no Inverno pode não ser exactamente a melhor hipótese e para mais, ainda que pertença a essa abastada classe da função pública que são os professores, decerto que gastei demasiado dinheiro na manutenção do meu iate. Não consigo explicar as minhas escolhas de viagem. Talvez no dia em que apresentar a mim mesmo argumentos racionais, deixe de viajar porque acabou o mistério. Bem sei que a razão e a ponderação são celebradas com purpurina e carpete vermelha, mas para mim, a vida ou tem um pouco de magia ou não vale a pena. Aprecio o toque do inexplicável nas costas, como quem chama a atenção e me diz "Estás lixado, vais decidir exactamente por aquilo que não deves e ainda por cima, vai-te parecer a ideia mais incrível e arrasadora dos tempos eternos e imemoriais". Sou um otário, basicamente, e até por mim próprio me deixo ser enganado. Necessito do indizível. Acho que é por esse motivo que tão facilmente deprimo; e também que quando dou por mim a pagar por uma aventura, penso trezentas vezes se não estarei a fazer asneira. Cada viagem uma asneira - é o lema que tenho e que carrego debruado a ouro no peito. Pois a asneira deste ano é a China. Sim, podem pasmar-se: pela segunda vez consecutiva, trago histórias de um país que vocês conhecem e cujo nome pronunciam sem se babar. Nada de Quirguistões, nada de ilhas perdidas no Círculo Polar Árctico: é a boa velha China, o Império do Meio, a cornucópia de bebés, os futuros senhores das trevas deste mundo. Esta asneira, no entanto, tem uma história. Daqueles estranhas e que por uns segundos vos farão questionar a minha bússola moral, e que começa com esta afirmação: vivo fascinado com ditaduras.


Aliás, as discussões das últimas semanas em torno de um museu dedicado a Salazar trazem-me delícia. Não porque seja particular fã dessa esclerose múltipla em forma humana, mas porque toca em algo que parecia ser, até há uns anos, um desses últimos redutos morais de nós como pessoas: ditaduras são más; e como são más, qualquer coisa que lhes esteja associada é para cuspir. Estudá-las é apenas um pretexto para lutos sobre a dignidade humana e oportunidades de afirmarmos, num pedestal, que somos muitos bons e que jamais regressaremos a esse tempo. Nunca esquecer. Mas também, nunca recordar muito, que somos gente de bem e não há cá lugares para muitas palavras sobre o assunto. O que é uma balela. Há uma análise histórica a ser feita sobre o tema, mas não cabe aqui. Digo apenas que esconder o pó debaixo da carpete não deixa uma sala limpa. Que por mais que queiramos guardar o pote de mel, há ursos que querem comê-lo e que talvez o melhor seja exibir o pote, mas explicar porque é que o mel está envenenado. Há qualquer coisa em mim que se deixa atrair pelos abismos da crueldade, não só de quem manda, mas também de quem obedece. Que questiona acerca dos motivos pelos quais, contra todos os nossos instintos - pelo menos, aparentemente - aceitamos um poder absoluto. De perguntar o que incomoda também quem se insurge: porque é que existe tanta gente que só encontra força para obedecer? De que maneira um tirano se transforma num pai que uma maioria aceita ou pelo menos não questiona? Em que ponto é que o ocaso da escolha passa a ser confortável? Na verdade, há já algum tempo que concluí que estas perguntas não se respondem apenas com os achados que se descobrem entre as linhas de um livro. A única maneira é experimentar e prestar atenção. Viajar até um país autocrático onde pudesse observar, qual Attenborough do totalitarismo, como raio pode alguém sequer construir um quotidiano quando to condicionam todos os dias. Há mais ditaduras no mundo do que se calhar pensam. Desde Cuba até à Coreia do Norte, passando pelas menos conhecidas como a Eritreia, o Turquemenistão ou a Bielorrússia. Ao todo, mais de dois biliões e meio de pessoas acordam sob este tipo de regime, a maior parte delas na China. Pareceu-me portanto que esta seria uma hipótese óbvia. Os Chineses nem conhecem o seu país por esse nome. Chamam-lhe Zhongguo, que significa qualquer coisa como o "Estado Central". Ou Império do Meio, na sua versão mais popular. Segundo país do mundo em área, primeiro em população, um sétimo do total mundial; e a ideia é corrê-lo de uma ponta à outra, mais de oito mil quilómetros em duas semanas. Há aqui cidades tão grandes que são governadas de forma praticamente autónoma. A história chinesa tem várias fases e grandes reviravoltas, como perceberão. A sua área de influência e população garantem sempre recordes. Para terem uma ideia vaga, a guerra civil que levou ao fim da dinastia Ming registou 25 MILHÕES de mortos. Vir à China não é apenas uma questão de exotismo. É entrar numa outra dimensão, em diversos sentidos da palavra.


A razão pela qual escrevo este preâmbulo tão longo onde refiro zero linhas acerca do que me aconteceu tem a ver com a complexidade da situação chinesa. Se nunca visitaram um país ditatorial, algumas das coisas que escreverei surpreenderão. A China é um mundo, com o quádruplo elevado ao cubo de culturas diferentes, histórias diferentes: há dezasseis línguas oficias e nem vou entrar pelos dialectos regionais aceites. Na tômbola que é a História, muitos povos tiveram aqui assento e por muito que o Partido Comunista Chinês esteja a tentar corrigir isso, os seus sinais ainda surgem, com maior ou menor força, por todo o país. Por muito que nos tentem convencer na escola de que o centro da História é a Europa, na verdade ele passa por aqui e pisar terras chinesas é quase voltar a um tempo antes do tempo. Vão entender que a China é uma construção dos Chineses, mas não da maneira que pensam; que regimes e pessoas podem ser duas coisas bem separadas; que há um custo inerente a viajar num país tão extenso; e que a não ser que tenhamos mais de cinquenta anos, não sabemos, de todo, o que é ser oprimido. Existe uma diferença muito grande entre aquilo que lemos nos jornais sobre o que é comportamento ditatorial e as formas que este assume de facto. Insidioso, por vezes muito mais subtil do que se espera. Que altera o nosso comportamento. Num certo sentido. estas serão as crónicas mais políticas que escrevi, porque é impossível vir aqui e ficar indiferente. A não ser que optemos por nos escondermos do mundo. Há quem me tenha dito que talvez veja mais mundo do que a maior parte das pessoas que conhecem e embora eu nunca me possa classificar de cosmopolita ou muito viajado, entendo que o nosso olhar é um professor muito útil e podemos aprender muito se pararmos um pouco para entender o que passa por nós de frosques de fresquinho. O que tento trazer da China é essa experiência, até porque visitei zonas muito pouco turísticas, locais onde muitas vezes era quase o único ocidental em dezenas de quilómetros. Se nada mais trago, que vos dê isto.


Um outro pormenor é importante de saber antes de mergulharmos na Ásia. O meu estado de espírito para esta viagem não era o melhor. Não me sentia preparado para fazê-la e lamento que esta história não tenha uma reviravolta feliz: quando cheguei ao fim, reforcei a minha ideia de que quem viajou não fui eu, mas uma espécie de carcassa com parte da minha centelha. Há momentos, raríssimos, onde consegui ser eu, mas na maior parte, foi como se estivesse a viver tudo através de interposta pessoa que nem pessoa era. Se alguém, antes de ter partido, me oferecesse o dinheiro que gastei e trocasse de lugar comigo, teria trocado sem hesitação ou dúvida. Mas tal não é possível. O tempo que demorei a convencer-me e a motivar-me é capaz de ter sido o mesmo que gastei na travessia da China. Não tinha outra solução que não fosse fingir que tudo ia correr bem, quando claramente não ia. A minha cabeça é tantas vezes uma casa assombrada. Os fantasmas não entram de férias como eu e não pagam taxa de bagagem extra. Simplesmente vão e aqui, em primeira classe. Não me vou demorar aqui a explicar o que se passa, que motivos me tiram essa alegria da exploração, o que me atormenta, o que me preocupa. É fundo e eu sei-o. Condiciona-me a vida e também me apercebo disso. Não pode ser resolvido em semanas e vai comigo para todo o lado, até aos cantos mais longínquos do mundo. Numa promessa a mim mesmo, um sussurro: dê por onde der, arranjando forças onde não podes, e frinchas que não tens, vais armar pelo menos um amostra de ti e aproveitar o que existe, ou pelo menos fingir tão bem que quando fizeres o sumário da matéria dada, quando te sentares para alinhavar em letras aquele fumo que viveste e chamas memória, vais acreditar piamente que tudo te encheu e transformou. De que esta é uma história feliz, de um ponta à outra. Não consigo acreditar, mas vou tentar fazer a melhor coisa a seguir: convencer-vos de que sim, e convencer-vos de que podem sorrir ou pelo menos crepitar no final de cada um destes capítulos. Se a minha vida real não é de consolo, que a realidade criada pelo que descrevo, a ficção real em fiação na vossa mente vos transporte e leve algum tipo de luz. A maior barragem do mundo é chinesa, logo faz todo o sentido.

Como podem ler, estou e sinto-me perdido. Na vida e na maneira como descreverei tudo, o desastre em cadeia que é este gigantesco país, o que lá vi e senti. Prometo-vos longas viagens de comboio, muitas histórias com polícias, objectos quotidianos que me tornam num terrorista, atum, Einaudi, montanhas e também um episódio hilariante que envolve esse símbolo de sapiência e bonomia que é um monge tibetano, desmontando mitos. E a certa altura, alguém quase cairá de uma cadeira perante a visão de uma mulher completamente nua. Mas só quando chegarmos a Turpan. E neste momento, nenhum de vocês sabe sequer que Turpan existe.

sexta-feira, agosto 02, 2019

Um simplório simplifica

Resultado de imagem para joão miguel tavares sim, há culturas superiores a outras

É estranho que num curto espaço de tempo tenham saído na imprensa portuguesa dois artigos que embora assinados por pessoas de diferentes formações - Maria de Fátima Bonifácio é professora universitária de História, João Miguel Tavares um jornalista - mostrem uma tacanhez impressionante que só pode ser considerada aceitável e normal nos tempos que correm. Bonifácio discorre sobre a incapacidade que pessoas de outras culturas, nomeadamente cigana e africana, têm em se inserir na nossa tão superior ocidental, deixando também um cheirinho de soberba religiosa. João Miguel Tavares bate o pé e coloca o espírito cultural europeu (ainda que se possa depreender uma outra interpretação de que falarei mais à frente) acima de qualquer outro: a sua arte, a sua política, os seus valores. Tavares, em particular, goza de uns quinze minutos de fama heróica devido a uma intervenção nas últimas comemorações do 10 de Junho. Na sua cidade natal de Portalegre, Tavares proclamou um discurso de tom anti-sistema, aveludado nas exigências, com um chavão facilmente compreendido: dêem-nos algo em que acreditar. Tavares, até então mais conhecido por um conjunto de crónicas patetas que desfia no jornal "Publico" e pela participação no programa "Governo sombra", ao lado de dois pensadores de classe como Ricardo de Araújo Pereira e Pedro Mexia, viu-se do dia para a noite elevado a um estatuto de intelectual da Pátria, de voz da Nação. Ninguém criou uma petição para substituir o nome de Camões pelo seu na designação do nosso feriado nacional, mas foi certamente por achar que tal não seria sequer suficiente para honrá-lo. O discurso de Tavares, exigindo rigor, direitos para as pessoas, mais saúde, mais educação, um Estado mais presente e a dar oportunidade a todos, entra em contradição com praticamente tudo o que Tavares escreveu como cronista, um mal disfarçado neo-liberal que se chateia com qualquer intervenção estatal porque "é de Esquerda", mas à primeira desgraça ou até incómodo pessoal, clama por coisas, exige coisas, acusa coisas. É o típico ideólogo idiota que só defende ideias em tom egoísta. O que é meu é meu, mas o que é vosso é vosso. Quando me convém. É algo muito comum também no outro espectro político, principalmente num certo campo artístico que dependendo de fundos estatais, faz dele o seu feudo. O alerta de "apoio às Artes" é o apoio a si mesmo. Nisso, há que dizer, Tavares é do mais português que pode haver. E não sei por que motivo ataca tanto a Esquerda, principalmente a imaginária que ele desenha na cabeça, pois tem bastante em comum com ela.

Quem criou ilusões sobre Tavares, desceu à realidade com o seu magnífico "Sim, há culturas superiores a outras". O título é polemico, e destinado ao click, mas o contéudo é uma ode à mentalidade pequena e sinceramente, um desprestígio em relação a uma escola onde leccionei no ano lectivo passado e que Tavares frequentou. Não vou analisar a crónica - para quê? Há quem o tenha feito melhor - mas o raciocínio que estabelece. Ou seja, a ideia de haver culturas superiores a outras. Bem sei que pode chocar algumas pessoas, mas sim, há culturas superiores a outras; a questão é saber o que é uma cultura diferente e o que pode haver de superior. Tavares usa o critério geográfico e espalha-se ao comprido. Porque, tal como Bonifácio, estabelece também a religião cristã como um conjunto de valores superior, origem desta nossa cultura ocidental que tão boas obras nos deu e com todos estes princípios tão europeus. Ora, o grande problema é que o Cristianismo não é, de todo ocidental. Como deve ser do conhecimento comum, a sua origem - ficcional ou histórica - está no Médio Oriente e tal como o Judaísmo antes de si e o Islamismo posterior, reflecte inquietações, eventos e morais que nascem precisamente daquelas zona geográfica. O Antigo Testemento deve ser lido em primeiro como um Código Penal, depois como epopeia mitológica fundadora de um Povo e só depois, mesmo no fim, como qualquer tipo de  manual de doutrina religiosa. Para os mais esquecidos, a Bíblia é um livro que defende, entre outras coisas, a venda legal de familiares como escravos para pagar dívidas, a criminalidade do consumo de camarão, o apedrejamento de pessoas por serem diferentes ou adultério, sentarmo-nos em cadeiras onde tenham estado mulheres menstruadas, comer morcegos, agredir assaltantes à luz do dia ou vestir roupa de lã. O Cristianismo é tão ocidental quanto o sushi, o chocolate, a K-Pop ou Bonga. Podem defender que estou a aldrabar um pouco, que obviamente Tavares se refere à Igreja de Roma, ao Papado e à sua direcção religiosa. Nesse caso, vamos defender uma organização que ao longo dos séculos oprimiu o sexo feminino, outras raças, outras culturas, apoiou governos fascistas, negou Ciência, censurou arte e cometeu imoralidades contra crianças? É essa a nossa superioridade? Não me parece; e no entanto, isto não é completa culpa de Tavares. O cronista alentejano apenas tem o "problema" de escrever num órgão de comunicação social amplo. A ignorância que debita foi-lhe transmitida em vários anos de escolas onde uma visão eurocêntrica da História lhe foi transmitida e passada de mão em mão. A Europa é o ponto fulcral dos acontecimentos históricos e fora dela, há ruído que só interessa a quem directamente a afecta; e quando fala do choque de culturas, é sempre para reforçar o negativismo e a violência. Portugal, por exemplo, foi na Idade Média um exemplo fantástico de convivência multicultural e multirreligiosa. O aspecto é referido de passagem nos manuais, mas pouco focado. A atenção centra-se nas batalhas, na guerra, na violência; e a ideia que fica nos espíritos é, obviamente, da incompatibilidade entre pessoas com ideias diferentes, existências diferentes. 

Uma cultura superior ou inferior deve medir-se não pela geografia, mas pelo seu próprio funcionamento e por aquilo que valoriza; e ainda por cima a "Cultura Ocidental" não existe. O que é esta Cultura? É a Democracia? Dificilmente: afinal, como sistema político generalizado, não tem ainda dois séculos. É a Arte? A base da Literatura Europeia está quase toda nos Clássicos Romanos e Gregos. Pelos padrões geográficos de Tavares, parece-nos que não há nada de errado; mas é lembrar que estas duas áreas, na Antiguidade, tinham mais em comum com o Norte de África e Médio Oriente do que o espaço europeu; e depois há também a ideia de "Europa", que é um conceito tão recente que mal tem meio século. Antes de 1900, havia uma ideia de "Europa", sim, mas que se pode traduzir muito simplesmente por "superioridade branca"; e é aqui o pensador portalegrense começa a entrar em terrenos perigosos. Ainda que tente escapar-lhes, ao abraçar-se no início do texto a um conjunto de pessoas de proveniências diferentes, é evidente que não o faz de forma sincera, porque a sobranceria europeia que lhe atravessa as palavras descai de quando em vez para este problemático território. O que é, novamente, fruto da ignorância.Tavares fala de tecnologia e evolução, mas esquece que foi graças a uma grosseira exploração de outros povos que o Ocidente que tanto venera teve a vantagem de poder desenvolver com calma o Iphone. Não por qualquer tipo de vantagem cultural. Tavares fala de Shakespeare como grande farol artístico e despreza, por exemplo, a cultura Zulu. Ó Joãozinho, e informares-te mais? E conheceres a epopeia de Shaka, texto de tradição oral Zuli que rivaliza com qualquer uma clássica? Tem todos os ingredientes de uma peça do velho William? E pegares na Mahabarata ou na Ramayana, os dois grandes poemas indianos, tratados de filosofia disfarçados de épico de ficção científica? E a "Ode dourada" muçulmana, deserto quente em forma de poema de Imrul Qays? Tudo isto é grande literatura. É excelente uso da palavra, é drama humano, é imaginação galopante, é conhecimento dos costumes, é tudo o que Shakespeare dá aos seus textos. O que têm estes textos em comum? Nenhum deles foi escrito por um europeu ou por uma norte-americano; e provavelmente, o nosso cronista, depois de anos de educação decente porque europeia, desconhece que existe vida para lá dos Urais.

Li muitas interpretações sobre o que Tavares quis dizer, mas tenta-se tornar complexo algo que é bastante simples. Não tem a ver com racismo ou com teorias da superioridade. Na verdade, ele assume um obscurantismo assustador. A corrente de normalização da estupidez nos tempos que correm pode ser explicada de muitas maneiras, mas nenhuma melhor da maneira como, nos países ocidentais, se explora muito pouco o mundo fora do nosso espaço seguro europeu. Bem sei que o programa Erasmus abriu fronteiras e portas, mas se entras numa casa com um chapéu enfiado até aos olhos, dificilmente verás o que quer que seja. É urgente uma nova revisão de como se ensina o Mundo, e a História principalmente. O simplismo das ideias de Tavares está a par das correntes que querem carregar o ensino escolar com a culpa branca das desgraças históricas, como se noutros espaços do mundo a crueldade não fosse também uma moeda corrente. O mundo a preto e branco em que vivemos tem uma enorme responsabilidade de demagogos e votantes desinformados, mas também de intelectuais que carregam medalhas de liberais e conhecem muito pouco aquilo de que falam, acreditando, como qualquer bom apoiante de uma direita mais esclerosada, tudo é simples de explicar e o Bem e o Mal são conceitos lineares. Foi acima de tudo isto que me preocupou naquele pequena texto pateta, que daqui a um ano não será lembrado e que terá tanta importante para o cânone cultural como estes parágrafos que agora encaminhei aqui em análise apressada. Porque reflecte, acima de tudo, falta de horizonte, de movimento, de curiosidade até. A vontade do conforto e de com isso, afundarmo-nos cada vez mais num conflito invisível que vigora e parece não ter fim entre os que lutam contra uma das mais antigas utopias da Humanidade: a união planetária. Quase sempre através de métodos sinistros, mas na esperança de que possa acontecer numa vantajosa condição de entendimento e aceitação mútuos.

João Miguel Tavares dá a si próprio algo em que acreditar, e aos leitores, mas é uma mentira, ignorante, mas grave, É sintoma de algo mais profundo, que atravessa toda a linha de crenças mais conservadoras ou liberais: a de que há um "nós" e existe um "outros" bem definidos, fixos, definidos. Que os valores não se traduzem pelas acções, mas por inamovíveis factores físicos que nos cravam e fixam de imediato quando nascemos. De que o futuro é tão igual hoje como o era há 500 anos. Talvez por isso os homens que neste momento podem desenhá-lo, de Trump a Bolsonaro, pareçam tanto criaturas arcaicas, fantasmas do futuro passado.

terça-feira, junho 11, 2019

Perugrinação 22: Finisterra em forma de gente



Já devem ter desconfiado que não escrevo as minhas crónicas de viagem mesmo na hora. Um caderninho vai sempre no bolso da mochila, com uma caneta a tiracolo. Anoto as impressões e os momentos, pequenas frases que me amparam a memória, uma bengala feita de gatafunhos. A minha capacidade de reter momentos e até cheiros sempre surpreendeu e explica porque é que pareço saber tanta coisa, quando na verdade sou ignorante noutro tanto. É um exercício não tanto de recriação, mas quase de bruxaria, invocando o passado como demónios que se alinham neste interface do Blogger; e sempre que escrevo é como se regressasse. Parte do prazer ladino de compôr estas recordações é egoística e egocêntrico tambem, buscando elogios, palavras simpáticas, quase que querendo confirmar de que não perdi um certo jeito para escrever. Mas a outra é o simples regresso onde já estive e provavelmente não volto. Tem sido sempre assim nas crónicas finais das minhas viagens anteriores, confirmei há pouco. Esta, no entanto, é diferente. Não porque não envolva tudo isto, também existe; mas simplesmente porque esta história te um fim diferente, um outro objectivo. Anunciei numas das primeiras divagações de viagem que o périplo pelo Peru teria algo de Odisseia, literalmente no seu sentido grego: como Ulisses voltou a Penélope, também eu regressaria, mas a alguém que nunca conheci.


Vi a minha sobrinha pela primeira vez no dia 4 de Setembro. Umas duas semanas depois de ter nascido. No seu berço, é um pouquinho de gente e tanto parece vibrar dentro dela, latente, dormente e adormecido até, porque ela tem os olhos fechados e ferra. Os bébés causam-me sempre muitas perguntas, principalmente como neles pegar, maneiras infindáveis de entretê-los e exercícios de paciência para suportá-los. A minha tolerância para com os bébés dos outros é muito curta. Sofro da maldição/benção - depende do dia em que me perguntarem - de ter um grupo de amigos onde muita gente ou já fabricou um rebento ou está com ideias disso e pelo menos encaminhado numa parceira. Eu não. Continuo naquela calamitosa solidão que é o meu estado natural, numa garantia de que enquanto permanecer só, o mundo não escorrega. Há dias, vários, mais até do que desejaria, em que felicidade alheia me incomoda. Não é por mal, não odeio ninguém. Incomoda-me por incapacidade própria de alcançá-la, como se não merecesse ou fizesse por isso. Quando a minha sobrinha acorda, encolho-me e mesmo querendo pegar-lhe, nem em mim pego. Preciso de alguns segundos e nos meus braços, vou fingindo que é assim, que posso e sei, mas sei que não posso, e os olhinhos pequenos, castanhos, ainda remelentos, nem me reconhecem. Na sua cabeça binária, sabe que não sou nem o pai, nem a mãe. Apenas um mostrengo alto, pelos na cara e assustador. Demorará alguns meses até me aceitar como tio, mas lá chegará. Por agora, sou um borrão.


Queria contar-lhe sobre tudo o que vi. Sobre as prendas que lhe trouxe. Sobre como o tio viu outros como ela, mas morenos e de pele encarquilhada, pressionados pela montanha, a tiracolo ou às costas de uma mulher quechua. De como o mundo vai ficando cada vez maior para mim a cada ano que passa. De como a partir deste dia, sempre que viajo, tenho o prazer de voltar para aquele pedacinho de pessoa. Gostava de lhe contar de como daqui a uns meses, fica maior e os olhos abrem mais, quase parece uma personagem de anime. De como temos brincadeiras próprias e coisas que só eu lhe faço, de como chora se está com birra e fica mais de cinco minutos ao meu colo, de como já estende as mãozinhas quando me chego a ela. Outras viagens. Não são os pináculos andinos, os mistérios de Nazca e Macchu Pichu, as lagoas perdidas na montanha, as estradas serpentinas e as rectas por entre aldeis e vilas perdidas no lixo, nem a Lima do fin de siécle, nem salinas encaixadas em altitude. O Peru fica lá longe, mas levar a Beatriz a viajar no meu colo é, em si, uma aventura que me sabe de apetite. Imagino-me por vezes a contar-lhes estas histórias, acordar uma curiosidade que ela nem sabe ter para galgar quilómetros e conhecer continentes. De como quando lhe perguntarem porque viaja tanto, a Beatriz responde "Havia um tio, como vivia sozinho ocupava-se a estar assim só onde se sentia mais em casa" e pensa algures nas histórias e nas memórias, com caderninho ou sem ele, talvez tirando fotos, talvez só guardando tudo com os olhos.


Quando escrevo esta última crónica, ela está longe. Não tanto quanto a América do Sul, mas igualmente mágica. Enquanto cravo estas palavras, sei para onde me leva a próxima rodada, mas são surpresas de outras calendas. Da Latina América, guardo uma redescoberta de algo que em mim morrera e agora aparece, um empolgamento do fogo secreto dos filósofos. É o mais importante, foi por isto que comecei a viajar: recuperar-me, recuperar o que se apagara pela erosão de anos. Uma colecção que se recupera para um dia, talvez, ser o tio que a Beatriz merece. Não que tenha encontrado isso no Peru. Mas quando, cá em baixo, a noite cai e não consigo escapar daquele mal-estar que só os abandonados sentem com força, recoloco-me em Ausangate e mesmo isolado, não consigo sentir-me remoto. Estou onde quero, onde mereço. E só por isso, o Peru manteve o estatuto que sempre me atribuíram - ave rara. Que continuará a voar, por muito estranho que o bater das minhas asas soe.

quarta-feira, maio 29, 2019

Perugrinação 21: Nostalgia, mas não de Tarkovski




Deixei Lima há duas semanas e quando volto, está diferente. Ou estou eu. Com mais pó acumulado, aposto. Quilometragem. Chegámos ontem de Cuzco. Ainda passámos um dia na antiga capital de Inca. Males estomacais voltaram a apanhar-me, mas ainda assim ganhei coragem para me levantar da cama e passear de tarde numa última vistoria pelas ruas, compras para amigos e família. A minha sobrinha começa assim uma carreira de ter um tio que lhe faltará a muitas festas de aniversário, em troca, terá prendas de todo o mundo. Num portal rectangular que dá para o interior de uma torre, um velhote quechua de chullo na mona sorri-me, um cliente. Pergunto-lhe sobre tamanhos pequenos, ele inquire a idade da destinatária - "Una ninã? Pero que linda!" - e ele nunca a viu. nem eu, sendo honesto. O que é que se pode escolher para alguém que não conhecemos? Sinto que é uma espécie de blind date com alguém que nem sequer tem gosto formado. Sou péssimo a escolher roupa, mas vem aí o Outono, a seguir o Inverno... Engraço com umas luvas verdes com quadrados de várias cores e um barretinho quechua com orelhas de abano e cordéis que parecem caracóis desfiantes, azul-claro, com algo de branco e laranja. Acho que a Beatriz gostará. Estou, basicamente, a escolher ofertas para daqui a uns anos. Não sei quem ela será tão à frente no futuro. Nem sei sequer como me verá, se me perceberá ou aceitará sequer, se não achará tudo isto pindérico. Mas pensando nela, torno-a bem real, defino-me em relação ao que lhe quero dar. Está pago, guardo num saco com as restantes prendas que adquiri. Dou mais umas voltinhas e regresso ao hotel. À noite jantamos e é a última vez que vejo aquele mar de casas com os pirilampos nocturnos a dizer presente. Pode parecer idiota, com tantas coisas bonitas que vi neste país, mas continua a ser das coisas mais fascinantes desta viagem, uma vista a partir da varanda do hotel, sobranceira a Cusco, num silêncio que crio para que tudo o mais fale, fale, diga. Não vos conto o que guardei da conversa, fica para mim. Fica para um caderno que é de alguém que não vocês. Escrevo nesse caderno na manha seguinte, enquanto esperamos no aeroporto da cidade por um voo interno para Lima. É o único aeroporto onde estive em que fui cheirado por cães polícia, procurando folhas de coca. Já tive armas apontadas a mim no Quirguistão, logo precisam de mais para me impressionar.


Hoje é o último dia neste país, na América do Sul. Amanhã regresso ao mundo que é meu. A ideia é visitarmos o centro histórico da cidade, que por própria admissão do Pedro, não é tão grande quanto isso. Por isso, sugere-nos a visita a um museu muito conhecido na capital, aquele que tem o nome de Mario Testino. Para os menos informados, é um famoso fotógrafo que ficou conhecido mundialmente devido a uma sessão feita com a falecida Diana Spencer, ex princesa de Gales. Localiza-se em Barranco, o tal bairro dos artistas sobre o qual já escrevi anteriormente. Num antigo palacete, reúne-se gente à porta, pinta de modernaços, alguns laivos hipsters, apreciam o sol da tarde num relvado da moda. Por sorte, a entrada hoje é à borla. Conheço várias fotos suas, são icónicas e no geral, celebram o excesso da fama, da festa, com um barroquismo muito próprio; e só quando paro de facto a observá-las, a reparar com olhos menos de quem folheia uma revista e de facto estaca para decifrar um mistério, de como a sua noção de cor é tão sul-americana. Há algo de todos os têxteis que encontrei nas profundezas dos Andes no seu mundo cromático, como se fosse um código de um peruano cosmopolita para os seus conterrâneos que não tiveram a mesma sorte: sou um peruano do mundo. Testino responsabilizou-se por tudo o que vemos aqui. Foi ele quem dirigiu o restauro desta mansarda, as fotos são suas, a curadoria das exposições temporárias de seu próprio gosto e escolha. Colabora com escolas e oferece oportunidades a novos artistas. Belo legado, mais do que fotos a preto e branco de um membro da realeza britânica. O rés-do-chão ocupa-se da carreira do Testino fashionista, fotos de celebridades e modelos, capas de revistas, portfólios da Vogue à Vanity Fair, o lado que projectou o fotógrafo na sua dimensão mundial. É quando acedemos ao primeiro andar que encontramos um espaço dedicado a vestimentas tradicionais do Peru Rural, impecavelmente iluminadas e fotografadas, a lente de um artista ao serviço da memória interna e folclórica do seu país. Mulheres e homens, crianças a saltar, pulsam tanto de vida quanto Kate Moss e David Beckham, se parecerem artificiais. Numa sala ao lado, as famosas fotos da última sessão da princesa morta. Sempre passei ao lado em torno desta plebeia britânica que aceitou um pacto com o diabo monárquico e deu por si acossada por fotógrafos literalmente até morrer. É apenas quando sozinho e em confronto com grande tela que noto como Testino lhe apanha uma melancolia plena nos olhos, mas principalmente nas mãos. É difícil de explicar, mas é um pouco como se os dedos procurassem um botão de passado que não existe. Para lá dos vestidos e da maquilhagem, com a cabeça pousa naquelas mãos, sente-se-lhe uma fome de fuga. Mas Testino não a deixa fugir, ainda que lhe permita a ilusão. Não é muito fácil apanhar pessoas. Eu não sei fazê-lo, não consigo, acho que não gosto. Acho demasiado intrusivo e viro-me para paisagens. Mas este peruano agarra-as pelos colarinhos, com a doçura de uma vicunha embeiçada. Torna alguém interessante, fulgente. É um dom.

De seguida, metemo-nos em táxis e rumamos ao centro histórico de Lima, uma extravagância colonial que vive disso, misturando nalgumas ruas um cosmopolitismo saloio de pequena grande cidade. Não o escrevo com desprezo. Há grandes edifícios e pequenos recantos, vida da América do Sul em curtas salas, cafés, ruelas. Como um grande embrulho espampanante, no qual descobrimos, depois de tirado todo o jornal, berlindes nada foscos. Já aqui falei das origens da cidade. Na altura não me demorei nos seus encantos históricos porque sabia que este momento chegaria; e o nosso percurso começa pela Plaza San Martin, também conhecia por Plaza de Armas. É o espaço público por excelência da consciência pública peruana. Se há manifestação, eclode aqui. Tomou o nome do libertador do Peru, José de San Martin, general que até era argentino. A sua construção marcou o centenário da independência do país, em 1922 e rodeia-o uma zona boémia da capital, com teatros e cinemas, salas de diversão, estabelecimentos nocturnos. Vou notando que a consciência pública não é apenas manifesta, mas anunciada. Este deve ser o Speaker's Corner do Peru. A cada canto, um magote de gente, ouve homens de megafone e aparelhagem sonora debitar as palavras de ordem mais acesa, trovoadas, e teorias de conspiração que fariam Alex Jones envergar uma erecção perpétua. Como quem nem quer ouvir, mas está doidinho por fazê-lo, aproximo-me de uma maralha que entre riso trocista e condescendente e a atenção dos que julgam, de súbito descobrir que o mundo tem uma manivela escondida que permite revertê-lo, escuta um arauto da desgraça; e qual é a sua? O Chile, esse país infame e ardiloso, vai atacando secretamente o Peru com a mais vil doença, o pior de todo os males: a homossexualidade. Pela calada da noite e penetrando profundamente nas fronteiras mais indefesas do país, presumo que as das traseiras, rapta os melhores filhos na nação peruviana e transforma-os com cabros, brócolis - gays. O método? A simplicidade de uma injecção, o tratamento demorado de um gás especial e a ideia é extinguir a população, acabar com ela, facilitar uma invasão futura. O dia brilha ainda, apesar do obscurantismo. Clama ele que a ditadura de Pinochet foi a única resistência a esta cabala da desgraça e que homem com homem é o rumo ao desfiladeiro quente do Inferno. O fim dos tempos, o tempo do fim. O renascer do Peru jaz em vaginas, aparentemente. Rio involuntariamente e ninguém nota, acho. No chão, esta voz do deserto exibe mapas, fotos, esquemas, ligações. Tudo aquilo que imaginariam nas paredes de um paranóico. Faz um grande gesto com o o braço, enquanto menciona Pinochet e por cima de si, passa um arco de sabão, feito por um palhaço - literal - que entretém miúdos numa banca lateral. É surreal, não mais do que aquilo que acabei de ouvir.


A pouca distância, encontra-se outro interessantísimo edifício cultural, a biblioteca pública Vargas Llosa. Quem lhe dá nome é do conhecimento geral, escritor do país que já meteu um Nobel ao bolso - de certa forma, é o Saramago desta gente, pois também é filho único nessa demanda Nobeliana das letras. A biblioteca tem o nome oficial de Casa da Literatura Peruana e o seu enquadramento dá-lhe um charme urbano que podia muito caber num largo romance sobre livros, palavras, mistérios presos em páginas. O seu edifício foi originalmente a principal estação de comboio de Lima, a Estación de los Desamparados, quase saída de Paris no seu desenho - o que é apropriado, visto que o modelo desta Lima que hoje conhecemos foi precisamente a Paris do fin de siécle. O nome não vem do facto de os antigos passageiros ficarem constantemente apeados junto à linha, mas sim de uma igreja que antigamente ficava neste local. Quando entro, noto o esforço realizado para manter o traço original da estação, desde a arquitectura até uma magnífico telhado de vidro, que conserva ainda os desenhos em vitral com que nasceu. Hoje guarda livros, mas ainda se sente que a qualquer altura, o gorgolejar mecânico e bruto de uma locomotiva se pode fazer ouvir e encher o espaço de fumo. Na verdade, descubro a ler uns folhetos, uma vez por mês tal acontece: um comboio liga Lima e Huancayo, cidade enfiada no interior dos Andes. Ainda agora lá estive, já me querem transportar de volta... Mantém tudo o que imaginamos, desde as bilheteiras em madeira até à escadaria de pedra e uma arquitectura de ferro que reconhecemos como europeia. É casa de livros desde 2009 apenas, mas que casa, e que utilização curiosa de um edifício civil. Ler aqui deve ser um poema em si. Fico com vontade de trazer os meus livros e escolher uma cadeira, qualquer uma, para durante o dia gozar da luz filtrada pelos vitrais, embalando-me em cenas de cinema que se constroem em camadas de papel, viver vidas alheias enquanto a minha é banhada a romance. Imagino-o e é encantador. Se procurarem em folhetos turísticos, ninguém vos aconselhará, por isso sugiro-vos ardentemente a visita. Vargas Llosa domina tudo, nome fundamental das Letras do país: as suas obras, a sua vida, a fotografia de um poseur artístico profissional com ar boémio, cabelo impecavelmente penteado e olhos daqueles que parecem dissecar a realidade ao mínimo ponto e vírgula.


Depois deste banho de cultura, um pouco de conhaque, com a possibilidade de ser literal. Mesmo à esquerda da Casa da Literatura, o bar Cordano oferece a possibilidade de parar e petiscar alguma coisa. É um daqueles sítios em que se entra e se viaja no tempo. Duas portas abertas, quase como se pudéssemos atravessar o início do século XX em vinte passos e regressarmos de imediato ao nosso. O Cordano foi fundado em 1905 por italianos, naturais de Génova, e ainda hoje aqui se mantém, um dos estabelecimentos mais antigos e tradicionais de Lima. 112 anos de existência e mantém praticamente o seu aspecto inicial. Não há música, não há televisão, não há wi-fi. Existe a conversa e a possibilidade de as pessoas continuarem a ser pessoas. Deve o nome a um par de irmão que foram co-fundadores do café e o legaram, mais tarde, aos filhos, que ainda hoje mantêm negócio em conjunto com os empregados, que também são donos do espaço .Em Lisboa, já lhe teriam tratado da saúde para criar um Alojamento Local. Por aqui, felizmente, ainda há quem permita que a cidade mantenha um charme próprio. De tal forma é importante que foi declarado, em 2005, património nacional.Os empregados respeitam um pouco estas raízes, não apenas no uniforme, mas também na atitude. Fotografias encarquilhadas nas paredes lembram-me orgulhos pessoais de dono, a alegria de receber gente ilustre numa casa que é mais do que quatro paredes, o prazer de ser anfitrião e assistir a vida que se desenrola em torno de mesas. Cheira a filme antigo e olhando em redor, ouço jazz, com tons de tango, vejo homens de chapéu de aba, cigarrinho ao canto da boca, num lanço de escadas rumo ao coração de alguma moça mais desprevenida e capaz de cair na esparrela de um copo. Este segundo dia em Lima desperta-me mais evocações do que o primeiro, ou se calhar estou mais disponível para recebê-las. Talvez a deriva pela minha paisagem, a montanha, tenha finalmente despertado a sensibilidade que adormecida, me esquivava da realidade. Na praça central da cidade, o sentimento de caos volta, mas justificado: muitas pessoas, trânsito acumulado, luzes abananadas. Oportunidade para ver mais de perto uma das curiosidades arquitectónicas desta urbe, os Balcones de Lima. Quase todos são dos período colonial dos séculos XVII e XVIII, e são hoje Património da Humanidade. Sendo Lima uma fundação original dos colonizadores espanhóis, os seus pormenores e pormaiores devem muito à Europa, a influências mouriscas e nestes balcões, claramente, ao sul do nosso país vizinho. Juntam-se aqui o Barroco e o Árabe, esculturas de madeira de vasto pormenor rendilhado. Ainda hoje continuam a ser símbolos do poder colonial. Serviam para o Vice-Rei local, representante máximo do poder imperial espanhol, se dirigir às multidões e o seu intrincado desenho, escondendo que está do outro lado da janela, permite a qualquer um ver as grandes cerimónias públicas sem ser notado. Este Balcões localizam-se em edifícios de poder e religiosos importantes e são, claro, imagens de diferenças de classe, para colocar os plebeus no seu devido espaço.

A noite volta a acabar num jantar no centro comercial onde na nossa primeira noite a sério no Peru, tomámos finalmente consciência de que estávamos noutro ponto, noutra realidade. Escolhemos com mais gosto desta vez e evitamos fast food. Um restaurante que observa a escuridão do Pacífico, onde nos tratamos de forma diferente, desta vez não como estranhos completos, mas apenas semi-estranhos. Acho que é o máximo que qualquer pode almejar nestas viagens de curta duração. As pessoas vão sendo amigas, com a noção de que o contrato acaba normalmente quando se regressa ao aeroporto. Conhecemo-nos, mas noutras viagens, arranjaremos outros amigos temporários, de lugar em lugar, uma colecção deles. Mas aqui, não pensamos nisso. Rimos e relembramos, comemos bem, sonhamos com a noite imbuída de sal marinho e luzes foscas. Lima, amanhã, não é, foi porque está para trás. Hoje é verbo ser; amanhã é verbo estar. Ainda estou meio abanando da violência sensorial da América do Sul e quando regressar, sei que sentirei falta. Ainda não percebo é do quê. Mas isso fica para outra reflexão, outro local. Hoje, como um belo bife com vegetais e ainda não voltei. Quero pensar que amanhã acordo, saio do hotel rumo à Casa da Literatura e tirando um livro das estantes da antiga estação, sou personagem de filme antigo, tão melancólico e nostálgico quanto o meu aparelho de sentir.

quinta-feira, maio 09, 2019

Perugrinação 20: O apelo constante da altura


É um azul claro limpo, fresco. A manhã é fria, mas queima de uma forma que não sei explicar. Talvez seja do sol batendo na diagonal ou dos picos nevados que defronte de mim sustentam esta casa que é a montanha. Num desafio ao céu, não murcham nem fraquejam. Ontem, a noite protegia-os, mas agora, na luz clara e desanuviada, apresentam-se sem pejo. Se olhar para o horizonte, estendem-se, sempre altivos, sempre enormes. É como um sonho directamente saído dos meus desejos maiores, que na neve ardem. Cobrem-se de branco, mas vejo-os de todas as cores. O Pedro chama-me a atenção com um toque no ombro, "Pequeno-almoço, bora", e sigo-o até uma casa larga, mas baixa. Quando entro, saúdam-me em castelhano, três homens que vão fazendo o pequeno-almoço. à mesa, copos e pratos estão servidos. No centro, recipientes com chá fumegante, é de coca. Subiremos hoje aos cinco mil metros de altitude, não é brinquedo. Melhor prevenir. Beberrico um pouco, mas não costumo ser de chás. Neste Hostal, no entanto, tratam-nos bem; e noto que neste fim de mundo,as convenções sociais são diferentes. Aqui, os homens cozinham. Não encaram isso como algo degradante ou menor: fazem questão. É uma experiência de camaradagem, um prazer em dar algo de seu a estrangeiros. As mulheres tratam de outras lides, criam os filhos e tecem ponchos e panos e cobertas e roupa para vestirem e venderem. Uma outra divisão de tarefas. O pão é bom, pelo menos, não sei se são eles a fazê-lo. Vou observando fotos que tirei até agora, enquanto como. Hábitos antigos, não consigo tomar o pequeno-almoço sem estar a ler. À falta de Internet e de livros, sobra-me o espólio fotográfico que tenho acumulado. Só consigo reunir algum orgulho acerca deste lado das minhas viagens quando, chegado a casa, percorro memórias em imagens. Um orgulho fugidio e não tão habitual, exijo de mim uma bitola que nem a máquina, nem o meu talento reduzido me podem dar. A quantidade de locais que visitei nestas duas semanas é tão variada que não acredito. Alguns já me parecem fumo, necessito de olhar as fotos de maneira a acreditar que os visitei, que estive lá. Na recta final de cada viagem que faço, o que vejo ganha a semelhança crónica de uma alucinação vívida.


Mochila arrumada, combinámos encontrar-nos no parque de estacionamento. Enquanto caminho, vejo melhor o que a noite me ocultou quando cheguei. Um límpido riacho atravessa o espaço do resort, amparado pela beleza da altitude e a vegetação rasteira e verde cansada do planalto. A electricidade dá-se aqui por meio de postes bêbados, que garantem os fios, mas por pouco. Chegam aqui quase por favor. Um cão negro, listado a mel, roça-se nas minhas pernas e merece uma festa. No parque, cavalos esperam em descanso. São uns dez. Dá quase um por cada turista luso, mas nenhum deles é puro sangue lusitano. O tamanho é mesmo a jeito para tótós como eu, que nunca montaram a cavalo. Já sabia previamente que este seria o meu dia de estreia nestas lides. É impossível não recordar o senhor Nuno, o homem velho mais novo que conheço. Não por ter o espírito jovial usar o português de maneira atroz. Simplesmente, não envelheceu um dia desde que eu era criança, e ele já era antigo nessa altura. O senhor Nuno era dono de um picadeiro ao cimo da minha rua. De quando em vez, subia para visitar os cavalos. Simpático, deixava que os acarinhássemos, déssemos comida e de quando em vez, aos mais corajosos ou aqueles com quem simpatizava, uma voltinha no Alegria, um cavalo branco manso, era prémio. Nunca o mereci, mas olhava sempre com curiosidade, inveja e aquele fascínio pelos animais que só as crianças que passam o tempo todo a ler fechadas num quarto podem conjurar. Estes anos depois, do outro lado do mundo, e finalmente vou fazer-me de cavaleiro. Calha-me em sorte um cabisbaixo equino cujo nome não fixei, o que é ingrato visto alombar nos próximos quilómetros com os meus quase noventa quilos. Vou chamar-lhe "Desorientado", por motivos que se tornarão claros mais abaixo. Um dos cuidadores, que nos acompanhará nesta viagem, incentiva-me. Por muito que eu saiba que o cavalo é bastante mais denso e musculado do que eu, parece que tenho medo de parti-lo se subir demasiado depressa, com ímpeto em excesso. Máximo cuidado da minha parte, até porque me passa pela cabeça a imagem do Christopher Reeves menos super e mais cadeira de rodas. É um jogo de confiança, porque ainda que estejamos no solo, o controlo não é nosso. Aquele bicho tem vontade própria, por muito que insistam que foi domesticado. É como se caminhasse não caminhando, uma experiência fora do corpo. Existir por interposto organismo. Mas quando começa a andar de um lado para o outro, sempre pela mão de quem o conhece e educou, não consigo ter a verdadeira noção de ser eu a fazer o caminho. Mas vendo aquela paisagem à minha frente, montanhas atrás de montanhas, sei que esta é a única maneira e tento habituar-me à flutuação.


Os cavalos seguem em fila. O Desorientado é o penúltimo, e eu por arrasto. Significa que qualquer foto que tire virado para a frente terá um comboio de dança em quatro patas. Mas o cenário vai-se desvelando à medida que subimos o trilho rochoso e é tudo aquilo que esperava: altitudes com gorro branco, as neves do final de Inverno aqui no hemisfério sul ainda bem visíveis e espessas nos topos das montanhas, mas em gradual sarapinto à medida que a altura se perde. Centímetros de vista, mas metros de rocha, são adicionados à medida que o trilho sobre e em segundo plano, dois irmãos montanhosos dormem, descansam, exibem-se. O caminho afunilado vai-se alargando e ao nosso lado esquerdo, corre um riacho que desce até ao nosso "resort". Mas são aquelas duas montanhas que nos dominam. É o Nevado de Ausangate, que com quase seis mil e quatrocentos metros vigia a nossa lenta cavalgada. Na mitologia Inca, era tão reverenciado que existe um festival anual que se desenrola aos seus pés, com o nome de Quyllur Ryti'i - na nossa língua portuguesa, a neve das estrelas. Como se todo este cobertor esbranquiçado fosse uma dádiva do céu, do mesmo Cosmos que ontem admirei em atenção e admiração suspensa. É ainda um centro do que sobra da original cultura desse grande império que englobou o Peru. É em Ausangate que funciona ainda uma vida de pastoreio única no mundo, que centra todo o esforço de uma sociedade inteira no seu sucesso. O trilho que fazemos serve essa economia, de aldeias espalhadas por estas montanhas, ligadas entre si por estradas apenas percorridas a pé. Pastores levam llamas e produtos associados para vender nestes locais desterrados. Olhando em meu redor, torna-se quase impossível conceber que alguém possa sequer viver para lá da linha do meu horizonte. Mas vivem. O Desorientado alheia-se a isto e faz por merecer o nome que lhe coloquei: no chão, o trilho está perfeitamente marcado, visível definido; mas o meu anexo de patas ignora convenções, julga-se um Guevara que relincha. Ziguezagues aleatórios, a escolha da versão mais difícil de dar as curvas, subir e descer quando pode perfeitamente ir a direito: este não é o fiel e equilibrado Brego do Aragorn. A certa altura, sinto o meu rabo a ficar dormente e as minhas pernas abertas num ângulo permanente que não é simpático. Penso nos filmes de faroeste, entendo bem porque é que os cowboys caminhavam como se tivessem ganho um assento num cacto.


Olhando para trás, já nem vejo o "resort", mas o que conta, de momento, é aquilo que está para aparecer à minha frente. O mais velho dos guias passa por nós a correr, com um saco às costas. O que levará? Aquelas altas montanhas vão-se aproximando, o trilho dá uma grande e larga curva para a esquerda, para me dar a conhecer um lago de água cinzenta, margens arenosas cor de barro, com picos nevados em segundo plano. Esqueço-me que estou num cavalo, lembro-me porque quase caio de tão espectacular é a revelação. Um dos nossos guias já está pronto a segurar-nos a montada, chegámos à primeira das lagoas de Ausangate. São sete e vamos percorrê-las a pé. Os bichos têm direito ao descanso, principalmente o meu. Se calhar, a desorientação foi de arcar com o meu peso. Em redor, é impossível não ver montanha e sinto-me regressado a casa. Um cão vem anichar-se aos meus pés, faço-lhe uma festa e de seguida, corre em direcção ao lago para saciar a sede. Em todo o espaço, rebanhos de llamas, espalhados em pequenos grupos. Numa criação artificial, duas pessoas vestem de forma colorida e sentadas, na base da montanha branca, estendem panos e cobertas para vender. Está explicado o mistério da correria e do homem do saco. Mas o meu foco está em absorver tudo isto para já. Todo este misticismo justificado dos Andes, tudo aquilo que vos tenho contado, o meu fascínio por esta região do mundo parece convergir neste momento na minha direcção. Estou para lá do óculo da máquina, há algo que sinto e que sulca as minhas reentrâncias mínimas da pele. Como se absorvesse bem para lá de mim e o oxigénio denso já não me fosse uma dificuldade. Sei que boa parte destas minhas crónicas se focam nesta estranha relação que tenho com as grandes paisagens e os cenários deslumbrantes, dominantes que encontro tão longe no mundo. Torna-se-me cada vez mais complicado transmitir o quanto tudo isto me esmaga e eleva em simultâneo, porque sinto em mim turbilhões que extravasam dicionários e só se explicam numa profundeza qualquer que só o olhar egoísta guarda. Tenho até medo de me afogar nos cenários que vou guardando e esquecê-los. É o paradoxo de quem viaja: estar no momento é em absoluto uma dádiva, bater continência a estar vivo, exuberar-nos; mas quanto mais vejo, mais hipótese há de me esquecer. Por isso, se a fotografia disto das viagens começou como um desafio estético, como procura de beleza, cada vez mais é uma caixa negra do que sinto quando estou aqui, no umbigo do meu mundo. Em casa, dias ou semanas ou meses depois de tudo isto não ser mais um pretexto para palavras que tenho escrito desde Outubro, é a essas imagens que voltarei para dar corda à alma, escutando uma doce melodia visual.


A caminhada procede-se em ritmo lento, acho que cada um de nós está maravilhado e compenetrado à sua maneira. As palavras são escassas, seguimos à letra o conselho dos Depeche Mode: apreciar o silêncio. O trilho de Ausangate tem perto de sessenta quilómetros na sua totalidade, mas nós, gente de fraca preparação física, fazemos apenas um giro de quatro em torno das lagoas que fica no sopé das suas montanhas. O degelo, quando se dá, deposita aqui as suas águas e o seu, em gesto de narciso, espreita-se nas água, forçando a paisagem a igual egocentrismo. Nenhuma delas tem tamanho ou profundidades que dêem para contar histórias monstruosas, mas ainda assim, existem para nos maravilhar. É uma oportunidade para fotos de reflexo e de qualquer outro tipo que destaque o estupendo impacto destas montanhas. Os Andes riscam a América do Sul de uma ponta à outra. Atravessam praticamente todos os países (das grandes nações deste sub continente, apenas Brasil, Paraguai e Uruguai não são tocados pela sua graça) e mesmo adormecidos e mudos, escondem uma longa actividade vulcânica que volta e meia agita estas terras. O mais violento sismo de que temos registo aconteceu em 1960, na pequena cidade de Valdivia, Chile. Fica mesmo aos pés dos Andes chilenos e por sorte, não era muito habitada: morreram "apenas" mil pessoas. Se correrem a lista de destaque de violência sísmica, nos vinte primeiros lugares existem sete registados nesta zona, um deles no Peru até, mesmo em Lima. Algumas das capitais mais elevadas do mundo, como La Paz ou Quito, também se localizam na cordilheira, cujo predomínio territorial forçou muitos dos seus cidadãos a habitá-la. Com isso, também a habituar-se à altitude como habitat; e isso torna os Andes num fascínio pessoal, imaginava acordar num ponto habitado desta região e abrindo as janelas com estrépito, dar por mim a devorar com os olhos longas montanhas que não consigo sequer encher com a gula. Esta voltinha pelo trilho das lagoas de Ausangate é um pouco isso, aquela sensação emotiva de calcar e percorrer, mas sem a capacidade de lidar com tudo isto, por mais que viaje, por mais que veja. É sempre de abrir a boca, nunca de dormência perante o encanto, o que é correcto aos sentidos que nos ligam ao mundo. As cores que nos dominam, o espanto que faz ceder o embrutecimento e o refúgio da normalidade que nos impede de ensandecer com as emoções. Apetece mesmo perder a razão e o juízo, sentar e não ir embora. É o que quero e não tenho direito. Vi todas as lagoas, trouxe na máquina as montanhas, mas este ar e esta luz só posso guardá-las durante os segundos em que disfruto. O paradoxo do viajante é este: ir e voltar, mas só estar neste intervalo. Os Andes são um momento. No regresso a casa, voltarão a ser letras num livro que leio e numa crónica que escrevo.


Voltamos aos cavalos. O Desorientado, pachorrento, vai comendo erva do chão. No regresso, não perdeu o gosto pelo perigo e nalgumas vezes, tenho de puxar as rédeas ainda que, como calculam, não saiba a maneira correcta de fazê-lo. Preciso da ilusão de controlo, mas depois de Ausangate, apetece-me apenas ser controlado pelo que deixo para trás e deixar-me levar. Não sei se algumas vez sentiram isto, como se fossem uma corda elástica. É como estou. O cavalo não entende, até porque nunca mergulhou em literatura, nem entende os profundos anseios e abismos da alma humana. Talvez vá assimilando que os donos de duas patas são criaturas complicadas, mas desde que o mantenham numa dose regular de comida, água e descanso, nada o incomoda. Por momentos, a plenitude é atingível, mas nunca acontece. Não é do balanço ou do cansaço: é de mim. Como se sentisse esplendor, mas isso não me chegasse. Como se apenas nos lábios de quem quero pudesse, por fim, recolher o que falta e fazer dos Andes vulcões, de Ausangate o tecto do mundo. Percebo que por muitas voltas que dê ao mundo, algo me faz falta; mas as voltas são minhas e faço-as porque viver é mais do que esperar, é ir em busca e criar caminho. Ainda que as patas que pisam o chão não sejam minhas.

quarta-feira, abril 24, 2019

Perugrinação 19: Estrelas austrais


Toda esta viagem parece ser marcada por desalinhos corporais variados, de tal modo que parece que só sofri: vómitos, súbitos desarranjos intestinais, gente que fica de cama por males de estômago, a altitude fazendo das suas em praticamente toda a gente... No entanto, o Peru não é só doença. Precisei foi de me colocar nos confins da montanha para descobri-lo - o que não me surpreende. Sempre defendi aqui com vigor que as montanhas me revigoram, ainda que, por outro lado, também dêem cabo de mim. Depois de sairmos de Palcoyo, deixámos as cores para trás. O almoço, tardio, deu-se numa casa, meio perdida, onde uma simpática família preparar um manjar que servia um batalhão, mas era apenas para um grupo de doze pessoas. Foi um daqueles momentos apenas possíveis quando atravessas a linha da realidade e vives a cultura de outros. Não me recordo do que comi, apenas que isso não foi o mais importante. Numa sala ainda grande, mesas e bancos corridos, comida para todos, sorrisos e uma capacidade de comunicar através de simples gestos de generosidade e disponibilidade. Miúdos correndo em redor, um recanto de folhagem à beira de uma estrada de terra batida, um refúgio. Deu ainda para visitar um armazém onde porquinhos da Índia são criados para... digamos que não é para serem animais de estimação. No meio de tanta viagem comprida que temos feito, centenas de quilómetros calcorreados, esta paragem que não chegou a duas horas quebrou também uma rotina de mata corpo. O caminho não é só material, há também outras coisas importantes. Pessoas, afinal o que estraga o mundo e o que pode redimi-lo. Ainda que seja uma garfada de cada vez.


A tarde preenche-se da ligação sinuosa até um local que me tem feito sonhar acordado desde que cheguei: Ausangate. Os Andes finalmente em apresentação digna, uma montanha com quase seis mil e quinhentos metros, sendo que estaremos aos cinco mil para um confronto directo com este monstro de rocha. Chegar até lá não é fácil. Aliás, quando eu escrevo que isto é remoto... não exagero. Estradas relativamente direitas dão lugar a curvas que não mais acabam subindo e descendo montanha. Enquanto cai a noite, cada um existe no seu silêncio dentro da carrinha. Os dias e o cansaço começam finalmente a apanhar-nos. No meu canto, escuto podcasts de crimes reais, porque nada soletra "viagem sossegada" como histórias de gente a matar outra gente. Ainda por cima quando no isolamento breu da noite em montanhas onde a civilização se espaça com passada larga. A certa altura, saímos da estrada de alcatrão principal e entramos noutra bem mais estreita, que começa a inclinar gradualmente, até que o declive é inegável para as mudanças da carrinha. A escuridão profunda sarapinta-se de quando em vez, carros e motas. Uma aldeia está em festa, gente na rua e alguma música, luzes festivas penduradas nalguns cabos de electricidade, embora o aspecto do local seja ermo. Pessoas vivem ali, mas só porque não têm outro lado. Num relance, observo um carro de mala aberta. Na mala, acomodam-se umas seis, sete pessoas. Atrás, segue uma pick-up, com tanta gente que parece gado. É aquela sensação de surreal constante que apenas se encontra na América do Sul. Podem dizer que Portugal também oferece este lado interdimensional, mas não desprezem o que cruzamento que a bizarria e a altitude podem conjurar.


Segue-se um quarto de hora de viagem em escuridão total. Apenas os faróis da carrinha oferecem algumas pistas, buracos e pedras que por ocasião são obstáculos no caminho. Guinadas para a esquerda e para a direita. O corpo está meio morto, não é problema. Uma visão esbaforida oferece-me, a alguma distância, um clarão permanente. Vamo-nos aproximando e os contornos ajustam-se, são casas. "Estamos a chegar", diz o Rodrigo, e o tom de voz revela uma impaciência que tem a ver pouco com o profissional. Ele conhece este lugar e porventura os habitantes. Quando estacionamos, já nos esperam dois homens. Abraçam o Rodrigo, o meu instinto estava correcto. Em redor, distingo apenas curvas que sobem e descem, embora sem conseguri observar o que as causa. Encaminham-nos rapidamente para duas construções de pedra, já com algum uso e idade. Eu e o Pedro ficamos na mais pequena, o restante grupo, feminino, sobre até um primeiro andar com varanda. Quando entro, três patuscas camas, meio toscas, ainda que com ar muito confortável preenchem a divisão. O Jorge não veio, logo a cama que lhe era destinada fica como nosso repositório de tralha. Noto que há um saco-cama para cada um. "Houve quem tivesse passado frio no grupo anterior", justifica o Pedro. Não me importo. Conto-lhe que no Quirguistão, dormi em yurts e nem sequer camas existiam; e para mim, conto que toda a minha vida quase fiz de tendas casa. Sem qualquer problema. Até acho piada. Conto cinco cobertores. Não sei se este local é o ponto de origem da próxima era glaciar ou se os nossos antecessores lusitanos eram todos do Algarve. Sou beirão. Um beirão trata o frio com uma risada e logo a seguir, mete as meias por cima das calças, para garantir circulação de calor sem perda. E é então que busco a minha mochila e tiro não um barrete, não luvas ou casacos, mas sim uns calções de banho.


Não estou a alucinar, nem vocês, de repente, inspiraram alguma fumaça de marijuana de alguém ao vosso lado. Calções de banho, sim. Olho para o relógio e são sete e meia. Hora ideal para conhecer um dos grandes atractivos deste lugar: as piscinas termais. Há quem venha aqui de propósito para as mesmas, mas curiosamente, nada do que aqui existe grita "Aldeamento turístico". Quem gere o espaço são algumas famílias quechua tradicionais, vivendo um estilo de vida já em vias de extinção no planeta. São, acima de tudo, pastores, e já não existem muitas comunidades iguais em todo o mundo. As instalações são humildes, mas compensadas pela simpatia e dedicação da comunidade que aqui habita. O ligar chama-se Cchacha  - riam à vontade - na base de Ausangate, oferece uma fuga a tudo e uma base para caminhadas de montanha. Isso, no entanto, é para amanhã. Agora, estou mesmo interessadíssimo em consultar as propriedades curativas destas águas. Abro a porta e sopra aquela lâminazinha de frio que reorganiza o meu sistema reprodutor. É o ímpeto ideal para caminhar feito pinguim até duas piscinas que fumegam. A toalha tomba no chão, as sapatilhas voam e deslizo lentamente para o interior da que me está mais próxima. Delícia. Esqueço logo a história do gelo e da tibieza. A água dá-me pelo peito e nem me quero mexer. Braços apoiados no muro e deixo-me boiar um pouco. Se levantar a minha mão, entendo de imediato o choque térmico entre o exterior e o interior. Acho que o meu corpo se podia habituar a isto. Desço à profundidade e completamente coberto, entrei no banho maria total. De olhos fechados, nada ouço, mas vou cozendo na lentidão, sem me importar. Tudo aquilo que os meus músculos ossos suportaram desde que aqui cheguei, todas as longas viagens, as caminhadas em altitude, as noites mal dormidas, parece encontrar aqui dedos curandeiros. Só percebemos a doença quando encontramos a cura. Quando volto à tona, sinto-me a renovar e por fim, volto os meus olhos para o céu.


À luz mínima, as estrelas são grãos de areia que brilham forte. Tantas que quase nem vejo o céu. A lua tirou férias e o panorama astral esmaga-me e é outro tipo de calor que convive com a água. Aprecio o Cruzeiro do Sul, constelação única nestes hemisférios e que nunca poderia ver nos meus céus. Com alguma atenção mais dedicada, os meus olhos seguem o rasto de centenas de estrelas que atravessam a cúpula cimeira de um lado ao outro, curvando. É o Arco da Via Láctea, algo tímido, mas cada vez mais visível à medida que o meu olhar se habitua à falta de luz. É um espectáculo astronómico que só é possível nas condições certas. Estas reúnem-se aqui, nos confins da cordilheira mágica, onde a noite é o despertar dos mágicos. Entendo no meu íntimo como é que os Antigos viviam tão fascinados pelo céu. Dominados e acossados pelo breu nocturno, tendo como luzes apenas as cálidas fogueiras que se mantinham a esforço, viam na plena nitidez este mesmo espectáculo que presencio, questionando-se talvez sobre o brilho pontilhado do firmamento. Consigo imaginá-los em teorias de Inteligências Superiores, a permanência de pirilampos no Universo, a ideia de que por muito que se conquista nos degraus do intelecto, há sempre algo fora do alcance, um mistério impenetrável, um reino longe dos olhos, longe do corpo físico. E a questão que não cala: o que é? Aquele oceano estelar no fluxo permanente e um certo consolo do que por muito que a escuridão cubra e domine, há sempre um local para onde podemos olhar onde a luz não acaba; e boiando eu num oceano muito mais pequeno, confiando às quatro arestas de um tanque, tremo quando penso na minha escuridão, de que como observar este arco nem sequer me lembro de que ela existe, de como me faz tremer. Não sinto sossego quando olho para o céu, mas domina-me um fascínio que substitui a realidade. Há noites em que isso basta. Esta é uma delas.

Existe um outro tanque mesmo ao lado daquele onde me encontro. Alguém me esclarece que aquele é o da água mesmo quente. Uma pessoa habitua-se no primeiro antes de passar ao segundo. Experimento. A táctica resultou, mal sinto a variação de temperatura. Não sei quanto tempo passou desde que me entreguei as cuidados minerais, mas não quero saber. Do pior instinto humano é começar a contar segundos quando estamos no sítio onde devemos. No local que conta, que nos faz sentir bem. Vejo alguns dos meus colegas de viagem a entrar e a sair e vou ficando. Hipnotizado por estrelas, pelo que me é superior, o rio da minha consciência navegando lácteo. Sei que passado uns minutos abandonei este tesouto. Voltei a calçar-me, enrolei a toalha à cintura e molhado, crortado novamente pela temperatura nocturna, regressei ao casebre e voltei a ter mais duas camadas. Mas neste momento, não penso sequer nas consequências de abandonar esta espécie de útero tépido. Esqueço-me da minha vida, nem quero saber dela. Perco-me na música dos astros e sou passado de mão em mão entre eles, no ritmo da infinitude. Se não penso, sou feliz; e neste momento, o meu cérebro recusa-se a deixar-me triste.

quinta-feira, abril 18, 2019

Perugrinação 18: Um arco-íris estampado


Acordo. Estou em Cusco novamente e o quarto de hotel é o mesmo, a cama recolhe-me de igual forma, tudo me é familiar; o Jorge, na cama ao lado, não se mexe, mas ouço-o. Pergunto-lhe se tudo está bem. Ele resmunga algo de início, depois clarifica que não se sente nada bem. Na noite anterior deve ter comigo algo que lhe fez mal e o estômago dá-lhe ares de carrossel de feira popular. O Peru tem provado ser, até agora, um perigo de saúde pública. Há de um pouco para todos. Podem falar o que quiserem do Quirguistão, mas há dois anos ninguém ficou doente. Não sei as bactérias da Ásia Central aprenderam a ser meigas por medo da peste bubónica, como um papão do mundo microscópico, mas voltei sem uma queixa. Uma hora depois, quando já estamos para sair, o Jorge atira a toalha ao chão. Não consegue sequer contemplar enfiar-se numa carrinha e enfrentar as estradas montanhosas nos próximos dois dias nos levarão aos confins recônditos dos Andes. Nem consegue sequer contemplar-se erguer-se da cama, quanto mais; mas está bem arrependido, porque o prrograma é de sonho, pelo menos para mim: uma visita a um sector menos desconhecido das chamadas montanhas arco-íris; e aventurarmo-nos pelas elevações de Ausangate, acima dos cinco mil metros de altitude, para fotografar lagos e rocha bruta a grande altura. É o que me move, é o que quero quando viajo: matar o meu corpo à conta de imagens e levitação visual. O Jorge não vem. Tantas vezes nos contam de como o espírito é forte, mas se o corpo não quer, o espírito exorciza-se na recriminação do quanto somos frágeis. Saímos do hotel e imagino-o deitado, acho que ainda nem com a noção do que vai perder ou de que atravessou um oceano para que algo tão prosaico quanto uma intoxicação alimentar o afaste do movimento do mundo. Somos tão pequenos e julgamos que o nosso tamanho é maior do que os intervalos da fortuna. O aleatório e o acaso são um recreio onde estamos quase sempre de castigo.


Nestes dois próximos dias, vamos aventurar-nos em cantos ainda mais recônditos do que Cuncani. Hoje, o nosso objectivo é visitar as chamadas montanhas arco-íris, uma curiosidade geológica a sudeste de Cusco. Depois, rumamos até ao interior dos Andes, com a ideia de passar a noite a quase cinco mil metros de altitude, perto de Ausangate, um conjunto de lagos de montanha. Portanto, estamos no meu elemento. Enquanto a carrinha se mantém no alcatrão, vou notando na disposição dos meus companheiros de viagem. Alguns deles ainda tentam gerir as maleitas que os impediram de fazer o trekking de Cuncani, e há uma sensação de cansaço geral; no entanto, ainda estamos bem dispostos e ninguém tentou matar-me até agora, o que considero sempre um sinal de bom humor. Não me sinto cansado, curiosamente, mas a montanha, no geral, alimenta-me mais do que me cansa. Quanto mais próximo me sinto da altitude, ainda que o oxigénio rareie e o corpo carbure a gasóleo, o meu ânimo levanta-se quase ao nível dos picos levados. Estou a entrar na fase final desta expedição ao Peru, aquela que mais desejava: perdido no meio dos montes, parece sempre que me encontro em momentos, o que é mais do que muitos podem dizer de uma vida inteira. A certa altura, metemos por uma saída à esquerda e a consistência do solo muda de imediato. O ritmo latino chegou aos assentos da carrinha. Tal acontece porque a partir daqui acaba o alcatrão. O que se segue afunila numa estreita estrada de terra batida, que nos primeiros quilómetros ainda atravessa casas. Isso muda com rapidez e vemo-nos no nenhures. O caminho sibila em subida e descida, as pontes são pretextos de troncos com placas de metal encimando, há bicharada que sabe ser dona destes troços. É um rali a muito menor velocidade. Raramente passamos os quarenta a hora. Se quiserem fazer uma pausa na leitura para confirmar isto, dirijam-se ao Google Maps e escrevam "Pallcoyo". É o nosso destino. Agora, verifiquem as estradas. Mesmo aproximando a vista. Nenhuma, não é? Elas existem, garanto. Não viajei na Carrinha Mágica. No entanto, a direcção de estradas deste país, como a da maior parte da América do Sul, tem uma noção muito vaga de acessibilidades. Desde que haja longas vias cruzando a nação de alto a baixo, considera-se o serviço público garantido. Aqui, tal como há uns anos no Quirguistão, o meio de nenhures é exactamente isso, sem exageros. Vive aqui gente, para que não se sintam enganados; mas para eles, é como se o resto do país não vivesse consigo.


Há que notar também, já agora enquanto carrinha pasta até ao nosso destino, que a secção das montanhas das cores que visitamos não é de todo a mais turística. Música para os meus ouvidos, claro, mas também por razões bastante práticas. Apesar de se ter tornado num chamariz turístico nos últimos dez anos, a descoberta desta maravilha geológica é recente. Se pesquisarem por relatos pessoais acerca deste local, encontrarão de tudo, desde uma demonização quase ridícula até um entusiasmo bacoco, onde fotografias carregadinhas de Photoshop dão a ideia da possibilidade de visitarem uma visão alimentada por LSD colocada a céu aberto. A maior parte das fotos e as histórias referem-se a Vinicunca, parte que não visitei, mas que, segundo o Pedro, corresponde a um percurso que aparenta ter bastantes parecenças com as formigas num carreiro. É a rota que a maior parte das operadoras turísticas escolhe precisamente por ser de mais fácil acesso.  Os nossos condutores, exactamente os mesmos que nos levaram a Cuncani anteriormente, escolheram outra zona da montanha colorida mais isolada, inóspita e desconhecida. Fica no já referido Palcoyo. Ao contrário da maior parte das grandes cadeias montanhosas mundiais, os Andes geram ainda uma considerável actividade vulcânica, algo que se prende não só com a sua localização geográfica, em margem do Anel de Fogo do Pacífico, mas também com o seu próprio processo de formação. Ora, isto leva a que sejam profundamente complexos na sua composição. A chamada "Montanha Arco-Íris" é um bom exemplo disso, com toda a sua profusão de cores vindo dos vários minerais que à superfície tornam o planalto num caleidoscópio em forma de tapete. Só por isto já valeria a pena visitar este local; no entanto, e como em tudo o que é turístico, existe uma cultura do exagero que coloca na cabeça das pessoas uma ideia abusada daquilo que aqui encontrarão. Para mais, e como explicarei à frente, as condições climáticas são absolutamente importantes para apreciar esta maravilha.


A carrinha pára, mas ainda não chegámos. De maneira a limitar o fluxo de visitantes, existe um posto de controlo onde somos contados. É uma boa oportunidade para respirarmos um pouco de ar, pelas condições acredito que puro, e olharmos em redor pela primeira vez. Gentes quechua olham-nos enquanto tomam conta de vicunhas que pastam. Devem estar fartinhos de estrangeiros, logo não somos surpresa. O céu está malhadiço, mas o sol espreita e um pequeno riacho corre no sentido contrário ao da viagem, do lado esquerdo da estrada. Uma erva rasteira verdinha, quase branca domina a paisagem, mas já se notam os barreiros montanhosos, vermelhos picanha, que nos acompanharão nos quilómetros seguintes. Não há vestígios ainda do manto de mil cores. Tudo aprovado, podemos seguir. Pela janela, deixo-me seduzir menos pelos pigmentos e mais pelos fantásticos picos, alguns deles ainda com vestígios de neve, que guardam a paisagem. Cresce em mim o formigueiro de guardá-los na minha máquina. As curvas surgem mais apertadas e numerosas, sem abismos, mas ainda assim causando um ou outro calafrio. Há um silêncio reverencial que apenas se desfaz quando chegamos ao estacionamento. No exterior, sopra um ligeiro vento, frio, a altitude não se faz apenas temer na respiração. Na direcção de um longe que está perto, termina o pequeno trilho que teremos de fazer para o melhor ponto de vista possível. São dois quilómetros, que deve ser multiplicado por quatro devido à altitude. Por muito hábito que tenhamos ganho, estamos acima dos quatro mil e quinhentos metros. Os piores sintomas já não se fazem sentir, mas continuo com um corpo de beirão de bitola baixa. O melhor remédio é a paisagem. Palcoyo permite a visão extraordinária de um planalto ondulado, um lençol amarrotado tingido por garotos. As cores não são tão evidentes como nos posters cheios de efeitos digitais, mas os tons notam-se sem esforço. Predomina o vermelho carne do barro, uma estrada barrenta que se estica, mas a espaços, laranjas e azuis, amarelos e o verde daquele vegetação andina quase indestrutível compõe um quadro de Vincent Van Ooooohh. A neve não derreteu completamente e tinge todas as superfícies como uma brancura onde as cores se salientam. Enquanto faço o trilho, capto tudo isto, de vez em quando cruzamo-nos com indígenas a fazer o seu papel no turismo peruano.


Do meu lado esquerdo, ergue-se o ponto mais alto deste local. Algumas pessoas sobem até lá, é um espinhaço de cão, cristas de pedra verticais e finas, como o dorso de um estegossauro, meio tapadas pela alvura neveira.  Quero ir, mas o meu corpo não obedece. Vou terminar este trilho e logo se vê. Não nos perdemos, porque um corredor de pedras laterais conduz-nos exactamente onde devemos estar. É daqui que se apresenta um panorama irreal, quilómetros e quilómetros de delícia, a contorção muscular do planeta enquanto faz a musculação dos meus sentidos, ao longe fiadas de montanhas completamente tapadas por neve. É momento de Einaudi. A pele malhada de um leopardo oferece-se nos montes, as nuvens passando à frente do sol, criando jogos, hipnotizando na medida em que olhar para elas é perder o foco deste mundo e aparecer noutro onde a realidade é apenas esta beleza, só, sem dor, sem mácula, sem qualquer outra coisa que não seja uma delícia que na pele escorrega. São os olhos quem vê, é o corpo que se transforma num imenso pare de diversões. Atrás de mim, altitudes coloridas; à minha frente, o branco, soma de todas as cores, cobre damas de honor num casamento entre o meu eu verdadeiro, que se me foge, que se esconde, que eu nunca permito, com aquele que todos os dias aparece e é. Um eu que me pesa e pesa aos outros, um eu que nunca consigo crer que alguém goste ou queira simplesmente partilhar, de quem penso sempre que se tem piedade ou pena. No momento em que o mundo é isto, apenas o panorama, apenas a soma entre o que vejo, o que ouço, o que penso, o que algures no meu corpo clama o teu nome em impulsos irresponsáveis- É aquele ponto de fusão que quase atinjo, que procuro desde que cheguei ao Peru, pelo qual embarco em viagens que me custam mais o corpo do que o dinheiro, que me enchem de uma dose temporária de esplendor mas que nunca explanam a dor. A dose regular, a filosofia da fuga, a presença simples do que é maior do que eu. Parado neste miradouro, em Palcoyo, não sei explicar o que me atravessa. É um tremor que me arranca da inércia, mas que ainda assim não me põe a mexer. Transcendo o mundo, mas nunca me consigo transcender a mim próprio.


E sento-me. Deixo-me estar. Tantas vezes aqui falo de andar de um lado para o outro, dos locais e das viagens, que me esqueço quase sempre de referir os meus melhores momentos: aqueles em que simplesmente estou. Aposto que há dezenas de coisas a acontecer em meu redor, pessoas a pedir fotos, passos dados, olhares trocados, todo um múltiplo de um todo. Mas consigo não viver nesse bulício e estar só comigo. Muito o que de mim brota depende do que vejo. Estou à altura do que os meus olhos gravam e não nos confins daquilo de que me acho capaz. Neste momento, sou tanto quanto aquelas montanhas nevadas de que falei e em mim reflectem todos estes veios de mineral que dão cor aos montes. Não se vê uma única casa ou edifício, só o que definem de nenhures, que tem tanto, tanto. Há locais de que já vos falei aqui onde apetece só ficar e nem seguir viagem, ficar e nem sequer partir, sítios que são mãos a envolver-nos, abraços que ficando tempo suficiente, se tornam segundas peles. Daqui a dez minutos, terei de me levantar e regressar à carrinha, espera-me Ausangate. Mas fico lá na mesma. Ainda depois de regressar. Ainda depois de estar aqui à frente do computador a teclar e a escrever. Na verdade, ainda lá estou, em Palcoyo enquanto escrevo. Só não tenho essa noção.


terça-feira, março 26, 2019

Perugrinação 17: Um Peru dentro do Peru


Há coisa de dois anos, o governo peruano foi peremptório em considerar o distrito de Lares como o mais pobre de todo o país. Isso é dizer algo num território nacional que cobre zonas desérticas, selva amazónica e montanha quase inóspita de Norte a Sul. Lares é um caso muito particular na geografia e economia peruanas. Se pesquisarem num mapa, apenas duas estradas chegam até à própria vila, sendo que não existe ligação entre entre ambas. Bizarro, mas verdade. Deve ser um dos poucos locais do país onde niguém está de passagem: se vais a Lares, é porque quiseste lá ir; e se vais a Lares, isso significa que fizeste uma longa viagem onde nada encontras no caminho para além de casas abandonadas, árvores e pedras. A vila é pequeníssima. Tem um largo minúsculo e estreito, que faz as vezes de mercado, e a partir do momento em que saímos, estamos à nossa mercê de caprichosas estradas de terra, escravas do clima se chove demasiado, desaparecem; e com um certo azar, é possível furar ou partir um eixo e esperar horas - se tivermos sorte - até que algum reboque se digne a aparecer para resolver a situação. Se de facto existir um cu do mundo, Lares candidata-se a ser uma das nádegas. É aqui, no entanto, que começamos a encontrar o verdadeiro passado do país, porque olhando a partir da janela do carro, encontro uma raridade: zero caucasianos. Em toda a volta, faces indígenas. São os verdadeiros descendentes das antigas civilizações americanas, comunidades quechuas de pessoas pobres, destino social da maior parte dos ameríndios dos países sul-americanos. É um problema comum a toda a América Latina, que este ano ganhou alguma visibilidade com o sucesso do filme "Roma" nos Óscares; mas acontece em todo o lado. O Brasil de Bolsonaro trata a questão com bulldozers e assobios para o lado quando milícias de agricultores consideram índios como um preço a pagar; a desatenção do governo do Perú opta pela simples incúria. Lares, com as suas casas baixas e de tijolo, é apenas o mais desenvolvido que esta área tem para oferecer. A grande fatia dos quechuas que aqui habitam existem em pequenas aldeias perdidas pelos montes que vemos ao longe, espalhados pela solitária altitude e na sua grande maioria vivendo acima dos quatro mil metros. Os acessos são perigosos e alguns deles desaparecem na estação das chuvas, que vai começar daqui a pouco tempo.

Mas viemos precisamente pela experiência de conhecer a vida autêntica dos Quechua. No Peru existem quase quatro milhões de falantes desta língua, na sua grande maioria herdeiros e descendentes da cultura. É a maior comunidade de todo o continente americano. Não são exactamente um povo com uma cultura uniforme e a língua é o seu maior elo de ligação, embora existam dezenas de dialectos diferentes, que tantas vezes são incompreensíveis a outros falantes. Fala-se que era este o idioma dos Incas, mas o certo é que alguns dos rivais deste imperio também o falavam. É a segunda língua oficial do país e os seus falantes espalham-se por uma boa parte do sub-continente. Defendem que, pelos critérios de designação válidos na Europa, existem afinidades culturais suficientes entre si para que se considerem uma nação com claros direitos a exigir independência ou pelo menos autonomia. A expressão "Nação Quechua" é bastante usual na política sul-americana, embora os efeitos práticos sejam reduzidos. Os Quechua foram quem mais sofreu com a mais recente guerra civil peruana na década de 80. Forças governamentais e revolucionários do Sendero Luminoso trataram-nos como carne para canhão, o que é compreensível pois os elementos destes grupos eram na sua esmagadora maioria brancos ou mestiços. Alberto Fujimori, último ditador do país, iniciou na década seguinte uma campanha de esterilização de mulheres que visou principalmente esta comunidade e outra indígena, os Aymara, num caso de selectividade racial óbvia. Mais recentemente, quando duas mulheres indígenas foram eleitas para o Parlamento e fizeram o seu juramento na sua própria língua, a Presidente do hemiciclo recusou aceitar a jura. Peru: um país que não é para todos.


A carrinha pára. Saio e vejo apenas um casebre de pedras amontoadas. No entanto, a paisagem em redor é demolidora. À minha frente, um estreito riacho, deslizando pelo planalto pantanoso, parece subir ao invés de percorrer o seu caminho normal porque conduz o meu olhar para uma montanha em terceiro plano, cabecinha coberta de neve, formato de vulcão que se tornou, nos meus olhos, já familiar na cordilheira andina. Está um céu azul impecável, o sol brilha, o silêncio é quase total e apenas se quebra quando alguns cães vêm investigar os estranhos. O Pedro desaparece no casebre e antes que regresse, saem de lá uns garotos, trajes coloridos, faces quechuas. Primeiro tímidos, depois puxam-nos a roupa e alguns de nós colaboram em brincadeiras e tropelias. Sendo eu alto, faço de carrosel voador a alguns, risos espalhados, genuínos, honestos. Miúdos que se divertem com tão pouco porque não têm muito mais, mas se calhar até possuem bastante na sua inocência. A identidade da cor é muito vincada nesta cultura, quando correm ou voam nos nossos braços, é como se o mundo fosse um prisma e estes garotos, em luzes, arrastam as suas coloridas roupas, alterando a realidade. Mas não vim aqui para estar com garotos, tirei férias disso precisamente. Aquela montanha atrai-me a atenção e afastando-me de tudo, fotografo. Estou na realidade o suficiente para escutar as notícias trazidas pelo Pedro: o pai dos garotos devia ser o nosso guia num trek curto até um lago de montanha; aparentemente, surgiu uma oportunidade de negócio para vender um carro, numa povoação que fica a umas horas dali, e não sabe se chega a tempo. Uma alternativa é procurada e enquanto espero, nada como uma latinha de atum para aconchegar o estômago. Umas tábuas servem de ponte improvisada sobre o riacho e é aí que me sento.


Quando acabo, a questão do guia está resolvido. Numa habitação próxima, um senhor idoso caminha na nossa direcção. Baixo, cara agredida pelo frio e pelas décadas, sorri-nos e fazendo mexer o seu poncho multicolor, escuta a proposta do Pedro, o nosso guia. Aceita a responsabilidade que caberia ao filho, como se a hospitalidade fosse um valor sacrossanto para a família e na ausência de um, a obrigação de outro é ocupar o seu lugar sem má vontade. O plano é fazer uma pequena caminhada, não mais do que quatro quilómetros, rumo a um laguinho que ficará algures entre as montanhas que vemos. Há um trilho cujo início é bem visivel, pronto a ser seguido. Livramo-nos do peso excessivo - os mais sábios entre nós - e estamos prontos a começar. Rapidamente percebemos que o entendimento que o senhor tem da função de guia é muito liberal. Aliás, a humilhação vai-se instalando gradualmente em mim quando assisto ao desaparecimento rápido em caminhada de alguém com pelo menos mais trinta anos do que eu. É certo que ele tem a vantagem de jogar em casa, mas ainda assim, para alguém que está a dobrar a metade da sua possível existência, não é nada moralizador. Olho para trás, no entanto, e descubro que sou primus inter pares. A restante pandilha andarilha, há uns minutos entusiasmada com as oportunidades fotográficas de elevação, perdeu o gás rapidamente e com ele o fôlego. Noto algum arrastar de pernas, respiração pesada, velocidade quase em marcha atrás. A cada quinhentos metros verifico a situação e há sempre um elemento a menos, que ou caiu num buraco ou reviu em baixa os seus planos para esta tarde. Sobramos quatro. A falar verdade, não me sinto particularmente cansado. Aprendi que muitas vezes o truque é meter um ritmo estável e que não incomode muito a vida. O meu instinto sabe também que o ar é mais denso, velcro dos brônquios. Sei por isso que tenho de me gerir; no entanto, entra em acção uma atitude irreflexa apenas possível quando se passam quase vinte anos num grupo de escuteiros. A ideia fixa de que numa caminhada, ninguém fica para trás. Sinto que ainda que chegue ao fim, a minha caminhada não fica completa se não ajudar os outros a chegarem lá comigo. Consciente deste esforço duplo, diminuo o ritmo. Imediatamente atrás, a Joana segue também decidida e não me parece diminuída o suficiente para que me preocupe. A Cina e a Sofia dão-me mais inquietações e é nelas que me centro.


Com piadas e alguns insultos - eu disse que apoiava, mas nunca afirmei que o fazia de forma ortodoxa - faço sentir-lhes que não estão sozinhas e faço-me ponto de referência. Enquanto me observarem, sabem pelo menos que o caminho prossegue e que, de uma maneira mais ou mens torcida, o fim está ali ao virar do monte. Não é necessariamente verdade, mas acho que só faz ou fez caminhada entende o quanto o factor psicológico e a ilusão são fundamentais para se atingir o final. O sol desapareceu e o céu barra-se de nuvens cinzentas, a temperatura baixa, mas o verde, esse continua baço, meio apagado. Uma certa neblina fantasmagórica envolve aquele grande monte vulcão que vi à hora do almoço, agora cada vez mais perto, lenta mas definitivamente. A Sofia e a Cina vão parando de forma mais frequente e a Joana sumiu. Quanto ao velhote, calculo que por esta altura esteja algures na Patagónia, a ver icebergues. Não quero que elas sintam que estou a arrastar-me por causa da sua dificuldade. A pena é tão desmoralizadora quanto o ácido láctico e como tal, também por interesse pessoal, a máquina fotográfica serve-me de pretexto para pausas. O vale que racha até Lares é soberbo, montes atrás de montes, pedra bruta, um desrespeito total pela regras da estética, mas fascinante. É o tipo de violência que aprecio. Passo por pequenos feudos, limitados por muros de pedra, onde ovelhas e lamas pastam e caminham, olhando-me sem se aproximar. O trilho desaparece um pouco neste ponto e procuro pelo menos uma alternativa. Não quero que as minhas duas ovelhas comecem a panicar. Entrevejo, mais por lógica do que por visão, um planalto algures na base da grande montanha. O lago não deve ficar longe. Pelo menos, é isso que lhes invento para levantar ânimo. Resulta, mas preciso de confirmar a minha dúvida. Invento um caminho em subida e quando estou prestes a chegar, vejo uns cem metros à minha frente o irredutível quechua, agitando os braços. Quer que o siga. Ya, agora queres que te siga... Eu respondo com os meus braços também e ele toma isto como uma deixa para voltar a sumir. No entanto, se ele aqui está, o final não deve estar assim tão longe. Sempre controlando a minha distância para a Sofia e a Cina, galgo os metros finais e encontro, por fim, o objectivo. É como um disco muito ténue, fronteira entre a Terra e o Céu. A placidez dos meus olhos é ilusória, pois resulta precisamente de um lago que medita dentro de mim em mantras zen. Atrás de si, um bruto maciço impõe a sua lei, e o seu perfil ideal para fotografias. Por fim sento-me, a Joana está por ali e não se perdeu felizmente. Antes de tudo o mais, alimento-me. Não é atum, calma; uma saqueta de Belgas rumina-me os pensamentos, menos cansados do que eu, cheios de propósito em relação às saudades. Seguem-se fotos. O velhote, enquanto a Cina e a Sofia chegam, diz que tem uns assuntos a tratar. "Ganado", ri-se ele e contornando as margens do lago, descobre os segredos atrás de uma pequena elevação.


A Joana levanta-se. Põe-se a caminho, não quer atrasar-nos e assim como assim, lembra-se do caminho. Se ela cá chegou, também sabe voltar - e não fico a pensar muito nisto. As restantes duas tentam recuperar. A Sofia com melhor cara não desarma do seu casaco verde, uma folha pousada em altitude. A Cina, uma senhora com muitos anos nas pernas, dá ares de quem nos vais informar de que foi atropelada por um camião, e também um rebanho de vicunhas pelo caminho. Se não soubesse a verdade, a cara dela dava-me zero razões para duvidar. Espero que o senhor volte, mas passa uma meia hora e nada. Olho para o relógio e são quase quatro e meia. Calculo, baseado no cansaço delas, que vamos demorar pelo menos uma hora e um quarto até regressar à aldeia. É certo que descemos, mas as pernas não são as mesmas. Coloco-lhes esta preocupação e elas concordam: o melhor é ir embora. O homem conhece as fendas e as pedras muito melhor do que nós, aposto até que fala com elas e discute a prestação da selecção peruana no Mundial de futebol. Alguns minutos depois de abandonarmos o lago, começo a procurar a Joana, estamos num ponto elevado cuja vista alcança praticamente todo o caminho que fizemos. Não a vejo. A Sofia e a Cina devem estar a pensar no mesmo. "Onde está a Joana?" e é um pergunta que me fazem recorrentemente como se fosse eu o único olho numa terra de cegos. O certo é que não a encontro. É altura de uma opção heterodoxa. Em vez de procurá-la à minha frente ou acima de mim, desvio o olhar para o vale. Lá no fundo, a umas centenas de metros, um palito segue na mesma direcção que optámos. Só pode ser ela. Berramos e chamamos e nunca nos responde. Tento perceber que lógica a levou a tomar a decisão, para mais quando não há caminho evidente e a espera uma aventura por terrenos privados onde facilmente algum indígena a pode confundir com um trauma ressequido dos tempos coloniais. Portanto, agora o pseudo-líder tem de lidar com duas apreensões: assim no Céu como na Terra.


Ainda assim, isto parece ter dado um ânimo dobrado às cansadas moças. Talvez com vontade de reencontrar a Joana e sabê-la em segurança, aumentam um pouco o passo. Faço-lhes ver que isto é também importante pela súbita queda da noite nestas altitudes. Entretanto, somos apanhados pelo quechua geriátrico. Rapidamente se depara com a Joana e abanando, a cabeça, chama-lhe maluca e talvez anteveja que mais à noite, alguns dos seus amigos lhe chamarão à pedra pelo ultraje, a honra da família em risco. Imagino-o arrependido por sair de casa nesta tarde, podia ter ficado descansadinho a brincar com os netos ou simplesmente a dormir a sesta. Rica vida, suspira ele, mas não é para mim. A partir daqui, o caminho melhora e torna-se muito óbvio por onde seguir. Sem nunca perder as minhas ovelhinhas, a memória natural do caminhante ajuda-me e chegamos à comunidade sem problemas. A Joana ainda vai demorar mais uns minutos. Reencontramos os desistentes, que nos contam as suas maleitass e de como a sua tarde se passou com as crianças. Fotografar humanos... Bolas, que alergia. Afasto-me um pouco e massajo as minhas pernas. Nada mau, aguentei-me como deve ser e não passei vergonha. Para mais, guardo na memória outro cenário montanhoso de tesouro, precioso como todos aqueles que nos definem. Durante os meses seguintes, aquela montanha bem definida e com personalidade aparecerá várias vezes no pensamento, quando precisar de um refúgio. É como um braço no ar que responde às perguntas que a comunidade Quechua faz aos seus múltiplos deuses, sem que estes se dignem a responder. Eu permaneço na dúvida; mas afinal é isso que me leva a caminhar e de certa forma, espero nunca encontrar as respostas.