quinta-feira, abril 23, 2020

Fachinação 27: Epílogo


Acordo. É o último dia. Os últimos dias passam sempre como o milho na mó, espremidos, um pó que é soprado e nunca se apanha. Últimos dias de fuga do mundo, últimas dias de preocupações em arrumar, últimos dias de despedir de quem fez parte do nosso tecido esvoaçante de dias anteriores. Mais do que dizer adeus, últimos dias são de voltar a dizer "olá" a nós mesmos no regresso. É só quando me sento na cama em dias últimos que entendo tudo o que ficou para trás nas viagens que faço. Somos sempre alguém diferente quando estamos longe, quanto mais não seja porque nos dobramos à novidade dos locais, à diferença das pessoas. É como me sinto, pelo menos, não exactamente estranho... mas outro. Ser outro dá muito mais trabalho do que ser estranho. Porque temos de nos conhecer também no que fazemos e passar os dias à procura dos traços que sabemos nossos. Não sei se é por isso que quanto mais avança a viagem, mais melancólico fico. É como se tivesse saudades de mim, ou pior, como se soubesse que este novo eu, com pontos que gosto e que são novos, é apenas temporário. Que perco-o mal esteja de novo na realidade que deixei em Portugal. Não sei porque me embrenho nestes pensamentos agora, que são sete da manhã. Talvez porque a noite anterior foi surreal.


Apanhámo-nos numa das ruas mais decadentemente capitalistas da capital do maior país comunista do mundo. A Dongqidao é uma espécie de Quinta Avenida chinesa, luzes brilhantes e milhentas de lojas de multinacionais, restaurantes de comida rápida, o crespúsculo substituído pela intensidade da electricidade. É uma das vias mais importantes da capital chinesa, cheia de estabelecimentos comerciais e embaixadas. Há uma loja da NBA com quatro andares, todos eles visíveis a partir de fora; e numa rua paralela, podemos ver até bem ao fundo casas em estilo colonial onde se alojam embaixadas de países tão diferentes quanto a Mongólia, o Vietname, a Irlanda, Roménia ou Cuba. O mundo, vai-se a ver, encontra-se sempre no consumo. Na compra. NO comércio que vem tão da antiguidade chinesa quanto o Mandarim ou o chá. Caminhamos um bocado à deriva durante vários quilómetros, até os pés nada mais serem do que chapa. As minhas pernas, depois da malha da manhã e do início da tarde, estão feitas colunas de templos antigos, pedra escavacada. Com um ratito no estômago, jantar é necessário. Dividimo-nos e inevitavelmente, no meio de tantos restaurantes de comida chinesa, o meu último jantar em Pequim é num McDonalds. Não me sabe mal, digo-vos. A única loja onde acabaremos por entrar, para compensar o desvio superficial, é uma livraria. Tenho bastante curiosidade depois da experiência, que agora me parece fumo, em Kashgar. Encontramos bastante literatura ocidental, best-selles. Uma coleção imensa de Shakespeare, quase tudo de Stephen King em chinês e em inglês, Stieg Larsson, tudo o que se espera de um entreposto livreiro ocidental. Mas num canto mais selecto da loja, onde as estantes são de uma madeira nobre e o espaço muda em largura, longas prateleiras acomodam, clássicos chineses de filosofia e compêndios de acupunctura. Estes não se desfolham, abrem-se. Longas ilustrações caem-me para as mãos e caracteres chineses analisam pontos de pressão, conselhos para não transformar as agulhas em algozes de paraplegia. São carotes, mas há quem compre. O grupo de advogados do grupo ainda namora uns códigos penais chineses, mas também acaba por não trazer. Em grande destaque, num poster, Xi Jinping anuncia o seu mais recente livro, um gigantesco plano para o país com ditames que foram integrados na Constituição nacional no ano passado. No exterior, o contraste. Uma avenida fervilhante, colorida, em vagas de gente que não morrem na praia, mas antes ressucitam no pavimento. Azáfama total, de um lado para o outro.  Em todos os cantos, grupos exibem-se em cultura. Não sei se voluntário ou se estamos na altura de algum festival; mas do exterior da livraria, se olhar em meu redor, há demasiado a acontecer. Mais distante de mim, gente vetsida de verde salta e rebola em números circenses, aguns deles comandando um dragão de plumas que parece uma montanha russa. Têm de todas as idades e marcham no ritmo dos mal ensaiados, mas que adoram o que fazem. Mais perto, três portas à nossa esquerda, um grupo instrumental de sopros enche a rua com aquele trinar que me irrita tanto da música chinesa; e à nossa frente, mas do o outro lado da rua, dezenas de dançarinos azulados, numa coreografia orientada, estão longos minutos em movimentos orientais ao som de baldas de fazer chorar não as pedras da calçada, mas o cimento do chão. Mexem-se numa câmara lenta deliberada. A conduzi-los, um senhor de t-shirt branca, com a convicção de que ser Messias pode envolver passos de dança Atrás de sim, as montras de uma Prada anunciam saldos e roupas de corte elegante e muito na moda. Sei que o contraste traz uma ironia óbvia, mas prefiro concentrar-me em quem, por um gosto decerto, se encontra a esta hora da noite num local tão movimentado em coordenação completa com outras pessoas pela simples razão de mostrar a todos a sua cultura, a sua intenção, a sua mensagem do que é para si ser chinês e viver a China, Um só país, uma só cultura, uma só gente. Pouca discordância na coreografia, no gesto. Unidade. Representam a ideia deste país, na sua força de imposição a todos os que sendo diferentes, são convidados a ponta de uma bastão a serem iguais. Uma China multicultural de uma só expressão e direcção.


É a última imagem que guardo antes de me ter deitado, já torcido, na noite anterior. Há viagens em que sentimos que ainda há mais, que podemos mais. Nesta, a minha mente e o meu corpo sentem a necessidade de regressar. Não sei se é da China ou de mim. Talvez no tenhamos infectado ambos. O que é uma palavra engraçada de usar, porque quando escrevo estas, muito depois de viajar para casa e de ser revistado por causa de um lenço de papel ranhoso em Munique, China é o país que domina todas as atenções. Estamos todos fechados em casa à conta de um bicho que brotou de lá. Algures em Dezembro surgiram uns rumores. Quase ninguém prestou atenção, porque aparentemente não era nada. No entanto, porque uma estadia no país me deixou desde logo alerta a verdades e sossegos do governo local, comentei com alguns amigos que aquilo não era verdade, que a situação de certeza era mais séria. Longe de sonhar que em Março estaria fechado em casa, mas ainda assim com uma desconfiança que não é paranóia porque se esteve para lá dos truques da autocracia chinesa; e a verdade é que Xi Jinping foi negando até a pura brutalidade e granítica resistência do Comité Central ter chocado de frente com algo que nem a sua soberba humilde pode dominar: a natureza invisível. Em duas semanas, uma das províncias do país brotou uma doença respiratória que nos dias seguintes se espalhou pelo mundo, tendo matado, no dia em que escrevo, mais de cento e cinquenta mil pessoas. Numa reacção previsível, a China perseguiu os médicos que alertaram com tempo, depois agiu. De forma célere e brutal. Fechou todos os cidadãos em casa e colocou penas de prisão pesadas sob a cabeça dos prevaricadores. A economia contraiu e o dragão chinês, que dias antes rugia de poderoso com as patas dominando o mundo, via a sua economia contrair ao tamanho de uma gruta de Bezem Klik. Por várias vezes tentou afrouxar as medidas de confinamento, apenas para ver o bicho ressurgir em grande força, em grande estilo. A máquina repressora via-se ultrapassada por um inimigo indomável, como uma praga vinda dos confins da raiva dos uigures, conjurada algures numa banda do mercado de Kashgar e lançada à China Oriental da etnia Han dominante, a mesma China que os persegue e às restantes minorias, com uma arma que não distingue ninguém. Actualmente, decorre uma tentativa de reabrir o país. Toda a gente caminha de máscara, controlado pelo telemóvel - com de costume, o instrumento de submissão preferido dos chineses - constantemente abordados pela Polícia e pelo Exército. Quando cheguei em Agosto, pude assistir à maneira como uma pequena parte do país suportava esta ignomínia todos os dias, perante uma cegueira geral e falta de queixa. Hoje, todos os chineses sabem o que é viver, de facto, apertados contra uma parede e tratados como criminosos apenas por presunção. Como algo tão minúsculo se tratou se colocar um país no lugar.


Estes epílogos costumam ser textos mais curtos onde reflicto sobre o que vi e o que aprendi. Sobre pessoas e lugares, sobre mundos tão fora do meu e que mesmo apanhando-me na curva da melancolia ou pior ainda, me impelem sempre a voltar, ano após ano, à arena da viagem. Em 2020, é pouco provável que consiga sair daqui, com tudo adiado para 2021, na melhor das hipóteses. Mas não há grande lições a tirar deste périplo pela China a não ser as que já registei. A experiência da opressão vista de fora, a multidão de línguas e rituais diferentes, sítios que só se explicam na luz do olhar que brilha quando os contempla, a força de sentar e assistir, pensar, guardar. Começo a pensar que viajar não é muito mais do que isso, uma tradução mal feita da linguagem do espanto. Que nem as fotografias, tenho pensado nisso, conseguem contornar. Tenho pena dos anos em que fugi do mundo, percebo agora bem que não se vive em páginas ou em ecrãs. Pelo menos, não se vive o que não podemos ser durante os dias. Numa confabulação tão fora daquelas que concebo na minha cabeça, estas Chinas que vi guardam-se numa caixa de memória, que desperta sempre que ouço o nome ou vejo os protestos em Hong-Kong, filas de doentes em Wuhan, a silhueta de Tony Leung e Maggie Cheung em "In the mood for love". Percebo o que as notícias não dizem e mostram. Não é ser especialista é intuir na experiência o que ficou por falar. A viagem tem-me ensinado coisas que nem pensei aprender e só vos posso transmitir nestas crónicas, por vezes escondido, por vezes ao arrasto daquilo que me atormenta e acaba por passar. Obrigado a quem as acompanhou todas as semanas, escrevo isto para mim, mas são vocês quem acaba por usufruir e no fundo arrebanhar a sua propriedade. No momento em que as publico, são vossas. Como todas as minhas viagens acabam por ser, e como a próxima também a será. Porque decerto, para lá de toda esta prisão, iremos fazê-la juntos. Eu, vocês... e os meus demónios também.

quinta-feira, abril 16, 2020

Fachinaçao 26: Quantos queres?


Localizado na zona Leste de Pequim, o Mercado de Antiguidades, conhecido no idioma local como "Panjiuayan" é um perfeito microcosmos de uma China que nem um estado repressivo e vigilante consegue dobrar. Porque encarna toda a anarquia que só pode existir num país com mais de um bilião de pessoas. É um espaço enorme, dividido em cinco parte bem distintas, longas ruas, algumas estreitas e outras bem espaçosas, mas com uma coisa em comum: tudo se vende; e quando digo tudo, estou lá perto. Só não vi pessoas e animais ao desafio dos saldos, e mesmo assim não garanto que não existisse, algures debaixo dos meus pés, uma sexta galeria subterrânea. De resto, se puderem pensar numa coisa, ela existia no Mercado. A confusão e a flexibilidade das regras é tal que é conhecido por um outro nome mais coloquial: o Mercado Sujo. Não porque seja particularmente perigoso ou dominado pelo crime; apenas porque tudo se negoceia com jeitinho e preço visto não será necessariamente preço pago. É algo que se vai descobrindo nesta Pequim mais próximas das pessoas e que se entende uma certa filosofia de trabalho que traria alegria aos patrões portugueses e horror aos empregados. A ideia de ganhar dinheiro é importante e se tivermos de fazer compromissos para isso, por muito que esses compromissos sejam contra-intuitivos, o Chinês acha justificável. Na noite anterior, enquanto deambulávamos por uma zona de restauração nocturna, vi a placa de um restaurante aberto vinte e quatro horas por dia - não para take away, mas para refeições em mesa mesmo. Oferecia também espectáculos de tango ao vivo duas vezes ao dia. Está-lhes no sangue. Já aqui vos falei da antiguidade das Rotas da Seda, brotando de Pequim para florir por toda a Ásia rumo à Europa, do quanto o comércio faz parte sanguínea da vida destes povos de tão longe de nós. Não com salamaleques, mas resolvido numa simples conversa, na diplomacia de uma gargalhada, na simpatia imediata criada com duas piadas. Nestes quarenta e oito mil e quinhentos metros quadrados, negoceiam habitualmente mais de dez mil pessoas, divididas em quatro mil lojas ou bancas. Calcula-se que ao fim de semana, a altura em que se fervilha com mais vontade no espaço, por volta de setenta mil clientes e curiosos passeiem os seus olhos pelo que se oferece à vista a troco de uns yuans se desejamos possuir. Desde, dez mil são estrangeiros. Como nós; ou como Hillary Clintom que chegou a visitar este mercado numa visita oficial quando era Secretária de Estado norte-americana. O mais curioso é que apesar da sua fama e tamanho, começou em 1992 como um ajuntamento espontâneo de vendilhões à beira da estrada que passa defronte da entrada principal. Com o tempo, mais pessoas traziam os seus sacos e caixotes, com artesanato, quinquilharia e raridades, preservando a cultura popular chinesa numa capital cada vez mais a virar-se para o betão, o cosmopolitismo e uma certa ideia tacanha de progresso. Era como se ali, entre regateios e pregões, entre apertos de mão que valem mais do que PIN de cartões e notas e moedas que saem facilmente das carteiras quando seduzidas por uma boa proposta, estivesse o que é de facto o país. Eu vi muito nestes quinze dias, muitas facetas do que é ser chinês e as encruzilhadas em que a China se encontra numa geografia multicultural que não pode ser totalmente eliminada, por muito que seja o esforço. Mas aqui, sinto um pouco daquilo que é o espírito desta gente, não de simplicidade, mas de um pragmatismo quase frio, mas simpático. Quando me começo a perder entre berros e olhares convidativos, atirando o meu para a mercadoria, é que começo a encontrar uma China mais autêntica.


O que podemos aqui encontrar? Ora, o Mercado divide-se em cinco zonas principais. Logo à entrada, concentra-se uma série de bancas que vende exclusivamente ícones e estatuária budista. Se tiverem sorte, ainda apanham algum artífice a trabalhar numa. Algumas cabem num bolso, outras precisam de um guindaste e uma carrinha de caixa aberta para ser retiradas. Horas mais tarde, já à saída, passo no mesmo local. Uma estátua de Buda, quase da minha altura, está a ser carregada para um camião com a ajuda de uma empilhadora. Dá para entender porque esta zona fica ao ar livre, sem coberturas. Logo de seguida, dentro de um edifício de betão de dois andares, situam-se as lojas que vem mobília antiga e vintage. Não chego a entrar, porque para mono, sinceramente, basto-me eu; e ainda que o voo para Portugal seja com a Lufthansa, a sua política de bagagem é ainda assim apertada. Mas dou uma olhada para o interior do primeiro andar. Uma das lojas anuncia exemplares mobilários do tempo da Revolução Cultural chinesa, o que os torna, desde logo, sobreviventes natos. Numa terceira zona, que atravesso com algum vagar, alfarrabistas tentam-nos com livros antigos. Oferece-se um manancial quase sem paragem de propaganda comunista que vai até aos tempos de Mao. Seguro nas mãos um exemplar do famoso "Caderno Vermelho", escrito pela luminária principal do comunismo chinês, datado de 1953, quatro anos após a Revolução Chinesa. Espalhados por outras bancas, ha´romances policiais censurados, bandas desenhadas contando as vidas de heróis comunistas, versões chinesas de clássicos ocidentais, como as peças de Shakespeare ou "Os três mosqueteiros" de Dumas, e também exemplares de jornais, calendários curiosos, pinturas tradicionais chinesas e cartazes de propaganda. É também numa banca em particular que encontro das coisas mais bizarras que vi à venda: baralhos de cartas temáticos e bastante politicamente correctos. Mais atrevidos até do que aqueles que envergam desnudas mulheres Um, por exemplo, representa uma alta figura do Partido Nazi em cada uma das suas faces. O Rei de Espadas é Himmler. O de Copas Goering. Cepo como era, claro que o amigo Adolfo tinha de ser o Rei de Paus, com Eva Braun a acompanhá-lo no naipe. Talvez os Chineses não vilanizem tanto o ex-Fuhrer porque afinal, o Holocausto fica-lhes tão distante quanto a nós o Grande Salto em Frente. Se há comunistas em Portugal convencidos das qualidades de Estaline e Mao, não podes estes amigos chineses ser igualmente ignorantes em relação ao ditador de bigode ridículo? Mas há mais até: naipes com líderes comunistas estrangeiros, de Trotsky a Tito; um apenas dedicado a OVNI; diferentes pratos de cozinha chinesa; vegetais coloridos; representações várias de dragões; pin-ups da década de 50; cartazes da boémia Paris do século XIX; e o pináculo de bom gosto de que é uma história ilustrada dos atentados de onze de Setembro de 2001 contada com estrutura irrepreensível. No naipe de Copas, o horror das imagens da tragédias, prédios em ruínas, a famosa foto do homem que salta de cabeça para baixo; no naipe de paus, a vida do mentor deste ataque, Osama Bin Laden, desde um ladino riquinho das Arábias até à assunção completa como barbudo terrorista e mentor de terroristas; no de Ouros; a reacção norte-americana: a guerra do Iraque, o Afeganistão a ferro e fogo, o Patriot Act, Dick Cheney quase fazendo de conta de tipo porreiro; no naipe final, o de Paus, a famosa operação que executou Bin Laden, sem a participação de Kathryn Bigelow. Mais à frente, noutra loja, encontramos uma variante de cartas com o triplo do tamanho e imagens diferentes. Na verdade, depois desta zona, quase acredito poder encontrar as próprias bolas do dragão algures debaixo de um pano vermelho numa banca. Não me surpreendo.


A quarta secção do Mercado Sujo é também a maior, de longe. É a do Meio e consiste, basicamente, num salve-se quem puder de produtos. Em contentores ou simples mesas, expõe-se joalharia. pinturas chinesas, caligrafias artísticas, jade, contas de plástico e de pedra, produtos em bronze, vasos de cerâmica, mobiliário de madeira pequeno, arte tradicional chinesa, arte tradicional tibetana, molduras, bijuteria, cerâmicas várias, álcool proibido, pinturas celebratórias do Ano Novo Chinês de Yangquling, escultura em madeira de Quyang, cristais de Jiangxi,... Ninguém sabe bem o que é falso ou autêntico. Pode ser apenas uma arca de tesouros infindável ou simplesmente o Evereste da falsificação. Só posso reportar o que vi por ali, no meio de tanta gente. Peçam-me para assegurar autenticidades e é impossível. Não levei uma lupa para ler as letrinhas miúdas de cada artigo. Comprei algumas coisas, claro, mas pela pura curiosidade de levar para casa produtos chineses comprados na China... A surpresa maior, no entanto, encontrei-a na última secção deste labirinto. Mesmo no seu centro, um outro edifício de dois andares passa despercebido pela sua falta de personalidade. No entanto, aqui se encontram as lojas mais selectas, onde os produtos trazem certificados de autenticidade, mas também preços exorbitantes. Entro com o Zé Luís e encontramos dois garotos a brincar aos cowboys. Tendo em conta os papel destes na exploração de culturas nativas, não posso deixar apropriado. Damos uma volta rápida no rés do chão A maior parte das lojas vende móveis, tecidos dourados, objectos brilhantes. Nada que nos interesse. Subindo ao primeiro andar, recebem-nos dois enormes bustos. Um é de Lenine. Outro de Mao. Dois ícones vermelhos, dois filhos da mesma mãe comunista, separados por quilómetros de distância e a ânsia de serem os únicos galos na Revolução mundial. Fotografo-os, aproveitando o jogo de reflexos das caixas que os tapam. Enquanto caminhamos nos corredores, encontramos uma loja que vende exclusivamente os mesmos baralhos de cartas que encontrámos na secção dos alfarrabistas. Existem outros sobre tragédias várias e temas ainda mais questionáveis (Chernobyl anda por lá, Hiroshima também. Penso ter visto outro sobre cenas de chacina e morte generalizada, mas pode ser a minha memória deixando-se levar pelo mau gosto). Infelizmente, está fechada. A desilusão insufla ambos e carregamos as nossas penas pelo resto do andar. É para lá de uma porta sem grande fanfarra, no entanto, que nos confrontamos com algo impensável. O interior desarrumado rodeia um homem calvo, bigode de Fu Manchu, que passa o tempo em torno de uma fumarada de nicotina. O som pálido de música tradicional chinesa não deixa a sala sem perguntas ou respostas. Mas em primeiro plano, muito perto de nós, um manequim inexpressivo enverga um uniforme militar. As calças são pretas e estão curtidas, gastas, mas limpas. A camisa, verdade, cobre-se de algumas insígnias, a maior parte preta ou branca, grande, mas não espampanantes. Nos colarinhos, inscrições em alemão que não consigo traduzir nas minhas limitações. Na cabeça do manequim, um capacete negro, de ferro, pesado. Vejo a águia emplumada; vejo a cruz gamada negra; botas de cabedal; colarinho branco debruado a negro. Olhamos um para o outro: é uma farda da Wermacht, a infantaria nazi, do tempo da Segunda Guerra Mundial. Não sabemos se é autêntico, mas... se for falsificação, está muito bem feita. Tem os pormenores todinhos, inclusive alguns mais específicos, de divisões de elite deste corpo do exército germânico. Por curiosidade, abordamos o dono da loja. Perguntamos onde arranjou aquilo. Fixa-nos inexpressivamente durante uns segundos e abana a cabeça. Não revelará. Quanto é? Aponta num papelinho: 300.000 yuan. Mesmo depois de desaparecidos, os verdadeiros nazis continuam a fazer razia. No caminho para a saída, continuo a perguntar-me acerca da tortuosa rota que levou aquela relíquia até Pequim. Os Nazis não combateram para estes lados, que eu saiba. Algum coleccionador? E que público haverá na China por este tipo de artigo? O Mercado Sujo, no entanto, continua a guardar os seus segredos.


O dia estava mesmo reservado para consumir. À tarde, damos por nós no Silk Road Market, um centro comercial gigantone de quase vinte andares prestação de serviços de compra e venda. De certa forma, é uma modernização do Mercado Sujo onde deambulei de amanhã. Os produtos também estão organizados e separados, mas aqui por andares; o negócio faz-se depois de muita conversa, mas sem apertos de mãos, só dinheiro na mão; e também podemos encontrar de tudo - com um bocadinho de esforço, se me dispusesse a vender um dos meus rins, tenho a certeza de que acharia comprador e intermediário. Os homens estão completamente virados para a relojoaria e electrónica e ambas as secções de localizam no nono andar. A porta do elevador abre-se e quando olho, há um longo corredor apenas com lojas de relógios. Mal a campainha de chegada soa, cabeças espreitam pelas portas das lojas. Está iniciada uma batida aos nossos yuans. Quando percebem que somos ocidentais, o frenesim da excitação aumenta exponencialmente. Um pouco como se um virgem adolescente desse por si trancado no vestíbulo de um desfile de modelos. Os convites chovem logo, querem convidar-me e levar-me a passear, algo que não estou sinceramente habituado. Entro logo na primeira loja que surge, mas mais como observador. Deixo outros viajantes mais experimentados na descodificação das regras do negócio. Não é muito complicado. Todos os lojistas falam um inglês aceitável e a primeira abordagem é clara. Um elogio lato, um comentário engraçado, pergunta acerca de onde somos. Invariavelmente, a reacção é "Ronaldo", mas lembro-me de um ter dito "Pena terem vindo embora de Macau, os portugueses de lá são todos muito simpáticos". Salamaleques feitos, sob a luz forte das montras, o primeiro passo é dado: quer um relógio? Diga a marca. Imaginem que desejam Montblanc. Sem problema ou hesitação, uma pesada e volumosa mala de metal surge que vinda da Terra Média em expresso Gandalf. A tampa dá de si e no interior, dezenas de caixas. Em cada uma, um relógio. Podem ser originais ou réplicas, é um bocadinho como no Mercado. Mas uma pessoa não está aqui ao engano. Sabe bem que esta é uma lotaria com pouco de aleatório e que muito provavelmente, as imitações reinam supremas. Podemos experimentar. Revelo já que não uso relógio. Na verdade, estou aqui em missão abnegada. Venho em compras. Para o meu irmão, principalmente, amante de relógios. Eu não gosto de lhes sentir a presença no pulso, tornam o tempo numa espécie de prisão acorrentada que consigo sentir sem ter pedido licença. Mas o rapaz ainda por cima desejou-me para padrinho do que de mais importante há vida dele, merece. Quando o jovial homem me aborda, procurando um cliente, finjo que sei muito do assunto. Digo a primeira marca que me vem à cabeça: Omega. O product placement em filmes resulta de facto. James Bond como macho Alfa e Ómega. Numa olhada, naquela arquinha metálica com pega, encontro um relógio negro, com mostrador azul, ponteiros brilhantes. Apela-me. Não sei se ao meu irmão, mas se ele quiser trocar, até lhe dou a morada do centro comercial. Olho para o Zé Luís, que tem muito menos piedade e escrúpulos do que eu. Sei o que se segue, aquele jogo que os asiáticos tanto disputam e que pode cair para qualquer lado: regatear. É um jogo para o qual pessoas como ele nasceram, pessoas cujos escrúpulos seleccionáveis não incluem agiotas e especuladores. Deixo a coisa nas mãos dele. O preço inicial é mil e duzentos yuan. Isto atira para os cento e cinquenta euros, algo que não estou disposto a gastar. Sei que sou professor, milionário nascido, mas não. O regateio é uma operação cínica. Acontece, porque ambos sabemos que o verdadeiro valor do objecto não é o preço estabelecido. Muito menos aquele que estou disposto a dar por ele. Mas o relógio deve ser despachado. Por isso, há mortais encarpados e flik-flaks à retaguarda naquilo que cada uma das partes está disposta a ceder. O truque é perceber as linhas do desespero, até onde podem ser esticadas e dobradas. As deste homem tinem sonoramente quando se chega aos quatrocentos yuan. Um desconto de mais de 50%. O argumento derradeiro até é dado por mim. Explico-lhe que ele pode ter um cliente que paga mil e duzentos, ou seis a pagarem várias vezes quinhentos ou seiscentos. Porque ao beneficiar-me, entra no goto dos meus amigos, explico; e os meus amigos tornam-se seus amigos. Pensativo, meditabundo, olha para o tecto; e cede. Cumpro a minha parte, encaminhando os restantes portugueses para ele, no meio de tantas lojas. Alguns levam três, quatro relógios. Não me sinto mal com a implacabilidade de regatear.  Naquela tarde, estou certo de que o lojista ganhou o dia.


Ainda há espaço para despachar mais prendas, incluindo uma para a minha cunhada e uns tecidos de seda que a minha mãe me encomendou propositadamente. Isto junto a uma loja chamada Earhub, com um logotipo bem semelhante a um conhecido site de conteúdo visual mais arriscado. Já tenho tudo, penso. Falta-me uma prenda para alguém, mas não encontrei algo de que gostasse. Reencontramo-nos todos no rés do chão. A linha dezasseis do metro levar-nos-á para o centro de Pequim, onde terminaremos o dia jantando. Na saída, passamos junto a uma foto onde um grupo de jovens chinesas rodeia um bonacheirão sorridente, com ar patusco, que não é mais que o antigo mayor de Londres Boris Johnson. Aconteceu numa visita onde este ilustre homem de visão foi beber dos Chineses e da sua experiência olímpica de 2008, mesmo a tempo de Londres 2012. Os políticos chineses, de facto, não têm quaisquer problemas morais. Boris também não: estão bem um para o outro. Mesmo em frente à foto, há, claro, mais um banca de bugigangas. Claro que há. O dia foi tirado para isto. Atrás de uns bonecos, vejo um globo de neve Um acaso feliz, Tinhas-me pedido um, se a encontrasse. Que adoravas a redoma dos globos, isolando um pequeno mundo na sua calma e placidez, de como quem vive nele não é afectado por nada, mesmo nada do exterior. Várias vezes fazíamos piadas sobre o nosso pequeno planeta surgir quando nos juntávamos, quando o resto da realidade sumia por um buraco negro e sobrávamos nós, muitas vezes abraçados, muitas vezes anichados um no outro, sempre de mão dada, sempre acima de tudo e abaixo da nossa própria fatalidade quando existimos. Compro o globo e guardo-o. A intenção era dar-to, mas enquanto arranjo estas letras como substituto daquela dor que nos transforma em gelatina, continua lá em baixo, numa gaveta. Guardado, a prémio. À espera que por uma vez acabe o regateio. É teu, não preciso dele. Espera-te, mesmo quando não me esperas. Veio de um ponto da terra onde os beijos que dou no ar são para ti, onde à noite consegues ser o último fumo do meu estado de vigília, onde vais comigo sem presença. É o teu globo, a tua redoma. Não sei se o nosso planeta, mas está cheio de estrelas. Parte delas feitas de um sal que só nos meus olhos se esconde.

quinta-feira, abril 09, 2020

Fachinação 25 - A Grande Muralha da China




Escrevo isto uns bons meses depois de visitar a Muralha da China, mas enquanto procurava as palavras do começo de texto, só me conseguia lembrar da manhã em que me sentei em pedras andinas para ver nascer o Sol sobre Macchu Pichu. Não sei se por gostar mesmo de História, mas para mim as pedras não são pedras. Vejo-as sempre como feltro do tempo. As coisas acontecem ali em redor, muitas vezes contra elas, sangue e pele, espadas e alfaias agrícolas, toda a curva de uma alegria ou recta infinita da decadência. Às vezes penso que abrindo uma, de uma maneira específica, num encantamento particular, tudo isso fica a descoberto e descobrimos que as pedras gravam tudo. Que a História se pode ver como um filme. Existem parapsicólogos teorizando sobre essa possibilidade para fantasmas, que não são mais do que uma mera repetição de eventos, momentos e comportamentos de séculos anteriores. Enquanto a luz solar desvendava as frinchas rochosas daquelas casas antigas, da montanha que protagoniza postais e fotos de epifanias bacocas de influencers, a minha mente tentou imaginar como seria tudo aquilo com Incas; e não me acontece em todos os locais antigos que visito. Há alguns que puxam essa fuga ao presente e à realidade que se aceita, como se a sua simples construção evocasse qualquer ponto indefinível a partir do qual nascem realidades. Sim, soa a delírio, mas só entende quem se abre aos lugares e aos espaços que não morrem, só se renovam. Pensei muito em Macchu Pichu dentro da camioneta que nos levou para fora de Pequim naquele dia em que pude riscar mais um cliché turístico do meu caderninho: a Grande Muralha. Habitualmente, quando na China e entregando-se nas mãos de companhias turísticas o turista é levado a Badaling, o pedacinho da Muralha mais próximo da capital chinesa. Torna-se mais barato e prático, mas estraga fotografias: a imagem de um longo rebanho humano calcando pedras desse caminho empedrado e muralhado é o ideal para quem quer dar por mal empregue o tempo e dinheiro gasto a vir à China para ganhar o direito a poder dizer depois aos amigos que a Muralha é espectacular/nada de especial/ya, é fixe. Apesar de ter aprendido, com os anos, a apreciar um pouco do contacto com pessoas em países que visito, ainda mantenho a ideia de que o mundo é uma coisa bem gira e o que o estraga são as multidões. A experiência humana é gira, mas às gotas. Trazemos histórias bem engraçadas, mas demasiada perde a piada. Felizmente que o guia da viagem, o Zé Luís, mesmo gostando bem mais de gente do que eu, também é um purista da bela imagem solitária de um local icónico. Como tal, vamos em rota para Jinshanling, duas horas a Norte. Tem tudo o que a Muralha pode oferecer, desde muros, muralhas e muralhitas, ameias e torreões, postos de vigia e degraus. Ficando mais distante de Pequim, a esperança é que seja lembrada e visitada por muito menos povo. Daquele de turistas chatos. Pude fotografar uma Macchu Pichu deserta, sem ninguém. Espero a mesma oportunidade no outro lado do mundo, numa imagem que tem muito mítico, de maneira literal.


O mito maior é a de ser visível a partir da Lua. Já o ouvi tantas vezes que quase parece facto científico. O curioso é que a sua origem vem do século XVIII; quando William Stukeley, um antiquário britânico, que ao comparar a Muralha de Adriano à sua bem mais imponente congénere chinesa, comentou que a do Oriente era superior e tal era atestada pelo facto de poder ser vista a partir do nosso satélite natural. Calculo que seja fácil concluir o ridículo da afirmação feita numa altura onde não só o Homem não tinha colocado os pés na Lua, como por alguém que não tinha feito nem sequer a muralha toda, nem se lhe conhece qualquer visita ao Extremo Oriente... A partir daí, surgiu a crença e foi repetida por todos o tipo de viajantes de cadeirão até à famosa colectânea de bizarrias "Ripley's Believe it or not". Já foi desmentida várias vezes pela NASA; mas aparece sempre, vinda dos confins da ilógica. Repare-se que apesar da sua extensão, a imponência da Grande Muralha é igualada por várias construções no planeta, como as Pirâmides por exemplo, ou o Taj Mahal. OU Chichen Itza. Ou Angkor Wat. Sobre nenhuma delas é alegada tal coisa. Mas nós somos a civilização científica que um dia acreditou que Marte tinha canais e isso era um sinal de vida inteligente no planeta vermelho, logo... Dito assim não parece estapafúrdio. No entanto, isto revela o quanto é insofismável a existência de uma construção tão gargantuana quanto esta. Repare-se que estamos perante algo que se estende por mais de vinte um mil quilómetros. Mas a Muralha, em sim, não existe. Porque aquilo que conhecemos por esse nome é um conjunto de várias fortificações diferentes, construídas em diferentes alturas da História chinesa, e que foram sendo somadas umas às outras. Foi a ameaça dos povos nómadas das estepes, o local de onde viria a ameaça dos Hunos e mais tarde os Mongóis, que levou a esta decisão. O século VII A.C viu a primeira fase de construção inicial e no terceiro século após o nascimento de Cristo, o primeiro imperador da  China, Qin Shin Huang, uniu os vários pedaços numa muralha única. Mas quase nada existe desta fase inicial. Os pedaços mais conhecidos e visitados actualmente são da dinastia Ming, entre os séculos XIV e XVI. Pelo meio, outras dinastias expandiram a Muralha até à dimensão que conhecemos hoje. Jinshanling é uma dessas porções. Data de 1368, erguida sob o comando de Qi Jiguang, um famoso general do tempo Ming. Existem aqui sessenta e sete torres de vigia, três torres farol, onde eram colocados grandes fogueiras para servirem de referência à distância - um pouco como os marcos geodésicos hoje funcionam para o mapeamento militar - e cinco entradas. Tudo isto em dez quilómetros e meio, a setecentos metros de altitude. E alguém teve de fazê-lo. Ao contrário de Macchu Pichu, onde o que confunde é a motivação de construir uma cidade num local tão deslocado e ermo - e só percebemos de facto o quanto isso perplexa quando percorremos a estrada que lhe dá acesso, uma linha elástica sussurrante ao contornar uma montanha que atinge praticamente os dois mil e quinhentos metros de altitude - o que me fascinava na Grande Muralha era a pura força bruta do tamanho e da extensão, da quantidade de homens que aqui deixaram o couro e a vida só para erguer defesas. É algo que só pode acontecer quando uma nação tem gente para queimar. Um pouco como a União Soviética e as suas grandes obras, também a China é um colosso suportado por esqueletos e morte. A população tem sempre um aspecto fundamental na história dos países. Portugal, por exemplo, nunca tece de facto um império colonial, ao contrário do que gostava de propagandear, simplesmente porque não possuía gente suficiente para controlá-lo. Daí ter construído apenas pequenas cidades ou fortalezas que serviam propósitos comerciais. Uma área ocupando quatro continentes, mas presa por arames. A China, na sua imensa extensão e população farta, é pelo contrário uma cornucópia de braços de trabalho e carne para canhão. Pessoas não só problema nem obstáculo para ideias. Não sei se haveria um método mais eficaz de evitar invasões. Repare-se que os Romanos, como disse em cima, experimentaram a mesma táctica nas Ilhas Britânicas com a Muralha de Adriano. Esta media, e mede ainda hoje, 120 quilómetros. Ora, isto é um vigésimo do que os Chineses fizeram, embora num período de tempo maior. Já expliquei que não sou muito de clichés turísticos, mas em dois anos seguidos, visito igual número; e este acaba por ser uma excepção porque o interesse é puramente egoísta: quero, de facto, perceber o quão esmagadora é esta construção.


Uma vez chegados ao parque de estacionamento, a primeira surpresa é ver zero pessoas. Nenhuma fila de turistas, nenhum magote de fotógrafos de pacotilha irritantes. O centro de visitantes está também deserto e é aqui que esperamos pelos bilhetes. Subimos uma pequena estrada e perante a hora, meio dia e meia, decidimos que o melhor é almoçar qualquer coisa. Numa lanchonete à beira do caminho, pintada de cores garridas, como um dos piores hambúrguer da minha vida; acho que é a última vez que me queixo da comida chinesa. A carne é verdadeira comida de plástico, os molhos um cruzamento dentre uma facada no esterno e um armadilho imitando Maria Callas. Bebo água para empurrar, mas só piora. No entanto, e esta é a experiência de outros dias muito longos em viagem, o importante é ter energia no corpo. Não sei como será o terreno, nem a distância. Já tive o azar de levar a chamada martelada - quando o corpo desliga sem energia e só queremos, basicamente, que nos puxem com um guindaste - e não é algo que me apeteça repetir. Ainda para mais, numa Maravilha Moderna do Mundo (trademark). Portanto mordo a bala que é este hambúrguer, o que é uma comparação apropriada porque sinto que eventualmente me matará. Que estarei daqui a vinte anos numa condição física óptima, mas repente tenho um ataque súbito e é esta coisa que como a malhar com pouca misericórdia. Neste intervalinho sentado, noto duas coisas importantes. Em primeiro, uma magnífica dor de costas com quem me deitei ontem à noite assume contornos de esplendor. Talvez tenha sido do belo prato de camarões micro que comemos de entrada numa espécie de tasco oriental, existe dúvida; mas a certeza é de que me substituíram as vértebras por cutelos. A segunda é que uma infecção num dedo também promete brilhar a grande altura na sua vermelhidão. Nota-se mais quando pego na mochila. Torna-se óbvia quando seguro a máquina. Não é como se fosse passar as próximas quatro horas de mochila às costas a fotografar. O que quer dizer que não me deverá incomodar... Penso nisso enquanto um teleférico nos leva à entrada desta secção da muralha. A viagem ainda dura quase dez minutos, tempo suficiente para contemplar o longo planalto, as montanhas em redor, um tapete calafetado a verde lá no fundo. À medida que a altitude sobre, tornam-se evidentes os primeiros sinais de fortaleza. Pequenos torreões lá ao fundo, como se fossem topos de montanha, uma cintura castanha a uni-los por entre o verde. Vê-se ao longe, mas é claro. Quando chegamos ao ponto mais alto, surge à frente uma enorme torre de vigia. Ao sair, permito-me uma perspectiva em todo o redor e no raio de quilómetros para a minha esquerda e para a minha direita, a linha muralhada continua, intervalada por torres maiores e mais pequenas, postos de vigia. Desafia a mente descrever... o espanto da enormidade do que vejo. Quando olho para a esquerda, em direcção a Leste, consigo distinguir, baças, fortificações a uns cinquenta quilómetros de distância. Portanto, ela continua e segue por um longo, longo caminho. Subo a escadaria da torre, em três lances de degraus e não demoro a chegar ao caminho principal. Boné ajeitado, máquina pronta, dores que vêm comigo e a jornada pode começar. Num dos tijolos que fazem de chão, há caracteres desenhados, em chinês. Não sei se recentes, não sei se filhos da poeira de séculos. Mas quero imaginar que em noites frias, em tardes de tédio e de espera, um soldado se entreteve a rabiscar suspiros da demora na forma de traços.


A primeira noção a ter é a de que apesar dos restauros e da conservação, isto é uma construção que dura há mais de dois milénios. Tem personalidade. Não é como boa parte dos castelos portugueses, que tão recauchutados durante o Estado Novo que o Tempo não passou por eles, que as suas muralhas jamais presenciaram mortes ou batalhas. A Muralha está estragada. Faltam-lhe tijolos nas paredes, blocos no caminho. Existem muito mais buracos do que os que se vêem nas fotos; e embora todas as torres pareçam iguais, a passagem dos minutos e a experiência da visita ensinam as diferenças. As mais importantes e maiores são encimadas por pagodes. A maior tem dez metros de altura e é conhecida como a Torre do General. São três andares com funções diferentes. No topo, o dormitório de soldados. Enterrado nas entranhas da muralha, o depósito de armamento. Entre os dois, as janelas que oferecem a vigia. Quando tocava a rebate, daqui corriam os soldados. Um dos mistérios maiores, para mim que visito, rodeia os adversários. Porque uma mirada muito rápida pelas condições de terreno gera em mim a certeza de que só um bando de alucinados escolheria este ponto específico para atacar. As encostas montanhosas são escarpadas e praticamente impossíveis de trilhar. Não consigo entender como é que qualquer general optaria por uma estratégia quase suicida de para entrar em território chinês usando uma via intrasitável. Bem sei que Aníbal tentou conquistar Roma pelos Alpes, mas isso acaba por ser uma brincadeira de Sumérios em comparação. O nosso guia é um chinês que, maravilha, fala a nossa lusa língua. Na verdade, é um especialista no nosso país. A companhia para a qual trabalha organiza pacotes turísticos internacionais e a sua área é a Península Ibérica. Conhece Lisboa e o Alentejo, Coimbra e o Porto - algo pelo qual lhe quero dar os pêsames, mas travo-me a tempo - e por isso domina o idioma. Ouço as explicações iniciais mas rapidamente percebo que a acção e o interesse estão longe dali. Com o tempo, sinto boa parte do grupo a ficar para trás, em parte também pela destreza física diferente de cada um, e dou por mim acompanhado apenas de Mário, comendador máximo de Fronteira, e Tiago, conde maior da advocacia. Volta e meia trocamos umas piadas e uns comentários, mas na maior parte do tempo, cada um existe no seu mundo de contemplação. Cruzamo-nos com uma quantidade anormal de turistas italianos, mas falando com alguns pelo caminho, entendemos que são um grupo de meditação que procuram a auto-descoberta aqui longe. Depois de no ano anterior ter apreciado a mesma pandilha nas terras peruanas, apanho-a agora aqui, no lado oposto do planeta. Parece que a auto-descoberta está em todos os locais, excepto aqueles perto de onde vivemos. O que é espantoso. Caminhar na Muralha é uma mistura de aula de cardio e body pump, porque um outro mito que tenho de desmentir é da planura do caminho. Vai em altos e baixos, grandes declives a pique. A certo ponto questiono-me, e fico a olhar bem antes de me estragar numa ladeira sem degraus que com uns trezentos metros, como é que os soldados corriam de um lado para o outro nestas condições em casa de ataque. Eu levo apenas a mina mochila e uma máquina fotográfica. Eles carregavam dezenas de quilos de armadura e armamento. Hoje está sol temperatura amena, um dia espectacular; mas imagino nas estações frias, aqui em montanha, quando o metal se torna mais frio do que o próprio gelo. Ser enviado para tarefas na Muralha devia ser um castigo dentro do exército. Menor castigo é o momento em que, perante um lance de degraus mais íngreme, uma jovem italiana que caminha à minha frente aproveita uma escorregadela para assentar o seu fofo rabo em primeiro na minha cara, depois nas minhas mãos. Não planeava que alguma moça se atirasse a mim tão longe da minha terra, mas a vida é feita de surpresas.


Demoro quatro horas e meia no passeio. Tiro uma enormidade de fotos, mas não conseguem substituir o que os olhos guardam. Aquilo em que ainda penso quando escrevo isto. A visão de uma longa sela sob montanhas que nada mais são do que dorsos de cavalos rochosos. A impressão esmagadora de me encontrar numa torre e conseguir mais dez, quinze, vinte estendendo-se para bem longe é algo que não pode abandonar a memória de quem quer viver os momentos onde está. Onde existe. Há locais onde é céu parece ser mais real e o mundo um bocadinho mais do que cores e formas a que o nosso cérebro dá ordem para não se perder. Quero se transcendente, mas a certa altura não dá mesmo. Perante o riso de duas mulheres, um riso histérico e exagerado, mui nobre comendador Mário lança para os seus amigos portugueses uma imortal frase: "Ri-te ri-te, menina, que quando souberes que a vaselina tem areia até choras". Segundos mais tarde, descobrimos que são brasileiras ao falarem connosco e Mário não consegue confrontar condignamente a sua falha. Sâo ambas do Rio Grande do Sul e também se espantam, como eu, que no meio de tantos milhões e de tantos quilómetros, se tenham cruzado com quem partilha o mesmo idioma. O Mário também, mas não exactamente pelos mesmos motivos. Contemplo também este acaso, no meio de tantos que encontrei na viagem. Em dois terços dela andei meio perdido em mim, duvidando da minha vida, questionando escolhas, carregando pessoas como se fossem sacos de cimento a esmagar-me, ameaçando apertar o meu corpo, e o meu espírito contra o chão. Eles ainda existem. Mas aqui, tiram férias. Há um poder natural dos locais que esmagam, porque não esmagam apenas a compreensão, mas tudo o mais que apanham. Sinto isso nas montanhas, sinto-o aqui. Há uma sensação presente, em ambas, de que sou tão pequeno e um pormenor tão pequeno na História. De que os meus problemas se agigantam em mim, mas continuam a ser minorcas em tudo o mais que se passa. Que transitam, como as pessoas, de que tudo flutua e está condenado a desaparecer. Que há quem goste de ti em marés e tu nenhuma outra hipótese tens se não sentir-me areia da praia. Que pode escolher mas só para ti. Que esta Muralha serve para proteger, mas também caminhar: portanto guarda e abre o horizonte, e preciso de ambas. Ma saberia que precisaria mesmo nos meses seguintes e que estes quadros que construo nesta tarde me seriam um refúgio de tudo. Uma viagem prolonga-se enquanto a recordamos, nos ossos principalmente. Quando chego ao final, à torre de Jingshan, não tenho água e estou cheio de calor. Uma velhinha espera-me para cobrar uma garrafinha desse lóquido precioso fresco, dez vezes mais do que o preço normal. Sou roubado, mas aceito ser vítima. Talvez seja um padrão. Tenta impingir-me umas camisolas, mas até os maiores otários têm um limite. Sentado na rocha, à sombra, vejo bem o que andei e o que não andei também. Atrás de mim, existe o que me faltaria andar, se continuasse. Sei que a Grande Muralha da China tem princípio e fim, mas enquanto aqui estou, fingirei que não, que nunca acaba. Que é um bocadinho como o que me assombra. O assombro aqui é outro, e como aquele que fantasmas passados presentes me atormenta, também se vai prolongar. Dos meus olhos para tudo o mais no meu corpo que um bisturi não corta. Que não existe, mas mas que sentimos lá. Que é tão livre que uma Muralha, aí, é sinónimo de liberdade.