quarta-feira, outubro 23, 2019

Fachinação 7: Um parque de diversões chamado memória


Ainda Cristo não tinha nascido e já Kashgar se erguera das areias do deserto de Taklaman. Esta cidade antiquíssima é referida várias vezes em documentos escritos há 2100 anos. A expansão para Oeste da dinastia Han, a primeira do Império Chinês. Kashgar já existia, era o ponto de encontro da miríade de tribos nómadas da Ásia Central que cruzavam as estepes sem nação, sem poiso. Até na antiga Grécia, Ptolomeu ouvira falar de um ponto na Scítia, reino antigo herdeiro da Pérsia, onde as pessoas praticavam o Budismo e o Zoroastrismo e conviviam em paz. Não quero dar uma aula de História: este local onde passei nos últimos dois dias puxa uma corda de séculos, bastantes. Ainda que, pela sua situação a meio caminho entre dois mundos diferentes - a China Imperial, burocrática e opulenta, conflituosa e expansionista; a estepe asiática de indomáveis cavaleiros que se reúnem em tribos e se recusam a responder a qualquer autoridade - tenha sido palco de insurreições, guerras e conflitos longos, até há poucos anos ainda sobrava aqui uma das grandes maravilhas arqueológicas da Ásia: a cidade velha de Kashgar. Com as suas moradias em adobe e barro, organização em jeito de caos, uigures envergando com orgulho as suas tradições, conta quem a visitou que era o espaço certo para viver algo de genuíno, para fugir dos circuitos turísticos tradicionais e viver algo quotidiano e não inventado. Devem ter reparado que usei o tempo passado. Não foi erro. É que no entretanto, os Chineses ganharam um gosto tremendo pela uniformização dos hábitos e do território; e também, a julgar pelo que vi quando cheguei à entrada deste local, uma mania de transformar o seu país numa Disneylândia.

O Governo chinês fez-se amigo de algo chamado "Progresso", dizem, e foi-se entretendo nesta década a deitar abaixo o que existe dessas casas centenárias desta zona da cidade. Quando saímos do mercado, uma simples mirada encontra o pouco que sobra a algumas centenas de metros de distância. Aos meus olhos habituados a ver sítios arqueológicos, tem grandes semelhanças com as primeiras urbes do Médio Oriente, edifícios baixos e vermelhos, colados uns aos outros, com uma porta e duas janelas, escadas unindo todas as moradias. Os meus olhos também encontram gruas e bulldozers, o que significa que o processo está ainda em curso. Aquilo que dezenas de exércitos e impérios tentaram fazer a este ponto do mundo está agora a sua alcançado pelas companhias de construção chinesas: destruição e terraplanagem. É importante entender que o que se está aqui a passar não é simplesmente criar espaço para construir novos edifícios e casas. É mais um sinal do esforço concertado de apagar uma cultura. Desde que Mao Tse-Tung reanexou esta região, região essa que foi independente duas vezes na primeira metade do século XX, Xinjiang transformou-se num novo Tibete, onde uma maioria étnica local que nada tem a ver com os Han, aquela de onde descende a maior parte da população do país, parece ameaçar os planos de tornar toda a China numa família unida e standardizada. Desde Mao que todos os governantes chineses têm um medo patológico da revolta e da resistência. Acima de tudo, medo que a diferença signifique secessão. A tendência acentuou-se na década de 90, quando finalmente aqui chegou o caminho de ferro. Dois milhões de Han migraram para a região, incentivados pelo Estado, e tomaram conta da economia local. Todos os trabalhos em construção e fábricas vão para os "verdadeiros" chineses. Os recursos da região, principalmente os minerais, beneficiam o aparelho central. É uma assimilação dos uigures e da sua cultura, mas ao invés de preservá-la, a ideia é diluí-la, de preferência até desaparecer. É um sonho chinês, mas os Uigures vivem-no de olhos bem abertos.


A ideia é varrer oitenta e cinco por cento deste tesouro histórico. Os outros quinze ficam para dar coesão ao novo projecto: uma reimaginação de algo que já existe, mas que não se quer. Uma mumificação da História. Ou seja, uma reinvenção da cultura uigur pelos seus captores. Kashgar como os chineses gostavam que fosse. Uma patranha. Os actuais residentes serão compensados pela sua perda e convidados para novas moradas. Como nenhum deles tem qualquer tipo de direitos sobre as propriedades em que habita, podem facilmente levar um chuto no rabo. A ganância tem, afinal, tradução em Mandarim. Quem quiser ficar, sujeita-se o novo programa e cria ambiente, dá à falsificação um cheirinho leve de realidade. Para sermos justos, nada disto é novidade para um país que no ano passado que gastou tanto dinheiro em projectos de construção só na cidade de Pequim como todos os países da Europa juntos. Rua tradicional atrás de rua tradicional (os chamados hutong, lá chegaremos) arrasada para dar lugar a casinhas modernaças. Pode-se considerar este projecto turístico como um reflexo burocrático, pavloviano, natural. Ou uma acção quase herege de acabar com a memória de um povo. Até a Natureza ajuda às tentativas de justificação. Em 2003, um terramoto atingiu a cidade, matando 263 pessoas. Logo, defendeu o presidente da câmara local - que é Han - o Governo está apenas a tornar aquele ponto tão frágil mais resistente aos sismos. Uma simpatia, uma benção. Mas claro que ninguém acredita na justificação. Não houve qualquer fiscalização e estas casas aguentaram muitas catástrofes. Resistiram, mantêm-se de pé. São por isso um símbolo permanente do orgulho de uma cultura, ponto de reunião em caso de resistência. Portanto, um perigo de segurança numa região que assistido, nos últimos anos, a esporádicos confrontos entre uigures e a Polícia. A China sabe bem que está a fazer. Na lista de locais que colocou à consideração da UNESCO na elevação da Rota da Seda a património mundial, deixou Kashgar de fora. Que é um pouco como querer criar uma Rota dos Romanos em Portugal e ocultar Conimbriga. Não querem ser obrigados a preservar um património que tem mais conotações do que simples matéria.

Na nova entrada da Cidade Velha, um portal em pedra vermelha recebe-nos. Inscrições em Mandarim e Uigur anunciam o local. Vejo a sair do espaço um casal deve ter escolhido esta reinvenção para as fotos de casamento: ele enverga um fato, ela de branco vestida. São Han e também não resistem a cedências culturais. Pedimos para fotografá-los, eles acedem, são bastante simpáticos e parecem sentir algum orgulho em aparecerem nas fotos com ocidentais. É algo que será comum em toda a viagem. É à medida em que começamos a caminhar no interior desta nova versão folclórica que nos apercebemos que tudo parece bonito de tão falso que é. Betão a imitar a textura e as linhas das paredes de tijolo; chão alcatroado;  a demolição desta área até retirou a aventura labiríntica que, segundo li, era um dos atractivos de visita. Aqui, só avenidas largas e abertas. Do princípio de uma rua vê-se perfeitamente o seu final. Não há surpresas. Tudo controlado.Tenho aqui a mesma sensação de quando visitava o Portugal dos Pequenitos: os monumentos portugueses não estão exactamente ali. Só fantasmas. Ao olho e ao toque, o estuque revela a intrujice. Volta e meia, vemos actores vestidos com trajes de época, provavelmente porque existem encenações regulares para gáudio dos turistas. E claro, parte da mobília são as dezenas de câmaras de vigilância, certamente para avistar as autoridade se houver um tremor de terra. No exacto momento que olho casualmente para uma, assisto a algo que me ficou na retina e espanta hoje aqueles a quem conto. Um dos olhos electrónicos, apontado para o céu, guina de súbito para a direita. Depois para baixo. Depois para mim. Uns segundos fixo e logo de seguida, vejo claramente um flash. Regressa então à sua posição original como se nada se tivesse passado. Confesso que fiquei sobressaltado durante uns segundos. Já vos contei das minhas experiências iniciais nesta China que tudo sabe, mas foi a primeira vez que me confrontei directamente com o papel principal nesta farsa. Não sei exactamente por que motivo me fotografaram. Talvez para arquivos, talvez por ser uma cara diferente na rua. Mas algures, a máquina tem uma alma a controlá-la e escolheu-me como vítima.


Escusado será dizer que o meu passeio pela Cidade Velha ficou condicionado àquele momento. Não ajudou nadinha que alguns minutos depois, enquanto me sentei nas escadas de uma casa dando descanso à pernas, um chinês com alguns 50 anos, rindo alarvemente, começasse a tirar-me fotos à descarada. Máquina em punho, sem qualquer respeito de privacidade ou espaço pessoal, clic atrás de clic. Não demoro a aperceber-me, até porque a discrição se evaporou. Lanço-lhe em primeiro o tipo de olhar que guardo para aquele aluno que, mandando uma piada infantil numa aula, rapidamente descobre que está a segundos daquela tirada sarcástica que não só o fulmina ali no local, como mais tarde lhe causará traumas psiquiátricos que ou lhe custarão centenas de euros em terapia ou o transformarão no tipo de pessoa que passeando na rua, tremerá ao mínimo som. Isto só o detém uns segundos, sem demovê-lo. Parto então para o confronto da maneira que posso. Na lentidão pachorrenta de um vingador, ergo a minha própria máquina e começo a fotografá-lo. Sem colocar o olho no óculo, apenas lhe aponto a câmara. Se tu me podes olhar, também eu, palhaço. O semblante do indivíduo muda. "No, no camera!!", exclama tentando segurar a minha. A sua mão é rebatida por uma lambada da minha. "No camera you too", porque aqui eles só entendem inglês macarrónico. Não sei se ele é turista ou polícia, mas quando se vai embora, olhando-me por cima do ombro, tenha a certeza de que irei descobrir nos próximos minutos. Caio um pouco em mim e sei que fiz uma estupidez: não devia perder a calma, mentalizei-me antes de vir para a China de que encontraria este tipo de situações e a ideia é voltar para Portugal, para as pessoas de quem gosto. É uma asneira enorme e embora nunca chegue à paranóia, todos os pequenos eventos parecem ganhar um novo significado.

E é nesse instante que, uns dez minutos depois do que vos contei, surge uma cara familiar: Michael, o amigo americano. O ocidental que conhece Kashgar como eu conheço o Pisco de Ceira. Sacola verde a tiracolo, camisola cinzenta às riscas coloridas, um sorriso do tamanho do Texas. "Os teus amigos estão lá atrás, estive agora mesmo com eles". Respondo-lhe no mesmo Inglês que vim ao meu ritmo, que alguns preferiam andar às compras e eu não estava interessado em comprar nada. Ah, mas aqui vendem-se coisas muito interessantes. E explica-me que anda por ali à procura de uns produtos alimentares que necessita para uma viagem que fará nos próximos dias. Uma ronda por Xinjiang, dar umas aulas, visitar uns amigos. Está há demasiado tempo na China, diz-me, mas já que aqui está aproveita e conhece. Pergunta-me o que tenho achado da cidade. Das pessoas. Depois de tudo o que passei nestes dois dias, uma pergunta que até então seria simples merece algum tempo de reflexão da minha parte. Uso então a palavra mais neutra que o ser humano utiliza quando lhe pedem uma opinião sobre algo: interessante. Ele sorri de novo e reafirma que sim, que aquela zona pode ser muito interessante. Entretanto, chegam mais portugueses. Isto é tudo muito lindo, mas há gente com fome, e sede acima de tudo. Esteve um dia de sol, abafado, já vai muito comprido. Saímos então à procura de um poiso para alapar, beber algo fresco, simplesmente estar e falar do dia. Alguém o norte-americano omnipresente, que não se faz rogado. Também está a precisar de algum descanso.


O caminho oferece.me alguns momentos de gostoso non sense. Há um estabelecimento que publicita com alegria a venda de pastéis de nata. Imagine-se. Não consigo sequer conceber como é que a nossa tão portuguesa iguaria doce aqui veio parar. Mas ali está, em fotografia e prova viva à minha frente. Entre as lojas desta Nova Velha Cidade, encontro uma onde manequins envergam, veja-se, máscaras do personagem V, do filme "V for Vendetta". Acho que conseguirão perceber a deliciosa ironia. No mesmo capítulo das referências cinematográficas caídas de nenhures, outra loja mostra um mural pintado de alto a baixo. O tema? As caras bem reconhecíveis de Mathilda e Léon, par protagonista do conhecido filme de Luc Besson "Léon". Sinto que, de certa forma, a aparição súbita de Natalie Portman, a mãe dos meus filhos embora não o saiba, é um sinal de que tudo está bem. De que aquele senhor que confrontei era apenas um pervertido qualquer e nada me acontecerá. Caso ele tente algo, aqui está um par de assassinos profissionais ao meu serviço; e um deles bem giro, por sinal. Destinamo-nos o Juyoge, um bar onde a gerência insiste que bebamos mais do que queremos - e paguemos, obviamente, o que nos leva a recusar a oferta - e que fiquemos os treze juntos, mesas e cadeiras puxadas de todo o lado para criar um espaço que acomode o grupo completo. Não é a última Ceia, espero. A conversa desenrola-se durante algumas horas, discute-se, ri-se bebe-se. Os nossos relógio já marcam dez e meia locais quando nos apercebemos de que o dia seguinte nos guarda uma viagem de várias horas. Ainda não jantámos e é isso que nos espera. O amigo americano já não nos segue. Tem coisas a preparar e não viu como era tão tarde. Mas, diz ele com esperança, pode ser que nos voltemos a encontrar. Nunca se sabe o que o destino nos guarda. Se acontecer, ri ele, vai considerar que andamos a segui-lo.

Alguns de nós regressam de imediato ao hotel. Estou inclinado a imitá-los, mas alguns companheiros encorajam-me a prolongar a noite. Vivem iludidos no logro de que sou companhia desejável, coitados. Sigo-os. Damos umas voltas pelas banquinhas de rua que visitámos na noite anterior, mas desta vez em ambiente nocturno. As luzes, o movimento extra, o barulho que não pára e uma população que está a viver quatro horas antes não dão descanso e soltam colorido, vida, autenticidade pelas ruas. Tudo aquilo que faltou à Disneylandizaçao do mundo uigur. O Zé Luís, que conhece bem esta zona, sugere-nos um pequeníssimo restaurante onde vendem espetadas à escolha. É um cubículo onde cabem duas mesas e um frigorífico. Uma senhora simpática mantém um forno a carvão brilhando em laranjas vivos. Cada um constrói a sua espetada, escolhendo de umas montras aquilo que quer comer: há carnes de porco, frango, carneiro, vaca e cabra; queijos, peixe; até doces. Make your own barbecue. Enquanto esperamos, bebe-se algo, que o calor às onze e tal da noite é aquele das sete e tal da tarde. A decoração do local é muito kitsch, fotos de paisagem montanhosa e casas impossíveis, onde carros estão dentro e fora de jardins em simultâneo. M.C Escher de rua. As espetadas chegam e depois de o almoço ter ficado bem lá para trás, metemos algo ao estômago. Quebro algumas das minhas regras quando viajo, nomeadamente a que me tem impedido de me atirar a comida de rua, pelos óbvios riscos que isso representa para o meu sistema digestivo. Mas o estômago quer aquilo que o estômago quer e esta carninha de frango grelhada cai bem a matar. Não se preocupem, este não é o momento onde discorro sobre um dos meus incidentes escatológicos internacionais. Mas ele chegará.

Já é meia-noite e meia quando regressamos ao hotel. Foi um dia bem comprido na suas vinte e quatro horas triplicadas. Ainda ribomba dentro do meu cérebro o barulho do Grande Bazar e vejo nos vários estabelecimentos destas ruas o mesmo espírito dinâmico e vivaz de quem nasceu para trocar o que tem. A meia luz, um deles alberga três homens de barba hirsuta, alguma idade, reunidos em torno de uma cadeira. Não entendo obviamente os letreiros, tento perceber o que se passa. Depois de alguns segundos, e do ruído atroz de uma broca assassina, entendo que é um consultório dentário. A esta hora, ainda está aberto. Incrível. Nos meus primeiros dias na China, mais do que as fotos ou os espaços, impressiona-me a incrível resiliência destas pessoas, com as hipóteses todas contra si, e mesmo assim vivendo, seguindo, sabendo que algo se passa mas fazendo dos seus dias um caminho para frente, para a esperança que não morre de que a vida só pode melhorar depois de o futuro se revelar. Não consigo reconhecer esse espírito em mim, no meu negrume profundo, na minha incapacidade sequer de crer em algo de bom. Quando escrevo isto, semanas depois de ter vivido tudo o que vos descrevi, dou por mim perdido em breu, numa certa escuridão que desorienta e não tem bússola. Penso nos uigures, na sua indomabilidade, nessa força que obriga um estado autocrático a apertar cada vez mais, a ver se explode; e entendo que por muitos edifícios que se destruam e pessoas que desapareçam porque "vão gerir supermercados", a memória é a parte mais importante de uma cultura. O espírito daquele povo subsiste enquanto vos contar estas histórias, enquanto as suas histórias servirem para me transformar e até outros. Isso é algo que, por muito betão que despejem, os Chineses nunca conseguirão transfigurar. Essa é, a bem dizer, a beleza maior de viajar: de certa maneira, estamos a tornar determinadas pessoas e lugares imortais e sempre presentes. Um viajante é uma espécie de feiticeiro de si mesmo. Não esquece. A mesma câmara que vigia, afinal, é também a que guarda o que não se quer saber.

quarta-feira, outubro 16, 2019

Fachinação 6: Rotas da Seda


Embora gostemos de dizer que criámos a Globalização, muitos séculos antes de os Portugueses germinarem a ideia de se lançar ao mar semi-desconhecido existia uma ligação permanente entre três continentes que fez andar o mundo. Todos os Impérios da História envidaram esforços - e por vezes, encontraram o seu fim - para tentar o controlo dos caminhos e trilhos que ligavam a Ásia à Europa através de uma rede comercial alargada onde participam milhões de pessoas. Ainda que uma diversidade enorme de produtos viajasse pelas montanhas e desertos, vales e lagos, rios e planaltos, apenas um plasmou na posteridade o nome com que esta gigantesca empreitada ficou conhecida: a Rota da Seda, termo criado apenas no século XIX, mas que reflecte o fascínio que esse tecido de suavidade convidativa sempre gerou no Ocidente. Reflexo de uma inclinação comercial que sempre existiu nos povos nómadas da Ásia Central, demasiado irrequietos para considerarem uma carreira em tarefas mais sedentárias como a Agricultura ou a Pecuária, terá começado por volta do século II antes de Cristo, unificando algumas relações regionais que juntavam povos asiáticos. É muito tempo. Foi alargando na medida da formação dos impérios, aproveitando vontades políticas, ganância económica e de maneira mais prática, o talento de criação de cavalos dos moradores das estepes da Ásia Central. O seu começo na China galgou gradualmente todo o continente asiático, chegando em primeiro onde hoje é o Irão, nos tempos da Pérsia, ao Egipto e à Europa, envolvendo as antigas cidades-estado gregas e posteriormente o desenvolvido Império Romano.

Em Roma, os produtos desta Rota causaram sensação. Depois de conquistar praticamente metade da Europa e o Norte de África, a atenção do Império virou-se a Oriente. A Anatólia em primeiro, seguindo-se as terras em redor do Mar Negro e parou algures no Cáspio. Conta, pelo menos, a historiografia oficial. No entanto, não cala a lenda da legião perdida, soldados romanos que depois de capturados pelos Párcios, foram enviados para as fronteiras mais a Oriente, onde hoje se situa o Cazaquistão, para combater a expansão chinesa a Leste. Depois da vitória da China, a dinastia Han ficou tão impressionada com o comportamento destes soldados estrangeiros que os incluiu no próprio exército, ficando conhecidos como ""Li-Jien". Ou seja, legião. Instalaram-se junto da cidade de Liqian e segundo as crónicas da época, por aí ficaram a viver. A verdade é que cinquenta por cento dos habitantes desta cidade mostram características muito ocidentais como a altura, a cor dos olhos ou a forma dos narizes. Nalgumas aldeias, a tradição dos antepassados romanos é celebrada com galhardia. 


Pela Idade Média, as relações entre Ásia e Europa estavam mais do que estabelecidas, com as cidades italianas a servir de ponto final da Rota que começava bem lá longe no Extremo Oriente. Pelo caminho, certas cidades tornaram-se pontos de luz num mundo onde as trevas da guerra e do obscurantismo se faziam sentir com força em ocasiões: Baghdad e a sua magnífica biblioteca, mais tarde destruída pelo Mongóis; Samarcanda. onde Timur, o selvagem conquistador mongol ergueria o seu imponente mausoléu; Merv, uma das maiores cidades do mundo no século XIII; e claro, Kashgar, a cidade que visitei nestes dias, um oásis aproveitado para ponto de paragem obrigatório nesta rota. Na História eurocêntrica que aprendemos na escola, todo este movimento, um processo de união de povos importantíssimo para percebermos o mundo actual - tanto que o Médio Oriente e a Ásia Central continuam a ser a área de geopolítica mais importante e tensa que existe - é uma nota de rodapé. Mas constitui, na verdade, a primeira grande ligação entre o mundo conhecido de há mais de vinte séculos, uma construção conjunta que envolveu culturas muito diferentes, religiões antagónicas e estados rivais por amor de uma única coisa apenas: dinheiro. Não é poético, mas é verdade. Casam-se dois aguçados fascínios: o do Ocidente pelos produtos exóticos, os aromas das especiarias, o fulgente brilho do jade; o do Oriente pelo vil metal dourado e uma expansão metafórica da sua influência. Fala-se muito do choque de civilizações, mas devia chamar-se a isto a infecção das mesmas, com uma superior cultura oriental a imiscuir-se na estética e letras dos seus parentes europeus. A Rota da Seda, e a sua memória, os seus lugares, são hoje Património da UNESCO e embora englobem apenas três países - o Cazaquistão, o meu Quirguistão e a China - a sua influência espalha-se para a península indiana, a Rússia ou mesmo a Escandinávia. 

Ainda que esses tempos tenham terminado, Kashgar continua a ser um importante local de trocas comerciais. O Grande Bazar de Domingo é um desafio às leis do tempo. Não começa de manhã como todos os mercados, mas sim por volta da hora de almoço. A culpa é do governo Chinês, que insiste em unificar a hora em todo o território... ainda que entre Pequim e esta região do país existem seis fusos horários. Os relógios, em Kashgar, não se compadecem do sol: enganam-no. A tradição que a cidade criou como ponto fulcral da Rota da Seda, na transição entre as terras chinesas e as estepeas nómadas da Ásia Central ainda hoje se reflecte na importância que este Bazar tem. É enorme, um mundo. Só preciso de uns segundos para entender que me aguarda uma experiência bem diferente. Não é que seja a minha primeira aventura neste tipo de eventos. O Mercado de Osh, no Quirguistão tinha, à vontade, cinco quilómetros quadrados e uma infinitude de produtos, pessoas e até estímulos. Mas neste, recai um lençol de caos que não existe em Osh. Ainda que exista uma ordem geral, uma separação por produtos e áreas, a maralha de quem compra e vende funde-se a tal ponto que não sabemos quem é quem. Faz algum sentido. Sendo Xinkiang uma das mais remotas zonas chinesas, este é o único local em centenas de quilómetros onde se pode trocar e vender o que que se queira. E aqui, é mesmo literal. Podem encontrar o que quiserem e desejarem e mesmo aquilo que pensam que não desejam: há mais de cinco mil postos de venda. Calcula-se que a cada domingo, duzentas mil pessoas entram e saem do recinto do mercado, e este abre até durante a semana, embora com uma dimensão bem diferente. Se visitam Kashgar a um domingo, este é o local para se estar.


Usamos a porta Leste para entrar no recinto e rapidamente somos engolidos. Esta é a área da metalurgia e alguns do grupo começam logo a cobiçar woks e panelas. Mas rapidamente tudo isto se mistura com bancas de roupa, onde vejo um miúdo dormindo sobre uma toalha no chão, e uma mesa onde, secando ao sol, escorpiões se preparam para posteriormente desaparecerem no estômago de alguém. Uns metros mais à frente, mais um ponto de comezaina, desta vez churrascos, Um velhote faz brasas usando um secador, paciente, concentrado. Noto que os homens vestem de forma simples. Os mais novos t-shirt e calças de ganga; os mais velhos camisa e calças de fazenda, ocasionalmente usando chapéus quirguizes. As mulheres, independentemente da idade, são lampejos coloridos que passam, tecidos leves, um lenço em redor da cabeça mas sem nunca tapar a cara. É a sua versão de roupa de domingo. Quando começamos a subir uma ladeira, o chão desaparece e num espaço apertado, a multidão comprime-se enquanto verifica as bandas de venda de ambos os lados do caminho. O barulho de vozes que jogam ao eixo torna-se numa redoma que me impede sequer de prestar atenção ao resto. Aperto a máquina contra mim e puxo a mochila para a minha vista. Vejo de tudo, este é o espaço da quinquilharia corriqueira, desde roupa de trazer por casa até brinquedos made in daqui. A maior parte dos comerciantes são mulheres e trazem consigo os filhos, alguns ajudam, outros simplesmente têm o olhar perdido de quem perdeu alguma noção do mundo. Por cima de todas, uma voz repete mecanicamente os mesmos sons, numa linguagem que não é mandarim. Talvez seja uigur. A cadência é a mesma, como um metrónomo, as palavras repetem-se. Que tipo admirável, penso, o pregão é de uma consistência irresistível. Reparo então que na verdade, o que ouço foi gravado previamente e uma coluna portátil lança os apelos para a multidão. Que preguiçoso, penso: onde está a ética vocal dos comerciantes de antigamente? Qualquer dia, até os piropos dos pedreiros são previamente digitalizados.

No topo, a secção de tecidos estende-se por centenas de metros. Aqui, podemos encontrar sedas principalmente, coloridas, padrões lindíssimos e nalguns locais, comerciantes que dormem enrolados nelas enquanto a sombra dos chapéus e toldos os esconde do sol da tarde/manhã. Há cetins, tecido de alfaiate, algodão, gazes, crepes, organza, musseline... Na luz da tarde, brilham como se fossem preciosos, e para estas pessoas são-no. Não compro nada por aqui, mas observo quem conversa, regateia, numa actividade tão normal, tão fundamental para esta cultura que faz da troca o seu modo de vida. Numa conversa particularmente encarniçada, uma mulher de blusa amarela discute o preço de um tecido rendilhado com a vendedora, cabeça tapada por um lenço verde, a dureza da vida na postura, da fade. Não é agressivo, há risos e trocas como um jogo de ténis. Numa loja a pouca distância, instalada num contentor de metal, não resisto a passar a mão por tubos de tecido de seda, com desenhos incríveis debruados a dourado. São de cores escuras, azuis e violetas, também verdes e vermelhos, com estampas complexas que deixam poucos espaços livres. A vendedora observa-me e ao lado, a filha, uma garota que não mais do que dez anos, ajuda com os trocos. Uma blusa branca meio transparente, arejada e uma saia leve cor de laranja são praticamente um anúncio ao próprio produto, um outro tipo de vestimenta de trabalho. Mas o que me rodeia é tudo isto: panos, tecidos, em paredes e pelo chão, pessoas sobre eles e à sua frente, mostrando-mos e a quem passa, cobiçando atenção, entregando o seu tempo para nos convencer na compra. Às vezes, a dificuldade está na escolha e na falta de variedade em simultâneo. Uma cliente pede para que dois tecidos diferentes se transformam num. Nada que demova a comerciante: senta-se atrás de uma máquina de costura daquelas antigas a pedal e resolve o problema. Recordei-me logo da minha avó materna, que fazia da máquina de costura uma arma para mudar o mundo, de como conversávamos, ela idosa de buço e eu criança parva, sobre várias coisas. 


Enquanto regresso, há visões de alucinação causadas pela tempestade colorida dos tecidos, pessoas que aparecem e desaparecem, que se transformam em alquimia. A certa altura, julgo mesmo ver um menino careca a oferecer-me um pouco do ramen que come a partir de um copo de plástico. Apercebo-me que é real, então. Sorrio e recuso. Come tudo, o lambão. Consigo ver então a parte inferior do Bazar. Um imenso mar vermelho de toldos, não consigo sequer contá-los. Um pouco mais à frente, surge o mercado coberto, onde se encontra a grande maioria das lojas. É para onde me dirijo a seguir. Novamente vou na maré humana, sorrindo interiormente. Eu sou tão alérgico a pessoas e a confusão e arranjo sempre maneira de acabar precisamente no oceano das pessoas. De onde estou, as filas de gente são ondas e marés. Alguém choca contra mim e é um garoto que aperta um capacete encarnado contra a cabeça, enquanto bebe uma garrafa de sumo de laranja. Está mais assarapantado do que eu . Chego à principal praça da feira ainda meio confuso, mas vejo ao longe alguns membros do meu grupo que desaparecem numa sombra. Sigo-os e vejo corredores enormes, ladeados por quiosques que só vendem roupa. Estes corredores são cruzados por outros perpendiculares e este é um enorme labirinto consumista. Consigo prestar mais atenção ao cuidado com que cada vendedor arruma os vestuário e por vezes lhe fala. Como se uma relação fosse estabelecida. Nunca estão sós. Ou tomam conta da família enquanto esperam a oportunidade de negócio ou então reúnem-se em magotes defronte da sua banca, ou de outras, conversando com colegas, amigos, passando o tempo, deixando que mais um domingo se escoe. Dou uma curva à direita e sou abalroado. Olho para o chão e um bébé passeia-se num andarilho. Rói uma caneca cor de rosa e em velocidade a mãe vem buscá-lo, pede-me desculpa em uigur, sorri-me. Retribuo e tento fazer-me entender por gestos de que não tem mal nenhum. A minha sobrinha dando-me marretadas com tupperwares surge-me na ideia. Regressam ambos para a sua banca, onde uma senhora idosa, sentada numa cadeira de escritório, me sorri também. Vê-me segurando na máquina fotográfica e gesticula-me jovialmente que a fotografe. Salta então um garoto que mal observa a máquina empunhada, desaparece para onde veio. Brinco com ele às escondidas, finjo que estou a vê-lo, finjo que não estou. Ri muito, ele, mas não o convenço. Acabo por retratar só a senhora, que nem fica a olhar para mim porque logo os meus colegas de viagem caem na cena chamando a sua atenção.

Uma das maiores bizarrias que por aqui vejo são as estampas que existem nalgumas camisolas. Nalguns casos à venda, noutras já envergadas por consumidores. Não só apresentam mensagens preocupantes, como muitas vezes são traduções de chinês para inglês que fazem zero sentido. Uma adolescente enverga orgulhosamente "Femme c'est trés marvail, use me", num recuo de séculos da emancipação feminina e o golpe final na fachada oca de Beyoncé; numa banca, pendurava numa cruzeta, a face de uma camisola pergunta "Ai that girl the one onotgot away?"; há estampas de um Sperman e de um Superman que veste igualzinho aos Spider-man e usas os seus exactos poderes; um adolescente de óculos parece fã de uma marca chamada "The sexy face", conforme a sua t-shirt, acompanhada da inscrição "Never stop studying"; alguém mais festivo incentiva a malta a aplaudir, mas com a infelicidade de ver inscrito "Crap your hands!"; e provavelmente numa revolta contra a confusão do mundo, uma camisola com carapuço brada "Whats so fuck then!!". Mas descubro então o segredo para a felicidade finalmente, a tal sabedoria oriental, quando leio numa outra camisola "I feel happy when I eat a potato". Por fim, tantos anos a viajar compensam. Voltarei para Portugal pronto a iluminar o negrume da vida portuguesa.


Um bocado aos tropeções, reencontramos a saída. Envolveu um desvio pela zona de restauração e a sempre intoxicante passagem pelo mercado da especiarias, em sacos abertos, sem filtro entre elas e os nossos narizes, nada embaladas, vendida ao grama. Frutas secas e especialidades caseiras uigures, algumas parecendo deliciosas, outras um perigo para o meu estômago Quase me senti um herdeiro daquele Gama que agora nos querem ensinar a odiar em certos recantos da intelectualidade portuguesa. As sedas ficaram para trás noutro ponto da minha rota. Existe aqui tanta gente e tanta coisa que é como se esta Bazar não existisse na China. Na verdade, é como se não existisse em qualquer lado. Não tem nação. Quando regresso às ruas de Kashgar, aliás, é como se uma fronteira me alterasse. Continua a existir um aglomerado de gente numa cidade com um milhão de habitantes, mas perdeu-se algo. Uma ligação, um ponto em comum. Nestas ruas, todos andam algo à deriva, cada um para seu canto. No Bazar, há uma linha comum, de quem ganha a vida obrigado a conhecer outros, desconhecidos, e a aprender o gosto disso. Não é à toa que o Comércio foi a actividade económica que surgiu mais tarde. Envolve entendimento, cooperação e acima de tudo, confiança no outro. Nós como seres humanos somos muito, muito desconfiados. Para nós, os estranhos têm má reputação. No Grande Bazar de Kashgar, no entanto, os desconhecidos estão apenas à espera de se tornarem nos melhores... desde que comprem algo. Tal como antes a Rota da Seda uniu Ocidente e Oriente, eu, um português, sinto-me mais perto destes que me são estrangeiros através da simples troca, da curiosidade, da novidade. Falta mundo a muita gente. 


quarta-feira, outubro 09, 2019

Fachinação 5: Xinjiang em época de saldos


O Governo Chinês caracteriza-se por muitas coisas, mas a principal é, como já devem ter desconfiado, o controlo. A sua mentalidade de gestão micro levou a coisas tão ridículas como controlar as políticas de natalidade como se os corpos humanos fossem máquinas ou, nalguns momentos infames do seu passado, como forçar o desenvolvimento económico através da pura força de vontade (matando milhões no processo) ou acabar com o Ensino Universitário durante uns anos porque, ahm, este ensinava. Ainda que o estado comunista de Mao se tenha tornado num estranho híbrido capitalista estatal, esse hábito não se perdeu. O líder Xi Jinping, cujas linhas faciais lhe valeram comparações entre a população à popular personagem Winnie the Pooh, mantém a tradição e aplica-a em várias áreas da vida chinesa. A sua manifestação mais conhecida é o infame cartão de pontos sociais, que avalia os cidadãos pelo seu comportamento em sociedade - algo que, desconfio, não seria do desagrado de uma grande fatia da Internet que adora empunhar forquilhas virtuais para perseguir e queimar os degenerados que não se conformam à pureza moral da sua visão.

Os turistas são controlados de outra maneira. Quando se planeia viajar até à China, um dos principais problemas é saber onde ficar e quem contratar. Nem todos os hotéis podem receber estrangeiros e não é qualquer companhia que pode trabalhar com cidadãos não chineses. A liberdade económica encontra aí um limite. O Zé Luís, guia desta expedição, encontrou esse problema de uma maneira inusitada. A pouco tempo de iniciar esta viagem, estranhou não receber qualquer tipo de comunicação ou aviso por parte de uma empresa que contratara para nos transportar nas várias deslocações dentro de Xinjiang. Por vias travessas, conseguiu contactar pessoas que conheciam o dono da empresa. Descobriu então então que haviam desaparecido. Sumiço completo. Numa noite, estavam em casa, na manhã seguinte era como se nunca houvessem pisado o solo. Como se um triângulo das Bermudas se formasse para sugá-los e não mais dar notícia. À boca pequena, outra pessoa esclareceu que a Polícia era responsável, que aparecera de súbito de madrugada, encaminhara a família para umas carrinhas e o rumo marcado era um campo de reeducação. A China mostra um grande amor a estas estruturas, destinadas, segundo o Governo, a ensinar a outras culturas o que é, de facto, ser chinês, de maneira a facilitar-lhes a entrada no mercado de trabalho. Não estamos a fazer qualquer mal, dizem. Damos uma mãozinha e tudo, somos simpáticos, eles até ficam aqui e têm cama e roupa lavada. Não se preocupem. não se passa nada. Há uma outra maneira de ver isto. "Ensinar a ser chinês" mais não é do que uma reformulação de "limpeza étnica". Menos perniciosa e directa, sem mortos, sem o espectáculo horrendo da carnificina. Mas subtil, erradicar um povo através dos seus hábitos, dos seus costumes. Ser Chinês. Um crachá no peito como orgulho de olhos em bico. 


Um pouco em aflição, o Zé lá resolveu o problema. Cruzou-se coma  referência de outra instituição que fazia os mesmos serviços. Não estava tão bem cotada e referida como a anterior, mas consideravam-na de confiança. Marcou tudo, problemas resolvido. Quando chegou a Kashgar umas semanas depois, conheceu por fim o dono desta empresa. Chamava-se Ali, ar muito profissional, a capacidade de não tremer perante uma inconveniência, cabelo branco, mas de joviais movimentos. A conversa começou formal, confirmando todas as marcações e viagens, discutindo quem seriam os guias, preços, veículos. A certa altura, o Zé não resistiu e puxou o assunto do mistério da outra empresa. Um comentário foi lançado à laia de inocência, como se a história não pairasse na sua cabeça como aquele nevoeiro que costuma soprar os campos de batalha depois da refrega. O Ali não tremeu e até sorriu um pouco. Sorte a do outro, disse. Cansara-se disto do turismo, dava muito trabalho. Regressara à sua terra natal, onde lhe tinham proposto tomar conta do supermercado de um parente que, já velho, passara do prazo de validade de comerciante. Empolgado, partiu e deixou isto dos turistas estrangeiros. Estava feliz, Ali acreditava. Um sonho, ter o seu próprio negócio, catita, independente e bom dinheiro no bolso. A família fora com ele, contente por regressar assim às raízes. Não se estava mal. Quando mais tarde o Zé me contou esta história. não sabia se havia de rir ou chorar. Este Ali saberia de certeza o destino do seu colega. Por medo, talvez, escolhera contar uma versão dos factos onde tudo acaba bem. Uma fantasia, uma invenção do passado, algo em que, apercebo-me ao longo da viagem, as autoridades chinesas são especialistas. Nas autocracias existem sempre duas verdades paralelas. Uma é a corre na rua. A outra a que se deita em casa. Se pegarem num livro de piadas soviéticas, encontrarão muitas anedotas que atacam este problema com mordacidade. Uma das minhas preferidas fala da comparação da liberdade de expressão entre EUA e URSS, numa conversa entre um americano e um russo. O primeiro defende que na América pode, por exemplo, pôr-se à frente da Casa Branca e gritar "Que se lixe o Ronald Reagan" e ninguém o prende. O segundo acha isto uma tolice, porque se bem lhe apetecer, pode berrar o mesmo no meio da Praça Vermelha e ninguém lhe toca também.

Explico isto porque estamos a bater à porta do hotel onde originalmente era suposto termos passado das nossas noites em Kashgar. No entanto, uma semana antes de chegarmos, o Governo decidiu que afinal este não podia receber cidadãos estrangeiros. O Zé, ainda assim, faz questão vejamos o interior, porque aqui se situava o antigo consulado russo nos inícios do século XX. Tudo parte da estratégia do Grande Jogo, onde a influência na Ásia soava os tambores da guerra entre a terra dos Czares e o maior império da altura, o Reino Unido. O objectivo era angariar aliados entre os líderes da região, açambarcar recursos, marcar posição. Os serviçais eram espiões em simultâneo, qualquer convidado presumido como traidor,  e não era incomum vodka e assassinatos dançarem de roda nos jantares organizados pelo consulado. O edifício é muito semelhante a uma datcha soviética, paredes de madeira, paleta monocromática, mais comprido do que alto. O nome não deixa de me causar um óbvio sorriso: Seman.


Estamos ali dois minutos à espera. Ninguém responde. Transeuntes passam, espiolhando com desconfiança um grupo de ocidentais ali à porta. Por uma questão de segurança, decidimos retirar. Mas o Zé está preocupado. Ele conheceu o dono do hotel, um tipo porreiro com quem teve uma conversa que o marcou muito. Referindo o caso do senhor que agora trabalhava num supermercado, rapidamente viu lágrimas nos olhos do interlocutor. Puxando-o para um canto, um ponto cego na visão da câmara que fiscalizava o diálogo, confirmou-lhe o que lhe haviam contado sobre os campos. Era verdade. Por isso, a primeira ideia que se apresentou ao Zé foi a mais óbvia: de uma maneira qualquer, alguém descobriu isto e levou o rapaz. É outras das consequências de ser estranho nestas terras estranhas: não sabemos quando as nossas acções, que pensamos inocentes, podem ter consequências decisivas na vida de outros. Como se as nossas mãos pode pôr e dispor dos destinos de estranhos por uma simples palavra. Como os sonhos de outros podem acabar apenas e só pela nossa banalidade corriqueira.

Almoçámos num restaurante ali perto, onde descobri que as casas de banho em espaços públicos são normalmente latrinas. Uma sanita é um luxo. Talvez isto explique porque é que raramente os asiáticos alapam o rabinho no chão. A refeição é marcada pela comida novamente picante e por uma conversa sobre fenómenos fora do comum, onde não incluo a Política portuguesa, e onde as pessoas do grupo descobrem que me interesso pelo fenómeno OVNI. Algumas tentam desmontá-lo usando argumento que já eram usados há cinquenta anos e presumindo que eu o associo de alguma forma a vida extraterrestre. Perguntam-me o que é e eu não sei, obviamente. Porque todas as dúvidas devem ter uma resposta categórica imediata. Algo que sempre achei engraçadíssimo, mas que nestes tempos que correm, onde tudo é certo e nada é errado me assusta mais do que diverte. O restaurante fica mesmo à beira de uma longa avenida e quando saímos, o sol bate como o João Moutinho: bem. Enquanto espero que duas pessoas saiam, reparo ao longe na rua em dois polícias que acompanham um jovem que caminha feito geisha. À primeira vista é bizarro, mas numa segunda mirada, saltam as algemas que lhe prendem as mãos e os pés. Para o caso de se estarem a perguntar, sim, é uigur. Transportado na rua, como se fosse normal, à vista de toda a gente. O sonho molhado de André Ventura. O Zé também o vê e está claramente a pensar no seu amigo de Kashgar. Sugere que tentemos uma vez mais. Vamos até à porta do consulado e se ele não estiver lá... que seja por uma ida à Loja do Cidadão. Ou algo do género.


Atravessamos o espaço entre a rua e o antigo consulado, debaixo da sombra de árvores, folhas roxas que se despencam ao vento. Um toque. O vento soprando entre os ramos é o único som a contornar as nossas formas. Segundo toque. Olhares nervosos entre nós, um ou outro sorriso, fotos tiradas ao espaço. Terceiro toque. Ninguém responde, mas as perguntas estão lá. Quando o quarto toque, quase simultânea a abertura da porta. Ali está ele. Chama-se Molan (sim, quase como a princesa) e não parece espantado por ver-nos. O Zé, sim, está bem mais aliviado. Molan convida a entrar, para um largo hall completamente branco, apenas com dois sofás laterais e a recepção a meio. Noto que no balcão, descansa a mesma câmara negra que vi no nosso próprio hotel, onde nos apresentámos à força. A combinação entre a fila de árvores à entrada e a largura, decoração otomana, salões espaçosos, dá ao edifício um ar Chekhoviano. Este é apenas um dos edifícios do consulado. Em redor, existem outros, maiores, visitáveis a partir daqui. Molan faz-nos uma rápida visita guiada. Explica um pouco da história do consulado, das lutas diplomáticas entre o Reino Unido e a Mãe Rússia, das picardias entre os cônsules George McCartney e Nikolai Petrovsky. Paramos num salão com um belíssimo candelabro transparente, que se assemelha ao chapéu de fiapos prateados de uma princesa chinesa. As paredes cobrem-se de quadros evocativos de temas mitológicos, de cenas do passado histórico russo. Somos convidados a espreitar os quartos e até uma pequena sala onde cadeiras, poltronas e estantes com livros convidam a ficar e esquecer o programa da parte da tarde.

Enquanto alguns de nós questionam o Molan ou simplesmente fotografam o espaço, encaminho-me para um espaço exterior, que está em obras. Dominam os azuis, mais claros, o mar que está tão longe daqui. Numa coluna mesmo no centro deste espaço, uma coluna em tons de verde é encimada pelo crânio de um boi. No entanto, alguns gatos tomaram-nos como seu e rebolam ao sol, na sua privacidade própria que nenhum humano pode sequer ousar estragar. Passam por entre colunas brancas, miam, fogem de qualquer iniciativa de acariciá-los. Apenas com tempo e alguma confiança - e provavelmente, ainda cheiro entranhado do meu próprio gato - ganho confiança suficiente para cofiar os seus queixos. Uma funcionária do hotel explica que os bichos foram resgatados da rua e que uma gata deu à luz há uns dias. Sento-me no chão, sou ocidental. Um silêncio incrível, uma luz que abraça, segundos de momentos onde não estou no país da vigilância ou das confusões, longe de câmaras, longe de pessoas. Neste exterior do hotel, Kashgar só existe dentro dos limites das paredes e é uma maravilha de pelo e de sol.


À saída, pergunto o Molan pergunta-me como foi a manhã. Explicou que fomos a uma feira de gado. Foi divertido? Pauso e digo que foi curioso, enquanto o meu olhar quase alcança uma câmara de vigilância imediatamente acima de nós. Ele entende. Eu não quero deixá-lo em maus lençóis. Recua dois passos. O que achaste mais curioso? E eu expliquei a história dos polícias à paisana que me filmaram, das perguntas estapafúrdias do "turista", do fotógrafo que tão bem conhecia a Polícia. Um sorriso tímido, uma observação certeira: "Viajar é conhecer outras culturas". Perto, o Zé Luís chega-se e observa que viu pouca gente na feira comparado com o ano anterior. Os olhos do Molan são navalhinhas pequenas. "Dirias quanto? Menos 70%?" À volta disso, sim. "Bem, esse é quase a percentagem de pastores uigures que desapareceram este ano. Gracejo que o negócio dos supermercados está fortíssimo em Kashgar. Perdido na piada, explicamos ao Molan.. Uma pequenina tristeza abate-se, encolhe os ombros: "Se muita gente repetir uma história, ela torna-se real, não é?" O Molan fala da sua cultura, de como está a desaparecer. De como os Chineses apertam cada vez mais a malha, aumentam as regras, de como apesar de isto já não ser um assunto escondido, ninguém faz nada e ninguém vai fazer. De como sim, os uigures não levam a bem a presença chinesa, de que têm havido revoltas e manifestações; mas quem seriam eles se, quando espezinhados, não mostrassem a sua indignação? Quem aceitaria ser reduzido a nada em silêncio? A cultura dos Uigures centra-se no comércio, em costumes ancestrais, na hospitalidade e de como todos estes traços vão sendo apagados com uma borracha digital. De como até ale tem medo se esquecer do seu povo e de quem é. Agradece a nossa preocupação, pede-nos que fotografemos e que quando voltarmos, não escondamos a sua história nem a de Xinjiang. Pede-nos algum cuidado também e fala-nos do seu gosto em receber, de como ter aquele hotel é tão importante para a sua vida e que teme constantemente que lho tirem. Que lhe apaguem os sonhos. De que vendam a sua identidade em algo pior do que um supermercado.

Ainda é relativamente cedo e quando nos despedimos do Molan, a ideia é apanharmos um autocarro para o lado oposto da cidade. A paragem mais próxima não fica muito longe, por isso vamos a pé. Penso bem no que ele me contou, de algo que ignorava quase completamente há uma semanas. De como viajar é fazer mais mundo. Nisto, o meu olhar ergue-se para a montra de uma livraria. Todos estamos curiosos por entrar e assim fazemos. A máquina de raio x e os detectores de metal recebem-nos, claro. Mas lá dentro, um tesouro. Que cultura pode existir num mundo de censura? Os chineses, aparentemente, adoram cientistas ocidentais. Vemos fotos em grande tamanho de Newton, Galileu, Mendel... Acho a de Galileu particularmente irónica, porque este é um dos símbolos do homem perseguido e silenciados pelas suas ideias contrárias à grande vontade da Instituição Central. Mas as ironias não acabam aqui: na terra do cala-te e porta-te bem, vendem-se exemplares de "Admirável mundo novo", de Huxley ou de "O clube dos poetas mortos". Existe também "O principezinho", "O estrangeiro" ou uma colecção bastante completa da sobras de Shakespeare. Uma biografia de Ronald Reagan e claro, todos os escritos do Grande Pai Mao. Perdido por entre alguns livros, existe um "Os Lusíadas" em chinês, mas não encontramos nada sobre as viagens de Marco Polo. Quase todo o grande cânone da literatura ocidental se encontra traduzido em chinês, não sei se na totalidade. Na secção de literatura adolescente, encontro uma adaptação das obras de Ian Fleming protagonizado esse grande falcão do capitalismo que é James Bond. As capas são estlizadas em traço de anime, como se Bond fosse primo de Son Gokou e Tsubasa. Os únicos clientes da loja somos nós. Algures enquanto lá estamos, duas garotinhas entram e folheiam livros como para passar o tempo. De resto, caminham matronas, mas falando alto, rindo, obcecando nos ecrãs do telemóvel.


A caminho da paragem, atravessamos uma rua através de passagem subterrânea. Estas estão pejadas de pequenas lojas que vendem quinquilharia. São antros de luzes brilhantes e ofensivas, barulho, muito barulho e gente. Numa delas, à vista de todos, uma blusa com a estampa de Winnie the Pooh. Neste momento, esta imagem está proibida em toda a China. Mostrá-la ou, pior, usá-la é proibido. Dá prisão. O Chefe Xi zangou-se com este urso pelas constantes comparações físicas e portanto, baniu-o para uma terra sem leite e mel. No entanto, em Kashgar, uma irredutível aldeia não gaulesa resiste e arrisca a prisão. Não sei se por desconhecimento ou se por genuína rebeldia. Mas ele ali está: braços abertos, o amarelo torrado tão simpático quanto o sol no Seman, um criatura sem mal revestida do pior dos crimes. Minutos depois, quase volto a casa quando apanhamos o autocarro. É o 10. Onde cresci, era o número que me levava à escola e trazia todos os dias. 10 Ceira. Hoje, em Ceira, muita gente apanha-o também para ir ao Continente do Vale das Flores. Porque na minha terra, quase não há supermercados. Deixo a dica aos Chineses caso fiquem sem espaço para ajudar os uigures a montar os próprios negócios.



quinta-feira, outubro 03, 2019

Fachinação 4: Regresso a uma feira de gado


Aprende-se muito acerca de um país através da música que se escuta dentro dos carros. Um auto-rádio é uma afirmação pessoal. Ouço, logo sinto. Escuto, logo opino. As rádios funcionam normalmente sob o chicote do público: passam o que é mais popular. Duvidando que haja neste país uma Radar FM, presumo que existe um apertado programa estatal que circunscreve as hipóteses de álbuns à escolha. Enquanto balouço de um lado para o outro neste táxi, uma maviosa, envelhecida voz entoa em mandarim palavras que não entendo, baladas de arrancar lágrimas até às câmaras de vigilância. O condutor, arrancando-nos para zonas mais, digamos, alternativas, de Kashgar não liga muito e segue. O piano electrónico sobre o tom e enquanto dá uma súbita guinada para a esquerda, evitando por um triz dois garotos sobre uma acelera, que nem tomam conhecimento e é mais um dia em que somos uns jovens rebeldes que podíamos ter ido com os queixos à ladeira e não vamos. Uma rua esburacada atravessa algumas casas em adobe, o sol da manhã torna-as bem vermelhas e nalguns momentos, parecem sangue ocre. Como se esta parte da cidade não sendo central fosse na mesma uma artéria. Não vejo durante um percurso qualquer cara de olhos em bico. Aqui, moram os indesejados. Que é como quem diz, a etnia que o Governo quer esconder. É uma zona fértil e boa parte trabalha em campos verdes. Há sementeiras entrecortadas por um cemitério, como se a decomposição dos mortos adubasse e fertilizasse. O ciclo da vida. Apropriado, porque o principal objectivo da manhã é a feira de gado local, o que me traz logo memória de hilariantes episódios que vivi no Quirguistão. Prometeram-me que esta é ainda maior e que se realiza sempre ao Domingo. Há um dito na Ásia Central de que a população de Kashgar aumenta em cem mil habitantes todos os domingos. Tal deve-se não apenas a este evento mais de pecuária, mas também ao Grande Bazar da cidade, que visitaremos da parte da tarde. Dá para entender que muito da cultura Uigur se prende com a actividade comercial. É essa experiência humana que quero ver hoje, experimentar. Dentro de todas as condicionantes que já expliquei noutras crónicas.


Saímos das ruas estreitas e dos bairros para uma larga avenida. O taxista estaca e deixa-nos à entrada do recinto da feira. A familiaridade das barreiras anti-atentados recebe-nos com amor. Enquanto espero que o grupo se reúna, já carrinhas de caixa aberta vão dando entrada. Trazem bichos atados e com os olhos bem esbugalhados, balindo ou mugindo conforme a espécie, num cenário que faria os apoiantes do PAN rasgar vestes e lançar-se em tiradas no Twitter, porque se tentassem manifestar-se por estas bandas, o único PAN seria o das bordoadas na cara. Nenhuma das cabeças de gado parece sofrer, apenas estão... meio inertes. Quando entramos, reparo que há várias caras ocidentais aqui. Pelos vistos, é uma atracção turística. Antes de chegarmos à área comercial, uma zona de restauração forma-se em duas filas. Compõe-se por gente que faz comida tradicional em métodos tradicionais. A maior parte usando fornos de lenha, de barro ou metal. Tudo é cortado, misturado, cozinhado à nossa frente. Usam-se alguidares de plástico, facas afiadas, acima de tudo as próprias mãos. A improvisação de uma área onde cada se pode sentar em comezaina existe, com bancos corridos, mesas decrépitas e a sobra providenciada por longos panos coloridos, ténues. Os desenrascados chefs abrigam-se sob chapéus de praia, são dez da manhã mas há um calor abafado e vemos insectos em cima dos ingredientes que serão utilizados. O que não mata engorda. Vegetais e farinha, açúcar e carne, alguma fruta fresca, alguma fruta seca. Nalgumas bancas, animais mortos inteiros dependuram-se de longos ganchos de metal. Se eventualmente alguém pedir uma peça específica, o cozinheiro arroga-se de um cutelo e com dois ou três golpes desfaz a carcaça à frente do cliente, muitas vezes com a ajuda do mesmo e amigos, que funcionam um pouco como aquela multidão que se reúne em torno do funcionário camarário que de facto trabalha. Passo por uma onde, no chão, se alinham várias cabeças de carneiro que têm tanta vida quanto o coração da actriz Maria Vieira. Repousam em camas de lã e fazem-nos tomar contacto com o acto gráfico que é tirar a vida de um animal,. Recordo quando, criança e com metro e pouco, via familiares meus a matar um porco e ajudava no pouco que o pouco que eu era permitia. Sentia alguma pena do bicho, os guinchos incómodo, o espernear em pânico, o cheiro da certeza do último momento inchando as narinas daquele suíno rosa que empalidecia no golpe certeiro, quase artístico do meu avô. É preciso jeito para matar um animal em compaixão. O meu avô não detestava vê-los sofrer  e era misericordioso na rapidez da sua crueldade. O argumento vegetariano de que se soubessemos o quanto um animal sofre quando lhe terminam a vida não funciona comigo. Eu sei e cresci com isso. Mas também sei que a morte do porco nunca era em vão. Tudo se aproveitava. Olho para estas cabeças de carneiro e não penso em tofu. Apenas que, de alguma forma, uma ligação estranha uniu-os em vida a quem os matou. Que cumpriram uma função. E que no fundo, todos somos um bocado isso: uma função. Apenas uns são comidos. Outros são mastigados em cuspidos sem nunca serem verdadeiramente úteis. Só utilizados.


Um pouco a martelo, sou abordado por um jovial chinês. Fato de treino de marca, boné colorido, uma máquina fotográfica ao pescoço com uma daquelas lentes que podia protagonizar vídeos no Pornhub. O sorriso visa desarmar-me, mas mesmo estando há tão pouco tempo no país, a minha alma pertence a "The X-Files". Ser desconfiado faz parte de mim. "Good morning", num inglês de sotaque carregadíssimo. Correspondo. Se estou bem? Cá vou andando, amigo. É tão estranho ver ali alguém do Ocidente, ri-se ele, reparei logo. E eu digo que sim, não devem ter muitos visitantes do meu lado do mundo neste seu canto de planeta. Diz que também anda aqui a visitar, que é de Xangai. Outro turista então; e a pergunta que me faz a seguir podia ser de quem anda a passear. Se estou a gostar disto. Se tenho recomendações. O que irei visitar no resto da viagem. Mas não: no que ele está interessado é na minha opinião acerca do sistema de segurança de Kashgar. Questiona-me o que penso dele. A uns dez metros, mesmo atrás do meu interlocutor, uma senhora de meia idade, grossos óculos escuros, casaco apertado até ao pescoço, aponta-me um telemóvel. Estou a ser filmado. Por quem? Provavelmente polícias à paisana. Com alguma mordacidade, satisfaço-lhe a curiosidade com um "Very present". Ele gargalha um pouco e regressa "Nada como de onde vens, não é?" "Bem, entendo pouco de câmaras. Normalmente, quando me estão a filmar, normalmente pedem-me por favor" e lanço um olhar à pouco discreta voyeur. Desta vez não ri. E tomo eu a iniciativa "E tu, o que achas?" Não responde. Pega na máquina e começa a fotografar alguns dos comensais, afastando-se Olho em redor, esperando rápida acção em forma de algemas. Nada. Ainda não é hoje que vou conhecer melhor o que é viver, de facto na China.


Viramos à esquerda e numa gigantesca arena poeirenta, castanha, larga, animais de duas e de quatro patas misturam-se naturalmente. Vem gente de todas as aldeias num raio de cinquenta quilómetros trazendo ovelhas, carneiros, vacas, camelos, iaques, burros. Só não trazem suínos porque o Islamismo dos Uigur proíbe o contacto com tais seres. Os animais são atados a longas e horizontais barras de ferro, quando têm sorte. Quando não têm, fecham-nos num apertado redil onde se tornam numa mancha indistinta de pelo ou lã, as cabeças vindo à tona para respirar, apertando-se e tentando sair daquele volumoso rebanho. Encontram-se alguns olhares vazios, perdidos. De quem sabe o que os espera, de quem ignora. Estão divididos por tipos. As compras e trocas que se efectuam neste espaço dão-se na base do aperto de mão e do berro. Discutem e regateiam, apontam defeitos, exaltam de qualidades. Não procuram simplesmente um bom preço: faz parte, está-lhes no sangue. Saídos das suas mães, quiseram saber logo quanto custava a tesoura que lhes custou a placenta e levaram a mal quando não lhes fio vendida. As reses são verificadas, palpadas, analisadas. Várias vezes vejo-me obrigado a desviar quando um berro de "Bosh-bosh", me indica que alguém quer passar, habitualmente arrastando uma cabeça de gado. Estes gritos, por vezes, anunciam veículos, o que envolve um impacto bem maior caso escolhamos manter a nossa posição. Vou fotografando, sempre com atenção. Quando uma carrinha pára, vem sempre alguém ajudar a descarregar as nervosas criaturas. Passam de mão em mão até à segurança do solo. Por vezes, chegam atados em motas. Os modestos condutores usam como capacete equipamento de pedreiro. Quando alguém compra um bicho e por acaso não tem como transportá-lo, ou opta por carregá-lo em ombros, como se tivesse vencido uma partida desportiva; ou espera por transporte, pernas apertadas em trono da sua nova possessão, guita de corda enrolada no dedo. É um pouco como o encontro de Tinder mais estranho a que já assistiram. Tudo isto rodeado de buzinadelas e gritos, risadas largas, gestos secretos. Enquanto tiro fotografia a duas matronas sentadas em bancos de praia, bisbilhotando, comerciando entre os mais recentes cochichos, um velhote pedala numa bicicleta que leva no quadro uma ovelha. Classe. Na sua retirada, separa duas jovens que vêm de mão dada. Ambas vestem batas de médicas, envergando por baixo o uniforme oficial de sopeiras. Mas nas vestimentas que observo há uma exuberância de cores, principalmente entre as mulheres. Vermelhos carregados, púrpuras despudorados, amarelos sem vergonha. Contrastam com a timidez do homem rude rural que se cobre de flanela e aperta o chapéu nómada bem fundo na cabeça. Como se fossem eles os bichos mais selvagens de todo este espaço.


Afasto-me. Regresso por onde entrei. Algumas bancas vendem bugigangas e equipamento útil para quem trata de gado. Cordas, principalmente, não vá o negócio realizar-se e na altura se atinja a realização de que não há como prender a carga. Perto, um ferreiro aceita encomendas para os cascos dos bichos. E vejo, a pouca distância, uma longa fila de homens, confiando as suas barbas, trocando conversas vaporosas. A atendê-los, um barbeiro improvisado que, por alguns yuans, apara cabelo, aperfeiçoa decorações faciais. Sem que, por algumas vez, pareça saído de algum encontro de imitadores de rockabillies. No tempo em que observo, aplica zero vezes óleos para a barba. Zero. Deve ser um maluco. Algumas das pessoas do grupo - que, só para cumprir estereótipos, são mulheres - entregam-se às compras. Pegam em objectos cobiçam, comparam. Eu, que só estou ali para reter memórias e formar imagens, sento-me à sombra. Reparo na entrada de um homem alto, de fato coçado e ruço. Dois polícias que controlam os transeuntes cumprimentam-no. Estão sentados também, mas em cadeiras defronte de um edifício pequeno de dois andares. Exibe as insígnias policiais, bandeira chinesa evidente. Simboliza o poder local naquele lugar. Sim, amigos: é só para dizer que também estamos aqui. Conversam durante uns momentos, nos quais gesticulam em direcção à multidão. Então, o senhor tira de uma mochila uma câmara fotográfica, com o que parece ser um canhão acoplado. É uma gigantesca lente de longo alcance, perfeito para que alguém se refastele e possa fotografar objectos a longa distância; e quem diz objectos, diz também pessoas. Um dos oficiais encaminha-o para o interior do edifício e segundos depois, vejo-o sentadíssimo da vida no andar superior, fazendo girar aquele óculo em todo o redor. É um estilo de vigilância mais personalizado, a máquina, por uma vez, tem de facto uma alma. Nada vi nesta feita que me parecesse particularmente perigoso ou ofensivo para o estado chinês. Apenas gente que provavelmente acordou bem mais cedo do que eu para ganhar a vida de uma forma dura. Que não deve ter nada mais em mente do que simplesmente ter dinheiro para o dia seguinte ou pelo menos, ir amontoando até se sentir confortável na vida... dentro daquilo que é o conforto nesta zona do mundo. Aquela luneta é apenas outra mão, que afaga a cabeça dos cidadãos, que marca presença, que garante que o Grande Camarada não descansa nem dorme. Em casa ou na feira de gado, está lá. Para vos acompanhar, para nunca vos deixar cair. As histórias que ouviram são verdadeiras. História que vos contarei na próxima semana.


No caminho de regresso, não encontro o jovial chinês com quem tive aquele interessante diálogo. No entanto, continuo a ser filmado, desta vez por duas mulheres. Faço por ignorá-las. O Zé Luís aproxima-se e comenta comigo como ficou desapontado com esta visita. Bem, uma vez visitadas dez, qual é a novidade? Mas não é isso. No ano anterior, a dimensão era muito maior. Assim de cabeça, lembra ele, estavam pelo menos o dobro das pessoas. Não sabe o que se passou. Talvez o controlo tenha apertado. As regras mais numerosas. A Polícia mais desconfiada. Mas é um mistério.  A desilusão foi tão grande que ele ponderava retirar este ponto da próxima expedição que guiar até Kashgar. Enquanto caminho, vejo dois homens fazendo crepes de carne à unha. Num deles, uma vespa fica refém da massa e irá como proteína extra a quem quer que seja que calhe o brinde. Alguns minutos mais tarde, já no regresso ao centro de Kashgar, abrandamos num piquete policial. Mandam parar alguns carros, fazem-nos sair do caminho e convidando de maneira educada os condutores ao exterior, questionam e indagam. Nós passamos sem problemas, depois de uma olhada rápida. Há algo em comum entre os inquiridos: as feições mongóis. A tez queimada pelo sol, castanha. Os olhos ovais e tristes. Os mesmos casacos coçados, os mesmos chapéus quirguizes, o mesmo dialecto. São uigures. Em carros velhos, em carros banais. Nenhum sinal exterior do que quer que seja. Parados porque nasceram em desenho diferente. Suspeitos sem outro crime que não seja o da presunção da culpa. Na cara, a enfadonha resignação de quem reconhece o seu lugar na imensa engrenagem de uma máquina implacável. Dão provavelmente as mesmas respostas maquinais que já ofereceram em todas as outras ocasiões em que, numa quebra do seu tédio, a Polícia decidiu tratá-los como leprosos meliantes. Quando deixo o piquete bem para trás, ainda lá ficam. Quando escrevo estas palavras, ainda lá estão. Presos sem cordel. Como gado.