quinta-feira, dezembro 31, 2015

Cabimento



Já é costume chegar ao final do ano, desta volta que a terra efectua em torno do Sol, como se lhe prestasse vassalagem para continuar a funcionar, e esparramar em palavras fartas aquilo que pensei do meu ano. O que senti, o que fiz, o que atingi, o que ficou muito aquém do além imaginado. Isso tudo. São vários parágrafos, muita carga emocional, um armazém vasto de memórias e recordações. Para conseguir fazer justiça a tudo o que se sente em 365 dias, à matéria da alma que afinal transforma o Tempo em Vida, ao que preenche os espaços vazios da espera com flores e árvores e montanhas, O meu coração num braseiro é o que permite pintar telas, sem nunca esquecer paisagens. Este ano vai ser muito mais curto. Prometi viver 2015, mas parece que morri mais do que outra coisa. Se o ano anterior foi o atropelo de um camião desgovernado e sem aviso, este foi a tentativa de me levantar na estrada apenas para atravessar, por vontade e e decisão própria, uma passagem de nível com guarda, no voluntário desejo de ser trucidado e arrastado linha fora. 2014 foi o ano do acaso; em 2015, escrevi o meu próprio guião, numa daquelas obras que se arrastam até um ponto intolerável, e estão apenas no início. Falhei como ser humano, principalmente para comigo, acima de tudo. Abdiquei de uma das minhas maiores qualidades, a razão, e deixei-me levar pelo mais secreto dos meus trunfos, uma habilidade quase sobrenatural de transformar a minha emoção em dois universos em expansão contínua que inevitavelmente colapsam e deixam atrás de si uma cadeia de buracos negros, Guardo coisas boas de 2015, e mais do que se calhar vejo agora. Pequeno e grandes momentos, a certeza de amar e ser amado, mais do que uma vez, a certeza de escolher o que é certo no que mais magoa, a definitiva confirmação de que em forma humana, sou apenas uma pilha de feridas. Há demasiado nestes 365 dias, literal demasiado, tanta coisinha que neste metro e oitenta e seis só cabem as lascas do que sobra. Não falo mais, porque não quero e não deixo, porque não tenho mais que partilhar, porque vivi segredos transparentes, águas que passam e regressam no seu ciclo. Foi isto, fui eu, muita coisa, e o relato disso farei a quem tiver a coragem de segurar a minha cabeça no seu colo, fazendo dela uma almofada dos meus pensamentos de tortura.

Tudo o resto já leram. Meu ou das ficções pequeninas que aqui vos deixei. Se quiserem descobrir, releiam, e imaginem, e suspirem e partilhem. Se eu merecer. O meu 2015 foi a substância dos vossos momentos aqui. Se valeu de alguma coisa, não foram dias perdidos.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Barro à parede



Noites há em que acordo assim, e desconfio que nem dormia, e me lembro se alguma vez te conheci, ou simplesmente foste um dado adquirido. Deu-me sempre a ideia de que eras menos uma pessoa e mais uma entidade, daquelas que pairam sobre o mundo, semi-divinas ou mesmo divinas de todo, e que a certa altura se fartam dos cosmos e do etéreo, mergulhando na sujidade da condição humana para experimentar o que doer sem sangrar. De lá de cima, chamem-lhe o que quiserem, os olhos sem corpo observam-nos e pressentindo uma nova aventura com a qual podem sacudir o tédio, surgem então, escolhem e incorporam, e penso que foi assim que apareceste na minha vida. Nessas noites de meio caminho, onde nem fecho os olhos e nem os abro, apenas pressentindo as paredes do quarto como uma realidade, é assim que te interpreto. Como quem pousou os pés na minha vida, mas sempre voando, planando e só aterrando o suficiente para que sentisse na pele que foste real. Sei que o foste, ou desconfio, mas mesmo a minha memória se confunde quando te tento posicionar nos meus dias, nos que passaram, e com ironias de paradoxo, só tem a certeza de ter ver num futuro próximo.

Depois levanto-me da cama e não tenho outro remédio senão convencer-me que estou desperto. A varanda é uma caixa-forte de solidão, e quando o vento sopra, a esperança é de que te desempoeire das avenidas do meu cérebro, e a desesperança é que realmente o faça, e tenha de reviver a realidade de nós, do que podia ter sido e do ligeiro cheiro a alfazema que deixavas nos meus lençóis. Seria de olhos bem abertos, perder-me em sonhos das tuas palavras, em conversas longas e cheias de curvas, rectas mas retorcidas nas intenções, de um sumo chamado abraço, de uma pausa entre o teu joelho e a tua cintura, de um número inconcebível de algoritmos e variáveis que ocorrem nos segredos de duas bocas. Quando me tento forçar a retratar o que era, como eras, quem eras, só me ocorre o abstracto, e era mesmo isso, uma força sem presença, uma tempestade de destruição maciça, uma contradição de benesse, de paz, de realização, de esperança, que deixa no rasto todo o entulho e leva consigo as almas dos corpos, como se não quisesse saber da carne ou da matéria, e ambos sabemos que isso é mentira, que noutras alturas fomos essa carne, essa matéria, e matéria mais do que suficiente para conceber num mundo real encarnações de nós mesmos em plenipotência feliz.

Olho o horizonte e não sopra uma aragem. Hoje, vais continuar um pouco enterrada e posso estar na varanda, ver os pináculos breus ao longe, montanhas da nossa memória e guardar-me para sofrer contigo mais tarde. Sei que voltas, regressas sempre e eu aqui estou, sem esperar, mas desesperando por estar à tua espera. Por querer articular um mundo de teias que me envolvem e produzir apenas farrapos.

Rasgos sem rasgo.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Perguntas e respostas



Era eu criança e ia com o meu avô salpicar-me de verde. Quem nasce na aldeia, não foge ao tractor e quase todos os dias, pelo menos aqueles em que não tinha trabalho em casa, era pegado por cabelos brancos que me depositavam numa caixa aberta e ouvia "Os trabalhos são para mais tarde", e lá íamos. Lembro-me das várias camisas de fazenda que usava, longe da moda, perto do pragmatismo, como eram todas diferentes à ida e irmanadas no mesmo castanho quando regressávamos. Os meus braços, que nessa altura eram apenas arrancas, pouco faziam. O avô levava-me porque gostava da companhia, porque sempre quisera ser professor e nunca tivera alunos, e a sorte, ou os genes, se forem científicos, deram-lhe um neto com línguas de perguntador. Eu queria saber tudo, e cruzava-me por vezes com a ideia de que os meus pais não me deixavam passar tempos com os meus avós: apenas faziam uma pausa da minha incessante metralhadora com dois lábios. Ao início, o meu pai achava mais piada do que a minha mãe, mas rapidamente ambos se uniram na sua macambúzia vontade de me ver calado e em silêncio. A televisão não me calava, nem sequer a comida, e lembro-me de ter ficado de castigo por falar enquanto comia. O castigo fora o silêncio, a que me obrigaram jurando que enviariam a comida para o lixo e que os meninos de África, que tantas vezes via cobertos de moscas no jornal, chorariam muito e a culpa era minha. Aí calava-me.

O meu avô nunca me calou. Era o que ele mais adorava, ouvir-me, e até evitava tantas vezes usar a moto-serra para cortar lenha só pelo barulho. Abria todos com o machado, balançando um corpo maciço, um carvalho perene e velho, mas resistente, e escutava todas as questões. Porquê disto e daquilo, o que é aquela fruta, esta folha, a árvore que vimos no caminho, e também porque é que a avó ri tão pouco, e essa resposta tive de esperar ainda uns anos, pois não é aos oito anos que nos contam histórias de desastres de automóvel, e percebi porque é que tinha tão poucos tios na família. Mas tudo o que era o mundo, ele respondia. Pinheiros ciprestes, plátanos; pêssegos, laranjas, nêsperas; é granito, é xisto, pode ser calcita. O mundo era para ele um desfile, só de modelos, e era como se, qual estilista, ele conhecesse de cor as forras dos vestidos. Um dia, saímos mais cedo e fomos de carro, não de tractor, e o avô levou-me ao topo de um monte. "Chama-se Trono do Mundo", disse-me", e contou-me o meu pai, e até o pai do meu pai, que aqui se sentavam os reis quando visitavam a zona. Vinham a pé, nunca de cavalo, e apenas com quem mais confiavam, sentavam-se e contemplavam. Ficavam como nós, sabes, à mercê do esplendor, à mercê da beleza, com o peito e o coração arrancados pelo que vês daqui, e não é especial por ser de um só homem, mas único porque pertence a todos". Olhei e senti-me rei, não daquele pedaço de terreno, mas de qualquer outra coisa superior. Disse "É granito", e sentei-me, e aquele professor que sempre trabalhou sem salário no corpo do meu avô ficou satisfeito e puxou-lhe os cantos da boca num sorriso que valia mais do que qualquer "Excelente" a vermelho". Gostávamos os dois daquilo.

Quando o avô morreu, felizmente ainda anos suficientes depois para te ter conhecido, prometi-lhe que te levaria numa aula permanente pelos cantos do Reino. Morrendo aos poucos, mas vivendo mais do que muitos, o avô deixara-me um documento mais importante do que qualquer testamento, e também a última fotografia que conhecemos da avó, e ela está a sorrir, acho que o fez só para mim que era o neto de quem ela mais gostava, por ter sido o primeiro. Com a fotografia, a folha trazia um retrato ainda maior do futuro que ele me pedia. Chamava-se "Nós e as serras". Desatei-me a rir, e depois a chorar. Os nós apertados podíamos ser eu e ele, ou nós, lado a lado, na reinação do solo. A lista era enorme, todas as serras que ele visitara em vida, comigo ou ainda antes de eu ser um montinho no mundo, e pedia-me agora que como ele me dera tudo, eu não podia ser menos. Escolhera-te, e a escolha era tudo o que podíamos ser, uma escolha somos nós e o que desejamos e podemos ser e projectamos, e em ti eu via-me na perfeição, muito mais distintamente do que alguma vez me vira ao espelho. Perguntei-te se querias ir, e tu pensaste, nem respondeste e só na recolha de um abraço a resposta surgiu, e eu sabia qual era. O avô continuaria a viver e a ensinar-me, mas agora numa outra sala de aula, com outra professora. Éramos os dois alunos, a bem dizer. Eu fora do avô, tu contavas-me histórias sobre a tua irmã mais nova, e do quanto aprendias com ela, e das férias com o teu pai perdidas na montanha, e invejava-te. Com o desafio do avô, a inveja acabara e íamos partilhar um reino. Não era herança, era projecto, e nas tuas mãos, como várias vezes nas do avô, encontrei todas as respostas que alguma vez desejei.

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Não ser eu



Era como se o mundo fosse a redoma dos dias, ali, visto daquele ponto. Lá em baixo, crespo e agressivo, o mar percussão pontilhava os rochedos no sopé do cabo, e eu acabara ali três dias de caminhada, e para quê? Para andar, só. Partir de um ponto, não ter sequer um fim e simplesmente despir-me de ideias e de consciência, abandonando o meu corpo aos solavancos do acaso. Nunca fora assim, nunca mesmo: era, sou, serei até quando os meus pés se cansarem de fincar a rocha, o homem do plano e do objectivo. Se saio de casa, é porque existe onde estar; se levanto, não é só para esticar a coluna; se me deito, estou cansado; e se falo, nunca é para outra coisa que não exprimir o inevitável. Tudo em mim tem um motivo e um esquema onde juntas se ligam a culatras, onde as vírgulas são apenas pequeninas pausas para grandíssimas respirações de movimentos longos e efectivos. Há quem viva: eu funciono, e um dia, concluí-me disfuncional.

Nem foi por qualquer choque ou súbito horror, mas num simples esgar pela janela do autocarro, que nem costumo apanhar, vi um homem aninhado no passeio, e estava a chover, e o autocarro parou, ali, trânsito diabólico antes da grande rotunda. Vi o homem primeiro sozinho, depois com público e queriam arrancá-lo, mas ele nada,. ali estático, e vestido de cinzento, parecia até fundir-se com as pedras do passeio. Um pateta, pensei para mim, e conclui que estávamos apenas a assistir a um espectáculo grátis de mais um maluco. Mas nem se mexia, nem falava, nem gritava, nem endoidecia. Estava, apenas, como se o corpo tivesse ficado e tudo o mais que anima o que é humano fosse uma lenda, um mito, uma história que se conta à noite. Não era doença, não era nada, ou era tudo: alguém imóvel num simples acto de incapacidade, de nem se consegur mexer, e aquela contorção dos membros junto ao tronco, a cabeça que quase desaparecia para dentro da camisola amarrotada. O mundo esmagara-o, assim. Num golpe de rasgo, paralisara-o, sem soluções, sem nada que não fosse entregar-se à infância do movimento, ao feto que não vivera ainda e assim parado, assim a pedir talvez a misericórdia da inconsciência, ficara no passeio.

Pensei que também ele um dia funcionara e e olhara para agendas e tabelas e fora de X a Z porque Y ficava no meio, e que talvez num destes dias, também eu, um indivíduo completo de corpo, ficasse assim sem mente e sem futuro nos olhos, e abandonando tudo o que fazia de mim funcional, simplesmente me desligasse e deixasse que o meu contorno no passeio fosse a minha herança para a paisagem dos dias. Fiz por mim o que se deve fazer: dar-me oportunidades, porque só em mim existe esse poder. Escolhi tudo invertido, e ao contrário então, deixei-me estar numa aldeia, nas linhas de um mapa, na borda de um espaço imaginado que de real tinha apenas aquilo que lhe desconhecia. Comecei junto de uma árvore, acabei numa falésia e na ironia das escolhas que se fazem às escondidas do hábito, parei numa falésia que não queria abandonar. Cobrindo o céu cinzento e arejados por ventos poentes, por recados do verde que cobria as minhas sapatilhas molhadas, projectados sobre mim como um impermeável que molha, mas protege e seca lágrimas que ainda nem tinha chorado, quis desistir de funcionar e entregar-me simplesmente à existência. Quis esquecer a minha vida, o que fiz, o que sonhei e perdi, e simplesmente desaparecer naquele pequenino espaço das coisas imensamente pequenas na sua simples grandeza. Quis ali também chorar o vento e as bátegas do mar projectadas, e quis se fosse possível, só existir naquela redoma, esquecer o passado, ignorar até que o tive e simplesmente ser, sem mais nada, sem peso, sem passado, só transmutar-me no que não tem tem memória e não recorda.

Se hoje lá voltarem, que isto foi há dez anos, encontram-me lá. Algo de parecido comigo, pelo menos. Já fui outra substância, já carreguei outra bola de negrume. Hoje, a única coisa que carrego é a leveza dos suspiros.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Fachada



Há muito tempo atrás éramos quatro garotos, e depois virámos quatro gandulos, cheios de si, cheios de tudo, vazios de juízo, e quando crescemos, fomos durante alguns anos quatro gajos a fingir que sabiam o que fazer, quando no mais básico que a vida tem iam inventando trezentos esquemas, a maior parte para poderem dizer que sim, que sabiam o que era ser adulto, quando na verdade ainda estavam bem na infância da maturidade. Hoje, somos só três, e ainda não consegui bem olhar para o meu carro a pensar que vai estar um lugar vazio. Nunca desconfiei que o Tiago cumprisse o que sempre prometeu. Achámos sempre que no seu estilo habitual, eram papéis para a rua, confettis de uma festa deprimente que ele montara, entrada exclusiva para os que tinham o azar de orbitarem em torno daquele carisma que o levou a chumbar três anos seguidos, e mesmo assim não ficar retido nenhum ano. Aldrabices, petas, mas acima de tudo uma capacidade quase sobrenatural de transformar um evento comum num desígnio divino e endovélico, num obstáculo que nenhum ser humano conseguiria ultrapassar e justificava assim clemência das altas autoridades. É estranho como, sentado aqui com um caixão aberto e o Tiago saído daquela que, desejava eu, fosse a mentira mais evidente, a única clemência que ele nunca alcançou foi a sua própria.

Tiago, o super homem, o devorador de noites, o criador de dias que pareciam saídos de filmes e invenções, daquelas histórias que se contam em bares e são incríveis, inacreditáveis, e os homens de mulheres de bom senso seriam acusados de estupidez caso acreditassem, mas também de idiotas se não acreditassem, porque pelas mesas, pelas paredes, sobre canecas de cerveja e copos de whisky, bastava que o nome "Tiago Ferraz" se propagasse num sopro e num bafo etílico e de súbito, o mundo virava ao contrário e sim, contar que se vira um indivíduo meio baixote, mas encorpado, a usar os cornos de um touro para dar piruetas já não parecia tão bizarro assim. "Tiago Ferraz" era a senha do enigma, a solução da pergunta da esfinge, e ao mesmo, em si mesmo, um mistério de supimpa enormidão. Se calhar, a ilusão era nossa, que o Tiago nunca quis iludir alguém ou esconder-se do mundo: de duas em duas semanas, dizia "Um dia destes, faço-o" e depois de lhe darmos palmadas nos ombros, sorríamos e pensávamos que este homem estava a ser doido. Porque uma coisa é vermos alguém macambúzio pelos cantos, a apagar-se, a entregar-se ao ar para que o sorvesse de uma vez e assim pudesse inventar-se como sombra branca. Mas nunca, ele era a alma da festa, era a corda que puxa o motor de arranque e se possível fosse, o carro vassoura que, estando os outros queimar os últimos vapores de combustível, ainda seguia em rally com a multidão. Há pessoas que são a alma da festa: na sua ânsia gulosa de tratar a vida como um banquete de rodízio, o Tiago era a alma do mundo, e como podemos acreditar quando a alma do mundo nos diz "Um dia destes, acontece, vão ver"? Não podemos, mas ali, à minha frente, à nossa frente, tornámo-nos três em vez de quatro.

Eu era um, os restantes nem interessam porque íamos a reboque. Eu conhecia-o há mais tempo, porque crescemos na mesma rua, e só quando acordei para as coisas importantes da vida, como as pessoas, é que percebi que o Tiago tinha uma vida paralela, num túnel que se afastava da superfície, algures longe de toda esta azáfama de homem de todos. Uma vez, levou-me ao cabo da Roca. O vento cuspia-nos, e nem assim ele se demovia, bem apertava o casaco e eu, encolhafado, apenas o olhava, perguntando-me o que raio via ele naquele promontório ocidental, a cauda ou o nariz da Europa, e num repente o Tiago abriu os braços, e pensei que ia mesmo voar, mas não voou. Inspirou fundo e foi como se uma epifania lhe empurrasse o sangue para os orifícios, e ele se pudesse desfazer ali em hemoglobina, mas não. Puxou a minha mão e apertou-ma. Durante uns segundos, deixou-se estar, assim imóvel, assim a sentir-me, e disse "Ela é a tua. Não a deixes, e nem te enganes", e percebi que estava a falar de ti, sabes, mesmo que nessa altura eu não soubesse o quanto queria ficar contigo, e o quanto o cabo da Roca, esse promontório do Ocidente, seria o local onde encontraria o meu absoluto Norte, segurando a tua mão com aquela que o Tiago apertava. "Sabes, continuou, eu não pertenço aqui, e daqui a cinco anos sumo, e não me vês. Não te estragarei o Cabo da Roca, não te preocupes, vou para outro lado", e lá estava ele novamente com aquela conversa em que nunca acreditámos. Na nossa cabeça,, só existia o Tiago das polkas em cima da mesa, das cantigas em plena explosão da voz, das ruas estreitas que se tornavam praças de fandangos e arenas do riso. Se o Tiago não era feliz, quem podia ser?

Mas ele sempre nos avisou, sempre. Que a vida era uma festa, mas num canto, bebendo um absinto negro, havia alguém que se sumia a cada grito, a cada passo, a cada instância em que crescíamos e nos tornávamos mais leves, abandonando tudo. O Tiago era um mártir, e a verdade é que cedo deve ter entendido isso, que por mais que lutasse, nunca conseguiria deixar o seu outro para trás, e que aquelas festas foram simplesmente a sua tentativa de nos dar a vida onde só existia, lenta e imparável, como ponteiros de um relógio que vai sumindo os seus minutos, a morte se assumiu corpórea à nossa frente. Aquele não foi o verdadeiro fim do Tiago: durante os anos seguintes, viemos a descobrir mais façanhas, mais aventuras e vários Tiagos, até: um de 15 dias na Tailândia, outro de dois meses na Islândia e até um que, fugindo de tudo, plantou um pinhal numa área de três hectares na zona de Almeida. Quando chegar a altura, montaremos lá um piquenique, com tudo a que o Tiago tivera direito. Excepto um cabo. Aquele cabo. De qualquer forma, ele já levantou voo, não sei para onde penso sempre, quando um vento mais forte me leva o guarda-chuva em dias de Inverno, que é apenas ele a ser o Tiago, e que toda a rua é uma imensa área onde me puxa para mais uma partida, mais uma brincadeira, mais uma voltinha.

Mas eu nunca acreditei nele, por isso que sei eu de ventanias?

sexta-feira, novembro 27, 2015

Colectâneas 2



Explica-me porque é que a tua cara é a razão pela qual eu desejo que o mundo continue a rodar em torno do seu eixo.

Já alguma vez reparaste como o sol tem vergonha de não providenciar tanta vida quanto tu?


Quando penso em ti, sabe-lo? Sente-lo? Criam-se tempestades eléctricas dentro do teu cérebro? Gostava de saber se o caminho que vai do meu coração ao teu te é perceptível, se quando a tua falta me faz pesar três toneladas mais, também te pesa e te dói, se nos teus dias olhas para a parte inferior do Facebook e choras um bocadinho sem deitar lágrimas porque o nome não está, tal como eu, se também te custa o final da tarde quando a minha voz não te chega e todos os outros dias em que eu me aninhava na tua mão e na tua bochecha e agora imagino-te assim encaixada em mim como quem sonha e vê tudo. Gostava, Mas ter o que se gosta é uma aventura bem diferente.


Vale o que vale. Sem ti, vale menos. Não vale de muito. Montes e vales entre a minha vontade e o teu céu da boca. Vale tudo, até, mas sem valer grande coisa. Não valeu, e mandamos isto tudo abaixo. Que dizes? Não me vale de muito o pedido, mas lá está: vale o que vale. Ainda assim, vales-me mesmo quando não vale, e quebro as regras, e na tua imagem, imagino o que a vida pode ser, quando a minha vale, mas sem valer-me de muito.

Há quanto tempo não digo que te quero, valentemente?


A tua voz escapa-se da prisão da almofada pelo meu ouvido encostado, desbrava o meio caminho entre o sonho e a vigília, cruza-se com tudo o resto que me aflige e antes de se esgueirar pela clarabóia em forma de orelha, deixa um recado: estou mas não estou. Não posso, mas quero. Não devo, mas é como se fizesse. Não esqueças; ou não, mente-te uma e outra vez até que soe a verdade. A sério. Voas e novamente, a tua voz escapa-se da prisão da almofada...


Ontem flutuámos de mão dada na parte de trás do Sol. Não sei o que vimos, porque só fechei os olhos para sentir o teu sangue por debaixo da minha pele. Nem sei se lá estavas. Para mim, sim, e o que sonho e penso, normalmente, é aquilo que existe no momento. Se todos os momentos fossem tu, fossem a tua mão na minha, fossem o que existe para lá do sol, então abriria os olhos e e abraçava-te assim, sem te tocar. Não precisava de mais, nem sequer de flutuar. Podíamos estar simplesmente de pés bem assentes na terra, mas a mente fica bem para lá das estrelas.

terça-feira, novembro 17, 2015

O que é verdade



Lá porque vos vos conto isto, não pensem que é verdade. Melhor, assumam que é, mas não assumam que eu assumo, porque senão sumo da vossa presença e nada conto. Aconteceu, mas quem teceu, não conto. Porque não sei. Quando os pés escorregam para as sapatilhas de caminhada, em volta higiénica por outro lugar que não eu, as estradas tornam-se borracha de apagar, mas nunca até agora se haviam tornado num livro que escrevo enquanto caminho. Desta vez deu-se, e o pior é que não dá para devolver. Caminhar tem destes perigos: uma vez saídos do conforto e do conhecido, entramos numa zona onde tudo pode acontecer, por muito a banalidade dos dias seja certa, e a previsibilidade da vida nos seja uma garantia de 2 anos, com a eternidade da certeza. Quando as pernas se decidem a contar uma história, o corpo segue, a cabeça simplesmente pára, porque não é com ela a narrativa.

Ora, tanta volta, e mesmo que o percurso seja circular, pelo curso desta história ainda não vos levei e agora é que vai ser. Não sei se conhecem o Vale de Embolo. É uma pequenina povoação que se sente orgulhosa pelo facto de lhe chamar povoação. Quando montes de pedras formam rectângulos, a convenção exige que lhes chamemos casas, e eu não sou a convenção, mas a minha mãe ensinou-me a, pelo menos, respeitar o mundo e as pessoas e as coisas, e a minha mãe não está aqui, por respeito à morte e ao seu poder infinito, mas se em espírito já me olhar com carinho, e reprovação, decerto ficará satisfeita, em parte, por vos apresentar de embalo Vale de Embolo como um fantástico e típico local, daqueles onde se está e se convive, e até nem apetece sair. Imaginem Vale de Embolo assim, porque, vá lá, de que serve a realidade? È um estorvo, e se vos conto isto, se o podem imaginar e não ver, mais vale que imaginem em estilo. Vale de Embolo, património da Humanidade, igreja de magnífica e onerosa ruína, ruas escavacadas em homenagem aos Antigos. Era assim, e fora neste pedaço esplendoroso da nossa História civilizacional que decidi parar para beber uns goles de água. Passeio-me sozinho, habitualmente, e a companhia da música é suficiente, por hábito, mas desidratante por esforço. Engatei-me numa laje de pedra, que fazia as vezes de banco junto à igreja. Vale de Embolo, no coração do Caramulo, fora ideia de um grupo de camponeses e pastores, fartos de viajar, e que se decidiram por armar um povoado pela simples razão de estarem cansados. Naquele momento, consegui ter empatia por aquelas simples gentes, embora me tenha perguntado se, nos horrores do Inverno beirão, pelo menos três ou quatro gerações não tenham questionado a localização.

Como turista, estava aprovadíssimo: a laje de pedra servia ao mesmo tempo de miradouro, e lá ao fundo, numa linha do horizonte desenhada por uma mão tremelicante, a neblina formava um lençol, enrugado e enxovalhado, e por isso mesmo natural como o mundo, e todas as manhãs que dele sopram. As minhas costas tomaram a parede da igreja como suas, e pude, por fim, respirar em pausas, massajar as pernas, sentir os pés levitar. Vi então, a surgir por detrás de uma casa, um braço peludo. Hirsuto e musculado, apertava a pedra como se disso dependesse o sangue que lhe corria nas veias. Durante alguns segundos, arrancou pedaços de granito, e neste ritmo caíram também pêlos do braço, e diminuíram músculos, e o braço, que antes parecera uma coluna de templo romano, era agora como que uma lança de um soldado romano, fino e frágil e branco, um pouco como me sentia naquele momento. Não se avistava vivalma na rua, eu era a única testemunha e lembrei-me, dois quilómetros antes de me ter cruzado com uma palavra que indicava uma direcção, e essa direcção, na altura cómica, enfeitara-se festivamente de horror: a cova do Lobo. Eu sou da aldeia, sim, mas de uma aldeia que cheiro bem a monóxido de carbono da cidade, e já os meus avós me contavam histórias daquelas, mas era só um braço, e que estava a ver eu, pensei, senão uma alucinação da hipoxia? Mil metros de altitude, a respiração torna-se turva, mas não o suficiente para confundir o que seja com um par de mandíbulas que espreitaram por detrás da parede, pontiagudas e assertivas, mas em simultâneo a minguar e assumindo camaleónicas a forma humana dos lábios.

Preparei-me para tudo, fosse o que fosse tudo, ali em ermos solitários. Com lentidão e calma, arrumei a água e preparava-me para assumir a minha masculinidade vertical e partir para expô-la ao resto da montanha, quando a lincatropa visão se apresentou total, ou melhor, não se apresentou de todo: por detrás da casa, surgiu uma adolescente com os seus 14 anos, nua como só a montanha se costuma apresentar, e olhando para mim como quem se assusta com as frinchas do vento à noite. Aqueles olhos negros que me fitavam, meio incomodados e meio incómodos, foram o que me convenceu de tudo. Podia explicar-me os braços e os dentes e as lupinas feições, mas aquele olhar é de quem guarda segredos de betume em cofres de betão. Mesmo na fragilidade de um corpo, as pupilas podem ser como socos, e de momento, estava a ser esmurrado sem piedade. No entanto, tomei conta de mim, num pigarreio, e olhando em redor, vi um lençol estendido numa casa vizinha. Quando ela o tomou da minha mão, respirou um pouco melhor e eu observei então nódoas negras que podiam ser de várias origens, mas eram todas nas virilhas, três ou quatro, com a forma de mãos, e percebi que por muito que te transformes e mudes, certas coisas permanecem. Ela percebeu, e mesmo que não se tentando justificar, agarrou-me com força o pulso e puxou-me a mão para o cabelo. Farrapos colados, peganhentos, vermelhos de óxido: era sangue. "Nunca mais", aliviou então a alma, e não era um motivo, mas aquela solidão de monte era outra realidade afastada, sem protecção, sem ninguém a quem prestar contas, e quando tudo aperta, sermos outros é a sobrevivência possível.

Não me quis esforçar para perceber o que para mim seria ininteligível, mas afaguei-lhe cara. e mesmo humana, encolheu-se canina e pela primeira vez nalgum tempo, sentiu algo mais do que a selva e a floresta e o distante. Vim-me embora, preso por uma trela aos seus olhos até que me afastei da aldeia e pensei no que vira, no que sentira e no que pode ser verdade ou mentira. Mas a realidade, quando estás longe do topo do nenhures, é sempre uma percepção.


sexta-feira, novembro 13, 2015

Presença



É tão certo como um metrónomo: ao dia 5 de cada mês, entro neste restaurante, arrastando chuva ou fazendo sombra à luz do sol, e numa floresta de odores, caris e especiarias de ementa indiana, procuro a mesma cadeira que já me conhece. Sento-me e guardo para mim uma hora de tempo que não existe no relógio. Eu sei que os minutos se apagam, mas não estou no presente, apenas algures para trás da cadeira e da porta e até da própria cidade. Volto a ti. Não me lembro de agora de nos termos conhecido, e isso significa que talvez tenhamos sabido um do outro durante toda a vida, que uma vez postos no mundo, o ar foi a primeira memória que inspirámos, e algures entre as moléculas, como espaços onde se habita sem corpo, estava eu e estavas tu. Recordo-me, e recordar é dar movimento ao coração, segundo os gregos, de me sorrires pela primeira vez, e de tudo o que desfilou desde então, de como pode ser mais perigosa uma fila de dentes que convida a mãos agarradas do que um pelotão de fuzilamento alinhado, com a nossa cabeça na mira das armas. A tua imagem consegue, na simples virtude de ser indelével, tornar-te presente passado todo este tempo, e ver à minha frente, e não dentro da minha mente, um momento há quinze anos, uma simples troca de opiniões sobre um livro de Borges entre dois estranhos num banco de jardim. Era de filme, nas cenas seguintes, a cadência certa do hábito fez-nos trocar muito mais opiniões, voltando ao banco como  se de um duche quente se tratasse, nas folhas e nas árvores, no vento e no sol. Eu e tu como constante do solo, pés que afagam a terra e avivam o inanimado, transformam lugares em confortáveis corpos onde conversas se espraiam e olhares são  feitos ganchos.

Um dia disseste "jà alguma vez experimentaste indiano e livros", e nunca combinara nada de tão exótico, aliás eu era um daqueles homens maçã, que na dúvida entre que fruta comer escolhe a mais banal e nem nunca pensar comer diospiros ou romãs ou fisális, é sempre mação ou pêra. Tu, a evidência de uma fisális mulher, puxavas-me a ser outro, e aceitei o convite porque me podias levar até às selvas indonésias. Ouvira falar de gente que hipnotiza com os olhos, mas quando abrias a boca, não tinha outra hipótese senão ser vidro entre as tuas palavras, não que estilhaçasse, mas sim transparente, pois nessa altura podias ver exactamente quem era¨. A tua pergunta amarrou-me e almoçámos nesse dia, rindo bastante, reparámos pela primeira vez que nos tínhamos tocado, e que as palavras podem arrepiar-te a epiderme mesmo que sejam mera invocação do desconhecido em sons perceptíveis; e foi nesse momento que se constatou o medo que existia nessa simples iniciativa, como se fôssemos diáfanos, talvez até imagens e hologramas, projecções de vontades e anseios, da ideia de gente que não pode existir. Mas o mundo é tão grande que se quisermos desenhar alguém no quadro negro da hipótese, é bem provável que algures um giz lhe tenha dado pó e traço. Decidi não te tocar, e tu na mesma, sem dizermos um ao outro, e a partir desse 5 de Janeiro, cada dia 5 cinco era de almoçar no restaurante. Começou com palavras, mas à sexta ou sétima refeição, o silêncio era um embalo e já nem sabia o que comia, pedia sempre o número 1 da carta, e ficava uma hora apenas a olhar-te e a existir na tua cara. Sabia o teu nome, mas eras tão mais do que letras e ordem. Nos meus dias, tornaras-te na razão pela qual, de manhã, te convences de que a verticalidade do teu corpo não é uma dor, e que os zumbidos eléctricos que te alimentam o pensamento são não um enxame, mas a luz da respiração.

Parou tudo um dia, e porque não apareceste. Não o entendi, mas se surgiras sem explicação mal te apresentando, existindo apenas num banco de jardim como se na minha vida não tivesse um único motivo para justificar pegadas e o meu tempo neste planeta e agora pudesse fazê-lo. Nunca me refiz de que prescindisses de mim como razão, e era isso que mais me matava, não me sentir em ti. Era como se eu estivesse a viver numa dimensão paralela, onde desejava com braseiro nos lábios, e me podia até desfazer só para te ter à minha frente. Sem qualquer outro rumo, não consegui impedir-me de ser como Vasco da Gama e aportar nas Índias, de nos trazer, a mim em corpo e a ti em ilusão, de me sentar à mesa e lendo sempre um livro diferente, memoriar apenas. Pergunto sempre se já chegou alguém, e há dois anos que a resposta é não, mas guardam-me sempre este luar, nunca se deve desperdiçar um cliente fixo e os indianos percebem bastante de Matemática normalmente, disseste-me tu uma vez. Hoje leio Wodehouse porque não quero que a minha cara seja fronha de almofada, e pedi desta vez o número 3, nem sei o que é, mas assim como assim, davas sabor a tudo e agora tudo me sabe ao mesmo.

O ar muda atrás de mim, ouçou-o e deve ser a jovem de nalini na testa, que acho nem ser dela, que me veio servir há pouco. Desvio-me para o lado, dando-lhe paisagem, mas um pano tapa-me a visão e deixo cair o livro, páginas que em bloco se protegem, e alguém o apanha e me recoloca no colo.  O pano desliza e desaparece, e a minha cara pressente pele e calor, algum suor, tremores e espasmos nos músculos, uma ansiedade, medo. Toco nas mãos e mais pele, uma face, inclina-se e cola-se à minha. Uma voz que me cresce no coração anuncia "São páginas, mas podes ler sem luz, aliás até é melhor", e quero perguntar-lhe tanta coisa, e no sofrimento encontro o valor da ignorância, ou pelo menos de adiar a iluminação, e se calhar é isso que ela me está a pedir, escuridão, e nem quero ver quem conheço de cor, apenas ser um prolongamento do seu mundo, e o valor seguro das terminações nervosas. Por mim, ficava ali até todos os relógios terem passado de validade, tornando-se obsoletos.

Mas estou a enganar-vos, pois quero beijá-la desde o nosso primeiro livro.


quinta-feira, novembro 05, 2015

Oniris



Há muitas noites que não sonhava, como se divagar nas imaginações do que não se conhece em nós fosse morte, ou pelo menos coma. Sonhar é perguntar a nós mesmos as respostas que não ouvimos, mas reverberam em corpos com a forma de sino, badalando a meia-noite como se a vida se escondesse em órbitas simples, e não no eixo de cada esfera. Por isso andava perdido, sem respostas ou sequer sem pontos de interrogação suficientes para encerrar a dúvida se movimento perpétuo que gira de todas as vezes que penso na fraqueza que me forma, me molda, me identifica. Mas ontem, entre um voo e uma aterragem, um sonho fez check-in. Picou bilhete, recolheu bagagem e algures na cortina do palco das minhas noites, projectou-se e qual truque de magia, revelou-se em mistério, pairou à procura que lhe desse interpretação.

Sonhei ontem que era um balde de legos com olhos. A mão desencarnada do que não agarro exigiu-me os cabelos e despejou-me numa carpete: espalhei-me ao comprido e ao largo, em várias peças e dramas, actos e arcos, e por ali fiquei sem que a mão me juntasse de novo. No espaço entre tudo, um uivo gelou o ar e de repente, fiquei ainda mais afastado do que sou. Uma névoa verde é fumaça e as peças eram bocadinhos de ti, e quando as chamaste, foram comer à tua mão, em monte e magote, e quiseram sair de mim para se instalarem simplesmente nos teus dedos, no teu calor e na tua essência. Não me zanguei. Estar em ti é uma maneira mais próxima de me juntar a mim próprio. Por isso foi um sonho.

Acordei e os meus contornos crepitavam quase audíveis. A cama era a tua palma, e sentia no colhcão sangue nas veias, calor de coração, batida que se força a si própria. Os rumores da tua pele são factos nos meus lábios

terça-feira, outubro 27, 2015

A caixa



Era o tipo da caixa, nem sequer lhe chamávamos homem, porque a caixa nem parecia séria e ser homem é diferente de ser tipo, tipo é mais galhofeiro, informal e mais macho do que homem. Ele gostava de ser macho, e quando lhe chamávamos "o tipo", até gingava as ancas, mesmo que não trouxesse a caixa. Quando a trazia, não se falava de outro assunto, pois o assunto era mesmo ele nunca querer falar do que ela continha. Apertávamos, insistíamos, mas apesar de termos desfiado vinte anos juntos, em novelos vários de peripécias e  recuos avançando no tempo, jamais a caixa se abriu. O respeito de não ceder ao roubo existia, mas de qualquer forma, o Carlos era uma dessas aberrações da sociedade, daqueles que conhecem o universo inteiro da saga "Star wars", mas aprendendo-o nos intervalos dos jogos de rugby da equipa universitária. Cabeça de nerd em corpo de segurança; imaginam então porque é que a única maneira de lhe vermos a caixa era mesmo convencendo-o com palavrinhas melosas, ou piadinhas merdosas. Não dava, nem bêbado, que o Carlos nunca se embebedava, bebia na proporção das marés, e ainda assim sempre em preia-mar. Com caixa ou sem caixa, encaixava as investidas, bloqueava todos aqueles que, passando os dias a pensar fora da caixa, no fundo só queriam saber o que se encontrava dentro da mesma.

Éramos crianças, algures pela quarta classe, e conheci-o no recreio, cada um fingia que era um Transformer. Todos queriam ser o Optimus Prime, mas eu e ele jogámos par ou ímpar pela posse do Moscardo. Ganhou ele, e também ganhei eu. Nem sei se alguma vez nos tratámos por amigos, era algo tão natural quanto indizível, apenas existia e era. Morávamos em cantos diferentes da aldeia, mas à vez, semana minha ou semana
dele, acompanhávamos o outro em caminhada e regressávamos pelo mesmo trajecto, de vez em quando não era bem porque pela Primavera os pomares eram demasiado tentadores. No final desse ano, o Carlos falou-me pela primeira vez da caixa, e pode-se pensar que não me esqueci disso, mas acabei por apenas lembrá-lo no ano passado, porque tal aconteceu enquanto comíamos laranjas, no pomar da dona Adelaide, uma senhora já velha, mas não era nem vesga, nem avessa a usar armas de fogo, uma combinação que junta com a tendência para carregar caçadeiras com cartuchos de sal, pode ser abrasador de várias maneiras, e eu estava precisamente a preparar um sumo de laranja, e o olfacto, num arremesso proustiano, devolveu-me a magia do momento em que o meu amigo me revelou um nariz do seu mundo, uma caixa de madeira construída por um avô carpinteiro. Não era muito grande, pelos gestos não seria maior do que um microondas, mas jurava-me o Carlos que o avô arranjara forma de não lhe dar fundo, e ainda assim, nada caía da mesma. Era impossível, e se eu achava isso no vôo imaginário da infância, em adulto muito menos. Mas esta revelação no meio de uma séria laranja foi tão vincada que os anos seguintes levaram-se pela curiosidade em brasa que me afogueava quando pensava naquela espécie de El Dorado: uma simples caixa, ou então a maior invenção desde a mentira.

Ontem, recebi uma encomenda que não pedi. O remetente era o irmão do Carlos, e explicava, num papelinho colado à tampa, que o irmão decidira procurar algo mais, cansara-se da vida, mas sem pressa das intermitências da morte, pegou em si e arrumou-se na distância entre o conforto e o risco. Por outras palavras, decidiu alistar-se numa tripulação de pesca do bacalhau e aprender um ofício novo. Não estranhei: o Carlos descontava a satisfação e era o presidente do clube de fãs do inesperado (era mesmo, fez uns cartões e tudo, e eu era o sócio número 2, até deixar de pagar as quotas, não por falta de dinheiro, mas sim de imaginação. Fora mais ou menos por aí que deixáramos de falar tantas vezes). Conhecia bem o Carlos, ainda assim: na prática, se ele se queria perder pelos mares da Terra Nova, era como se tivesse morrido. Ainda que o seu corpo se voltasse a materializar no meu olhar, o homem seria outro, e o outro é quase sempre desconhecido. Isso alegrava-me: ia adorar reconhecê-lo, reaprofundá-lo, se ele ainda quisesse aceitar no seu barco um peixe de águas superficiais como eu. No pacote então, desfeito o cartão, socou-me um objecto: era uma caixa de madeira. Estava riscada e amassada, andara aos rebolões e tombos algures, mas inteira, resistente, olhava-me sem olhos. O irmão explicou na carta que passando a ser alguém que não Carlos, as suas posses passavam a ser passas para uns e para outros. A mim, calhara-me a caixa. tanto perguntara e insistira no mistério que agora fazia parte dele. Nos meus dedos, após uma hesitação, a caixa parecia poder de facto conter tudo lá dentro. Deixei que o momento se instalasse e quando quis abri-la, hesitei. Porquê? Num mundo onde tudo se conhece, ou dizem, eu pelo menos sei tão pouco, à minha frente aparecera um imponderável. As perguntas valem mais do que as respostas, que são como um vento que desfaz torres de sal que abrilhantam o horizonte, lhe dão brilho e os tons irreais do fenómeno. Depois de tantos anos a imaginar vários cenários de descoberta e de resolução, parecia-me demasiado prosaico acabar assim com um encanto que me prendera quando tudo o mais da vida se banaliza, uma simples caixa, um complexo planeta de obscuridades luzidias. Onde sempre houve curiosidade, perguntava agora um medo informações de renda e morada.

O pequeno dilema dramático foi interrompido pelo meu filho de cinco anos. O Tiago, vendo-me com a caixa na mão e uma indecisão franzida, apontou para caixa. "O que é?", e era uma caixa, não estava ele a ver bem? "Papá, sim, uma caixa, mas o que faz? O que tem?", e apanhei-me em flagrante delito carlista, fechando as trancas ao meu próprio segredo, e tornando-me mais mágico do que aqueles olhinhos curiosos, coloquei a caixa na mesma, por detrás de mim, e disse que lá estavam o mundo e as estrelas, e que se arrumássemos tudo como deve ser, talvez coubesse o resto do Universo, mas apenas empilhado. Desconfiou primeiro, riu no gesto seguinte e com o dedinho indicador, deu a sua opinião sobre a minha sanidade mental. Coçando a cabecinha, encolheu os ombros. "Já sei, é o nosso jogo. Se eu ganhar, abres a caixa. Se eu perder, a caixa é tua, mas eu gosto mais de ti." Saiu então a correr, e eu apertei a caixa contra o meu peito, como se aquele momento com uma pequena versão de mim pudesse entrar na caixa sem eu quebrar um projecto do meu grande amigo. Um trabalho de uma vida inteira, feito por alguém com mais vidas dentro de si. Mas os seus mundos cabiam todos nas seis paredes de um cubo de madeira.

Quantas não caberão então numa esfera tão gigante de gás e solo.

sábado, outubro 24, 2015

Viagens



Havia uma vida sem ti, antes de tomares nas mãos as minhas arestas para uma vida inteira a poli-las, mas quando surgiste, meio baça, meio apelo irresistível, trazias contigo um sabor a eternidade, que não só se enrolou na ponta da minha língua, mas tomou conta de toda a minha boca ainda antes de nos beijarmos. Gostar de ti tornou-se culinário, festim onde me multipliquei em vários para não te dissipar no mundo. A refeição entrou na sua fase digestiva quando nos contaram que tinhas prazo de validade, eram seis meses, um pouco mais se te condimentasses devidamente, e nem arrefecemos esses meses. apenas deixámos ao lume, sem queimar, sem agarrar ao tacho, mas com as nossas mãos presas a cada um dos teus esgares, quando agulhas se tornaram de súbito uma pele que se enxerta, e as tuas células conheceram a morte, destruidora de mundos, na promessa de que te recriaria para este. Uma segunda vida para mim não era opção, e mesmo com a saudável certeza de não estar sequer nesse buraco, adoeci contigo, porque não tinha sequer outra maneira de me sentar, ou de te tocar, sem que de alguma forma o meu corpo não dançasse na lógica da tua presença. Não te vi morrer, mas sim evaporar-te, e os meus olhos prenderam esse vapor nas noites e nas manhãs em que também morri, na antecâmara lenta do inevitável. Dez anos foram o melhor dos mundos possíveis, mas em menos de um, o impossível chegou. Acordei segundos antes de os teus músculos se apertarem por fim no volante, e antes disso dormia sobre ti, e sonhava com comboios e apeadeiros e linhas férreas, e em ti a galgar tudo isso sem bitola marcada. Quando chegámos, partiste. Foi a única ocasião, desde que me disseste olá pela primeira vez, que te quis agarrar e não pude de facto.

A dor não é um segundo tu, porque assim, serias uma legião. Virias em multidão quando ardeste  num forno, surgirias como um exército justificado no cabo da Roca, quando voaste em muitos menos pedaços do que metros quadrados que em mim habitavas e engolirias todos os dias os meus passos, as minhas deambulações, os momentos em que o meu contorno se sentava à secretária, mas o lampejo  que é eu de facto , e não o desenho de uma caixa com duas pernas, escapava pelas frinchas do visível. Eras toda a gente, até porque eu falava com ninguém e eu não me importava. De certa forma, tornei-me radioactivo, num dia quase literalmente, quando liguei para um daqueles programas de rádio nocturnos, anunciando-me Jorge, quando me chamo Paulo, e num momento de fraqueza embaraçosa, passei um programa curto de discos pedidos sob a égide do luto. Disse tudo aquilo com que gozámos, os lugares comuns, os clichés: que não sabia viver sem ti, que levaste uma parte de mim, que quando morreste morri também, e tudo era verdade, mas mentiras, porque um pecado de ocasião é não querer ser a multidão. A minha dor era única, e é sempre, tu eras diferente de todas, nós éramos o mundo, e como podia haver comparação, páreo de tudo aquilo que fomos e que nos fizemos, de todas as camas e bancos de jardim. todas as árvores e praias, todos os olhares e barulhos, da esplêndida oitava maravilha do mundo moderno que eram as nossas mãos dadas, e chão para percorrer. Talvez tenha chorado, estou mais certo agora, porque quando terminei este monólogo eterno, o locutor eternizou-o ainda mais com o silêncio de quem se procura para encontrar o outro numa frase certeira. Falhou em miséria. "Sabe, a vida é feita disso, de perder e de ganhar", e se eu recebesse dinheiro por cada vez que ouvi uma banalidade depois não te ter conseguido agarrar quando mais importava, poderia forrar a tua campa a ouro.

Seis frases feitas depois, desliguei. Pedi que te dedicassem a faixa um daquele álbum dos Radiohead com miúdo no título, ou algo do género, só para disfarçar, e depois de uma deriva de quase um ano, encalhei no ilhéu de mim. Estendido no sofá, revi-me e de como estavas mais viva do que eu, o que era ridículo e verdadeiro, cada um à sua vez, dependendo do lado para o qual me virava no sofá. Gostava de dizer que a casa cheirava a ti, sempre, mas eu estava tão imerso na dor que já nem te lembrava ao certo, apenas uma pequena fumaça, uma comichão tua no meu peito, amplificada e crescida, maior do que eu, do que a jaula das minhas costelas, até do que o meu coração, julgado elefantino, Na verdade, apesar de eu estar, tudo o mais tinha tirado longas férias da minha presença. Era a minha presença, não havia mais, e depois de ter chorado a tua essência a um parolo da rádio, a um labrego que nem conhecia, um tal que quando pedi Radiohead me sugeriu que te passasse antes Enya, a sentimentalona irlandesa, é que descobri finalmente o rumo: precisava de te reapaixonar , para depois acabar contigo da forma mais desastrosa possível. Era obrigatório conhecer quem me completava, para nos destruir e reconstruir com toda a vontade de não ser um túmulo. A certeza era esta: no dia em que te enterrei, fui contigo, dentro daquele caixão, e estava na altura de reocupar o meu lugar, e o teu deixado vazio, para que não morresses por fim completamente. Pensei que se vivesse, que se te revivesse, te perderia para entender como o mundo fica melhor pela presença de quem, não estando, faz parte da arquitectura táctil do nosso coração, e seria eu de novo, e um eu capaz de dar várias oportunidades a uma vida além da morte, túneis de luz, o Paraíso. A tua memória seria então mais luz do que túnel, mas guardando-te, libertava-me.

Apareceu então na minha mente a nossa primeira viagem, uma travessia alpina a pé, em dez dias. Peguei num caderno e anotei todos os lugares que fizemos nossos e que arrumámos em mochilas, um tabuleiro terreno de onde trouxemos pedras para criar um pequeno mundo só nosso, não esférico, mas sim um paralelepípedo. Foram algumas horas a escrever nomes numa lengalenga de persistência da recordação. Lista finda, nova parte do plano: começar um projecto, nessa mesma noite, sem voltar atrás. O destino era Barcelona, onde arquitectámos toda a uma cidade para nosso Gaudio. Roubei a mim mesmo uma foto tua, coloquei-a num envelope e fiz uma promessa, escrita e assinada com o que sobrava do teu perfume, de que te revisitaria, e levava na mochila a caixa que continha o nosso mundo, e devolveria à proveniência todas essas rochas que eram mais tu do que aquela casa, pois foram escolhidas pela evidência do teu entusiasmo. Fotografia, caixa e comigo, uma máquina fotográfica. Quero fixar-me novamente nos cenários e nas paisagens, fazer de conta que volto a existir.

Dois anos depois disso, estou sozinho, mas não só. Ainda tenho umas dez pedras, e as que deixei para trás foram sementes, e deram-me sabores que se enrolaram na ponta da minha língua, nos anéis dos meus cabelos. Protegem-me, cobrem-me, e são tu, embora sejam mais eu. Com o tempo, serei meu, e tu uma propriedade comutativa dos afectos.

Amanhã, vou deixar-te num glaciar islandês. Só amanhã. Hoje, dormes comigo, outra vez.

terça-feira, outubro 20, 2015

A casa da árvore



Voltei à casa da árvore quase trinta anos depois. No cimo do carvalho, a 100 passos do regato onde eu e os meus irmãos descobrimos o vigor da pele depois de um banho frio, um amontoado de tábuas, ainda reconhecíveis como paredes e telhado. Nem sei bem como é possível, a casa sustentava-se mais em pregos do que ambição. Nós os três, sem nada para fazer e demasiado bicho carpinteiro a roer-nos, demos por nós num Verão sem nada mais do que tempo livre. O pai decidira fazer férias um mês mais tarde nesse ano, para dar tempo a que a minha mãe regressasse a si depois de alguns meses no sanatório, e então, numa conversa ao jantar, alimentou-nos essa ideia. Um projecto nosso, uma marca dos Coutinhos no espaço. Éramos gabarolas, e entre os nossos olhares passaram momentos de peito feito, de chegarmos no ano seguinte à escola e contarmos como, com aquelas mãos minúsculas e aqueles braços que mal passavam por ramos de pinheiro manso, ergueramos algo que se visse. Na manhã seguinte, o pai comprou-nos pregos, nós mandámos umas árvores mais pequenas abaixo e conseguimos que um tio nosso, que vivia numa quinta próxima, desencanasse umas tábuas, depois de ter mandado uma cerca abaixo. Em troca, ficámos de lhe fazer a vindima seguinte; o míldio ajudou-nos, mas por outro lado não, já que as vinhas eram tudo o que ele possuía. Quando se tentou matar uns meses depois, deu-me pena, e o meu irmão mais novo, só porque sim e porque de nós era aquele que mais jeito tinha para ser humano, voltou a plantar o vinhedo. Seguimo-lo, e depois também mais gente, e sempre pensei como um caminho quase directo para a morte pode voltar a gerar vida, ali, quando um homem fracassa até na vontade de morrer, quando volta a encontrar exactamente aquilo que perdeu, só porque o ponto do fundo pode ser a maior bóia para voltar à tona.

Três semanas passaram, e quase fechámos o tecto. Em todo esse tempo, o meu pai serviu de mesinha de cabeceira à sofreguidão da minha mãe. Todas as noites nos perguntava como ia o "Taj Mahal de Macedros", e eu nem sabia o que era o Taj Mahal, mas o meu irmão mais velho, que de vez em quando lia as Selecções do Reader's Digest, ria e sabia que o meu pai, meio a brincar, nos dava o seu orgulho como uma sobremesa que satisfaz mais do que tudo o resto. Contávamos-lhe as histórias, os dedos martelados, as esquadrias mal tiradas (quando nem sabíamos o que era), o cheiro das folhas de carvalho, os pequenos pormenores que só quem sobe uma árvore consegue trazer a tiracolo. Só depois dessas três semanas o meu pai decidiu ver como a casa se levantava pelos nossos braços. Esperava sorrisos e piadas, mas ele apenas mostrou preocupação. Suspirou seriamente "Não sabia que era esta árvore", e contou então que a floresta era assombrada, que durante a noite se ouviam gemidos e o seu pai contara-lhe que aquela árvore atraía imagens e espectros, luzes e sombras, todo o tipo de malapatas que não devem visitar os garotos. Era ele ainda mais menino do que nós quando quatro pessoas deram por si penduradas pelo pescoço no mesmo ramo onde a nossa habitação se erguia. Na verdade, fora eu quem escolher a localização, era a minha responsabilidade no projecto, e senti-me culpado, sem que o meu pai soubesse. Os meus irmãos notaram-nos, e aproximaram-se, como se por acaso a maldição subisse pelas raízes daquela esplêndida planta, seria para todos nós, não para mim, e o meu pai continuou a contar que ninguém sabia quem eram, dois deles tinham até aspecto de estrangeiros, louros e russos, talvez de Leste, e um mais aportuguesado, mas se calhar também estrangeiro, estava marcado de cruzes no peito. Ele não vira, mas o seu pai sim, e o pai de seu pai, e desde então que aquelas matas navegavam durante as noites, o vendo empurrando ramos e folhas, mas colando em figuras invisíveis que se apresentavam aos sentidos. Ele nunca vira, mas quando à noite ficava com o pai a vigiar, nas épocas em que os lobos desciam  aos vales, cobria-o um frio que não soprava dos termómetros e era outra bolina qualquer.

Mas os tempos passavam, e se calhar, disse-nos, o Passado é como as linhas de lápis que trazíamos da escola, em contas mal multiplicadas: usando a borracha, desaparece, e ele via na nossa vontade de fazer de uma árvore um cadafalso da preguiça o estertor final de quem não alcançara descanso de forma natural. Nas tardes seguintes, veio ajudar-nos a acabar a obra. A mãe estava um pouco melhor, e à medida que precisou menos da botija, sem que a arrastasse entre solavancos de um mundo desnivelado, ele certificou-se que nem os lobos, nem qualquer outro sinal do mundo que nos cobre vinha para nos buscar. Eu preguei no último prego, e mesmo no dia em que a mãe finalmente conseguiu sentar-se de novo na terra em que chegámos a temer vê-la como decoração de pedra. Com tábuas, fizemos uma escada, e ela pintou os primeiros degraus, ao contrário do que o meu pai queria, temendo que o cheiro a tinta fosse demasiado para os seus mirrados pulmões. Sempre pensei que eu e os meus irmãos éramos uma pequena reserva de oxigénio, e que se ela melhorara fora para nos beijar a testa uma e outra vez, como quem procura na pele de quem mais ama a fotossíntese do corpo. Ela chegou a dormir várias noites naquele chão torto, tão torto quanto o seu sorriso. Não sei se espantámos os fantasmas, mas hoje, olhando para a casa que se sustém, conto para mim a história de quem se aguenta em pé e em pé sustém almas penadas e caídas. Quando subi, tantos anos depois, à casa, aguentava-se, e eu até tinha mais uns quarenta ou cinquenta quilos. As madeiras estalaram, mas nem temi cair. Sentei-me e na palma da mão, um frio agudo encharcou-me os ossos, como se um regato que me banhou em criança jorrasse a partir da madeira em adulto. Sem saber porquê, fechei os olhos, e vi a minha mãe em filme nas minhas pálpebras, e o que fizéramos naquelas férias depois da casa, de como ela e o meu pai, numa floresta amaldiçoada, tinham o condão de tornar três garotos em cavaleiros e feiticeiros, e de como uma casa da árvore pode ser feita de mãos, e de sangue em corrente. Cada canto tinha as nossas assinaturas,e talvez por isso a casa nunca se corrompera. Porque se dos destroços não pudesse sair uma vitória, a matéria era um contínuo desperdício; e nas minhas contas, quatro dependurados perdem para cinco perfeitos sempre em pé.

Ainda que um deles tivesse que passar o Verão a comer com a mão esquerda à conta de três ossos tortos nos dedos da mão direita. Mas isso seria contar a desastrosa relação que um martelo tem com a minha anatomia, e seria uma história bem maior do que esta.

domingo, outubro 18, 2015

Colectâneas I



Da lista de coisas que se escrevem quando não somos nós, ou o somos em excesso:

O meu contorno levita sobre ti, como se o desejo de ser em ti me desse poderes de me desencarnar e surgir em teu redor, como uma lua em órbita num delicioso planeta em com a tua forma. Pouso na tua boca, e faço-me um verbo: ser. Nesse momento, deixo de existir, mas vivo finalmente em ti.

Sonhei ontem que na floresta, nos rumores dos ramos, sopravam palavras que te tentavam apanhar, mas sem nunca sequer criar raízes em ti. Estavas muito acima delas, e eu muito abaixo das raízes, e só te entrevia em frases curtas e sem sentido, e na tua mão, seguravas um livro onde o teu corpo desaparecia, um livro verde e castanho que luzia quando aberto, menos que o teu sorriso, muito menos que os teus olhos, mas mais do que os teus cabelos, que se confundiam com o vento e com a terra. Desapareceste para dentro do livro, e perdi a capacidade de falar. Os ramos calaram-se então, e pediram desculpa deixando cair as folhas sobre mim como se aconchega uma criança que perdeu a inocência. Sem cair, o livro levita e tu voas bem acima do mundo, pois pertences a um espaço do universo onde moram as respostas.

Na bolsa a tiracolo, as palavras vagueiam como medusas. Cada uma delas se prende aos meus dedos, queimando, cheias de veneno, mas também de promessas: juramentos tóxicos. A rubra pele endurecida de tantas frases juntar tira mais um vocábulo, cola com outro, marca o compasso de uma marcha de soldados vagos e inglórios. Batem continência à tua porta, esperam ordens, prontos a ir para a guerra. Quando as bombas caem e se vaporizam, o veneno é para mim, a bolsa um dano colateral. No meu peito, combato uma guerra de trincheiras.

Ontem, perguntaram-me por ti. Não tive resposta, porque desde que te foste que és uma questão. Não lhe satisfiz a sua curiosidade; e assim, o meu coração voltou para debaixo do cobertor, que ainda não era hora de acordar.

Explica-me porque é que a tua cara é a razão pela qual eu desejo que o mundo continue a rodar em torno do seu eixo.


sexta-feira, outubro 09, 2015

A noite



Da teia da memória, pinga a noite na estrada de Unhais. A escuridão chove a partir do olhar, e detrás de um volante, mãos manápulas fixas, o alcatrão é uma cobra traiçoeira. Lembro-me do carro como um mundo, de ti no assento do passageiro a fazer as vezes de Tectónicas de Placas. na verdade, mais de aplacar, o meu coração em destaque. Dormes, e eu, de esperto, faço-me desperto, porque quando deslizas a mecânica do mundo entre curvas, os tremores abanam e estalam. Não quero pensar em mais que não seja ser mais do que o perigo, mas nem consigo alturas há em que quero travar o mundo, e simplesmente deixar que gires assim parada, de me fazer sol em torno de ti e poder encontrar nos teus cabelos a órbita que me traga a Primavera. Não posso parar, é tarde, e quando olho em frente, quando no breu os limites quase fictícios da viagem não surgem, mas evaporam-se mesmo a tempo de reconhecê-los, agarro ainda assim a tua mão. Um certo vento sopra, e na pele desviam-se pálidas imagens do que pode ser. Vão por atalhos, de becos sem saída, e auto-estradas sem fim. Quando param, não têm regresso: o redor sem entrada e sem saída é a única recompensa que conhecem. Como se fosses tão infinita quanto a paisagem, esbatida na ausência de luz.

É como se dormisse e sonhasse, embora não possa sequer fechar os olhos, mas se a tua pele me fizesse sonhar, ali, enquanto divago no que existe e é como se fosse um pensamento que não sonhei, apenas agarrei sem sequer prender, finjo que ontem sonhei. Na floresta, nos rumores dos ramos, sopravam palavras que tentavam apanhar-te, mas sem nunca sequer criar raízes. Estavas muito acima delas, e eu muito abaixo das raízes, e só te entrevia em frases curtas e sem sentido, e na tua mão, seguravas um livro onde o teu corpo desaparecia, um livro verde e castanho que luzia quando aberto, menos que o teu sorriso, muito menos que os teus olhos, mas mais do que os teus cabelos, que se confundiam com o vento e com a terra. Desapareceste para dentro do livro, e perdi a capacidade de falar. Os ramos calaram-se então, e pediram desculpa deixando cair as folhas sobre mim como se aconchega uma criança que perdeu a inocência. Sem cair, o livro levita e tu voas bem acima do mundo, pois pertences a um espaço do universo onde moram as respostas. É impossível prender-nos numa jaula de palavras.

Cheguei a ter medo, de que nem ali estivesses, fosses tão esquiva como aquela noite, e imaginei estar sem ti. Cada dia que passa sem que a tua voz me desfolhe é mais um em que permaneço ilegível, para mim e para as voltas em torno do sol. Não existem palavras, nem sons, nem gramática. Só um borrão em tons de mundo que não posso chamar de dia. Não há tempo, nem razões, nem despertares e muito menos caminhos. Não há desprendimento, nem ressurreição e a existência de outra é miragem numa selva que faz as vezes de deserto. Tudo subtraído, uma constante: só existes tu. O resto é um bocado nem mais, nem menos. Sinto-me um vaso de mal estar, e vem aí a Primavera.

Mas ali, naquela estrada, estamos ambos. Vêem-nos lado a lado, mas de verdade que estamos um no outro. Tu dormes, eu desperto para um mundo onde o teu sono é o meu sonho, e curva e contra-curva, escapo-nos rumo a qualquer lugar menos aquele, de Unhais. Não digas a ninguém, mas ali, estamos além; e mais do que a noite, é na Lua que habitamos.

sexta-feira, outubro 02, 2015

Curto apelo



Não percebo porque é que as pessoas não votam, a sério que não. Aqui há uns tempos, até inventaram que votar dava dinheiro aos partidos, e como tal, chulos da merda, mais valia nem ir. Desconheço até ponto as pessoas sabem que esta é uma pura corrente de manipulação, que a abstenção voluntária favorece os partidos cuja máquina partidária está mais oleada através de caciques e galopins que arregimentam militantes com o único objectivo de colocarem uma cruz num papelinho sem pensarem muito, apenas porque lhe ditam a vontade. O acto de votar é transgressão e um risco, e como risco é bem mais consequente do que fazer surf ou andar de skate. Honestamente, e não o digo de ânimo leve, sinto-me entusiasmado de cada vez que voto, e a perspectiva eventual de não poder fazê-lo por qualquer razão transtorna-me de sobremaneira. È das poucas expressões cívicas que se cumprem, já que existe uma aversão cutânea em muitos a manifestar-se na rua. Vivemos também em tempos onde a simples expressão de uma opinião, se polarizada ou impopular, é vista de lado. Avisam-nos que nos calemos, que nem falemos; votar é um refúgio até desses que teme levantar a voz, pois é dentrod e uma caixa que fica presa essa vontade, trancada e protegida, anónima, mas com a certeza de levar a identidade e expressão de cada um ao mais alto local de poder da Nação.

Por isso, meus leitores e amigos, votem. A sério, votem. Não estejam com tretas ou desculpas, não sejam marrões nem se armem em objectores de consciência. Não se transformem naqueles que fazem do não voto uma justificação para mais tarde proclamarem que nada do que se passa é sua responsabilidade, que não participaram no plebiscito por saberem que não ia dar em nada e tudo ficaria na mesma. É por eles, que não votam, que tudo fica na mesma. Portugal não precisa de vontades caladas: precisa de ti, de mim, de todos os que conhecemos para um simples acto, um mero movimento. Já que estás na cabine de voto, outro pedido: tem imaginação, usa da memória. Lembra-te do que foram estes últimos largos anos, não apenas a legislatura que passou, mm tudo o que te têm tirado e condicionado; e recorda-te principalmente de quatro anos onde usaram e abusaram da desgraça do país para te poderem rebaixar e espezinhar, para colocar taipais na tua vida. Lembra-te dos que emigraram, dos transportes que perdeste, do dinheiro que não mais viste, dos amgos que perderam o emprego, dos teus filhos e sobrinhos que viram a sua escola transformada num laboratório. Se tens memória para as mínimas truculências que levantas com os teus amigos familiares, de certo te recordarás do que suportaste. Pensa fora da caixa, age dentro da caixa.

É só isto.

terça-feira, setembro 08, 2015

O vosso refúgio



Quem me segue desde o início deve ter notado algo de bastante flagrante no conteúdo deste blog. Não têm aparecido por aqui, vai para alguns  anos, qualquer tipo de artigo de opinião sobre problemas reais. Escrevo sobre mim, directo ao coração ou enviesado em metáforas, e isso são sarilhos pessoais empolados. Não valem de grande coisa nas voltas do mundo, nem comparados com assuntos sérios ou crises bem reais, e isto vem de quem deu a mão a alguém que foi morrendo e sabe, por isso, o que um impedimento ao normal funcionamento dos sentidos. Devem ter estranhado que uma pessoa com a minha reputação, de opinativo truculento, se tenha abstido de falar sobre tanta coisinha que por aí andou a moer a população. Ora, tal não foi esquecimento: deixei-me apenas de incendiar um território chamado Internet onde raras vezes um debate sólido é impossível, e de certa forma, adoptei uma atitude a que a minha mãe me chama tantas ocasiões à pedra, para não dizer o que penso só porque sim e porque me apetece. Acredito em opiniões diversas, e em certos casos, elas são obrigatórias: uma discussão sobre o valor de um filme, de um livro ou de um álbum pode fazer correr muita palavra, mas será sempre isso, uma discussão, onde ambos saem com razão e ninguém se melindra a sério por isso.

Outras situações, no entanto, pedem que se deixe o politicamente correcto de lado e, à vergasta, se comece a chamar as coisas pelos nomes e a colocar as situações como elas são. Há campos onde a subjectividade não entra, e se todos têm direito a ter uma opinião, aqueles cuja visão de mundo está eivada de estupidez rija têm de assumir as consequências da maneira como vêem o mundo e as pessoas. Os "Podem chamar-me o que quiserem" ou "Não sou má pessoa, longe disso" ou "Estou apenas a dar a minha opinião" são bordões de perdões que não mitigam o facto de se estar a dizer uma barbaridade e, de caminho, se revelar que no fundo, há ali qualquer coisa que não bate certo. A situação dos refugiados, que tem incendiado murais de Facebook, chats vários e foruns afins forçou-me a voltar a chatear-me com pessoas e a dar opiniões que ninguém pediu e quase ninguém gosta. Aguentei até onde pude, mas o facto é que já vi tantas situações destas ao longo da História, estudando-as e analisando-as, que o "deja vu" dá cabo de mim: percorrer o nosso caminho como Humanidade e concluir que os mesmos instintos de há milhares de anos se mantêm hoje, sob uma capa de civilização e elevação moral, é algo que me dói no profundo de mim, me baralha o pensamento e me impede de ter qualquer tipo de esperança nos seres humanos como colectivo.

Podia aqui traçar um grande retrato histórico acerca de migrações e deslocações em massa de culturas. De como, até no século XX e por razões semelhantes a estas de hoje, milhares de pessoas de uma mesma cultura entraram na Europa sem que isso significasse a perda daquilo que alguns palhaços chamam de "nossos valores"; podia até dizer que entre a emigração de um português que se vê no limiar da pobreza e a de um sírio que simplesmente quer evitar que lhe caia uma bomba em cima está exactamente o mesmo princípio de sobrevivência e direito de esperança; que a livre circulação de pessoas não é apenas uma comodidade para usarmos quando vamos de férias para a pândega nas Baleares e visitar Londres e Paris que são tão lindas; que o que obriga esta gente toda a fugir são os mesmos movimentos sociais e económicos que permitem que todos os fins de semana nos desloquemos ao centro comercial para umas compras, e mantermos o nosso modo de vida assente num capitalismo que sacrifica a estabilidade de outros países, inclusive estes; que foram os Governos ocidentais quem criaram indirectamente este polvo chamado ISIS de que temos medo; que a maior parte destes refugiados são pessoas normais, sem ligações terroristas; que há décadas vivem pessoas de outras culturas em Portugal e não foi por isso que o país implodiu; que "os nossos valores" são tão lindos que há coisa de um mês ninguém se preocupava com eles, e no fundo significam que quem tem cu tem medo, e ai deles que vêm roubar-me aquilo e aqueloutro; que "Muçulmanos" designa um universo de milhões de pessoas que englobam regimes ditatoriais brutais como a Arábia Saudita (de quem ninguém se importa de receber combustível para meter no carro), mas também países como o Irão que por detrás de um retrato de maldade e infâmia escondem um estado a meio caminho entre o Oriente e o Ocidente; que em muitos países muçulmanos, Síria inclusivé, a liberdade religiosa é real; que estes emigrantes e refugiados são sim pessoas com aspirações e não coisas ou bactérias que vêm contaminar tudo. Que tudo isto não é idealismo ou "paleio do CES", como um idiota chapado já me disse: quando é que o sofrimento humano virou uma questão de opinião ou de escolha? Se qualquer uma destas pessoas estivesse na posição de cônsul em Bordéus, no ano de 1942, tinha sido lindo.

Estas alarvidades que leio todos os dias não são novas, e portanto, se as dizem, incorrem numa tradição milenar que vem desde as antigas civilizações e atingiu o seu apogeu durante a Segunda Guerra Mundial, com a Solução Final. Se a Alemanha a planeou, outros países colaboraram não permitindo que os Judeus se refugiassem no seu território, usando argumentos muito semelhantes aos que vocês usam. A sério, sem tirar nem pôr: eles vêm destruir a nossa cultura, temos de tratar da nossa casa, vamos ficar orgulhosamente sós; e lembram-se quem queria ficar orgulhosamente só? Sim, aquele senhor que deu nome a uma ponte em Lisboa. Pertencem todos à sua escola, dentro do vosso discurso a favor de democracia e contra a opressão, de celebração de uma cultura global, de heróis multi-culturais que aplaudem e de uma soberba moral que arrepia, de se colocarem como guardiões de um castelo feita de merda e que esboroa ao mínimo abano. São herdeiros da normalização cultural do Klu Klux Klan, afirmando que os negros eram todos maus por igual, sob o disfarce de que uns são piores do que outros, e claro que não estamos a falar de toda a gente. São herdeiros de todos aqueles que, durante a guerra dos Balcãs, ficaram de braços cruzados enquanto ocorria uma chacina étnica, falando "Não queremos agravar o conflito", mas com subtexto declarado de "São outros, não nos interessam. Podem matar-se", e estranham depois porque é que o mundo está em dormência permanente e já tão pouca gente se dispõe a ajudar o outro dando-lhe a mão, seja dos "nossos" ou não. Tudo está ligado, não somos ilhas isoladas e quanto mais depressa se perceber isso melhor. Querem resolver estes problemas ou os do país? Nada mais fácil: comecem por votar, ou melhor, comecem por exigir pessoas cuja visão das coisas não se limita a uma semana de avanço, que percebam como o mundo funciona e evitem que conflitos em terras alheias se agravem só porque não são cá, não tendo a clarividência de entender que cá é todo o lado onde os pés podem calcar terra. Tentem-se informar, perceber o mundo, descobrir o que há para lá da vossa casca e perceber que os "maus" não têm raça ou cultura: os incendiários que colocaram o país a arder são portugueses. Os que matam polícias, esbofeteiam as mulheres, agridem os filhos são também portugueses. Têm desculpa por isso?

Assumam de uma vez por todas que são intolerantes e não se escondam. Ao menos isso. Todos nós que temos empatia com aqueles que querem simplesmente sobreviver não somos profetas ou amantes de mártires: somos gente com coração e que quando olha, vêm alguém como nós, e não um "outro" indefinível. Isso de dizeres que gostas mais do teu cão do que destas pessoas não é só trollar: é ser de uma estupidez sociopata a toda a prova. A partir de hoje, qualquer um seja idiota o suficiente para escrever este género de coisas desaparecerá do meu feed. O mundo é um lugar vasto, com muitas ideias e muitas batalhas ideológicas a travar, mas a estupidez é a maior dessas guerras e não terá fim. A prova é esta: quando a dor das massas desesperadas gera um encolher de ombros, isso é normal; mas se provoca raiva, asco e ódio, revela que há ainda entre nós gente pequena, pessoas que valem zero e que pode detrás da afabilidade de um aperto de mão, de clichés em murais próprios e de um copo no bar e "pago eu!", são o que de mais rasteiro existe entre nós. Ninguém é má pessoa por se preocupar com o futuro; mas quando tal implica acabar com o mesmo futuro de tantos milhares apenas porque se tem medo e se desconhece o que existe para lá do nosso ecrã de computador (que poderia servir como canal de informação, mas é bem mais lindo para ver fotos de gatos), isso é uma prova de desumanidade. É isto. Livres de exprimir uma opinião, mas assumindo as consequências da mesma.

Sois todos tacanhos. Todos. Isso, afinal, não é tão português assim: existe também na cultura muçulmana, por exemplo. E não é tão lindo como"nós" e "os outros" somos tão iguais, afinal?

terça-feira, setembro 01, 2015

O justo dos sonos



Há algum tempo que estou louco. Melhor, em intermitências de loucura. Não liguem ao velho adágio de que o louco é o o último a sabê-lo. Louco que se preze tem a inteira e perfeita noção de que a sua cabecinha se prepara para zarpar algures para lá do que controla, e nesse momento de lucidez improvável, o louco é quem reconhece humildemente que não se pertence por completo, e que nada do que decide é confiável ou sequer benéfico por definição. O reconhecimento do desvario é um golpe por estar confirmado que perdemos o nosso derradeiro amigo: nós mesmos, em imperfeições nas feições da cara e da alma, mas cujo instinto de auto-protecção é a defesa que temos contra tudo o mais.

O instante preciso tombou ontem em dominó, quando dentro desse mundo de espelhos que é a minha mente me apercebi que recuperara um velho hábito, matreiro, de montar uma megalomania para todo o restante corpo ver. mostra quem manda, dominar instintos, baralhar a natureza, e numa demonstração de soberba esmagadora, pelo momento em que a atenção se esvai, e a carne aceita o repouso do sono como mudança de turno dos desafios. Imaginem bem nisto, chegar a um ponto onde se quer quebrar o que se  estabeleceu desde o momento em que a espécie humana, ou qualquer outra, se animou de electricidade estática em movimento e recebeu em troca de todo esse arcaboiço de dias as horas em que, remetendo-se à quietude, por vezes inquieta na pele e até mais fundo do que esta, simplesmente prescinde do tempo e descobre ao desvelo os segredos que se escondem para lá da Morte. Acordar é nascer cada dia, e o sono a viagem mais próxima, de cabotagem, que podemos fazer em redor do fim que se crava algures numa curva sem espera. Eu, feito um despenteado mental, proponho ter um controlo tal da minha atenção que desespero por saber quando se dá esse clic, em que o interruptor descai e tudo o mais só regressa noutro momento de consciência que é como vir à tona depois de uma prova de apneia.

Não é a minha estreia neste absurdo. Noutras aventuras iguais me meti, em todas elas perdido de tudo o mais, descrente, até sem objectivo e agora, quando me deito, reconheço isso na minha vida. Decisões certas que são ao mesmo tempo erradas, permanências na casa de partida, a decisão como raiz mirrada e que nunca aparece, deixando ao mundo um silveiral indeciso a morder o interior, a rodear o que se construiu e incapaz de parar. É loucura, tudo, até mesmo aquilo que não decido. A demência é tamanha que até o inexistente se presta a colocar uma vida em balanço constante na ponta dos dedos que tremem. Quando já nem dormir é consolo ou bálsamo, mas sim um outro incêndio em permanente rescaldo, nunca se apagando. Sinto a falta de coisas, sinto muito a falta de pessoas, mas começo principalmente a ter saudades de mim mesmo, e nem sei bem onde ando, o que faço ou se, enlouquecendo, estou mais perto de me recuperar, ou pelo contrário, afundar no bolso da camisa de forças. Tremo de todas as vezes que me deito agora, porque não sei se, despertando, não estarei bem para lá do que posso recuperar, se na minha solidão permanente, tendo-me como companhia, não ganhei como melhor amigo a pior das pessoas.

Chama-se estado de vigília, mas como pode ser se deixou entrar com esta facilidade tamanho inimigo?

segunda-feira, agosto 24, 2015

Terra batida



Uma estrada existe, assim mesmo, está lá, e é serpente entre montes, passa junto de uma praia e termina num promontório que bate à porta do mar, entrando sem pedir licença. Só passa lá quem deseja, porque é impossível dar com esse caminho por acaso. Escolhe-se e pronto, a pé ou de carro, seja até em cima de um cavalo branco ou negro, cada um dá por si a fazer o caminho mesmo que nem sequer saiba qual o final. Em determinadas noites, o pavimento são luzes amarelas, reflexos da água que se espraia da chuva, ou mesmo do mar quando a maré engole todo o espaço até se chegar um pouco ao que deve ser a via de cada um. Nessas noites, o vento é mais forte, mas se o caminhante não estiver com pressa, ou outras ânsias, é possível que as suas faces se encham de salpicos de sal diluídos nas água que sopra do vasto oceano, quem nem sei qual é, ou sequer se está já mapeado. Cada salpico sabe a suspiros, e ninguém passa fome de desejos pequenos. Nenhum mapa mostra a estrada: ela apareceu com o prenúncio do mundo. É um agouro, é um adágio, é o que leva cada um a fazer dela casa temporária.

Não sei se alguém a terá percorrido de fio a pavio. Li uma vez sobre um celta chamado Dombrar que terá nascido na montanha onde a estrada deu por si já feita. Mesmo ele ouvia lendas sobre esse estrelado caminho como se fossem histórias mais antigas do que a própria rocha, anteriores a duas ou três glaciações, e cresceu com aquela ideia fixa de que não se questionada o rumo, nem sequer os pontos: aceitava-se, e por isso, quando cresceu e viu em si pernas capazes de suportá-lo para lá de tombos e trambolhões de atrapalhação, decidiu, e é sempre por aí que se começa o percurso na estrada, que iria fazer desta a sua tarefa diária: comer quilómetros, mas mastigando-os com prazer. Tolices da juventude são normalmente desvarios na velhice, Dombrar registou a sua aventura, mas algumas folhas perderam-se, a maior parte até, quando os da sua tribo emigraram para outros picos. O que sobrou é confuso, Dombrar repete a certa altura várias porções, escreve as mesmas descrições, parece sair da estrada para nela reentrar sem sequer se ver fora dela, como se estivesse condenado a repetições e ensaios contínuos dos mesmos passos. Como se a serpente da estrada comesse a própria cauda, se engolisse e voltasse a surgir igual, com as mesmas curvas, mas sem alguns buracos. Paisagens repetem-se, eventos desmultiplicam-se, mas Dombrar nunca é o mesmo, e quando chega ao final do caminho, deixa apenas uma frase: "Não ser eu, tornar-me nas curvas do caminho", e a seguir algumas reticências, e Dombrar assinou deixou o que conseguiu ainda guardar na sua bolsa. A minha avó contou-me que Dombrar fez muito, e que o caminho era esse tanto, e se algum dia, no promontório, dessem com uma sepultura de pedra, com serpentes esculpidas, e também um urso enorme e ameaçador a saltar da rocha como se fôssemos um salmão, era certamente a sua sepultura, pois só no caminho encontrava paz, e quando se parte, é a paz que se procura. Em nenhum outro local poderia o caminhante dormir senão ali,

Nunca encontrei a estrada, embora me tenham já dito que a calquei várias vezes. Já senti mar e vento, e já andei perdido nos mesmos locais uma e outra vez, mas não creio que tenha sido a estrada. Do que me contam, sempre me pareceu maior do que os passos, e as estradas por onde me estendi eram banais e quotidianas e passavam muito bem sem mim. Penso isso, mas sem certezas do caminho. Se a estrada existe, também é assim, incerta, e talvez então já a tenha visto, sentido o seu alcatrão luzente, visto o promontório que abre o meu mundo ao mar. Talvez em sonhos. Ou então, a estrada é mesmo um talvez bem esticado, com tanto de aleatório como de possível.

quinta-feira, agosto 13, 2015

Mero ar



Um sopro de palavras, porque ele não falava: lançava para o mundos letras de mãos dadas, e quem ouvisse que tomasse conta. Sentia-se assim e na propriedade de quem determina o que diz, era a pessoa menos responsável. Perde-se o controlo do pensamento, das ideias e da sua expressão, e perde-se tudo, de facto. É-se um mono simples, hirto como uma estátua, menos expressiva, mas suja do que lhe cai em cima, não de aves, mas sim da própria rotina de cada dia, do despertar/adormecer que abre e encerra as aventuras de 24 horas em tédio. Se saber o que diz, sem saber o que exprime, desconhecendo tantas vezes o que é. Num momento, senta-se e quer dividir toda esta dor em partes, mas quando dá pela sua tribuna, é um buraco voraz dentro de si, que lhe puxa tudo e lhe devolve ainda mais o que já estava acamado no leito subterrâneo de um oceano em forma de planície rochosa. As ondas não batem nas rochas: as ondas são rochas ainda maiores do que as pedras, e cada uma devolve-lhe o que recusa. Como se te dessem o par de meias mais foleiro de todos os Natais passados e futuros, mas em oferta diária. Por isso sopra palavras, por medo. Se as disser com intenção podem quebrar-se na sua língua, estalar e rebentar-lhe a boca em aftas. Proíbe-se de dizer o que quer, abestém-se de eleger o que deseja, e abdica de uma ditadura do seu próprio querer, da vontade, do fogo que lhe estoura todos os tecidos do corpo cosidos em pauta musical.

É ténue, a palavra, e mais ténue ainda cada olhar vazio na parede. Mas pelo menos, ainda está de pé, pelo menos por fora. Porque quando sopra palavras, é estendido na horizontal, sem ar que o eleve, sem levitação ou planador: assim mesmo, horizontal como uma frase, mas sem nunca amontoar a um texto.

segunda-feira, agosto 03, 2015

Palavras num tempo sem tempos verbais (que se arrastam e tentam ser algo)



As gotas de chuva são ponteiros do meu tempo. Cada uma delas um segundo mais que penso em ti, do lado de fora da janela. Na distância atrás da linha das casas, há muito espaço, mas sei que, na tua cadeira, és coberta por um véu de morrinha quando as nuvens te negam um sorriso. Imagino cada gotacomo um pouco de ti, e que esta pequenina morte que me enterra às vezes pode ser evitada por um analgésico visual, ou simplesmente fantasminhas brincalhões da minha cabeça, formados pela gotas de chuva que te trazem. Tic tac, splish, splosh, e a tua face reflectida na penumbra dos dias, contornando tudo o mais que torna as sextas em longas segundas. A chuva hoje é o meu caminho até ti: por entre a água que cai, a minha mão passa seca e encontra a tua, sem hora marcada, mas com tempo infinito. Não é feliz, não é triste, mas é o que mereces e o que quero dar. Oferecer-te, em cinco dedos, muitos mais do que números e dígitos digitais. Quero oferecer o meu coração para que haja espaço suficiente para esse negrume se espalhar e poder assim diluir-se e desaparecer mais rápido. Quero ser um segundo tu, quero ser mais espaço para que te sintas bem, te sintas em casa, para que atravesses esta chuvada impermeável e entres no sábado como quem chega e se senta a uma lareira, aconchegada, quente, protegida. Num sofá que é o teu mundo, numa manta que são os teus livros, a música e tudo o mais que te habita.


E depois, a minha mão pode voltar a mim e nada importa mais, desde que te saiba bem. A tua felicidade é um farol para o mundo em redor, e não quero que se apague. Tudo o mais é água que escorre, na verdade, e que a terra faz sua. Tu acima de tudo, e o céu é apenas uma comichão de miragem. 

sexta-feira, julho 24, 2015

Urbi et orbi



Arde-lhe a cidade na mente quando pensa no quanto ali ardeu com aquela cujo nome, não pronunciado, ainda assim parece um loop entre as fendas que na sua cabeça o rodeiam, o prendem e, chegado aquele momento em que se respira por fim de peito solto, o libertam. Prédios, vielas e pontes à vista são a desolação à margem da memória, e onde um dia dois sorrisos fizeram um céu, aparece um mal-estar de enxofre sulfuroso, que torna cada recanto numa suspeita e os passos na fuga que se arquitecta. Ser feliz tem momentos, poucos deles com futuro. Prometera nunca mais regressar, mas as promessas são como as coberturas de tartes: foram feitas para se partir e esmigalhar, alimentando ilusões e voraz sofreguidão na barriga, mas não no estômago, apenas naquele trilho algures entre o umbigo e as costelas onde parece desenrolar-se um tubo de corda para cima e para baixo, de cada vez que se lembra delas, de primeiros beijos, de últimos abraços, de lágrimas em forma de lápides. Ali, onde se enterraram, foi também onde uma vez nasceram um para o outro, como se nunca tivessem existido de outra maneira e como se jamais lhes passasse pela cabeça respirar sem que o outro pudesse partilhar os mesmos átomos de oxigénio. "A melhor coisa que nunca pensei acontecer-me", e ele sentira-se ganho na sua própria perda de independência. "És quem nunca julguei existir", e como é que dois nunca se tornam possíveis nenhum deles sabia, e jamais pensara sequer possível conhecer, com tanto pormenor, a pele do rosto de alguém, como a sola gasta traça um mapa das calçadas que toma para si como o único mundo que conhece, fora da vista, perto do sentimento, e totalmente colada a um coração multiplicado dentro de bocas, em toques de dedos e no resfolegar das roupas que procuram pretextos para serem segunda pele.

A cidade, no olhar, não fora fogo de vista. A cidade é um segredo que ela lhe murmurou várias vezes, um casaco que ela, simplesmente, lhe despiu para pendurar num cabide algures na alma. Pelas suas mãos, a cidade tornara-se morada gigante, onde se vive e se constrói aquilo que ergue a vida verdadeira. Sem isso, sem a sua presença e sem o seu dedo indicando e desenhando, a cidade era apenas um rasto de poeira acre na boca, uma sombra que paira e se esvai, um simples pretexto para alimentar um ganido que geme baixinho debaixo da língua. Simplesmente, era um autocarro que, sem paragens, vai do princípio ao fim sem recolher ninguém, sem se deter na estação terminal e destrambelhado, continua só, não se sabe bem para onde, nem com que objectivo. Segue apenas sem propósito. Ele senta-se, de vez em quando, e a cidade parece-lhe um vulcão, mas adormecido, e sente nas tábuas do banco todos os motivos para ser mais uma pedra da calçada, ou mais um tijolo simples  no que não vive. Depois levanta-se, tenta voltar, mas fica lá sempre. Não na cidade, mas no segredo murmurado. Recolhe-se então esticado e sonha com uma torre de rumores, muito ao longe, de princípios. Por fim, adormece.

terça-feira, julho 14, 2015

Pai II



Não sei se um ano cabe numa frase, ou sequer em várias num ocaso. Passou, e apercebo-me que não consigo capturar com palavras aquilo que foge delas, e que custa a articular, nem que seja para puxar o outro de locais onde só ele mesmo se pode arrancar. às vezes, ajuda a mão no ombro, o abraço fugidio, mas sentido, e até uma meia dúzia de palavras atabalhoadas, com a muleta dos clichés. No entanto, e no fim fim que gera este princípio da certeza de que nada voltará a ser como dantes, estamos apenas connosco, e assim vivemos. É das primeiras coisas que se aprende quando perdemos alguém sem retorno, e descobri isso dois dias depois de o meu pai ter morrido, quando articulei um texto em que tentei expressar o que não conseguia ter expressão. Várias pessoas chegaram a mim: comoveram-se, reviram-se, choraram, e naquela altura percebi que por muitos que todos passássemos pelo mesmo, eu estava ali, entregue a mim, e chegando aos outros, mas parado no meu próprio luto. Torna-se cada vez mais suportável, mas nunca passa totalmente, a não ser que fujamos do mundo, e essa é uma viagem que não quero fazer, mesmo que esse mundo seja dor a cada golfada de ar. Sentir é o contrário da morte, e se não o fizesse, seria ainda menos o homem que era o meu pai.

Perdi muito neste ano que passou. Perdi uma pessoa que conheço desde que me soube eu, e perdi-a na roleta das células. Com ele, perdi o pouco de esperança que tinha no sentido do mundo, aquele faz de conta que nos anima os olhos quando ainda não descobrimos que não há grande sentido, nem qualquer tipo de organização. A poesia existe, mas na caneta do acaso, e nunca se escreve a tinta permanente. Percebe-se que em tudo o que se quer ganhar com os outros, aposta-se o que se vai perder, e quando mais se aposta mais se perde, e quando se joga, é preciso saber se estamos dispostos a perder-nos para nos ganhar. Quando via o meu pai a definhar aos poucos, a deixar de ser Vitinho para se tornar só num -inho, pensava nisso, de como, se é para ir assim, se é para explodir num estertor silencioso, numa jaula chamada corpo onde o cativeiro nunca chega aos olhos que estão de atalaia para dizer aos outros que se vive, sim, mas vive-se mal, e que nós ali somos ao mesmo tempo a vergonha da morte, e o consolo do tempo que se arrepia de frio quando a carne arrefece, se é para ir assim, mais vale a pena torcer a pele e arrepiar tudo o que nos pode arrasar, de colocar o pé na porta do metro que se fecha para reabri-la e entrar na viagem, mesmo que o túnel seja escuro, se é isso que nos deixa mais próximos do resto. Um ano depois, perdi muita coisa, no meio dessa perda maior que uma pedra e um monte de conchas guardam; mas ganhei algo que foi um casulo de arroz doce quente. Não foi ele que mo deu, mas a dor de alguém só serve quando aduba e fertiliza árvores nos outros, e nesse sentido, um ano depois, o meu pai conseguiu criar em mim um pequenino pomar apenas e só por ter sido, uma vez na vida, fraco perante um brutal verdugo contra o qual ninguém é forte o suficiente.

Sempre que visito o meu pai, pergunto-me perguntando-lhe: sou digno de carregar o teu nome? O teu espírito, aquilo que vêem em ti? Sou digno de seguir as tuas passadas e fazer uma vida? Sou digno de poder transmitir um dia a quem me vale mais do que eu a tua memória, o teu nome, a tua figura, a única coisa que afinal conhecerão de ti? Sou digno de estar aqui no que é teu, de proteger e guardar os teus, de ser eu, de me olharem como alguém que merece ser, pelo menos, respeitado, de alguém através do qual te poderão ver, mesmo nas tuas imperfeições maiores e pequeno coração de actos gigantes?  Nunca obtive resposta, e a culpa não é tua, mas sempre minha. Um ano passou, mas eu não cheguei a lado algum, transito nem sei bem de onde para onde, nem de que maneira. Estar em frente a esse rectângulo onde agora te tratam como hóspede perpétuo é um pouco como trocar de estação no metro, procurando nova linha e nova cor para o rumo que se quer. Passou um ano e não sei para onde vou. Mas por dentro, descubro que continuo a pensar-te, de quando em vez, e a desejar que me aprovasses, e que me visses como um homem que na sua estranheza, apenas queria que lhe desses o mundo em meia dúzia de palavras e um sorriso retorcido. Que não há semana em que não gostasse de chegar a casa de cabeça erguida por estar num emprego onde constrói algo com os dons esquisitos que nunca lhe suprimiste. Gostava que pudesses ver esse homem que é uma criança ainda, por ser teu filho.

Passou um ano, e uma vida consegue lá caber dentro. Várias até, e sobra espaço para aquelas que podias ter vivido. Imagino-as, escrevo-as e nessas nunca morreste sequer. Apenas continuaste por aqui, e ser imortal é isso, mesmo que toque a finados e alguém chore quando o tempo passa. Estás, bem presente, e há quem viva sem sentir isso uma única vez.