terça-feira, outubro 25, 2016

Cronistão 12: Marks


O Marks é um tipo meio franzino, não muito diferente de muitos indivíduos bronzeados que durante o Verão são pescadores e o resto do ano fazem uns biscates: a pele engelhada, o passo gingão, os gestos feitos à laia de comunicação são tão portugueses quanto quirguizes e quando se apresenta vestido como um golfista escocês a pretexto de ser o nosso condutor de uma viagem longuíssima entre Naryn e Osh, nem acredito. Desenvolto, pega nas nossas mochilas e malas para arrumar no carro. São seis e meia da manhã e depois de um pequeno-almoço tomado, é hora de sair. Marks tem colegas, vamos em dois carros, mas é ele quem lidera a pandilha e gosta de enturmar. Quando paramos para apreciar a paisagem, quer tirar-nos fotos; ganha confiança suficiente para nos pedir para aparecer, e depois nem pede. Não é ostensivo, é apenas um tipo muito à vontade com as coisas e meio diferente de todos aqueles locais que não sendo rudes, são distantes. Marks gosta de amigos e sabe apreciar a viagem. Não faz má cara quando lhe dizemos que queremos fotografar e ainda recomenda dois ou três sítios bem catitas para captar as montanhas.


Na sua cabeça, não faz um trabalho: calhou ter um carro e malta estrangeira precisando de boleia. No entanto, fica claro que a viagem não é nossa, mas dele. Numa descida em gravilha, Marks vai com cuidado, mas ao aperceber-se de outra viatura em sentido contrário, parece dirigir-se ao seu encontro. inicialmente, achamos que se está a meter connosco, mas a trajectória não muda um nico, e o outro condutor apresenta a mesma atitude relaxada. Noto que estamos na beirinha da estrada e que mais dois centímetros e a beirinha é um à beira de cair umas boas dezenas de metros. Não falo a sua língua, mas digo o seu nome e Marks só sorri. A colisão é iminente e finalmente o segundo carro guina para a direita, deixando que o nosso passe. Marks trava de súbito. Entre nós, há olhares de terror partilhados, alguma perplexidade e quando o nosso amigo abe a porta com velocidade e sai disparado, preparo a máquina para o modo de movimento: vou assistir com certeza a pancadaria. Falso alarme: Marks abraça o outro condutor e afinal, são amigos. Era uma brincadeira, porque aqui a morte é um passatempo quando o tédio não pode ser opção. Insistem que lhes tiremos fotos, ambos nos dão endereços online e marram no envio das imagens, garantimos que sim, mas posso dizer que meses depois ainda não receberam nada. O amigo de Marks deixa-nos ver o seu Honda verde escuro e lá dentro, uma mulher toma conta de umas sete ou oito crianças, duas delas bebés de colo. Ela tem um ar meio desolado e a visão das máquinas fotográficas esbofeteia-lhe a cara.


Alguns quilómetros depois, após certas montanhas nos terem deixado abananados, Marks desce-nos à terra e envereda por um caminho que conduz a uma aldeia circunspecta. Paramos aqui? Sim, e se ao início a perplexidade nos invade, a constatação de que estamos no local de origem do nosso Marks deixa-nos sorridentes. Somos encaminhados até sua casa, conhecemos a mãe e uns familiares e convida-nos a partilhar mesa e comida. Eu conheço-me e evito um possível incidente diplomático recusando com simpatia a oferta. A maior parte do grupo comunga do momento e pão, queijo e leite fermentado trocam de mãos. Parece que nos conhecemos há algum tempo e no entanto faz seis horas que saímos de Naryn, e nem sabemos bem quanto falta para Osh. Haverá branca pelo meio, com uns carros, e um condutor idoso cuja adrenalina já não funciona enquanto se arma em Mad Max, mas naquele momento não sabemos e naquela casa de tijolo, que vai a maio de uma reconstrução, tudo é agradável e pacífico e nem uma insinuação para que deixemos uma moedinha estrada aquela aparência de comunhão mundial. Penso em como viajar é também isto, estar com quem não se conhece e fingir a plenitude da proximidade, falsa e oca, mas agradável. Cumprimentar velhos amigos de segundos e alapar nos azulejos de alguém com quem nem sequer conseguimos comunicar. Sairmos de nós, mais do que sairmos de algures: é assim que defino viajar.


quinta-feira, outubro 20, 2016

Cronistão 11: Que força é essa?


Os processos biológicos do ser humano funcionam sempre fora do nosso relógio e quando te vês obrigado a parar uma viagem de carro no meio dos montes, sem qualquer cidade por perto, apenas e só porque os teus intestinos tocaram a sirene e precisam mesmo de ser salvos, és lembrado que por muito livre arbítrio que deus nosso senhor tenha dado ao ser humano, és em última instância escravo do teu corpo. A carne não só se diverte como ordena e pede e obedeces e pronto. Durante vários anos, a minha relação com o meu tracto intestinal, se me permitem esta divagação depois de duas crónicas tentando descrever beleza que não pode ser colocada em letras, foi sempre de enorme entendimento. Se eu não queria, ele não puxava, e na quase totalidade das ocasiões em que me via obrigado a permanecer fora de casa, longe do assento pálido de cerâmica a que me habituei a chamar de "trono real", o meu abdómen dormia sem ressonar. Quando resfolegava, uns breves momentos de meditação ajudavam a controlar; e só mesmo no limite dos prazos é que a evacuação se dava. Nos últimos anos, porém, o diálogo tem acabado e este processo de paz é mais parecido com a situação do Médio Oriente. Ora, portanto, estou eu a quase 3000 metros de altitude, frio a picar, um ventinho que trabalha como uma navalha, horas contadas para chegar a Naryn, com muito do caminho numa estrada de calhau e eis que sinto o apelo que temo. Tento gerir, mas logo noto que é impossível: os espasmos multiplicam-se, o desconforto aumenta. A caravana pára e depois de encontrar um rolo de papel higiénico, disparo pela porta procurando um abrigo. Sem sucesso, é uma planície e eu penso que porra, tanta puta de tanta montanha alta como tudo e não há um único montinho onde me posso esconder. A solução apresenta-se como a traseira do veículo, e aí aninho e sou servo do meu sistema digestivo. Uns minutos chegam para me reduzir à minha insignificância celular e quando regresso ao calor de um carro, deixo o meu vestígio mesmo no meio da estrada, ali no ermo, ali no nada. Rei por um dia, tonto na estepe. Acho que é qualquer coisa deste género.


Reencontraremos o alcatrão uns bons quilómetros à frente, mas só depois de entrar na montanha russa: sobe-se e desce-se, enormes rectas debaixo do sol, 14 cotovelos em curva sob granizo inclemente em Agosto, a luz dançando nas frinchas das montanhas, tapa e descobre das nuvens, fileiras de montes alinhadas geometricamente como pedaços de um lego que ninguém montou e parece ter brotado do chão. A viagem demora umas oito horas e quando damos com as vermelhas elevações que rodeiam Naryn, passando um túnel que as atravessa, sabemos que estamos perto. Esta cidade foi outrora vital na Rota da Seda - estamos a menos de 100 km da China e a maior parte dos turistas que se aventuram por esta região juntam todos estes "istões" num pacote. Naryn é ponto de passagem obrigatório para quem chega e vai, por uma questão prática. Deve o nome a um rio que a atravessa e é atravessada por uma longa avenida chamada Lenin, através da qual descobrimos que o grande papá comunista deixou uma grande impressão neste local: simbologia da época, bustos e estátuas... A Avenida é larga e limpa e apenas quando perdemos algum tempo a percorrê-la a pé nos apercebemos de que a cidade esconde perpendiculares onde domina o entulho. No entanto, vemos crianças a brincar felizes, pessoas vendendo fruta e legumes num mercado espontâneo, mulheres que à janela estendem roupa e nos acenam, um velhote bêbado metendo conversa em russo com gente que só fala a língua de Camões e Chagas Freitas. Acho sempre incrível como estas pessoas passam por cima de dificuldades e obstáculos que me fariam queixar durante minutos a fio e simplesmente vivem e fazem o melhor que podem com isso.


Quando regresso ao hotel, aproveito para visitar a sala de estar, que a há. Uma jovem vê um reality show local com o namorado e não querendo perturbar, sento-me numa poltrona fora da sala, onde converso com quem cá está. Vejo passar várias pessoas, de várias cores e vestimentas e penso como mesmo numa cidade de passagem, sem grandes pontos de aparente interesse, se encontram mundos e imagino as histórias que cada um ofereceria se nos sentássemos a conversar. Penso em como as viagens são mais do que o chão que se pisa e as paisagens que se colam à retina, de como deixamos outro tipo de vestígios que não biológicos e que as pessoas e os olhares também ficam connosco e se explicam ainda menos do que as emoções. Esteve-se e observou-se, contactou mesmo sem falar e quando no fim de um dia o cansaço se esbate e o nosso corpo se entrega à cama, parece que no quarto pairam também essas vozes e experiências e que só dormimos mesmo sozinhos se não pensarmos em outrem, ou não nos recordarmos que nos milhares de distância que nos separam de quem conhecemos, existe uma viagem constante de afectos. Desligo o telemóvel pouco depois de ler o teu beijo e quando adormeço, tenho a certeza prática de tê-lo sentido nos lábios.

sexta-feira, outubro 14, 2016

Cronistão 10: Banquetes


Fiz 20 anos de escutismo, grosso modo, e já dormi em várias modalidades de barbárie controlada. Tendas pequeninas e grandes, igloos e canadianas, o relento verdadeiro com cúpula pintada pela noite e casinhas grandes e pequenas onde só dormem os bichos, e até tenho para contar coretos e bancas do peixe. Já dormi em quase todo o género de locais que possam pensar, até camas. No entanto, foi a primeira vez que chamei refúgio a um Yurt, circular e branco, uma fortaleza de lona que parece querer sumir ao primeiro sopro ventoso, mas resiste sólido e protector, prometeu a quem o ergueu que não me ia deixar mal e assim é. Por fora impera o pálido monocromático, mas desvenda-se o panal que tapa a entrada e há um festival de cores, espalhadas em múltiplos tons, retalhos irmãos que formam cobertores por debaixo de mim, posteriormente por cima de mim e até em meu redor. A tenda é para 5 e mais tarde dormiremos encostadinhos, principalmente quando chegarmos de uma sessão de fotografia nocturna às estrelas que nos deixará cones de gelado. Mas agora o sol acabou de se pôr e estou no umbigo deste pequeno mundo interior, com toda a gente arrumando e desarrumando e eu simplesmente abstraio-me. Apenas regresso a mim quando chamam para jantar, e o o restaurante é igualzinho, branco por fora e espirro colorido por dentro. Variedades de comida espalham-se por uma mesa horizontal e corrida, frutos secos, pão compotas, biscoitos, rebuçados, salgados e carne seca, até que chega o prato principal que é um peixe enigma, pergunto-lhe como foi preparado e não me sabe responder. Na minha boca, segreda-me água doce e sei desde logo que veio do mesmo lago que fotografei anteriormente, O que deliciou os meus olhos consola agora o meu estômago e confunde-me a boca. O pão é também grande amigos para alguém como eu que sempre viu na comida um alçapão de incómodo.


A noite de sono que se segue é interrompida por um metrónomo sonoro, batuques de dedos no tecto do Yurt. No meu estremunho, identifico chuva e o meu corpo simplesmente se estira, relaxa, goza o prazer de estar tão longe de tudo com um prazer que me faz regressar a casa. Sinto isto sem pensar, que virando-me para outro lado como que apago e quando regresso a mim consciente, já são seis e meia da manhã. Sou chamado pelo despertador do telemóvel para fotografar. Vestido a rigor para um baile de baixa temperatura, sinto que o Yurt foi afinal nave voadora e aterrei noutro lugar. O cenário rochoso que me rodeava no dia anterior está agora aconchegado por um grosso lençol de neve, como se o meu sono fosse de hibernação e despertasse num Inverno permanente. Receio até caminhar, com medo de que esta viagem esteja ainda a decorrer, mas uso a máquina para fixar isto, ninguém acreditaria se contasse a diferença que seis ou sete horas podem fazer num local. As nuvens cinzentas quase me despenteiam com dedos e o lago reflecte a sua cor e murcha o verde dos pastos. Cavalos aproximam-se da água e param, ruminando a verdura, dispondo-se em contas geométricas, cada um a sua própria manada. São arcos defronte da escuridão das águas, contra-luz da brancura das neves e funcionam como uma demarcação entre terra, lago e céu, garantindo que são reias, mas em simultâneo aumentando a irrealidade desta visão. Enquanto caminho fotografo e vejo, ao longe, a luz solar furando de quando em vez, procurando aquecer-nos. O frio é uma capa que me desconforta, mas afirma vida em mim. Clico tantas vezes que a máquina corre o risco de se partir e quando sou insignificante aos olhos de uma montanha tão invencível que esmaga sem tocar, sento-me na terra aveludada, acolhedora e choro sem ninguém ver, porque não consigo suportar tanta beleza sem ter uma reacção física que me trema de alicerce a telhado, o mundo como uma casa tão inatingível que só consigo lá viver abdicando da minha armadura. Cada lágrima é uma benção e um agradecimento, uma alegria por estar vivo neste momento, longe de tudo o que não vale a pena e ser prisioneiro voluntário de um carcereiro chamado mundo. São coisas do mundo, que não se podem ver ao longe, como dizia a canção... e com a voz que me resta, não vou saber contar. Restam-me imagens, fotos e este sal que salta de mim porque sou demasiado imperfeito. Corre para o esplendor que o arrancou e é seu.


Subitamente, levo dezenas de calduços em simultâneo, pequeninos, Bolas de gelo brancas caem sobre mim e estou debaixo de uma tempestade de granizo em Agosto. O Yurt é a salvação e protegendo a máquina debaixo do meu blusão, com pouca dedicação ao meu próprio bem-estar, enceto rápido sprint para me proteger. O abrigo afasta-se a 300 metros e a minha corrida interrompe-se aos 50 quando me apercebo de que o ar se tornou mais denso e respirar um acto de coragem quando feita em esforço. Aos 3000 metros, viver custa um pouco mais, diz o teu corpo, como se lamentasse que para seres verdadeiramente feliz e mereceres o sorriso que tens estampado na cara tivesses de sofrer. Dar valor ao que consegues através de uma dor que é travão. Em passo acelerado, acabo por chegar à tenda. A mochila recebe a máquina, limpa e intacta, e nos cobertores, recubro-me ainda a sorrir. A dor passou e ser feliz é também deixar que o que dói corra para longe de nós, para uma altitude onde não tem outro remédio senão estacar e morrer à fome. O resto são montes nevados soprando feitiços que nos aumentam 100 vezes mais do que somos, sem que seja preciso entoá-los. Basta pensar neles e agora mesmo, enquanto escrevo isto, as nuvens rodeiam minha cabeça e estou certo que aquelas luzes que se dirigem para mim são de um avião. Daqueles que voa bem alto.

sexta-feira, outubro 07, 2016

Cronistão 9: Não ter palavras



Quero que façam um exercício e na vossa biblioteca de memória encontrem o local mais belo que deram a provar aos vossos olhos.Não se apressem e instalem-se confortavelmente, percorrendo com delícia todo o mundo visual com que foram privilegiados na vida. Escolham devagar, com critério, com gosto. Quando se decidirem, recordem-se de como o vosso corpo se alterou nessa presença, como a respiração simplesmente se transforma, de como a vossa existência, nuns segundos, entrou num local onde a vossa mente jamais pensara subir. Enquanto se entregarem a estas linhas, mantenham no vosso centro essa trepidação do ser e tornem-se em mim no momento em que um Honda preto desceu uma ligeira colina para contemplar uma larga planície à beira de um lago onde pasta gado, principalmente cavalos. Estou a 3000 metros de altitude, a erva de um verde suave e cândido, atravessada por veias de terra onde os veículos podem entregar-se ao masoquismo mecânico. À minha frente, uma boca bem aberta, defronte de montanhas, enche-se de água e recusa-se a engoli-la. Chamam-lhe lago Song-Kol e o seu tamanho é modesto porque antes vimos uma mastondôntica massa aquática sem aparente fim. Saio do carro, tendas brancas chamadas yurts formando a espinha dorsal da vida da comunidade nómada que aqui habita, uma procissão de panos coloridos estendidos em cordas de roupa na pauta musical do vento, lançando-nos melodias que nem se escutam nem são visíveis, mas passam-nos pelas mãos.


Esqueço-os e às pessoas e fico estacado, assim como quem atrai não raios mas o etéreo e concentro-me em como vou conseguir traduzir mais tarde o indizível. É o centro do meu mundo hoje, sinto-me tão anão  que me entrego ao cenário como um megafone que grita o esplendor. O lago e as montanhas esmagam, mas também são uma casa onde me considero sempre convidado. Tenho medo de chorar porque naquela mistura de cores e de desconhecido, de um domínio do mundo tão extenso e tão inconcebível que sou uma peçazinha sem importância num quadro perfeito, sinto-me fraco demais para suportar algo tão belo e excelso, tão único e especial, tão fora do meu entendimento como pessoa que as juntas que me suportam tremem e quase soçobram, mas agarro-me à máquina, aproveitando um sol que me acaricia com a ponta da língua e passo para o clic os clacs que me abalam. Aguento estóico, finjo apenas maravilhamento comum, mas na verdade tapo-me com um largo cobertor de espanto. Mais tarde, quando tenho alguns minutos estendido e posso percorrer tudo isto por extenso, corro todos os locais que dei a mim mesmo como provas e desafios. Apareço, feito espectro, no Cântaro Magro e atravesso a Nave da Mestra como se nada me importasse; a serra da Lousã abraça-me e nela reencontro tudo que nela me molda em plasticina do mundo e atira-me enrolado para os altos picos da Madeira, as levadas suas, a velha floresta do Fanal em nevoeiro, rolo como um tonto até aos Picos da Europa, a Ruta del Cares, rocha bruta, e noutros locais onde fui tantas vezes mais eu do que me cabia ser. Este local, entalado entre o lago e picos de oxigénio denso, é talvez o mais belo onde estive até hoje e sei de imediato que falharei na altura de transmitir a realidade do que me parece irreal e surreal.


A delícia é muito visual, mas rodeia-me uma cultura nómada que se instalou no espanto como quem já não se admira. Na Ásia Central, este é um modo de vida desde os primórdios e embora veja artefactos menos milenares como jipes, ainda há aqui muito de genuíno. As tendas pálidas, a ordenha das vacas, buscar água ao lago montando num burro, ver crianças com uns dez anos dominando o dorso de cavalos como se tivessem visto na vida selas antes de fraldas... A sensação é a de que esta gente, vivendo em altitude e distante de um traço de civilização a sério, segue o ritmo do sol, seja na duração dos dias ou dos ciclos. Chega uma altura em que recolhem lonas e animais para descer aos vales onde o Inverno não chega em brancura nevada. É um modo de estar e ser mais dependente dos caprichos naturais, mas onde o relógio interior badala com mais vontade; e quando fotografo quatro garotos de idades diferentes que brincam e se metem connosco, alinhando em "macaquinhos do chinês" sem tradução, vejo sorrisos que me lembram, vagamente, a criança que já fui. Não sou um deles, mas de máquina em punho, finjo ser. Aqui, no meio de um ponto que não existe para todos os efeitos da credibilidade, cada um pode ser o que quiser e sem memória.

segunda-feira, outubro 03, 2016

Cronistão 8: o trânsito da paisagem


Em Balkychy, chegamos ao ponto intermédio da ligação entre Karakol e o lago Song-Kol. Como outras cidades quirguizes, o império russo fez surgir no meio de nenhures um entreposto que se tornou cidade, assumindo importância estratégia nos tempos soviéticos. Mas com a queda da URSS, veio uma travessia no deserto que é quase literal, porque em redor é o que praticamente existe. É aqui que mudamos de motoristas e até que cheguem, almoçamos numa coisa que nem tasco é: tem quatro paredes, um tecto e um balcão, mas parece ter sido um improviso repentista de alguém que encontrou um espaço fechado e se apercebeu de que havendo uma estrada ao lado, não se perdia nada em montar um comes e bebes. Não consigo perceber muito bem o que há disponível para comer, entre a ausência de menu, a falta de alguém que fale inglês (tradição local) e o aspecto daquilo que aparenta ser comestível. Assertivo, regresso ao carro e puxo de uma lata de atum e quem chama ao bacalhau fiel amigo, claramente nunca se viu por terras de exotismo para a boca. Sentamo-nos os nove numa mesa redonda, o centro de uma sala perdida nas traseiras e a decoração é tão kitsch que me fere os olhos - fotos panorâmicas das montanhas saídas dos anos 80 e sobre a mesa, duas fitas peganhentas, barradas de mel, servindo de pega-moscas e resultam, pois estão carregadinhas de insectos capturados, à vista próxima de todos. Qualquer coisa neste espaço dá fome.


O Talgat chega e vai conduzir-nos, com o primo, ao destino. Numa refrescante mudança, exprime-se em língua britânica de forma competente e é alguém com quem se consegue ter uma conversa que vá para além dos dedos e dos grunhos. Fala-nos da Turquia, onde estudou e se formou em Relações Internacionais. No entanto, a sua ambição é a de criar uma empresa de transportes com o primo, para levar turistas a todos os cantos do país. Acredita que o futuro está nesta área. É um rapaz motivado e ambicioso, mas percebe pouco de portugalidade: o seu jogador preferido é o grande maestro Rui Costa, mas apoia o Futebol Clube do Porto, naquilo que é uma heresia que quase consegue separar famílias em Portugal. No entretanto, os quilómetros deslizam o cenário e as areias barrentas dão lugar a paisagens de verdadeira montanha, com pedra sólida e bruta, o cinzento espaçado de verdes rasteiros e altitudes que travam na garganta com o freio do espanto: várias vezes chegamos aos 3000 metros e ao longe, os picos nevados do Tien Shan, a cordilheira mágica que da China entra no Quirguistão sem bater à porta ou pedir licença, alerta-nos que da terra partimos para o céu, terreno proibido. A estrada de alcatrão dá lugar à gravilha, algo que enfrentaremos durante 50 km de um caminho que noutros países seriam apenas para jipes, mas que aqui, em espantosa inversão de valores e regras, é perfeitamente aceitável para qualquer veículo ligeiro, no caso um Honda. O carro queixa-se e tosse a certa altura, gemendo o furo no pneu direito traseiro. Felizmente foi num raro pedaço plano. Talgat e o primo procedem à reparação e nós, como bons turistas ocidentais, fartamo-nos de fotografar enquanto eles trabalham. O dia pede-nos isso, oferecendo uma luz solar cujo cortejo de ocasionais nuvens transforma o planalto no couro malhado de uma das muitas vacas que vamos vendo incrustadas na paisagem. Quando a viagem prossegue, sabemos que há tanto para registar, mas não podemos parar a cada motivo. É o grande drama de fazer turismo neste canto do mundo: aqui a Física inverte-se e o espaço é muito maior do que o tempo - Einstein encontra, aqui, a morada da sua loucura.


No topo de uma das montanhas, consigo afastar-me e simplesmente ser absorvido por tudo. Nunca por completo, sou demasiado sujo e complicado para pertencer a esta pureza simples de ser, mas o suficiente para me apagar uns momentos, na busca da minha respiração mais cadente, num momento de altitude que me assenta bem. Vejo quilómetros de um vale se abre por entre montanhas, a luz do sol servindo de tapete, cristas rochosas que não ameaçam mas acolhem o olhar para poder ser iludido pela felicidade fugidia do sorriso automático da beleza. Penso que é isto, que tantas vezes é vida completa num pequeno momento estático em que nos deixamos fazer parte do que nos é superior, sem fés ou crenças, superior apenas porque sobreviveu e conseguiu, ainda assim, dominar. É a beleza da montanha e julgo não haver algo de mais belo para ver. A questão é que ainda não chegara ao lago Song-Kol, estando muito longe de imaginar que por uma vez o meu cérebro se iria apagar e as palavras se perderiam entre as estrelas.