quarta-feira, outubro 16, 2019

Fachinação 6: Rotas da Seda


Embora gostemos de dizer que criámos a Globalização, muitos séculos antes de os Portugueses germinarem a ideia de se lançar ao mar semi-desconhecido existia uma ligação permanente entre três continentes que fez andar o mundo. Todos os Impérios da História envidaram esforços - e por vezes, encontraram o seu fim - para tentar o controlo dos caminhos e trilhos que ligavam a Ásia à Europa através de uma rede comercial alargada onde participam milhões de pessoas. Ainda que uma diversidade enorme de produtos viajasse pelas montanhas e desertos, vales e lagos, rios e planaltos, apenas um plasmou na posteridade o nome com que esta gigantesca empreitada ficou conhecida: a Rota da Seda, termo criado apenas no século XIX, mas que reflecte o fascínio que esse tecido de suavidade convidativa sempre gerou no Ocidente. Reflexo de uma inclinação comercial que sempre existiu nos povos nómadas da Ásia Central, demasiado irrequietos para considerarem uma carreira em tarefas mais sedentárias como a Agricultura ou a Pecuária, terá começado por volta do século II antes de Cristo, unificando algumas relações regionais que juntavam povos asiáticos. É muito tempo. Foi alargando na medida da formação dos impérios, aproveitando vontades políticas, ganância económica e de maneira mais prática, o talento de criação de cavalos dos moradores das estepes da Ásia Central. O seu começo na China galgou gradualmente todo o continente asiático, chegando em primeiro onde hoje é o Irão, nos tempos da Pérsia, ao Egipto e à Europa, envolvendo as antigas cidades-estado gregas e posteriormente o desenvolvido Império Romano.

Em Roma, os produtos desta Rota causaram sensação. Depois de conquistar praticamente metade da Europa e o Norte de África, a atenção do Império virou-se a Oriente. A Anatólia em primeiro, seguindo-se as terras em redor do Mar Negro e parou algures no Cáspio. Conta, pelo menos, a historiografia oficial. No entanto, não cala a lenda da legião perdida, soldados romanos que depois de capturados pelos Párcios, foram enviados para as fronteiras mais a Oriente, onde hoje se situa o Cazaquistão, para combater a expansão chinesa a Leste. Depois da vitória da China, a dinastia Han ficou tão impressionada com o comportamento destes soldados estrangeiros que os incluiu no próprio exército, ficando conhecidos como ""Li-Jien". Ou seja, legião. Instalaram-se junto da cidade de Liqian e segundo as crónicas da época, por aí ficaram a viver. A verdade é que cinquenta por cento dos habitantes desta cidade mostram características muito ocidentais como a altura, a cor dos olhos ou a forma dos narizes. Nalgumas aldeias, a tradição dos antepassados romanos é celebrada com galhardia. 


Pela Idade Média, as relações entre Ásia e Europa estavam mais do que estabelecidas, com as cidades italianas a servir de ponto final da Rota que começava bem lá longe no Extremo Oriente. Pelo caminho, certas cidades tornaram-se pontos de luz num mundo onde as trevas da guerra e do obscurantismo se faziam sentir com força em ocasiões: Baghdad e a sua magnífica biblioteca, mais tarde destruída pelo Mongóis; Samarcanda. onde Timur, o selvagem conquistador mongol ergueria o seu imponente mausoléu; Merv, uma das maiores cidades do mundo no século XIII; e claro, Kashgar, a cidade que visitei nestes dias, um oásis aproveitado para ponto de paragem obrigatório nesta rota. Na História eurocêntrica que aprendemos na escola, todo este movimento, um processo de união de povos importantíssimo para percebermos o mundo actual - tanto que o Médio Oriente e a Ásia Central continuam a ser a área de geopolítica mais importante e tensa que existe - é uma nota de rodapé. Mas constitui, na verdade, a primeira grande ligação entre o mundo conhecido de há mais de vinte séculos, uma construção conjunta que envolveu culturas muito diferentes, religiões antagónicas e estados rivais por amor de uma única coisa apenas: dinheiro. Não é poético, mas é verdade. Casam-se dois aguçados fascínios: o do Ocidente pelos produtos exóticos, os aromas das especiarias, o fulgente brilho do jade; o do Oriente pelo vil metal dourado e uma expansão metafórica da sua influência. Fala-se muito do choque de civilizações, mas devia chamar-se a isto a infecção das mesmas, com uma superior cultura oriental a imiscuir-se na estética e letras dos seus parentes europeus. A Rota da Seda, e a sua memória, os seus lugares, são hoje Património da UNESCO e embora englobem apenas três países - o Cazaquistão, o meu Quirguistão e a China - a sua influência espalha-se para a península indiana, a Rússia ou mesmo a Escandinávia. 

Ainda que esses tempos tenham terminado, Kashgar continua a ser um importante local de trocas comerciais. O Grande Bazar de Domingo é um desafio às leis do tempo. Não começa de manhã como todos os mercados, mas sim por volta da hora de almoço. A culpa é do governo Chinês, que insiste em unificar a hora em todo o território... ainda que entre Pequim e esta região do país existem seis fusos horários. Os relógios, em Kashgar, não se compadecem do sol: enganam-no. A tradição que a cidade criou como ponto fulcral da Rota da Seda, na transição entre as terras chinesas e as estepeas nómadas da Ásia Central ainda hoje se reflecte na importância que este Bazar tem. É enorme, um mundo. Só preciso de uns segundos para entender que me aguarda uma experiência bem diferente. Não é que seja a minha primeira aventura neste tipo de eventos. O Mercado de Osh, no Quirguistão tinha, à vontade, cinco quilómetros quadrados e uma infinitude de produtos, pessoas e até estímulos. Mas neste, recai um lençol de caos que não existe em Osh. Ainda que exista uma ordem geral, uma separação por produtos e áreas, a maralha de quem compra e vende funde-se a tal ponto que não sabemos quem é quem. Faz algum sentido. Sendo Xinkiang uma das mais remotas zonas chinesas, este é o único local em centenas de quilómetros onde se pode trocar e vender o que que se queira. E aqui, é mesmo literal. Podem encontrar o que quiserem e desejarem e mesmo aquilo que pensam que não desejam: há mais de cinco mil postos de venda. Calcula-se que a cada domingo, duzentas mil pessoas entram e saem do recinto do mercado, e este abre até durante a semana, embora com uma dimensão bem diferente. Se visitam Kashgar a um domingo, este é o local para se estar.


Usamos a porta Leste para entrar no recinto e rapidamente somos engolidos. Esta é a área da metalurgia e alguns do grupo começam logo a cobiçar woks e panelas. Mas rapidamente tudo isto se mistura com bancas de roupa, onde vejo um miúdo dormindo sobre uma toalha no chão, e uma mesa onde, secando ao sol, escorpiões se preparam para posteriormente desaparecerem no estômago de alguém. Uns metros mais à frente, mais um ponto de comezaina, desta vez churrascos, Um velhote faz brasas usando um secador, paciente, concentrado. Noto que os homens vestem de forma simples. Os mais novos t-shirt e calças de ganga; os mais velhos camisa e calças de fazenda, ocasionalmente usando chapéus quirguizes. As mulheres, independentemente da idade, são lampejos coloridos que passam, tecidos leves, um lenço em redor da cabeça mas sem nunca tapar a cara. É a sua versão de roupa de domingo. Quando começamos a subir uma ladeira, o chão desaparece e num espaço apertado, a multidão comprime-se enquanto verifica as bandas de venda de ambos os lados do caminho. O barulho de vozes que jogam ao eixo torna-se numa redoma que me impede sequer de prestar atenção ao resto. Aperto a máquina contra mim e puxo a mochila para a minha vista. Vejo de tudo, este é o espaço da quinquilharia corriqueira, desde roupa de trazer por casa até brinquedos made in daqui. A maior parte dos comerciantes são mulheres e trazem consigo os filhos, alguns ajudam, outros simplesmente têm o olhar perdido de quem perdeu alguma noção do mundo. Por cima de todas, uma voz repete mecanicamente os mesmos sons, numa linguagem que não é mandarim. Talvez seja uigur. A cadência é a mesma, como um metrónomo, as palavras repetem-se. Que tipo admirável, penso, o pregão é de uma consistência irresistível. Reparo então que na verdade, o que ouço foi gravado previamente e uma coluna portátil lança os apelos para a multidão. Que preguiçoso, penso: onde está a ética vocal dos comerciantes de antigamente? Qualquer dia, até os piropos dos pedreiros são previamente digitalizados.

No topo, a secção de tecidos estende-se por centenas de metros. Aqui, podemos encontrar sedas principalmente, coloridas, padrões lindíssimos e nalguns locais, comerciantes que dormem enrolados nelas enquanto a sombra dos chapéus e toldos os esconde do sol da tarde/manhã. Há cetins, tecido de alfaiate, algodão, gazes, crepes, organza, musseline... Na luz da tarde, brilham como se fossem preciosos, e para estas pessoas são-no. Não compro nada por aqui, mas observo quem conversa, regateia, numa actividade tão normal, tão fundamental para esta cultura que faz da troca o seu modo de vida. Numa conversa particularmente encarniçada, uma mulher de blusa amarela discute o preço de um tecido rendilhado com a vendedora, cabeça tapada por um lenço verde, a dureza da vida na postura, da fade. Não é agressivo, há risos e trocas como um jogo de ténis. Numa loja a pouca distância, instalada num contentor de metal, não resisto a passar a mão por tubos de tecido de seda, com desenhos incríveis debruados a dourado. São de cores escuras, azuis e violetas, também verdes e vermelhos, com estampas complexas que deixam poucos espaços livres. A vendedora observa-me e ao lado, a filha, uma garota que não mais do que dez anos, ajuda com os trocos. Uma blusa branca meio transparente, arejada e uma saia leve cor de laranja são praticamente um anúncio ao próprio produto, um outro tipo de vestimenta de trabalho. Mas o que me rodeia é tudo isto: panos, tecidos, em paredes e pelo chão, pessoas sobre eles e à sua frente, mostrando-mos e a quem passa, cobiçando atenção, entregando o seu tempo para nos convencer na compra. Às vezes, a dificuldade está na escolha e na falta de variedade em simultâneo. Uma cliente pede para que dois tecidos diferentes se transformam num. Nada que demova a comerciante: senta-se atrás de uma máquina de costura daquelas antigas a pedal e resolve o problema. Recordei-me logo da minha avó materna, que fazia da máquina de costura uma arma para mudar o mundo, de como conversávamos, ela idosa de buço e eu criança parva, sobre várias coisas. 


Enquanto regresso, há visões de alucinação causadas pela tempestade colorida dos tecidos, pessoas que aparecem e desaparecem, que se transformam em alquimia. A certa altura, julgo mesmo ver um menino careca a oferecer-me um pouco do ramen que come a partir de um copo de plástico. Apercebo-me que é real, então. Sorrio e recuso. Come tudo, o lambão. Consigo ver então a parte inferior do Bazar. Um imenso mar vermelho de toldos, não consigo sequer contá-los. Um pouco mais à frente, surge o mercado coberto, onde se encontra a grande maioria das lojas. É para onde me dirijo a seguir. Novamente vou na maré humana, sorrindo interiormente. Eu sou tão alérgico a pessoas e a confusão e arranjo sempre maneira de acabar precisamente no oceano das pessoas. De onde estou, as filas de gente são ondas e marés. Alguém choca contra mim e é um garoto que aperta um capacete encarnado contra a cabeça, enquanto bebe uma garrafa de sumo de laranja. Está mais assarapantado do que eu . Chego à principal praça da feira ainda meio confuso, mas vejo ao longe alguns membros do meu grupo que desaparecem numa sombra. Sigo-os e vejo corredores enormes, ladeados por quiosques que só vendem roupa. Estes corredores são cruzados por outros perpendiculares e este é um enorme labirinto consumista. Consigo prestar mais atenção ao cuidado com que cada vendedor arruma os vestuário e por vezes lhe fala. Como se uma relação fosse estabelecida. Nunca estão sós. Ou tomam conta da família enquanto esperam a oportunidade de negócio ou então reúnem-se em magotes defronte da sua banca, ou de outras, conversando com colegas, amigos, passando o tempo, deixando que mais um domingo se escoe. Dou uma curva à direita e sou abalroado. Olho para o chão e um bébé passeia-se num andarilho. Rói uma caneca cor de rosa e em velocidade a mãe vem buscá-lo, pede-me desculpa em uigur, sorri-me. Retribuo e tento fazer-me entender por gestos de que não tem mal nenhum. A minha sobrinha dando-me marretadas com tupperwares surge-me na ideia. Regressam ambos para a sua banca, onde uma senhora idosa, sentada numa cadeira de escritório, me sorri também. Vê-me segurando na máquina fotográfica e gesticula-me jovialmente que a fotografe. Salta então um garoto que mal observa a máquina empunhada, desaparece para onde veio. Brinco com ele às escondidas, finjo que estou a vê-lo, finjo que não estou. Ri muito, ele, mas não o convenço. Acabo por retratar só a senhora, que nem fica a olhar para mim porque logo os meus colegas de viagem caem na cena chamando a sua atenção.

Uma das maiores bizarrias que por aqui vejo são as estampas que existem nalgumas camisolas. Nalguns casos à venda, noutras já envergadas por consumidores. Não só apresentam mensagens preocupantes, como muitas vezes são traduções de chinês para inglês que fazem zero sentido. Uma adolescente enverga orgulhosamente "Femme c'est trés marvail, use me", num recuo de séculos da emancipação feminina e o golpe final na fachada oca de Beyoncé; numa banca, pendurava numa cruzeta, a face de uma camisola pergunta "Ai that girl the one onotgot away?"; há estampas de um Sperman e de um Superman que veste igualzinho aos Spider-man e usas os seus exactos poderes; um adolescente de óculos parece fã de uma marca chamada "The sexy face", conforme a sua t-shirt, acompanhada da inscrição "Never stop studying"; alguém mais festivo incentiva a malta a aplaudir, mas com a infelicidade de ver inscrito "Crap your hands!"; e provavelmente numa revolta contra a confusão do mundo, uma camisola com carapuço brada "Whats so fuck then!!". Mas descubro então o segredo para a felicidade finalmente, a tal sabedoria oriental, quando leio numa outra camisola "I feel happy when I eat a potato". Por fim, tantos anos a viajar compensam. Voltarei para Portugal pronto a iluminar o negrume da vida portuguesa.


Um bocado aos tropeções, reencontramos a saída. Envolveu um desvio pela zona de restauração e a sempre intoxicante passagem pelo mercado da especiarias, em sacos abertos, sem filtro entre elas e os nossos narizes, nada embaladas, vendida ao grama. Frutas secas e especialidades caseiras uigures, algumas parecendo deliciosas, outras um perigo para o meu estômago Quase me senti um herdeiro daquele Gama que agora nos querem ensinar a odiar em certos recantos da intelectualidade portuguesa. As sedas ficaram para trás noutro ponto da minha rota. Existe aqui tanta gente e tanta coisa que é como se esta Bazar não existisse na China. Na verdade, é como se não existisse em qualquer lado. Não tem nação. Quando regresso às ruas de Kashgar, aliás, é como se uma fronteira me alterasse. Continua a existir um aglomerado de gente numa cidade com um milhão de habitantes, mas perdeu-se algo. Uma ligação, um ponto em comum. Nestas ruas, todos andam algo à deriva, cada um para seu canto. No Bazar, há uma linha comum, de quem ganha a vida obrigado a conhecer outros, desconhecidos, e a aprender o gosto disso. Não é à toa que o Comércio foi a actividade económica que surgiu mais tarde. Envolve entendimento, cooperação e acima de tudo, confiança no outro. Nós como seres humanos somos muito, muito desconfiados. Para nós, os estranhos têm má reputação. No Grande Bazar de Kashgar, no entanto, os desconhecidos estão apenas à espera de se tornarem nos melhores... desde que comprem algo. Tal como antes a Rota da Seda uniu Ocidente e Oriente, eu, um português, sinto-me mais perto destes que me são estrangeiros através da simples troca, da curiosidade, da novidade. Falta mundo a muita gente. 


quarta-feira, outubro 09, 2019

Fachinação 5: Xinjiang em época de saldos


O Governo Chinês caracteriza-se por muitas coisas, mas a principal é, como já devem ter desconfiado, o controlo. A sua mentalidade de gestão micro levou a coisas tão ridículas como controlar as políticas de natalidade como se os corpos humanos fossem máquinas ou, nalguns momentos infames do seu passado, como forçar o desenvolvimento económico através da pura força de vontade (matando milhões no processo) ou acabar com o Ensino Universitário durante uns anos porque, ahm, este ensinava. Ainda que o estado comunista de Mao se tenha tornado num estranho híbrido capitalista estatal, esse hábito não se perdeu. O líder Xi Jinping, cujas linhas faciais lhe valeram comparações entre a população à popular personagem Winnie the Pooh, mantém a tradição e aplica-a em várias áreas da vida chinesa. A sua manifestação mais conhecida é o infame cartão de pontos sociais, que avalia os cidadãos pelo seu comportamento em sociedade - algo que, desconfio, não seria do desagrado de uma grande fatia da Internet que adora empunhar forquilhas virtuais para perseguir e queimar os degenerados que não se conformam à pureza moral da sua visão.

Os turistas são controlados de outra maneira. Quando se planeia viajar até à China, um dos principais problemas é saber onde ficar e quem contratar. Nem todos os hotéis podem receber estrangeiros e não é qualquer companhia que pode trabalhar com cidadãos não chineses. A liberdade económica encontra aí um limite. O Zé Luís, guia desta expedição, encontrou esse problema de uma maneira inusitada. A pouco tempo de iniciar esta viagem, estranhou não receber qualquer tipo de comunicação ou aviso por parte de uma empresa que contratara para nos transportar nas várias deslocações dentro de Xinjiang. Por vias travessas, conseguiu contactar pessoas que conheciam o dono da empresa. Descobriu então então que haviam desaparecido. Sumiço completo. Numa noite, estavam em casa, na manhã seguinte era como se nunca houvessem pisado o solo. Como se um triângulo das Bermudas se formasse para sugá-los e não mais dar notícia. À boca pequena, outra pessoa esclareceu que a Polícia era responsável, que aparecera de súbito de madrugada, encaminhara a família para umas carrinhas e o rumo marcado era um campo de reeducação. A China mostra um grande amor a estas estruturas, destinadas, segundo o Governo, a ensinar a outras culturas o que é, de facto, ser chinês, de maneira a facilitar-lhes a entrada no mercado de trabalho. Não estamos a fazer qualquer mal, dizem. Damos uma mãozinha e tudo, somos simpáticos, eles até ficam aqui e têm cama e roupa lavada. Não se preocupem. não se passa nada. Há uma outra maneira de ver isto. "Ensinar a ser chinês" mais não é do que uma reformulação de "limpeza étnica". Menos perniciosa e directa, sem mortos, sem o espectáculo horrendo da carnificina. Mas subtil, erradicar um povo através dos seus hábitos, dos seus costumes. Ser Chinês. Um crachá no peito como orgulho de olhos em bico. 


Um pouco em aflição, o Zé lá resolveu o problema. Cruzou-se coma  referência de outra instituição que fazia os mesmos serviços. Não estava tão bem cotada e referida como a anterior, mas consideravam-na de confiança. Marcou tudo, problemas resolvido. Quando chegou a Kashgar umas semanas depois, conheceu por fim o dono desta empresa. Chamava-se Ali, ar muito profissional, a capacidade de não tremer perante uma inconveniência, cabelo branco, mas de joviais movimentos. A conversa começou formal, confirmando todas as marcações e viagens, discutindo quem seriam os guias, preços, veículos. A certa altura, o Zé não resistiu e puxou o assunto do mistério da outra empresa. Um comentário foi lançado à laia de inocência, como se a história não pairasse na sua cabeça como aquele nevoeiro que costuma soprar os campos de batalha depois da refrega. O Ali não tremeu e até sorriu um pouco. Sorte a do outro, disse. Cansara-se disto do turismo, dava muito trabalho. Regressara à sua terra natal, onde lhe tinham proposto tomar conta do supermercado de um parente que, já velho, passara do prazo de validade de comerciante. Empolgado, partiu e deixou isto dos turistas estrangeiros. Estava feliz, Ali acreditava. Um sonho, ter o seu próprio negócio, catita, independente e bom dinheiro no bolso. A família fora com ele, contente por regressar assim às raízes. Não se estava mal. Quando mais tarde o Zé me contou esta história. não sabia se havia de rir ou chorar. Este Ali saberia de certeza o destino do seu colega. Por medo, talvez, escolhera contar uma versão dos factos onde tudo acaba bem. Uma fantasia, uma invenção do passado, algo em que, apercebo-me ao longo da viagem, as autoridades chinesas são especialistas. Nas autocracias existem sempre duas verdades paralelas. Uma é a corre na rua. A outra a que se deita em casa. Se pegarem num livro de piadas soviéticas, encontrarão muitas anedotas que atacam este problema com mordacidade. Uma das minhas preferidas fala da comparação da liberdade de expressão entre EUA e URSS, numa conversa entre um americano e um russo. O primeiro defende que na América pode, por exemplo, pôr-se à frente da Casa Branca e gritar "Que se lixe o Ronald Reagan" e ninguém o prende. O segundo acha isto uma tolice, porque se bem lhe apetecer, pode berrar o mesmo no meio da Praça Vermelha e ninguém lhe toca também.

Explico isto porque estamos a bater à porta do hotel onde originalmente era suposto termos passado das nossas noites em Kashgar. No entanto, uma semana antes de chegarmos, o Governo decidiu que afinal este não podia receber cidadãos estrangeiros. O Zé, ainda assim, faz questão vejamos o interior, porque aqui se situava o antigo consulado russo nos inícios do século XX. Tudo parte da estratégia do Grande Jogo, onde a influência na Ásia soava os tambores da guerra entre a terra dos Czares e o maior império da altura, o Reino Unido. O objectivo era angariar aliados entre os líderes da região, açambarcar recursos, marcar posição. Os serviçais eram espiões em simultâneo, qualquer convidado presumido como traidor,  e não era incomum vodka e assassinatos dançarem de roda nos jantares organizados pelo consulado. O edifício é muito semelhante a uma datcha soviética, paredes de madeira, paleta monocromática, mais comprido do que alto. O nome não deixa de me causar um óbvio sorriso: Seman.


Estamos ali dois minutos à espera. Ninguém responde. Transeuntes passam, espiolhando com desconfiança um grupo de ocidentais ali à porta. Por uma questão de segurança, decidimos retirar. Mas o Zé está preocupado. Ele conheceu o dono do hotel, um tipo porreiro com quem teve uma conversa que o marcou muito. Referindo o caso do senhor que agora trabalhava num supermercado, rapidamente viu lágrimas nos olhos do interlocutor. Puxando-o para um canto, um ponto cego na visão da câmara que fiscalizava o diálogo, confirmou-lhe o que lhe haviam contado sobre os campos. Era verdade. Por isso, a primeira ideia que se apresentou ao Zé foi a mais óbvia: de uma maneira qualquer, alguém descobriu isto e levou o rapaz. É outras das consequências de ser estranho nestas terras estranhas: não sabemos quando as nossas acções, que pensamos inocentes, podem ter consequências decisivas na vida de outros. Como se as nossas mãos pode pôr e dispor dos destinos de estranhos por uma simples palavra. Como os sonhos de outros podem acabar apenas e só pela nossa banalidade corriqueira.

Almoçámos num restaurante ali perto, onde descobri que as casas de banho em espaços públicos são normalmente latrinas. Uma sanita é um luxo. Talvez isto explique porque é que raramente os asiáticos alapam o rabinho no chão. A refeição é marcada pela comida novamente picante e por uma conversa sobre fenómenos fora do comum, onde não incluo a Política portuguesa, e onde as pessoas do grupo descobrem que me interesso pelo fenómeno OVNI. Algumas tentam desmontá-lo usando argumento que já eram usados há cinquenta anos e presumindo que eu o associo de alguma forma a vida extraterrestre. Perguntam-me o que é e eu não sei, obviamente. Porque todas as dúvidas devem ter uma resposta categórica imediata. Algo que sempre achei engraçadíssimo, mas que nestes tempos que correm, onde tudo é certo e nada é errado me assusta mais do que diverte. O restaurante fica mesmo à beira de uma longa avenida e quando saímos, o sol bate como o João Moutinho: bem. Enquanto espero que duas pessoas saiam, reparo ao longe na rua em dois polícias que acompanham um jovem que caminha feito geisha. À primeira vista é bizarro, mas numa segunda mirada, saltam as algemas que lhe prendem as mãos e os pés. Para o caso de se estarem a perguntar, sim, é uigur. Transportado na rua, como se fosse normal, à vista de toda a gente. O sonho molhado de André Ventura. O Zé também o vê e está claramente a pensar no seu amigo de Kashgar. Sugere que tentemos uma vez mais. Vamos até à porta do consulado e se ele não estiver lá... que seja por uma ida à Loja do Cidadão. Ou algo do género.


Atravessamos o espaço entre a rua e o antigo consulado, debaixo da sombra de árvores, folhas roxas que se despencam ao vento. Um toque. O vento soprando entre os ramos é o único som a contornar as nossas formas. Segundo toque. Olhares nervosos entre nós, um ou outro sorriso, fotos tiradas ao espaço. Terceiro toque. Ninguém responde, mas as perguntas estão lá. Quando o quarto toque, quase simultânea a abertura da porta. Ali está ele. Chama-se Molan (sim, quase como a princesa) e não parece espantado por ver-nos. O Zé, sim, está bem mais aliviado. Molan convida a entrar, para um largo hall completamente branco, apenas com dois sofás laterais e a recepção a meio. Noto que no balcão, descansa a mesma câmara negra que vi no nosso próprio hotel, onde nos apresentámos à força. A combinação entre a fila de árvores à entrada e a largura, decoração otomana, salões espaçosos, dá ao edifício um ar Chekhoviano. Este é apenas um dos edifícios do consulado. Em redor, existem outros, maiores, visitáveis a partir daqui. Molan faz-nos uma rápida visita guiada. Explica um pouco da história do consulado, das lutas diplomáticas entre o Reino Unido e a Mãe Rússia, das picardias entre os cônsules George McCartney e Nikolai Petrovsky. Paramos num salão com um belíssimo candelabro transparente, que se assemelha ao chapéu de fiapos prateados de uma princesa chinesa. As paredes cobrem-se de quadros evocativos de temas mitológicos, de cenas do passado histórico russo. Somos convidados a espreitar os quartos e até uma pequena sala onde cadeiras, poltronas e estantes com livros convidam a ficar e esquecer o programa da parte da tarde.

Enquanto alguns de nós questionam o Molan ou simplesmente fotografam o espaço, encaminho-me para um espaço exterior, que está em obras. Dominam os azuis, mais claros, o mar que está tão longe daqui. Numa coluna mesmo no centro deste espaço, uma coluna em tons de verde é encimada pelo crânio de um boi. No entanto, alguns gatos tomaram-nos como seu e rebolam ao sol, na sua privacidade própria que nenhum humano pode sequer ousar estragar. Passam por entre colunas brancas, miam, fogem de qualquer iniciativa de acariciá-los. Apenas com tempo e alguma confiança - e provavelmente, ainda cheiro entranhado do meu próprio gato - ganho confiança suficiente para cofiar os seus queixos. Uma funcionária do hotel explica que os bichos foram resgatados da rua e que uma gata deu à luz há uns dias. Sento-me no chão, sou ocidental. Um silêncio incrível, uma luz que abraça, segundos de momentos onde não estou no país da vigilância ou das confusões, longe de câmaras, longe de pessoas. Neste exterior do hotel, Kashgar só existe dentro dos limites das paredes e é uma maravilha de pelo e de sol.


À saída, pergunto o Molan pergunta-me como foi a manhã. Explicou que fomos a uma feira de gado. Foi divertido? Pauso e digo que foi curioso, enquanto o meu olhar quase alcança uma câmara de vigilância imediatamente acima de nós. Ele entende. Eu não quero deixá-lo em maus lençóis. Recua dois passos. O que achaste mais curioso? E eu expliquei a história dos polícias à paisana que me filmaram, das perguntas estapafúrdias do "turista", do fotógrafo que tão bem conhecia a Polícia. Um sorriso tímido, uma observação certeira: "Viajar é conhecer outras culturas". Perto, o Zé Luís chega-se e observa que viu pouca gente na feira comparado com o ano anterior. Os olhos do Molan são navalhinhas pequenas. "Dirias quanto? Menos 70%?" À volta disso, sim. "Bem, esse é quase a percentagem de pastores uigures que desapareceram este ano. Gracejo que o negócio dos supermercados está fortíssimo em Kashgar. Perdido na piada, explicamos ao Molan.. Uma pequenina tristeza abate-se, encolhe os ombros: "Se muita gente repetir uma história, ela torna-se real, não é?" O Molan fala da sua cultura, de como está a desaparecer. De como os Chineses apertam cada vez mais a malha, aumentam as regras, de como apesar de isto já não ser um assunto escondido, ninguém faz nada e ninguém vai fazer. De como sim, os uigures não levam a bem a presença chinesa, de que têm havido revoltas e manifestações; mas quem seriam eles se, quando espezinhados, não mostrassem a sua indignação? Quem aceitaria ser reduzido a nada em silêncio? A cultura dos Uigures centra-se no comércio, em costumes ancestrais, na hospitalidade e de como todos estes traços vão sendo apagados com uma borracha digital. De como até ale tem medo se esquecer do seu povo e de quem é. Agradece a nossa preocupação, pede-nos que fotografemos e que quando voltarmos, não escondamos a sua história nem a de Xinjiang. Pede-nos algum cuidado também e fala-nos do seu gosto em receber, de como ter aquele hotel é tão importante para a sua vida e que teme constantemente que lho tirem. Que lhe apaguem os sonhos. De que vendam a sua identidade em algo pior do que um supermercado.

Ainda é relativamente cedo e quando nos despedimos do Molan, a ideia é apanharmos um autocarro para o lado oposto da cidade. A paragem mais próxima não fica muito longe, por isso vamos a pé. Penso bem no que ele me contou, de algo que ignorava quase completamente há uma semanas. De como viajar é fazer mais mundo. Nisto, o meu olhar ergue-se para a montra de uma livraria. Todos estamos curiosos por entrar e assim fazemos. A máquina de raio x e os detectores de metal recebem-nos, claro. Mas lá dentro, um tesouro. Que cultura pode existir num mundo de censura? Os chineses, aparentemente, adoram cientistas ocidentais. Vemos fotos em grande tamanho de Newton, Galileu, Mendel... Acho a de Galileu particularmente irónica, porque este é um dos símbolos do homem perseguido e silenciados pelas suas ideias contrárias à grande vontade da Instituição Central. Mas as ironias não acabam aqui: na terra do cala-te e porta-te bem, vendem-se exemplares de "Admirável mundo novo", de Huxley ou de "O clube dos poetas mortos". Existe também "O principezinho", "O estrangeiro" ou uma colecção bastante completa da sobras de Shakespeare. Uma biografia de Ronald Reagan e claro, todos os escritos do Grande Pai Mao. Perdido por entre alguns livros, existe um "Os Lusíadas" em chinês, mas não encontramos nada sobre as viagens de Marco Polo. Quase todo o grande cânone da literatura ocidental se encontra traduzido em chinês, não sei se na totalidade. Na secção de literatura adolescente, encontro uma adaptação das obras de Ian Fleming protagonizado esse grande falcão do capitalismo que é James Bond. As capas são estlizadas em traço de anime, como se Bond fosse primo de Son Gokou e Tsubasa. Os únicos clientes da loja somos nós. Algures enquanto lá estamos, duas garotinhas entram e folheiam livros como para passar o tempo. De resto, caminham matronas, mas falando alto, rindo, obcecando nos ecrãs do telemóvel.


A caminho da paragem, atravessamos uma rua através de passagem subterrânea. Estas estão pejadas de pequenas lojas que vendem quinquilharia. São antros de luzes brilhantes e ofensivas, barulho, muito barulho e gente. Numa delas, à vista de todos, uma blusa com a estampa de Winnie the Pooh. Neste momento, esta imagem está proibida em toda a China. Mostrá-la ou, pior, usá-la é proibido. Dá prisão. O Chefe Xi zangou-se com este urso pelas constantes comparações físicas e portanto, baniu-o para uma terra sem leite e mel. No entanto, em Kashgar, uma irredutível aldeia não gaulesa resiste e arrisca a prisão. Não sei se por desconhecimento ou se por genuína rebeldia. Mas ele ali está: braços abertos, o amarelo torrado tão simpático quanto o sol no Seman, um criatura sem mal revestida do pior dos crimes. Minutos depois, quase volto a casa quando apanhamos o autocarro. É o 10. Onde cresci, era o número que me levava à escola e trazia todos os dias. 10 Ceira. Hoje, em Ceira, muita gente apanha-o também para ir ao Continente do Vale das Flores. Porque na minha terra, quase não há supermercados. Deixo a dica aos Chineses caso fiquem sem espaço para ajudar os uigures a montar os próprios negócios.



quinta-feira, outubro 03, 2019

Fachinação 4: Regresso a uma feira de gado


Aprende-se muito acerca de um país através da música que se escuta dentro dos carros. Um auto-rádio é uma afirmação pessoal. Ouço, logo sinto. Escuto, logo opino. As rádios funcionam normalmente sob o chicote do público: passam o que é mais popular. Duvidando que haja neste país uma Radar FM, presumo que existe um apertado programa estatal que circunscreve as hipóteses de álbuns à escolha. Enquanto balouço de um lado para o outro neste táxi, uma maviosa, envelhecida voz entoa em mandarim palavras que não entendo, baladas de arrancar lágrimas até às câmaras de vigilância. O condutor, arrancando-nos para zonas mais, digamos, alternativas, de Kashgar não liga muito e segue. O piano electrónico sobre o tom e enquanto dá uma súbita guinada para a esquerda, evitando por um triz dois garotos sobre uma acelera, que nem tomam conhecimento e é mais um dia em que somos uns jovens rebeldes que podíamos ter ido com os queixos à ladeira e não vamos. Uma rua esburacada atravessa algumas casas em adobe, o sol da manhã torna-as bem vermelhas e nalguns momentos, parecem sangue ocre. Como se esta parte da cidade não sendo central fosse na mesma uma artéria. Não vejo durante um percurso qualquer cara de olhos em bico. Aqui, moram os indesejados. Que é como quem diz, a etnia que o Governo quer esconder. É uma zona fértil e boa parte trabalha em campos verdes. Há sementeiras entrecortadas por um cemitério, como se a decomposição dos mortos adubasse e fertilizasse. O ciclo da vida. Apropriado, porque o principal objectivo da manhã é a feira de gado local, o que me traz logo memória de hilariantes episódios que vivi no Quirguistão. Prometeram-me que esta é ainda maior e que se realiza sempre ao Domingo. Há um dito na Ásia Central de que a população de Kashgar aumenta em cem mil habitantes todos os domingos. Tal deve-se não apenas a este evento mais de pecuária, mas também ao Grande Bazar da cidade, que visitaremos da parte da tarde. Dá para entender que muito da cultura Uigur se prende com a actividade comercial. É essa experiência humana que quero ver hoje, experimentar. Dentro de todas as condicionantes que já expliquei noutras crónicas.


Saímos das ruas estreitas e dos bairros para uma larga avenida. O taxista estaca e deixa-nos à entrada do recinto da feira. A familiaridade das barreiras anti-atentados recebe-nos com amor. Enquanto espero que o grupo se reúna, já carrinhas de caixa aberta vão dando entrada. Trazem bichos atados e com os olhos bem esbugalhados, balindo ou mugindo conforme a espécie, num cenário que faria os apoiantes do PAN rasgar vestes e lançar-se em tiradas no Twitter, porque se tentassem manifestar-se por estas bandas, o único PAN seria o das bordoadas na cara. Nenhuma das cabeças de gado parece sofrer, apenas estão... meio inertes. Quando entramos, reparo que há várias caras ocidentais aqui. Pelos vistos, é uma atracção turística. Antes de chegarmos à área comercial, uma zona de restauração forma-se em duas filas. Compõe-se por gente que faz comida tradicional em métodos tradicionais. A maior parte usando fornos de lenha, de barro ou metal. Tudo é cortado, misturado, cozinhado à nossa frente. Usam-se alguidares de plástico, facas afiadas, acima de tudo as próprias mãos. A improvisação de uma área onde cada se pode sentar em comezaina existe, com bancos corridos, mesas decrépitas e a sobra providenciada por longos panos coloridos, ténues. Os desenrascados chefs abrigam-se sob chapéus de praia, são dez da manhã mas há um calor abafado e vemos insectos em cima dos ingredientes que serão utilizados. O que não mata engorda. Vegetais e farinha, açúcar e carne, alguma fruta fresca, alguma fruta seca. Nalgumas bancas, animais mortos inteiros dependuram-se de longos ganchos de metal. Se eventualmente alguém pedir uma peça específica, o cozinheiro arroga-se de um cutelo e com dois ou três golpes desfaz a carcaça à frente do cliente, muitas vezes com a ajuda do mesmo e amigos, que funcionam um pouco como aquela multidão que se reúne em torno do funcionário camarário que de facto trabalha. Passo por uma onde, no chão, se alinham várias cabeças de carneiro que têm tanta vida quanto o coração da actriz Maria Vieira. Repousam em camas de lã e fazem-nos tomar contacto com o acto gráfico que é tirar a vida de um animal,. Recordo quando, criança e com metro e pouco, via familiares meus a matar um porco e ajudava no pouco que o pouco que eu era permitia. Sentia alguma pena do bicho, os guinchos incómodo, o espernear em pânico, o cheiro da certeza do último momento inchando as narinas daquele suíno rosa que empalidecia no golpe certeiro, quase artístico do meu avô. É preciso jeito para matar um animal em compaixão. O meu avô não detestava vê-los sofrer  e era misericordioso na rapidez da sua crueldade. O argumento vegetariano de que se soubessemos o quanto um animal sofre quando lhe terminam a vida não funciona comigo. Eu sei e cresci com isso. Mas também sei que a morte do porco nunca era em vão. Tudo se aproveitava. Olho para estas cabeças de carneiro e não penso em tofu. Apenas que, de alguma forma, uma ligação estranha uniu-os em vida a quem os matou. Que cumpriram uma função. E que no fundo, todos somos um bocado isso: uma função. Apenas uns são comidos. Outros são mastigados em cuspidos sem nunca serem verdadeiramente úteis. Só utilizados.


Um pouco a martelo, sou abordado por um jovial chinês. Fato de treino de marca, boné colorido, uma máquina fotográfica ao pescoço com uma daquelas lentes que podia protagonizar vídeos no Pornhub. O sorriso visa desarmar-me, mas mesmo estando há tão pouco tempo no país, a minha alma pertence a "The X-Files". Ser desconfiado faz parte de mim. "Good morning", num inglês de sotaque carregadíssimo. Correspondo. Se estou bem? Cá vou andando, amigo. É tão estranho ver ali alguém do Ocidente, ri-se ele, reparei logo. E eu digo que sim, não devem ter muitos visitantes do meu lado do mundo neste seu canto de planeta. Diz que também anda aqui a visitar, que é de Xangai. Outro turista então; e a pergunta que me faz a seguir podia ser de quem anda a passear. Se estou a gostar disto. Se tenho recomendações. O que irei visitar no resto da viagem. Mas não: no que ele está interessado é na minha opinião acerca do sistema de segurança de Kashgar. Questiona-me o que penso dele. A uns dez metros, mesmo atrás do meu interlocutor, uma senhora de meia idade, grossos óculos escuros, casaco apertado até ao pescoço, aponta-me um telemóvel. Estou a ser filmado. Por quem? Provavelmente polícias à paisana. Com alguma mordacidade, satisfaço-lhe a curiosidade com um "Very present". Ele gargalha um pouco e regressa "Nada como de onde vens, não é?" "Bem, entendo pouco de câmaras. Normalmente, quando me estão a filmar, normalmente pedem-me por favor" e lanço um olhar à pouco discreta voyeur. Desta vez não ri. E tomo eu a iniciativa "E tu, o que achas?" Não responde. Pega na máquina e começa a fotografar alguns dos comensais, afastando-se Olho em redor, esperando rápida acção em forma de algemas. Nada. Ainda não é hoje que vou conhecer melhor o que é viver, de facto na China.


Viramos à esquerda e numa gigantesca arena poeirenta, castanha, larga, animais de duas e de quatro patas misturam-se naturalmente. Vem gente de todas as aldeias num raio de cinquenta quilómetros trazendo ovelhas, carneiros, vacas, camelos, iaques, burros. Só não trazem suínos porque o Islamismo dos Uigur proíbe o contacto com tais seres. Os animais são atados a longas e horizontais barras de ferro, quando têm sorte. Quando não têm, fecham-nos num apertado redil onde se tornam numa mancha indistinta de pelo ou lã, as cabeças vindo à tona para respirar, apertando-se e tentando sair daquele volumoso rebanho. Encontram-se alguns olhares vazios, perdidos. De quem sabe o que os espera, de quem ignora. Estão divididos por tipos. As compras e trocas que se efectuam neste espaço dão-se na base do aperto de mão e do berro. Discutem e regateiam, apontam defeitos, exaltam de qualidades. Não procuram simplesmente um bom preço: faz parte, está-lhes no sangue. Saídos das suas mães, quiseram saber logo quanto custava a tesoura que lhes custou a placenta e levaram a mal quando não lhes fio vendida. As reses são verificadas, palpadas, analisadas. Várias vezes vejo-me obrigado a desviar quando um berro de "Bosh-bosh", me indica que alguém quer passar, habitualmente arrastando uma cabeça de gado. Estes gritos, por vezes, anunciam veículos, o que envolve um impacto bem maior caso escolhamos manter a nossa posição. Vou fotografando, sempre com atenção. Quando uma carrinha pára, vem sempre alguém ajudar a descarregar as nervosas criaturas. Passam de mão em mão até à segurança do solo. Por vezes, chegam atados em motas. Os modestos condutores usam como capacete equipamento de pedreiro. Quando alguém compra um bicho e por acaso não tem como transportá-lo, ou opta por carregá-lo em ombros, como se tivesse vencido uma partida desportiva; ou espera por transporte, pernas apertadas em trono da sua nova possessão, guita de corda enrolada no dedo. É um pouco como o encontro de Tinder mais estranho a que já assistiram. Tudo isto rodeado de buzinadelas e gritos, risadas largas, gestos secretos. Enquanto tiro fotografia a duas matronas sentadas em bancos de praia, bisbilhotando, comerciando entre os mais recentes cochichos, um velhote pedala numa bicicleta que leva no quadro uma ovelha. Classe. Na sua retirada, separa duas jovens que vêm de mão dada. Ambas vestem batas de médicas, envergando por baixo o uniforme oficial de sopeiras. Mas nas vestimentas que observo há uma exuberância de cores, principalmente entre as mulheres. Vermelhos carregados, púrpuras despudorados, amarelos sem vergonha. Contrastam com a timidez do homem rude rural que se cobre de flanela e aperta o chapéu nómada bem fundo na cabeça. Como se fossem eles os bichos mais selvagens de todo este espaço.


Afasto-me. Regresso por onde entrei. Algumas bancas vendem bugigangas e equipamento útil para quem trata de gado. Cordas, principalmente, não vá o negócio realizar-se e na altura se atinja a realização de que não há como prender a carga. Perto, um ferreiro aceita encomendas para os cascos dos bichos. E vejo, a pouca distância, uma longa fila de homens, confiando as suas barbas, trocando conversas vaporosas. A atendê-los, um barbeiro improvisado que, por alguns yuans, apara cabelo, aperfeiçoa decorações faciais. Sem que, por algumas vez, pareça saído de algum encontro de imitadores de rockabillies. No tempo em que observo, aplica zero vezes óleos para a barba. Zero. Deve ser um maluco. Algumas das pessoas do grupo - que, só para cumprir estereótipos, são mulheres - entregam-se às compras. Pegam em objectos cobiçam, comparam. Eu, que só estou ali para reter memórias e formar imagens, sento-me à sombra. Reparo na entrada de um homem alto, de fato coçado e ruço. Dois polícias que controlam os transeuntes cumprimentam-no. Estão sentados também, mas em cadeiras defronte de um edifício pequeno de dois andares. Exibe as insígnias policiais, bandeira chinesa evidente. Simboliza o poder local naquele lugar. Sim, amigos: é só para dizer que também estamos aqui. Conversam durante uns momentos, nos quais gesticulam em direcção à multidão. Então, o senhor tira de uma mochila uma câmara fotográfica, com o que parece ser um canhão acoplado. É uma gigantesca lente de longo alcance, perfeito para que alguém se refastele e possa fotografar objectos a longa distância; e quem diz objectos, diz também pessoas. Um dos oficiais encaminha-o para o interior do edifício e segundos depois, vejo-o sentadíssimo da vida no andar superior, fazendo girar aquele óculo em todo o redor. É um estilo de vigilância mais personalizado, a máquina, por uma vez, tem de facto uma alma. Nada vi nesta feita que me parecesse particularmente perigoso ou ofensivo para o estado chinês. Apenas gente que provavelmente acordou bem mais cedo do que eu para ganhar a vida de uma forma dura. Que não deve ter nada mais em mente do que simplesmente ter dinheiro para o dia seguinte ou pelo menos, ir amontoando até se sentir confortável na vida... dentro daquilo que é o conforto nesta zona do mundo. Aquela luneta é apenas outra mão, que afaga a cabeça dos cidadãos, que marca presença, que garante que o Grande Camarada não descansa nem dorme. Em casa ou na feira de gado, está lá. Para vos acompanhar, para nunca vos deixar cair. As histórias que ouviram são verdadeiras. História que vos contarei na próxima semana.


No caminho de regresso, não encontro o jovial chinês com quem tive aquele interessante diálogo. No entanto, continuo a ser filmado, desta vez por duas mulheres. Faço por ignorá-las. O Zé Luís aproxima-se e comenta comigo como ficou desapontado com esta visita. Bem, uma vez visitadas dez, qual é a novidade? Mas não é isso. No ano anterior, a dimensão era muito maior. Assim de cabeça, lembra ele, estavam pelo menos o dobro das pessoas. Não sabe o que se passou. Talvez o controlo tenha apertado. As regras mais numerosas. A Polícia mais desconfiada. Mas é um mistério.  A desilusão foi tão grande que ele ponderava retirar este ponto da próxima expedição que guiar até Kashgar. Enquanto caminho, vejo dois homens fazendo crepes de carne à unha. Num deles, uma vespa fica refém da massa e irá como proteína extra a quem quer que seja que calhe o brinde. Alguns minutos mais tarde, já no regresso ao centro de Kashgar, abrandamos num piquete policial. Mandam parar alguns carros, fazem-nos sair do caminho e convidando de maneira educada os condutores ao exterior, questionam e indagam. Nós passamos sem problemas, depois de uma olhada rápida. Há algo em comum entre os inquiridos: as feições mongóis. A tez queimada pelo sol, castanha. Os olhos ovais e tristes. Os mesmos casacos coçados, os mesmos chapéus quirguizes, o mesmo dialecto. São uigures. Em carros velhos, em carros banais. Nenhum sinal exterior do que quer que seja. Parados porque nasceram em desenho diferente. Suspeitos sem outro crime que não seja o da presunção da culpa. Na cara, a enfadonha resignação de quem reconhece o seu lugar na imensa engrenagem de uma máquina implacável. Dão provavelmente as mesmas respostas maquinais que já ofereceram em todas as outras ocasiões em que, numa quebra do seu tédio, a Polícia decidiu tratá-los como leprosos meliantes. Quando deixo o piquete bem para trás, ainda lá ficam. Quando escrevo estas palavras, ainda lá estão. Presos sem cordel. Como gado.

quinta-feira, setembro 26, 2019

Fachinação 3: O olho que tudo vê


Kashgar é uma cidade com mais de dois mil anos. Ninguém sabe exactamente quando foi construída, mas é certo de que se situa num dos pontos mais importantes na História humana: a linha que separa a Ásia central dos antigos impérios que ajudaram a China a nascer. É aqui que se cruzam diferentes culturas e etnias, onde os tradicionais orientais de olhos em bico até têm uma importância menor. Aliás, a cidade é maioritariamente Uigur, um grupo étnico de maioria muçulmana e costumes ancestrais enraízados, cuja língua homónima teve origem no que é hoje o Médio Oriente. Dá para terem uma ideia do quão deslocado este povo se deve sentir num mundo de caracteres em mandarim. A cidade de Kashgar é conhecida por outro nome no resto do país, tendo sido adaptado para Kashi. É assim que se apresenta em estações de comboio, aeroportos, notícias da televisão; e apenas um dos vários sinais de extermínio cultural com que nos cruzaremos nos dias que aqui passamos. Os Uigures são o principal problema da política externa chinesa, circulando internacionalmente notícias de perseguições e raptos, campos de reeducação, destruição de património, tratamento destes cidadãos como seres humanos de segunda. É uma política que se estende a toda esta província, Xinjiang, a maior da China, um monstro geográfico maior do que a França e a Alemanha em conjunto. Montanhosa e desértica, não possui muitas cidades e estas são afastadas umas das outras. Pela sua distância em relação ao poder central de Pequim, Xinjiang é como que um familiar esquecido, lá longe, a quem são dadas garantias mínimas de sobrevivência, mas pouco mais. O preço em troca é a obediência e a conformidade e os cinco dias que aqui passaremos serão uma introdução ao que pode ser um totalitarismo disfarçado, bem educado, mas em última instância, fatal. Kashgar não é a capital da província; no entanto, é onde este processo é mais evidente.


Quando chegámos ao hotel onde ficaremos durante dois dias - um estabelecimento de cinco estrelas que na Europa se ficaria por três - as regras do jogo são óbvias de imediato. Apresentamo-nos na recepção e somos convidados e dar os passaportes. Nada de estranho. No entanto, pedem-nos que estaquemos num determinado ponto e olhemos um aparelhinho. Uma câmara. O bicho que mais rapidamente se reproduz nesta cidade. É pequenina e bem portátil, mas presente e um sinal de que sabem quem somos e onde estamos. "Chegaste a Kashgar", segreda-me enquanto me rouba a cara. Quando subo ao meu quarto, ainda venho a pensar no surreal que isto é. Mas deixará de ser surreal durante o resto da viagem. O meu companheiro de quarto é o Hélder, advogado no outro lado do mundo e que faz pela primeira vez uma viagem nestes moldes. Vai mostrando um espírito de um garoto a quem enviaram num campo de férias, um entusiasmo que só consigo reconhecer em mim numa memória distante. O quarto é um recreio, vasculha todos os cantos, mete conversa, faz perguntas sobre fotografia, conta como comprou a máquina antes da viagem e ainda está a tentar perceber como funciona, se lhe posso explicar, que lhe aconselharam aquela mas ele nem sabe muito bem se é melhor ou não. A Polícia Chinesa não poderá ajudá-lo, calculo. Ainda me sinto algo difuso, talvez por estar há mais de um dia sem dormir. Aqui, são quase seis horas. Fim de tarde. A ideia é darmos uma voltinha pela cidade e estranhamente, não me sinto mole nem com sono, apesar do abafado calor. O grupo reúne-se à entrada do hotel e antes de partirmos para visitar o centro de Kashgar, fazemos um pequeno desvio até um restaurante que não fica muito longe de onde estamos. Não é uma simples paragem de comezaina. Este edifício foi, até 1947,, um baluarte diplomático do Império Britânico na Ásia Central. Na altura, esta zona era um nada ainda maior do que é hoje. A única razão para a presença do Reino Unido na região devia-se ao chamado "Grande Jogo", um conjunto de manobras diplomáticas - e por vezes militares - que opunham a terra de Sua Majestade ao Império Russo, que na altura crescia em ambição e tamanho. O objectivo? O domínio da Ásia, principalmente do Médio Oriente. A História que aprendemos na escola, centrada no Europa, leva a que ignoremos que a importância que o maior continente do planeta teve na evolução dos povos. Mas nos finais do século XIX, quando o consulado foi fundado, ela era bem evidente. Na altura, qualquer cônsul nestas bandas devia ser desenrascado acima de tudo, pois tinha muito pouco apoio. Era como uma lança em África. Os cidadãos britânicos que por ele eram servidos encontravam-se espalhados por toda a província e muitas vezes, incapazes de dar notícias. Kashgar, se procurarem num mapa, fica a pouquíssima distância de quatro países; a partir daqui, chegavam informações de todo o lado, um local charneira do Oriente para o ainda mais Oriente. Apesar do humilde exterior, um alpendre verde com um branco, encimado por uma telhadinho pintado de várias cores com a indicação do nome do restaurante, Chini Bagh, saber todas estas informações torna o momento algo solene, imaginar as desventuras de espiões, as manobras diplomáticas, as revoltas que tiveram este edifício como alvo. No interior, ainda existem porções da arquitectura original, longos corredores brancos de traços arabescos, salas hoje de jantar com estuques e baixos-relevos de inspiração oriental, a interpretação britânica em modo kitsch da arte árabe. Faz-me sentir o que mais gosto quando visito locais ditos históricos: estar lá há anos atrás, sem máquinas do tempo, só a corrente cronológica a prender-me bem firme a anos que não são meus, nem nunca foram, nem podem ser. Mas por momentos, são-me emprestados.


Boa parte da cidade foi, à falta de melhor termo, achinesada. Uma sementeira de edifícios altos e sem identidade, misturados com imitações de arquitectura árabe. Longas avenidas atravessam-nas, rectas e direitas, percorridas por carros e pela maior praga que podem encontrar no país: aceleras eléctricas. Estão por todo o lado e na verdade, andam por todo o lado. Estradas e passeios, vias velocipédicas, eu arriscava-me até a teorizar que ajudam os seus donos a deslocar-se dentro de casa. São um bocadinho como o tubarão do "Jaws"- aproximam-se num silêncio que rumina e não se mostra até ao derradeiro momento, quando já estão a menos de um metro de nós e o condutor apita na subentendida atitude de que lhe saltamos fora da vista e ele nem tem de travar, São bandos de gafanhotos e é-lhes arrastado o segundo maior amigos dos chineses, o telemóvel. É frequente encontrar os condutores fazendo livefeed enquanto circula, sorrindo, falando, gestos grandiosos. Ninguém pestaneja, a circunspecta e dura Polícia chinesa nem chama a atenção. Tudo é válido, de videochamadas até aquela gravação que mais tarde cairá no Youtube. Enquanto circulam a quarenta à hora, sob póneis metálicos silenciosos. Ecológico, mas temível. Por vezes, a ecologia é levada ao extremo, quando em vez de uma ou duas pessoas, vemos bem assentadas no veículo quatro, cinco, até seis. Quase sempre crianças, quase sempre com menos de doze anos, rindo e cantando, como eu andava de bicicleta quando era garoto e me achava um radical e um fixe. Descobrir o que é realmente Kashgar implica abandonar as avenidas e entrar na cidade velha. Embora o governo chinês se esteja a entreter em fazê-a desaparecer, ainda sobram algumas partes. A entrada que tomamos está barricada com uma barreira de metal. De cada lado, soldados, metralhadoras bem visíveis. As mesmas armas que nos acompanharão nas voltas que daremos, a tiracolo de quem patrulha. É um cenário de guerra em modo light: aqui, a barreira impede potenciais atentados através de carros bomba. Nunca diria que existe no ar esse temor, essa ameaça de violência. Somos olhados por curiosidade por sermos ocidentais, penso que haverá nos uigures um espanto interior por ver ali pessoas tão diferentes e de tão longe. Esta terra não é para turistas. Mas são simpáticos, sorriem. Se queremos tirar fotos e formos gentis, tiram. Sozinhos e acompanhados. Saúdam-nos enquanto se enredam no seu quotidiano. Vejo talhantes partindo carne, vendedores de rua a grelhar comida, sapateiros e chapeleiros exibindo os seus produtos. Numa ruela, um velho vende antiguidades, guarda a porta do estabelecimentos ladeados por dois tapetes. Num deles, Lenine; no outro, o grande pai Mao. Olhando por becos, sou espreitado por crianças. Algumas brincam, outras escondem-se. À porta de uma casa de adobe, como quase todos os edifícios nesta zona, três miúdos abraçam-se depois de jogar à apanhada. Num primeiro andar, um jovem e bela mulher vigia-me por entre os cortinados de um quarto. Há cores vivas, risos, música parola no ar, pessoas normais de um lado para o outro em andanças próprias. Como no Quirguistão, os homens acocoram-se se quando querem descansar, impedindo os seus nadegueiros de tocar a sujidade do chão. Talvez preceitos de Alá, os mesmos costumes percorrendo a espinha da Ásia. Ainda que a fartura de agentes da lei torna a experiência menos autêntica, é inegável que mesmo na opressão, esta gente é gente. Como se ser gente fosse uma rebeldia interna, como se a normalidade, ou ficção da mesma, batesse o pé à força das mordaças e da vigilância. É bonito de se ver.


O nosso passeio é acompanhado constantemente pelos olhos que tudo vêem. De dez em dez metros, e não estou a exagerar, barras brancas atravessam a rua, levando ao pendurão quatro câmaras e microfones. São inescapáveis. Mais tarde, lerei que por aqui se ensaia um software de reconhecimento facial que permite reconhecer imediatamente as caras dos cidadãos que posam sem pedido para este olhar sem alma, sem chama. Xinjiang é a grande cobaia dos senhores que tudo sabem, tudo controlam, tudo asseguram. Quando as ruas abrem, conduzindo à praça mais velha da cidade, isso torna-se mais evidente. Esta praça tem 2000 anos, é atravessa pela Wustanbowie - rua mais velha da cidade - mas foi tomada completamente por vendilhões e comerciantes, afinal a actividade mais comum nestas partes. Abençoando a praça, a mesquita de Id Kah exibe a fachada amarela, mas fosca. O seu minarete é pequeno, mas destaca-se num edifício que pouco tem de grande. Encontra-se em obras. É a maior mesquita da China e boa parte das obras visam descaracterizá-la. Daí nem sequer lá colocar os pés. Tem espaço para vinte mil pessoas, mas é duvidoso que hoje em dia sequer um quarto lá ponha os pés regularmente. Ser abertamente muçulmano tem um preço na China. Normalmente, é a via mais rápida para um campo de reeducação. Tem mais de quinhentos anos e já viu nas suas escadas decapitações, perseguições a uigures e atentados. Quase sempre as vítimas são líderes religiosos e os agressores são de etnia Han, a mais numerosa da China. Mas hoje, dezenas de pessoas passeiam-se às sua frente com o sol a banhá-las e ninguém deve estar a pensar nisso. Vejo passar, a pouca distância, um coche que parece saído da Eurodisney e acredito com fervor na presença de Cinderela no seu interior, tal é o seu aspecto. Caminhamos por uma passagem subterrânea e damos por nós numa rua que é a zona de restauração da parte velha. Antes de entrarmos, nova barricada. A passagem de veículos é proibida, aceleras incluídas. Passamos por um parque improvisado que alberga centenas de motoretas. É impressionante. Em bancas viradas para quem passa, observo pães circulares, vegetais cortados com aspecto apetitoso, espetadas que são feitas a pedido. Há carne, principalmente de cordeiro, grelhando e tentando acorrentar corpos pelo olfacto. Volta e meia, e discretamente, somos fotografados e filmados com telemóveis. Podem ser curiosos, podem ser espiões. Na maior parte das vezes, estes últimos. Enquanto a minha atenção se prende em alguém que sem qualquer pudor me aponta uma câmara, uma face diferente cruza-se. É como a minha, sem traços árabes, sem olhos esguios. Vendo um grupo de ocidentais, pára também e apresenta-se: chama-se Michael, é norte-americano e aparentemente, o nosso guia conheceu-o na noite anterior num hostel. Está em Xinjiang há três anos, diz ele. É professor de inglês, diz ele. Decidiu viver cá uns tempos por gostar de aventura, diz ele. Tem saudades de casa, diz ele. Se precisarmos de qualquer coisa é dizer, diz ele. Que bom rever caras mais familiares, diz ele. E retira-se com mil desculpas, porque tem uma coisa combinada com amigos para o jantar e não pode ficar por ali; mas deseja.nos uma boa visita e quem sabe não nos voltaremos a cruzar, Kashgar não é tão grande assim.


 Vêem-se coisas curiosas nestes caminhos. São quase oito da noite e há um centro de saúde aberto virado para a rua. Ao fundo de um estreito beco, um velhote de cavas deita-se numa cama de armação amarela de ferro. Uma mulher bem mais nova vem trazer-lhe um chá e essa parece ser a única coisa que o convence a mexer-se de tão bem que está. Um garotinho encavalita-se numa estátua de bronze que homenageia os chapeleiros - coloca-se às cavalitas e finge que anda a galope. São ruas com vida. Mas a fome também ressuscita. Há a ideia de jantar num pequeno restaurante que fica na praça principal. Voltamos já em tons de fogo no céu, a noite tomba com vagar. Entramos num prédio e espera-nos um detector de metais e uma máquina de raio X. È procedimento padrão em todos os espaços públicos de Xinjiang. A minha mochila é observada e revistada, eu também. De braços no ar e inquirido por onde magnéticas. Somos todos iguais perante a lei. Subimos dois andares e o "Min'an" recebe-nos. O dono mostra-se hospitaleiro, junta várias mesas para totalizar os 13 lugares que ocuparemos. Espero que não seja a nossa Última Ceia. Os menus chegam e são em chinês. Os pratos têm imagens, o que ajuda. Nada que me surpreenda, este método. Enquanto escolhemos, uma banda entoa desgarradamente tons de beduínos. O deserto está perto, mas não tanto. Decidimos pedir vários pratos e partilhar. Enquanto não chegam, trocamos impressões e escutamos a música. Volta e meia, uma jovem de tule verde ensaia uns passos, sem que o ventre seja chamado muitas vezes à questão. Dança para os comensais, espectadores da sua expressão e mesmo sem grande brio ou chama, parece falar algo, apelar a algo que nunca atinjo verdadeiramente. A comida chega e descobrimos porque é que o Oriente é a terra das especiarias: há picante suficiente nestes pratos para criar uma crise nacional de hemorroidal. Bebidas são obrigatórias, alguns experimentam cerveja chinesa, que dizem não ser má. Há frango e cogumelos, tofu e carne de vaca, algum cordeiro, bastantes vegetais. Estamos esfomeados, o nosso estômago só conheceu comida de avião nas últimas horas - péssima, na minha opinião - e ainda que eu não vá nada à bola com gastronomia oriental, obrigo-me a ingerir algo para não fazer desfalecer o meu corpo. Não me dou mal.


Na noite já fixa, regressamos ao hotel pelo mesmo caminho que fizemos. Na praça central, crianças brincam à apanhada, há agora um pequeno carrossel, o calor convida a populaça a caminhar na rua. O regresso é assombrado pelas aceleras, que na escuridão passam de tubarões a panteras. O mesmo perigo, mas mais fosco . A Polícia continua na rua, as armas variam. De metralhadoras, passam a varas com laços na ponta. Como se fossem apanhar cães. Sinto-me mesmo cansado. As minhas pernas como rochas necessitam de se estender. Quando chego ao quarto, só penso nisso. Descanso em primeiro, banho depois. Ensaio aceder à Internet. Como a China controla a entrada em quase todos os sites ocidentais, sou obrigado a usar uma VPN; que é basicamente uma firewall que contorna as limitações chineses. As autoridades sabem, apenas permitem porque são simpáticas. Demoro a entrar, como é apanágio das VPN e a velocidade diminui drasticamente. Há certas coisas básicas que não consigo fazer, como aceder ao Gmail, mas as coisas fazem-se. Informo a minha família de que estou bem. Recebo fotos da minha sobrinha, d«os olhos da pequena Beatriz maiores do que Xinjiang. Aviso outras pessoas também. Amigos. Este mundo, e outro também. Escrevo o meu pequeno telegrama, como forma de me sentir normal na minha viagem, mas ainda não consigo o conforto que quero. Não conseguirei. Não ajuda que a minha maior bagagem nem sequer esteja no chão do quarto. Penso nos meus problemas e depois, nos destas pessoas que vi hoje, pessoas que mesmo quando não podem ser elas própria, não têm outro remédio pois é o que as faz viver. Apenas encontram disfarces, por vezes engraçados, por vezes arriscados. Penso em como os problemas são diferentes e de como as almas sofrem com igual intensidade, de como os corpos em dor se contorcem de maneira diferente conforme o que os aperta. Mesmo quando me passo por água, continuo a pensar. Nisto. Em mim. Nela. Ponho-me como para dormir e continuo a pensar; e sinto uma picada na nuca, que me diz que mesmo que sejam como o ar, os meus pensamentos são observados pelas câmaras. Sempre presentes, sempre perguntando, exigindo repostas a perguntas que não fazem. O olho que tudo vê

quarta-feira, setembro 18, 2019

Fachinação 2: Queimar fusos horários


Agosto foi o mês de Hong-Kong. Todos os dias, notícias dos protestos lutavam na televisão. De um lado, gente com cartazes e bastões num esforço cívico a pretexto da oposição a uma lei feita mesmo à medida de um outro país; do outro, a demonstração ainda incipiente do poder de um estado totalitário. A quinze de Agosto, Nossa Senhora abençoa os cidadãos do território autónomo com notícias de que o exército chinês se entrega a exercícios militares nas costas mesmo defronte da ilha. É um sinal óbvio, mas não só para eles. De certa forma, para mim também. Enquanto arrumo a mala, roupa cuidadosamente seleccionada, equipamento fotográfico pronto - não é muito nem particularmente especial, o que ajuda - as imagens das cargas policiais não me saem da cabeça. Parecia que até há um mês, aquela era uma das zonas melhor integradas no espaço chinês. Agora, a barafunda é total, fala-se abertamente de independência, pelo menos num canto deste centralismo que eu penso granítico - como estou enganado - reclama-se; e eu estou prestes a partir para uma zona geográfica onde o aperto é ainda maior, onde a opressão é descarada e o controlo tão próximo quando a marcação cerrada de Pepe às canelas alheias. Se eu tomasse boas opções de vida, não deprimia tanto, por isso.... espanta alguém? Dou por mim, no entanto, a escolher com muito cuidado as camisolas que carrego e principalmente, os livros de companhia. Deixo em casa, por exemplo, um livro de Murakami, por ser japonês; ou "A literatura nazi nas Américas", por pensar que a referência aos compinchas de Hitler me cause dissabores. Pode parecer ridículo, mas existem demasiados fantasmas na minha cabeça neste momento. Ainda estou a calcular como conseguirei manter um equilíbrio mental suficiente para suportar quinze dias de desconhecido, duvidando mesmo que a minha paciência me ajude a suportar desconhecidos. Não preciso que um rígido polícia oriental, remexendo na minha mochila, me chame a uma sala à parte por conta de um gajo que anda para ganhar um Nobel há anos e não conseguiu. Se ficar preso por lá, ao menos que seja por um Coetzee desta vida. E garanto-vos que não estou a exagerar: um amigo meu viu retida na fronteira, ao transitar do Quirguistão, uma edição do guia da Lonely Planet para o território chinês. Motivo? O mapa do país mostrava Taiwan como país independente. Algo que é aceite pela maior parte do mundo como facto. Mas o senhor Xi faz figura de urso e colocou como dogma que a nossa Formosa é um crime contra o que ele considera ser a verdadeira China. Que a sua independência é um logro; e como tal, esse meu amigo, guia desta expedição na qual embarco, apenas conseguiu safar um mapa de Pequim. Sim, é este ponto de picuinhice.

O avião parte às 8.20 da manhã seguinte. A minha família leva-me até Lisboa pela madrugada, eu iludo-me fazendo uma directa. Digo-me que dormirei no avião, embora saiba que isso não costuma ser hábito. Não faço as contas na alturas, mas  entre atravessar fusos horários, viagens longas, esperas em aeroportos e não pregar olho, estarei praticamente 48 horas a pé. Porque nada ajuda mais à saúde mental como um cérebro carcomido pelo cansaço. No aeroporto de Lisboa, ainda é noite, cinco da manhã. Despeço-me da minha mãe e do meu irmão e gracejo que se não voltar, peço à Polícia Chinesa que envie as minhas prendas por Correio Azul. A minha mãe não acha grande piada, mas a minha mãe não acha grande piada a qualquer coisa que eu diga que possa prenunciar uma catástrofe. O Humberto Delgado já fervilha. O meu voo ainda não tem balcão de check-in e portanto, alapo-me. Ainda que tenha passado algum tempo neles nos últimos anos, acho os aeroportos estas entidades estranhas onde as pessoas não existem bem. São apenas carregadas. Somos carga na verdade. Daqui para ali e depois para acolá até nos meterem numa coisa com asas. É o único local onde alguém como eu, cuja única vez que tive ambições de transgredir a lei foi desejando a morte instantânea de uma pessoa - só aconteceu por uma vez, mas foi realmente sincero e virulento, teve sorte de eu não ser telepata - se sente bandido a sério: obrigam-me a mostrar documentos, sou revistado, os meus pertences vigiados. Em simultâneo, é a versão cosmopolita de uma Loja do Cidadão, onde os papéis errados trancam portas e as senhas correctas permitem atendimento. Fascinam-me também as coisas tolas do utente de aeroporto, desde a clássica implicância que a segurança tem com as garrafas de água até ao esquema de extorsão visível e legal que ocorre na área duty free, onde podemos comprar um igual recipiente de água e levá-lo para o avião sem que sejamos acusados de terrorismo caseiro. Todo o processo de espera é como o mais longo e aborrecido recreio escolar. Finalmente, o voo para Frankfurt das 8.20 surge. Quando tento fazer o check-in das malas, há um problema com os bilhetes. Aparentemente, só na Alemanha posso pedir o meu lugar para Pequim. Ele existe, dizem-me, garantem-me, prometem-me, mas a partir de Portugal nada podem fazer. Começo a especular se o Humberto Delgado não é uma simulação virtual da União Europeia.

O primeiro voo corre bem. Não prego olho, tento ler e despacho uma edição do Courrier Internacional que tinha em atraso. Fala do aquecimento global. Basicamente, vamos todos morrer, a Greta Thunberg sofre de Asperger e isso é giro/demoníaco (conforme a pessoa que opina), Trump é um idiota e ainda temos tempo, mas afinal parece que não. Ah, e existem problemas no Gabão e casos de corrupção graves na Indonésia. É por isso que adoro ler esta revista: não só me informa como me permite entender que o ser humano, mesmo com as diferenças culturas, é um traste em qualquer lado. Confirma as minhas boas impressões do mundo. Também gosto dela porque me faz passar por cosmopolita e intelectual por saber coisas de países que habitualmente não surgem na TV. Há quem julgue que perco horas a informar-me, que tenho consciência cívica, quando basicamente adquiro esta informação por quatro euros. No fundo, o problema geral das pessoas é a falta de curiosidade. Sorte a minha, porque assim, pelo menos, são-me permitidas qualidades. Em Frankfurt, acabo por conhecer os membros do meu grupo. Não é complicado encontrá-los, somos os únicos a reconhecer o idioma português. Alguns já conheço, outros não. Nenhum deles se assemelha à Natalie Portman, o que é sempre um ponto negativo. A espera pelo voo é curta e o aeroporto de Frankfurt um tédio. Hospedeiras da Air China sorriem largamente, mas como se conhecessem algo que me está vedado. O meu lugar fica a meio do avião, mas tenho espaço à frente das pernas. Pela segunda vez na viagem, passo pelo processo de descolar, que por muito que o repita, sempre me parecerá estranho. Os rebites tremem, placas de metal tentam vencer o atrito e a pressão e penso sempre na magnífica cena de desastre aéreo de "Fight Club", quando um avião vomita os passageiros em pleno voo. Lembro-me que li algures que estatisticamente, os momentos de maior perigo numa viagem aérea são a descolagem e a aterragem. Sou a mente demasiado racional do Jack. Há alguma turbulência, sinto toda a minha biologia ainda mais apertada e espremida. Quando chega a acalmia, verifico o entretenimento de bordo. É pobre, a maior parte dos filmes são chineses. No entanto, ainda há espaço para a curiosidade. Decido verificar se de facto, os voos para a China obrigam a cortes e alterações nos filmes ocidentais. Cobaia: "Avengers: Endgame". Bastam alguns minutos para confirmá-lo, referências a alguns personagens são obliteradas para as versões disponíveis nos aviões. O longo tentáculo da sino-censura é longo e chega a todo o lado. Até à atmosfera.

Algures nas quase onze horas de viagem até Pequim, devo ter adormecido. Não fiz por isso. Alturas há em que o corpo é velhaco e nos rapta. Levou-me para longe, de volta a Portugal. Num descapotável azul, o sol beijava-me a cara como quem quer. Como já fui beijado um dia. Não queria levar-me consigo, porque o mar mesmo ao lado jogava ao macaquinho de chinês comigo e nada mais se passava, era só isto, uma delícia que se prolongava, um momento repetindo-se numa eternidade digna de Moebius, azul e luz, comigo seduzido. Não sei bem por que estava a ser dominado por tal imagem. Nunca tinha visto sequer o carro do sonho e o cenário em si fora fabricado completamente pela minha mente. Talvez o meu cérebro, melhor amigo e pior dos facínoras em revezamento, me estivesse a dar um recado. Que não estava sozinho nesta longa demanda, que me protegia e que cuidaria de mim sempre que pudesse, sempre que eu, na minha infinita complicação, não decidisse de livre vontade esticar-lhe os limites da resistência. Uma palmadinha no ombro occipital. Mantemos uma relação complicada. Umas vezes complico eu, noutras ele. Mas se mais ninguém se preocupa comigo, ele sempre por lá esteve no refúgio. Dentro da caverna da minha inconsciência, para onde me escapo sempre que o mundo se arma num breu incompreensível, cria uma ficção de sossego. Sabe do que padeço, o que me inquieta; e dentro de tudo isso, armou um cenário livre de mácula, livre de pecado. Puro nas intenções. Quando acordo, estou sobre a Mongólia - cuja capital, Ulan Bator, é um dos meus topónimos preferidos, pois parece o nome de um vilão de "Star Trek". Não deve faltar muito para aterrar. Vou sentindo a pressão da descida gradual do avião rumo a Pequim. Fecho os olhos novamente, mas não consigo regressar ao sonho. O carro azul partiu e a luz solar deu lugar a um amanhecer lento. São quase cinco horas locais. Lá em baixo, fábricas, telhados atropelando, sinais de que vive aqui uma multitude de gente à qual não estou habituado. A área metropolitana da capital chinesa é gargantuana. Ainda não cheguei, mas já lá estou uma hora antes; e quando dou por mim lá, não sei se estou de todo.


Uma coisa que se descobre de imediato sobre os Chineses é o seu amor profundo à falta de tradução. Quando a fazem, é em inglês macarrónico e necessito de perguntar a mim mesmo: como terá soado esta frase na cabeça de quem a escreveu? É necessário encontrar um voo interno que nos levará a Kashgar, mas demoro a perceber para onde ir e o que fazer. De um lado para o outro, sou iludido por um balcão que anuncia, saxonicamente, que é o check-in de estrangeiros. Trabalham lá duas senhoras de meia idade. Uma faz zero, a outra sabe fazer zero. Gastam meia hora a atender dois tailandeses, sem que lhes consigam resolver o problema. Não me surpreendo, visto que uma delas está ainda a tentar perceber o que é um computador, porque tem teclas e até que raio pode ser um quadrado luminoso com imagens e letras. Windows, em chinês, claramente se traduz por Windah! Com isto, um outro funcionário cruza-se connosco e talvez espantado por ver doze ocidentais agrupados num mesmo local - não sei se desconfiado de sermos roadies dos Fleetwood Mac - olha-nos. Mas diz zero. Contempla apenas. Um de nós lá ganha coragem para lhe perguntar se estamos no local certo. Um olhar vítreo, vazio, como se a nossa comunicação se desenrolasse em marciano. Com alguns gestos e a ajuda dos nossos bilhetes de avião, o jovem lá entende que estamos confusos, ou que somos perfeitos idiotas. Encaminha-nos até uns guichets onde preenchemos papelada que informa o divino Estado chinês de quem somos, de onde viemos, para onde vamos e até planos para jantar - esta última é inventada, mas não parece. São uns papeluchos amarelos, rectangulares, com os mesmos caracteres estranhos que vemos espalhados por todas as placas e também traduções mal amanhadas em baixo. Um novo balcão aguarda-me. Elevado, como para me mostrar o meu lugar. Do outro lado, uma mulher polícia com a cara mais séria que possam imaginar. Ordem para avançar, dá-me um outro polícia, que controla as filas, gesticula-me com ardor para que siga. Papel e passaporte do outro lado. Chega-te mais perto, vês esta câmara? Olha-a. Agora, põe a mãozinha neste sensor, tal como se explica. A foto do passaporte é minimamente parecida comigo? Óbvio, ambos temos cara de susto e calvície precoce. A minha imagem ficou agora registada no sistema chinês: onde quer que vá, saberão onde estou. Passaporte carimbado na minha mão, papelinho recolhido, posso avançar: estou oficialmente na China e travei o primeiro conhecimento com a sua máquina de controlo.

Um comboio interno liga os vários terminais e conduz-me ao três, a partir de onde seguimos num voo de seis horas para Kashgar. É a viagem interminável. Toma-me uma sensação de fraqueza, não física, mas espiritual talvez, numa mudança radical de culturas, numa sensação de ter queimado fusos horários sem sequer me terem pedido licença. Somos novamente controlados e revistados, implicam com as baterias da minha máquina e uma powerbank. Aparentemente, existe aqui um pânico do lítio. Que a China se mantenha longe do Gerês então. Quando um pequeno avião abandona a pista, estou preparado para apenas me reerguer no meu destino final. Mas não. Aparentemente, aqui a aviação funciona como a Rede Expressos. Mais ou menos a meio do caminho, aterramos. Problema técnico? Não. É apenas uma escala. De 45 minutos. Em Urumqi, capital desta província. Somos forçados a sair do aparelho e esperar meia hora neste pequenino aeroporto enquanto não nos dão ordem de reentrada. É quase ridículo. É novamente passar pelo pânico de levantar e descer. É tolo, é muita coisa que me ocorre e que se acumula quando tenho tantas horas sem dormir e uma enormidade de tempo em suspenso, literal. Regressamos e volto a sentir-me deslocado enquanto se ganha altitude. Ainda mal pisei a China - na verdade, quase nem pisei de todo - e isto já me parece quase uma subversão da ordem. Mais valia estar calado, porque me esperavam rodopios bem maiores. Vou escutando podcasts acerca de serial-killers e pessoas muito más, talvez na esperança de projectar nos sons as vontades que me acometem. Mas quando percebo que ainda mal partimos e já estamos para chegar, entendo que é melhor não dar muita bandeira, porque é complicado matar centena e tal de gente em dez minutos. Para além disso, sou incapaz de transformar uma bateria de lítio numa arma de destruição maciça. Não vi episódios de "Macgyver" suficientes.

Em Kashgar, a temperatura alta e o ar abafado são a primeira impressão que tenho. Na manga que nos conduz do avião ao aeroporto, uma carpete vermelha recebe-me e pelas paredes, videiras de plástico querem levar-me ao Alto Douro vinhateiro da candonga. Ouvi histórias do comportamento da Polícia neste aeroporto e sinceramente, estou preparado para tudo. Na mala, levo sete latas de atum e receio que impliquem com elas. Não demora muito até que a bagagem me chega às mãos. Mas, estranheza, a maior parte dos oficiais sorri ou joga no telemóvel. Há um que me pede o passaporte, mas nada mais. Faz sinal para que me encaminhe até à saída e possa, por fim, voltar a habitar o solo, que é o meu local de pertença. Sinto o meu ectoplasma ainda a regressar ao meu corpo e ainda não chegou todo. Espero que não tenha sido obrigado a dar explicações sobre mim ainda em Pequim, teria muito que explicar e faria certamente rir até a senhora mal encarada que me carimbou o passaporte. Mais do que partir, interessou foi Kashgar. Perceberam? Kashgar. A piada é má, eu sei, mas prometi a mim próprio que a faria numa crónica. Se a acharam de mau gosto, então parabéns: bem vindos à China. Faz parte da mobília.


quinta-feira, setembro 12, 2019

Fachinação 1: Um pequeno prólogo em forma de bico de obra


Não contava voltar à Ásia este ano. Fiz para mim próprio um regulamento de viagem e na lista impreterível de regras, sublinhei visitar um continente diferente por ano. Olhei para África, mas confesso que nada me puxou. A Oceânia no Inverno pode não ser exactamente a melhor hipótese e para mais, ainda que pertença a essa abastada classe da função pública que são os professores, decerto que gastei demasiado dinheiro na manutenção do meu iate. Não consigo explicar as minhas escolhas de viagem. Talvez no dia em que apresentar a mim mesmo argumentos racionais, deixe de viajar porque acabou o mistério. Bem sei que a razão e a ponderação são celebradas com purpurina e carpete vermelha, mas para mim, a vida ou tem um pouco de magia ou não vale a pena. Aprecio o toque do inexplicável nas costas, como quem chama a atenção e me diz "Estás lixado, vais decidir exactamente por aquilo que não deves e ainda por cima, vai-te parecer a ideia mais incrível e arrasadora dos tempos eternos e imemoriais". Sou um otário, basicamente, e até por mim próprio me deixo ser enganado. Necessito do indizível. Acho que é por esse motivo que tão facilmente deprimo; e também que quando dou por mim a pagar por uma aventura, penso trezentas vezes se não estarei a fazer asneira. Cada viagem uma asneira - é o lema que tenho e que carrego debruado a ouro no peito. Pois a asneira deste ano é a China. Sim, podem pasmar-se: pela segunda vez consecutiva, trago histórias de um país que vocês conhecem e cujo nome pronunciam sem se babar. Nada de Quirguistões, nada de ilhas perdidas no Círculo Polar Árctico: é a boa velha China, o Império do Meio, a cornucópia de bebés, os futuros senhores das trevas deste mundo. Esta asneira, no entanto, tem uma história. Daqueles estranhas e que por uns segundos vos farão questionar a minha bússola moral, e que começa com esta afirmação: vivo fascinado com ditaduras.


Aliás, as discussões das últimas semanas em torno de um museu dedicado a Salazar trazem-me delícia. Não porque seja particular fã dessa esclerose múltipla em forma humana, mas porque toca em algo que parecia ser, até há uns anos, um desses últimos redutos morais de nós como pessoas: ditaduras são más; e como são más, qualquer coisa que lhes esteja associada é para cuspir. Estudá-las é apenas um pretexto para lutos sobre a dignidade humana e oportunidades de afirmarmos, num pedestal, que somos muitos bons e que jamais regressaremos a esse tempo. Nunca esquecer. Mas também, nunca recordar muito, que somos gente de bem e não há cá lugares para muitas palavras sobre o assunto. O que é uma balela. Há uma análise histórica a ser feita sobre o tema, mas não cabe aqui. Digo apenas que esconder o pó debaixo da carpete não deixa uma sala limpa. Que por mais que queiramos guardar o pote de mel, há ursos que querem comê-lo e que talvez o melhor seja exibir o pote, mas explicar porque é que o mel está envenenado. Há qualquer coisa em mim que se deixa atrair pelos abismos da crueldade, não só de quem manda, mas também de quem obedece. Que questiona acerca dos motivos pelos quais, contra todos os nossos instintos - pelo menos, aparentemente - aceitamos um poder absoluto. De perguntar o que incomoda também quem se insurge: porque é que existe tanta gente que só encontra força para obedecer? De que maneira um tirano se transforma num pai que uma maioria aceita ou pelo menos não questiona? Em que ponto é que o ocaso da escolha passa a ser confortável? Na verdade, há já algum tempo que concluí que estas perguntas não se respondem apenas com os achados que se descobrem entre as linhas de um livro. A única maneira é experimentar e prestar atenção. Viajar até um país autocrático onde pudesse observar, qual Attenborough do totalitarismo, como raio pode alguém sequer construir um quotidiano quando to condicionam todos os dias. Há mais ditaduras no mundo do que se calhar pensam. Desde Cuba até à Coreia do Norte, passando pelas menos conhecidas como a Eritreia, o Turquemenistão ou a Bielorrússia. Ao todo, mais de dois biliões e meio de pessoas acordam sob este tipo de regime, a maior parte delas na China. Pareceu-me portanto que esta seria uma hipótese óbvia. Os Chineses nem conhecem o seu país por esse nome. Chamam-lhe Zhongguo, que significa qualquer coisa como o "Estado Central". Ou Império do Meio, na sua versão mais popular. Segundo país do mundo em área, primeiro em população, um sétimo do total mundial; e a ideia é corrê-lo de uma ponta à outra, mais de oito mil quilómetros em duas semanas. Há aqui cidades tão grandes que são governadas de forma praticamente autónoma. A história chinesa tem várias fases e grandes reviravoltas, como perceberão. A sua área de influência e população garantem sempre recordes. Para terem uma ideia vaga, a guerra civil que levou ao fim da dinastia Ming registou 25 MILHÕES de mortos. Vir à China não é apenas uma questão de exotismo. É entrar numa outra dimensão, em diversos sentidos da palavra.


A razão pela qual escrevo este preâmbulo tão longo onde refiro zero linhas acerca do que me aconteceu tem a ver com a complexidade da situação chinesa. Se nunca visitaram um país ditatorial, algumas das coisas que escreverei surpreenderão. A China é um mundo, com o quádruplo elevado ao cubo de culturas diferentes, histórias diferentes: há dezasseis línguas oficias e nem vou entrar pelos dialectos regionais aceites. Na tômbola que é a História, muitos povos tiveram aqui assento e por muito que o Partido Comunista Chinês esteja a tentar corrigir isso, os seus sinais ainda surgem, com maior ou menor força, por todo o país. Por muito que nos tentem convencer na escola de que o centro da História é a Europa, na verdade ele passa por aqui e pisar terras chinesas é quase voltar a um tempo antes do tempo. Vão entender que a China é uma construção dos Chineses, mas não da maneira que pensam; que regimes e pessoas podem ser duas coisas bem separadas; que há um custo inerente a viajar num país tão extenso; e que a não ser que tenhamos mais de cinquenta anos, não sabemos, de todo, o que é ser oprimido. Existe uma diferença muito grande entre aquilo que lemos nos jornais sobre o que é comportamento ditatorial e as formas que este assume de facto. Insidioso, por vezes muito mais subtil do que se espera. Que altera o nosso comportamento. Num certo sentido. estas serão as crónicas mais políticas que escrevi, porque é impossível vir aqui e ficar indiferente. A não ser que optemos por nos escondermos do mundo. Há quem me tenha dito que talvez veja mais mundo do que a maior parte das pessoas que conhecem e embora eu nunca me possa classificar de cosmopolita ou muito viajado, entendo que o nosso olhar é um professor muito útil e podemos aprender muito se pararmos um pouco para entender o que passa por nós de frosques de fresquinho. O que tento trazer da China é essa experiência, até porque visitei zonas muito pouco turísticas, locais onde muitas vezes era quase o único ocidental em dezenas de quilómetros. Se nada mais trago, que vos dê isto.


Um outro pormenor é importante de saber antes de mergulharmos na Ásia. O meu estado de espírito para esta viagem não era o melhor. Não me sentia preparado para fazê-la e lamento que esta história não tenha uma reviravolta feliz: quando cheguei ao fim, reforcei a minha ideia de que quem viajou não fui eu, mas uma espécie de carcassa com parte da minha centelha. Há momentos, raríssimos, onde consegui ser eu, mas na maior parte, foi como se estivesse a viver tudo através de interposta pessoa que nem pessoa era. Se alguém, antes de ter partido, me oferecesse o dinheiro que gastei e trocasse de lugar comigo, teria trocado sem hesitação ou dúvida. Mas tal não é possível. O tempo que demorei a convencer-me e a motivar-me é capaz de ter sido o mesmo que gastei na travessia da China. Não tinha outra solução que não fosse fingir que tudo ia correr bem, quando claramente não ia. A minha cabeça é tantas vezes uma casa assombrada. Os fantasmas não entram de férias como eu e não pagam taxa de bagagem extra. Simplesmente vão e aqui, em primeira classe. Não me vou demorar aqui a explicar o que se passa, que motivos me tiram essa alegria da exploração, o que me atormenta, o que me preocupa. É fundo e eu sei-o. Condiciona-me a vida e também me apercebo disso. Não pode ser resolvido em semanas e vai comigo para todo o lado, até aos cantos mais longínquos do mundo. Numa promessa a mim mesmo, um sussurro: dê por onde der, arranjando forças onde não podes, e frinchas que não tens, vais armar pelo menos um amostra de ti e aproveitar o que existe, ou pelo menos fingir tão bem que quando fizeres o sumário da matéria dada, quando te sentares para alinhavar em letras aquele fumo que viveste e chamas memória, vais acreditar piamente que tudo te encheu e transformou. De que esta é uma história feliz, de um ponta à outra. Não consigo acreditar, mas vou tentar fazer a melhor coisa a seguir: convencer-vos de que sim, e convencer-vos de que podem sorrir ou pelo menos crepitar no final de cada um destes capítulos. Se a minha vida real não é de consolo, que a realidade criada pelo que descrevo, a ficção real em fiação na vossa mente vos transporte e leve algum tipo de luz. A maior barragem do mundo é chinesa, logo faz todo o sentido.

Como podem ler, estou e sinto-me perdido. Na vida e na maneira como descreverei tudo, o desastre em cadeia que é este gigantesco país, o que lá vi e senti. Prometo-vos longas viagens de comboio, muitas histórias com polícias, objectos quotidianos que me tornam num terrorista, atum, Einaudi, montanhas e também um episódio hilariante que envolve esse símbolo de sapiência e bonomia que é um monge tibetano, desmontando mitos. E a certa altura, alguém quase cairá de uma cadeira perante a visão de uma mulher completamente nua. Mas só quando chegarmos a Turpan. E neste momento, nenhum de vocês sabe sequer que Turpan existe.