segunda-feira, março 27, 2017

O Alentejo que vos deixo 1


Cinco dos quinze maiores concelhos de Portugal, em área, situam-se no distrito de Beja, e um deles é o meu adoptivo, Odemira. Como devem calcular, nenhum deles está sequer perto do mesmo top em população. Nem se dobrarem ou sequer triplicarem e podem avançar até aos quintuplos que precisam de chegar à posição oitenta para encontrar Beja como o mais populoso. Odemira ainda aparece nos 100 primeiros, mas com um rácio de 15 habitantes por quilómetro quadrado. Só surpreende quem passa cá o Verão. Viver nesta região do Alentejo é ter por companhia a própria solidão e encolher os ombros. Ou se tem um mundo interior ou então é o apocalipse: se gostar de correria e animação, apareça por cá nos fins de semana de festa. Caso contrário, aprenda a gostar de ler e do silêncio. Em alternativa, o meu conselho é que aprenda a gostar de fotografia, arranje um carrinho poupado e parta em busca de recantos alentejanos. Para um beirão como eu, para quem a montanha é um património dado e um recreio, o Alentejo pode oferecer dificuldades no que toca ao lazer predilecto. No entanto, não só porque sou amigo mas também porque vos quero ver cá por baixo (para me continuarem a dizer "Bruno, estás em Odemira, essa zona é tão fixe, vais todos os dias à praia" quando, na verdade, estou a 35 km da costa mais próxima e o calor está com aspecto de só vir lá pela altura em que José Sócrates recuperar a sua alma, negociada com o Diabo por intermédio de Jorge Mendes) deixo aqui algumas pequenas anotações turísticas sobre os passeios que já fiz aqui na zona. Antes de mais, um conselho: não se aleijem a sério - fracturas exigem raio X e de Colos à máquina mais próxima vão 100 km. Não se andam uma semana com um mindinho inchado depois de um espalho em calhaus só porque se quer a fama de duro.


Colos - Também conhecida como a Veneza do Alentejo (só por mim e quando uso um tom tão sarcástico até o ar fica ácido), é a terra preferida de monges tibetanos, São Bento de Múrcia e daquelas pessoas que não estão mesmo para aturar outras pessoas. Prolonga-se ao longo de uma faixa de estrada, tem uma escola e uma igreja com o mais aborrecido e irritante sacristão da raia alentejana, que faz suspirar pelo regresso das rotas de contrabando, mas para vê-lo daqui para fora. O destaque vai todinho para a mercearia Paga Pouco, talvez o estabelecimento com mais classe da vila e porventura a única coisa que faz com que Colos mereça o título de vila mesmo. Outra coisa positiva é a presença de 100% de benfiquistas nas transmissões de futebol dentro do café "O piriquito" (assim mesmo). Ainda dizem que só o ar da montanha é puro e limpo.


Ourique - Também conhecido como "Aquela terra onde há o Pingo Doce". 50 km ida e volta, levop eu lista de compras para me aviar um mês inteiro, que a gasolina está cara. Um belo miradouro encima esta sede de conselho, inspiração árabe e RDP.  No topo de uma antena, existe um terraço para estender a roupa, mas nem se estende, é mesmo o patamar superior do miradouro. Uma estátua de D. Afonso Henriques marca o orgulho do local e abstenho-me de explicar a qualquer nativo que a batalha de Ourique nunca se podia ter realizado ali... Ou então não foi uma batalha. Os restaurantes são calmos e pacíficos, mas também o são as suas cozinhas e se esperarem 45 minutos para manjar, não se admirem. Interiorizem que é o "Alentejo way of life" enquanto disfarçam a fome e se imaginam numa aula de zen New Age. Ourique é a coisa que encontrarão por aqui mais parecia com o labirinto do Minotauro, com ruas de sentido único que vos obrigam a conhecer a vila e culminam, inevitavelmente na Avenida as Laranjeiras, onde podem provar citrinos que foram aprovados pela própria GALP. Ourique denomina-se a terra do porco preto. Preto ou sujo: perguntem a um turista inglês que, estando à beira da estrada fotografando estes suínos pastando, comentava com a melhor: "These animals are muddy, they really like to bathe in mud".


Mértola - Também conhecida como "Aquela foto do Guadiana e do Castelo". Mértola tem a menor densidade populacional de Beja, que é um bocado como dizer que a Khloe é a Kardashian com menos plásticas. No entanto, compensa-o com um excelente aproveitamento do património arquitectónico que lhe calhou em sorte: a zona histórica é agradável, com uma vista excelente sobre o rio e vestígios romanos e árabes em redor de um castelo dos tempos da Reconquista que observa a paisagem. Podem atravessar o rio de barco e pagar, se desconhecerem por completo o conceito de pontes. existe um núcleo sportinguista cujo tamanho da sede o torna no segundo concelho com mais densidade populacional do distrito de Beja. O castelo é ideal para tirar fotos ou escutar idiotas que têm a mania de que são arqueólogos amadores e tentam impressionar os amigos confundindo o poço de água que abastecia o castelo com masmorrras onde "eh pá, os gajos queimavam-nos com azeite a arder e depois cortavam-lhes as pernas e os braços, era tudo aqui". Quando se fartarem destes energúmenos, têm duas hipóteses: ou escavam em direcção às Minas de S. Domingos ou dão um salto ao Pulo do Lobo. As Minas guardei para outras calendas (talvez quando lá passar com hobbits), mas a lupina referência é um interessantíssimo fenómeno geológico que, entre outros, impressionou José Saramago; no entanto, este também se impressionou por Pilar, logo... que sabe ele da vida? Confiem mais em mim: a cascata ruge e perde-se na rocha negra, revolve-se em ondas como se fosse um mar que brota da terra violento e agreste, impetuoso e em bofetadas e quando dão por vocês a tirar fotos fascinados caem e esbardalham-se todos nos calhaus à margem e se calhar até partiram um dedo, mas nem interessa. Ponto alto: as rectas de Mértola oferecem excelentes fotos de ocasos solares que vos darão a fama de saber fotografar.

Folheto 2 chegará brevemente...

segunda-feira, março 20, 2017

O decente docente


Às vezes temos jeito para umas coisas que não gostamos muito de fazer e é essa a minha relação com a carreira de professor. Soa gabarolas, mas não é: das poucas coisas que consigo gabar em mim sem ter um ataque de eczema agudo é a minha capacidade de entreter um auditório com três ou quatro histórias. Ser professor é muito isto e se pensarmos que é mais e mais é porque vimos demasiados filmes e séries. Sim, podemos inspirar os alunos e preocuparmo-nos e conduzi-los e essas coisas, mas o importante mesmo é dispô-los na sala de aula e convencê-los de que na próxima hora e meia ouvirão informações não apenas incríveis, mas indispensáveis em absoluto para o seu bem-estar e saúde. No fundo, ensinar é uma long con em que ninguém fica prejudicado: o aluno aprende até mesmo o que não quer e dá por si curioso em relação ao mundo e a assuntos em que nunca pensara; o professor engana-se e acha que é muito mais importante no grande esquema das coisas do que realmente é. A docência é o seu super poder, a sala de aula o trono, aqueles jovens súbditos e enquanto se discerne acerca da matéria ou manda aquela piada que acende a sala em júbilo. é grande por uns momentos. Finda a hora e meia, volta a ser uma roda de engrenagem e regressa ao mundo real.

A escola onde me encontro a trabalhar anuncia-se como agrupamento vertical, uma designação do Ministério da Educação que evoca sempre em mim jogos de Tetris. Existe numa vila com menos de 2000 habitantes e deve a sua existência à inclemência do deserto populacional alentejano: tudo é afastado de tudo e certas referências devem permanecer para servir as populações; é assim que existem seis turmas de 3º ciclo e eu sou o único docente de História da escola. Torna-se complicado passar despercebido por aqui, pois em todo o lado há um aluno, em cada canto um chico esperto que quer dizer bom dia ao professor e sair com vida. Quando aqui cheguei, faz hoje um mês, pouco faltou para me estenderem uma carpete vermelha e lançarem balões jubilantes. Colos estivera sem professor de História durante dois meses e meio e ali aparecia eu, o Desejado. Não me recordava da última vez em que estive nessa posição e por momentos apreciei a sensação; foram segundos de luz que se apagaram quando me recordei de que estive seis anos sem leccionar. Depois chorei por dentro, mas ninguém reparou. Ainda sou "o professor de História", porque antes, cinco mânfios recusaram e este cargo foi um "passa a morte" que chegou até mim. O desprezo de outros torna-me especial e isso é também uma inversão da ordem das coisas.

Esta sensação de que a escola de Colos é uma dimensão à parte de todas influencia o comportamento de todo o pessoal docente: rapidamente orientaram o caçula e fizeram essa coisa linda e que fica sempre bem em avaliações que é "Integrar". Na verdade, sente-se um espírito relaxado na escola. Não de incúria, mas de calma mesmo e a noção de que o nosso trabalho decorre e ninguém morre se houver um ou outro atraso. É preciso cumprir os horários semanais, estar nas reuniões e dar as aulas. Ajuda se, pelo meio, expandirmos os pequenos mundos que estas crianças receberam de herança ao nascerem no interior do concelho de Odemira. Não é obrigação, mas apela a um sentido de caridade e empatia inato, que rasa um pouco aquela sobranceria de gente branca que vai passar um mês num projecto de voluntariado e acha que não só mudou o mundo como sabe o segredo da vida. No dia a seguir, é egoísta como dantes, mas nem interessa. No entanto, agrada-me isto de divulgar e levar coisas novas, logo eu que espalhei a santa palavra de Einaudi como um fogacho em folhas de eucalipto secas por todos os meus amigos. Aulas há em que a divulgação do saber adquire estranhos contornos: quando derem por vós a ter de explicar conceitos religiosos a turmas inteiras que nunca tiveram catequese, perceberão. Diziam os outros que o Alentejo seria novamente seu e pela irreligiosidade dos meus alunos, nunca deixou de sê-lo.

Há certos pormenores neste retiro em Colos que me aborrecem, mas a escolha que me calhou em sorteio de tômbola não é um deles: as turmas são pequenas, o que é sempre bom; os meus colegas não fogem da simpatia e tiveram piedade de um maçarico; as aulas decorrem até às 16.30; e no geral, a pequenada não abusa e o seu conceito de mau comportamento estende-se até ao limite máximo de falar quando não deve. A ausência de toque de entrada e saída ainda me causa confusão, mas é tudo uma questão de decorar as horas e ter um papelinho com o meu horário sempre à mão. Até agora vou conseguindo enganar toda a gente e parece que sou um docente à séria: os alunos vão aprendendo sem grande tédio, as reuniões são feitas e dirigidas e apareço sempre a tempo e horas. Dou mesmo ar de profissional, mas respiro com o coração na ansiedade e só com o tempo, acho, recuperarei o fôlego. Até lá, a vossa presença desse lado é um balão de oxigénio.

terça-feira, março 14, 2017

Alentejo sem rumo



Sou um beirão, nascido e criado. Cresci rodeado de florestas e montes, habituado a olhar em redor e ver a linha do horizonte entrecortada por outros limites e nunca tão longe que não sentisse a distância a puxá-la para bem longe de mim. Ao contrário do que se possa pensar, é libertador viver assim, absorver o mundo pelas suas formas e muralhas, saber que estão lá sem nos fechar, que são apenas a prova física de que sou humano, de que tenho limitações, mas que de nenhuma forma elas devem limitar-me: vejo a montanha para subi-la, escalá-la, domá-la. O meu mundo sempre foi esse; e dou nestes dias por mim noutro planeta, noutra Terra até, uma onde os montes são meros soluços do solo, quase fictícios, uma miragem ao longo de compridas planícies, tapetes verdes onde se erguem, a espaços, pequenas árvores que tornam o chão num tabuleiro de xadrez onde a estratégia é clara e é baralhar-me à minha mente. O Alentejo é de uma estranheza hipnótica que confunde quem sempre viveu no costume das alturas e a longitude total dos meridianos do tapete alentejano causa sempre a sensação de que o mundo pode não ter fim, ou início sequer. É um mundo em repetição permanente que continua e continua e continua e continua.

As rectas intermináveis que ligam os pontos deste extraterrestre planeta alentejano são monótonas, mas convidam-me a pegar no carro e deixar-me ir. O ocaso do sol é sempre uma boa oportunidade para apanhar as labaredas do céu e ver cegonhas a contra-luz. Sinto sempre que é uma pequena piada de ironia que alguém com tanto medo de ficar só, com tantos problemas em lidar com a solidão e consigo, cuja mudança de condições causa sempre um sobressalto eléctrico que comprime a minha coluna como um acórdeão, tenha sido despachado para o eremitismo do isolamento numa área assim, de nada permanente e renovável, de conhecidas aves migratórias que optam por ir e vir para proteger a família, construindo uma vida que se escapa pelos meus dedos, que procuro e não encontro, em virtude da qual me gasto sem esperar outra recompensa que não seja ser recompensado e poder sentir-me feliz. A partir do meu terraço, contemplo a permanência do espaço sem ponta por onde pegar. A rotina que para mim criei nesta nova vida que tenho é apenas a reflexão dessa permanência morosa: acordar, comer, higiene, caminhar, escola, aulas, colegas, regresso a casa, deitado no sofá ao computador, lanche, algum trabalho, banho, jantar, relaxar e entregar-me em esqueleto na cam(p)a. Chamam-lhe vida e no entanto, porque pareço esmorecer nela? Mirrar como uma cebola presa num armário húmido, com o mofo a morder? Porque levo isto como uma pena de prisão e não uma benção? Porque penso em insistência na vida que não tenho, que procuro e que desejo e não neste milagre de estar empregado, de conseguir ser útil a alguém que seja, porque não acordo com toda a experiência, porque recusa a minha mente abraçá-la e lhe ergue barreiras, porque caminho para a escola como um condenado ao desterro ao invés de aceitar-me como esta figura que de barba entra na sala, fala forte, cativa atenção, aborrece quando força a trabalhar, exulta quando vê nos olhos alheios a curiosidade arrancada por uma pequena história, um pormenor esquivo?

Não sei que feitiço tem o Alentejo, que me relaxa quando me movo e me petrifica quando estando parado, deixo a cabeça voar por sobre o mais alto dos picos, procurando qualquer coisa de familiar, uma semelhança de conforto, a ideia que lá longe podem sentir a minha falta, que também lhes morre um bocadinho quando aqui caio à noite e que a minha alegria pode ser também a sua, quando surge, que a felicidade não é como a planície alentejana ou como a montanha beirã, mas sim um terreno sem definição ou relevo, sem passos trocados ou estradas infinitas, apenas é e vagueia à nossa vontade. Há dias em que para mim olho e pergunto se é meu objectivo ser assim, triste e macambúzio, se não sei ser de outra maneira, se a felicidade me assusta e noutras quero-a e desejo-a, sei bem o que pretendo e o que me elevaria à transcendência da respiração e que se não alcanço é porque algo há de errado, que os sonhos não se cumprem sem que para eles trabalhemos; e juro que estou a escrever isto num caderno, deitado no terraço, que o sol se está a pôr, a luz é outra, laranja e vermelha, que no céu nem há nuvens a reflecti-la e que em mim, esse ocaso é um acaso para despejar num papel a insegurança que não tem geografia nem nome, apenas treme a realidade como o calor torna difusas as rectas do Alentejo em dia de Verão e que se no sul me tento nortear, é apenas porque tento responder a uma pergunta que desde criança me troca os pontos cardeais: quem sou eu e o quero fazer?

É tudo uma açorda, como às vezes aqui ouço; mas no meu caso, sinto-me mais migado do que ensopado e vai daí, talvez me misture em ambas.

segunda-feira, março 06, 2017

Poder local


Curioso que, poucos dias depois de ter aqui escrito uma ode à casa onde passei quase todos os 34 anos desfiados na vida que me vai cabendo, me apanhe na incidência de habitar num local tão completamente diferente, longe do meu habitat, longe dessas quatro paredes que tanto gabei e cuja relação emocional não consigo esconder. Mudar de casa é também alterar o nosso código postal e só quando o fazemos se descobre que o nosso sangue e a nossa vida é muito também o que nos rodeia de mais próximo. A arquitectura de uma casa, a sua geografia condicionam as nossas rotinas, claro, mas também as nossas reacções e a nossa personalidade, o nosso humor e as histórias que temos para contar. A escolha de morar em Colos e neste número 6 específico fez-se sem grande orientação prévia, mas um olhar bastou para escolhê-la entre várias que vi, porque me conheço e sei como funciono, porque em nenhuma outra me revi. Esta não é, de todo a minha casa; mas habito nela como quem passa por aqui e não se quer deixar também na planície.

Ora, existem 3 quartos (um deles meu, outros dois vagantes para quem quiser visitar) e uma cozinha laterais ao único corredor do espaço, que da porta da entrada conduz a uma sala. Num canto, à esquerda, uma casa de banho; no canto seguinte uma despensa e se continuarmos no sentido dos ponteiros do relógio apanha-se uma salamandra, mais quente do que anfíbia e ideal para invernos alentejanos que já passaram. Nota-se que a casa é fria, mais do que esperava, estar de cobertor tapado não é apenas um gesto de conforto, mas uma necessidade.  Abrindo uma porta de metal ao fundo da sala, dá-se para um quintal onde uma laranjeira já deu os seus frutos e o ar enche-se de cacarejar das galinhas que passeiam nos terrenos contíguos de duas vizinhas. Não é o som mais agradável de ouvir, mas torna-se ruído de fundo quando subo para o meu pequeno terraço de onde consigo ver todo o casario de Colos, branco e empilhado, a torre da igreja destacando-se no topo e em contra-luz da planície verde, chaparros ocasionais, o cliché visual repetitivo da aldeia alentejana. É aqui que como fruta depois do almoço, quando sol me espreita e quando as nuvens ameaçam sem chover, onde gosto de estar comigo e de observar visões apocalípticas, como quando as ditas galinhas decidem empoleirar-se no ramo destacado de uma árvore, em fila, como se o Hitchcock português tivesse deitado para longe cabos de electricidade e pombos. Imagino que no Verão, as noites aqui passadas sejam agradáveis, mas ainda faltam uns meses para descobrir. Regressando ao interior, o branco das paredes cegava-me um pouco ao início, mas já me habituei. Recordo que da segunda vez que quis entrar neste número 6, dei por mim perdido na rua, uma marcha de habitações pálidas com a mesma risca amarela passada como se fosse igual a cada alentejano que a sua casa tenha personalidade ou não. Hoje já sei distinguir, tiro a pinta pelas orelhas envidraçadas da casa e se quiser fazer figurinhas de urso, devo recorrer a outro esquema.

Certas coisas são aqui comichosas: em primeiro, a rede de telemóvel é uma mentira – na sala rasa o aceitável, no quarto onde durmo nem existe; o sinal de internet assume-se uma utopia que só se atinge em períodos de gozo. A decoração é kitsch em esplendor com calendários chineses, um símbolo budista pintado a dourado na barra da minha cama (conflito diplomático à espreita), vários pechisbeques judaicos como se estivesse em Belmonte e um gosto estético na escolha dos têxteis apenas ultrapassada pelo bom gosto de humor de Badaró e do Agildo. A pressão do chuveiro quando se liga a água quente é tal que faço festinhas a mim mesmo com o objecto (não, meninas: não vibra, lamento a desilusão) e volto aos tempos em que uso botijas de gás butano pequenas, que servem o fogão também, controlando-me.

No choque da mudança, ainda não me habituei a ter de ser outro, em parte. Tento refugiar-me em objectos sagrados pessoais para fazer de um lugar estranho uma forma de vida pouco estranha: livros empilhados em cantos e cartas escritas em amor e afecto guardadas na gaveta e em modo SOS quando me sentir mesmo em baixo foram obrigatórios de trazer e numa das divisões, um postal com um Darth Vader desenhado é menos negro do que a sensação de eremita perdido a Sul. O silêncio da casa não me incomoda e apenas torna mais sacra a companhia de imagens que trouxe, como ícones, emoldurados sobre os móveis. São faces que me trazem o sossego devido, amigos que são mais casa do que as paredes, como se em Colos pudesse ter o meu mundo, são outras pessoas especiais cuja presença seria capaz de transformar as minhas pequenas divisões num universo de brilho constante, cheio de galáxias em mim, como se uma casa pudesse ser eu em plenitude, em permanência, como se ao mudarmos de poiso e lugar não me sentisse tão deslocado e fora de tudo, como se a simples recordação de uma pessoa habitasse de finca pé, como se a menção de certos nomes me trouxesse de volta a Ceira, como se a arquitectura de certas faces fosse um local onde, precisamente, nunca deixo de me sentir confortável e eu mesmo e qualquer divisão deste número 6 nunca tivesse deixado de ser casa e minha desde que me conheço.


E sim, há alturas em que desespero por não me sentir em casa, encasinado, por ter saudades e por ser fraco e pouco adulto, por não me assumir na minha vida; é aí que paro e penso em pessoas e locais, em longitudes e latitudes do coração, nos meridianos de lágrimas, nos trópicos dos sorrisos verdadeiros e tento interiorizar que uma casa sou eu, que dou vida e isso é um poder, um super poder aliás, que posso ser um herói e que em quaisquer quatro paredes nunca serei estrangeiro se me abraçar a mim mesmo e me der uma oportunidade. Deitado num sofá, na sala que não é minha mas agora me pertence, escrevo-o e faço muita força para me convencer de que isto é verdade e que posso acreditar e que na morada de agora, namoro esta ideia de estar e ser de outra maneira. De mudar, mas no mesmo local. Na mesma casa.

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

Levado ao Colo




Há pessoas que adoram a mudança.Quanto a mim, resisto-lhe como se eu fosse um denso e polido rochedo granítico há muito cravado nos rápidos de um rio, recusando mover-se na sua luta contra as leis da Física por nenhuma outra razão inútil que não a própria luta, a própria resistência. É bom de ver então que ser avisado, sem alerta, de que fui colocado numa escola a 350 km de casa, um facto cuja probabilidade só se pode equiparar à revelação de que Bruno de Carvalho é um líder sério e ponderado, disparou no ringue da minha cabeça remates contraditórios. Por um lado, a surpresa de que o inesperado ainda me pode bafejar, que a engrenagem da minha vida não é tão pré-definida como sempre julgo, que por uma vez, de maneira positiva, os factos jogam a meu favor - um emprego, hoje em dia, acaba por ser um golpe do baú. Por outro lado, remover-me do que é familiar, , ser eremita num local isolado, tudo isto exponencia a solidão interior que por norma me consome e enche na combustão de um fogo negro cuja brisa mais macia pode logo explodir a aspereza e agressão da minha própria personalidade pacman. Aceitei, no entanto, porque por uma vez devo ser prático; porque me convenci de que, tendo estado na Madeira um ano, cinco meses no litoral alentejano são brinquedo; porque o dinheiro pode ser importante nalgumas partículas da vida; porque tornar a minha vida desconfortável é algo que faço desde a minha adolescência e que por uma vez o seja no bom sentido; porque me tem custado, cada vez mais, viver na vergonha de ser e estar desempregado enquanto toda a gente em meu redor tem um emprego e uma vida feita, filhos e companhia, uma ideia definida daquilo que faz e quer enquanto eu morrinho dentro de mim.

Tudo isto pesou e me contrariou o instinto, levando-me a abdicar de pequenas vitórias que vinha conseguindo. Não tenho espírito de emigrante, sou demasiado acomodado , inflexível e falta-me a agilidade e estoicismo que tanto nos caracterizam como Portugueses, um povo de emigrantes. Ainda assim, tenho feito um trabalho de sapa nos últimos anos para me demolir indo contra mim e como tal, aqui vos escrevo de Colos, pequena vila alentejana (pequena é uma palavra mais operativa do que alentejana), onde a pasmaceira é não só um lema como um desígnio municipal a ser inscrito no brasão. Como descrever? Bem, imaginem a longa recta de alcatrão com duas curvas no final e casas brancas baixas, atarracadas, apertadas numa guarda de honra de tijolo e adobe: é isto. As mercearias chamam-se drogarias, o campo de jogos está invariavelmente vazio, as ruas de empedrado, as cegonhas são drones que patrulham em voo rasante e longos bicos a planície antes de pousar nos ninhos. Acessos entediantes, por entre montes alentejanos e no mapa, Colos fica equidistante de Odemira e Milfontes e antes que pensem que sim, que finalmente há animação e civilização, o meu conselho é que coloquem tudo em perspectiva: qualquer uma delas faz Coimbra parecer Nova Iorque e Tóquio em fusão; e já agora, a rede de telemóvel é tão estável quanto a saúde mental de Madonna e o sinal de Internet tem a força de um jogador de futebol quando sente um leve toque nas costas. Viver por aqui é um exercício de ascetismo e isolamento, como se me entregasse a um retiro espiritual de reavaliação da minha vida e talvez precise disso, de cortar com algumas árvores que se enraízaram em mim, podar outras, ignorar umas quantas e reposicionar-me. Esquecer pessoas, dar a outras o espaço que merecem e decidir como organizar as restantes,

Aqui também encontrei uma rotina boa e uma função, o prazer de, quando em vez, espantar os alunos com conhecimento, colegas disponíveis e relaxados, boa gente que quer receber e fazer-nos sentir bem e também o prazer do quotidiano, guiar em rectas intermináveis com boa música e o meio de nenhures abraçando-me e dizendo que se calhar vai tudo correr bem, que de duas semanas virei a casa e estarei com os meus, que lá por baixo também há vida, que se calhar viver a novidade é tão parte da vida como as cabeçadas. Quero acreditar em tudo isto; mas também gostava de não confundir a minha casa com as restantes 5 iguais que estão ao lado. Por isso, um passo de cada vez.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

As linhas que o destino me escreve


Lembro-me que tinha uns 13 anos, talvez, e tudo começou com blocos de folhas de linha. Na escola, a professora de Língua Portuguesa decretara que todos os períodos devíamos escrever um texto subordinado a qualquer tema que quiséssemos. Porque os números nunca quiseram nada comigo, virei-me então para as letras, uma vingança sanguínea escarlate e começou aí então uma saga que duraria toda a minha vida: o Bruno agarrado a cadernos e papéis, de caneta em punho, traduzindo para o plasma branco mundos e palavras e aspirações e desejos e ocasionalmente tornando real, em frases, o que não conseguia iludir-se de julgar possível na própria realidade. Aquilo que se iniciou por um garoto, no seu quarto, colando as influências do que via e lia, gamando a séries e filmes conceitos apenas para refundi-los noutro enquadramento (aquilo que Tarantino faz e o eleva a demiurgo para alguns) chegou hoje a um homem adulto - em idade - destilando para o mesmo vazio todas as ervas daninhas que lhe trepam os muros da cabeça, as sebes do coração, a abertura da boca que deve explodir na ideia e acaba sempre por canalizar o estalo para o meu amigo mais fiel: a Escrita. Assim, com maiúscula.

É irónico que alguém como eu, que granjeou entre os seus mais próximos a fama de artífice das palavras, sinta a dificuldade de expressar o quão fundamental escrever é para mim. É no geral desconhecido que eu sou, na minha raiz, uma pessoa tímida e adversa a revelações e aproximações e a minha existência define-se basicamente como uma pessoa que vai caindo aos trambolhões por uma escada abaixo enquanto respira, enquanto procura qualquer tipo de corrimão para se deter e nem sequer sabe onde encontrá-lo. Escrever foi, desde muito cedo, a minha maneira de contactar a realidade e defini-la, o meu canal para os outros, a expressão do que sou e sinto quando a única coisa que consigo fazer com a boca é desesperar e por resultado agredir outros. As fantasias são o primeiro patrão da criatividade e alimentei-me sempre das minhas, a principal a de que conseguia admiração alheia através da minha caneta, fazendo rir outros com trocadilhos de filmes, levá-los a redescobrir-se em reflexões lidas à figueira de um acampamento, trocar ideias sobre o mundo em suportes digitais ou tão simplesmente atalhar através da minha timidez em conversas ao longe com objectos de desejo e pulsão feitos femininos. Palavras, para mim, sempre significaram estar mais próximo, até de mim mesmo. As folhas e os ecrãs solitários são o meu mais longo e original psicólogo, teias de mim e das ideias em análise e levando-me a uma loucura aceitável e perigosa, mas também a elogios alheios e lágrimas de outros quando consigo cristalizar isso num raro texto quase perfeito. Quando penso em mim estendido na cama, com uma caneta azul roubada ao meu pai em punho, levando por vezes a minha mãe a questionar-se sobre o seu filho mais velho e o que raio ta cabeça lhe ditava e tornava, vejo como esta minha relação com as ideias em frases atravessa todos os grandes momentos da minha vida, de como só consigo que o mundo seja mundo quando o puxo para a intimidade de um ponto final. De como muitas das pessoas que me preenchem foram puxadas por esta minha habilidade, de como criei nelas uma ideia de mim através desta projecção hipnótica que é a navalha gramatical que entra fundo na pele e causa as feridas mais lentas.

Por isso, enquanto os meus conhecidos e amigos me viram apenas desfilar uma caneta algures, na verdade estendia.me e mostrava-me, e acreditem que já escrevi em todo o tipo de locais, desde paragens de camioneta em Espanha até yurts no Quirguistão, desde falésias Algarvias até rochedos beirões, na privacidade do meu quarto e no espaço público de todo um grupo rindo e vivendo enquanto que eu, num canto, só pareço conseguir disfrutar da realidade em colocação distante da mesma. A ironia daquilo que me faz viver duplamente, que me esguicha alegria quando é tudo, também me torne um bocadinho de nada por me confortar na falsidade da ilusão. Se escrevo, vivo, mas também não vivo. Paradoxo das letras. Já fui muita coisa como escritor, ganhei dinheiro através disso, já me enganei também e enganei outros, já conquistei e fui arrasado pelo que coloquei em palavras, até escrevi um livro partilhado, já fiz delas quase tudo. Para além dos números, a sua escrita foi uma forma de contornar também as duas mãos tamancos que possuo e me tornam imprestável nos trabalhos manuais. Mas hoje, de máquina em punho, também isso foi corrigido e fico apenas com um único motivo para escrever.

Dois, se quero ser justo, Um deles sou eu, realizando-me por intermédio desta expressão, procurando respostas e indagando, chegando até a amar com palavras, se tal é possível, fazer delas carícias à distâncias, beijos gráficos e explícitos, a declaração máxima e transparente de um vulcão que treme na sua insegurança; a outra é quem lê e quem procura, quem espera por mais de mim, quem pára porque tem uns minutos, quem se mostra curioso e num exercício de voeyeurismo, espreita as minhas cortinas e tosse com o pó. É para esses que, de quando em vez, decido não lidar com a realidade de frente e opto por uma rotunda em forma de teclado. Escrever é muito misto também: inventar qualquer coisa pela qual vale a pena acordar no dia seguinte e simplesmente tornar-me numa espécie de alquimista das minhas imperfeições. O que lêem aqui é sempre a minha versão da pedra filosofal: bruta como só as pedras, mas com aquele bocadinho de esperança de quem transforma o seu chumbo em ouro e julga que está para durar.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

A minha casa


Sou o produto de dois pais que se esfalfaram a trabalhar desde cedo, acabando eu por provar que as maçãs podem cair bem longe da árvore, e por isso cresci mimado por algo que meu colega de escola da cidade nunca soube o que era: uma casa com vários andares, ou como o planeamento urbano gosta de chamar, uma vivenda. Rés-de-chão, primeiro andar e sótão, assim ordenados. O meu pai demorou três a nos a construí-la, com a ajuda de amigos e alguns profissionais, mas sempre ouvi histórias das obras e do esforço que ele fez para conseguir um dia estar defronte dela, inteira, com a sensação de projecto cumprido. Por isso, desde que não me lembro que vivo aqui. Nunca fui uma criança que saísse muito de casa, mesmo vivendo na aldeia. Os meus amigos de infância contavam histórias de assaltos a pomares e corridas na linha de comboio, espalhos de bicicleta e saltos destemidos no poço do Almegue, mas sempre me agarrei a livros e brinquedos, a olhar para o tecto do meu quarto, a explorar a minha casa em recantos e pormenores. Lembro-me bem dela antes de ser do que é, azulejos que já não moram, alcatifas que deram em tacos, o meu quarto como já não existe, paredes azul-claras, mobiliário de placas de madeira, os meus brinquedos alinhados como se fossem soldados na defesa da minha criancice. A memória de tudo isto é também uma casa, tem a sua morada na minha cabeça.

Uma casa tem o seu ritmo e a sua respiração, a sua vida. Desde a adolescência que mantenho uma lista das pequenas derivas que fazem destas paredes e betão uma pessoa, os pormenores e os sons que funcionam em mim e são hábito. A gravidade profunda dos pés que sobem os degraus de mármore da minha escada exterior, o fogo mantido do velho esquentador na cozinha, a sofreguidão das torneiras exteriores - velhas e soltas, qualquer toque um pretexto para soltar um rio - a impossibilidade progressiva que tem sido fechar uma porta pelos constantes defeitos das mesmas, abrir a porta exterior da cozinha com tosse engasgada, um sótão cheio de tralha que durante tanto tempo pareceu assombrado a uma criança, a banheira antiga com a sua ferrugem visível, as manchas de humidade irrevogáveis, as estatuetas de Guardas Fiscais na sala do andar de cima, a porta do meio do armário do meu segundo quarto que só fecha com chave girada, o reboliço na loja quando mais do que uma pessoa caminha, a minha cama que range ainda que ninguém se deite em cima, o reflexo da luz quando penetra nas frinchas do meu estore e reflecte numa cómoda com espelho oposta criando a sensação de não ter paredes, o tilintar dos talheres na cozinha do rés-do-chão anunciando que a comida está quase pronta... É um álbum completo, com lados A e B, e em 34 anos que puxo, pensei que não havia segredos entre nós, entre dois produtos dos meus pais, entre mim e o meu irmão mais velho de cimento e tijolo.

No entanto, a surpresa não pede licença, nem se anuncia com antecedência. Enquanto tomava um duche, há uns dias, sentindo a água quente amolecer-me a carne ao ponto do filet mignon, os meus olhos cruzam-se com a janela da minha casa de banho, um rectângulo pequeno que dá para a casa do meu vizinho e, obliquamente, me permite observar a linha do horizonte. Passava das seis da tarde, não sei precisar melhor, e porque os hábitos são tiques da teimosia, a música disfarçava-se por entre a água, porque desde há vinte anos, é-me impensável fazer a minha higiene sem acompanhamento sonoro. É a minha maneira de ser adulto. Einaudi tocava "Primavera" e enquanto penso em fantasmas e assombrações que sempre me agarram nesses momentos, e nessa semana com a força do que crava unhas, sou cegado por uma luz. Enquanto os meus olhos se habituam, o meu cérebro rapidamente sabe que é o sol e abrindo a janela, vejo a estrela que nos acompanha a submergir no mar fictício lá longe. As nuvens ocultam-no, mas o hidrogénio queima mais forte, mostra-se e marca presença e de repente as pedras da muralha caem, o pouco que há de adulto soçobra e a mesma criança que cresceu fascinada com um imenso mundo de três andares exclama: consigo ver o pôr do sol enquanto tomo banho. É algo de praia, mesmo, como se Ceira fossem as Caraíbas. Ceiraíbas, portanto. Com Einaudi, a hidromassagem garantida, a minha mente perdida em divagações, a leve vertigem da vida que se questiona, um corpo que se entrega ao acaso, é mágico, inesperado e consigo ver no que é familiar a pequena surpresa do encanto mágico da descoberta. Recordo outros pormenores da casa, transitórios, pormenores de amores e beijos na intimidade do meu quarto, tão bálsamo quanto a água tépida, tão quentes quanto o sol, tão enfeitiçados quanto os meus olhos. Fazem também parte de uma casa, como se o amor pudesse ser uma outra camada de realidade, de existência, uma casa dentro de uma casa, e aquele pôr-do-sol me lembrasse que nada está escrito e fechado, que há mais por descobrir até naquilo que se pensa repassado.

Seco-me com a toalha, já o sol sumiu, mas não todas estas memórias. Memórias da D e da L e de outras letras, memórias de sorrir em criança e chorar em adulto, de ver nascer o meu irmão e morrer o meu pai, de sentir que tudo passa como água por um ralo, que pelos canos é colocada algures num reservatório, daí para um rio e se renova num ciclo aquático. Como se a minha casa fosse corpo presente, espírito ausente, mas ambos em permanência; e perto do dia dos Namorados, enamoro-me da minha morada e para mim está tudo bem: o amor é, para mim, o tempo que se aplica naquilo que se gosta e a minha casa está comigo desde que eu era apenas amor em células. Um beijo em cada parede é pouco.