quarta-feira, maio 09, 2018

As Ilhas Far Away 18 - Fora das Faroe


Passei quase trinta anos a dormir. Um dia acordei e decidi que conhecer o mundo era mais importante do que deprimi-lo. Foi assim que contra mim elaborei o plano de viajar uma vez por ano. Se a possibilidade surgisse, um continente diferente à vez. Escrevo isto e de imediato me sinto estrangeiro, não no sentido de Camus, mas mais como quem olha para si mesmo e sós e reconhece aos repelões. A tomada de decisão ponderada sai um pouco pela janela e isto de viajar sozinho com companhia, de não conhecer ninguém e ainda assim ir, não sou eu, mas passei a ser. Cada pessoa que conhecemos ao longo da vida não nos conhece, mas sim vêm que somos nessa altura. Os recém-chegados ligam-me ao cosmopolitismo, porque sabem que viajo e vou a locais de nome estranho, mas na verdade, este é apenas um eu actual. Não fui assim a vida toda, perdi muito por não ser assim a vida toda e só agora que acordei os olhos de outros abrem para mim.


Sento-me em Portalegre. A cidade é tão mortiça na animação quanto as Faroé que deixei em Setembro, mas menos verde, menos sozinha, menos convite. Pensei muito naquelas ilhas dinamarquesas cá em baixo, de como cada ponto do Alentejo é de certa forma uma ilha e de como ter visto o isolamento das aldeias e vilas faroesas me faz encarar a planície e a distância encolhendo ombros e percebendo que estar isolado e só é um conceito. Se no Quirguistão aprendi que posso ser várias pessoas numa, que cada um me vê como quer entender o mundo e as pessoas, nas Faroé escrevi em mim que o mundo podemos ser nós e ninguém tem nada a ver com isso. A vida de quem está longe e mesmo assim tem de existir fascinou-me lá no Norte, naquelas casas de silêncio, mas não de vazio. Gente que respira os dias e expira as noites. Para quem a solidão é apenas e só o que os dias trazem, ou seja, é o momento enorme que intermedeia idas e vindas da cama. É estranho como tão longe e numa paisagem tão diferente esse pensamento acaba por me confortar, que as paredes da minha casa não me limitam, mas são simplesmente a fronteira entre o meu espaço e o o resto, de como encarar-me e só a mim na vida não tem de ser um pesadelo como tantos anos pensei. Pode ser só vento, que vai e vem, que ajuda e empurra, mas nunca se vê exactamente, só o resultado.


Não encontrei a famosa felicidade dinamarquesa, mas sim um pequeno consolo, até, e fotos bem catitas. A viagem de regresso não tem que contar, tirando uma nova passagem por uma cidade onde já fui tanto e reduzido a menos que pouco, mas que se cruza sempre, com a inevitabilidade da rotação da Terra, na minha vida. As viagens que fiz desde então trouxeram-me aqui e o que visito senta-se em mim e está lá para que possa abraçar. É um contente conforto do espírito, quando os dias que se encaminham para a ruína parecem ter conserto de súbito e aqueles que estragados se esbatem são apenas o que ficou ontem. Na minha cabeça, penso na próxima, antecipo e sonho com uma nova escapadela e o maior medo é o regresso. Mas o mais importante desde que comecei a viajar foi ter aprendido a voltar. É uma arte. Implica estar de novo na normalidade sem esquecer que fomos excepcionais durante uns dias, mais do que pensávamos, em locais ainda mais excepcionais do que nós. A convivência com esta realidade sós e consegue quando percebemos que os locais não ficaram lá, mas voltam connosco. Ainda na semana passada, e juro que é verdade, visitei Gasadalur num intervalo para almoço. Os olhos fecharam-se e o mar juntou-se à terra numa cascata e tudo o mais do dia sumiu. Estava lá, estarei sempre que quiser e a memória é um chicote em nós, mas também constrói camas, como um carpinteiro atento e atencioso que zela por nós e pela nossa sanidade.

Nenhum homem é uma ilha, mas ocasionalmente, quando ninguém espreita, sou um arquipélago. Verde, espesso, silencioso, que parece vácuo, mas é núcleo de estrela. Está lá no Norte e orienta-me quando a vida me faz girar. De vez em quando; mas a vida é isso, muitos de vez em quando em roda de mão dada que só terminam quando a roda se desfaz. Mas até lá, a música toca e lá tenho de dançar. É melhor do que o pior que sempre pensei.

terça-feira, abril 17, 2018

Ilhas Far Away 17: The shape of water - baseado em factos verídicos


"The shape of water" foi o filme que tomou de assalto os Óscares deste ano. Para os mais desinformados, fala-nos da relação tórrida entre uma mulher e um peixe, que Guillermo del Toro embrulha em papel de fábula para que se torne mais facilmente digestível. Gostei muito do filme quando o vi, mas senti-me imediatamente roubado, sentindo que a ideia foi decalcada de uma experiência que tivera meses antes nas Faroe. Também eu fiz amor com um peixe, tórrido e intenso, lento e musical; ou melhor, o peixe é que fez amor comigo. Mais propriamente com a minha boca. Explicar é difícil, roça o complicado, pois apela a sensações que se vivem e se percepcionam com os limites do corpo.


Este romance começou no nosso penúltimo dia nas Faroe. Discutira-se na noite anterior uma noite na capital, dispensando o planeamento de uma refeição caseira na perda de amor a umas coroas dinamarquesas. Nada contra, as coisas são caras por aqui, mas porque não viver como um nórdico por um dia? O Paulo, que já conhecia as ilhas de outras andanças, lançou para a mesa hipóteses Havia um restaurante de sushi que era muito bom. Os hipsters da gastronomia saltaram logo a terreiro, ansiosos por poder instagramar para a posteridade um um pedaço de nigirizushi. Eu no entanto, e apesar de já me ter aventurado na cozinha japonesa, herança de dois anos de Japonês na faculdade (para quê? Amigos, não se tem uma vida amorosa árida na adolescência só à conta da personalidade), não sinto que alimento nipónico me encha o estômago; para mais, penso, se estou no norte do mundo, que coma alguma coisa no norte do mundo. E o que se digere por aqui? Carne fumada, por exemplo, filhos da fermentação natural do ar salino destas ilhas. Muitos vegetais. Bebidas caseiras, acima de tudo cerveja; e claro, em arquipélagos há peixe com fartura. A segunda sugestão do Paulo ia nesta sentido. No ano anterior, um restaurante servira-lhe um divinal peixe. Carinho, óbvio, não estamos propriamente Caipira, mas valia a pena. Espaço agradável, junto ao porto, típica casa de pescador adaptada a repositório de manjares. Pareceu-me bem, e logo mais alguns também preferiram a aventura de encontra o Nemo. Bem, não o Nemo, caramba, coitadinho do peixe-palhaço.


Na noite seguinte, vestimos o nosso melhor fato de treino e demos as caras nesse restaurante. Como se adequa a uma história de romance, tomou o nome de uma mulher: Barbara Fish House. Nada de carne, só pratinhos de criaturas marinhas. Desde o início que nos ficou marcado como uma boa escolha, pois fora difícil arranjar mesa. Fomos obrigados a marcar para as seis e meia da tarde, mas como o nosso almoço me fez lembrar aquilo que comia durante as caminhadas nos escuteiros, o meu estômago importou-se muito pouco e até agradeceu o regresso aos horários de refeições medievais. Para refúgio de comensais nórdicos, esta casa da Bárbara tem telhados estranhamente baixos. Eu, que para os padrões destes calmeirões louros estou ao nível do Fernando Mendes e de três quartos de "Os Trapalhões", roçava com a careca no tecto. O interior é de madeira, claro ainda assim, com as mesas que apertam quem passa. É um espaço pequeno, mas bem organizado e decorado, simples luzes colocadas nos pontos certos. Da porta de entrada, vemos a cozinha, tudo transparente para quem chega. Recebe-nos uma jovem loura, bem gira, e o Gil, um dos que nos acompanha, pisca-me o olho e diz: "Olha, mais uma. Ela seguem-te" e o problema é que elas só me seguem, mas nunca me apanham. Talvez tenha mais sorte com o peixe. Chama-se Agda, sorri sempre e conduz-nos a um andar de baixo, vazio. A mesa está encostada a janelas que dão para os barcos atracados e eu aproveito para me sentar num banco corrido almofadado. Ao meu lado, a Maria e a Manuela trocam impressões sobre o local. O menu chega-nos às mãos. Escolhemos entradas e uma sopa de peixe. Como prato principal, peixe, está claro. Todos optamos por algo que em inglês se chama "Marcelo's ocean perch", mas para nossa desilusão, o presidente de todos nós nunca surgiu para uma selfie.


A comida foi chegando. As entradas saíram num voo do prato para as nossas bocas e quando a sopa chegou, eu especulava o que conseguiriam estes ilhéus com coisinhas do mar. Maravilhas, aparentemente, e eu nem sou de comer sopa de peixe. O melhor, no entanto, estava guardado para a sessão de sexo que uma uma perca de amor me reservava. A atracção foi imediata: mal apareceu sobre a mesa, era óbvio que ia comê-la. A galdéria mal escamada também se pôs a jeito, surgindo aberta a meio, de pé para mim. Aqui em Portugal, os peixes são muitos mais conservadores: deitados na sua travessa, aguardam iniciativa, esperam que os viremos antes que a acção se inicie. Este não, vinha pronto e não me fiz rogado. Devorei pedaço a pedaço, faca e garfo como brinquedos sexuais, cada ida à boca um caminho para o orgasmo. Não fazem ideia dos espasmos que me provocou. Nem cheguei a perceber muito bem como foi preparado. Parecia frito, mas nem um pingo de óleo me tocou nos beiços, mesmo a aparência crocante nem era pão ralado, não sei mesmo. A acompanhar, umas batatas a murro pequenas mas substanciais no deleite, regadas com azeite em gel, salsa e algum alho, um pequeno molho adocicado que se aconchega nas bochechas e serve de lençol para o imbróglio sexual em que eu e o peixe nos envolvemos. É triste dizer isso, mas tive menos prazer noutras aventuras. A sociedade fixa-nos tanto no prazer sexual que nos esquecemos de que os nossos sentidos são, por si mesmos, uma fonte de prazer intenso e explosivo, um arrasador sismo de deleite. Pela boca morre o peixe? Mais pela boca o peixe me matou de exultação. Sobraram as espinhas ao vento da nossa saciedade satisfeita. Mas ainda havia a sobremesa, um quente frio de gelado e chocolate aquecido que deu o golpe de misericórdia na resistência de alguém que toda a vida se armou em esquisito com a comida. Séculos depois de terem terminado as suas viagens, os Vikings haviam conquistado uma das mais difíceis batalhas que pode haver no plano humano: a minha resistência à novidade.

Saí do restaurante não de papo cheio, mas de pulmões bem vazios de arfar. Todos vínhamos contentíssimos. A Teresa, esposa do Gil, comentava que não se lembrava de comer um peixe assim e eu não queria ter memória exacta do que acontecera, apenas aquela impressão de arrepio que só as grandes e fugazes paicões nos criam que um qualquer pormenor proustiano nos faz revivê-las. Depois disto, ainda acampámos numa cervejaria onde encontrámos o gang dos niponófilos. A meio da noite, um jovem faroês aborda-me e implora-me que peça a Cristiano Ronaldo que compre aquela ilha. Está bêbado, dá-me umas palmadinhas nas costas e tira um boné que usa (sim, num interior, à noite) e o nosso permanente herói nacional da bola também é de uma ilha, deve perceber que nos podemos apaixonar por um peixe que isso não estranho. Na volta, aposto que também gostou do premiado filme de Guillermo del Toro que a minha noite de prazer inspirou.

terça-feira, abril 10, 2018

Ilhas Far Away 16: A morte do artista


Não sei se alguma vez vos apeteceu falecer assim sentados num barco. Vamos supor, assim naquela, que o barco leva passageiros entre ilhas num dia de chuva e enquanto contemplam esta escolha extrema na vossa vida, a água cai do céu como o Cosmos tivesse um autoclismo e estivesse decidido a secar o Eufrates. Na continuação desta suposição, imaginem ainda que há um convés encharcado, mortiço, triste, onde o vosso rabinho bem delineado alapa num assento de plástico que, pela humidade, faz com que dancem a conga de cada vez que o mar decide que está na hora de tocar os melhores hits de funk carioca sob a forma de movimento ondulatório. Completem esta imagem com o cinzentão céu que nem o canto das gaivotas revive, um simples manto que se enrosca nos vossos ombros e da profundidade literal do vosso ser, puxa tudo aquilo que vocês julgam não ter. O sentimento de comiseração é quase obrigatório e imediato; a ideia apocalíptica de que se vão fundir com a matéria do barco não só óbvia, como inevitável; e na vossa esfera craniana, como um motard no poço da morte, uma ideia rebatida gira e gira até vos enjoar mais do que o próprio oceano: mas por que raio aceitei esta viagem?

A resposta mais simples é de que sou parvo. É clara e aceitável para quem me conhece. De uma complexidade maior é a hipótese de que ando mal habituado. Passo a explicar melhor. Paulo, nosso líder de expedição, sugerira no dia anterior uma visita fora do programa Com tempo a mais e motivação extra, porque não dar uma saltada à ilha de Sandoy? Nunca lá pus os pés, disse ele, e gostava, mas só se concordarmos todos. O vosso Bruno, estando ali tão longe, pensa que está por tudo, embora se recorde vagamente de, quando criança, possuir um estômago mais sensível do que um fã de Tokyo Hotel no pico da puberdade. Pois volta e meia acompanhava o meu pai para o trabalho e trabalhar nas Lages, perto de Coimbra, implicava uma deslocação com curvas de grau de dificuldade montanha-russa. Chegava sempre do avesso ao batalhão da GNR e a saga repetia-se sempre que a estrada se torcia. Visitas de estudo eram sempre épicas e cedo fui aprendendo truques para me distrair de tudo isto - fechar olhos, aspirar o ar da viagem até cantorilar qualquer coisa para me distrair da agrura. Certas viagens aterrorizavam-me ainda antes de o carro ter começado a rodar. Com o tempo, fui curtindo o enjôo a um ponto onde este, repassado, se foi tornando em algo de tão esporádico que o julguei desaparecido. Portanto, à sugestão de uma viagem de barco, que é só das situações mais sedutoras para um vómito mor, nem sequer me ocorreu pensar, apenas aceitar e pensar que nada ia correr mal.

E havia Sandoy. A viagem até lá foi calma e sem grandes sobressaltos. De entre nós, alguns tremeram, sim, mas uma senhora já com a sua idade e experiência, enfrentava tudo como se estivesse a ler o jornal da manhã num café à sua escolha. Fora capitão de navios nos seus tempos de maior juventude e o elemento marítimo era-lhe tão confortável quanto o chão que todos os dias pisamos. Se tivesse poderes crísticos, aposto até que faria paso doble ali mesmo no mar. E perguntam: valeu a pena a viagem? Bem, Sandur é dos locais mais deprimentes que já estive. Não é que seja feio ou desagradável, sofre apenas uma elevada dose de inconsciência. Não sei sequer se alguma vez se apercebeu de que existe. Existe apenas uma vila, Sandur, e mais tarde apercebemo-nos que tem zero cafés. Zero. É o mesmo número que existe em toda a ilha. Quem ali vive apanha o barco, como em jovem eu apanhava o autocarro, para se vir divertir a Torshavn. Não há nada para fazer, só ir falecendo de quando em vez, a pouco e pouco, sem grande escolha. O nome significa "Ilha de Areia" e enquanto lá estou, sinto um pouco como se o meu espírito se afundasse nelas movediças, de uma maneira lenta e armadilhada. E o que mais me surpreende é que há gente a viver aqui desde o século XI. Que parvoeira. Houve malta que se meteu em embarcações de casca de noz propositadamente para chegar aqui e dizer "Olha, parece-me bem fixe, acho que fico por aqui". Há terrenos férteis, é certo, mas ainda assim só consigo entender que algo seja aqui cultivado apenas por desprezo.

Talvez a bílis não seja merecida, mas vamos regressar ao início deste relambório. Este vosso caríssimo instalado em pleno trono do Hades. A coisa descreve-se rapidamente: mal a viagem de regresso começou, estava eu na cabine de passageiros a tentar simplesmente colocar-me numa certa ambiência de abstracção total, quando a conhecida sensação de centrifugação abdominal meteu a sua cabecinha de fora... E depois o resto do corpo, pés e tudo. A animação da viagem, afinal, estava guardada para o meu estômago. Cerrei as pálpebras, mas só consegui ver rios de vómitos na minha cabeça e perante isso, cantei para mim vários êxitos de Dino Meira, mas mentira mentira, é gregório que se atira. Recorri ao último recurso, quiçá também por alguma vergonha. No exterior, instalei-me de peito ao vento, literal e aspirei golfadas cada vez maior do ar marítimo. Era capaz de jurar que nesse dia alguém ligou uma máquina de lavar roupa no fundo do oceano e cada onda era causada pelo próprio Hulk a pedir boleia. Não sei se o barco abanava ou se era eu e a certa altura confundi a minha má disposição com a de outras pessoas, como se mentalmente todos os indispostos da viagem, numa manobra de baixa estirpe, tivessem depositado em mim os seus acessos. Era como se todo o mundo estivesse numa viagem de foguetão e eu fosse o foguetão. Foi mais ou menos um bocadinho depois do meio da travessia que me passou pela cabeça que o melhor mesmo seria acabar com a coisa ali. Pensei em cabecear um extintor, mas não me pareceu definitivo o suficiente; vi cordas, mas o mais certo era ficar ainda mais agoniado por ver uma coisa que faz tanta curva defronte de mim; lembrei-me que trazia comigo uma lata de atum, mas era de muito mau tom manchar o navio com o meu sangue. Ainda por cima, de tão ácido que sou, corria o risco de tudo corroer e levar comigo mais umas dezenas de passageiros. Por isso, mesmo que me tenha recusado a engolir em seco, fixei-me e agarrei-me ao mastro. A decisão de me aguentar à bronca era a única que sobrava para manter algum orgulho.

Senti então outra mão na minha. Segurando com força, como que me fixou entre o mastro e eu mesmo. "É normal, mas já passa... Vai correr bem e com os pés no solo, sentes-te outro. Já vi homens que faziam dois de ti a viver isso e com vergonha." E reconheci a voz, era da capitã que, sentindo problemas na embarcação, veio meter mãos ao leme do meu desespero para me guiar a bom porto. O silêncio tomou conta de tudo e nem ouvi nada mais que não fosse o mar e o mundo. Com ritmo certo, a minha respiração tomou conta do corpo e o tempo passou numa corrida de proa. Quando o barco atracou, ainda revolvido por dentro, consegui pelo meu próprio pé voltar ao meu meio natural, o chão que está bem paradinho e não magoa ninguém. Vitória da Marinha Portuguesa.  Mais tarde, vim a saber que está nos planos da Dinamarca abrir um túnel até Sandoy, passando por baixo do oceano que me transformou num Matutazo. Só estará pronto em 2021. Filhos da puta.

quarta-feira, março 21, 2018

Ilhas Far Away 15: Gasadalur


Quem me conhece há menos de 5 anos, tem de mim uma ideia meio enviesada e que não será partilhada por aqueles que têm o infortúnio de não se terem acautelado de mim enquanto cresceram. Se estas pessoas se encontrarem à mesa de um café ou no parque ou até num jantar (esta última teria de reunir condições muitos especiais e normalmente só acontece ou quando faço anos ou quando o restaurante é tão bom que toda a gente o conhece), trocando impressões e ideias sobre a experiência quase surreal que é conviver comigo, retratos conflituosos surgirão e alguém será, estou certo, chamado de mentiroso. Há vários aspectos dissonantes e poderia escrever um longuíssimo post acerca deste fantasy brunning, mas o que importa para esta crónica é a ideia que pode haver acerca do eu cosmopolitismo. Os neófitos assegurarão que sou um gajo extremamente viajado e curioso pelo mundo, que ano sim ano sim até me meto em aviões e aterro em locais esquisitos e depois trago fotos para toda a gente me perguntar onde é que é, mas ninguém quer ir na verdade porque são estranhos e longínquos. Ora, se embarco nestes aventuras, por certo serei um corajoso e expedito moço; no entanto, quem acumula mais tempo de serviço na Bruniversidade, desconhece este indivíduo e sempre me associará a 300 medos que me impediram de alargar os meus horizontes e vida na precisa altura onde tal é mais do que necessário. Para eles, imaginar-me no Quirguistão é tão fantasioso quanto pensar que Hogwarts é real, e talvez fossem esses que mais estariam boquiabertos se me vissem em Gasadalur, observando um cenário que deve ser único em todo o mundo.



É único, mas fácil de explicar: há um rochedo absolutamente descomunal, umbicalmente colado a outro rochedo que constitui afinal toda a ilha de Vagar e numa das bordas desse rochedo, talvez aquele que está mais a jeito, um ribeiro furioso decide levar a sua velocidade ao ponto da rebeldia e sem deter a sua marcha fluida, acelera num salto angular para se estatelar no oceano cinzento que lá em baixo clama pelo seu contacto. Gasadalur é apenas e só o palco de um namoro violento entre a água doce e a água salgada, num instante geológico rápido e que se repete de segundo a segundo. Os nossos olhos pensam que tudo é constante mas não: cada salto é seu e separado. A Natureza decidiu saltar em auxílio desta aldeia perdida, e reparem que vos tenho falado de lugares absolutamente entalados nos confins do demónio neste roteiro faroês. Se digo que está perdido, não falo de ânimo leve. Gasadalur deve corresponder à madeirense Curral das Freiras, uma povoação isolada de tudo o que é habitado pelas condições naturais e que se tornou sinónimo de desterro. Um papão habitacional. Rodeada por algumas das montanhas mais altas das Faroé (que ainda assim, relembro, nunca ultrapassam os 800 metros), aterrou num planalto sobre o mar e num arquipélago onde a Pesca é a principal actividade, viu assim condicionada a sua relação com o elemento marítimo. Os pescadores precisavam de trilhar quase quatro quilómetros até à aldeia próxima de Bour, atravessado um dos montes por um trilho que ainda hoje existe e que até 2004 foi a única maneira de sair daqui por via terrestre. 2004. Isto significa que enquanto em Portugal se construíam estádios simbolizando na perfeição a nossa relação com o pragmatismo do mundo real, algures, num ponto que pertencia à civilizada Dinamarca, uma povoação não tinha sequer estradas para automóveis ou veículos motorizados. Tal explica que em 2002, o registo tenha dado apenas 18 pessoas habitando em Gasadalur. Dois anos depois, por fim, algum Alberto João faroês rebentou com um túnel através da rocha e trouxe o alcatrão até este ponto. A ideia é que a população vá crescendo lentamente.


Tal não tem acontecido, mas ainda bem: é da maneira que ninguém estraga o que é bom. Gasadalur até é amigo de quem quer trabalhar: o verde fértil da terra convida ao cultivo, o abrigo natural protege as casas de alguns problemas naturais e deve ser de jóia pode assistir todos os dias ao espectáculo que vos descrevi no parágrafo anterior. Chamam-lhe Mulafossur e é, perdoem-me o vernáculo, uma paisagem filha da puta. No dia em que a visito, temos algum azar com o tempo. Chuva irritante insiste em convencer-nos a recuar, mas à saída dos veículos, quando paramos, as nuvens baixas fazem a barba ao monte imediatamente atrás da aldeia. É de fazer com que as patelas se chamem rótulas novamente à força do uso. Um pequeno trilho conduz a um ponto de observação perfeito e quando espreito no fim desse lamacento caminho, umas escadas de absoluta verticalidade conduzem ao mar lá em baixo. Soube mais tarde que foram construídas por ingleses na 2ª Guerra Mundial e inspiram tanta confiança como uma declaração de Francisco J. Marques numa rede social. Por momentos, aqueles em que esqueço que tenho família e até uma ou outra pessoa que se vai preocupando com o meu bem-estar físico, a ideia de descê-las assalta-me ao ponto de me roubar a carteira de mansinho. No entanto, perante a humidade do solo e o ângulo recto dos degraus, decido que se calhar é melhor ficar-me por aqui. Preparo a máquina e aproveitando tripés alheios, vou tirando fotografias como deve ser. É um deleite de vista, a sério, daquelas que renovam células de pessimismo mesmo que temporariamente. Há luxo que nada tem a ver com o conforto e quanto mais molhada sinto a roupa, mais feliz estou - sinal de que o tempo me pertence e posso gastá-lo a observar aquilo que aqui está desde o início de tudo. Não é cosmopolita nem corajoso: é apenas uma questão de lógica, de ver número digitais numa conta de banco e transformá-lo em palavras virtuais que tentam apanhar algo bem tangível e real.

Conta uma lenda que o nome da aldeia veio de uma mulher chamada Gaesa, que infringiu um jejum religioso e foi assim expulsa do local onde vivia. O desespero levou-a até este vale e aqui recomeçou a vida. Confesso que acho estranho que alguém tenha sido castigado e expulso para o paraíso, mas os mitos têm sempre algo de rocambolesco. Identifico-me com Gaesa. Também eu peco, menos do que devia, menos do que mereço, mas com a plena noção que posso vir a ser expulso do que me é pertença. Gasadalur é esse paradoxo de fazer o indevido e receber de vida muito mais do que pensamos. É um pouco como ir a fundo e voltar à tona levado em braços pela Beleza. Chove e o cinzento do céu puxa-nos, mas na imagem da máquina, fixo a cascata em trezentos momentos diferentes mas colados num só. Sorrio, e isso é claro como a água.

sexta-feira, março 09, 2018

Os segredos que a Lousã "em serra" guardados


Gosto tanto da serra da Lousã que dou por mim em comichão sempre que vejo uma foto com aqueles baloiços e reclames em madeira que agora espalharam por aí porque ela é muito mais que aquilo. Mesmo não sendo lousanense ou de nunca ter morado colado a este mastronço alto de mil e duzentos metros, é-me essencial e faz parte de mim, do meu crescimento, do que me fiz.
Sei que para muitos, a maior parte, uma serra são pedras e árvores, estradas meio conservadas que a atravessam, alcatrão ou terra, bichos ocasionais, pausa de fim de semana, sombras e nevoeiro, qualquer coisa que inspira aquela foto bacana ou a tirada armada à poesia. Para mim, é lembrança e memória. O escutismo fez parte de mim durante vinte anos e mais de metade deles, tradição do meu agrupamento – 309 Ceira – subi a serra da Lousã a pé por todos os lados possíveis: a partir de Miranda, vindo pela Senhora da Piedade de Tábuas; dos lados do Coentral, seja pela estrada que já foi de alcatrão e hoje é de buracos, ou até por um caminho de terra que passa por um dos segredos mais bem guardados desta montanha, um motel abandonado; seja pela própria Lousã, quer corta-fogo acima e fogo à peça, quer pela Levada de Água apanhando depois via hoje aberta para o Candal (no meu tempo, bem mais fechada); ou pelo Terreiro as Bruxas; ou a clássica Rota do Talasnal.
As minhas pernas cansaram-se em todas elas. Vi veados e javalis, vi até humanos ainda morando nas Casas de Guardas Florestais, dormi nalgumas, acampei junto de outras. A neve envolveu-me, o sol queimou-me, a chuva deu-me vontade de desistir, mas a visão daquelas antenas lá em cima, o Trevim como objectivo, empurrava-me. Vinte anos é muito tempo para conhecer toda esta imensidão de pedra, que percorre seis concelhos entre os distritos de Coimbra e Leiria e parece ter tantas serras diferentes em si: quartzo e xisto, um pouco de calcário, castanheiros e cedros, carvalhos na mistura, Penedos de Góis e o Castelo de Arouce, a Pedra Ferida e as aldeias de xisto, a ribeira do Coentral e a água gelada da Senhora da Piedade, o Cabril do Ceira e o Observatório Astronómico, a Rota dos Moinhos de Água e a Rota dos Baldios… Até tenho de parar para me recuperar de todas estas visões na minha cabeça, do tempo geológico da serra que é tanto e do meu biológico tão curto em comparação. Sempre que aqui venho, aumento a minha vida em anos, sei-o.
Por que é que esta é a minha montanha preferida de todas em Portugal? Ainda que não seja tão alta como a Estrela. Ainda que, reconheça-se, o Gerês é mais largo e vasto e fica melhor em anúncios publicitários. Esta serra é para mim uma passadeira onde desfila uma parte do que fui sendo, e chega-me. É também o local onde regresso em primeiro quando passo muito tempo longe de onde cresci. Não é casa, mas é como se fosse. É colo, é afago, é abraço; e já me faz voar bem alto sem precisar de qualquer baloiço. Tão simples, assim.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Ilhas Far Away 14: Mar em terra


Quando andava na Primária, habituei-me a uma certa confusão em torno do meu nome. Chamo-me Bruno, de segundo nome Ricardo e entre colegas da escola, ou me tratavam por um ou por outro. Respondia a ambos, claro, mas para aumentar a confusão, tinha um vizinho que se trocava sempre e olhando para mim quando passava na rua, saudava-me "Olá, Nuno!" antes de seguir a sua vida. Três nomes designando a mesma pessoa, e nem sequer sofria de múltipla personalidade. Sempre fui eu, acho, pelo menos sempre me senti eu sem qualquer confusão. Nomes são palavras que designam: no momento em que saem da nossa boca, tornam-se algo concreto que não precisamos descrever. É por isso que um pequeno múscula pode ter o extenso cartaz fonético esternocleidomastoideo, e que toda a imensidão que nos rodeia se decreve apenas com duas letras: ar. Um nome é algo de bem definido, preciso e por isso muitas vezes se guerreira à conta do que chamamos ao que enche o nosso mundo. Ainda que pertencente à mitológica zona da civilização que se almeja (esse engodo que se chama Escandinávia), talmbém estes aspectos não são pormenores. Interessam muito. Na Ilha de Vagar, então, existe uma maravilha natural que fascina os olhos, mas confunde a mente pois ninguém se entende acerca do seu nome.


A Oeste, chamam-lhe Sorvagsvatn; a Este, Leitisvatn. Ambos se referem à proximidade de aldeias, conforme o ponto cardeal que tomamos como referência, mas aos meus ouvidos soa tudo igual; e em vez de ouvir, o que importa é ver. No geral, os faroses percebem isso e quando se lhe referem, usam simplesmente a palavra "Vatnio", que tem o significado singelo de "o lago". São práticos e percebem que é bem melhor calçar umas sapatilhas e dar uma voltinha nas suas margens do que perder a voz e a sanidade em torno de palavras. Num espaço de 3 quilómetros quadrados e meio, a massa de água deita-se sem qualquer intenção de acordar. As águas mal mexem, ainda que sopre um vento apreciável e conseguimos ver os seus limites. Um termina  numa aldeia; o outro desaparece subitamente e funde-se com a linha do horizonte. O motivo simples: devido a uma ilusão de óptica incrível, dá mesmo a ideia que uma das margens do lago tem como parente o oceano. Parece elevar-se centenas de metros e cresce em nós a curiosidade de saber que se saltarmos com força o suficiente, este prato de água treme, inclinando-se para derrubar o seu conteúdo sobre o mar. É o que nos leva a fazer uma curta caminhada que na ida e volta não ultrapassa os oito quilómetros, feito por trilho bem definido e de gravilha, com terra lamacenta pelo meio. Não chove enquanto o fazemos, mas estou certo que aconteceu anteriormente na manhã. A lama está fresca, é recente. Começando em Midvagur, contornamos as ondas das margens com nuvens baixas e um verde luzidio. O silêncio é intenso e nem mesmo as várias ovelhas com que nos cruzamos o quebram. Pastam sem manifestar-se, olhando-nos com uma indiferença quase tão impassível quanto a do lago. 



No final do trilho, a terra desce subitamente para o mar. À minha frente, ergue-se uma falésia descomunal, tão nórdica que dói, chamada "Pedra do Escravo". É um ângulo agudo de pedra negra com cabeleira verde que impõe respeito. Ali, ao lado, sou quase nada, uma insignificância. Já estive junto a montanhas bem maiores, mas a sua rudeza e brutidade, a falta de educação de quem se sabe forte e de presença simplesmente incontornável, fixa-me os pés no solo. Escuta-se um barulho seco de mar contra a rocha. Não é imponente, não são trovões: é o quotidiano banal da água que se castiga a si mesma. È negra, reflecte o céu e talvez seja uma profundeza virada ao contrário. O terreno inclina e convida a subir, mas tenho o foco no topo daquele arrogante mastodonte geológico à minha frente. A caminhada não é longa, mas exige esforço súbito pela inclinação do terreno. No topo, posso então ver a cascata que tomba sobre o mar, a Bosdalafossur, e tenho uma surpresa. A altura, afinal, é curta. O lago chega ali e simplesmente descai numa cascata curta. A terra e o mar estão muito mais próximos do que pensava, quase nem há balanço para que a água se lance. É um dos mergulhos mais curtos que já vi, e olhem que já presenciei muitas bombas em piscinas e rios! Ouço então um zumbido mecânico que me distrai e quando olho para trás de mim, vejo um casal que se entretém com um drone. Duas colegas de viagem conversam na outra ponta da falésia e reparo que o rapaz que controla o drone as ouve atentamente. C'os diabos, ele percebe-as. É português!


Precipitação: afinal é brasileiro. Chama-se Kléber (claro que é brasileiro e se chama Kléber) e mora em Miami. A mulher a seu lado é a esposa e estão a percorrer a Europa. As Faroé são a última paragem. E Portugal? Nunca lá esteve. Pensa um pouco e ainfal, deve ser o único país europeu que nunca visitou. Colonialismo ressentido ou vingança por nos termos apropriado de Ediberto Lima? A discussão permanece. O almoço morde-me e sentando-me no chão de erva, tomo como companhia a minha fiel lata de atum, que vou tragando enquanto olho as vagas lá em baixo, negras de espuma pálida. O vento sopra, mas meigo e sinto-me confortável, integrado, sinto o mundo também, mas apenas num murmúrio baixo  Venho de um país de longa linha de costa, com anzóis espalhados, anzóis que são também cabos e falésias, mas aqui sente-se tudo de maneira diferente: Os Portugueses são um povo de marinheiros, mas os Faroeses são gente que funde terra e mar. Uma espetada mista, vá, mas mais loura e menos queimada. A falésia onde me sento é um daqueles pontos raros onde um meio encontra o outro sem nunca se tornarem completos. Daqui a uns minutos, quando o grupo se tiver ido embora, descerei até ao limite. Estou em pé na linha do horizonte e o que aqui encontro é mais horzonte ainda. As pedras fazem-me balançar os pés no deslize e tomo todas as precauções para não depositar o meu corpo no breu marinho. Não sei que nome tem este lago, o que calha bem porque não consigo perceber onde começar e onde acaba, o que faz parte dele e o que é do mundo, e ali num local indefinido, eu próprio há tanto tempo procurando saber quem sou afinal, ajo como se fosse vapor: invisível, malhadiço. Um suspiro numa cascata que mal existe, o ponto final numa frase que duas aldeias escrevem de maneira diferente

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Ilhas Far Away 13: Tjornuvik


Tornou-se inevitável, depois de comentar com amigos que pensava em viajar até às Faroé, perguntas sobre a matança de baleias. O arquipélago tem uma tradição de secular de limpar ocasionalmente o sebo a uns cetáceos - e é literal - e já desde o famoso hino ambientalista de Roberto Carlos que se tornou pouco popular desejar a morte a baleias. Em pequeno criava-se em mim uma incandescente raiva quando via na televisão imagens de caça a baleias. No meu pequeno entendimento de garoto, não me consegui caber que aqueles homens brutos pudesse desejar o aniquilamento daquelas nobres bestas, pacíficas e largas, comandantes dos oceanos; e de facto, a caça a partir de gigantescos barcos com arpões, redes eléctricas e todo o tipo de dinamite e munições é só bárbaro, cruel e cobarde. Os japoneses, por exemplo, que deram ao mundo a honra dos samurais, bem podiam aplicar a espada e não qualquer um dos métodos "científicos" que usam. No entanto, eu, comedor de carne assumido, não posso colocar-me num pedestal e criticar os faroeses. Visitei Tjornuvik, pequena aldeia piscatória que se tornou famosa em todo o mundo por ser umas das baías deste arquipélago onde anualmente se reúnem grupos de baleias com o único propósito de lhe cessar a existência; é difícil, estando aqui, não imaginar a água do mar carmesim, e escutar, ainda que entrecortado com o marulhar das ondas nas pequenas pedras que as recebem, os guinchos dos animais aflitos, o resfolegar dos homens, a azáfama das facadas. Para mais, a carne de baleia tem vindo a ser considerada pouco indicada para o consumo humano, ainda mais da espécie caçada pelos faroeses, a baleia-piloto.


Há ainda assim o cuidado de tudo regular e controlar: os locais escolhidos para estes eventos são restritos e apenas caçadores certificados podem alinhar. Não se torna tudo num massacre indiscriminado e mesmo dentro da barbárie, há algum cuidado em pelo menos introduzir uma ordem. Claro que cada um julgará para si se é o suficiente, e apesar de tudo não me sinto nada confortável em imaginar-me aqui, num local onde acontece tanta morte, e a minha criança presente, que só cresceu em altura mais vive aqui em mim, calca Tjornuvik e não esquece. Mas esta aldeia tem os seus encantos, claro. Situa-se no extremo norte da ilha de Streymoy, aquela onde temos a nossa base de operações. Nesta que é uma das mais antigas povoações do arquipélago, moram 65 pessoas, o que para os padrões faroeses é uma multidão. Todos os dias acordam com uma vista incrível de mar calmo, falésias rodeando as casas e ao fundo, uma ponta da ilha que parece uma rampa de lançamento de parapente. No entanto, sofre dos problemas de isolamento da maior parte dos povoados aqui: Tjornuvik é o fim da estrada, e é bem longa esta. Na pesquisa que fiz antes de vir, cruzei-me com o relato de um casal que fez um trilho de Saksun até aqui, 11 kms debaixo de chuva cacimba, e com toda a esperança de aqui chegados encontrarem algo de semelhante a um táxi. Esperaram uma hora e nada. O desespero apoderou-se de ambos e começaram a tocar a todas as campainhas, para implorar que alguém lhes facultasse um telefone. Felizmente, uma simpática senhora ofereceu-se para levá-los, sem cobrar nada, de volta a Skasun. Um anjo. 


Vale a pena vir aqui por duas razões. A primeira é o Stakkur, um brutal e longo promontório daqueles onde imaginamos o farol mais isolado do mundo. Está próximo da costa, lá ao longe, e quando iluminado pelo sol da manhã, envolvido pela neblina marinha das primeiras horas, jura-se mesmo que é um monstro acabadinho de acordar, despertando das águas. Eleva-se aos 166 metros de altura e todos os anos a malta daqui organiza expedições para subi-lo, só naquela. Só porque nada mais têm a fazer. Mais próximo da baía, encontramos "Rising og Kellingin", o que significa "O Gigante e a Bruxa". Refere-se a dois rochedos verticais de estranho formato, que devem o nome a uma lenda local. Falo dos epónimos personagens que vindos de uma grande ilha, tomaram para si a missão de raptar todas as ilhas do arquipélago das Faroé para levá-lo de regresso à sua casa. Com características de trolls, tiveram a sua missão encurtada pelo nascimento do sol enquanto carregavam os ilhéus para os seus sacos: transformaram-se em rocha e ali ficaram até hoje, para que eu, como turista, possa contemplá-los e perceber que se parecem zero com gigantes ou bruxas. Ao menos, o nosso Cabeço da Velha merece bem o nome que tem. Se as alcunhas destes fossem "O Alfa Pendular Lisboa-Porto e Careto de Podence", o efeito era o mesmo, mas a lenda podia ser muito mais brutal e David Lynch adaptá-la-ia ao cinema.

As nuvens estão tão baixas que quase tenho vontade de ser Son Gokou, colocar-me numa e fugir. Antes de nos virmos embora, um pequeno cão mete-se connosco. Parece maior do que é, pois tem camadas e camadas de pêlo. Está sozinho na aldeia, aliás como de costume, tudo está como se habitado por fantasmas. O bicho é extremamente simpático e traz na boca um pau que deixa aos nossos pés. Lançamo-lo, ele busca, devolve-nos. Tudo o que a minha cadela não faz. Um amor, este canídeo, sempre pulando e rebolando, irrequieto mas com graciosidade, desesperado por companhia e brincadeira, tem ar de quem não vê gente há muito tempo, mas está tão treinado que se torna impossível duvidar que algures existe um dono que dele cuida e trata. Não lhe vi nos dentes barbatanas. Talvez não o treinem para tudo, então.