terça-feira, novembro 21, 2017

Ilhas Far Away 4: O urso chega ao Círculo Polar


A onze mil pés de altitude, o mundo é uma cama. A tentação é dormir, mesmo não estar deitado, mas se não sou pássaro, se as únicas asas que ganhei são metafóricas e roubadas a um beijo, fechar os olhos é pecado por negligência. A altitude é um ponto de vantagem privilegiado, tudo se vê e tudo se alcança. O sol escorrega lentamente, como se o horizonte vestisse cola com prazo de validade limitado, e a tarde chega ao fim em tons de folha seca. Entre a Dinamarca e as Ilhas Faroé, o mar é a realidade, ocupando a cama, alagando-a, apenas permitindo que ocasionais rochedos ilhéus quebrem a sua consistência. Serve de espelho, mas mais do que isso, serve de olho do mundo, um olhar que brilha um pouco como o meu na antecipação de mais um território desconhecido. Viajar de avião nunca me deixou confortável, talvez por demasiado tempo a ser primata de pés no chão, mas esta paisagem arrebata-me, é um golpe de mão mágico, este de me colocar no céu para assistir ao seu processo. Nos ouvidos, num completo acaso, escuto "No surprises", tema dos Radiohead que sempre associarei a uma surpresa cujo nome brilhou em mim como este sol, e a memória mistura-se com o movimento solar, com o ocaso deste dia no acaso da canção. Thom Yorke vinca que a pequena banalidade é romântica e que as convulsões do mundo não interessam quando abrimos a gabardine mostrando que as surpresas só existem nos interstícios das esquinas dos dias. Mas aqui, no céu, não há esquinas, nem curvas, nem esguelhas. Existe o sol que se põe, as ondas disfarçadas por baixo e um avião que, segundo o ecrã de informação, se aproxima rapidamente do arquipélago que procuro. Este surge por fim na minha linha de olhar: primeiro uma ilha, depois as restantes. Umas são bem grandes, outras meras amostras residuais de rocha. Vejo lagos e pequenos montes, estradas rasgando o verde, falésias a pique onde a espuma marinha rebenta e grita ordens. É o meu primeiro contacto com este rebanho que se perdeu entre a Islândia e a Escócia e à medida que a escuridão toma conta das horas e o avião inverte por completo a rota para abordar a aterragem, sinto aquele formigueiro estranho de infância, quando saí ao intervalo da Primária para comprar peta-zetas na mercearia do Ti Júlio nas Vendas: o raio dos doces crepitavam, mas mas não tanto quanto a antecipação.

A altitude diminui drasticamente entre gargantas de rocha, o avião atravessa-as certeiro abandonando as nuvens (que são bem baixas por aqui) e o breu é completo, insofismável. Lá ao longe, as luzes do aeroporto asseguram-me que não atravessei dimensões e ainda me encontro por este planeta. As hospedeiras, talvez das mais antipáticas que encontrei num voo comercial, riem e conversam e tudo é normal, são faroesas, sabem bem que nenhum troll ou demónio marinho impedirá este avião de nos entregar ao solo com todo o conforto que elas tanto se esforçaram por não nos proporcionar; e quando saio do avião, sinto frio, sinto vento, sinto-me terrestre. A escuridão é ainda mais intensa respirada no solo. Entre a pista e a saída do aeroporto, não são 150 metros. Pequeno é favor e a realidade que conhecerei na próxima semana, uma comunidade onde a noção de tamanho é proporcional ao que dele se necessita. Práticos, estes nórdicos. Formalidades tratadas, malas resgatadas e o grupo divide-se por dois carros alugados para rumarmos a um qualquer sítio onde se possa dormir. Toma-se conhecimento pela primeira vez das serpentes de alcatrão das Faroé, estradas que contornam os fiordes e espreitam um mar que não se vê à noite. Olho o céu, consigo ver tanta poeira de estrelas que tenho a ilusão de ter ficado turvo da vista. Não consigo parar na minha mente, quero começar a absorver e sou incapaz, porque procuro tudo de uma vez sem saborear o que aos poucos me aparece. É assim que funciono, é por isso que nunca ocnsigo ser mesmo feliz também. A preocupação do amanhã desassossega-me mais o corpo do que a convulsão banho-maria de um sorriso hoje; e aqui, onde tudo parece mais lento, onde tudo é, de facto, um relógio a quem proibiram de respeitar o tempo contínuo, noto-o ainda mais.

O carro mete então por uma... rua, vá lá. Há um punhado de casas, alguns barracões, um tosco e artesanal porto de cimento. Quando paramos, ouve-se com clareza o vento a esbofetear o carro. Mandamos piadas sobre o calor e o Paulo sai, em busca da dona da habitação onde nos instalaremos. Enquanto isso, saio e mesmo à noite, distingo contornos de um monte e uma ilha mesmo em frente, ao meu lado o mar dividindo-nos. Uma luz solitária de um poste luminoso dá a tudo um ar de "O exorcista" e sinto-me também possuído mas não por demónios, antes tomado numa experiência fora de corpo que me conduz o volante sempre que viajo. As Faroé não são tão alienígenas quanto o Quirguistão, consigo entrever os meus dias além também aqui, mas não é, de facto, o meu sítio. Sou tão preso a tudo que às vezes irrita e nem quando o prazer do deslocamento é total e demolidor consigo deixar de ser tão eu. Tem dias que me frustra, Hoje, aqui à beira do mar, os elementos totalmente mudados e o céu em trezentas bóias luzentes, só penso. O regresso do Paulo faz-me voltar a tudo e a ser parvo e humorístico, no que se pode considerar humor. Estamos todos cansados, vamo-nos conhecendo e rapidamente nos dividimos por dois andares da casa. O meu corpo acompanha tudo isto, a minha mente permanece à sombra daquela luz, molhando os pés no mar, procurando-se no que não conhece. Nunca chega a encontrar nada, mas pelo menos entretém-se.

quinta-feira, novembro 02, 2017

As ilhas Far Far Away 3: Copenhaga


Um sótão em Copenhaga é um local talvez demasiado trendy para se acordar de manhã, mas foi assim que começou o dia. Por uma janela colocada no tecto, a luz espreita-me os olhos e as manhãs em Copenhaga são assim, um sol tímido entre as nuvens, o refastelo na cama e na brancura do quarto, do espaço, a ideia de visitar uma cidade sobre a qual só li uns bitaites. Encaixam-se ali quase oitocentos mil habitantes, o que num país que tem pouco mais de 5 milhões de almas é apreciável. Desde o século XV que é capital da Dinamarca, fundada quinhentos anos antes, mas uma grande parte da sua arquitectura é posterior ao século XIX, quando foi reconstruída após um pequeno desaguisado com os britânicos; e quando me meto num táxi para reencontrar os meus colegas de viagem, a cidade observa-se como um pequeno filme documental, as influências neo-clássicas visíveis no uso abusado de um tijolo escuro, pouco vermelho, com um desenho de linhas direitas, mas usando o ferro como referência. Copenhaga é um misto temporal de séculos, a era industrial encontra as transparências e reflexos da arquitecura contemporânea, utilitária, simples, prática, mas sem nunca desrespeitar o espaço. Agrada-me isto na capital dinamarquesa, esta noção de cronologia da alma urbana, a ideia de avançar mas sem rasgar com o que a constrói e faz, a certeza de que um espaço sem memória ou alma está morto, mas que um conjunto de edifícios pode mostrar a sua vida. Volta e meia, o taxista (indiano, como todos os que encontrarei por aqui) vai perguntando direcções, como se soubéssemos nós o melhor caminho para o destino. O Paulo fala, mas volta e meia olha para mim como intérprete de inglês.

Lá chegamos. No grupo de despertos turistas portuguesas, recebo um abraço do António e da Teresa Gil, companheiros de outras expedições à Ásia Central. Enquanto rimos, a recordação do Quirguistão está presente, damos por nós gracejando com a nossa opção urbana desta vez, de como aquele local dentro e fora deste mundo em simultâneo é tão diferente, mas nunca no sai do berço da língua. Ambos chegaram no dia anterior e já cirandaram pela urbe. O prazer da visita é óbvio e conseguem fazer até um roteiro de locais usados nas séries dinamarquesas transmitidas pela RTP2 . O edifício usado como esquadra de polícia de uma delas é mesmo à porta do hotel e passamos por ela antes de começarmos o roteiro. Caminha-se com gosto pela cidade, os passeios são largos e um pormenor destaca-se logo: vias para bicicletas bem definidas, com as suas regras e sinais de trânsito, semáforos incluídos. Ibéricos que somos, é fácil esquecermo-nos que existem e nalgumas alturas, quando tento tirar fotos, um conjunto de urros assertivos arranca-me da concentração do olhar e é um ciclista, que me vê um pouco como os lisboetas vêem os turistas, enquanto obstruo a via. Copenhaga pertence tanto aos carros como aos velocípedes, os peões arranjam o seu nicho nas praças e nas pequenas ruelas onde nem um nem outro se cruzam. Passo pelo Ny Carlsberg, um museu de escultura criado pelo filho do fundador da destilaria Carlsberg (cujo museu é aqui perto também), onde pontifica também alguma pintura impressionista francesa e dinamarquesa; antes de atravessar a estrada, descubro os Jardins Tivoli, que são o segundo parque de diversões mais antigo do mundo e o mais visitado actualmente em toda a Escandinávia. O entretenimento pinta-se em cores garridas e motivos estilizados, por trás de grandes e sebes entrevêem-se montanhas-russas e rodas gigantes., para além do Dragão, da Aquila  e do Dyrekarussellen, uma atracção que está aberta desde 1920! O nome é facilmente reconhecível e inspirou o baptismo de outras salas de espectáculos e hotéis em Portugal. 


Um dos principais pontos de interesse é a Rundetarn, um antigo observatório astronómico que possui a distinção de ser o mais alto edifício do mundo sem escadas (bem, tecnicamente). Sobe-se quase tudo numa longa rampa que vai dando a volta à torre. Cola-se a uma igreja e do interior, podemos observar a sua nave central, e também uma biblioteca que serve de museu. O principal, no entanto, está no seu topo, onde uma dominadora vista pelas cabeças de tijolo e betão de Copenhaga é bem agradável. Destaca-se no imediato, ao longe na fusão com o azul do céu, uma longa ponte, a Oresund, que inspirou a série "Bronn". São oito quilómetros de faixa viária e caminho de ferro que nem a capital dinamarquesa a Malmo, passando por debaixo do mar a certo ponto. Mas o colorido das casas, os pináculos neo-clássicos das igrejas e a oportunidade de apreciar a capital de cima são ponte para outros prazeres. Depois de descermos, rumamos de imediato a Nyhavn, a famosa rua portuária de Copenhaga, com o seu arco-íris de casas, um canal quase totalmente obstruído por barcos turísticos, outros com uma falsa autenticidade e um cheiro a óleo permanente. A rua estende-se até à praça do Teatro Real e é um local ainda assim estranho, onde se cruzam imitações do século XVII e uma antiga fábrica que virou instalação artística dedicada aos emigrantes que morrem no Mediterrâneo: cada janela, e são dezenas, vomita coletes salva-vidas cor-de-laranja, como se o espírito das vítimas se abrigasse ali, onde lhes dão um asilo sentido. 

O caminho vai alargando e um passeio marítimo vasto oferece uma vista imensa sobre o mar aberto, uma paz quebrada apenas por uma fábrica de reciclagem soprando um fumo branco que contamina a paisagem. Combinamos entre todos que é obrigatório ver ao vivo a famosa estátua da Pequena Sereia, mas antes fazemos um desvio pelo Palácio Real de Analienborg, onde está para acontecer o render da guarda. Soldadinhos com fato azul escuro parecem perguntar uns aos outros autorização para beber um café, sem pompa e na circunstância sinto que é melhor admirar antes a praça de traço Renascentista onde tudo isto decorre. Devo admitir que me impressiona mais do que a famosa estátua a que aludi atrás, um anão de bronze que não deve medir metro e meio. O seu principal encanto é talvez a localização e originar um divertido jogo onde fazemos apostas sobre se afoitos turistas que se aproximem demasia para tirar uma selfie, e para isso têm de saltitar de calhau molhado em calhau molhado, tombam na água para assim sim, nos darem algum contentamento. Não acontece, mas por duas vezes torcemos com malícia pela desgraça alheia. Um costume da cidade, aparentemente, é mutilar a estátua regularmente, uma catarse para os habitantes de Copenhaga que não entendem por certo o afã dos visitantes em relação a algo tão banal e mundano. Ali ao lado, observando uma ilha artificial em forma de estrela, a fonte de Gefion enrijece os seus músculos perante a Igreja Anglicana de St. Alban, a água jorrando com violência, garantindo a manutenção da virilidade escandinava no nosso imaginário. 


Apesar de capital, Copenhaga até é pequena, acolhedora e regressamos ao ponto inicial. Antes, desenrascamos um almoço. No meu caso, é numa feira de rua, um mercadinho onde várias bancas vendem comida do mundo: frutos secos italianos, fish n'chips britânicos, um toque de caril indiano e eu opto, na minha pouca apetência por aventura gastronómica, por um singelo esparguete à bolonhesa. Sai-me a 15 euros do bolso e sim, é carote, mas já com coroas dinamarquesa na carteira (e e o cálculo de conversão para euros bem sabido), admiro em redor a qualidade de vida, o tom informal da pessoas, gente que veste fato e vai de bicicleta para o trabalho, onde se vê pouco lixo no chão e um sentido de humor corrosivo nos cartazes de espectáculos, onde Mads Mikkelsen não surge, mas é possível ver uma genuína vontade em desenhar e mudar, onde se observam ninhos de artistas em qualquer local, onde a cidade se vira para as pessoas e estas vivem de facto, recebem um recreio e em troca enchem-no de vida. Sinto a cidade, e isso não se consegue com aeroportos fantasma ou com Agências Europeias do raio que o parta. As autárquicas são daqui a uns dias e quando assisto a tão pouco folclore nestas terras nórdicas, só me apetece perguntar se posso inserir o meu próprio candidato no boletim de voto. Não sei como se chama, mas o nome acaba em -iksen ou em-son. 

terça-feira, outubro 24, 2017

Ihas Far Away: A chegada a Copenhaga


Nunca voei numa low-cost. Até agora, quero dizer, porque ir do Porto até Copenhaga foi com a Ryan Air e há uma certa diferença no ambiente quando se entra num avião desta companhia irlandesa. Não é bem o tamanho e embora as condições de longitude e latitude sejam mais curtas no interior, também não se trata disso. Ao meu olhar, os rebites aparecem mais evidentes, invento rachas nos vidros e cada tremelique penso no imediato que o bólide aéreo se vai desfazer. Por aqui se vê que tenho pouca pinta de viajante, nunca poderia ser um Joel Neto desta vida. Os voos da Ryan Air são um pouco como aquele canal de televendas que vos adormece pela noite fora, com a diferença de que tudo é em directo e dormir é a última coisa que o pessoal de bordo vos permite: ofertas em catadupa de perfumes e quinquilharia, sob promessas de transformar o avião num paraíso fiscal mesmo à medida de José Sócrates... se ele não fosse, como é, um perseguido pela Justiça portuguesa. Até lotarias e sorteios nos tentam impingir, como se brincar à estatística já não fosse a raison d'être dos negócio da aviação. Recolho-me à minha própria companhia que é aérea só no sentido que ando sempre com a cabeça no ar. Na viagem até Copenhaga, fazem-me companhia "The devil's dictionary", divertidíssimo compêndio de recalcitrantes definições por Ambrose Bierce, parente perdido de Mark Twain; e "Os sete loucos", do argentino Roberto Arlt, livro que me foi oferecido pela P. e é demente na mesma proporção que não considera a demência louca o suficiente para se alhear deste mundo. Quando olho fundo para a traseira das caveiras de uma das hospedeiras de bordo, juro encontrar um pouco desta demência; mas afinal não, apenas vamos estar sujeitos a turbulência e ela apenas me pede que desligue aparelhos electrónicos e recolha a biblioteca pessoal

À minha frente, um garoto de olhos oblíquos denuncia-se como oriental. Tento perceber de onde é e quando os pais, enfim, comunicam entre si, descubro que é chinês, ou pelo menos taiwanês. Dois anos de japonês não serviram de muito, mas sempre aprendi a distinguir dialectos asiáticos. É um rapazola com uns quatro, cinco anos e a sua cabecinha navega por cima e por baixo das ondas da cabeceira do lugar. Vai sorrindo e fixando-me e eu entro na brincadeira com caretas e línguas de fora. Ele sorri e ri, não desarma e também ensaia na sua cara luzidia números de comédia infantil improvisados e destinados à inocência. Dura uns minutos e quando termina, uma moça ao meu lado, talvez da minha idade, liberta por fim uma comichão entalada desde o início do vôo, quer falar com alguém e calhou apanhar-me. Chama-se Teresa e é alentejana, ó coincidência, algures de perto de Évora. Não está de viagem, como eu, e é uma das milhares que respondeu ao apelo visionário do nosso amado líder Passos Coelho na procura de felicidade em locais onde a felicidade não se parece com o caule de uma roseira por uma garganta descendo. É psicóloga e adora o que faz, já trabalha com miúdos problemáticos de vários tipos e de momento nem engraça com Portugal e diz, à boa maneira dos emigrantes querosianos, que tudo é uma choldra. O Governo abandonou o Alentejo, nisso tem razão, e decidiu procurar vida num local mais civilizado. A Dinamarca encaixa-se bem naquilo que ela espera da vida profissional: os horários são certinhos, a descontracção presente e as cidades são recreios de vida, não amontoados de obrigações burocráticas, selvas de betão com lianas onde se dependura o nosso stress. Tão cedo não volta e reconhece de imediato o Alentejo que lhe descrevo da minha passagem por Colos, gaba-me a disponibilidade para ter aceite a aventura e quando lhe conto que o meu destino são as Faroe, nunca lá pôs os pés ainda que habite em Copenhaga há seis anos. Neste momento está desempregada, mas não se importa, na Dinamarca tratam muito bem quem não tem emprego e até encorajam que se limpe a cabeça de vez em quando, como que aceitando que trabalhar sem parança não é o nosso estado natural. Sábios, estes nórdicos.

A aterragem é péssima, mas sobrevivemos. A Teresa e eu trocamos e-mails, prometo que lhe enviarei fotos das Faroe, ela quer sentir o pulso da ilha, está muito curiosa por visitá-las. Despedimo-nos à portuguesa, com dois beijos, e ela ri-se, há muito tempo que não fazia estas coisas à portuguesa. Parto em busca do meu grupo de viagem e acabo por encontrá-los na cinta das malas. Dizemos olá, nomes rápidos que nem fixo e quando recolho a minha mochila, o desconforto de sentir a humidez. Abro-a e descubro que o meu champô rebentou e não o tinha fechado num saco. É fácil ser-se estúpido quando se habita a minha cabeça. Quando estamos para sair do aeroporto, sinto um toque no ombro e sou interpelado pela língua inglesa, sotaque australiano. Um homem com os seus quarenta e muitos anos aponta-me para a t-shirt. "Have you been there, sir?" e eu não sou qualquer sir, tenho 34 anos e estou desempregado e ando aqui a viajar e nem sei bem que vida tenho e "sirs" são pessoa bem orientadas. O que visto exibe, contra um fundo vermelho, o brasão solar da bandeira do Quirguistão. "Yes, I have, it is a very beautiful country", e ele concorda, é de Melbourne e vive algures na Alemanha onde conheceu a esposa, que nasceu nessa terra longínqua da Ásia Central. É um momento globalização de grande coincidência e que fica comigo pela simples razão que por muito que tente ser várias versões de mim, as anteriores acabam sempre por apanhar-me em inesperados relances.

À entrada do aeroporto, somos um grupo de onze pessoas que nem sabe muito bem como se orientar. Um funcionário observa a nossa perplexidade e de imediato pergunta o que queremos, arranja um táxi-carrinha e em dois minutos estamos a sair dali. Se fosse em Lisboa, estávamos neste momento a ir pela A1 em direcção a Alverca. à noite, Copenhaga é um ninho de ocasionais pirilampos. Fora do centro, predominam as transparências dos vidros e a solidez do metal que suporta edifícios de arte contemporânea, as suas luzes artificiais misturando-se na natureza aquática do mar que rodeia a ilha de Zealand, onde se fixa a capital dinamarquesa. Por entre estações de serviço e outros pontos habituais numa grande cidade, fica-me o contraste entre esta área e o centro de Copenhaga, carregado de arquitectura neo-clássica e industrial. Quando chego ao meu hotel, principescamente chamado "Christian IV", já me sinto alienado. Ficarei aqui a dormir com o guia da viagem, o Paulo, um indivíduo cuja face não destoaria de um quadro de Rembrandt. O check-in é feito por um tipo que tem menos uns dez anos do que eu e fala um inglês fluente. Informa-nos que o nosso quarto tem uma cama apenas, larga, e quando olho para o Paulo, o funcionário quer avançar com uma piada mais gay, mas morde a língua a tempo. Informa-nos que na sala de jantar há café, chá e biscoitos à borla toda a noite, se quisermos. Rica vida.

O elevador sobe e apertadinho. Chegamos ao último andar e a nossa dormida instala-se num sótão, umas águas furtadas bastante acolhedoras. Os corredores preenchem-se com estantes livrescas, companhia para os mais solitários em noites da Dinamarca. O nosso quarto é o 57 e a cama única são afinal duas coladas. Há espaço para declararmos fronteira entre nós, mal nos conhecemos, mas brincamos já com a situação. Depois de um banho merecido, e de limpar o meu estojo de higiene que jamais deixará escapar o odor a Linic mentol, decidimos descer até à tal sala de jantar. O estômago sente-se reconfortado e entre leite e café, o Paulo confessa-me a sua atracção pelo Norte da Europa e um amor imortal, qual Duncan Macleod, pela Escócia. Muitas vezes a visitou e jurou retornar sempre que possível e até já por lá passeou de kilt e tomou para si um nome escocês. Está bem mais à vontade com o mundo do que eu, e isso não é nada complicado. Mando umas piadas e partilho histórias e algumas fotos do Quirguistão e devo passar por um tipo que sabe muito da vida e de passeios, mas apenas fui até à Ásia Central no ano passado. No entant,o a viagem não é uma coisa que se possa quantificar, na verdade, interessa mais a marca bruta de pegada que nos deixa, o quanto nos abrimos a essa experiência alienígena de estar noutro lugar, noutro meio, noutro fim. Se calhar até sou um tipo bem vivido, mas na minha cabeça e naquele lugar onde conta de facto, onde remexe connosco o conhecimento e a curiosidade, a exploração do que desconhecemos, onde moram as expectativas e também as pessoas que se tornam habitat em nós, e onde penso em alguém que não devia e em alguém que devia, mas não sei bem ainda porquê. É no momento em que o Paulo acaba de descrever o seu pedido de casamento à Sara e damos pelas horas na etrada da madrugada, em Copenhaga estamos adiantados uma horinha e o melhor é ir para cama.

Enquanto subimos, registo-me em perguntas e inquietações, em como me projecto e em como sou com quem não me conhece e sem dar pelo tempo a passar, já estou deitado, na cama. Olho o tecto, uma janela branca sobre mim deixa passar um rasgo de luz e em Copenhaga não é diferente de Ceira e o que penso aqui, nesta cama, neste pequena metrópole nórdica, é o que me inquieta também como moço de aldeia quando me agarro a uma almofada e faço perguntas que nenhuma voz pega de caras. Também não será hoje. Deixo que o cansaço aterre em mim bem mais suavemente do que o avião e nem sei o que se passou a seguir e portanto não posso contar. 

segunda-feira, outubro 16, 2017

As Ilhas Far Away: a bagagem que se leva



Sou uma pessoa de mochila. Pode haver a hipótese de levar malas em viagens, de o conforto ser maior, de o que é prático se transformar no que é indicado, mas há qualquer coisa nas minhas costas que implora pela sensação de peso quando a viagem se aproxima. São tiques nervosos, acho. Restos mortais que vivem na minha memória de uma vintena de anos como escuteiro. Os meus dedos recuam no tempo, a carícia daquela agressiva fibra plástica apertando os ombros, tentando equilibrar o peso em ambos os lados para não me incomodar a coluna. A mochila, para mim, é o engodo da viagem. Desta vez, estou a umas horas de descolar a partir de Portugal rumo ao Norte da Europa. Nos dias anteriores, partilhei com muito poucos o desígnio. Rumor em surdina foi crescendo e quando partilho que dentro de alguns dias visito as Ilhas Faroé, a surpresa é apenas uma pequena baforada. Há um ano e pouco, estava na Ásia Central, num país cujo nome os meus amigos mal conseguiam pronunciar. Neste momento, pouco pode sobressaltá-los no que à minha pessoa lhes diz respeito. Limitam-se a mostrar curiosidade, perguntam onde é, o que se faz, nem sequer questionam os motivos, e ainda bem porque não saberia responder-lhes. A minha lógica de escolha é habitualmente simples e bruta: procuro e olho. Se gosto e está dentro do que a minha bolsa pode comportar, vou. O único critério, desta vez, foi o de uma região geográfica bem diferente da anterior, para variar cenários, moldura humana. Tudo o resto é acaso e instinto.

Ainda assim, fiz uma pesquisa prévia sobre o meu destino. As Ilhas Faroé situam-se a meio caminho entre a Islândia e a Noruega, mas o país mais perto é o Reino Unido, através de uns ilhéus da Escócia. Ainda assim, o arquipélago de dezoito ilhas pertence à Dinamarca. Habitam-na quarenta mil. faroeses, que ainda assim são menos do que o imenso rebanho de ovelhas que se propagou por todo o lado e deu às ilhas o seu nome ("Faroe" significa "Ovelhas" no idioma local que nem é o dinamarquês, mas sim o Faroês). Os faroeses gerem-se através de um governo autónomo dependente da da monarca sediada em Copenhaga, mas não podem ver dinamarqueses nem pintados. Têm selecções desportivas própria, a sua língua é muito mais parecia com o norueguês e já fizeram um referendo à catalão para se desvincularem do país ao qual pertencem e que basicamente só os mantém por ali porque a zona económica exclusiva marítima dá um jeitão nas negociações com a UE. São donos de uma moeda própria - a coroa faroesa, que é muito parecida com as nossas antigas notas de escudo - e tirando as partes militar e judicial, auto-governam-se da maneira que entendem. O que dá jeito porque, venho a descobrir mais tarde, há zonas desta ilha que se instalaram onde toda a gente se esqueceu que era possível habitar. Ao longo da História, foram terreno predilecto para renegados da sociedade, que procuravam aqui refúgio sempre que um conflito interno os obrigada a fugir dos respectivos reinos, fossem na Grã-Bretanha ou na Noruega, que já aqui mandou. Quando os reinos norueguês e dinamarquês se separaram em 1814, a pátria de Mads Mikkelsen levou no bolso estas dezoito ilhas e ainda hoje as tem. Hoje, lutam pela independência e querem ser deixados em paz. Isto é tão evidente que se recusaram a juntar à União Europeia, quando os dinamarqueses o fizeram. A religião maioritária é a Cristão, esmagadoramente, e no meio das restantes, algumas há em que não se arranja sequer uma equipa de futsal. Há três sikhs, por exemplo, em todas as Faroe.

Algures parei nas buscas e pesquisas. Não me interessava saber mais, a necessidade de partir e desligar-me era premente; mas quis a ironia que o início deste percurso fosse na cidade de Porto, que é com toda a probabilidade p único ponto do mundo onde gostaria de exercer uma prerrogativa divina de destruição. Detesto a cidade do Porto com uma tal energia que Oppenheimmer me teria fechado numa gigante bola de metal. Nunca gostei dela, de uma altivez negra e acabrunhada, um engano urbano, o único local onde já fui ameaçado de morte e a dobrar. Nos últimos anos, ganhei ainda mais motivos para me sentir desconfortável na maior cidade do norte português e passei algum tempo a tentar descodificar isto, se era do meu percurso emocional ou do próprio espírito portuense, de uma aparente simplicidade genuína que é labreguice e chico-espertice. Concluí que a culpa é geográfica, que nunca senti em Lisboa, por exemplo,a mesma opressão e desconforto que tomam conta das minhas linhas físicas quando calcorreio o chão portuense, quando o rio Douro é apenas uma ilusão prateada na retina e as pontes de metal são grades. As ruas do Porto são um labirinto de Minotauro, com os Clérigos como Knossos. Percebo o fascínio de Sophia pela cultura clássica, também o devia saber. Se vives o que é forte e quase do avesso no Porto, o mel emocional fica contigo, mas os favos cheios de abelhas que picam, a dor lancinante, está presa e capturada no escuro do Porto, no seu angustiante e abafado desenho, na arquitectura com te prende uma âncora que te afunda bem longe das águas fluviais ou das ondas da Foz. É nesta cidade que desaguam as dores do coração e estar aqui, por muito que seja tangencial, amarra-me as pernas aos ventrículos.

Mas a viagem foi-me marcada para o Sá Carneiro. Não fui, foi... alguém, um alguém que não me conhece e que apenas vê na proximidade do Porto um auxílio à minha viagem. Tento ignorar a cidade, mas é-me impossível. Passo por ela, nunca incólume, mas tão de fininho como aquele maior da Cantareira. Chegado ao aeroporto, as alças da mochila devolvem-me alguma estabilidade e avanço, é a viagem que me acalma e me dá a certeza de que algures no mundo, há um local onde não penso nesta, onde a D. só existe no nevoeiro e onde mundos em forma de L. podem tomar outras formas, outros contornos de alto coturno. Check-in feito, aeroporto cheio de gente e quando me sento já depois da segurança, a música preenche-me na espera, enquanto leio um livro de Sam Shepard e tento isolar-me, voltar a mim, colocar-me no centro do meu mundo antes de desvendar um recanto daquele que partilho com os outros. Uma viagem não começa noutro local que não em mim, e o seu término sou eu também; e antes de entrar no avião, sinto-me um risco abstracto, não tenho medo nem temor como há um ano atrás, passei pela transformação do Quirguistão e numa poltrona de confortável hábito, sinto-me um passageiro pouco acidental. Sinto que estou onde escolhi e onde desejo. Sinto que estou perto, mas nas Faroé, estarei Far Away. O trocadilho é infantil, mas em mim, sinto-me pronto a referendar a independência do que me incomoda, se preciso for. Quando me sentar no avião, já nem penso na dor e o avião, ao levantar voo, deixa um pouco de mim para trás, a parte que não interessa, a Ryan Air aliás tem uma apertada política de bagagem. O que conta, a multiplicar, sai rumo a Copenhaga e eu sinto-m e um arquipélago perto de se reunificar.

quarta-feira, setembro 20, 2017

Mais uma rodada, mais uma viagem


Quando lerem isto, é provável que já não esteja em solo português. A minha senda, quase desígnio de vida, de visitar locais com nomes esquisitos e desconhecidos da maioria levar-me-á agora perto do Círculo Polar Árctico, até um arquipélago de dezoito ilhas que pertence à Dinamarca. As Ilhas Faroé serão o solo debaixo de mim (e nalgumas alturas, pelo que li, por cima também) nos próximos sete dias. Ora, porque não ir à praia que até está solzinho em Setembro? O Algarve aqui tão perto e Figueira da Foz com os seus belos areais... Ou então simplesmente visitar capitais europeias tão belas e movimentadas? Coisas boas... Mas por outro lado, para quem já foi ao Quirguistão, uma região autónoma dinamarquesa é Londres. Fará frio, que estamos a sair da altura quente do ano, e mesmo com o aquecimento global a chegar fogo ao rabo e à tola do mundo, o ambiente para aqueles lados puxa para o geladinho. Nada que agasalhos não resolvam e assim como assim, andar de gorro em Setembro é uma experiência quase tão fora da realidade portuguesa como visitar cidades com redes de transportes e parques urbanos como deve ser.

Numa confissão mais interna, cada vez mais sinto a minha cabeça como uma panela a fervilhar coberta por uma tampa que só ainda não deixou marca no tecto porque algures em mim, num local que desconheço, surge um controlo que nem consigo explicar e vai mantendo a fervura num controlo muito frágil. Já namorava esta viagem há algum tempo, sem grande convicção, um daqueles namoros em que a atracção existe, mas o compromisso é ténue e arrasado ao mínimo percalço. No entanto, há umas semanas, descobrir uma necessidade prioritária de levantar a tampa da panela para que o vapor explodisse e me aliviasse. A mudança da realidade e do mundo em que damos por nós a respirar costuma ajudar a este alívio, uma estranha ilusão de que somos outros, de que temos outra vida, de que as oportunidades podem surgir de uma forma que nunca surgirão enquanto nos mantivermos nós, aquele que conhecemos desde sempre. É um pouco isso que procuro nesses locais que se escondem nas frinchas do mundo, abrigados da curiosidade turística massiva e ainda com isolamento suficiente para que me possa sentar a olhar o mundo como se fosse a imensa sala de estar da melancolia. Enfim, é o que temos por agora, pelo menos.

Nada temam, que não desapareço de vez. Se a civilização me permitir (e reparem que mesmo no Quirguistão havia Internet, estou optimista em relação ao que é, para todos os efeitos, território dinamarquês!!), darei notícias nestes dias, à maneira de pequenos telegramas e fotos variadas. Mais tarde teremos uma nova série de relatos deste turista menos acidental e mais dado a acidentes, discorrendo sobre a realidade através da sua visão surreal. Já sabem com o que contam. Até lá, não matem nenhuma baleia, sim? Beijinhos e abraços.

quinta-feira, setembro 07, 2017

Sonho


Fez-se luz e quando os meus olhos escancararam o mundo, descobri que eras uma manhã. Umas horas antes, deste por ti como uma noite que me tapa e cobre e envolve e num fumo me preencheu o corpo tornado duplo. "Bom dia", e era uma observação óbvia, calma e, no gesto seguinte, rematada por um beijo. Lençóis azuis envolvem-te o corpo, deitou-me ao lado do céu. "Sonhaste ontem?", e sim, sonhei, mas porque perguntas? "Resfolegaste bastante... Resfolegar, adoro esta palavra!", e o teu corpo contorceu-se um pouco nas rugas da cama, como se as tuas pernas dessem início a um rio imenso que rodeia as rochas com a corrente; e tentei lembrar-me do meu sonho, sabia que sim, que sonhara, quando tal acontece sinto-me sempre um pouco mais cansado, um pouco mais desprovido de jeito para lidar com os dias. Sonhos deixam nas margens do rio uma poeira fina, roliça na pele, algum ouro nos olhos. O pesadelo tornava presente aquilo que o roía lá dentro, aquele uivo crespado sem som mas total impacto, o nevoeiro ácido a pôr liquido nos juntas interna do corpo, era mesma uma dor sem forma, um fumo indefinido de gritos carregados como nuvens de chuva num céu de Inverno. Não se apresentava com identificação, apenas o habitava sem renda paga ou aviso. Nem conseguia recordar-se da sua entrada ou se eventualmente nascera com aquela tinta negra dos anos que passam, dos dias que estão, de uma divagação simples nos cantos do quotidiano. Pedras nas margens, um grosso calhau que obriga o rio a desviar o curso, capaz até de resistir à sua milenar e telúrica força. A dor é mais primitiva e original do que a felicidade, que é um dado adquirido da evolução.

O afogamento não se apresentava, mas também não refulgia nos seixos aquele raio de sol que por vezes encontro no sorriso daquela que me inquiria com olhos negros. Ajuda-me a recordar. "E como posso ajudar? Acaso sou filha de Orfeu?" Nunca, ora, Orfeu é o encantador de sonos e tu deixas-me bem acordado. "Talvez isto ajude" Os ombros descaíram um pouco e com um trejeito da tua cabeça, cabelos deslizaram sobre o meu peito, uma cortina onde se entrevê algo que só pode ser visível a quem se abre ao mundo. Ao teu mundo. Estranho ao início, mas que técnica pateta, mas cada fio de cabelo deixa em mim uma semente e o que cresce é a árvore da abstracção, como se da tua cabeça brotasse uma fonte, em tons de negra luminescência que me envolva novamente na minha inconsciência. "Oniris bate à porta. Já consegues abrir?" A carne lateja, um ligeiro formigueiro mergulha-me então num passado próximo e começo a dar corda ao coração, a regressar ao outro eu que se atreve fora do que é real e começo a ver, na luz que quebra os fios de cabelo em estrelas, um ponto de fuga. Escapo-me e o sonho regressa.

Estou num imenso planalto de estepe, onde tenho por única companhia um exército equídeo que pasta verde. Não é erva, é mesmo cor, e os lábios ficam verdes, o corpo também se malha no viço da cor. Perto de mim, um lago de margens defendias, uma fronteira entre o céu e esta terra que piso. A abóbada celeste é de berço e sinto-me tão bébé, como se renascesse nos grandes espaços, no brilho das águas, no tamanho impossível das montanhas nevadas que me rodeiam . Sou dominado pela ideia de já aqui ter aberto os meus olhos, mas fecho-me a essa ideia, nunca podia ter estado, lembrar-me-ia, como se alguma vez me esquecesse do que me faz ter vontade de abrir os olhos. No delírio onírico, caminho até à água e caio, sou submerso mas não me afogo. Um breve apagão e quando volto a mim, saio de um frigorífico, congelado, gelo verde como o viço das vacas, eu desenho-me vermelho do frio e despido despojado, encontro um par de pés. Um olhar não captura ninguém, apenas um contorno que apenas se define na sua incerteza. Bate palmas e na minha mão, um cofre engole-me e prende-me e sem chave, captura-me. Quero sair, bato e esmurro, grito e urro, mas a total liberdade dos grandes espaços encolheu-se sobre si própria. O tempo passa sem que note e aqui estou. Sou um dos que resta, e o cofre estreita-se num aperto e não sei como estou agora fora e na minha nudez a raiva toma conta dos meus músculos e rebento o estuque de uma parede branca com punhos encarcerados na dor e quando não sobra mais estuque há parede e quando não há mais parede, existes tu, a palma da tua mão.

E regresso a mim, no hipnotismo da curvatura que me sustenta e te dá graça, no cabelo que voltou ao sítio, num exército feliz que na tua boca alinha a paz no mundo. "Então, esclarecido?"; e claro que sim, puxo-te para mim, beijo-te a cara e os lábios, a ponta da língua no nariz e no queixo, uma boca que convida o teu peito a gemer por interposta abertura, e o teu sorriso como carta branca para tudo o mais, para me libertar num largo espaço. "Novo sonho nos espera, olhos abertos e consciência ao desafio" e o planalto tem o tamanho de uma cama e quatro pernas para correr até às montanhas e ao lago.

sexta-feira, agosto 25, 2017

Esquecer


Se pudesse agarrar o fumo da memória, de maneiras quem nem eu entendo nem a Física permite e nem a Química gera, as minhas mãos seriam uma caverna. Não sei se alguma vez observaram de perto uma pintura rupestre. Não é exactamente uma pintura: na verdade, é feita tão em braille, com entalhes e depressões, que não é loucura  pensarem que os nossos antepassados eram cegos ou viam com as mãos. Figuras e desenhos são, na verdade, a expressão física de alguém que quer deixar marca, que se recusa a simplesmente vaguear no sopro de vida que lhe foi concedido e não se importa com a inexpressiva e bruta rocha que tem pela frente, ou com o frio medonho e incapacitante dos Invernos glaciares, quando só existe, à entrada da caverna, uma pequena fogueira; ou que de repente um urso entre e o apanhe desprevenido. O importante é o prolongamento de si para o mundo que conhece, para o real que faz parte dos seus dias. Ele vai, mas ao mesmo tempo, há-de ficar.

São assim as recordações. A inevitabilidade do seu sumiço é certa em quase todos os casos, mas enquanto existem são marca do que já não é, e o que não é pode ser um momento fugaz, uma longa história que se estica ao ponto da transparência ou a pessoa que quando esteve era tudo, e mesmo não estando é um bocadinho mais do que devia ser. Os dias são casas de memória. Não sei em qual destas categorias coloque a Olívia, que passou em mim como um pincel pré-histórico. Eu, superfície rugosa; ela uma palha de aço encarniçada. Juntos só podíamos criar faísca e daí ao fogo é uma baforada. Tudo o que me lembro é de ter desaparecido, porque eu caibo aqui e nesse passado fui tanto que a minha existência passou de certeza por um estado da matéria desconhecido, no meio ponto entre acontecer e simplesmente apagar-se, onde quando nos sentamos explodimos em trezentas e setenta mil partículas, cada uma delas um ponto que a Olívia beijou, e por isso não pode ter durado meses, nem sequer o meu tempo de vida. Se cada átomo é um segundo, a Olívia fez de mim em relógio em cada reacção. 

Não me consigo lembrar, sabem, é o maior problema das memórias, é que nunca nos lembramos delas, nem quando as temos presentes. Por natureza, não se pode confiar na memória, nem para consolar. Nunca é bem o que se viveu, mas pode ser até bem mais do que houve. São tudo o que temos, mas são nada ao mesmo tempo. A Olívia simplesmente seguiu o seu trilho de amnésia, ou não, nem sei, nunca lhe perguntei nem posso e fiquei com este saco de memórias que é também um saco de nada, cheio de ar, que virado do avesso deixa cair precisamente o que já existe no chão. Criar este palácio de lembranças dói na destruição, porque até que ponto não ficámos só nós com a fotografia mental da sua construção? Viver com outro acolhe um desejo que não é egoísta nem ecuménico de ser uma recordação em outrém, deseja-se que mesmo ao longe, mesmo quando um regressa ao estado binário, o palácio continue a existir de certa forma, de uma maneira que ambos partilham, que em noites quando sopra o vento e eu me aperto na dúvida de que o meu corpo ainda exista por completo quando sinto tanto a tua falta, desmembrado e espalhado pelos cantos da cama, também a Olívia, também tu te desfaças um pouco e nas fendas refulja um brilho de mim, que ainda me guardas e só na ruína da noite permitas que espreite e saia de ti e também me abraças na mágoa de que não me tens nos teus braços. Revives, como eu, outros enlaces no chão e mãos livres para nos sustermos, mas não nos sustínhamos de todo pois a roupa caía mais rapidamente do que nós na realidade do reencontro. Minutos depois, a queda era uma falha tectónica, e tremo ainda hoje quando o revejo.

No entanto, pode apenas ser memória, ainda que a tua pele tenha existido na realidade das minhas cavernas com dedos; e agora, que relembro, sou os teus olhos. Vejo-me por deles e não sei se é a adoração do passado ou a ignorância do presente. Não sei se esse olhar chega ao futuro, se me vês também lá, e o truque derradeiro da memória é a viagem no tempo, de julgar que o futuro acontecerá exactamente da maneira como o vejo, e que é passado e que a Olívia foi-se e não volta sequer para me dizer que tudo estará como eu penso, que pelo menos me posso recrear novamente nos espaços em aberto de um sorriso genuíno que mentia aos recantos escuros da vida da mesma maneira que a memória me engana nas manhas do que me lembro, ou penso que lembro, pois recordar é o coração aemfantasia e a realidade em negação.

Mas a Olívia é, em totalidade. É tudo isto, é tudo o que nela projecto; e é também o que sempre me deu e tirou. Ela é eu e é ela; e um dia, seremos ambos qualquer coisa, quanto mais não seja uma memória um do outro.