quarta-feira, abril 24, 2019

Perugrinação 19: Estrelas austrais


Toda esta viagem parece ser marcada por desalinhos corporais variados, de tal modo que parece que só sofri: vómitos, súbitos desarranjos intestinais, gente que fica de cama por males de estômago, a altitude fazendo das suas em praticamente toda a gente... No entanto, o Peru não é só doença. Precisei foi de me colocar nos confins da montanha para descobri-lo - o que não me surpreende. Sempre defendi aqui com vigor que as montanhas me revigoram, ainda que, por outro lado, também dêem cabo de mim. Depois de sairmos de Palcoyo, deixámos as cores para trás. O almoço, tardio, deu-se numa casa, meio perdida, onde uma simpática família preparar um manjar que servia um batalhão, mas era apenas para um grupo de doze pessoas. Foi um daqueles momentos apenas possíveis quando atravessas a linha da realidade e vives a cultura de outros. Não me recordo do que comi, apenas que isso não foi o mais importante. Numa sala ainda grande, mesas e bancos corridos, comida para todos, sorrisos e uma capacidade de comunicar através de simples gestos de generosidade e disponibilidade. Miúdos correndo em redor, um recanto de folhagem à beira de uma estrada de terra batida, um refúgio. Deu ainda para visitar um armazém onde porquinhos da Índia são criados para... digamos que não é para serem animais de estimação. No meio de tanta viagem comprida que temos feito, centenas de quilómetros calcorreados, esta paragem que não chegou a duas horas quebrou também uma rotina de mata corpo. O caminho não é só material, há também outras coisas importantes. Pessoas, afinal o que estraga o mundo e o que pode redimi-lo. Ainda que seja uma garfada de cada vez.


A tarde preenche-se da ligação sinuosa até um local que me tem feito sonhar acordado desde que cheguei: Ausangate. Os Andes finalmente em apresentação digna, uma montanha com quase seis mil e quinhentos metros, sendo que estaremos aos cinco mil para um confronto directo com este monstro de rocha. Chegar até lá não é fácil. Aliás, quando eu escrevo que isto é remoto... não exagero. Estradas relativamente direitas dão lugar a curvas que não mais acabam subindo e descendo montanha. Enquanto cai a noite, cada um existe no seu silêncio dentro da carrinha. Os dias e o cansaço começam finalmente a apanhar-nos. No meu canto, escuto podcasts de crimes reais, porque nada soletra "viagem sossegada" como histórias de gente a matar outra gente. Ainda por cima quando no isolamento breu da noite em montanhas onde a civilização se espaça com passada larga. A certa altura, saímos da estrada de alcatrão principal e entramos noutra bem mais estreita, que começa a inclinar gradualmente, até que o declive é inegável para as mudanças da carrinha. A escuridão profunda sarapinta-se de quando em vez, carros e motas. Uma aldeia está em festa, gente na rua e alguma música, luzes festivas penduradas nalguns cabos de electricidade, embora o aspecto do local seja ermo. Pessoas vivem ali, mas só porque não têm outro lado. Num relance, observo um carro de mala aberta. Na mala, acomodam-se umas seis, sete pessoas. Atrás, segue uma pick-up, com tanta gente que parece gado. É aquela sensação de surreal constante que apenas se encontra na América do Sul. Podem dizer que Portugal também oferece este lado interdimensional, mas não desprezem o que cruzamento que a bizarria e a altitude podem conjurar.


Segue-se um quarto de hora de viagem em escuridão total. Apenas os faróis da carrinha oferecem algumas pistas, buracos e pedras que por ocasião são obstáculos no caminho. Guinadas para a esquerda e para a direita. O corpo está meio morto, não é problema. Uma visão esbaforida oferece-me, a alguma distância, um clarão permanente. Vamo-nos aproximando e os contornos ajustam-se, são casas. "Estamos a chegar", diz o Rodrigo, e o tom de voz revela uma impaciência que tem a ver pouco com o profissional. Ele conhece este lugar e porventura os habitantes. Quando estacionamos, já nos esperam dois homens. Abraçam o Rodrigo, o meu instinto estava correcto. Em redor, distingo apenas curvas que sobem e descem, embora sem conseguri observar o que as causa. Encaminham-nos rapidamente para duas construções de pedra, já com algum uso e idade. Eu e o Pedro ficamos na mais pequena, o restante grupo, feminino, sobre até um primeiro andar com varanda. Quando entro, três patuscas camas, meio toscas, ainda que com ar muito confortável preenchem a divisão. O Jorge não veio, logo a cama que lhe era destinada fica como nosso repositório de tralha. Noto que há um saco-cama para cada um. "Houve quem tivesse passado frio no grupo anterior", justifica o Pedro. Não me importo. Conto-lhe que no Quirguistão, dormi em yurts e nem sequer camas existiam; e para mim, conto que toda a minha vida quase fiz de tendas casa. Sem qualquer problema. Até acho piada. Conto cinco cobertores. Não sei se este local é o ponto de origem da próxima era glaciar ou se os nossos antecessores lusitanos eram todos do Algarve. Sou beirão. Um beirão trata o frio com uma risada e logo a seguir, mete as meias por cima das calças, para garantir circulação de calor sem perda. E é então que busco a minha mochila e tiro não um barrete, não luvas ou casacos, mas sim uns calções de banho.


Não estou a alucinar, nem vocês, de repente, inspiraram alguma fumaça de marijuana de alguém ao vosso lado. Calções de banho, sim. Olho para o relógio e são sete e meia. Hora ideal para conhecer um dos grandes atractivos deste lugar: as piscinas termais. Há quem venha aqui de propósito para as mesmas, mas curiosamente, nada do que aqui existe grita "Aldeamento turístico". Quem gere o espaço são algumas famílias quechua tradicionais, vivendo um estilo de vida já em vias de extinção no planeta. São, acima de tudo, pastores, e já não existem muitas comunidades iguais em todo o mundo. As instalações são humildes, mas compensadas pela simpatia e dedicação da comunidade que aqui habita. O ligar chama-se Cchacha  - riam à vontade - na base de Ausangate, oferece uma fuga a tudo e uma base para caminhadas de montanha. Isso, no entanto, é para amanhã. Agora, estou mesmo interessadíssimo em consultar as propriedades curativas destas águas. Abro a porta e sopra aquela lâminazinha de frio que reorganiza o meu sistema reprodutor. É o ímpeto ideal para caminhar feito pinguim até duas piscinas que fumegam. A toalha tomba no chão, as sapatilhas voam e deslizo lentamente para o interior da que me está mais próxima. Delícia. Esqueço logo a história do gelo e da tibieza. A água dá-me pelo peito e nem me quero mexer. Braços apoiados no muro e deixo-me boiar um pouco. Se levantar a minha mão, entendo de imediato o choque térmico entre o exterior e o interior. Acho que o meu corpo se podia habituar a isto. Desço à profundidade e completamente coberto, entrei no banho maria total. De olhos fechados, nada ouço, mas vou cozendo na lentidão, sem me importar. Tudo aquilo que os meus músculos ossos suportaram desde que aqui cheguei, todas as longas viagens, as caminhadas em altitude, as noites mal dormidas, parece encontrar aqui dedos curandeiros. Só percebemos a doença quando encontramos a cura. Quando volto à tona, sinto-me a renovar e por fim, volto os meus olhos para o céu.


À luz mínima, as estrelas são grãos de areia que brilham forte. Tantas que quase nem vejo o céu. A lua tirou férias e o panorama astral esmaga-me e é outro tipo de calor que convive com a água. Aprecio o Cruzeiro do Sul, constelação única nestes hemisférios e que nunca poderia ver nos meus céus. Com alguma atenção mais dedicada, os meus olhos seguem o rasto de centenas de estrelas que atravessam a cúpula cimeira de um lado ao outro, curvando. É o Arco da Via Láctea, algo tímido, mas cada vez mais visível à medida que o meu olhar se habitua à falta de luz. É um espectáculo astronómico que só é possível nas condições certas. Estas reúnem-se aqui, nos confins da cordilheira mágica, onde a noite é o despertar dos mágicos. Entendo no meu íntimo como é que os Antigos viviam tão fascinados pelo céu. Dominados e acossados pelo breu nocturno, tendo como luzes apenas as cálidas fogueiras que se mantinham a esforço, viam na plena nitidez este mesmo espectáculo que presencio, questionando-se talvez sobre o brilho pontilhado do firmamento. Consigo imaginá-los em teorias de Inteligências Superiores, a permanência de pirilampos no Universo, a ideia de que por muito que se conquista nos degraus do intelecto, há sempre algo fora do alcance, um mistério impenetrável, um reino longe dos olhos, longe do corpo físico. E a questão que não cala: o que é? Aquele oceano estelar no fluxo permanente e um certo consolo do que por muito que a escuridão cubra e domine, há sempre um local para onde podemos olhar onde a luz não acaba; e boiando eu num oceano muito mais pequeno, confiando às quatro arestas de um tanque, tremo quando penso na minha escuridão, de que como observar este arco nem sequer me lembro de que ela existe, de como me faz tremer. Não sinto sossego quando olho para o céu, mas domina-me um fascínio que substitui a realidade. Há noites em que isso basta. Esta é uma delas.

Existe um outro tanque mesmo ao lado daquele onde me encontro. Alguém me esclarece que aquele é o da água mesmo quente. Uma pessoa habitua-se no primeiro antes de passar ao segundo. Experimento. A táctica resultou, mal sinto a variação de temperatura. Não sei quanto tempo passou desde que me entreguei as cuidados minerais, mas não quero saber. Do pior instinto humano é começar a contar segundos quando estamos no sítio onde devemos. No local que conta, que nos faz sentir bem. Vejo alguns dos meus colegas de viagem a entrar e a sair e vou ficando. Hipnotizado por estrelas, pelo que me é superior, o rio da minha consciência navegando lácteo. Sei que passado uns minutos abandonei este tesouto. Voltei a calçar-me, enrolei a toalha à cintura e molhado, crortado novamente pela temperatura nocturna, regressei ao casebre e voltei a ter mais duas camadas. Mas neste momento, não penso sequer nas consequências de abandonar esta espécie de útero tépido. Esqueço-me da minha vida, nem quero saber dela. Perco-me na música dos astros e sou passado de mão em mão entre eles, no ritmo da infinitude. Se não penso, sou feliz; e neste momento, o meu cérebro recusa-se a deixar-me triste.

quinta-feira, abril 18, 2019

Perugrinação 18: Um arco-íris estampado


Acordo. Estou em Cusco novamente e o quarto de hotel é o mesmo, a cama recolhe-me de igual forma, tudo me é familiar; o Jorge, na cama ao lado, não se mexe, mas ouço-o. Pergunto-lhe se tudo está bem. Ele resmunga algo de início, depois clarifica que não se sente nada bem. Na noite anterior deve ter comigo algo que lhe fez mal e o estômago dá-lhe ares de carrossel de feira popular. O Peru tem provado ser, até agora, um perigo de saúde pública. Há de um pouco para todos. Podem falar o que quiserem do Quirguistão, mas há dois anos ninguém ficou doente. Não sei as bactérias da Ásia Central aprenderam a ser meigas por medo da peste bubónica, como um papão do mundo microscópico, mas voltei sem uma queixa. Uma hora depois, quando já estamos para sair, o Jorge atira a toalha ao chão. Não consegue sequer contemplar enfiar-se numa carrinha e enfrentar as estradas montanhosas nos próximos dois dias nos levarão aos confins recônditos dos Andes. Nem consegue sequer contemplar-se erguer-se da cama, quanto mais; mas está bem arrependido, porque o prrograma é de sonho, pelo menos para mim: uma visita a um sector menos desconhecido das chamadas montanhas arco-íris; e aventurarmo-nos pelas elevações de Ausangate, acima dos cinco mil metros de altitude, para fotografar lagos e rocha bruta a grande altura. É o que me move, é o que quero quando viajo: matar o meu corpo à conta de imagens e levitação visual. O Jorge não vem. Tantas vezes nos contam de como o espírito é forte, mas se o corpo não quer, o espírito exorciza-se na recriminação do quanto somos frágeis. Saímos do hotel e imagino-o deitado, acho que ainda nem com a noção do que vai perder ou de que atravessou um oceano para que algo tão prosaico quanto uma intoxicação alimentar o afaste do movimento do mundo. Somos tão pequenos e julgamos que o nosso tamanho é maior do que os intervalos da fortuna. O aleatório e o acaso são um recreio onde estamos quase sempre de castigo.


Nestes dois próximos dias, vamos aventurar-nos em cantos ainda mais recônditos do que Cuncani. Hoje, o nosso objectivo é visitar as chamadas montanhas arco-íris, uma curiosidade geológica a sudeste de Cusco. Depois, rumamos até ao interior dos Andes, com a ideia de passar a noite a quase cinco mil metros de altitude, perto de Ausangate, um conjunto de lagos de montanha. Portanto, estamos no meu elemento. Enquanto a carrinha se mantém no alcatrão, vou notando na disposição dos meus companheiros de viagem. Alguns deles ainda tentam gerir as maleitas que os impediram de fazer o trekking de Cuncani, e há uma sensação de cansaço geral; no entanto, ainda estamos bem dispostos e ninguém tentou matar-me até agora, o que considero sempre um sinal de bom humor. Não me sinto cansado, curiosamente, mas a montanha, no geral, alimenta-me mais do que me cansa. Quanto mais próximo me sinto da altitude, ainda que o oxigénio rareie e o corpo carbure a gasóleo, o meu ânimo levanta-se quase ao nível dos picos levados. Estou a entrar na fase final desta expedição ao Peru, aquela que mais desejava: perdido no meio dos montes, parece sempre que me encontro em momentos, o que é mais do que muitos podem dizer de uma vida inteira. A certa altura, metemos por uma saída à esquerda e a consistência do solo muda de imediato. O ritmo latino chegou aos assentos da carrinha. Tal acontece porque a partir daqui acaba o alcatrão. O que se segue afunila numa estreita estrada de terra batida, que nos primeiros quilómetros ainda atravessa casas. Isso muda com rapidez e vemo-nos no nenhures. O caminho sibila em subida e descida, as pontes são pretextos de troncos com placas de metal encimando, há bicharada que sabe ser dona destes troços. É um rali a muito menor velocidade. Raramente passamos os quarenta a hora. Se quiserem fazer uma pausa na leitura para confirmar isto, dirijam-se ao Google Maps e escrevam "Pallcoyo". É o nosso destino. Agora, verifiquem as estradas. Mesmo aproximando a vista. Nenhuma, não é? Elas existem, garanto. Não viajei na Carrinha Mágica. No entanto, a direcção de estradas deste país, como a da maior parte da América do Sul, tem uma noção muito vaga de acessibilidades. Desde que haja longas vias cruzando a nação de alto a baixo, considera-se o serviço público garantido. Aqui, tal como há uns anos no Quirguistão, o meio de nenhures é exactamente isso, sem exageros. Vive aqui gente, para que não se sintam enganados; mas para eles, é como se o resto do país não vivesse consigo.


Há que notar também, já agora enquanto carrinha pasta até ao nosso destino, que a secção das montanhas das cores que visitamos não é de todo a mais turística. Música para os meus ouvidos, claro, mas também por razões bastante práticas. Apesar de se ter tornado num chamariz turístico nos últimos dez anos, a descoberta desta maravilha geológica é recente. Se pesquisarem por relatos pessoais acerca deste local, encontrarão de tudo, desde uma demonização quase ridícula até um entusiasmo bacoco, onde fotografias carregadinhas de Photoshop dão a ideia da possibilidade de visitarem uma visão alimentada por LSD colocada a céu aberto. A maior parte das fotos e as histórias referem-se a Vinicunca, parte que não visitei, mas que, segundo o Pedro, corresponde a um percurso que aparenta ter bastantes parecenças com as formigas num carreiro. É a rota que a maior parte das operadoras turísticas escolhe precisamente por ser de mais fácil acesso.  Os nossos condutores, exactamente os mesmos que nos levaram a Cuncani anteriormente, escolheram outra zona da montanha colorida mais isolada, inóspita e desconhecida. Fica no já referido Palcoyo. Ao contrário da maior parte das grandes cadeias montanhosas mundiais, os Andes geram ainda uma considerável actividade vulcânica, algo que se prende não só com a sua localização geográfica, em margem do Anel de Fogo do Pacífico, mas também com o seu próprio processo de formação. Ora, isto leva a que sejam profundamente complexos na sua composição. A chamada "Montanha Arco-Íris" é um bom exemplo disso, com toda a sua profusão de cores vindo dos vários minerais que à superfície tornam o planalto num caleidoscópio em forma de tapete. Só por isto já valeria a pena visitar este local; no entanto, e como em tudo o que é turístico, existe uma cultura do exagero que coloca na cabeça das pessoas uma ideia abusada daquilo que aqui encontrarão. Para mais, e como explicarei à frente, as condições climáticas são absolutamente importantes para apreciar esta maravilha.


A carrinha pára, mas ainda não chegámos. De maneira a limitar o fluxo de visitantes, existe um posto de controlo onde somos contados. É uma boa oportunidade para respirarmos um pouco de ar, pelas condições acredito que puro, e olharmos em redor pela primeira vez. Gentes quechua olham-nos enquanto tomam conta de vicunhas que pastam. Devem estar fartinhos de estrangeiros, logo não somos surpresa. O céu está malhadiço, mas o sol espreita e um pequeno riacho corre no sentido contrário ao da viagem, do lado esquerdo da estrada. Uma erva rasteira verdinha, quase branca domina a paisagem, mas já se notam os barreiros montanhosos, vermelhos picanha, que nos acompanharão nos quilómetros seguintes. Não há vestígios ainda do manto de mil cores. Tudo aprovado, podemos seguir. Pela janela, deixo-me seduzir menos pelos pigmentos e mais pelos fantásticos picos, alguns deles ainda com vestígios de neve, que guardam a paisagem. Cresce em mim o formigueiro de guardá-los na minha máquina. As curvas surgem mais apertadas e numerosas, sem abismos, mas ainda assim causando um ou outro calafrio. Há um silêncio reverencial que apenas se desfaz quando chegamos ao estacionamento. No exterior, sopra um ligeiro vento, frio, a altitude não se faz apenas temer na respiração. Na direcção de um longe que está perto, termina o pequeno trilho que teremos de fazer para o melhor ponto de vista possível. São dois quilómetros, que deve ser multiplicado por quatro devido à altitude. Por muito hábito que tenhamos ganho, estamos acima dos quatro mil e quinhentos metros. Os piores sintomas já não se fazem sentir, mas continuo com um corpo de beirão de bitola baixa. O melhor remédio é a paisagem. Palcoyo permite a visão extraordinária de um planalto ondulado, um lençol amarrotado tingido por garotos. As cores não são tão evidentes como nos posters cheios de efeitos digitais, mas os tons notam-se sem esforço. Predomina o vermelho carne do barro, uma estrada barrenta que se estica, mas a espaços, laranjas e azuis, amarelos e o verde daquele vegetação andina quase indestrutível compõe um quadro de Vincent Van Ooooohh. A neve não derreteu completamente e tinge todas as superfícies como uma brancura onde as cores se salientam. Enquanto faço o trilho, capto tudo isto, de vez em quando cruzamo-nos com indígenas a fazer o seu papel no turismo peruano.


Do meu lado esquerdo, ergue-se o ponto mais alto deste local. Algumas pessoas sobem até lá, é um espinhaço de cão, cristas de pedra verticais e finas, como o dorso de um estegossauro, meio tapadas pela alvura neveira.  Quero ir, mas o meu corpo não obedece. Vou terminar este trilho e logo se vê. Não nos perdemos, porque um corredor de pedras laterais conduz-nos exactamente onde devemos estar. É daqui que se apresenta um panorama irreal, quilómetros e quilómetros de delícia, a contorção muscular do planeta enquanto faz a musculação dos meus sentidos, ao longe fiadas de montanhas completamente tapadas por neve. É momento de Einaudi. A pele malhada de um leopardo oferece-se nos montes, as nuvens passando à frente do sol, criando jogos, hipnotizando na medida em que olhar para elas é perder o foco deste mundo e aparecer noutro onde a realidade é apenas esta beleza, só, sem dor, sem mácula, sem qualquer outra coisa que não seja uma delícia que na pele escorrega. São os olhos quem vê, é o corpo que se transforma num imenso pare de diversões. Atrás de mim, altitudes coloridas; à minha frente, o branco, soma de todas as cores, cobre damas de honor num casamento entre o meu eu verdadeiro, que se me foge, que se esconde, que eu nunca permito, com aquele que todos os dias aparece e é. Um eu que me pesa e pesa aos outros, um eu que nunca consigo crer que alguém goste ou queira simplesmente partilhar, de quem penso sempre que se tem piedade ou pena. No momento em que o mundo é isto, apenas o panorama, apenas a soma entre o que vejo, o que ouço, o que penso, o que algures no meu corpo clama o teu nome em impulsos irresponsáveis- É aquele ponto de fusão que quase atinjo, que procuro desde que cheguei ao Peru, pelo qual embarco em viagens que me custam mais o corpo do que o dinheiro, que me enchem de uma dose temporária de esplendor mas que nunca explanam a dor. A dose regular, a filosofia da fuga, a presença simples do que é maior do que eu. Parado neste miradouro, em Palcoyo, não sei explicar o que me atravessa. É um tremor que me arranca da inércia, mas que ainda assim não me põe a mexer. Transcendo o mundo, mas nunca me consigo transcender a mim próprio.


E sento-me. Deixo-me estar. Tantas vezes aqui falo de andar de um lado para o outro, dos locais e das viagens, que me esqueço quase sempre de referir os meus melhores momentos: aqueles em que simplesmente estou. Aposto que há dezenas de coisas a acontecer em meu redor, pessoas a pedir fotos, passos dados, olhares trocados, todo um múltiplo de um todo. Mas consigo não viver nesse bulício e estar só comigo. Muito o que de mim brota depende do que vejo. Estou à altura do que os meus olhos gravam e não nos confins daquilo de que me acho capaz. Neste momento, sou tanto quanto aquelas montanhas nevadas de que falei e em mim reflectem todos estes veios de mineral que dão cor aos montes. Não se vê uma única casa ou edifício, só o que definem de nenhures, que tem tanto, tanto. Há locais de que já vos falei aqui onde apetece só ficar e nem seguir viagem, ficar e nem sequer partir, sítios que são mãos a envolver-nos, abraços que ficando tempo suficiente, se tornam segundas peles. Daqui a dez minutos, terei de me levantar e regressar à carrinha, espera-me Ausangate. Mas fico lá na mesma. Ainda depois de regressar. Ainda depois de estar aqui à frente do computador a teclar e a escrever. Na verdade, ainda lá estou, em Palcoyo enquanto escrevo. Só não tenho essa noção.


terça-feira, março 26, 2019

Perugrinação 17: Um Peru dentro do Peru


Há coisa de dois anos, o governo peruano foi peremptório em considerar o distrito de Lares como o mais pobre de todo o país. Isso é dizer algo num território nacional que cobre zonas desérticas, selva amazónica e montanha quase inóspita de Norte a Sul. Lares é um caso muito particular na geografia e economia peruanas. Se pesquisarem num mapa, apenas duas estradas chegam até à própria vila, sendo que não existe ligação entre entre ambas. Bizarro, mas verdade. Deve ser um dos poucos locais do país onde niguém está de passagem: se vais a Lares, é porque quiseste lá ir; e se vais a Lares, isso significa que fizeste uma longa viagem onde nada encontras no caminho para além de casas abandonadas, árvores e pedras. A vila é pequeníssima. Tem um largo minúsculo e estreito, que faz as vezes de mercado, e a partir do momento em que saímos, estamos à nossa mercê de caprichosas estradas de terra, escravas do clima se chove demasiado, desaparecem; e com um certo azar, é possível furar ou partir um eixo e esperar horas - se tivermos sorte - até que algum reboque se digne a aparecer para resolver a situação. Se de facto existir um cu do mundo, Lares candidata-se a ser uma das nádegas. É aqui, no entanto, que começamos a encontrar o verdadeiro passado do país, porque olhando a partir da janela do carro, encontro uma raridade: zero caucasianos. Em toda a volta, faces indígenas. São os verdadeiros descendentes das antigas civilizações americanas, comunidades quechuas de pessoas pobres, destino social da maior parte dos ameríndios dos países sul-americanos. É um problema comum a toda a América Latina, que este ano ganhou alguma visibilidade com o sucesso do filme "Roma" nos Óscares; mas acontece em todo o lado. O Brasil de Bolsonaro trata a questão com bulldozers e assobios para o lado quando milícias de agricultores consideram índios como um preço a pagar; a desatenção do governo do Perú opta pela simples incúria. Lares, com as suas casas baixas e de tijolo, é apenas o mais desenvolvido que esta área tem para oferecer. A grande fatia dos quechuas que aqui habitam existem em pequenas aldeias perdidas pelos montes que vemos ao longe, espalhados pela solitária altitude e na sua grande maioria vivendo acima dos quatro mil metros. Os acessos são perigosos e alguns deles desaparecem na estação das chuvas, que vai começar daqui a pouco tempo.

Mas viemos precisamente pela experiência de conhecer a vida autêntica dos Quechua. No Peru existem quase quatro milhões de falantes desta língua, na sua grande maioria herdeiros e descendentes da cultura. É a maior comunidade de todo o continente americano. Não são exactamente um povo com uma cultura uniforme e a língua é o seu maior elo de ligação, embora existam dezenas de dialectos diferentes, que tantas vezes são incompreensíveis a outros falantes. Fala-se que era este o idioma dos Incas, mas o certo é que alguns dos rivais deste imperio também o falavam. É a segunda língua oficial do país e os seus falantes espalham-se por uma boa parte do sub-continente. Defendem que, pelos critérios de designação válidos na Europa, existem afinidades culturais suficientes entre si para que se considerem uma nação com claros direitos a exigir independência ou pelo menos autonomia. A expressão "Nação Quechua" é bastante usual na política sul-americana, embora os efeitos práticos sejam reduzidos. Os Quechua foram quem mais sofreu com a mais recente guerra civil peruana na década de 80. Forças governamentais e revolucionários do Sendero Luminoso trataram-nos como carne para canhão, o que é compreensível pois os elementos destes grupos eram na sua esmagadora maioria brancos ou mestiços. Alberto Fujimori, último ditador do país, iniciou na década seguinte uma campanha de esterilização de mulheres que visou principalmente esta comunidade e outra indígena, os Aymara, num caso de selectividade racial óbvia. Mais recentemente, quando duas mulheres indígenas foram eleitas para o Parlamento e fizeram o seu juramento na sua própria língua, a Presidente do hemiciclo recusou aceitar a jura. Peru: um país que não é para todos.


A carrinha pára. Saio e vejo apenas um casebre de pedras amontoadas. No entanto, a paisagem em redor é demolidora. À minha frente, um estreito riacho, deslizando pelo planalto pantanoso, parece subir ao invés de percorrer o seu caminho normal porque conduz o meu olhar para uma montanha em terceiro plano, cabecinha coberta de neve, formato de vulcão que se tornou, nos meus olhos, já familiar na cordilheira andina. Está um céu azul impecável, o sol brilha, o silêncio é quase total e apenas se quebra quando alguns cães vêm investigar os estranhos. O Pedro desaparece no casebre e antes que regresse, saem de lá uns garotos, trajes coloridos, faces quechuas. Primeiro tímidos, depois puxam-nos a roupa e alguns de nós colaboram em brincadeiras e tropelias. Sendo eu alto, faço de carrosel voador a alguns, risos espalhados, genuínos, honestos. Miúdos que se divertem com tão pouco porque não têm muito mais, mas se calhar até possuem bastante na sua inocência. A identidade da cor é muito vincada nesta cultura, quando correm ou voam nos nossos braços, é como se o mundo fosse um prisma e estes garotos, em luzes, arrastam as suas coloridas roupas, alterando a realidade. Mas não vim aqui para estar com garotos, tirei férias disso precisamente. Aquela montanha atrai-me a atenção e afastando-me de tudo, fotografo. Estou na realidade o suficiente para escutar as notícias trazidas pelo Pedro: o pai dos garotos devia ser o nosso guia num trek curto até um lago de montanha; aparentemente, surgiu uma oportunidade de negócio para vender um carro, numa povoação que fica a umas horas dali, e não sabe se chega a tempo. Uma alternativa é procurada e enquanto espero, nada como uma latinha de atum para aconchegar o estômago. Umas tábuas servem de ponte improvisada sobre o riacho e é aí que me sento.


Quando acabo, a questão do guia está resolvido. Numa habitação próxima, um senhor idoso caminha na nossa direcção. Baixo, cara agredida pelo frio e pelas décadas, sorri-nos e fazendo mexer o seu poncho multicolor, escuta a proposta do Pedro, o nosso guia. Aceita a responsabilidade que caberia ao filho, como se a hospitalidade fosse um valor sacrossanto para a família e na ausência de um, a obrigação de outro é ocupar o seu lugar sem má vontade. O plano é fazer uma pequena caminhada, não mais do que quatro quilómetros, rumo a um laguinho que ficará algures entre as montanhas que vemos. Há um trilho cujo início é bem visivel, pronto a ser seguido. Livramo-nos do peso excessivo - os mais sábios entre nós - e estamos prontos a começar. Rapidamente percebemos que o entendimento que o senhor tem da função de guia é muito liberal. Aliás, a humilhação vai-se instalando gradualmente em mim quando assisto ao desaparecimento rápido em caminhada de alguém com pelo menos mais trinta anos do que eu. É certo que ele tem a vantagem de jogar em casa, mas ainda assim, para alguém que está a dobrar a metade da sua possível existência, não é nada moralizador. Olho para trás, no entanto, e descubro que sou primus inter pares. A restante pandilha andarilha, há uns minutos entusiasmada com as oportunidades fotográficas de elevação, perdeu o gás rapidamente e com ele o fôlego. Noto algum arrastar de pernas, respiração pesada, velocidade quase em marcha atrás. A cada quinhentos metros verifico a situação e há sempre um elemento a menos, que ou caiu num buraco ou reviu em baixa os seus planos para esta tarde. Sobramos quatro. A falar verdade, não me sinto particularmente cansado. Aprendi que muitas vezes o truque é meter um ritmo estável e que não incomode muito a vida. O meu instinto sabe também que o ar é mais denso, velcro dos brônquios. Sei por isso que tenho de me gerir; no entanto, entra em acção uma atitude irreflexa apenas possível quando se passam quase vinte anos num grupo de escuteiros. A ideia fixa de que numa caminhada, ninguém fica para trás. Sinto que ainda que chegue ao fim, a minha caminhada não fica completa se não ajudar os outros a chegarem lá comigo. Consciente deste esforço duplo, diminuo o ritmo. Imediatamente atrás, a Joana segue também decidida e não me parece diminuída o suficiente para que me preocupe. A Cina e a Sofia dão-me mais inquietações e é nelas que me centro.


Com piadas e alguns insultos - eu disse que apoiava, mas nunca afirmei que o fazia de forma ortodoxa - faço sentir-lhes que não estão sozinhas e faço-me ponto de referência. Enquanto me observarem, sabem pelo menos que o caminho prossegue e que, de uma maneira mais ou mens torcida, o fim está ali ao virar do monte. Não é necessariamente verdade, mas acho que só faz ou fez caminhada entende o quanto o factor psicológico e a ilusão são fundamentais para se atingir o final. O sol desapareceu e o céu barra-se de nuvens cinzentas, a temperatura baixa, mas o verde, esse continua baço, meio apagado. Uma certa neblina fantasmagórica envolve aquele grande monte vulcão que vi à hora do almoço, agora cada vez mais perto, lenta mas definitivamente. A Sofia e a Cina vão parando de forma mais frequente e a Joana sumiu. Quanto ao velhote, calculo que por esta altura esteja algures na Patagónia, a ver icebergues. Não quero que elas sintam que estou a arrastar-me por causa da sua dificuldade. A pena é tão desmoralizadora quanto o ácido láctico e como tal, também por interesse pessoal, a máquina fotográfica serve-me de pretexto para pausas. O vale que racha até Lares é soberbo, montes atrás de montes, pedra bruta, um desrespeito total pela regras da estética, mas fascinante. É o tipo de violência que aprecio. Passo por pequenos feudos, limitados por muros de pedra, onde ovelhas e lamas pastam e caminham, olhando-me sem se aproximar. O trilho desaparece um pouco neste ponto e procuro pelo menos uma alternativa. Não quero que as minhas duas ovelhas comecem a panicar. Entrevejo, mais por lógica do que por visão, um planalto algures na base da grande montanha. O lago não deve ficar longe. Pelo menos, é isso que lhes invento para levantar ânimo. Resulta, mas preciso de confirmar a minha dúvida. Invento um caminho em subida e quando estou prestes a chegar, vejo uns cem metros à minha frente o irredutível quechua, agitando os braços. Quer que o siga. Ya, agora queres que te siga... Eu respondo com os meus braços também e ele toma isto como uma deixa para voltar a sumir. No entanto, se ele aqui está, o final não deve estar assim tão longe. Sempre controlando a minha distância para a Sofia e a Cina, galgo os metros finais e encontro, por fim, o objectivo. É como um disco muito ténue, fronteira entre a Terra e o Céu. A placidez dos meus olhos é ilusória, pois resulta precisamente de um lago que medita dentro de mim em mantras zen. Atrás de si, um bruto maciço impõe a sua lei, e o seu perfil ideal para fotografias. Por fim sento-me, a Joana está por ali e não se perdeu felizmente. Antes de tudo o mais, alimento-me. Não é atum, calma; uma saqueta de Belgas rumina-me os pensamentos, menos cansados do que eu, cheios de propósito em relação às saudades. Seguem-se fotos. O velhote, enquanto a Cina e a Sofia chegam, diz que tem uns assuntos a tratar. "Ganado", ri-se ele e contornando as margens do lago, descobre os segredos atrás de uma pequena elevação.


A Joana levanta-se. Põe-se a caminho, não quer atrasar-nos e assim como assim, lembra-se do caminho. Se ela cá chegou, também sabe voltar - e não fico a pensar muito nisto. As restantes duas tentam recuperar. A Sofia com melhor cara não desarma do seu casaco verde, uma folha pousada em altitude. A Cina, uma senhora com muitos anos nas pernas, dá ares de quem nos vais informar de que foi atropelada por um camião, e também um rebanho de vicunhas pelo caminho. Se não soubesse a verdade, a cara dela dava-me zero razões para duvidar. Espero que o senhor volte, mas passa uma meia hora e nada. Olho para o relógio e são quase quatro e meia. Calculo, baseado no cansaço delas, que vamos demorar pelo menos uma hora e um quarto até regressar à aldeia. É certo que descemos, mas as pernas não são as mesmas. Coloco-lhes esta preocupação e elas concordam: o melhor é ir embora. O homem conhece as fendas e as pedras muito melhor do que nós, aposto até que fala com elas e discute a prestação da selecção peruana no Mundial de futebol. Alguns minutos depois de abandonarmos o lago, começo a procurar a Joana, estamos num ponto elevado cuja vista alcança praticamente todo o caminho que fizemos. Não a vejo. A Sofia e a Cina devem estar a pensar no mesmo. "Onde está a Joana?" e é um pergunta que me fazem recorrentemente como se fosse eu o único olho numa terra de cegos. O certo é que não a encontro. É altura de uma opção heterodoxa. Em vez de procurá-la à minha frente ou acima de mim, desvio o olhar para o vale. Lá no fundo, a umas centenas de metros, um palito segue na mesma direcção que optámos. Só pode ser ela. Berramos e chamamos e nunca nos responde. Tento perceber que lógica a levou a tomar a decisão, para mais quando não há caminho evidente e a espera uma aventura por terrenos privados onde facilmente algum indígena a pode confundir com um trauma ressequido dos tempos coloniais. Portanto, agora o pseudo-líder tem de lidar com duas apreensões: assim no Céu como na Terra.


Ainda assim, isto parece ter dado um ânimo dobrado às cansadas moças. Talvez com vontade de reencontrar a Joana e sabê-la em segurança, aumentam um pouco o passo. Faço-lhes ver que isto é também importante pela súbita queda da noite nestas altitudes. Entretanto, somos apanhados pelo quechua geriátrico. Rapidamente se depara com a Joana e abanando, a cabeça, chama-lhe maluca e talvez anteveja que mais à noite, alguns dos seus amigos lhe chamarão à pedra pelo ultraje, a honra da família em risco. Imagino-o arrependido por sair de casa nesta tarde, podia ter ficado descansadinho a brincar com os netos ou simplesmente a dormir a sesta. Rica vida, suspira ele, mas não é para mim. A partir daqui, o caminho melhora e torna-se muito óbvio por onde seguir. Sem nunca perder as minhas ovelhinhas, a memória natural do caminhante ajuda-me e chegamos à comunidade sem problemas. A Joana ainda vai demorar mais uns minutos. Reencontramos os desistentes, que nos contam as suas maleitass e de como a sua tarde se passou com as crianças. Fotografar humanos... Bolas, que alergia. Afasto-me um pouco e massajo as minhas pernas. Nada mau, aguentei-me como deve ser e não passei vergonha. Para mais, guardo na memória outro cenário montanhoso de tesouro, precioso como todos aqueles que nos definem. Durante os meses seguintes, aquela montanha bem definida e com personalidade aparecerá várias vezes no pensamento, quando precisar de um refúgio. É como um braço no ar que responde às perguntas que a comunidade Quechua faz aos seus múltiplos deuses, sem que estes se dignem a responder. Eu permaneço na dúvida; mas afinal é isso que me leva a caminhar e de certa forma, espero nunca encontrar as respostas.

quarta-feira, março 13, 2019

Perugrinação 16: Soltar



Onde é que tínhamos ficado? Ah, os meus intestinos. Quanto a isso... Ora, mal senti o espasmo de convulsão, soube de imediato que seria impossível adiar a vinda ao mundo das minhas últimas refeições sob a forma de composto orgânico. Achei por bem, porque me ensinaram, ainda assim, algum decoro, guardar para mim esta informação tão pessoal e apenas transmissível de maneiras particularmente nojentas. O grupo juntou-se e entrando no parque arqueológico, seguiu em fila, falando e rindo. Este que vos escreve deixou-se ficar um pouco na rectaguarda. Numa análise rápida e cirúrgica, a beira da estrada não convidava ao alívio e como tal, sobrava apenas a esperança que algures no amontoado de casas à minha frente existisse, de uma qualquer maneira, um WC. Tal verificou-se, mas, crueldade, as portas pareciam trancadas e sinceramente, estava a acumular demasiada tensão em mim para desperdiçar segundos à procura de jeitos e trejeitos de abrir fechaduras. Pânico. Entretanto, já não via gente. É preciso acrescentar que este é um daqueles locais arqueológicos que qualquer português pode considerar como seu, no sentido em que está mal sinalizado e não aparenta ter visitantes. Nem sei bem quem aqui viveu, mas outras prioridades tomam o lugar da minha curiosidade. Num passo rápido, quase de marchador olímpico, encontro o trilho que conduz o visitante pelas atracções, sem que, infelizmente, me depare com dinossauros qual Parque Jurássico. Melhor para mim: no filme, o advogado que se enfia na casa de banho acaba no estômago de um tiranossauro. É então que uma curva surge prometedora. O trilho guina para a esquerda, mas é a direita, por uma vez na vida, que me interessa. Há um declive súbito no qual me posso esconder e abrigar de olhares alheios. Não dá para aguentar muito mais e terei de improvisar este esconderijo. É agora.


Antes de agachar, baixo as calças. Célere, confirmo que trouxe um pacote de lenços. Aos quatro metros de altitude, arreio o calhau. Bato o meu recorde de verticalidade escatológica, embora isso me interesse pouco neste momento. Apenas aquela sensação de beatitude que acontece sempre que o meu tracto intestinal descobre um escape. O que me leva a referir esta aventura, porque parece haver sempre um evento escatológico em cada uma das minhas viagens - e nesta estamos já no segundo - são três pequeninos factores. O primeiro, importantíssimo, é a magnífica paisagem. Se existisse o desporto de observação profissional a partir de ponto de defecação, estava na Champions. A foto acima foi tirada durante a acção, uma vista incrível, com o friozinho raspando as nádegas e os olhos bem presos nas montanhas, picos nevados, um contorcionismo rochoso daqueles que alegra. Sim, estava a cagar no mato e a tirar fotos das montanhas. Que foi, não se podem juntar dois prazeres num só momento? Quem disse? E só não tirei os phones pronto a escutar música apenas e só porque não me recordei. Por momentos, e só me lembrei disso à posteriori, esqueci mesmo que estava naquela situação íntima, abstive-me por completo do lado lógico. É o quão espectacular se tornou o instante; o segundo factor acordou-me deste hipnotismo, quando olhei para um barulho que crescendo atrás de mim, estourou num "Ai não" e alguém, nem sei bem quem, está em posição de me apreciar em momento de fealdade, ainda que tenha o meu rabo numa conta não muito decrépita. Fleumático, reajo com indiferença: não há-de ser a primeira vez que a pessoa vê nádegas na vida. Para culminar, no meio da comoção, entre aguentar-me de cócoras, controlar uma respiração ofegante porque estou aos quatro mil metros de altitude e ser apanhado de surpresa num acto natural, toco sem intenção numa lente a meu lado, que intenta decidida pela ribanceira abaixo. Engulo em seco, assisto aos saltos e catrapins do objecto, que a certo ponto desiste da viagem e se aloja num pequeno buraco. Enquanto trato de me limpar, penso que talvez esta viagem ao Peru, depois da desgraça no deserto, talvez seja um funeral valquiriano para o meu equipamento fotográfico. Calças apertadas. Embora não pareça pelo que acabo de fazer, respeito demasiado a memória histórica para deixar os dejectos à vista de qualquer visitante... ainda que, provavelmente, o próximo só apareça daqui a duas luas novas. Um largo calhau serve-lhe de túmulo, paz ao seu cheiro. Agora, a lente. Pego-lhe, retiro-a do saco protector, tudo ok, tudo funcional. Bem, uma merda ao invés de duas.


A reserva arqueológica de Ankasmarka é o que resta de uma antiga cidade Inca que subia a montanha desde Calca. O ponto em que nos encontramos é apenas um de vários conjuntos de casas cujo perfil posso vislumbrar se observar a linha que daqui segue até ao vale. Gajos de fôlego, os Incas. O explorador espanhol Cristobal Molina, foi o primeiro europeu a narrar os modos de vida e localização dos habitantes da cidade. Contava que num passado longínquo, estes eram muito supersticiosos em relação às estrela, crendo com toda a piedade que um grupo delas em particular lhes anunciava que um dia o mundo seria destruído através de água. A cidade surgiu nesta altitude porque um pastor, ouvindo este aviso constante, reuniu a família e mantimentos e construiu uma casa no ponto mais alto possível, para que quando o dilúvio tombasse dos céus, a morte não lhe chegasse húmida. E assim chegou a catástrofe, cobrindo toda a Terra excepto os pontos mais altos dos Andes. O pastor sobreviveu e os seus seis filhos repovoaram o que sobrou. Ao contrário do que pensamos, lendas como esta não são exclusivas de Noé e da herança judaico-cristã, embora desconfie que a razão pela qual o explorador espanhol a incluiu no seu livro tenha sido para ligar, de alguma maneira, estes povos americanos com o bom nosso senhor jesus cristo.. Se pegarem num livro de qualquer mitologia mundial, é quase certo que encontrarão uma narrativa diluviana, o que sempre me levou a pensar que algures, num passado muito distante e já com seres humanos formados, o nosso planeta se cobriu de facto de água e a partilha destas histórias nada mais é do que o reflexo de uma consciência jungiana que todos partilhamos. Sim, é paleio científico, mas passei um parágraof inteiro a falar de defecação. É possível equilibrar. A mesma lenda recolhida por Molina conta que apenas uma espécie animal previu esta catástrofe: os llamas. É por isso que pastam sempre no topo dos montes, tristes pela desgraça, temendo que esta se repita e desta vez os condene. Hoje em dia, o local foi abandonado por todos, menos pela memória e a reflexa preocupação do governo peruano pela preservação de tudo o que tenha a ver com os seus famosos antepassados, ainda que quase ninguém mostre interesse em Ankasmarka. Existe uma excepção.  Funciona aqui ocasionalmente um projecto comunitário de tecelagem que traz aqui com regularidade conhecimento ancestral sobre roupa inca por parte daqueles que, já antigos, ainda se recordam das técnicas artesanais. Às vezes, vêm até aqui, sentam-se junto às casas, vestuário colorido, uma saia e um xaile que pode servir de cobertor para exposição das peças e trabalham. Se tivermos sorte, apanhamos um em flagrante esforço.


E temos sorte. Uma dupla de mãe e filha alapou-se junto ao trilho antes que este dê por si num miradouro. A seu lado, um bébé, atulhado num poncho azul, laranja, amarelo e vermelho, com um chapéu chuyo a condizer. Ri-se muito, o garoto; alguns de nós, claro, querem tirar fotos. Apenas observo. Vocês já me conhecem, pessoas não costumam ser o tema das minhas fotografias. No entanto, a excitação no garoto é tão genuína, vendo alienígenas de pele branca e sem os olhos amendoados, quase orientais, que caracterizam os indígenas Quechua, ali à sua frente e ele diverte-se, pensa que saíram de alguma história de faz de conta que lhe contaram antes de dormir. O espectáculo fica para trás enquanto caminho para o miradouro. A vista sobre o vale é extraordinária. É este o meu elemento, os pontos altos, as vistas onde o fôlego só não se tira porque estamos de facto no local onde só as aves conseguem respirar como deve ser. Ou descendentes que nos genes Quechua encontram a resistência à falta de oxigénio. Uma navalha rasgou a montanha e criou uma gigantesca garganta até Calca. A pedra castanha amarelou do sol que bate forte, ainda que sinta frio. O céu azul, os picos altos em trezentos e sessenta graus... É um convite a que me sente e aceito. O trilho continua ainda, até umas casas circulares sem telhado, mas por agora, quero o meu tempo, quero viver aqui nestes segundos que já passaram enquanto outros chegam. Com calma, retiro a máquina fotográfica, finjo que me interesso, namoro esta esplêndida visão num flirt que me aquece o sangue. Vários instantes registados no cartão de memória, mas o mais importante é aquela sensação que procuro sempre nestas viagens - estar vivo. Lembro-me de que cheguei a Lima com o meu interior em permanente decadência; mas os grandes espaços, a sensação de liberdade do olhar, a simples inércia não forçada, desejada e geradora de sorrisos, anula esse sentimento. Sei que não durará muito tempo, em mim a felicidade costuma ser a abelha que uma vez espetado o ferrão se condena a uma morte rápida; mas aqui sentado, acho que consigo fingir o suficiente para pensar que sou feliz, que consigo sê-lo. Penso em todos aqueles que me fingem que a vida é boa. Ao longe, eu e tu beijamo-nos sem que ninguém mais veja. Eu só queria dançar contigo sem corpo visível - palavras que nenhum de nós escreveu mas que se tornaram nossas, ainda que o nosso livro esteja fechado. Estou no meio do Peru, em nenhures e tudo o que me ocorre és tu. Sempre tu. A falta de oxigénio faz das suas.


Algum tempo depois, regressamos à carrinha. A estrada de pálido alcatrão continua a subir a montanha, uma serpentina na água que não flui. Curva segue curva, pela janela calo a paisagem, capto-lhe as mudanças, os planaltos, a sensação de que cada vez mais os metros apontam para cima. Quando a subida culmina, voltamos a parar. Cá fora, o corpo pesa. Quatro mil quatrocentos e cinquenta metros acima do nível do mar. Nos próximos dias irei habituar-me a esta altitude. E superá-la até. Neste momento, o meu corpo gere tudo isto com cuidado. Enquanto os meus colegas tiram fotos da porta que se abriu à nossa frente, aberta de par em par, uma paisagem que se esgueira sibilante pela rocha que gradualmente perde altura, a maior cobra que vi na vida, mexo os meus pés em direção a um pequeno topo do lado esquerdo da estrada. Parece-me o local ideal para capturar ambos os lados da montanha. Subo a custo, cada metro cansa-me, um passo parecem vinte, demoro a encontrar um ritmo a que possa chamar de confortável. Pedra bruta. Demoro alguns minutos e quando olho para trás, sou imitado e a dificuldade é partilhada. No meu objectivo, a máquina e eu voltamos a namorar o que a vista alcança. Os cumes montanhosos ainda guardam neve e o sol que nela reflecte dá à luz luzes novas. Como já devem ter adivinhado, estou a escutar Einaudi, "Time lapse" em loop. Nem ligo muito ao que os meus outros colegas fazem. Sei que me dá má reputação, mas estes são momentos em que não estou para ninguém. Vim aqui por isto. A espaços, nem penso. É o quão milagroso este firmamento bem terreno consegue ser. A minha voz prefere descansar, as minhas mãos tremem um pouco, mas não de frio, alguma excitação talvez, a sina de possuir uma sensibilidade tal que se deixa comover com o que a Natureza projecta sem câmara, mas também sente as dores do sentimento com uma carga quase pornográfica. Dançam em mim, quase em valsa, estas duas emoções díspares, o completo frenesim em ebulição de estar vivo, o angustiante desânimo do que desejo e não tenho nem terei. Nas entrelinhas de tudo o que escrevi está agora, passa esta corrente gélida também, da dor que não tem silêncio, de uma sirene que grita enquanto nada digo, nem exprimo. Este ponto, Abras de Lares, reúne ambos, com dificuldade, à força, e as negociações não surtem efeito. Por muitos milagres que as montanhas operem, este não será um deles.

No regresso à carrinha, não consigo desligar deste binómio que me define. Fugazes instantes em que me sinto, de facto, com sentido e o sentido proibido que me põe fora do convívio com o mundo. Quero calar tudo isso, quero calar-te acima de tudo, mas nem o oxigénio rarefeito me ajuda. Estou no topo, mas também aí existe um fundo, quase sem si mesmo, sem regresso garantido. "Vamos agora para Lares", diz o Pedro, "se enjoarem com facilidade, preparem-se que a estrada é acidentada" e eu preparo-me, não quero fazer o hat-trick do canto gregoriano. Sempre sem retirar os auscultadores, fecho os olhos. Não para evitar projectar o que quer que seja. Mais para fechar em mim um turbilhão muito mais indigesto: o paradoxo que me enche. Não tenho esperanças de resolvê-lo no Peru. Para fazê-lo, concluo, era
preciso ter galo.

quarta-feira, março 06, 2019

Perugrinação 15: Momentos mudos


Parece bizarro notar que num país com mais de um milhão de quilómetros quadrados, o Peru possua apenas quatro linhas de comboio; mas diz muito sobre o quotidiano do mesmo que a mais longa dessas linhas seja exclusivamente para uso turístico. A Peru Rail garante essa ligação, saindo de Água Calientes e terminando em Puno, a Sul, localidade de acesso a todos aqueles que pretendem usufruir do Lago Titicaca, cujo extremo mais setentrional se localiza em território peruano. Como em praticamente todos os países onde o investimento privado tomou conta das opções políticas, o comboio deixou de ser, ao longo do século XX, o meio de transporte importante que uma vez foi, atravessando o país de uma ponta à outra. É algo a que nós, portugueses, estamos bem habituados. Na cidade que tem sido parcialmente minha nestes dois últimos anos, e falamos de uma capital de distrito, existe o serviço apenas duas vezes por dia - uma viagem de ida e outra de regresso - em horários que não dão jeito a quem quer que seja. Perde-se algum encanto, porque não sendo o mais prático dos transportes, o comboio é certamente o mais romântico, nostálgico, capaz de gerar em nós instintos Proustianos. A única companhia que opera comboios na pátria de Machu Picchu é a PeruRail e ainda que garanta a cobertura de menos de 20% do território, transforma todo o serviço num deslumbre para turistas.  Na estação de Águas Calientes, uma voz em castelhano informa-nos da chegada das carruagens à linha. à entrada de cada uma, somos recebidos por dois funcionários impecavelmente fardados, com vestimentas de deseign criativo, branco e de linhas bordeaux. O vagão azul parece saído de um mundo smurf, mas no interior, a decoração é sóbria, onde em paredes beje desenhos de mapas antigos do Peru. Sou levado ao lugar por uma simpática jovem com menos uns dez anos do que eu, cujo inglês é comparável ao meu domínio do russo. Os bancos são confortáveis e recuam os passageiros no tempo. Não sei se propositadamente ou porque o orçamento ferroviário do Peru dá apenas para comprar uma caixa de pastilhas e um chupa, as carruagens evocam a antiguidade e quando o comboio arranca, chia e treme mais do que a antiga automora que fazia a ligação entre Coimbra e a Lousã. A velocidade é de apreciação da paisagem, algo difícil com o temporal que lá fora varre as vistas, e cada paragem uma maneira de fazer os pulmões esgueirarem-se por entre as frinchas das costelas.


A mim, nem me incomoda. O meu corpo, depois da excitação de ter visitado uma das "sete maravilhas do mundo moderno", recorda-se que esta brincadeira começou às três da manhã num exíguo quarto de hotel e que sou caloteiro de horas de sono. O embalo da viagem convida claramente ao pagamenro da dívida e num percurso que demora hora e meia, apago mais vezes do que as costumeiras. O conforto dos bancos apela a que simplesmente me instale e desligue o interruptor. Quando acordo, estamos perto da nossa estação e não me sentido recuperado, sinto-me que dei a mim próprio mais algumas horas de coerência para suportar o resto do dia. Descemos em Urubamba, mas ainda não é aí que pernoitaremos. Mais uma hora de viagem de carrinha conduz-nos a um Eco Lodge onde somos recebidos por uma família conhecida do Pedro. O lodge compõe-se de várias pequenas casinhas, cada uma delas abastecida por energia renovável e um sistema de canalização que aproveita a água. Parte dos produtos usados nas refeições são cultivados ali pela própria família. Cumprimentamo-los, antes de, por fim, gozarmos de um pequeno tempinho de morte temporária e precisa. Quando nos dirigimos para a sala de jantar, o Jorge, o meu constante companheiro de quarto durante a viagem, repara num bólide amarelo que descansa numa garagem improvisado com quatro paus e um telhado de zinco. Não consegue seguir caminho sem admirar as curvas, o design e me informar, um leigo de automobilismo, que se trata de um Mazda bastante popular nos anos 80, famoso por ter participado em provas de rali. "Caramba, isto é um RX", e fica tão maravilhado que pressinto problemas futuros com a polícia local e acusações de furto qualificado. Ao chegarmos à sala, voltamos a saudar a família. Um pai e uma mãe com quatro filhos. Num sofá mais afastado, uma senhora velhota diz olá, mas continua a ver as notícias numa televisão pequena. Já nos esperam alguns aperitivos, enchidos, alguns queijos, saladas, para petiscarmos. O jantar é arroz com carne e peixe, à escolha de quem quiser. Cai-nos muito bem, até porque eu, pessoalmente, sinto o meu corpo tão pesado e tão vazio em simultâneo que comida quente, feita ali mesmo com o cuidado caseiro, vem resolver toda  uma série de problemas. Antes de finalmente poder regressar ao meu bungalow, o Jorge não resiste e volta ao romance com a sua loura metálica. É apanhado no acto pelo putativo dono do veículo, o patriarca. Confessa-nos que é um daqueles projectos em continuação. Comprou a carcaça base numa sucata e nos últimos meses tem vindo a recuperá-lo, pois recordava-se de, em novo, assistir a a provas de rali passando perto de sua casa e ficar fascinado com aquele Mazda. Sempre sonhou ter um e agora, cumpriu o sonho. O Jorge gaba-o, depois ao veículo. Por momentos, penso que va cravar-lhe uma voltinha, mas não chega a esse ponto.


Despertar na manhã seguinte às seis e meia. Há um dia muito comprido que nos espera e começa precisamente no mercado de Calca, a vila mais próxima. Localizada no Vale Sagrado, não é particularmente turística, mas o Pedro insiste que nos ambientemos um pouco ao mercado, espaço onde chegam pessoas de toda a região, para que assistamos ao lado mais genuíno desta população próxima dos indígenas Quechuas, aqui sem tiques de exibicionismo excursionista. Este ponto de venda funciona como centro ecnómico de todos os pequenos produtores da região. É domingo e logo pelas oito da manhã, já está cheio de gente que traz consigo acima de tudo comida e tecidos. Os menos autêncitos tmbém carregam bugigangas várias que deverão ter sido produzidas no Peru, mas via Hong-Kong. Entre caras sorridentes e desconfianças latentes, vou caminhando devagar, tentando mostrar que não venho aqui para estragar o dia a ninguém, embora, estamos, a falar de mim, essa é semre uma possibilidade séria. Com a memória das minhas aventuras num mercado de gado em Karakol, recordo como estas pessoas mais simples podem encarar uma máquina fotográfica com declarado horror; mas sou recebido com curiosidade e no máximo, vergonha natural. Não peço poses, não peço abébias: só licença e autorização para captar momentos e assim sigo. Vê-se de tudo um pouco, desde bancas exclusivamente de sapatilhas, até velhinas que cortam pedaços de pimentos nos dão a provar. A maior parte das mulheres passeiam o Montera, um chapéu típico quechua, vestindo a Llicla, um poncho colorido à múltipla escolha, que as agasalha e protege também. Garotos correm por todo o lado, um pede-me que abra um pouco as pernas para rastejar por baixo de mim. Não têm medo, sorriem e brincam, volta e meia regressam à banda de onde saíram e voltam novamente a deambular. Alguns deles têm o tamanho de miudagem de sete anos, mas quando lhes descobrimos a cara, envelheceram trinta. O ar da montanha não deve fazer assim tão bem. Não se escuta música, mas barulho de vozes. Quase niguém grita pregões e os espaços estão bem definidos entre carne, peixe, verduras e tralha. As bancas são de madeira e ocasionalmente, há pequenos botequins de quatro paredes de metal. Num segundo andar, encontro uma larga sala, com duas bancas corridas de pedra, onde gente vê televisão e come cança e uma sopa estranha que mistura caldo de pato cozido com ervas aromáticas. Olho para o ecrã e passam as notícias, uma delas anuncia que foi recentemente aprovada no Parlamento uma Lei Mulder. Concluo que o Universo joga aos dados e me tocou a vez. No centro da sala, uma caixa de vitrais tapa a estátua de uma santa. Como pano de fundo, montanhas brutas. Ainda assim, sinto que não estou totalmente nas profundidades arcaicas deste Peru. Horas mais tarde, virei a confirmar que esta sensação é verdadeira.


No fim da visita, a ideia é regressarmos às carrinhas e subirmos a estrada que serpenteia a montanha sobranceira a Calca, a Suhasiray, rumo a Cuncani, uma exígua povoação completamente entalada em montes, recôndita, quase intocada. O dia soalheiro convida a passeio e a viagem continua. Em nosso redor, altas rochas compactas nem fazem sombra, por muito altas que sejam. A estrada carrega-se de curvas, umas ao enfim de outras, mas o condutor lida com elas suavemente, a velocidade cruzeiro. Nos meus ouvidos, música rouba-me das pessoas, mas coloca-me ainda mais no centro daquilo que procurava quando passei os olhos pelas imagens peruanas: as montanhas. Respeito-as, mas namoro-as, sei que me retribuem mais do que qualquer outra pessoa na paixão que lhes tenho. Quero captar o seu perfil e rosto, em linhas de definida atracção, trazê-las para Portugal comigo em algo mais do que a minha mente, mostrar-vos, atrair o vosso desejo para este canto do mundo. No mais, escrevo sobre os interstícios da viagem, os momentos de transição, as pequenas que se treslêem e ficam de fora do que se conta depois. Faço dos grandes cenários e dos locais conhecidos, dos Machu Picchus e Nazcas destas andanças; mas pelo meio, de um lado para o outro, existem pessoas e estórias pequenas, locais onde nos rodeamos do que é genuíno, aquilo que não chega em fotos, os transportes e as viagens de carro, aquilo de que mal escrevo quando os poucos que consomem estas crónicas absorvem. São os momentos mudos, porque raramente lhes dou voz. Mas hoje dei. De mercados e projectos tão simples quanto recuperar carros da nossa infância, os sonhos comuns de gente incomum porque os concretiza, recuar no tempo numa voltinha de comboio. As coisinhas que preenchem e ainda assim não chegam para tapar aquele buraco que sorve tudo, que não se cala e pára, que exige mais e mais nunca se contenta. A ideia de que alguma vez eu possa ficar satisfeito com a vida esvai-se, é fumo. A certeza de que não tenho o que quero é permanente. Pensar em ti, em ti mesma, e nunca alcançar o desígnio de acordar a teu lado, de partilharmos o que é meu e teu, de me fazeres um pouco mais, dói-me muito mais do que as pregas da viagem. Mas existe e reflecte-se em tudo, nas montanhas e no mar, nas cidades e nos descampados, nas rugas das pessoas, nas lágrimas que nunca me denunciam porque não deixo. Um outro género de momento mudos.

Paramos então. O topo da montanha não surge, logo isto não está no programa. Do lado oposto ao do nosso estacionamento, uma placa anuncia o Parque Arqueológico de Ankasmarka. O Pedro não sabe o que ali está, mas temos algum tempo a matar e nunca se sabe bem o que se encontra nos intervalos do planeado. Oportunidad epara esticar um pouco as pernas. A máquina vem comigo, ao que parece ainda ali queimaremos uma horinha. Tudo bem. A trezentos e sessenta graus, a minha fome de altitude mais do que fica saciada. Pressinto um festim para os meus olhos. Subindo a estrada, uma velhinha quechua traz as suas cabras. Saudações e ela segue, as cabras também. E é então que mais uma vez, das profundezas da minha escatologia pessoal, um trovão me rasga de alto abaixo e culmina nos meus intestinos. O rimbombar de séculos não se ouve pelos montes, mas eleva-me o pânico. Uma das minhas nádegas fala claramente para a outra: "vai haver merda entre nós".

terça-feira, fevereiro 19, 2019

Perugrinação 14: A velha montanha - segunda parte


Machu Picchu significa " a velha montanha" e diz respeito, obviamente, ao descomunal calhamaço de pedra que faz parte da sua iconografia. Estabelecida mesmo no meio dos Andes, não é tão antiga quanto a maior parte dos Europeus pensa, acostumados a associar velhas relíquias arqueológicas de outros continentes a tempos anteriores a Cristo. A Universidade de Coimbra, por exemplo, foi fundada quase dois séculos antes que este povoado fosse construído, algures em meados do século XV. Ao que parece, o seu propósito inicial era o de residência real para Pachacutec, imperador inca, o líder temporário de uma civilização que no espaço de quatro séculos armou o maior império da época pré-colombiana, que abarcava parte ou a totalidade de seis países actuais da América do Sul, unificados pela língua Quechua, a liderança Inca e o culto solar. Portanto, Machu Picchu apareceu bem tarde na cronologia inca, mas pela sua mística, por ter sido descoberta praticamente intocada já no século XX e também pelo cenário que traduzido em fotografia seduz de imediato, tornou-se sinónimo de uma civilização de cidades maiores, construções mais complexas e uma capital declarada e central do império em Cusco. O que é espantoso em tudo isto é que os Incas não são, de todo, uma cultura civilizacional normal. Aliás, procurar semelhanças entre esta e outras civilizações europeias ou mesmo asiáticas é fútil. Ao contrário destas, os Incas não possuíam veículos movidos a rodas, ainda que conhecessem o seu princípio de funcionamento; desconheciam animais de carga poderosos como cavalos ou bois; não criaram um sistema de escrita que possamos reconhecer como tal; e também não usavam ferro ou aço de qualquer maneira. No entanto, como expliquei, governaram o mais extenso império das Américas.

Percorrer a cidade ajuda a entender como tal foi possível, no entanto, a quem repare nos pormenores. Depois de vermos o nascer do sol, cada um ficou livre durante umas horas para circular livremente. Se estivermos no centro de Machu Picchu, é inevitável repararmos, situado num monte sobranceiro, num conjunto de três arcadas que nos vigiam. São as Portas do Sol, Inti Punku em Quechua. É o meu objectivo. Para lá chegarmos, é necessário fazer-nos ao caminho, rochoso mas seguro, que sobre gradualmente pela montanha. Não sou o único a fazê-lo, enquanto caminho vejo centenas de pessoas seguirem na mesma direcção, idades variadas, algumas com ajuda de batons. Pelo meio existem ruínas de antigas construções, pedras talvez sagradas, o mistério de como foram feitas sem o auxílio de metal. De vez em quando olho para trás, para ver a cidade lá em baixo cada vez mais longe e está geometricamente feita e organizada, rectângulos agrupados e delineados, casas que um dia foram algo mais do que buracos que vejo agora ao longe. Também começo a entender o quão difícil há-de ter sido encaixar tudo isto nas encostas das montanhas. Para mais, a zona peruana, como referi noutra crónica, é muito dada a achaques sísmicos. A engenharia e arquitectura da cidade fez-se para evitar terramotos, cheias, deslizamentos de terras e chuvadas repentinas. Um pouco como os nossos Açores e Madeira, a Natureza deve ter deixado letreiros a ameaçar com mil e uma catástrofes caso escolhessemos tornar os locais habitáveis. Mas fez-se. O mesmo caminho que percorro faz parte do extenso conjunto de estradas que liga todo o Império Inca. Daqui a Cusco, por exemplo, são cinco dias a pé; e foram encontrados achados arquelógicos neste local que mostram um comércio intenso com povoados do lago Titicaca, que fica a centenas de quilómetros no sul do país. Parte destas estradas ainda hoje existem e ligam aldeias e pequenas vilas de maneira pedestre. Quanto mais penso nos Incas, mais me lembro dos Romanos e de como certas inspirações estão apenas num éter qualquer, que culturas diferentes acabam por absorver em momentos diferentes da História.


Chegar às Portas do Sol não é cansativo, num passo decidido, mas moderado e com tempo para muitas fotografias, alcanço o topo e tenho uma vista privilegiada para o local de onde parti. A cidade é-me pequena à vista agora, a montanha que lhe faz sombra ainda mais dominadora, presente. Em redor, os picos andinos cobertos de vegetação relevam o clima tropical que afecta esta zona durante todo o ano. Olhando para o meu lado esquerdo, consigo ver o seguimento do trilho que percorri, perdendo-se entre a  vegetação, mas com acesso proibido ao público geral. Por aqui se fazia a entrada para a Machu Picchu, imagino guardas imperiais controlando o movimento dos viajantes e dos comerciantes. Pela sua localização remota, creio que a admissão ao local seria muito selectiva, entregue apenas a alguns escolhidos. Aqui só encontramos ruínas, mas aproveito o meu esforço para desfrutar da vista. Sento-me num socalco relvado e pousando a mochila, permaneço uns momentos fora de mim. Vejo em meu redor pessoas a fazer palhaçadas, outras que sentadas no chão cerram os olhos em meditação e mais uns apenas cansados, provavelmente ainda não habituados à altitude de quase 2800 metros em que se encontram. Eu apenas penso. Quero sentir, mas só consigo pensar. Não vou partilhar o que me baila convosco, guardo-o; mas várias coisas me sobressaltam, coisas que o éter do local, ou então uma diminuição drástica da quantidade de oxigénio no ambiente, apenas tornam maiores, mais ofegantes e presentes. Ser eu não é uma má experiência todo o tempo, mas alturas há em que me pesa por demais, ou se calhar ando a carregar tanta coisa inútil no meu saco, não aprendendo a largar, que esse mesmo saco se colou a mim e já faz parte. Ou então estou a dar uma simples desculpa para o meu aumento de peso. Uma pessoa com quem me envolvi uma vez ensinou-me alguns exercícios de respiração. "Experimenta, quando achares que o mundo é só aquilo que te pesa e assusta" e desde então que os uso a espaços. Ela comentou comigo que adorava estar aqui um dia e uma maneira de trazê-la talvez seja aproveitar essa dica que me deu. Estou assim durante uns minutos e pareço um daqueles maluquinhos New Age que tanto gozo. Mas resulta. A mente torna-se mais clara e vejo tudo como é: o sol a bater-me na face e estou vivo para poder presenciar toda esta maravilha e voltar para contar o que vi com a imperfeição das palavras.

O caminho de regresso faz-se mais devagar, atenção aos pormenores e também às pessoas, nas faces, a procura de algum tipo de iluminação em quem aqui a buscou. Nada reparo. Quando chego à casa do guarda, ponto de partida de todas as visitas turísticas a Machu Picchu, reparo nalguns magotes de gente. Nuns casos, são claramente grupos de vivenciadores New Age, juntam-se em círculo e de braços abertos para o sol, alguém no meio veste de forma folclórica e procura dar alguma orientação e rumo a quem tão sequiosamente o observa. São os turistas da procura, aqueles que vão fugindo do seu mundo na crença de que se algo melhor os espera, está bem longe, inalcançável e  assim é que está bem. O que interessa é a busca, a vida é movimento e indagação, a caçada da verdade, seja ela qual for, por mais largueirona e manienta que se revele. É a de cada um, mas acima de tudo é a de alguém que no-la dará. Outros grupos são de simples turistas que segurando folhetos e livros, Lonely Planet talvez, exigem conhecimento e interpretação por parte de um guia. Topam-se bem, estes guias. São homens, quase sempre, corpo curtido pelo sol e esquálido pelas caminhadas constantes. Não é o parque quem os fornece. Se queremos um, contratamo-lo directamente.Invariavelmente, são peruanos e para eles os Incas não são um simples povo desaparecido no passado: fazem parte do que os agarra à terra. A nós, calha-nos o Joel. Não tem mais de 40 anos, não lhe pergunto a idade e por cortesia, não lhe revelo que sim, estudei História. O Pedro, nosso líder de viagem, dá-me uma cotovelada e comenta "Sobre isto não lemos nós na escola em Portugal", mas o que o Pedro não sabe é que tenho um graúdo interesse pela América Pré-Colombiana praticamente desde que comecei a pedir enciclopédias emprestadas aos vizinhos. Que sei perfeitamente distinguir Quetzalcoatl de Viracocha, os Olmecas dos Toltecas e Chichen Itza de Technotichlan. É verdade, que o foco da História escolar é a Europa, esse centro do mundo que não é, umbiguismo de apenas quem usa palas no olhos; mas felizmente, a escola nunca foi o meu limite de conhecimento e curiosidade. Não me dei ao trabalho de pesquisar sobre este local a fundo e estou com genuína curiosidade em ouvir o que o Joel nos vai contar.


Há uma paixão nas palavras do Joel. Avançamos por entre as ruínas da antiga cidade e em pontos específicos, ele explica os segredos dos locais, ao variedade agrícola, o génio de engenharia, os sistemas de irrigação, os mistérios do culto religioso, de como o mundo se esquece do Império Inca, tão grande e tão organizado, como os Incas foram os primeiros a pensar em tanta coisa, de como as suas construções resistiram até hoje e como a sua capacidade organizacional não tem par no mundo. À minha volta, os meus colegas deliciam-se maravilhados; eu, simplesmente, sorrio e penso nos Romanos. Sei que a História não é uma competição de pilas entre povos. O orgulho nacional nisso a transforma e o Joel, de um Peru que há duzentos anos estava ainda sob o domínio espanhol e há menos de vinte e cinco permanecia ainda satélite na órbita da importância do mundo, mata uma fome de protagonismo não pessoal, mas da pátria. Não está ali para nos deliciar com arqueologia, mas simplesmente marcar posição e a imagem nas nossas mentes de que eles, os peruanos, são mesmo bons e importantes. Respeito isso, claro; e um olhar minimamente atento obriga ao espanto, principalmente pelo uso de técnicas de construção que não exigem cimento ou argamassa: as pedras pousam umas nas outras e é a pressão que as mantém rijas e hirtas. O problema arqueológico que isto coloca, e o Joel faz questão de referir, é que as casas e edifícios mais modernos são, precisamente, os mais frágeis aqui em Machu Picchu. Desde o Templo do Sol até à Intihuatana, a pedra de múltiplas pontas, quase tudo está alinhado especificamente na direcção dos grandes acontecimentos astronómicos, solstícios e equinócios, a relação com o Sol sendo o centro da vida Inca. A cidade está dividida por zonas sociais, o povo e a realeza vivendo em locais com separação bem delineada. Machu Picchu é uma cidade que desce por socalcos. Um pouco como a paisagem do Douro vinhateiro, embriaga da mesma forma.

Já na parte final da visita, o Joel explica particularidades da sociedade Inca. De como homem e mulher viviam juntos antes de casar, só para ver se a coisa resultava. De como o divórcio era permitido e as relações gay também, desde que o casal não fizesse muito alarido disso. A mulher podia propôr divórcio e trabalhava, concluindo eu que o antigo Peru era mais avançado socialmente de que a moderna Arábia Saudita. Por falar nas arábias petrolíferas, passa a meu lado um pequeno grupo de norte-americanos. Fazem barulho, como era expectável e como que cumprindo um cliché, fazem alarde público da sua ignorância em relação a tudo aquilo que não seja "America, fuck yeah!". Uma moçoila bem jovem, que tomou aparentemente a resolução de se bronzear de corpo inteiro aqui nos Andes, pergunta a um rotundo barbudo se não era esta uma das maravilhas do Mundo Antigo. E ele diz que sim, que é; uma terceira figura, porte atlético e louro de capilares, contrapõe e engelha o nariz. Isto não é assim tão bonito, não pode ser; mas o primeiro matulão garante, viu isso num programa, até houve umas eleições. Que até o Cristo do Brasil também era do mundo antigo. Quem me conhece há mais tempo, sabe que tenho uma baixíssima tolerância à estupidez, que vai diminuindo na proporção da estima que tenho pela pessoa. Não conheço estes burgessos, logo conseguem adivinhar o que se segue. Intrometo-me na conversa, de mansinho. Correcção: esta não é uma maravilha do mundo antigo. É impossível, porque elas localizavam-se todas na bacia do Mediterrâneo. Silêncio momentâneo. O génio barbudo insiste no que viu e eu explico, mais calmamente do que já fiz a alguns alunos que me passaram pelas salas, que isso foi algo recente, feito por questões turísticas para renovar o interesse no conceito. "Sabes muita coisa sobre isto, tu; mas por acaso estudaste História?" O tom gozão acalma quando respondo que sim. Cinco anos. E sou professor. Este foi o momento em que ele se apercebeu de que há poucas coisas mais eficazes do que um estranho desagradável que percebe daquilo que fala. Retirei-me com "Sabes, benefícios de uma educação europeia" e deixei-o a digerir o quanto o meu mundo é Velho, mas o antiquado era ele.


A visita termina no local onde começámos, o pórtico de entrada. Vão chegando camionetas de turistas. Uma atrás da outra. Apesar das restrições colocadas pela UNESCO e pelo parque, os limites são claramente ultrapassados: o Joel contou-nos que mais de seis mil pessoas visitam este local diariamente. Segundo as regras oficiais, apenas duas mil e quinhentas podem fazê-lo. É uma mina, Machu Picchu. Séculos depois de ser um dos últimos refúgios de um povo que viria a ser explorado pelos Espanhóis, a herança inca é hoje abusada aos pés do mesmo deus que seduziu os Europeus. Também reluz, mas não é o Sol. "Foi giro isto", diz-me alguém ao meu lado, e não usaria exactamente esse adjectivo. Gostava de ter sido largado à solta por entre as ruínas, sem constrangimentos ou tempo contado, mas o bilhete era válido por apenas uma manhã e à medida que viajo, percebo que o Tempo e o Espaço só casam bem na Física de Einstein, não nos desejos de quem se passei pelo mundo. Não vim ao Peru por estes calhaus, mas ficava cá mais uns tempos à conta deles. Para lá das imagens de Instagram ou do falso impulso epifânico que tantos aqui pretendem encontrar, há um genuíno encanto inusitado e intrigante sobre a Antiguidade nestas montanhas. Quando estou fechado numa sala de aula, a explicar História a gandulos, sinto-me sempre preso nos limites do que me corre na cabeça, no que quero mostrar, nesta paixão pelo percurso da espécie em sociedade e desiludo-me pois as paredes não expandem mentes. Ao ar livre do oxigénio reduzido, nesta banda que é mais do que um cliché ou um objectivo de vida que dura duas semanas, há um desconhecido arcano que como um sofá, obriga a sentar e contemplar. É o que me apetece fazer, mas chega a nossa camioneta, eu entro e instalo-me num lugar e de seguida, sou levado daqui. Só com memórias, fluidas e em fumo. A velha montanha fica para trás e a única coisa que me sobra é o velho eu que aqui chegou e continua a não renascer.

domingo, fevereiro 10, 2019

Perugrinação 13: A velha montanha - primeira parte


É uma faca de um ouvido ao outro, o toque de despertar. São três da manhã, enxofrina-me o visor do telemóvel. Sim, são três da manhã e estás acordado. O quarto é pequeno e na cama ao lado da minha, o Jorge parece ter sido apanhado no mesmo deslizamento de terras do que eu. Um pequeno sorriso mútuo, reconhecendo o mundo ao contrário onde nos encontramos, onde é noite e temos de fazer de conta que é de dia. Sinto-me grogue e com alguma dificuldade, distingo que as pernas têm lugar nas calças e não na camisola. Estamos em Aguas Calientes, uma pequena povoação no Leste do Peru que nada mais é do que um aglomerado de casas com uma única justificação: Macchu Pichu, a atracção turística mais popular do país. Não é isto que me traz cá, mas o Peru não fica exactamente ao lado de Portugal. Uma pessoa atravessa meio mundo e já que o meu corpo deu por si nos Andes, seria pecado não ceder a um cliché. Desde que, há uns anos, este local arquelógico inca foi incluído nas novas Sete Maravilhas do Mundo, toda a gente tem comichão em que cá vir. Claro que podemos questionar critérios - afinal, algo tão sem classe e estilo como o Cristo Redentor brasileiro está também incluído - mas ao menos, ao contrário das mesmas Sete do mundo antigo, estas maravilhas contemporâneas existem mesmo. Seria algo desapontante se, acordado a tão antecipada hora, desse por mim num planalto deserto ou apenas com meia dúzia de calhaus semelhantes aos que encontro espalhados pelo Pisco ceirense.

Ainda é noite e o nosso grupo desce desde o hotel até à zona dos transportes. Mesmo na escuridão, Águas Calientes é um pinhadinho de ruelas entre lojas, restaurantes e hóteis, com a mesma quantidade de personalidade que Luís Montenegro. Ainda assim, ouve-se já um rumor de vozes a alguma distância. Na paragem da camioneta que leva a Macchu Pichu, estão já, pelo menos, umas cinquenta pessoas, assim de cálculo. Organizam-se rudemente, a lembrar um rebanho. Está frio, mas o do inverno peruano, húmido, de lâmina pouco afiada. Sem Internet, não há muito para nos entretermos que não seja conversa de situação, algumas piadas ocasionais e o encosto do passeio. Olho na direcção da nossa chegada e uma rua com meio quilómetro vai-se povoando com o passar dos minutos. Às quatro e meia da manhã, já devem estar 200 pessoas. Meia hora depois, o dobro, a fila deixa de existir passando a ser um magote. Uma praga de turistas. Impermeáveis coloridos misturam-se com descontraídos adolescentes e pós-adolescentes em grupo, barulhentos, o linguarejar da Torre de Babel original. Não sei onde vêm, apenas para onde vão. É o sonho psicadélico de Viracocha. Cinco e meia e chegam as primeiras camionetas. O magote afunila-se. Fiscais de transporte tentam ordenar a entrada. Alguns polícias pairam, caso a praga necessite de insecticida. Depois de verificado o meu bilhete, entro e acomodo-me no meu lugar. No interior do transporte, um silêncio cúmplice de quem deve horas ao sono e poupa energia para a atracção principal. Quando saímos, já se notam matizes do amanhecer, mas o sol não está, ainda. A estrada que conduz a Macchu Pichu é uma serpente emplumada, com as árvores oferecendo cobertura ao corpo ofídio. Pela janela, observo caminhantes de frontal na testa, optando por um caminho alternativo, um trilho que corta a montanha quase a direito. Ainda são numerosos, pessoas que se desafiam fisicamente ou simplesmente tentando retirar o lado turista de um lugar que, para os Incas, sempre foi espiritual. No entanto, pela sua organização, pela ânsia de fotos pessoais, pela devoção às suas redes sociais e projecção no mundo virtual, são tão falsos como eu. Apenas têm maior caixa torácica.


A manada é reunida, depois da chegada gradual das camionetas. Já há luminosidade suficiente para que nos distingamos. Penso em como tudo isto é mais uma apropriação ocidental. Afinal, um arqueólogo americano chamado Hiram Bingham gabou-se de ter sido o primeiro a descobrir este povoado perdido a mais de três mil metros nos Andes. Olhando para a entrada, há uma placa, celebrando a amizade peruana e norte-americana com base no feiot desse garboso - e racista - cidadão americano. Como se Macchu Pichu fosse um presente envenenado. Como em quase tudo da versão histórica ocidental que se faz do chamado mundo dos pequeninos, é uma falsidade. O local já era conhecido de vários historiadores nacionais, em descrições, relatos e estudos. Pelo menos desde o século XVIII até que missionários espanhóis traziam consigo histórias de uma cidade, na base de uma montanha, nesta região. Quase de certeza que se referiam a este povoado. Mas Bingham pensou que era mais esperto do que os outros. Vinha dos EUA, claro. Bingham, um homem de boas famílias e hábitos eticamente discutíveis, ficou como o explorador das nuvens.

Somos encaminhados para o início de todos os trilhos que atravessam o parque arqueológico. Existem quatro percursos, mas a ideia do nosso grupo é chegar à primeira plataforma e fotografar a imagem mais icónica deste local no preciso momento em que o sol nasce. Aquela montanha elíptica verde e negra. Há uma fila de dezenas de metros que se contorce pelo caminho acima, pessoas como formigas, mochilas balouçando às costas, casacos coloridos combatendo o frio, sorrisos e compenetração. Por isso viemos tão cedo. A plataforma que buscamos, no entanto, preenche-se, curiosos e voyeurs, gente que anunciará a todo o mundo, segundos depois, que estão onde todos querem estar, apaparicados por uma certa sensação de superioridade geográfica do momento. A vista é reconhecível a qualquer pessoa que tem o Atlas Obscura na sua lista de favoritos. Aproveito uma nesga e planto-me, pés criando raízes para só me arrancarem dali à força da boa educação. Cedo a uma fraqueza e peço a alguém que me fotografe com o telemóvel. Mexendo nas definições da máquina fotográfica, tento calcular qual a melhor maneira de guardar para mim este momento; mas mais importante é o que baila na minha cabeça. Custa-me admitir inicialmente, mas há de facto um éter que não se vê nem se palpa em meu redor. Vai-se entranhando, tento definir, mas ainda não consigo. Preciso de mais presença. Cinismo de lado, absorção, encarar tudo isto não como um bacanal de turismo vendido e empacotado, mas algo mais que me preencha, que me faça atravessar a barreira do real. Há sete séculos, uma civilização trepou toda esta montanha, enfrentou a altitude ofegante e como uma criança que empilha uma torre de legos, deixou-nos uma cidade. Não se tinham dado ao trabalho só porque fica num topo. Quer dizer, talvez; boa parte das grandes cidades portuguesas devem a sua localização ou a rios ou a montanhas. Mas entre tantos topos, porquê este? A minha pele repousa, afrouxa, tenta mostrar-se receptiva. Já foste místico, já acreditaste nalgumas destas coisas. Era mais novo e mais parvo, mas ainda vive em ti, ou então definias-te ateu e não, como gostas sempre de afirmar com nariz empinado e quase num trejeito ridículo, que és agnóstico. Faz um esforço, instala-se e deixa que se instale. Sais do teu país à procura de motivos que façam a presença deste teu corpo físico e alma cadavérica justificação de existência. Atravessas meio mundo para encontrares o que quer que seja que achas que está no final da viagem, na ânsia de finalmente perceberes essa pergunta que não cala, mas também se anuncia. Se o fazes, ao menos fá-lo por completo. Aceita e nao recuses.


A luz então começa a surgir e envolve a cordilheira em nosso redor. Vegetação desce pelas escarpas abaixo, é um caldeirão verde. O sol espreguiça-se por uma frincha entre dois picos, oculto ainda lançam os seus raios, arautos da sua chegada. São brancos,  são amarelos, mas se repararmos bem, nem têm cor, são apenas um anúncio. O que está escuro, baço, de repente sorri. Na base daquela montanha reconhecível, as ruínas finalmente aparecem, uma dança entre a vida e a ausência dela na pedra que guarda séculos. O sol gradualmente beija todo os cantos das casas, as faces do monte, até as nossas próprias caras quando se liberta da prisão dos montes e assume o seu lugar no céu. Sento-me, fotografo e respiro, não tanto o ar, mas a luz. Por momentos consigo, e juro que é verdade, ignorar que estou rodeado de uma multidão. Não existem maníacos das redes sociais, agarrados do telemóvel, simples monos que não entendem fazer parte de um mundo com tanta gente, terroturistas de ocasião. Eu estou aqui e quase sou o único, enquanto me reservo e mantenho no óculo da máquina. Já várias vezes falei desta sensação de ser um apenas através da câmara e que na busca de registar aquilo que mais tarde vos trago de cada uma das minhas viagens, o foco é apenas no momento. Vejo com os olhos, mas todo o meu corpo sente. Nesta chegada a Machu Picchu, as primeiras impressões marcam-se na pele, em mãos invisíveis de um misticismo próprio e genuíno, não de expressões faciais forçadas e alegria barroca, mas numa certeza que ganho em cada uma das viagens: de que comecei as minhas aventuras a fugir de algo, mas que nunca serei apanhado agora, precisamente porque já não fujo. Em troca, apanho todos estes instantes que aos trambolhões e como se os escrevesse dentro de uma máquina de lavar roupa em funcionamento, vos entrego imperfeitos.


Subo mais um patamar. Continuo a caminhar sem reparar bem no que vejo, apenas no momento em que o dia nasce e estou aqui, no meio dos Andes peruanos, nestes despojos do Império Inca. Agora, vejo a velha montanha sobranceira às ruínas do lado oposto ao que me encontrava. Acomodo-me e volto a fotografar. Num golpe de sorte e de vista, enquanto o sol trepa a pulso do meu lado direito, do lado esquerdo a Lua descobre que não é mais bem vinda e retira-se para as profundezas. No momento em que olho, parece pousar num pico montanhoso que se assemelha à base de um cálice. É como uma bola de gelado pronta a comer, aluada. Sem muito tempo para pensar, capturo o instante em três momentos diferentes. Apenas um sai perfeito, mas faz-me sentir sortudo, algo que muito, muito raramente me acontece. A sorte de estar e de ser, de ver acontecer, de sentir o suficiente para encontrar a beleza em algo tão simples quanto uma percepção. Aquilo que a vida é, afinal. Um ponto de vista, uma impressão, ângulos múltiplos de um espelho e que se olha e reflecte aquilo que está dentro de nós. Baila em mim, sempre, o turbilhão do abismo, aquela sensação de que o poço é real e a minha boca a única entrada para o mesmo. Mas neste momento, sentado numa palete de plástico preto, nada disso importa. Só eu e o mundo, que consigo ver sem mais alguém. Talvez seja um qualquer feitiço inca que só acontece a quem acorda às três da manhã.