Domingo, Março 18, 2012

Os tribunais certos


Os anos passam, e apercebo-me finalmente o quão errado estava por me odiar a mim mesmo, ou questionar tudo o que fazia. Não interessa o que fazes agora, interessa o que já fizeste e os filtros dos outros. Contra isso, nada podes fazer. Já foste julgado, e isso é que conta. Segue em frente e aprende que no fim de contas, interessas tu e o julgamento que fazes de ti mesmo.

Vou parar é com esta merda, que pareço o Paulo Coelho.

Ser homem


O dia da Mulher é sempre uma altura de lembrar os direitos das mulheres, e o tratamento que receberam durante séculos. Fala-se de direitos de mulheres, salários e greves; de opressão e exploração. Maldosamente, certos elementos do sexo feminino aproveitam para bradar o quão superficiais os homens são. É, portanto, uma altura para grandiloquência e cabotinismo. Não é diferente de qualquer outra efeméride ou data importante, então.

Há no entanto uma vítima esquecida no meio de toda esta confusão: o homem que não sabe ser homem. Aquele que não encaixa no estereótipo que se faz dos homens, e que existe de facto. O "gajo". O macho. O indivíduo que perante um armário estragado ou um quadro eléctrico defeituoso, pega nas ferramentas e resolve o problema, enquanto lê "A Bola"; que sabe perfeitamente a diferença entre um Golf 1.3 e um Golf 1.8; alguém que sabe preencher um formulário do IRS; que malha um copo só porque os amigos estão em casa. Eu assumo publicamente que não sou este homem.

Não digo isto com o desdém de alguns. O meu pai pertence a esta categoria, e com todo o orgulho. É um senhor simples e que não tem grandes preocupações para lá do quotidiano, o que já sobra, como sabemos. Toda a vida do patriarca Cristóvão Simões girou em torno de uma ideia: suportar a família e resolver os seus problemas. Fossem eles construir uma churrasqueira, ou garantir que eu teria uma educação de luxo que me conduziria ao desemprego. Era o trabalho dele; e quando se reformou com 55 anos de uma carreira ao serviço da GNR, a sua missão estava cumprida. O filho mais velho tornou-se a primeira pessoa a formar-se na família, o mais novo tem todo o ar de ir longe na vida, conseguiu tornar-se dono da sua própria casa, tem as finanças controladas e está casado há 32 anos.. Invejo o meu pai, porque não sei se alguma vez conseguirei ser assim tão realizado nas pequenas grandes coisas que fazem a nossa vida. O que não significa que despreze aquilo em que somos diferentes, e que nunca tiraria de mim mesmo.

Sou apanhado nesta armadilha da masculinidade principalmente quando conheço outros homens, que não têm qualquer hipótese de saber as coisas pelas quais me interesso realmente. Cada homem presume que o outro fala uma linguagem comum. Por isso, se falam para nós acerca daquele escape fabuloso que meteram no jipe e lhes permite trepar seis penedos sem suar, há a expectativa de que o interlocutor perceba exactamente a maravilha dessa tecnologia. O que faço normalmente é disfarçar a ignorância espelhada no vazio do meu olhar com um "Isso é espantoso", ou "Um amigo meu falou-me disso...", dito com tamanha convicção que passou mesmo por membro daquele clube. Eu, claro, não digo muito mais. Fui-me interessando por futebol, porque seria talvez o assunto que compreenderia mais facilmente, para servir de ponte. Não é fácil falar daquilo que refiro como "aquelas coisas". Tornam-nos interessantes durante um período curto de tempo. Depois, passamos a ser como "macacos amestrados", e se tivermos sorte, ficamo-nos por aí. Se tivermos azar, evoluímos para arrogantes, o que só tem piada se tivermos realmente um ego onde caiba a arrogância. O que não é o meu caso.

Fui acusado durante tantos anos de ser um pretensioso intelectual enorme que passei a fazer um esforço hercúleo (que não foi de boa vontade, sou sincero) em perceber este género de coisas, e em dar-me com pessoas diferentes. A ironia da história é que aqueles com quem me dava anteriormente, nos círculos onde a minha pretensiosidade intelectual não só era aceitável como celebrada, me passaram a olhar de lado. Dizer que gosto de futebol é uma punhalada, e qualquer observação mais comum lança dúvidas sobre o meu estado mental. Fui confrontado por alguém que me disse, há pouco tempo, que já tinha sido mais inteligente. É provável, se calhar. Mas não trocaria a experiência a que me entreguei, acho. Não sei se fiquei a perceber mais quem não tem aspirações mais na vida que não sejam ser feliz e passar um bom bocado (e são bem nobres, tais aspirações). Pelo menos, aceitei que é um opção tão legítima quanto a minha de me destruir lentamente até não conseguir tirar felicidade de mais nada.

No entanto, penso que fugirmos daquilo que somos não será a melhor opção, mesmo que aquilo que somos não seja exactamente o que nos deixa confortável para sermos aquilo que queremos ser. No entanto, isso pode ser impossível, e no fim de contas, viver acho que é um pouco conformarmo-nos com a vida tal como a podemos esculpir. Com a matéria-prima que temos, e com as oportunidades disponíveis. Reconhecermos as limitações, e se podemos evoluir a partir daí; aceitarmos o que nos trava, e gerir as nossas expectativas com essa bagagem. Ou então, lutamos contra tudo. O que é o conselho que se dá mais vezes, mas claramente por alguém bem mais ajustado nas suas opções de vida.

Ser homem é mais do que aquele modelo que tracei, claro, embora não deixe de me sentir desconfortável a falar com a maior parte dele. O que as pessoas não percebem é que não vejo isso como o mundo a ser ridículo: encaro isso como a minha própria inabilidade em lidar com o quotidiano. Porque é a resposta mais simples, e não tem nada de errado. Com honestidade, o quotidiano pode ser muito complicado de vez em quando. Mas lá está, é por isso que tenho o meu pai.

Segunda-feira, Março 12, 2012

Gritos de Ipiranga 1


Aquele que a minha coluna vertebral aparenta querer mandar em relação às minhas costas.

Sábado, Março 10, 2012

A view to a thril...

Quarta-feira, Fevereiro 29, 2012

A culpa é deles


Hoje é dia de festa na blogosfera benfiquista e dos benfiquistas. Aquele clube que todos acreditamos ser o melhor do mundo, independentemente de evidências racionais, comemora o seu aniversário 108. Percebo que confunda algumas pessoas que eu, que me pronuncio como agnóstico e sou desconfiado por natureza, seja do Benfica. Afinal, nenhum outro clube exige ao seu adepto uma devoção ilimitada e cega. Ser do Benfica implica também ser-se adepto porque se é do Benfica: não há ódios a outros clubes a alimentar a paixão. Os outros são os outros, estão no seu canto e cada benfiquista sabe que nunca serão melhores do que nós. Tudo porque, claro, não são o Benfica.

Este era o post ideal para cantar as belezas dos encarnados; ou mesmo tecer a linhas de letras uma ode a essa aparição divina que é Aimar com uma bola nos pés; talvez até cravar uma estaca no Barcelona e provar, por A mais B, porque é que o Benfica da década de 60 é a melhor equipa que jamais pisou um relvado, ou relembrar sagas épicas, como aquele 4-4 em Leverkusen, o melhor jogo que vi na vida.
Podia ser post para isso tudo; mas como sempre na contra-corrente, quero apenas aqui confessar que o incondicionalismo não faz parte do meu benfiquismo. Sim, não foi do Glorioso em todos os 29 anos desta vida. Curiosamente, não é algo que não me orgulhe, porque o Benfica é grande, mas a minha consciência é maior. O culpado não sou eu, e nem sequer o Benfica.
O nome do primeiro meliante ressoa em mim memórias ternas do primeiro gosto por futebol, ao ver jogar o meu primeiro herói dos relvados: Rui Águas. Era um bom ponta de lança, que chegou a fazer dupla à vez com outros dois senhores (Mats Magnusson e César Brito), e cujo pai é ainda hoje um dos grandes ícones no clube. No entanto, em 1988, Rui decidiu que seria uma boa ideia envergar a camisola do FC Porto. Ignorando que isto era um pouco como vestir a Scarlett Johansson com estrume, o jogador pululou alegremente durante duas épocas não como papoila saltitante, mas como estrunfe musculado. Esta pobre criança, inocente nas suas crenças, seguiu-o; e durante dois anos dos quais não me orgulho particularmente, rejubilei com os feitos do conjunto nortenho, numa memória que tento hoje recalcar, sem sucesso, e que me assombra como um fantasma, principalmente quando ouço Pinto da Costa a falar e penso no que me poderia ter tornado.

Voltei a casa, quando Rui, lúcido, redescobriu o bom gosto e voltou à Luz. No entanto, uns anos mais tarde, já eu era um indivíduo com consciência formada (dentro daquilo que podemos imaginar de consciente a caber num tipo que nem tinha feito 18 anos), quando o nome de João Vale e Azevedo enetrou no Benfica e se veio a tornar no sinónimo de fraude, falcatrua e crime. Era como ver um emulado de outras figuras que povoavam o futebol português nessa altura (e aqui, o tempo passado é intencionalmente humorístico). Não conseguindo pactuar com desonestidade, decidi que enquanto Vale e Azevedo estivesse à frente do Benfica, não conseguiria ser adepto. Portanto, durante outro breve período, descobri uma simpatia pelo Rio Ave, que nessa época, nas ondas de Carlos Brito, conseguira terminar a primeira volta apenas com dois pontos, e ainda assim garantir a manutenção na última jornada. Ainda hoje nutro uma enorme simpatia pelos de Vila do Conde.

Mas quando o calvo Corleone de Londres saiu do assento encarnado, dando caminho a um bêbado inveterado, mas ainda assim mais honesto, regressei ao ventre que me aquece e acolhe desde então. Um ventre que me fez descobrir gostosas maneiras de dizer "caralho", e que me entrega a irracionalidade de bandeja, principalmente quando Emerson é titular e a lógica do mundo não existe.

No fundo, para mal dos nossos pecados, o Emerson faz parte dessa equação Benfica, que é tornar o impossível parte do quotidiano. É por isso que nunca podia ser de outro clube.

Parabéns, Benfica.

Domingo, Fevereiro 26, 2012

Aquelas previsões...


Como é costume todos os anos, deixo aqui os meus palpites para a noite de logo. São pessoas e transmissíveis via blog. Este ano, a escolha de filmes foi fraca... No conjunto, temos filmes quase todos medianos, e nem sequer pode haver comparação com o ano passado, por exemplo. No entanto, no ano da nostalgia de Nosso Senhor 2012, o menos mau parece ser o denominativo comum.

Melhor filme - "The artist"
Melhor realizador - Michael Hazanavicius, "The artist" (Dói-me quase tanto como ver Tom Hooper ganhar no ano passado)
Melhor actor - Jean Dujardin, "The artist" (até ontem, George Clooney teria sido a minha escolha. Mas a marcha do francês parece inevitável. Não sendo má, a prestação do fracn~es é a pior das cinco)
Melhor actriz - Meryl Streep, "The iron lady" (embora possa arder com esta escolha. Cuidado com Viola Davis)
Melhor actor secundário - Christopher Plummer, "Beginners"
Melhor actriz secundária - Octavia Spencer, "The help"
Melhor argumento original - "Woody Allen, "Midnight in Paris"
Melhor argumento adaptado - Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Stan Chervin, "Moneyball"
Melhor montagem - Thelma Schoonmaker, "Hugo"
Melhor fotografia - Emmanuel Lubezki, "Tree of life" (Tirando "The artist", quatro excelentes trabalhos de fotografia este ano, mas o de Lubezki é extraordinário)
Direcção artística - Dante Ferreti, "Hugo"
Os dois prémios de som vão para "Hugo"
Melhor guarda-roupa - "The artist"
Melhor banda sonora - John Williams, "War horse" (Ludovi Bource, por The artist" é o provável vencedor, mas recuso-me a escrever isso, com medo de vomitar)
Melhor filme estrangeiro - "A separation", Irão
Melhor documentário - "Paradise lost 3"
Melhor filme de animação - "Rango"
Melhor caracterização - "Harry Potter and the deathly hallows"
Melhor canção - "Man or muppet", Brett Mackenzie

Sábado, Fevereiro 25, 2012

Review rápida: "The artist"


"The artist", filme francês que tem muito pouco de temática francófona, tem-se tornado na história do ano. Vindo não se sabe bem de onde, tem conquistado prémios atrás de prémios, e neste momento, o seu caminho até à vitória final nos Óscares parece imparável. De facto, é estranho que assim seja, numa primeira olhada: é um filme mudo, estrangeiro, a preto e branco. No entanto, 2012 é o ano do saudosismo, se olharmos para os filmes mais nomeados nos prémios do cinema norte-americano, e esta é a obra que melhor resume isso.

Ajuda também que seja um trabalho de casa bem feito. Para começar, a história não é particularmente complexa: George Valentin, grande estrela do cinema mudo, é apanhado desprevenido na transição para o cinema sonoro. Recusando a aceitar esta nova introdução, perde o dinheiro numa super-produção que ele próprio financia e vê-se arredado das luzes da fama, enquanto Peppy Miller, uma estrela ascendente, toma o seu lugar. No final, é esta que, apaixonada desde sempre por Valentin, lhe salva a vida e faz regressar ao seu lugar por direito: a fama. Portanto, nada de novo nos enredos do cinema mudo. As personagens são bastante unidimensionais (Valentin: orgulhoso; Peppy Miller: bondosa que dói; o homem que dirige o estúdio: carrancudo de bom coração) e lembram o mediano cinema mudo escapista de que o início do cinema foi feito. Por isso, para além de um belo trabalho de promoção dos manos Weinstein, porque é que a obra é tão falada?

Primeiro, porque é um filme simples. Segundo, porque relembra o mais básico do nosso gosto, o de ver gente a representar, antes de o nosso cérebro ser obrigado a pensar muito sobre aquilo que vê. O segredo de "The artist", para mim, está nisto. É feito com simplicidade, e aparenta ser mais sofisticado do que aquilo que é. É portanto, um filme de que se pode gostar à vontade e ficar-se bem visto ainda por cima. Ninguém vai falar realmente mal de "The artist". No entanto, é um objecto bastante estranho: partindo de um pastiche (pronto, paleio intelectual) do cinema mudo, utiliza um estilo e movimentos de câmara bastante modernos. O espectador mais leigo não o notará, mas quem, como eu, conhece razoavelmente o cinema de Chaplin, Keaton, Lloyd entre outros, não deixará de sentir estranheza com algumas panorâmicas que têm muito pouco a ver com o cinema que "The artist" tenta emular. Compreendo que este é o trabalho de um autor próprio, mas este acaba por nunca se decidir se vai homenagear ou se envereda por algo pessoal, e a sua obra fica ali presa a meio, numa estranha metamorfose. De facto, "The artist" é muito mais interessante quando se descola do seu modelo básico, e encena algumas sequências mais surreais que se destacam sem dificuldade.

Tecnicamente, o filme não é nada de extraordinário. Há um sentimento de "Já vi isto em qualquer lado". Não serve como desculpa a fotografia a preto e branco, porque quem viu "Schindler's list" sabe muito bem que é bem possível ser original dentro deste formato. A banda sonora é um pouco confusa, algo de estranho num filme quase mudo, onde este pormenor é que guia a história. Certas deixas sonoras têm muito pouco a ver com os momentos em que entram e criam, novamente, uma estranheza desnecessária.
O filme ganha nas interpretações, e penso ser isso que me prendeu a conseguir achar interesse a tudo isto. Jean Dujardin tem um excelente domínio da linguagem corporal, desde a expressão facial, até à própria postura. Estudou os actores da década de 20, mas ainda assim, não imita ninguém realmente: George Valentin é seu, todo cheio de charme e energia e carregando cada nota de sentimento com convicção e clareza. Berenice Bejo, o seu interesse amoroso, não é tão bem sucedida, mas tem ainda assim bons momentos (fica na retina uma cena envolvendo-a mais um casaco e um cabide. É nestes pequenos momentos, fora da homenagem estilística, que o filme descansa e se torna realmente bom a espaços).

Temos, portanto, um filme perfeito para ganhar o Oscar: não maça ninguém, tem sentimento a rodos e presta uma homenagem a Hollywood. Haanavicius, o realizador, soube replicar o melhor do cinema mudo, e esta poderá ser a maior utilidade do filme: levar aqueles que gostaram de vê-lo a descobrir a obras-rimas originais que inspiraram "The artist". Aliás, em muitas delas, vão encontrar um cão tão fofinho, ou mais, do que aquele que acompanha Valentin todo o filme.

Reviews rápidas: "War horse"


Apesar do mito escrito e montado durante as últimas duas décadas, é uma mentira que o cinema de Steven Spielberg seja absolutamente sentimentalão. Não há dúvida que tem uma grande componente emocional, girando normalmente em volta dos mesmos temas (o sentimento de abandono, a fractura da família, a procura de um sonho), mas desde "E.T" que o realizador não faz uma obra que seja desavergonhadamente sincera nas suas intenções de colocar o mais duro dos homens a chorar. A espera acabou: chegou "War horse".

Tentativamente, conta-se a história de um cavalo e das suas aventuras entre humanos, do nascimento à morte. É estabelecida, desde a rimeira cena do filme, a sua ligação a Albert, o filho de uma família de agricultores do norte de Inglaterra, no início da segunda década do século XX. Tempos difíceis obrigam Albert e o cavalo (que é chamado de Joey) a formar uma ligação forte, na luta para ajudar a família composta por um pai alcoólico, coxo e demasiado orgulhoso, e uma mãe que independentemente disto, odeia o marido sem nunca deixar de amá-lo. Mas então, começa a 1ª Guerra Mundial e a família tem de vender o cavalo ao exército para ser usado no conflito. Albert fica inconsolável e promete resgatar Joey do meio do conflito.

Como se vê, a história é uma espécie de cana de açúcar, de onde se pode retirar sacarina à discrição; e é isso que Spielberg faz. Em cada momento que há hipótese de lágrima fácil, a virtuosidade do seu cinema une-se a uma excelente banda sonora de John Williams para nos fazer soluçar como crianças. Em certas alturas, resulta; noutras parece excessivo. A culpa é de um argumento desestruturado, que nos vende uma história entre Albert e Joey, para de súbito mudar tudo e transformar o filme numa sucessão de vinhetas ond o cavalo passa por várias mãos, e criando lições de moral sobre as várias desumanidades da guerra. Nada que Spielberg não tenha feito, com muito mais pinta, na abertura de "Saving private Ryan". O personagem de Albert parece também saído da década de 40 de Hollywood, sem uma única pulsão sexual que o movimente durante toda a trama. Só lhe interessa o cavalo. Mesmo para um realizador que nos deu alguns dos mais emblemáticos símbolos da ingenuidade cinematográfica, é uma pouco forçado. Nota-se que isto intencional, e que há piscares de olhos vários a cineastas dos tempos clássicos de Hollywood (David Lean, John Ford, Frank Capra), mas para um espectador leigo, compreende-se que soe a falso e forçado.

No entanto, o filme faz-nos esquecer isso durante as duas horas e vinte que dura. Como? Com algumas das cenas mais bem filmadas do ano. Steven Spielberg é dos maiores virtuosos da câmara que o cinema já viu, e este filme é, basicamente, money shot atrás de money shot: a entrada de um dos personagens refletida no olho do cavalo; uma transposição de cena encolvendo uma camisola de lã e um campo inglês; uma manada de cavalos num quieto sobressalto após um tiro decisivo. Estar nas mãos de um cineasta com esta imaginação visual é um luxo, para mais quando ele compõe também algumas das cenas do ano. A corrida desenfreada de Joey por entre as trincheiras, numa cena de batalha nocturna, é das melhores coisinhas que vi nos últimos anos.
Conscientemente, as cenas de guerra são filmada de maneira diferente de "Saving private Ryan"; mas como não? Estamos a falar de ua obra que reescreveu o modo de filmar e montar uma cena de guerra contemporânea. Ao invés de câmara de mão, Spielberg opta por planos largos e afastados, sobrevoando o campo de batalha, com uma montagem sóbria e discreta. Não é isso que tira a potência à carnificina, o que é a verdadeira moral do filme: a inutilidade da guerra e a forma como destrói as ligações humanas e o que temos de mais belo no mundo. Tudo visto pelos ohos de um cavalo que, estranhamente, é o nosso ponto de ligação a toda a história. Se antropomorfizar em demasia, o realizador cria uma empatia entre cavalo e espectador que dura todo o filme e nos faz temer por ele como uma personagem humana.

Amigos dos animais vão adorar isto, porque lhes faz esquecr de que cavalos e outros animais são seres irracionais; mas o tom do filme mistura realismo e fábula, nem sempre com equilíbrio, e é por aqui que o filme falha. Todo o virtuosismo técnica é deixado coxo por uma verdadeira dose cavalar sentimentalismo, que embora resulte a espaços, nunca é natural o suficiente para não pensarmos, depois de o filme que acabar, que andaram a brincar às marionetas connosco. Brincaram com muito nível, é certo. Mas ainda assim, brincaram.

Terça-feira, Fevereiro 21, 2012

Epígrafe tumular


Talvez isto merecesse uma reflexão mais estruturada e profunda; mas não sou Eduardo Lourenço. No entanto, quando leio que ninguém reclamou o corpo do já infame triplo homicida de Beja, não consigo deixar de me lembrar dos sermões de Via Sacra, quando se elogia José de Arimateia por ter requisitado e dado sepultura ao corpo de Jesus. Os padres costumam apelar aos católicos que sejam superiores à indignidade e sigam este exemplo.
Mas lá está, Jesus era mais giro e inspirador do que um idoso macilento e com desequilíbrios psiquiátricos.
Cada sociedade tem o Jesus que merece, se calhar.

(E não, não estou a dizer que o senhor de Beja é Jesus. Malta católica sem senso, desamparem a loja)