quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Ilhas Far Away 14: Mar em terra


Quando andava na Primária, habituei-me a uma certa confusão em torno do meu nome. Chamo-me Bruno, de segundo nome Ricardo e entre colegas da escola, ou me tratavam por um ou por outro. Respondia a ambos, claro, mas para aumentar a confusão, tinha um vizinho que se trocava sempre e olhando para mim quando passava na rua, saudava-me "Olá, Nuno!" antes de seguir a sua vida. Três nomes designando a mesma pessoa, e nem sequer sofria de múltipla personalidade. Sempre fui eu, acho, pelo menos sempre me senti eu sem qualquer confusão. Nomes são palavras que designam: no momento em que saem da nossa boca, tornam-se algo concreto que não precisamos descrever. É por isso que um pequeno múscula pode ter o extenso cartaz fonético esternocleidomastoideo, e que toda a imensidão que nos rodeia se decreve apenas com duas letras: ar. Um nome é algo de bem definido, preciso e por isso muitas vezes se guerreira à conta do que chamamos ao que enche o nosso mundo. Ainda que pertencente à mitológica zona da civilização que se almeja (esse engodo que se chama Escandinávia), talmbém estes aspectos não são pormenores. Interessam muito. Na Ilha de Vagar, então, existe uma maravilha natural que fascina os olhos, mas confunde a mente pois ninguém se entende acerca do seu nome.


A Oeste, chamam-lhe Sorvagsvatn; a Este, Leitisvatn. Ambos se referem à proximidade de aldeias, conforme o ponto cardeal que tomamos como referência, mas aos meus ouvidos soa tudo igual; e em vez de ouvir, o que importa é ver. No geral, os faroses percebem isso e quando se lhe referem, usam simplesmente a palavra "Vatnio", que tem o significado singelo de "o lago". São práticos e percebem que é bem melhor calçar umas sapatilhas e dar uma voltinha nas suas margens do que perder a voz e a sanidade em torno de palavras. Num espaço de 3 quilómetros quadrados e meio, a massa de água deita-se sem qualquer intenção de acordar. As águas mal mexem, ainda que sopre um vento apreciável e conseguimos ver os seus limites. Um termina  numa aldeia; o outro desaparece subitamente e funde-se com a linha do horizonte. O motivo simples: devido a uma ilusão de óptica incrível, dá mesmo a ideia que uma das margens do lago tem como parente o oceano. Parece elevar-se centenas de metros e cresce em nós a curiosidade de saber que se saltarmos com força o suficiente, este prato de água treme, inclinando-se para derrubar o seu conteúdo sobre o mar. É o que nos leva a fazer uma curta caminhada que na ida e volta não ultrapassa os oito quilómetros, feito por trilho bem definido e de gravilha, com terra lamacenta pelo meio. Não chove enquanto o fazemos, mas estou certo que aconteceu anteriormente na manhã. A lama está fresca, é recente. Começando em Midvagur, contornamos as ondas das margens com nuvens baixas e um verde luzidio. O silêncio é intenso e nem mesmo as várias ovelhas com que nos cruzamos o quebram. Pastam sem manifestar-se, olhando-nos com uma indiferença quase tão impassível quanto a do lago. 



No final do trilho, a terra desce subitamente para o mar. À minha frente, ergue-se uma falésia descomunal, tão nórdica que dói, chamada "Pedra do Escravo". É um ângulo agudo de pedra negra com cabeleira verde que impõe respeito. Ali, ao lado, sou quase nada, uma insignificância. Já estive junto a montanhas bem maiores, mas a sua rudeza e brutidade, a falta de educação de quem se sabe forte e de presença simplesmente incontornável, fixa-me os pés no solo. Escuta-se um barulho seco de mar contra a rocha. Não é imponente, não são trovões: é o quotidiano banal da água que se castiga a si mesma. È negra, reflecte o céu e talvez seja uma profundeza virada ao contrário. O terreno inclina e convida a subir, mas tenho o foco no topo daquele arrogante mastodonte geológico à minha frente. A caminhada não é longa, mas exige esforço súbito pela inclinação do terreno. No topo, posso então ver a cascata que tomba sobre o mar, a Bosdalafossur, e tenho uma surpresa. A altura, afinal, é curta. O lago chega ali e simplesmente descai numa cascata curta. A terra e o mar estão muito mais próximos do que pensava, quase nem há balanço para que a água se lance. É um dos mergulhos mais curtos que já vi, e olhem que já presenciei muitas bombas em piscinas e rios! Ouço então um zumbido mecânico que me distrai e quando olho para trás de mim, vejo um casal que se entretém com um drone. Duas colegas de viagem conversam na outra ponta da falésia e reparo que o rapaz que controla o drone as ouve atentamente. C'os diabos, ele percebe-as. É português!


Precipitação: afinal é brasileiro. Chama-se Kléber (claro que é brasileiro e se chama Kléber) e mora em Miami. A mulher a seu lado é a esposa e estão a percorrer a Europa. As Faroé são a última paragem. E Portugal? Nunca lá esteve. Pensa um pouco e ainfal, deve ser o único país europeu que nunca visitou. Colonialismo ressentido ou vingança por nos termos apropriado de Ediberto Lima? A discussão permanece. O almoço morde-me e sentando-me no chão de erva, tomo como companhia a minha fiel lata de atum, que vou tragando enquanto olho as vagas lá em baixo, negras de espuma pálida. O vento sopra, mas meigo e sinto-me confortável, integrado, sinto o mundo também, mas apenas num murmúrio baixo  Venho de um país de longa linha de costa, com anzóis espalhados, anzóis que são também cabos e falésias, mas aqui sente-se tudo de maneira diferente: Os Portugueses são um povo de marinheiros, mas os Faroeses são gente que funde terra e mar. Uma espetada mista, vá, mas mais loura e menos queimada. A falésia onde me sento é um daqueles pontos raros onde um meio encontra o outro sem nunca se tornarem completos. Daqui a uns minutos, quando o grupo se tiver ido embora, descerei até ao limite. Estou em pé na linha do horizonte e o que aqui encontro é mais horzonte ainda. As pedras fazem-me balançar os pés no deslize e tomo todas as precauções para não depositar o meu corpo no breu marinho. Não sei que nome tem este lago, o que calha bem porque não consigo perceber onde começar e onde acaba, o que faz parte dele e o que é do mundo, e ali num local indefinido, eu próprio há tanto tempo procurando saber quem sou afinal, ajo como se fosse vapor: invisível, malhadiço. Um suspiro numa cascata que mal existe, o ponto final numa frase que duas aldeias escrevem de maneira diferente

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Ilhas Far Away 13: Tjornuvik


Tornou-se inevitável, depois de comentar com amigos que pensava em viajar até às Faroé, perguntas sobre a matança de baleias. O arquipélago tem uma tradição de secular de limpar ocasionalmente o sebo a uns cetáceos - e é literal - e já desde o famoso hino ambientalista de Roberto Carlos que se tornou pouco popular desejar a morte a baleias. Em pequeno criava-se em mim uma incandescente raiva quando via na televisão imagens de caça a baleias. No meu pequeno entendimento de garoto, não me consegui caber que aqueles homens brutos pudesse desejar o aniquilamento daquelas nobres bestas, pacíficas e largas, comandantes dos oceanos; e de facto, a caça a partir de gigantescos barcos com arpões, redes eléctricas e todo o tipo de dinamite e munições é só bárbaro, cruel e cobarde. Os japoneses, por exemplo, que deram ao mundo a honra dos samurais, bem podiam aplicar a espada e não qualquer um dos métodos "científicos" que usam. No entanto, eu, comedor de carne assumido, não posso colocar-me num pedestal e criticar os faroeses. Visitei Tjornuvik, pequena aldeia piscatória que se tornou famosa em todo o mundo por ser umas das baías deste arquipélago onde anualmente se reúnem grupos de baleias com o único propósito de lhe cessar a existência; é difícil, estando aqui, não imaginar a água do mar carmesim, e escutar, ainda que entrecortado com o marulhar das ondas nas pequenas pedras que as recebem, os guinchos dos animais aflitos, o resfolegar dos homens, a azáfama das facadas. Para mais, a carne de baleia tem vindo a ser considerada pouco indicada para o consumo humano, ainda mais da espécie caçada pelos faroeses, a baleia-piloto.


Há ainda assim o cuidado de tudo regular e controlar: os locais escolhidos para estes eventos são restritos e apenas caçadores certificados podem alinhar. Não se torna tudo num massacre indiscriminado e mesmo dentro da barbárie, há algum cuidado em pelo menos introduzir uma ordem. Claro que cada um julgará para si se é o suficiente, e apesar de tudo não me sinto nada confortável em imaginar-me aqui, num local onde acontece tanta morte, e a minha criança presente, que só cresceu em altura mais vive aqui em mim, calca Tjornuvik e não esquece. Mas esta aldeia tem os seus encantos, claro. Situa-se no extremo norte da ilha de Streymoy, aquela onde temos a nossa base de operações. Nesta que é uma das mais antigas povoações do arquipélago, moram 65 pessoas, o que para os padrões faroeses é uma multidão. Todos os dias acordam com uma vista incrível de mar calmo, falésias rodeando as casas e ao fundo, uma ponta da ilha que parece uma rampa de lançamento de parapente. No entanto, sofre dos problemas de isolamento da maior parte dos povoados aqui: Tjornuvik é o fim da estrada, e é bem longa esta. Na pesquisa que fiz antes de vir, cruzei-me com o relato de um casal que fez um trilho de Saksun até aqui, 11 kms debaixo de chuva cacimba, e com toda a esperança de aqui chegados encontrarem algo de semelhante a um táxi. Esperaram uma hora e nada. O desespero apoderou-se de ambos e começaram a tocar a todas as campainhas, para implorar que alguém lhes facultasse um telefone. Felizmente, uma simpática senhora ofereceu-se para levá-los, sem cobrar nada, de volta a Skasun. Um anjo. 


Vale a pena vir aqui por duas razões. A primeira é o Stakkur, um brutal e longo promontório daqueles onde imaginamos o farol mais isolado do mundo. Está próximo da costa, lá ao longe, e quando iluminado pelo sol da manhã, envolvido pela neblina marinha das primeiras horas, jura-se mesmo que é um monstro acabadinho de acordar, despertando das águas. Eleva-se aos 166 metros de altura e todos os anos a malta daqui organiza expedições para subi-lo, só naquela. Só porque nada mais têm a fazer. Mais próximo da baía, encontramos "Rising og Kellingin", o que significa "O Gigante e a Bruxa". Refere-se a dois rochedos verticais de estranho formato, que devem o nome a uma lenda local. Falo dos epónimos personagens que vindos de uma grande ilha, tomaram para si a missão de raptar todas as ilhas do arquipélago das Faroé para levá-lo de regresso à sua casa. Com características de trolls, tiveram a sua missão encurtada pelo nascimento do sol enquanto carregavam os ilhéus para os seus sacos: transformaram-se em rocha e ali ficaram até hoje, para que eu, como turista, possa contemplá-los e perceber que se parecem zero com gigantes ou bruxas. Ao menos, o nosso Cabeço da Velha merece bem o nome que tem. Se as alcunhas destes fossem "O Alfa Pendular Lisboa-Porto e Careto de Podence", o efeito era o mesmo, mas a lenda podia ser muito mais brutal e David Lynch adaptá-la-ia ao cinema.

As nuvens estão tão baixas que quase tenho vontade de ser Son Gokou, colocar-me numa e fugir. Antes de nos virmos embora, um pequeno cão mete-se connosco. Parece maior do que é, pois tem camadas e camadas de pêlo. Está sozinho na aldeia, aliás como de costume, tudo está como se habitado por fantasmas. O bicho é extremamente simpático e traz na boca um pau que deixa aos nossos pés. Lançamo-lo, ele busca, devolve-nos. Tudo o que a minha cadela não faz. Um amor, este canídeo, sempre pulando e rebolando, irrequieto mas com graciosidade, desesperado por companhia e brincadeira, tem ar de quem não vê gente há muito tempo, mas está tão treinado que se torna impossível duvidar que algures existe um dono que dele cuida e trata. Não lhe vi nos dentes barbatanas. Talvez não o treinem para tudo, então. 

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

As Ilhas Far Away 12: Rose, a etíope


Quem me conhece sabe que gosto mais de paisagens do que de gente. Melhor: que aturo melhor cenários de estrondo do que pessoas que só apetece estourar. Por princípio, não tenho nada contra seres humanos; apenas tenho apetites, de quando em vez, de atirar alguns contra algumas superfícies duras. Nada pessoal. Cada um tem a sua forma de lidar com a vida. A minha, infelizmente, é excluída por qualquer código penal. É por isso que viver não é nada fácil. Ainda assim, tenho amigos. Acho, pelo menos. Eles dizem que sim, que são. Vou acreditando, ainda que acreditar, crer ou ter fé não sejam das minhas qualidades mais salientes (excepto para causas perdidas... aí sim, vou ao fundo com uma âncroa atada ao pescoço). Mas quando viajo, e isto nem me incomoda muito, a minha câmara raramente foca pessoas. Quanto muito, são o pormenor num enquadramento que lhes é bem maior, e até do que eu. Como não? Já têm visto algumas da estampas que aqui coloco. Sei que soa estranho, afinal a moldura humana é uma paisagem por si e também eu fico encimesmado quando me cruzo com aquilo que só uma pessoa pode dar. Já aqui mencionei a Sary Tash, a aldeia só de crianças, ou os nómadas de Song Kol ou a empregada de mesa que praticamente chorou por causa de uma gorjeta... Não é que não note ou que não me interessa: apenas o fascínio é diminuto. Mas este capítulo é dedicado aos faroeses, particularmente a uma mulher que nem é bem faroesa, mas que se tornou parte. É a ela que dedico, que me deixou a pensar bastante sobre a vida, e se bem que pensar é o meu pãozinho com sal, poucas vezes alguém específico me puxa isso.

A Rose nasceu na Etiópia há alguns anos, não disse quantos nem precisa. Trabalha num restaurante, mas tem um part-time de catering e está responsável pela casa onde ficámos nas Faroé. Não se dá muito por ela, mas sobressai ali naquele arquipélago distante porque encontramos pele bronzeada quando passamos o dia a ver a palidez cutânea. Antes de falarmos já a tinha visto duas ou três vezes, e o mais estranho é que sorri sempre. Mas não aquele arreganhar de lábios de absoluta falsidade que quer mostrar ao mundo o quanto a realidade nos força a sermos outro. É genuíno mesmo, descontrai-nos até e é doença que nos põe a sorrir também. Há pessoas que conhecem qualquer sobre a existência que nós nem sonhamos ou se sonhámos, não acordámos para ela. A Rose pareceu-me ser uma dessas pessoas. Calhou que, por sugestão desta empreendedora, tenhamos aceite a sua publicidade de lhe encomendar um jantar. Ela faz pizzas, e vocês sabem o quanto gosto de pizzas. No entanto, massa era também uma alternativa, e aí já não engelho. Em casa, todos têm fome, mas falar inglês é que já envolve diversos graus de apetite. Dois intérpretes foram escolhidos para avançar com o destemido líder até casa da Rose, a umas quatro da nossa. Escuro e vento não nos demovem, avançamos. O mar torna-se ainda mais escuro à noite, reparo, ou então sempre foi, se calhar: nós é que lhe encontramos a luz. A mão do Paulo comunica à porta que há visitas. Esperamos um minuto e pouco, escutando barulho vindo do interior. São arrumações, misturadas com o som de uma televisão. A porta afasta-se de nós devagarinho e é a Rose. Sorri, claro. "Come in", e o hall de entrada é a sala. O marido, mais faroês é impossível, senta-se na poltrona a ver o jornal. Não sei se dinamarquês, nós cá também temos a RTP Madeira. Não me consigo recordar do nome, mas a cara ficou-me estampada na memória.

Ela gaba-o: a família do marido é dona da casa há muitas gerações e os seus avós construíram a maior parte das casas da aldeia e também um porto de abrigo que fica mesmo em frente. São, verdadeiramente, os maiores da sua aldeia. Somos levados à cozinha, o seu domínio imperial. Nós queremos discutir ementas e encomendas e a Rose retira ao frigorífico os seus tesouros, ingredientes vegetais que não mais acabam, tem tanto orgulho neles como eu tenho do meu cérebro. Estas são as cenouras, estas as rúculas, aqui estão as alfaces e o mar, lá fora, bate e ondula e também o ouço, mas confundo-o sempre com a voz da Rose. Porque sou idiota, e também porque não tenho vergonha de fazer coisas ridículas apesar de me envergonhar com os passos importantes que devia dar e não dou, quero saber porque é ela gosta tanto de comida; e descobrimos ambos uma mulher que nasceu em África e porque escolheu esta ou aquela pessoa, já andou pelo Iemen e pelos Estados Unidos, com um desvio pelo Canadá. Já teve outra família, agora tem este marido, deixou os seus para trás e só os vê quando as ocasiões se aprontam. È o que a vida lhe deu e não pode fazer muito mais. Não conta tudo, mas pela spalavras que usa, pela maneira como conta, há recantos negros. Que, diga-se, não fazem grande mossa, fala de tudo como se fosse normal. Casou com o marido para poder ser faroesa; e às vezes sente falta do calor, o cinzento daquelas ilhas custou-lhe ao início, mas habituou-se, as pessoas são simpáticas com ela e que pode ela fazer? A vida é isto, e então diz-me algo em que nunca acreditei, nem acredito, mas dos seus lábios soou a versículo incontestável: "O que posso fazer é o Bem. É a única coisa que posso controlar; e se fizer o Bem, tenho a certeza que um Bem igual virá ao meu encontro. É o que a vida me ensina. Andei por muitos locais e sempre tentei ser o melhor que posso e a vida deu-me isto, esta casa quente, alguem que gosta de mim e conheço pessoas, como vocês, de vez em quando. Já viram quão bonito é o mar aqui?"

O pessimista dentro de mim quis rebolar-se a rir, mas foi tão autênctico e honesto,e  de certa maneira transparente, que não conseguiu. Acho que fiquei uns segundos fora dali, rebuscando-me. Penso que o Paulo e o Joaquim foram pedindo as coisas e de quando em vez pediam-me uma ajuda com a língua inglesa e eu dava, mas na verdade pensava no que esta mulher tinha dito. Não somos iguais em quase nada e no entanto, na nossa humanidade, também enfrentámos problemas. Mas ela saiu deles como o ferro forjado, nova e mais resistente, e eu mergulho no tumulto apenas para me desenconchavar à vez até que um dia nada mais sobra para amolgar. Queria pedir-lhe os segredo, mas tive vergonha. Lá está, dessa vez tive vergonha, e acabámos por nos vir embora sem que eu soubesse o raio é isso do Bem a atrair o Bem, porque quando o faço, acabo sempre como otário. Quando nos despedimos, acenou jovialmente e fechou-nos a sua casa com calma, devagar, como se não sendo convidados, também não fôssemos estranhos. Enquanto caminhávamos, aquele breu da noite era eu, olho para mim e vejo tanta escuridão e quando passei a vida a procurar respostas na solidão do espaço aberto, no segredo que a montanha sussurra quando a calcamos, esbarrei num ser humano com a atitude mais descompromeitda que encontrei nos últimos anos. Já ouvi muita idiotice do género, acreditem, mas apenas na boca da Rose me soou real. Tão real quanto eu a escrever aqui agora ou vocês a ler ou o amanhã que vai nascer e a Rose acredita ser uma oportunidade e eu creio crescer apenas para mirrar, levando-me com ele. Nesse dia, juro-vos, quis realmente descobrir que botões em mim se carregaram para que me tornasse assim.

Ainda não descobri. Mas foi uma pessoa que me impeliu; e isto é raro. Talvez esteja a gostar mais de gente, talvez me esteja a tornar mais humano. Ou então, a massa que a Rose fez era bem saborosa. Pode ser disso: é pela boca que melhor se conquista alguém, e não tem de ser necessariamente com verdades assertivas.

terça-feira, janeiro 30, 2018

As ilhas Far Away: Saksun seguro


Uma lareira e um livro. Isso do exotismo é muito bonito, mas há alturas em que vou de viagem e procuro lugares que combinem bem com este pequeno prazer. Uma lareira e um livro. Trago um na mochila enquanto ando de um lado para o outro nas Faroé e embora a oportunidade de me dedicar com a devida atenção aos seus prazeres ("Crónicas americanas", de Sam Shepard; acabarei por lê-lo no avião em trânsito para Copenhaga) não surja, a grande qualidade de todo este arquipélago é a perfeição de qualquer lugar para nos refastelarmos ao calor na companhia das palavras. O Quirguistão era a evidência de que certos países são bons para a aventura e o reboliço, pegarmos em nós para vários lados, vários locais, a procura do próximo ponto que nos deixe de boca aberta, a próxima montanha ou lago, o que vem a seguir e não pode mesmo ficar para depois, tem de ser agora. Certas viagens precisam da vertigem porque algumas maravilhas são demasiado altas para que lidemos com elas na devida segurança. As Faroé, no entanto, são um vôo rasteiro que aprecia a a calma e o verde constante, as nuvens baixas em ameaça de chuva que, ao concretizar-se, convidam ao interior, a serenidade da paisagem de mar e terra, convidam ao sofá e à contemplação: parar e suspirar entre frases, e mesmo sem elas, estar só por isso mesmo, por esse motivo. Ao contrário do Quirguistão, aqui passaria semanas em calmaria, um porto seguro, eu e a minha companhia e de livros e filmes, a permanência em casa como as férias que só saboreia quem se sente estrangeiro mesmo entre quatro paredes.


Se escolhesse um local para isso, podia ser este, Saksun. É uma daquelas aldeias sem saída: a estrada aqui acaba e quem quiser seguir só a pé. Ainda antes de chegarmos, tiro uma foto fetiche, estendido no alcatrão e apanhando os meus pés com a recta travessia rodoviária como um tapete. Chove, mas importo-me pouco, sou o único demente que o faz. Se seguirmos o caminho, ainda antes de estacionarmos, saúdam-nos ovelhas que, e juro que não brinco, vestem casacos. Os Faroeses tosquiam os bichos e depois, como quem rouba e tem pena, substituem-lhes a protecção natural contra o frio. Se isto parece surreal, combina bem com o cenário que nos espera. Uma baía seca está lá, no fundo de uns penhascos, apenas com uma amostra de mar. Saksun é um conjunto de casas que a rodeia, um braço de mar dependente dos caprichos das marés, que nega beijos aos pescadores exauridos enquanto não se decide a encher e a dar-lhes passagem segura até aos seus. Nem sempre foi assim: esta abertura é um excelente porto natural e até uma tempestade, em raiva irracional, bloquear a passagem com areia, tudo funcionava bem. Mas a Natureza é essa amante caprichosa. Talvez por redenção, decidiu rodear a baía de cascatas, que em dias de chuva como o de hoje transformam tudo isto num cenário de fábula. Surgem em todos os veios dos montes, caminhos na rocha que a água abriu na paciência dos tempos e caem assim sobre a baía quase seca, como pingos que molham mas não amontoam. A vontade é a de descer por um trilho improvisado e caminhar nas margens de areia, numa praia que só existe durante algumas horas por dia e sentir-me assim parte do fundo do mar, como um tritão. Não há tempo.


Enquadrado no cenário, um cemitério instala-se ao lado de um igreja. Depois da experiência em Vidareidi, os meus sentidos ainda estão despertos para a morte, mas não me sinto com estrutura suficiente para deduzir mais tragédias alheias. Dentro da igreja, funciona um museu, que está fechado e não percebemos muito bem qual é o tema. O edifício, no entanto, tem uma história curiosa. Originou noutra vila, Tjornuvik, mas em 1858, talvez porque Tjornuvik é uma daquelas vilas tão perto do mar que este a considera um quintal privado, foi considerado mais seguro desfazê-la e instalar o edifício noutro ponto, neste caso uma encosta remota e desabitada a mais de dez quilómetros em linha recta. Sem estradas, o material apenas aqui chegou pelo esforço de transporte no topo dos montes e em oblíquas encostas que devem ter desafiado a gravidade das pernas de quem se entregou a esse esforço. Não se percebe bem a razão, os Faroeses devem gostar do isolamento: habitam 14 pessoas em permanência. Mas imagino-me aqui no Inverno, o verde dando lugar ao branco da neve, esta vista incrível para um mar seco, uma baía com humores e os meus olhos cobiçam qualquer uma destas casas de telhado de erva, a madeira que as compõe, o isolamento para a minha lareira, uma estante de leitura à minha espera para deslizar no ócio dos olhos enquanto lá fora os flocos embaciam os vidros da janela e eu sei que o mar me espera e vagueia, que as mulheres aguardam os pescadores, que não estou neste século e no passado tudo era mais difícil, eu sei, mas eu que, tantas vezes temo a solidão, ganho apetite de aqui ficar e assim estar comigo. Os lugares que nunca foram nossos têm este estranho poder de nos tornarem em pessoas que nunca fomos.

Antes de sair de uma Saksun que está fora da realidade, cruzo-me com um oriental que debaixo de um chapéu de abas deixou crescer uma horta grisalha. Quase que vejo vegetais, mas quando os nossos olhos se confrontam, sorrimos por instinto e reparo então que ele é igualzinho ao físico teórico Michiu Kaku. Tira fotos a tudo, claro, e eu não consigo fotografar nada sem me tocar e sem verificar que isto é a minha realidade, que continuo no meu corpo e no meu espaço e que as cordas da minha teoria não me sentaram numa poltrona devorando páginas. A minha realidade é o regresso à nossa casa nas Faroé e já no carro, divago para outros calores e outras lareiras, dentro de mim, dentro de quem fui mais do que uma baía seca. Tambéms se arde bem assim.

terça-feira, janeiro 23, 2018

As ilhas Far Away 10: A morte em Vidareidi


Talvez porque o passado e o encadeamento de acontecimentos sempre me fascinaram, os cemitérios exercem sobre a minha infantil curiosidade e os meus olhos um fascínio e meios que estranho. Nas primeiras visitas ao meu pai depois de morto, dedicava sempre alguns minutos e cirandar pelas campas, imginando que entre as basilares datas de nascimento e morte, principalmente de indicassem um desaparecimento precoce, se esonceria uma história estranha, trágica, famílias deixadas para trás. O meu prazer em ter por fim encontrado a mais antiga morada defunta do cemitério de Ceira foi talvez exagerado para qualquer pessoa comum, mas não para mim, detectivesco na estupidez. No entanto, a necrópole de Ceira tem qualquer coisa de pouco poético e seco, sebes que rodeiam passagens de calçada e embora o enquadramento da paisagem seja até acolhedor, o meu mórbido coração sempre buscou qualquer estímulo mais para dar o passo seguinte na obsessão. Encontrei-o em Vidareidi, uma pequenina aldeia na ponta mais a norte do arquipélago faroês. Um conjunto de casas assoma num istmo rodeado de pequenas montanhas, o mar distende-se até um horizonte longínquo e ali está ela. Hoje temos sorte, as nuvens devem ter pedido uma folga, quiçá sem mais água para nos atirar, e o sol brilha entrecortado. Não está calor, ainda assim. Na paragem para almoçar, alguns incautos saem do carro para comer, mas rapidamente uma ventania capaz de fazer batidos melhor do que uma Bimby alerta que o dia não está para tal.

Vidareidi tem pouco de destaque aparte a sua posição geográfica. Existe, à entrada da povoação, uma divertida e estúpida gincana a fazer por entre canteiros de flores colocados no meio da estrada; mas a vista do promontório é incrível: a água, reflectindo o céu, carrega-se de uma cinza escura de agouro, como se monstros habitassem sem dificuldades os seus domínios numa respiração de noite e quando a luz solar dança no verde dos montes, a erva fustigada pelos sopros do céu, os humores do clima, é como se uma filme de animação acontecesse em tempo real e projecção inegável. Até onde vejo, possuo, e o que não é meu passou a ser neste momento em que, sentado na estrada de alcatrão, fotografo em redor. Nas minhas costas, uma pequena igreja, simples como todas as daqui, contempla a mesma vista que eu e não treme nem abana, pelo menos daquilo que vejo. As minhas pernas levantam-me, mais uns metros e entrei num pequeno cemitério. Está coladinho ao mar, uns vinte passos separam-me do muro que o limita e cai sobre o mar. O número de habitantes é baixo. No século XVII, uma tempestade engoliu o cemitério e levou a maior parte dos caixões consigo. Alguns foram recuperados nas praias das ilhas mais a sul e viajaram de regresso; no entanto, aqui o mais antigo morador data de 1789. Fazendo aqui o mesmo exercício que pratico na minha própria terra, encontro indícios de vidas desfeitas pela morte: os Jansen perdem três filhos em cinco anos, o mais velho com três de idade e uma pessoa só pode imaginar como naqueles tempos de escuridão e isolamento dignos da filmografia Bergmaniana os pais de podem ter sentido. As campas são simples, muito, o que existe de mais elaborado crava enferrujadas cruzes de ferro para se dar como presente. Não conheço estas pessoas, e muitos menos as suas dores, mas não tenho como não sentir qualquer coisa por quem morreu há mais de duzentos anos. Não sei se é pena, talvez nem seja empatia, mas em momentos breves sinto a morte de filhos meus que ainda não nasceram. Tem algo de desolador e de catártico e até de sentimental, mas pafraseando Saramago, de quem nem gosto por aí além, é intermitente quanto a morte.


O solo irregular é um mar que reflecte o verdadeiro e não consigo passar mais tempo aqui, por muito que o verde brilhe ainda mais com a luz solar e que não haja nada de particularmente tenebroso no ar livre, no sal que vem do oceano e como que tempera a morte com algo a que muitos destes habitantes, pescadores certamentes, gente de barcos, se habitou em vida. Assinaram um pacto com o mar e este trata dos seus com proporção. Retiro-me pois sinto-me a invadir um qualquer tipo de par na qual não devia mesmo tocar. Estou a mais e mesmo tocado pela morte de algum tempo para cá, não sou deles, nems equer digno de tentar entender como se pode implodir por dentro numa simples vaga furiosa de emoções que rasgam a carne com verdadeiros dentes. Prefiro percorrer um pouco mais da estrada e ficar próximo do mar. As fotos tentam lidar com algo para o qual eu não estou ainda equipado como pessoa e ao longe, num pequena elevação, um só círculo de sol é um Olho de Sauron que me vigia. As imagens traduzem-me e tiro aqui uma das daquelas fotografias que estará sempre entre uma das melhores que já tive capacidade de produzir.

Sinto alguma satisfação, no meio de tudo o mais e quando chega a altura de vir embora, já os meus colegas de viagem trataram das suas curiosidade, volto novamente o olhar para as ondas que nos têm acompanhado todos os dias, mas ali, batido por qualquer coisa de também violento, sinto que não estou de fora a espereitar, mas sou parte de tudo aquilo, mais um dos caixões que não foram recuperados e recordo o meu pai, recordo um pouco de morte, mas venho à tona puxado pela memória de pessoas que me tornam muito mais do que julgei sentir ou ser. Acho que é por isso que gosto de visitar cemitérios: por muito mais morte que contenham ou que a dor seja antecâmara de desolação, o momento em que atravessamos o portão para sair e a vitória da nossa existência enquanto a hora final também não toca para cada um de nós. È sinal de sair e viver, de abraçar e beijar, de afirmar que se as emoções nos fazem, a pele nos requinta e tudo o mais entre o útero e a cova é o que devemos a nós mesmos. Ou qualquer coisa do género. O que me lembro mesmo é de me ter metido num carro para visitar Saksun.

segunda-feira, janeiro 08, 2018

As ilhas Far Away 9: Kunoy


Há duas grandes certezas naturais no território Faroé: o mar nunca está muito longe de nós e no dia em que a dança das sementes polinizou todos os belos território deste mundo, as árvores chegaram a estas ilhas, suspiraram um "não" colectivo e ramificaram noutras freguesias. Não existe, em nenhuma ilha, qualquer floresta nativa. Quando os Vikings aqui se instalaram, dando-lhes o desejo de madeira, o melhor que tinham a fazer era trazê-la consigo da Escandinávia continental. Por isso, a única floresta da ilha foi plantada por um senhor que, fartinho do verde rasteiro, decidiu criar levar demasiado a sério aquela ideia de que plantar uma árvore faz de nós seres humanos mais completos. É um dos pontos de interesse da pequena vila de Kunoy, situada na ilha com o mesmo nome. Pequenina, com a já familiar arquitectura quintal de relvado, torna-se acolhedora com um passeio na rua. Kunoy é pequena, quase ridiculamente pequena mesmo para os padrões faroeses. É o principal centro habitacional da ilha, mas tem apenas 64 habitantes, naquilo que alguns designariam "paraíso na Terra", principalmente se forem seguidores de Sartre. Kunoy traduz-se por "ilha da mulher", nem sei bem porquê. Quero acreditar que tem a ver com uma história que li algures, de que em 1913 uma aldeia vizinha perdeu praticamente toda a sua população masculina quando sete homens morreram num acidente de pesca. Sobraram um velhote de 70 anos e uma criança de 14. O resto eram mulheres. Uma aldeia só de mulheres. O sonho de alguns movimentos feministas, certo? Pois as mulheres devem-se ter fartado umas das outras: passado seis anos, pegaram nas suas trouxas e mudaram de morada, para outro local ali perto. Os Faroeses devem habituar-se à solidão de séculos, mas há solidões e solidões, e quando o mar ruge e feroz bate nas rochas, nas ervas, na têmpora, há frios mais crus do que o gelo e a neve polares.


Um passatempo popular em Kunoy é o alpinismo: esta é a ilha de maior altitude do arquipélago, e estas impressionantes montanhas só espantam que acho que 800 e tal metros são coisa de estalo. No ano passado, descansei a coluna na base de um monstro de sete milenas. O que me impressiona não é altitude, mas a violência do recorte rochoso, a sedosa caminhada das nuvens que lambem os socalcos quase punhais destes montes; e a permanência sempre monótona até que nos encanta de um verde húmido, fresco. Hoje está vento, mas olho os montes a partir do centro da aldeia. Não são altos, mas encantam e sei que, inevitavelmente, me aproximarei. Mas por agora, sou coscuvilheiro, cada casa tem janelas do tamanho dos olhos de personagens de anime. É impossível desviar o olhar e vão ficando pormenores - bules azuis, flores crescendo dentro de sapatos, espanta-espíritos brancos, a possibilidade de ver o mar através do interior de uma casa, como se a realidade se multiplicasse e eu vivesse no interior e no exterior em simultâneo. Há habitações sólida,s outras parecem desfazer-se a qualquer altura quando o vento despeja mais forte. Existe uma só estrada a atravessar a aldeia e caminho-a, estando de for,a imaginando o interior de todas as casas. Existe um pequeno carreiro que vai dar ao mar. Avanço e passo por um casebre de madeira húmida. escura, onde estão pendurados pedaços de baleia a salgar. Lá dentro, instrumentos de pesca baralham-se e misturam-se. Mas sigo para o mar. A areia é cinzenta e negra muito fina. A água salgada envolve-me as mãos e não está frio, não me congela o sangue. É tépida e penso como o Pólo Norte está tão perto e já mergulhei em águas mais frias a norte do Douro. Deixei para trás a marca dos meus passos, mas já lá não estou. É como se um fantasma me acompanhasse e não penso que sejam de um morto. Na minha cabeça, alguém que vive noutro ponto está comigo e nem veio de viagem, mas é como se aqueles passos lhe pertencessem, que também tem os pés grandes. O mar marulha quando olho para trás e imagino quem não está mas permanece. Do outro lado, a ilha de Boroy testemunha e deve perguntar-se, porventura, se a minha sanidade mental alguma vez teve lugar no meu corpo.

Os montes que tanto me interessaram estão defronte de mim. Aquela neblina que cobre o granito quase lhes dá mais uns cem metros. Cinquenta, vá lá. Criam um anfiteatro natural onde as ovelhas actuam numa peça que repete sempre a qualquer hora nas Faroé. Chama-se "Lã e Ordem". Nem se prestam ao rebanho, anda um por ali e outra por acoli, coisas que eu vi. O grupo fica para trás, discute-se a qualidade da comida faroesa e também se o Porto será campeão nesta época. Salto um pequeno riacho, calmíssimo a murmurar ditongos, e vou fotografando até reparar num cavalo que enquanto pasta se espicha de quando em vez pela proximidade de uma malhadiça bovina. A minha memória reconhece no animal cornudo intenções que já encontrei em gado madeirense, nas vezes em que me perdi nas veredas daquele arquipélago. Não são particularmente subtis: se virem um bicho deste porte a olhar constantemente em redor, inquieto e se este acelerar o passo em investida, a melhor solução mesmo é desviarem-se da rota, procurarem um ponto alto e não perderem a alimária de vista. È simples descrito, mas quando a relva humedecida faz do chão um papel de alumínio besuntado margarida e temos uma centenas de euro agarrados ao pescoço por uma fita, já um equilíbrio a ser jogado; e a vaca lá corre, mas na direcção oposta à minha. Um magote de portugueses apercebe-se da situação um pouco tarde e do meu ponto privilegiad, tenho a oportunidade de assistir às festas de S. Fermin sem meter um pé em Pamplona. Há um pouco de rumba na maneira como o grupo se desmobiliza e cada um por si tenta escapar. Apenas o Joaquim a táctica de esperar para ver, confiante de que qual Alan Grant, a imobilidade o livre de um predador. Mas a vaca não é um T.Rex: a proximidade que estabelece com o Joaquim é de romance e vai cabeceando lentamente o assédio, enquanto o rapaz reza secretamente a uma divindade qualquer que o livre da ameaça. Nos segundos até desmobilizar, quase juro que a vaquinha troca um linguado com o moço, tal é a proximidade das cabeças, mas felizmente desmobiliza e vai à sua vida.


A prometida floresta é pequena, mas ilusória, a construção de um só homem. Não sei se a sonhou, ou se olhando para a bela paisagem tenha pensado "Posso ser um deus"e assim deu num, ofereceu aos faroeses algo que não encontram fora das cidade,s por muito estúpida e paradoxa que a afirmação pareça. Não existe a ilusão do mundo natural selvagem: há cercas de arame por todo o lado conduzindo o visitante, encaminhando-o para os locais que o dono deseja, mas apenas uma cancela limita a entrada no local e está sempre fechada, um respeito que os anteriores visitantes têm para com o espaço. Penso em como este povo de marinheiros nunca terá sentido a profunda solenidade de um grande espaço arbóreo, a sensação de estar sentado entre troncos centenários e frondoso verde a perder de vista, vermelho outonal quando a época chega, folhas amarelas no chão. Não me faz esquecer que é no mar, no cheiro salino que se escondem os tesouros maiores destas ilhas. Admiro esta pequena obra humana, o labor e a paciência, o planeamento, a convivência e aliança com o tempo contado em anos, mas nunca sai de mim a sensação de que só a Natureza esmaga, só ela consegue reduzir-nos, ainda que com montanhas pequenas, à nossa medida plena: uma insignificância que encerra em si um ego disposto a provar o contrário; e penso que sempre quem quem se atreve a ser arrogante perante uma árvore, merece cair na floresta e que sejamos surdos ao seu baque.


quinta-feira, dezembro 28, 2017

Aquilo em que uma pessoa se mete em 2017


Que estranho ano foi este; e familiar também, ritmos e melodias conhecidas, sins e nãos óbvios, o reconhecimento dos padrões que têm marcado toda a minha vida. Nem sei bem como descrever um 2017 que tantas vezes foi inerte, nem bom nem mau, apenas estava ali, dias para passar até fechar uma cancela e abrir outra. Várias vezes abri os olhos de manhã para mecanicamente me levantar, cumprir uma função e regressar a casa sem grande chama, sem grande apetite. Estar, apenas, e nem sempre confortável ou de poltrona. Se os últimos anos foram uma montanha-russa incrível de píncaros ao nível de Cassiopeia e abismos um bocadinho abaixo do Hades, vivi este ciclo solar na indiferença. Assumi, primeiro sem consciência e depois numa escolha assumida, a morte da Esperança. Ou melhor dizendo, a morte da Expectativa, da possibilidade que qualquer um dos meus desejos fortes se venha a concretizar. A vida é uma lotaria aleatória e planos ou vontades são inúteis. Acho que é isto, a incapacidade de ter o que e quem quero por mais que me desdobre ou que planeie ou que tente. A vida, no fundo: reconhecer em primeiro que nada há e depois gerir o que se tem e vai aparecendo. 2017 foi um passo importante para calar o expectante que existe em mim, que me move os saltos de grande calibre, os gestos tremendos, os sonhos. A ideia é que no final do ano se cale de vez e me deixe viver em paz e sossego.

Um ano de quase pleno trabalho: algo que não acontecia há algum tempo. Deambulações por escolas do Alentejo, do Litoral ao Interior, aulas dadas a garotos maiores e menores, vontades de corrê-los todos a napalm ocasionalmente ou de dar palmadinhas nas costas e dizer "È por aí, agora é seguir" e contentamento por ainda conseguir prender uma sala de iludidos às palavras que saem da minha boca. Ter dinheiro para comprar mimos e planear viagens e poder pegar no carro e esquecer o mundo mau para abraçar o mundo bom. Sentir uma solidão tremenda e aprender que a vida também é isso, nascer só e existir só e um dia morre-se sozinho e lidar com isso é obrigatório. Aprender a diferença entre ser solitário e estar-se sozinho, entender que numa disfrutamos de uma companhia tolerável e na outra intolera-se a falta de companhia. Mergulhos no Verão, caminhadas em estradas de terra, assistir a ocasos solares, vegetar em sofás. A vida pode ser tão banal, tão corriqueira, tão séries e livros e filmes e olhar para o tecto, e isso pode ser bom ou mau, depende da disposição, mas é sempre a morte de algo quando acaba por ser só isso, quando não existe com quem partilhar aquilo que se é. É estranho isto de conviverem em mim quem não está equipado para lidar com pessoas e no entanto precisa de algumas para se sentir realizado nalguns dos seus objectivos.

Voltar ao estrangeiro. Paisagens verdinhas e marítimas, estar invernal durante um pedaço de Verão, conhecer gente e sobreviver incólume, ver auroras boreais pela primeira, e segunda, vezes, cores no céu brilhantes e a sensação de algo único, segundos de plena euforia numa alma morta e mortiça que quer sumir. Uma barragem de fotografias todo o ano, também nessas ilhas do Norte, as Faroe, e na Dinamarca. Tomar uma das mais dolorosas decisões da minha vida e abdicar de quem prefiro, saber que é a atitude correcta, imperativa e ainda assim sentir-me um misto de lama e soda cáustica. Voltar a gostar de alguém em geniais tons de alegria e entender que como sempre, como na história da minha vida, o desfecho só pode ser um e um apenas. Aceitar-me com tremendos defeitos e ver os olhos de outras pessoas que me aceitam com imensas qualidades. Estar neste momento com uma vida de emigrante no meu próprio país.

Não sei o que me guarda 2018. Desconfio e já anotei num papel e se tiver acertado, daqui a um ano cá estou para vos dizer. Como sempre, o ano também vos teve aqui, a sentir comigo, a viajar comigo, a partilhar o vosso tempo com um tolo que escrever baboseiras. Agradeço-vos. Apesar de apagado, não significa que não me iluminem de quando em vez com a vossa simpatia e cuidado. Vemo-nos no outro lado.