quinta-feira, novembro 15, 2018

Perugrinação 9: Não alinhado em Nazca


"Dame mi paz , por favor!!!!" e assim canta uma pungente voz masculina que enquanto se espalha pela carrinha, balançando o ritmo da cumbia, reforça aquele que é para mim o drama maior da existência: querermos sossego e não nos ser permitido gozá-lo. Aqui, no entanto, tal parece possível: saimos de Huacachina bem cedo e uma viagem de 150 quilómetros através do deserto rochoso e baço conduz-nos a Nazca. O sol estampa-se no solo e pelo caminho, atravessamos algumas pequenas aldeias, ajuntamentos de casa e gente entre faixas de alcatrão. A certa altura, numa paragem para esticar as pernas, a carrinha estaciona junto a um casebre de cimento solitário no meio de tudo isto. Ninguém para trás, nada para a frente. À porta, um garoto imberbe entretém-se a estampar carrinhos de brincar uns contra os outros. Faz vozes, inventa personagens, tem o maior recreio do mundo, útil quando se é o último riso infantil do deserto. Um oásis, afinal. Olhamo-nos e aceno-lhe, ele sorri e devolve, mostra-me um dos carros. Talvez seja um convite. Não posso aceitá-lo, temos de partir, há um horário em cumprimento constante; e afinal, dirigimo-nos ao mistério principal que me trouxe ao Peru.


As chamadas linhas de Nazca são um conjunto de complexos desenhos gravados no chão rochoso do deserto que lhes dá nome, delineados e construídos pela civilização homónima. Entre 500 AC e 500 DC, por razões que ainda hoje nos são desconhecidas, uma sociedade inteira girou em torno de dois objectivos: arranjar comida a partir de uma zona semi-desértica e espalhar pelo seu território rabiscos brancos que só podem ser vistos em altitude. Não é difícil entender como é que o fizeram: o complicado é explicá-lo. Isto não foi propriamente o passatemplo displicente de um solitário - tornou-se na meta recorrente de séculos. Se nos dirigirmos para Norte, ao longo do vale de Palpa até Paracas, encontramos mais conjuntos daquele que deve ser o mais épico jogo de Pictionary que a história humana registou. As figuras variam em tamanho e elaboração. Há simples linhas que terão provavelmente alguma intenção de mapeamento ou orientação astronómica, mas o que obviamente impressiona são as intrincadas representações de animais e figuras antropomórficas que se estendem ao longo dos ermos de Nazca, por cinquenta quilómetros quadrados. Encontramos macacos, baleias, colibris, flores, jaguares, peixes e outras representações que são recorrentes até em culturas andinas posteriores. A imagem de animais marinhos mistifica, pois o mar fica longe daqui, mas a partir do momento em que aceitamos que estas linhas são uma realidade, tudo o mais é bizarria acessória.

A primeira menção que lhes é feita por europeus data do século XVI, por um explorador espanhol, mas só começaram a ser referidas com seriedade e método na década de 20 do século passado, quando alguns aviadores amadores e expedições militares entraram em contacto com um oásis arqueológico no deserto. Desde 1940 que os estudiosos ocidentais, em colaboração com académicos peruanos, têm sido mais sérios. Mas apenas nos aproximámos mais de perceber como funcionava a civilização Nazca, não da sua intenção quando deixou no mundo estas enigmáticas marcas. Há uns anos, activistas zelosos do Greenpeace mostraram que estão bem a marimbar para o ambiente histórico quanto estragaram alguns dos desenhos numa manifestação; e este ano, um cmaionista pouco sóbrio guinou para o parque arquelógico onde danificou também algumas linhas. Em ambos os casos o governo peruano interveio a sério. Para eles, isto é de honra. Os vorazes teóricos de de antigos astronautas encontraram aqui uma inesgotável fonte de conspirações e intriga, mas o facto é que mesmo com instrumentos simples, um conjunto reduzido de pessoas conseguia desenhar qualquer um destes esboços na rocha. Os cépticos riem, mas o facto é que ninguém consegue explicar o motivo e esse é o grande busílis e a razão pela qual as linhas de Nazca não só hipnotizam na sua faíscanta intensidade curiosa, atraindo todos os anos milhares de turistas a esta inóspita região peruana, mas também incomodam quem acha que o mundo se explica facilmente e a História nada tem de misterioso e é uma narrativa linear e simples. Crentes iludidos passam atestados de estupidez à raça humana assentindo que algum tipo de engenharia complexa na nossa infância civilizacional só se pode dever a intervenções extraterrestres; empedernidos desmistificadores mataram no interior de si próprios a capacidade para se admirarem e sonharem perante o mistério e o desconhecido. Nazca recorda-me sempre a razão pela qual gosto de História - a eterna, permanente e inesgotável capacidade de escapar a quem quer prendê-la numa jaula de tédio, porque baseando-se em motivações humanas, será por natureza imprevisível e imensa nas suas explicações.


A melhor maneira de observar estes mistérios é a partir do céu, embora haja no parque arquelógico uma torre com treze metros de altura a partir da qual se vêem duas figuras e meia. A pouca distância das figuras, um aeródromo oferece a possibilidade de voos regulares diários sobre o deserto, meia hora de procura a partir do firmamento. O turista compra bilhete, espera sentadinho a sua vez e se assim o desejar, ainda lhe carimbam o passaporte -  é uma viagem à séria. Chegamos e temos logo direito a check-in. Dividimo-nos por duas passagens, por sermos nove bandidos e haver cinco lugares na avioneta que oferece o serviço. Muitos algarismos para a conta simples de assistirmos ao fantástico. Enquanto esperamos, não há muitas possibilidades de diversão. Na sala de espera do aeródromo, três televisões passam em loop um documentário da National Geographic, narrado pelo inconfundível Peter Coyote, onde vários arqueólogos discorrem sobre quem eram os Nazca, o que faziam, de onde vieram e para onde foram. Sento-me durante um pouco a assistir, a verdade é que sei mais sobre as linhas do que sobre aqueles que as fizeram. A própria National Geographic não consegue escapar ao folclore místico dos alienígenas.

No exterior, várias bancas vendem souvenirs e t-shirts remetentes a este local e o tema dos nossos irmãos de outros planetas recorre quase sempre. Embora seja mais céptico hoje do que o era na minha adolescência, é-me impossível estar na América do Sul sem sentir um pequeno tremor do meu interesse pelo fenómeno OVNI. Recordo-me sempre de um documentário chamado "Ovnis nos Andes", que embora se centrasse no Chile, cravou no meu cérebro este éter de arcano desconhecido que de mão dada faz dançar discos voadores e a austral América. A certa altura, um trio de radialistas chilenos, habitantes de uma pequena cidade mineira, descrevia como, durante uma emissão ao ar livre, viram com uma multidão luzes movendo-se sobre a grande cordilheira que forma a espinha dorsal deste continente. Isto enquanto falavam de OVNI na rádio. A história é tão incrível e contada tão expressiva e tão natural em simultâneo, um entusiasmo infantil e irrepreensível, que já a recriei em vários escritos de ficção. Anos mais tarde, tive a oportunidade de encontrar uma gravação online, no Youtube. Quando me recordo da mesma, a fornalha do apaixonado por mistérios, que em mim arde incandescente em várias intensidades, entra no ponto de fusão. Sei que é algo que as pessoas aprenderam a associar-me e o mesmo amigo que me encaminhou o documentário de que falei acima disse-me que nas questões do amor, o melhor era revelar o mais tardiamente possível este interesse que alguns de nós temos por algo que corre debaixo da realidade. Terá a sua razão, pois é preciso é uma loucura maior até do que o próprio amor, esta de procurar o que todos consideram insanidade ou ridículo. Felizmente, estou numa parte do mundo onde o ridículo é tão parte do tecido da realidade quanto o banal.


O primeiro grupo chega da viagem. Se todos gostaram, quase ninguém demonstra. Há um ar tumular na apresentação geral, um certo agouro que dá a entender que não voaram numa avioneta, mas sim em corvos. Comenta-se que a viagem é muito agitada e os aparelhos pouco estáveis. É nesta altura que o fascínio me cai sobre os olhos e me recordo de um pormenor importantíssimo: a relação muito ténue que o meu estômago mantém com movimentos bruscos. Pode-se dizer que é tão antagónica quanto a que Sérgio Conceição estabelece com o yoga ou a que Rui Vitória possui com qualquer tipo de auto-crítica. No entanto, é tarde demais para voltar atrás: 80 dólares estão pagos e para dizer a verdade, a ideia de ver aquela obsessão que alimentei desde criança enraizou-se tanto na minha cabeça que estou por tudo. Devia lembrar-me que os momentos em que estou por tudo são invariavelmente seguidos de desastres dignos do sismo de 1755, mas o meu voo está prestes a partir e manco de uma lente, tento concentrar-me em como usar uma tele-objectiva para melhor trazer a recordação visual das linhas. Somos conduzidos ao check-in. Eu, a Sofia, o Jorge, a Cina e um peruano jovial e sorridente. Apresenta-se, é o Flores, traz consigo equipamento fotográfico suficiente para cobrir as noivas de Santo António. Saímos do aeródromo, o sol brilha tanto quando caminhamos pela pista. Ao lado da nossa avioneta, os pilotos saúdam-nos. Perguntam-nos se queremos tirar fotos ali, eu escolho não fazê-lo. Quanto mais olho para as asas e para a fuselagem, finas e estou certo que feitas de papel cavalinho, mais reconsidero algumas das minhas opções de vida. A viagem de barco no ano anterior entre duas ilhas das Faroe retine dentro de mim como o sino de alerta do Titanic, mas não há volta a dar. Meia hora no ar está garantida. Pelo meu peso, apontam-me para que me sente à frente. Pelo menos, não estou nos lugares mais problemáticos. Ao meu lado, o Flores ainda não desligou a voltagem dental. Parece esperar algum tipo de serviço de bordo mais exótico de que não fomos avisados.

A avioneta levanta voo normalmente. O piloto, Ernesto, e o co-piloto, Gustavo, apresentam-se com um discurso perfeitamente ensaiado e batido. Já devem ter dito isto tantas vezes que a língua apresenta calos de expressão. Enquanto o avião ganha altitude, referem as linhas, o seu mistério, a possibilidade de extraterrestres serem os seus autores. No Peru, história e pseudo-história cruzam-se com a mesma facilidade com que a avioneta abana à mínima rajada de vento. No entanto, sinto-me bem, sólido. Tomo a minha precaução, agarrando com força elefantina o meu cinto de segurança, que se fosse feito de laranjas teria enchido o cockpit de sumo, tal a força com que o aperto. Como um metrónomo regular, o co-piloto, que faz também as vezes de guia, avisa-nos: a primeira figura, "La baleña" surgirá daí a 42 segundos. Que precisão, penso, que mestre do ar. Não contei pelo relógio para saber se era verdade. Observando o deserto pela janela, já registei algumas linhas rectas sem forma, mas de facto, vai surgindo na encosta do pequeno monte um aglomerado de traços que parecem ganhar forma. Ligo a máquina, preparo-me. "La baleña", anuncia o cicerone, e o seu colega de manche na mão dá uma súbita guinada e a avioneta coloca-se em posição perpendicular em relação ao solo. A redonda janela, que antes estava ao meu lado, aparece por baixo e as minhas costelas arrastam todo o meu sistema digestivo para o conforto do meu baço.Há em mim uma tentativa de sarcasmo, mas corro o risco de cuspir bílis literal. De facto, lá no solo nada uma baleia, com um olho enorme, chapinhando no mar de areia; tentativamente, tiro uma foto, mas concluo que tenho uma escolha simples: ou fotografo ou vejo as figuras. Combinar ambas pode ser um desastre de proporções Bolsonarianas. No entanto, não ficamos por aqui - a avionta regressa à sua posição normal e efectua a mesma manobra para o lado oposto. Novamente a direito, novamente com os pulmões no meu calcanhar e a minha vesícula biliar perdida algures no meu pescoço.


É neste  momento que a minha capacidade de possuir uma excelente memória se volta contra mim. Algures na sala de espera, vi um mapa desta zona. O percurso de avioneta inclui perto de vinte figuras. Tal significa que estes dois moços repetirão as guinadas da morte vezes suficientes para que queira imitar os pássaros, com a diferença de ser muito menos aerodinâmico. Não há qualquer tipo de hipótese na minha guerra: está perdida. O plano de emergência é accionado: duas mãos segurando o cinto de segurança, pernas bem juntas uma à outra, olhos fechados e respiração larga e controlada. Num bolso do banco à minha frente, vejo um saco de papel. Pelo menos, estes carniceiros entendem bem os efeitos da sua barbárie. Num acesso insano, dou por mim a rezar a Viracocha e amaldiçoando todos os conquistadores espanhóis por não terem dizimiado a totalidade dos antepassados de quem guia os destinos da avioneta. O que se segue é hediondo e devia surgir lado a lado com o genocídio do Ruanda como um dos maiores crimes perpetrados contra a raça humana. A cada anúncio, a sensação de suores frios que acompanha os condenados à morte antes de a guilhotina descer. "A la derecha, lo Mono; a la ezquierda, lo Mono. Perfecto". O discurso é sempre o mesmo,maquinal, mudam os nomes: la Araña; el Colibri; lo Pájaro Gigante; las Árboles; é toda uma constelação de monstros que se reuniram numa missão para, quais Vingadores do meu estômago, me deixarem prostrado. Não me rendo, ainda assim.  A cada anúncio de nova figura, permito-me abrir os olhos durante uns dez, quinze segundos. Posso garantir que vi todas as figuras, todinhas; e mesmo no meio de tudo isto, consigo ficar fascinado com a sua nitidez, o seu poderoso e hipnótico magnetismo. A ideia de passear num museu sem paredes e que é visto melhor quando estamos fora do nosso elementos, linhas brancas que rasgam o nosso chão apenas para nos fugirem porque melhor se explicam quando não estamos onde podemos ser mais nós. É uma poesia que só me ocorre mais tarde, mas sentia-a naqueles momentos de terror puro. Acreditem que é preciso uma força desmesurada para contrabalançar os meus momentos de agrura. Se estas imagens o conseguem, estou quase tentado a professar que uma inteligência superior as colocou de facto ali.

Quando anuciam que vamos regressar e aterraremos daí a dez minutos, sou capaz de jurar que o nome da última figura era "Lo Thanos", pois sinto toda a minha resistência a ficar em pó. Passei o pior e resta-me apenas uma linha recta em direcção ao aeródromo; no entanto, uma pulsão quase irresistível leva-me a puxar do saco de papel e oferecer-me um golpe de misericórdia. Talvez porque foi educado a criar as condições perfeitas para envergonhar europeus devido ao que fizemos ao Império Inca, o piloto faz saltar o avião e a minha boca falha o alvo quase por completo, dando às minhas calças um odor muito mais poderoso do que lixívia Chanel. Ao meu lado, Flores, continua a sorrir. Com o telemóvel, filma-se em toda a experiência, estende-me o polegar como que dizendo que está tudo bem. Desconhece que em Ceira, um polegar tão descarado facilmente se interpreta como um convite aberto a que lhe parta a cara com um extintor que está mesmo debaixo do meu banco. A tentação, e a boa educação, quase me obrigam e imagino o sorriso deste Flores em tons de rosa sangue. Resisto, até porque estou tão combalido que creio que acabaria por me agredir ao invés. O vómito sossega-me e os restantes minutos de voo são passados quase morto, sem nada sentir. Damos mais uma voltinha para observar uns poços Nazca e a avioneta desce. As rodas tocam no solo e o aparelho imobiliza-se. Esperam que tenhamos tido uma boa viagem e quero lançar sobre os pilotos o resultado mais óbvio da sua crueldade. Novamente, travo-me. Desejo que o Flores descubra que um deles lhe anda a comer a namorada e que haja um combate de navalhada ali na pista. Não acontece. De facto, que país este, que falta de classe.

Os meus companheiros de viagem procuram saber como estou e algum deve ter julgado que expeli sangue, pela palidez das minhas feições. Confessam que também eles sofreram com a viagem, mas ninguém foi tão abertamente honesto quanto eu. Contiveram-se. É isso que separa os indivíduos que sabem viver em sociedade dos magarefes que fazem do mundo uma choldra gregoriana. Demoro a recuperar. Quando vamos embora, aportamos numa pequena gelataria onde se comem uns crepes e tento convencer-me a devorar um. Neste momento, eu sou uma figura de Nazca: "El derreado". Traçam-me contornos irregulares, gelatinosos, mortos. Sou caracterizado pelo facto de possuir visibilidade até a baixa altitude, sendo inconfundível pela minha cor alva e disposição cadavérica. Podem encontrar-me estendido num sofá, num restaurante de Nazca. Não me parece que tão cedo me tirem de lá, nem qualquer camionista, nem activista de Green Peace; mas não pensem sequer em vê-lo de um avião. É muito provável que vos vomite um míssil terra-ar movido a um ódio por fotógrafos peruanos. E depois de terem lido este relato, pouco há-de sobrar de mistério acerca dos meus desígnios.

quinta-feira, novembro 01, 2018

Perugrinação 8: Mar de areia


O meu maior pecado como cinéfilo é nunca ter visto "Lawrence da Arábia". Não é apenas por ser um clássico inegável - tenho-o em DVD há mais de dez anos e encontra-se ali numa prateleira, tão quietinho quanto as areias do deserto. Não há grandes justificações para isso, nem sequer desculpas. É só imperdoável. No entanto, sei o filme de cor, acho que o vi às partes toda a minha vida e a única coisa que acontecerá quando finalmente me sentar num sofá para me penitenciar será simplesmente ordená-las. Já dele falei a alunos, explicando cenas e pormenores e para quem acha que tal é estranho, desconstruir um filme a que nunca se assistiu, a resposta é simples: David Lean é um desses realizadores com pormenores que valem filmes inteiros e se Peter O'Toole é o nome que mais vezes associamos ao épico das areias que Lean nos deixou, outro homem está acima em importância e esse homem é Freddie Young. Permitam-me um momentinho de nerdice no meio do paleio de viajante. Young ganhou três vezes o Oscar de Fotografia sempre com obras de David Lean e é o artista por excelência do grande plano e do ecrã cheio. Em "Lawrence da Arábia", e repito que nunca vi o filme, fixou-me na ideia a imagem desértica que me tem acompanhado, um cruzamento de vapor de luz com o amarelo carregado da extensão, a linha do horizonte como passagem para um outro mundo, o beijo do calor nas faces encarquilhadas pela desidratação, fantasmas brancos que levitam sem caminhar. Aguardava por isso a minha chegada a um deserto real, um túmulo de grãos infinitos. No plano de viagem, sublinhara com vários traços Huacachina.


Huacachina é um lugarejo, uma horinha a sul de Paracas. Pobre e desolado, um amontoado de tijolos pintados de branco que separados dão casas, atrai milhares de turistas, ainda que a população permanente seja de apenas cem pessoas. Ninguem está interessado no entulho - chegam aqui para fazer uma estrada de três quilómetros de forma a contemplar o único oásis de toda a América do Sul. O que não falta a este continente são desertos, desde o Atacama até à Patagónia, e no Peru temos mais abaixo Nazca e Sechura; mas o que distingue este é a presença de um pequeno aquífero em torno do que qual todos os edifícios são construídos. É o umbigo do deserto. O local simboliza o Peru de tal forma que aparece na parte de trás da nota de 50 sol - as notas peruanas usam o esquema "tromba importante à frente/local emblemático atrás". Aliás, podemos dizer que é símbolo de todo o continente, tem até a alcunha de "Oásis da América". Como qualquer símbolo, há uma lenda. Conta-se que existia aqui uma pequena lagoa e uma princesa - não sei aquela que era cantada pelo Boss AC - pôs-se bem desnuda para melhor apreciar o fresquinho aquático na pele. No entanto, reparando na chegada de um caçador bem másculo, não teve mais tempo do que o demorado para vestir-se, deixando para trás na confusão um espelho. Segundo parece, o espelho assentou no fundo da lagoa e esta cresceu até ao tamanho que podemos ver hoje. Portanto, isto é literalmente um espelho de água


Hoje em dia, pouco mais é do que uma atracção turística. Água tem sido retirada do oásis por gananciosos donos de terras contíguas, obrigando um consórcio de outros donos de terra gananciosos a descarregar líquido no lago de maneira a manter o aspecto aprazível. Na verdade, Huacachina não parece ser aquela experiência genuína que pensei, simplesmente mais um show-off para turista ver, daqueles que infelizmente têm povoado um pouco a visita ao Peru. O que procuram os turistas? Terapêutica, as águas têm fama milagreiras; diversão, existem várias actividades que se podem fazer por aqui, desde sandboarding até uma voltinha de buggy nas dunas. A nós está-nos vedado o buggy. Aparentemente, na semana anterior à nossa chegada, o filho de um dos proprietários dos buggys decidiu que estava na hora de conduzir um dos veículos ainda que, e repare-se, não tivesse carta de condução. Responsabilizou-se pelas vidas de cinco estrangeiros e a meio da voltinha, o buggy capotou e entalou um alemão, matando-o. Deutschland under alles; e o Peru fica com uma complicada situação em mãos com o mais rico e poderoso país europeu. Nada mau para o garoto, acabou por se destacar de alguma maneira. Um dos grandes problemas da vaga de turismo no país é que a maior parte das empresas de serviços não são reguladas e isso é ainda mais comum e evidente em zonas pobres como esta; o pior de tudo é que, como segundo a lei os buggys não são considerados veículos sequer, tecnicamente a única coisa ilegal por aqui foi mesmo o alemão morto. Apesar de a minha viagem não contemplar uma visita à Amazónia, sinto que de alguma maneira acabei por vir até à selva.

Como não há passeio de buggy, o programa depois do almoço é livre. O calor mostra-se pleno, tenho até oportunidade de vestir calções. O hotel onde ficamos guarda uma piscina e é tentador ficar refastelado; mas Freddie Young espera mais de mim. Junto-me ao Jorge, o meu colega de quarto, numa pequena exploração às dunas. Da varanda exterior, as dunas elevadas são perfeitamente visíveis. Pelo seu dorso dourado, trepam formigas de duas pernas, sombras que o sol projecta, impelindo-se até à linha que faz de topo da colina. Seguindo para o lado esquerdo com o olhar, encontramos a promessa de vastidão do deserto. Pegamos nas nossas máquinas, mochila às costas e esperam-nos as areias. Meio da tarde e quase ninguém está junto ao Oásis. Quase todos foram atraídos pela áurea praia sem mar. Também lá chegamos e molhamos os pés sem água. Penso em descalçar-me, mas o melhor é jogar pelo seguro. O deserto de Huacachina não é grande, mas quando se procura o seu fim, ali bem perto daquela linha com que o sol salta à corda, não se encontra. De máquina fotográfica erguida, os pormenores são muitos. Fotografar é um desenrasque na captura da luz e aqui, pela altura das dunas e a inconstância das areias, ocasionalmente sopradas pela aragem, essa luz tem como parente o imprevisto.


Enquanto o Jorge demora o seu tempo ao nível do oásis, eu procuro a altitude, um outro ponto de vista. À minha frente, uma grande duna inclina-se e presto-me a subi-la. Não é fácil caminhar em areia. Se concebem que numa praia já cansa, imaginem fazê-lo num plano picado. A chegada ao topo convida a sentar na areia e apreciar. O tapete deserto foi baldeado, a espaços limpo, noutros afundado. Pegadas misturam-se, desnorteiam-se, rumos indefinidos em passos vividos. Quando o vento sopra, é uma vassoura, apenas para segundos depois alguém estragar o um arranjo. Estou num mar com densidade suficiente para permanecer à tona sem nadar e neste momento, vejo tudo do topo de uma onda, todas as vagas próximas e distantes. É como se a ondulação fizesse pausa e pose para ser fotografada. É um mar amarelo, mas estamos longe da China, e ainda assim este amarelo começa a alranjar com a descida lenta do sol. Tiro da mochila "A história universal da infâmia, de Jorge Luis Borges e dou início ao projecto "Borges nas Américas". Primeiro finjo que o leio; depois, é apenas o livro contemplando o deserto. O meu olhar e o meu pensamento, no entanto, estão no pico que encima a duna onde há umas horas vi formigas humanas a caminho. O Jorge desapareceu, por isso estou por minha conta. Desço este monte de areia a correr e num ápice, estou no sopé do seguinte.

Tenho tempo. Em meu redor, uma maralha de gente, quase todos com menos de trinta anos. Dão vivas, riem, alguns levam pranchas de madeira debaixo do braço. Trepam esta enorme duna apenas para descê-la, e há pouco motivos melhores para fazê-lo. Eu observo o sol, calculo o seu ângulo, apenas quero encontrar um ponto perfeito para fotografar o seu ocaso no deserto, Lawrence do Peru. Encontro alguns dos meus companheiros de grupo já alapados, sem grande vontade de continuar a subida, longa e desgastante. Quando observo o topo, vejo um magote, esperando a sua vez para surfar a areia. Talvez não seja o melhor ambiente para aquilo a que me proponho. Sento-me então e da mochila sai um tripé que comprei especialmente para a ocasião. Quase que me sinto um fotógrafo verdadeiro. A vista é incrível, a maior caixa de areia que já vi, reverte-me para uma certa criancice de escola. Quero rebolar, mas o adulto em mim sabe o quão difícil é retirar areia do corpo e da roupa. No entanto, sinto os seus pequenos grãos aventurando-se nos pelos da minha perna, com se fossem lianas. Tripé montado, máquina acoplada e de súbito, a hora mágica. O sol precipita-se para a fronteira entre o dia e a noite e enquanto o faz, desliga em banho maria o seu motor de combustão. São cores tórridas que temperam a paisagem, Em primeiro, uma bola de fogo enorme quase engole o resto da Terra; depois um pirilampo num interstício de presença. A passagem é rápida, mas encanta os olhos. Fascino-me como um ocidental que vê o deserto em estreia. É magnífico e pleno de vida, estranho como um deserto pode florescer desta maneira. Mesmo por entre a vacuidade turística deste espaço, há coisas que a saciedade humana não apaga. Esta é uma delas; mas a saciedade tem os seus poderes e de súbito, um desses mesmos turistas passa, dá-me um encontrão e reacção dominó, toco no tripé e a minha máquina mergulha de lente na areia.


Quem é fotógrafo, consegue imaginar o que me atravessou pela espinal medula. Uma mistura de gelo, fúria épica de Super Guerreiro e vontade de dançar o corridinho na focinheira do turista. Um diagrama de Venn conseguiria traduzir o meu sentimento na perfeição. Nem respiro fundo sequer, que guardei o ar nos pulmões. Retiro a minha câmara com cuidado do seu possível túmulo e com a minha t-shirt e o máximo cuidado que os meus tamancos com cinco dedos podem reunir, limpo o que posso. Ponto positivo; o filtro polarizador estava colocado, logo a lente não ficou riscada. Mas o zoom e o foco encrencam, dificultam o seu movimento. Entraram grãos de areia suficientes para comprometer a actividade fotográfica. Algumas fotos de teste, a lente ainda funciona. O astro solar sumiu; no oásis, a luz artifical liga-se e vários pontos amarelos surgem reflectidos no espelho da princesa. Com calma, arrumo a máquina e tento arranjar uma fórmula qualquer de esperança no deserto em que se transformou o meu interior. Não de areia, gelado. É bonito, o espectáculo à minha frente, mas só consigo pensar naquilo que ainda não está e vem por aí, as linhas de Nazca, Macchu Pichu, os Andes, aquela altitude toda... Estarei lá, mas só trarei palavras, as minhas, o que é fraca tralha quando quero mostrar o que me abriu olhos e consciência. As minhas expectativas desaparecem como a luz de um fósforo. Afundar-me no deserto. Tendo em conta a minha vida, é possível na sua totalidade. Afinal, eu sou o cinéfilo que nunca viu "Lawrence of Arabia"

quinta-feira, outubro 25, 2018

Perugrinação 7: Entregue aos bichos


Se têm a minha idade ou próxima, recordam-se de "A arca de Noé", um enternecedor programa das manhãs de fim de semana onde éramos convidados a fazer amigos entre os animais. Ninguém pode negar que havia ali uma magia qualquer, que fazia com que apresentadores tão díspares quanto Carlos Alberto Moniz, Fialho Gouveia e Ana do Carmo pudessem ter encabeçado as várias temporadas sem que nenhum parecesse fora do seu elemento. Talvez fosse da garotada, mas sempre senti que tal se devia aos bichos. Peludos, pequenos, assanhados ou até deitados no seu canto... A fauna vasta com que eu, como criança, era presenteado todas as semanas abriu a minha curiosidade e empatia para o mundo animal. Como qualquer bom programa de televisão deve fazer, educou; e ficou-me sempre pendurada na privação a ausência de um animal de estimação. Apareceram uns comigo já adulto, mas nunca é bem a mesma coisa. Do que os meus pais contam, fui uma vez ao Zoo de Lisboa, muito novo, e as poucas vezes que lá voltei convenceram-me de que não é assim que se vêem animais. Na nossa antropologia, quanto mais nos afastámos da nossa natureza original, para segurança, maior surgiu a necessidade de trazer a selva até nós, seres urbanos, ao invés de habitarmos entre o indomável. "A arca de Noé" deve ter batido nessa savana profunda da minha mente que ainda julga crescer em África; e enquanto cresço, cresce também em mim a ideia de que os animais não pertencem em jaulas ou até com liberdade cortada enquanto nos servem de apoio psicológico e consolo de solidão. Devem ser livres. Mas os humanos, e muita gente não acorda para esta realidade, estão condenados ao castigo de dominar a Natureza para daí retirarem o conforto que os impede de regressar à selvajaria ou de forma tão simples abraçar bichos, tê-los consigo. Não gosto de zoológicos; abomino circos; acho parques de diversão marinha uma das piores coisas que criámos como espécie. Quando cheguei ao molhe principal de Paracas, para me enfiar num barco rumo à Reserva Natural das Islas Ballestas, queria descobrir que ser voyeur indesejado também iria contra a minha moral.

Pequena introdução: as Islas Ballestas são um pequeno arquipélago situado ao largo de Pisco. Ganharam a alcunha de "Galápagos dos pobres", porque também aqui se concentra uma riqueza incrível de vida animal, que vai desde pinguins e leões marinhos até golfinhos e pelicanos. Devido a isto e à sensibilidade do habitat, foram declaradas reserva protegida pelo governo peruano. Tal significa que não podemos nem caminhar sobre elas, nem pensar minimamente em nadar nas suas águas. Estamos prontos para partir às oito da manhã e já uma multidão aguarda o seu lugar numa das várias lanchas rápidas que fazem a travessia de meia hora desde Paracas até ao arquipélago. O céu cinzento é cimento de nuvens que estão para ficar, mas não há frio. Quando me passam um colete de salvação tão laranja que quase me julgo Dennis Bergkamp no seu auge futebolístico, coloco-o e penso no que aconteceria se caísse da embarcação. As águas negras, escuras, quase nocturnas deste Pacífico mastodonte fazem-me criar que não mais viria à tona. Instalo-me na minha cadeira e de forma instintiva, enrolo uma corda no meu antebraço. Já andei várias vezes de barco, mas não me apetece arriscar. O meu maior medo, na verdade, é que a relação precária que mantenho há tantos anos com o meu estômago volte para me assombrar. Mas tal não acontecerá.
Hoje, pelo menos. Voltaremos a isso mais tarde.


O passeio começa. A saída lenta, morrinha, faz-se por entre as várias cascas de noz que se desculpam como barcos de pescadores ancoradas na baía de Paracas. Quase todos velhos, nenhum cinzentão como o céu. Alguns nomes são clássicos ("Santa Maria"), outros trágicos ("La llorona", que não sei mesmo se tem a ver com o famoso mito da assombração lacrimejante da América Central) ou simplesmente épicos ("La falsa virgen", numa declaração de intenções). Ninguém está a bordo, parece-me, embora de quando em vez se ouça o ranger das cordas, o estalar da madeira pressionada pelo salitre. No topo de alguns mastros, corvos e pelicanos esperam os mestres na saída para o mar, ou agourando ainda mais a vida dura de pescadores. Nada que preocupe o meu guia, que vai lenta e metodicamente contando a história de Paracas e das ilhas. A voz ganha uma outra vida quando nos cruzamos com o enigma maior que é "O candelabro". Já o mencionei na crónica anterior. É um geóglifo, portanto um desenho  feito em matéria rochosa, tão declarado e evidente que não pode ser coincidência. 180 metros de comprimento, 2500 anos de idade. Ninguém sabe quem o fez ou para que servia. A comparação mais evidente é com os rascunhos de Nazca, mas tal civilização habitou centenas de quilómetros mais a sul. Estampado numa duna que enfrenta o mar, quer saudar marinheiros, ninguém mais. Nunca foi apagado pelo vento, pela chuva ou pelo tempo: o seu poder está no mistério e na sugestão. Deve ter sido difícil fazer "O candelabro" nesta zona exposta aos elementos. Para mais, um propósito estava definido por quem o fez - sabemos que alinha pela constelação do Cruzeiro do Sul, como tantas outras construções antigas com uma clara intenção astronómica. No entanto, o local onde se encontra numa teve qualquer importância. Não é ponto de partida ou chegada para o que seja. É deserto. Onde se instalou uma desenho de iluminação que nem por isso traz mais luz sobre este assunto.


O céu começa a cobrir-se de dezenas de aves. Estamos a chegar e um arco de rocha cumprimenta-nos, agarrado a um enorme rochedo onde descansam pássaros. Apesar de me sentir desconfortável por este papel de turista entre câmaras que se erguem na sua intrusão, é impressionante a quantidade de animais que aqui se encontram. Onde é possível que algum se instale, a rocha some. As lanchas circulam lentamente em redor das ilhas e podemos observar que a maior parte das espécies está na hora da sesta. São exércitos parados, esperando ordens. Aqui e ali, guardo momentos, como um desorientado pinguim que caminha tenuemente numa falésia, quase caindo quase voando. Está isolado - os seus colegas encontram-se mais acima, protegidos. Pertencem a uma das mais raras espécies, o pinguim de Humboldt. Como o barco não está tapado, parece um safari e nem de propósito surgem os leões marinhos, refastelados nos cantos possíveis. Passamos muito perto de alguns, em rochas, bocejando, abrançando o princípio da inactividade. A semelhança com salsichas cinzentas é admirável e apenas os bigodes e um focinho quase Chapliniano impedem a confusão. Não mostram medo, talvez alguma indiferença perante os nossos olhos. Cada movimento seu causa um enorme frenesim entre os turistas que me acompanham. Alguns seguram máquina e telemóvel em simultâneo, numa turba feroz de registos. Seja para redes sociais, seja simplesmente para reforçar a sua presença no momento. De qualquer forma, os animais voltam ser usados para nos trazer de volta à vida e no prolongamento do nossos conforto preguiçoso. Talvez tenhamos vindo até estes, mas ainda assim não consigo sentir que, de alguma forma, continuam a ser nossos prisioneiros.


Vejo um guindaste partindo do topo de uma faléssia e logo de seguida, um aglomerado de casebres brancos, cobertos de excrementos voadores. No seu prolongamento, um cais de madeira suspenso, um milagre que o tempo ainda não derrubou na sepultura marinha. Há algumas décadas, estas ilhas mostravam outro tipo de riqueza ao mundo, ainda que também tivesse origem animal. Mineiros chegavam a este cais dispostos a extrair o guano escondido nas cavernas interiores, caca das várias espécies de morcegos aqui residentes. Pelos seus altos níveis de nitrogénio, era um fertilizante muito procurado, inclusivé na Europa. Ainda hoje se dá essa recolha, embora já não sejam necessárias estas infra-estruturas; para além disso, é uma actividade extremamente regulada, de forma a não perturbar estas espécies. Tal tarefa é deixada aos turistas... Os bichos, no entanto, não se deixam incomodar. Ocuparam estes restos humanos como seus e podemos vê-los descontraídamente a balouçar nas podres cordas ou observando-nos, num reflexo devolvido, pousados nas decrépitas tábuas do cais. Tudo à nossa volta produz estímulo e em redor dos barcos, leões marinhos mostram a cabeça, mergulhando e ressurgindo aos seus desejos. Antes que os caros se afastem em definitivo, uma visão bem fofa - num recanto de uma caverna, três pinguins bébés felpudos mexem-se em agitação, parecem esperar comida. São brancos com salpicos negros, imitam pássaros verticias com penas que cedo cairão. Não se despedem, nem precisam. Sinto-me um intruso, ainda que em meu redor a mania dos flashes. cresça. Percebo que o meu turismo é outro, um onde estou sozinho com o resto do mundo. Ver pinguins e outros mamíferos que só tive em frente no Oceanário é bom, mas não sei se um pouco de mim não morre com isso. Pior: se um pouco de mim se deveria sentir mais vivo com isso e não consegue.

Já em terra, ainda ouço palavras como cormoran e boobies, uma delas mais divertida do que outra. Dizem respeito a pássaros. Todos são amantes da zoologia agora O autocarro da Peru Hop espera-nos com destino a Huacachina. Antes de entrar, passo por uma casa com um gigantesco cartaz autárquico. Apoia sem hesitações Lorenzo, um homem com uma visão, uma promessa: vai trazer para Paracas uma planta que tranforma água salgada em doce e resolver assim os crónicos problemas de abastecimento líquido da região. De merda Paracas nunca teve falta, oh ironia. Seria estranho que uma vila tão dependente dos animais fosse finalmente salva por plantas. Assim como assim, aqui nunca transmitiram "A arca de Noé". Mas aposto que algures nos anos 80, passou uma versão peruana do Capitão Planeta. 

quinta-feira, outubro 18, 2018

Perugrinação 6: As várias faces de Paracas


A sul de Lima, o deserto estende-se como quer. Terras áridas onde chove pouco no Inverno e no Verão pouco toca deixaram-se secar e cobrir de areia. É esta a paisagem que nos acompanha pela Pan-Americana Sur até chegarmos a Pisco, um amontoado de casas que é cidadezinha. Desviando-nos da estrada, uma longa recta aproxima-nos de um companheiro que nos sossegou ao longo de duzentos e tal quilómetros: o Oceano Pacífico. Encontramo-lo a guardar uma pequena vilazinha que pareceu brotar do meio da areia apenas e só para servir de justificação ao encontro com o mar. Paracas. Não é muito difícil descrevê-la para quem já passou férias numa localidade de veraneio. Há toda uma aparência de uso, mas a impressão mais do que certa de que só se dá ao luxo de ter vida durante o Verão. Paracas é praia e deserto, basicamente, embora só o segundo se aproveite. Existem areais junto ao mar, mas são pouco extensos e sujos. A vila é de pescadores, acima de tudo. Quem quiser aproveitar os dias balneares, tem outras localizações mais favoráveis a sul; mas aqui, o que existe é uma longa avenida com casas nas laterais.

É dominada por uma imagem familiar de trezentas mil t-shirts, uma figura esguia com canos nas costas que sopra numa flauta que germina da sua face. A sua imagem é replicada em banners e tabuletas e toldos de lona, representando negócios tão díspares como diversão nocturna ou artesanato. O mais estranho, penso, é que este é Kokopelli, um deus da fertilidade comum nas planícies norte-americanas, bem longínquas do deserto peruano. Ainda que alguns mitos Hopi nos digam que é ele quem se esconde naquela sombra que todos podemos ver na Lua (a versão ocidental identifica essa mesma sombra como o cavaleiro São Jorge, o que se só mostra o quanto as bases de valores podem ser radicalmente diferentes em todo o mundo), e que daí salta para a Terra de forma a emprenhar meninas jovens mais descuidadas, não sei o que raio o atraiu para abandonar a base permanente de David Bowie e trocá-la por Paracas. Mas os deuses têm os seus motivos, quem sou eu para questioná-los? Um deus da fertilidade no deserto: se temos fascistas em democracias, não é por aqui que o mundo se torna estranho.


Depois de deixarmos a bagagem no Los Frayles, o objectivo é almoçar. Como a imaginação não abunda, o restaurante escolhido tem o mesmo nome da localidade. O positivo é que nos oferece uma vista bem agradável sobre a marina. Brilha o sol que se reflecte nas águas que parecem prata e sob as quais as embarcações baloiçam. Por momentos, se fecharmos os olhos, até é Verão. Os pratos de peixe são recomendados numa zona piscatória, mas acabo por comer um bitoque apenas e só porque adoro o nome com que é apresentado no menu: bistec à la Pobre. Apropriado. Com tudo, estamos quase a meio da tarde quando nos levantamos. Sobra tempo para caminhar no passeio pedonal junto ao mar. Vejo os alertas de tsunami que aqui se mostram recorrentes e olhando a extensão da Baía de Paracas, que tornou esta zona apetecível a quem vive do mar, imagino que deva preocupar quem ali vive. O turismo é a principal actividade e inventa-se de tudo um pouco para esmifrar a vaquinha turística das suas gotas de ouro mais exíguas. Há um homem de meia idade, boné de lado, sentado num muro, cigarrando descontraídamente. Sempre que vê um grupo de turistas de máquina fotográfica ao pescoço, puxa de um saco do bolso. Os pelicanos peruanos são comuns nesta costa e ele sabe-o bem. Do saco tira pedaços de peixe e lança aos pássaros, deles sacando poses para deliciar os fotógrafos amadores. Claro que, como se fosse um arrumador ornitológico, vem logo depois de mão estendida para pedir uns cobres como se desempenhasse um fundamental dever para o viajante e lhe devessemos mostrar mais gratidão. Quando alguém não o faz, resmunga-se um rumor estranho e fico a pensar se lá como cá se riscam cromados e se à falta de capots é a pele quem paga a ousadia. Não lhe pergunto, até porque não me aproveito dos seus serviços. Já fotografei destes bichos em Lima e não sou fã do seu último álbum.


O sol vai descendo. O final de tarde é preenchido pelo pôr do sol, numa cenário de múltiplos pontões que saindo da praia, fazem um contraste incrível na câmara. Gaivotas e outros pássaros sentem que o dia finda e aproveitam uma última vez para estender as suas penas ao beijo do calor. Paracas é conhecida também pela sua diversidade de vida e ecossistemas. Ao seu largo localiza-se a Reserva Natural da Ballestas, que visitaremos amanhã, e a quantidade de barcos aqui existente atesta a diversidade de peixe nas suas águas. No entanto, esta zona revela ser de incrível ironia, pois esta abundância biológica convive com outra Reserva Natural, mas de deserto. Só a visitaremos amanhã, mas Kokopelli sai da Lua e faz-nos avançar no tempo. O mar convive com a planície desértica num cenário estranho, surreal. Ao seu largo passa a corrente marinha de Humboldt, considerada a mais produtiva do planeta, aumentando ainda mais a ironia. A partir de vários miradouros no deserto, observamos não só o oceano, mas também várias estruturas rochosas que se tornaram postais da região. Uma que já não veremos intacta é "la Catedral", um arco gigante de arenito que no seu auge  apresentava também algumas espirais elevadas como torres de uma igreja gótica. Infelizmente, um terramoto em 2007 danificou gravemente a estrutura e já só observamos o que sobra. A Natureza dá e a Natureza tira. Vale ainda assim a pena pela oportunidade rara de fotografar no mesmo dia extensões de areia na costa e no interior, para além de variadas espécias animais. Apesar da proximidade do mar, as praias não são banháveis. Isto inclui a fotografia mais conhecida de Paracas, a chamada Playa Roja. É um fenómeno à parte. Depois de nos habituarmos aos tons amarelados do deserto, eis que a nossa vista é agredida por um rasgão vermelho que o mar se ocupa de tapar às prestações. Não é um vermelho vivo, mas ocre, duro, resiliente. Não brilha, mas estampa-se na nossa memória. Um vermelho rico. O cinzento da manhã em que a visito faz ressaltar ainda mais o encarnado. Guardam-na um promontório rochoso longo e as dunas. Se não posso calcá-la, deito-me então e fotografo. À minha volta, dezenas de turistas fazem poses, tiram selfies, essa coisa toda. Eu busco areia. É por isso que sou esquisito e estou solteiro.


Como quase tudo o que rodeia as civlizações peruanas, também os Paracas que aqui viveram oferecem mistérios. O mais conhecido vem de achados arqueológicos que nos mostram que gostavam de alongar os crânios por motivos desconhecidos.... embora o clube de fãs de Erich Von Daniken, de quem vos falei nas primeiras crónicas, grite sempre que esta é a prova inequívoca de extraterrestres entre nós. Como em tudo o que é folclore, o principal mistério nem sequer se debate. O espaço da Reserva Natural tem um micro-clima muito particular que apenas encontra paralelo no deserto do Atacama. Basicamente, não chove. O vento e a falta de humidade tornam isto óbvio e a pergunta que se coloca é a da razão que levou uma civilização não só a instalar-se como a florescer num espaço assim. Deixa-nos a coçar a cabeça; e não estamos a falar simplesmente de uma excursão de pescadores que se afeiçoaram ao pescado da região. A cultura Paracas é a antecessora directa da civilização Nazca, que deixou a sua marca no solo não muito longe daqui, mais a Sul. Um voo de drone feito este ano, aliás, descobriu que por toda a extensão deste deserto estão desenhados geóglifos que atravessam o solo arenoso. Alguns são simples linhas geométricas, outros parecem representar figuras completamente diferentes das de Nazca. Vêm juntar-se ao mais conhecido, o famoso "El candelabro", de que falarei para a semana. A ser verdade, os Paracas deviam ter um conhecimento de engenharia bastante razoável e sabemos que dominavam técnicas de irrigação que deviam ser admiráveis, até porque ao contrário de outras civilizações que floresceram junto aos grandes rios, não há qualquer curso aquático actualmente na zona. Um mistério em cima do outro.


Naquele fim de tarde solarengo, na praia de Paracas, nada disto me preocupa ou sequer inquieta. Sento-me junto ao mar, programo a máquina, fotografo e o silêncio da época baixa é bem vindo. Aqui não se passa nada e se calhar devia, vim de tão longe que aborrecem-me viagens de nulo: Mas enquanto o sol me beija em continuado deleite, meio que encolho os ombros e aproveito. No plano da viagem, estou-me a guardar principalmente para a segunda metade, ainda que a primeira inclua Nazca e um deserto. Mas os Andes chamam-me e em Paracas, não há montanhas. Só de ironias. Há também comida boa, pouco irónica, e o descarado convite à nossa carteira, de tantas maneiras que comprovam uma máxima da teoria das civilizações: povos agricultores/pescadores, se enriquecerem o suficiente, tornam-se comerciais. Paracas tem múltiplas faces e identidades. No fundo, talvez devamos agradecer a estes profissionais do viajante: são os guardiões de uma identidade permanente numa terra de caleidoscópio.

quinta-feira, outubro 11, 2018

Perugrinação 5: Não se tiram férias da realidade


São seis e meia da manhã. Estou fechado dentro de um autocarro que será o meu transporte nos próximos dias até chegar a Cusco. As estruturas de transportes públicos no Peru são quase inexistentes, os transportes privados caríssimos. Os próximos dias incluem uma viagem para sul e a solução mais prática é embarcar num autocarro de uma companhia turística chamada Peru Hop. Não é particularmente confortável, mas já viajei pior, como sabe quem leu a saga do Quirguistão. Ir de um ponto para outro é sempre a parte mais chata de quaquer jornada. Se escrevesse um livro de viagens (e vários entre vós pedem-me que o façam, bem sei) com um capítulo "Lições que aprendi à volta do mundo", este seria um dos mandamentos. Por muito que a paisagem apele, nunca estamos completamente em nós para apreciá-la. A estrada pode ser libertadora, mas quando a obrigação de chegar a um ponto se instala, mais vale chamá-la de morfina. Olhei na noite anterior o mapa - e podem fazer esse exercício agora. De Peru a Cusco cansam-se 1310 quilómetros na rota mais directa; mas visto que esta passa por estradas que fazem tremer de medo lobisomens e vampiros, tal é o seu grau de perigo, a opção faz-se por dar a volta à cordilheira andina, estendendo o périplo quase 1700 unidades máximas de sistema métrico de distância. O sistema da Peru Hop é simples: vamos parando em vários pontos pelo caminho, sais e entras quando quiseres desde que avises. Nós inscrevemo-nos para a viagem completa, embora haja pontos a visitar. É um supositório às prestações. Na mochila tenho água e livros. São analgésicos, mas pouco mais.

Lima não acorda, acho, porque implicaria adormecer. A esta hora, o trânsito ferve e as pessoas não estão em casa, quanto mais na cama. Em vários partes, vejo homens sentados a ler o jornal. Então, pensam vocês, os quisoques já abriram? Não é necessário: apesar do tamanho gigantone desta metrópole, ainda há rapazinhos a distribuir jornais porta a porta, arrastando as suas bicicletas. Gabo-lhes o esforço, nem quero imaginar a hora do despertar. Aqui estou, de olhos abertos, pouco, mas por diversão e uma vez por festa. Estes garotos, todas as madrugadas, saltam da cama e lá vão pelas ruas. A saída da cidade demora uma hora e tal e espera-me a mais demolidora visão que tive de Lima até agora e não envolve um estupendo monumento ou o mar infinito. Como uma muralha que ninguém pediu, quase 180º em meu redor, estende-se uma enorme favela que vai rodeando a cidade quanto mais nos afastamos do seu centro. A mudança é brusca, mas notória, representada no mundo físico por um muro que separa a área urbanizada destas frágeis, ténues casas. Aqui no Peru existe o eufemismo de "povoados jovens". São favelas, ponto, barracos que se espraiam pelos morros castanhos, chocando de frente com a linha que define o aceitável do dever de ignorância. Aqui habitam e fingem que vivem quatro milhões de habitantes. São três Lisboa e picos. À barreira, chamam "Muro da Vergonha", e entende-se porquê. Ela é real e causa um efeito profundo: não há passagem, nem sequer pedestre, que permita atravessá-la. Não existem portas ou aberturas, vê-se arame farpado no topo em toda a extensão, torres com mais de dez metros onde seguranças vigiam os habitantes. São panópticos da miséria social. Dez quilómetros de um esforço concertado para separar os peruanos de Lima em tons de sol - sendo aqui não falo do astro, mas da moeda. 


O complexo chama-se "Pamplona Alta", um aglomerados de paredes coloridas com telhados a fingir que tapam. As moradias comuns de Pamplona não tem água canalizada, ou sequer casa de banho, que é um buraco no exterior. Há uma ordem bem definida: quanto mais alto se estiver, mais precária é a sua situação. Os últimos a chegar ficam com os piroes lugares - aqui ninguém paga mais imposto pela vista, mas é taxado de outras maneiras. As ruas foram esculpidas na pedra, a segurança é garantida fechando as ruas com cancelas, com o principal objectivo de separar os ricos dos pobres. Pintada num muro, consigo entreler uma mensagem em espanhol: "Não se aceitam drogados, ladrões, membros de gangues, traficantes, etc. Sob sanção comunitária". Até a lei é local, como se Pamplona Alta estivesse removida da restante capital. Um estado dentro de um estado, um quintal que foi esquecido e não deve ser lembrado sob pena de gangrena. Numa ironia que de delícia só tem o fel, do lado oposto do Muro da Vergonha, são visíveis opulentas mansões. Do que leio mais tarde, o preço médio ronda os quatro milhões e meio de dólares. Os moradores e compradores são invariavelmente brancos. Em Pamplona, vivem os índios, os negros. O abismo da pele é mais claro do que a tez dos descendentes de europeus. Entre o muro e a estrada, há visões surreais, como se o realismo mágico da América do Sul não fosse uma criação literária, mas sim uma apropriação de Borges: pela janela, vejo um rapaz que não tem mais de 14 anos, incentivado pelos amigos em exercício. Faz abdominais com um bloco de cimento em cima do peito, bufa e esforça-se, aplaudem-nos e ele continua. Podia parar, mas não o faz. O bloco continua a oprimi-lo, mas o rapaz insiste na mesma, vai levando a água do suor ao moinho do esforço. Não estava, nem trava. Segue assim mesmo.

Bem perto, as ruínas de Pachamac aparecem subitamente, saídas de trás de um triste monte de areia. Estão degradas como as barracas da favela. Quem visitar, lê a história de Pachamac, uma cidade pré-inca que durante quatrocentos anos se aproximou de uma Lima sem forma e solidez e que só os coloniais espanhóis criaram. Era um local santo  amando divindades que comunicavam o futuro, um oráculo para todos aqueles que na zona costeira temiam os chiliques do subsolo, terramotos de sobressalto. Percorriam os velhos trilhos, as estradas de dor em pedra, dias e dias que hoje fazemos horas apenas para perguntar a estátuas impassíveis a razão de nem os seus próprios pés terem o merecido descanso da horizontalidade. Hoje respondemos aos terramotos com sismógrafos; na Antiguidade, os Lima e os Wilmac apenas agarravam e brandiam a súplica. Antigos e contemporâneos só têm impotência para oferecer, mas a nossa desenha-se em grafismos de delirium tremens. Pachamac significa por isso "alma da terra" ou do mundo. Era uma divindade inquieta. Os Incas continuaram o seu culto e mantinham a crença de que um movimento da sua cabeça cuspiria sismos. Por isso mesmo não se atreviam a olhá-lo nos olhos e os sacerdotes do seu templo aí entravam de costas. O espaço ainda por lá está. Esta zona religiosa era também um catálogo de acompanhantes para os imperadores incas. Para aqui se levavam as mulheres que compunham o, digamos, ginásio de diversão sexual da figura maior desta civilização. O nome dado ao edifício onde elas habitavam, e não estou a gozar, era Mamacona. Entendam daqui o que quiserem. Para impedi-las de fugir, havia numerosos guardas, cuja responsabilidade e diligência se recompensavam com a castração. Numa história por demais familiar no país, Pizarro ouviu falar da cidade. Enviou um exército para pilhá-la e destruí-la. Pachamac deve ter abanado a cabeça de frustração, não consta que o Pacífico tenha tremido ainda assim.


O contínuo rumo a Sul afasta-nos dos prédios e Pamplona Alta lança a sua sombra numa parte do país que se cobre de penúria. Pucusana, Sunampe, Cerro Azul ou Bujama Alta fazem de conta que se pode lá habitar. mas as pessoas encolhem os ombros, ignoram os montes de lixo constantes e as ruas não alcatroadas, os animais companheiros fiéis do indizível e tijolos amontoados de ilusão de casa e levam a sua vida. Volta e meia, procuram a companhia dos cartazes eleitorais. Todos prometem mundos e fundos. Os problemas do país medem-se pelas promessas eleitorais: em Lima, a grande preocupação era o o barulho das buzinas no trânsito: aqui, garante-se que o próximo ciclo eleitoral trará electricidade e talvez alcatrão. O Peru é uma lâmina: às vezes alivia, noutras entra fundo na carne. Aqui, não sei sequer se há carne para cortar. Não consigo esquecer isto enquanto a camioneta avança. Numa ocasião, temos de contornar dez quilómetros adicionais, pois uma ponte titubeante parece um gráfico demográfico do século XIV europeu, o que impede a natural progressão do trânsito automóvel. Este desvio tem um destino, uma fazenda colonial chamada San Jose. Uma pausa para visita guiada à era da escravatura, só numa de limpar o palato. Uma guia peruana muito expedita e apaixonada pela história do espaço explica-nos coisas: que o primeiro dono se chamava Salazar, o que provoca olhares cúmplices entre os Portugueses; que aqui se produziram açúcar, algodão e mel; que foi passando de mãos graças a casamentos arranjados; que se tornou no foco de vinganças durante a passagem para a independência, como símbolo fatal do poder espanhol nesta província de Ica; e que depois da Reforma Agrária de 1960, o latifúndio foi dividido e a sua última dona, Manuela Eguren, abandonou a Hacienda com os seus doze filhos. Uma delas ainda hoje detém esta casa e preservou-a como um museu. Conservou-lhe a memória do esplendor e acima de tudo, da barbárie. Como qualquer sede de plantação colonial, o trabalho era escravo. A visita colide-nos com essa realidade, fazendo-nos experienciar a tortura e a arbitrariedade da dor. O quanto um corpo pode estar à mercê da linguagem agressiva da autoridade sem limite. Nos subterrâneos da Hacienda, há quilómetros de túneis ligando câmaras que serviam de habitação a estes escravos, todos africanos, pálidos num negrume que os engolia no final de cada estertor diário. Apenas com as lanternas dos telemóveis, é fácil perdermo-nos aqui, e acontecia muitas vezes a quem quisesse fugir, morrendo desorientado de sede e fome. Os túneis obrigam-me a andar corcunda e são eles próprios um castigo. A vida do subjugado era simples: um dia de confronto com a terra e o chicote; uma noite de sono embebida do cheiro a evacuações corporais e roçada em corpos semi-mortos. Não admira que no século XVIII, uma revolta definitiva tenha acontecido e os donos da Hacienda fossem decapitados e torturados nos mesmos intrumentos que durante décadas serviram para reforçar o poder colonial. Numa das Câmaras subterrâneas, deixo-me ficar para trás e abro a palma da mão no chão. Quase que sinto a música do sangue, o cheiro das lágrimas, tudo na ponta dos meus dedos. O ar pesa mais do que a consciência. É uma experiência estranha, ectoplásmica.


O tecido da América do Sol, sabe quem leu Galeano, é o da mulher constantemente violada, num ciclo do qual os seus filhos farão parte. A pobreza às portas de Lima e esta memória do horror num canto que se quer lembrado mas nem por isso, de tal forma que até as pontes se encolhem numa tentativa de deixá-lo como ilha da amnésia que ninguém pode pisar, são tão primos quanto as aves e os dinossauros, com a diferença de que os dinossauros se extinguiram. Este Peru de exploração vive, respira, tem sangue quente e viçoso. Nos últimos anos, tem havido uma tola discussão sobre a assunção de culpa da escravatura por parte de quem explorou, falam-se de indemnizações que são jogos de revisionismo históricos destinadas a armar demagogos políticos e desconhecendo que a crueldade não é retroactiva. Reduz tudo à Europa, quando a exploração do outro é um traço do Homem que vem desde a Mesopotâmia. A palavra "escravo" origina nos brancos eslavos levados pelos Vikings para a Àsia, numa trasladaçao populacional perfeitamente comparável à africana na época da Expansão Ultramarina. Os Europeus não criaram a escravatura, tornaram-na global, compreendendo umas das verdades imutáveis de qualquer paradigma civilizacional: para que uns estejam confortáveis, o desconforto de outros será máximo. Os negros que aqui morreram foram arrancados aos seus pelos seus, depois vendidos a estrangeiros para morrer num continente do qual nem uns nem outros eram originários. Pamplona Alta e a Hacienda San Jose são símbolos do outro lado deste hipnótico e paradoxo continente, que exige de nós o coração se queremos elevar a alma e perceber onde estamos. Um dos meus livros de viagem é a "História Universal da Infâmia", de Jorge Luís Borges. A infâmia pode ser universal; mas quando escrita por alguém da América do Sul, é menos um romance e mais um diário com pinta de metrónomo, tão implacável como a memória que permanece na acácia de 400 anos que ainda resiste na praça principal da Hacienda - e tão decrépita quanto esta.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Perugrinação 4: Frutos do mar


Das mais fincadas recordações que tenho das minhas férias de Verão infantis é a chegada dos barcos de pesca à praia. Em Pedrógão, a localidade que sempre associo quando evocam a areia que se deixa beijar pelo mar, costa marítima onde parte de mim se fez, ainda se pratica a arte xávega: barcos de madeira coloridos aventuram-se pelo mar, perto da costa e largando redes com bóias berrantes, puxam-nas mais tarde para a orla do areal. Presas a carroças que animais, por norma bois, puxam pela pura força dos seus rijos músculos, as malhas arrastam-se pela areia, mergulham nesses fragmentos rochosos que reluzem ao sol, a força dos pescadores dando uma ajuda, a ânsia de ver o produto de uma manhã ou tarde de trabalho rijo. Por entre as pernas das pessoas, normalmente levado pela mão do meu pai, acontecia magia naquele acto, os pescadores haviam trazido para terra pedras de mar, brilhantes ainda saltando talvez pelo contacto com o calor. Eram peixes, miúdos e pouco graúdos, raptados ao seu elemento e definhando num bolha enorme que lhes roubava a respiração, por ironicamente ter em exagero aquilo que não conseguem filtrar. Depois de alguns segundos, aquelas luzes cintilantes estacam. A rede, fervilhante e quase viva, tornava-se apenas paisagem aos quadradinhos, como um pano de malha onde servem uma refeição ainda crua. Acho que foi pela memória do cardume capturado a estrebuchar que a pesca nunca me atraiu. Nem caça, mas isso é outra história. No entanto, sempre admirei a coragem de quem se lança ao mar e arrisca, acho que é dos braços de ferro mais cativantes e agrestes no nosso mundo, o Homem contra as ondas. Garrett conjura-o em "Viagens na minha terra", quando dá aos vareiros da Gafanha vitória na sua disputa contra os campinos ribatejanos que vergam touros; e em Lima, a nossa tarde começou precisamente no abrigo que os pescadores fizeram quando chegam do mar.

Na Playa dos los Pescadores, um pequeno porto recebe os barcos regressados da faina. Pequenos, alguns deles nem chegam ao tamanho de traineiras.  É um simples, curto telheiro pintado de azul. Nas colunas, desenhos estilizados de vários animais marinhos sorriem e recebem quem visita num "Bienvenidos" que não se consegue imaginar de uma criatura que vai acabar no prato de alguém. Bichos cruzam-se no caminho e também sentem no ar o fervilhar da comida que chega. Nas bancas de cimento, esperando o produto, facas são afiadas, aguardam o trabalho. A luz penetra pouco no espaço, como se este fosse o fundo do mesmo Oceano Pacífico negro que contemplamos. Ao saírmos da protecção do telheiro, um grupo mais numeroso que o nosso, de pelicanos, vigia a entrada. Desafiam-nos a não nos aproximar. Eu por mim nem faço questão, mas estas aves, com o seu bico bizarro e pouco frequentes na costa marítima portuguesa, atraem a minha máquina. É entre estas fotografias que vemos as embarcaçoes chegando e as pessoas, num magote compacto que aguardava, voltam a tornar-se indivíduos, mexendo de um lado para o outro. No Muelle de Chorrillos, a bonança vai dar lugar um tipo de tempestade muito diferente da provocada pelo vento. Temos sorte pois chegamos mesmo na altura em que o movimento vai começar.


Mal os barcos encostam, caixas coradas passam de mão em mão e empilham-se. Poucos homens por embarcação, vi cinco no máximo e todos eles devem ter saído daqui às seis da manhã, por aí. Vêm cansados, mas sabem que o trabalho está a meio. O pescado deve ser retirado para terra firme, de seguida levado para o telheiro que abandonámos e lá será vendido a restaurantes principalmente, algumas merceeiros também. Desta pequena estrutura, onde os desenhos e a cor não disfarçam alguma velhice deteriorada, depende toda a gastronomia de peixe desta gigante metrópole. No entanto, bem cuidada e limpa, a imagem de São Pedro, padroeiro dos pescadores limianos, vigia tudo, protege os seus pupilos e talvez perdoe aos turistas a atrapalhação que causam nos trabalhos. Durante bastante tempo, a zona foi vista como insegura; mas os pescadores encontraram um aliado inesperado no Clube de Regatas com quem partilham o Molhe. A vinda de turistas é o resultado de um projecto conjunto que pretende reabilitar a zona e atrair curiosos que queiram assistir ao vivo a pesca artesanal. Como berços que perderam as pernas, pequenos barcos imóveis balançam sobre o mar em redor do todo o pequeno porto. Os pelicanos voam e roubam pedaços de peixe que vai ficando nas suas cobertas. Ninguém os disputa, são uma espécie territorial e capaz de arrancar a mão a alguém. Felizmente, são a única coisa que me deixa aqui temerário.

Abandonamos a costa e voltamos a subir à capital. O rumo é Barranco, conhecido como o bairro dos artistas. Numa nova ironia, a visita começa naquilo que deve ser o oposto do espírito desta comuna no centro de Lima, um Starbucks. Apesar disto, estamos naquela que é considerada a zona mais cool da cidade. Zona boémia e onde moram muitas almas que se dedicam às artes, age como a reflexão física dessa intenção e desse ideal. Aqui se localizam os principais museus da capital e há uma diferença arquitectónica notória quando caminhamos nas suas ruas. As casas coloniais do século XIX estão desassistidas, mas o estilo continua presente. Cores abafadas, verdes, azuis e brancos. O abandono deve-se às absurdas exigências que a lei peruana faz a todoas aqueles que queiram remodelar e cuidar de umas destas habitações históricas. Tal faz disparar os encargos económicos de quem se lance na aventura e como consequência, boa parte está fechada ou exposta à ruína. Não é um estilo atractivo, mas sim discreto e como se amontoa num todo uniforme, fica na retina.


Atravessamos a ponte dos Suspiros, embora não estejamos em Veneza, e a intenção é perdermo-nos nas ruas de Barranco e descobrir o que afinal pode a arte valer a uma zona de degradação histórica. Numa desta mansões recuperadas, encontro um refúgio. Por uma porta iluminada, chama-me a atenção a imagem icónica do Dave de "2001 - A space odissey", noutro estilo. Ao seu lado, Walker White insiste que é ele quem bate à porta do perigo. Está claro que entro e me deixo fascinar. A loja é a Vernacula e guarda em várias soluções o cruzamento de cultura popular, desgin moderno, objectos de estilo e cultura peruana. É irresistível: música e televisão, cinema e pintura, cadernos, bases para copos, vestidos, pulseiras... Compro para mim mesmo um pequeno caderninho azul, onde na capa felpuda uma árvore negra vive para morrer. É uma imagem notável e notória que me leva a mão à carteira. Num pátio exterior, a música convida a sentar numa esplanada, mas não temos tempo. "Vamos embora, ainda temos Barranco por visitar" e vou directamente ao balcão com novas aquisições. Atrás de mim, um pai e uma filha sorriem e gracejam em redor de uma saca de gomas. Entendo o castelhano; "A mamã disse-te que só devias comer coisas saudáveis. Eu fico com isso", e a garotinha ri e afasta lentamente do pai o saco transparente com guloseimas. "São saudáveis, papá" e como que para comprovar, uma delas desaparece na sua boca, cujos dentes acariciam ao longe o pai com a felicidade que só crianças e coisas doces podem irradiar.

Um pouco mais à frente, aparecem os primeiros sinais de que foi dada carta branca à cor. Pinturas murais e alguns graffitis vão desde o vulgar cliché (artistas anunciando que o amor salvará o mundo, bocejo) até à magia entre dimensões de um surfista que saindo de uma onda encontra uma santa domando um dragão marino pela força da vontade. À direita, uma escada parece atravessar o bairro em longitude e chama a si o foco do trabalho artístico: cada degrau é um miradouro para estética visual - gatos dourados dançando perante um twist que mais ninguém escuta; um arbusto maternal segura a sua filha num globo de folhas castanhas; um músico e um burro escutando música defronte de uma telefonia; cabelos negros penteados por colibris das cores de uma caixa de lápis Caran d'Ache; um rapaz retira a sua face e revela um pardal no seu poleiro; a pintura em redor de um espelho onde somos contemplados pela nossa própria necessidade de observar.  Reparo também que nas paredes se encontram embutidos pequenos pedaços de mármore onde se inscrevem versos de poetas que aqui habitam ou habitaram. Alguns são involuntariamente cómicos, mas um ou outro corta junto à medula. "Si yo sola no me cicatrizo, quién me sanara", e lembro-me de mim, e lembro de ti também. "Es dificil hacer el amor, pero se aprende", na simplicidade de quem vê uma folha de papel e pensa que o mundo cabe naquele rectângulo alvo; "El horizon es un verso arrojado a tus pies", e invoco logo todas as paisagens que vi e vivi, todas as vezes que a linha do horizonte foi, é, será sempre um convite a sonhar, essa força que nos tira todos os dias do leito. Os degraus são de pedra, vulgares, mas percorrê-los, para quem se deixa levar, pode ser uma viagem bem mais distante do que Barranco em si. A noite vai caindo e lâmpadas de filamento iluminam-se no exterior, como se um arrailar se instalasse no bairro. Quando subimos para regressar à Avenida, e junto a uma pequena catedral, três músicos evocam Gardel em cordas de violino e violoncelo, "Por una cabeza" acompanhando o crepúsculo, o tango como a explosão de um sol, por vezes em ocaso, dentro de nós. Barranco, na sua cor e decadência, é o paradigma do bairro artístico de grande capital; mas ao imergirmos nas suas pedras e labirintos, somos recordados em constância do que a arte faz por nós, do que a expressão do indizível nos causa e no movimento gingão de Gardel, encontro um ponto em mim que sorri pela primeira vez.


O dia acaba pouco típico, jantando numa cadeia de fast food no centro comercial Larcomar. Apesar de tudo, Larcomar tem um miradouro que observa espectacularmente a mesma costa onde passámos a tarde, mas agora não é apenas o oceano a mostrar-se negro. A noite caiu em Lima, as luzes dos carros fazem da marginal uma avenida de pirilampos debaixo da iluminação torrada. Enquanto esperamos que nos atendam, o meu telemóvel apita. Mensagem do meu irmão. "A Beatriz nasceu" e durante uns segundos saio de Lima. Até agora, a Beatriz foi apenas uma ideia consubstanciada pela cúpula que a namorada do meu irmão trazia à laia de barriga. Agora é alguém. Um choro que chega ao mundo e se faz humano, dois braços, duas pernas e uma cabeça que mal despontam. A minha sobrinha. Devia ter nascido de hoje a três semanas. Não quis esperar, não sabe mesmo no que se veio meter. De imediato recordo a menina que com o pai gracejava acerca de doces. Não sou pai, não sei se eventualmente me darão essa oportunidade, mas imagino a Beatriz crescida e quero apresentar-lhe tantas coisas mais doces do que o açúcar, um mundo com tantos pequenos pormenores que quase ninguém vê, quero partilhar com ela o momento em que Darth Vader revela um dos grandes twists da História do Cinema; colocar-lhe Scully como modelo; dar-lhe a vontade de tornar a Natureza uma outra casa, e aqui tenho de parar e evitar que ela se torne noutro eu. O mundo não precisa mesmo disso. Mas estou no meu primeiro dia em Lima, a duas semanas de conhecê-la. A viagem ao Peru deixou de ser apenas um passeio turístico: como Ulisses numa outra encarnação, o meu percurso é também de regresso a uma pequenina Penelope, para quem serei apenas uma forma alta com pelo na cara, mas que em mim, já é uma parte melhor neste planeta. É arte e não precisa de tintas: só a configuração de um verso pequenino que já em mim escreve canetas em tom de poema.

quinta-feira, setembro 27, 2018

Perugrinação 3: Manhã em Lima


Um bocadinho de contexto: fundada no século XVI, por Francisco Pizarro, Lima é um monstro de cidade, sendo a segunda maior da América do Sul e terceira maior de todo o continente americano (atrás desses dois berlindes chamados São Paulo e Cidade do México). Pasmem-se, que a mim aconteceu o mesmo. Tem praticamente nove milhões de habitantes e nem sequer existia quando o Império Inca dominava o espaço do país. Como calculam, não é fácil circular numa metrópole desta dimensão. Se já vos descrevi o movimento pela cidade de madrugada como um caos que se intui, imaginem o que é viver nela durante o seu período mais fervilhante. Existe tecnicamente um metro, mas apenas com vinte e seis estações, espalhadas por trinta e cinco kms,  e que não se aproxima sequer das maiores zonas de interesse pela cidade. O táxi podia ser uma alternativa, mas como todas as grandes cidades que são, em simultâneo, selvas não há exactamente taxímetros ou taxas: uma pessoa fala com o taxista antes de entrar e negoceia um preço. Se for aceitável, a coisa faz-se; de outra forma, ou há discussão ou o negócio nem se realiza. Se eu devia achar estranho? Sim; mas lá está, vocês leram as minhas deambulações na Ásia Central. No que toca a transportes, sabem bem que é preciso algo descabelado para me surpreender. Quase aconteceu, ainda assim; e a culpa é do "Combi". É uma espécie de autocarro, o resultado que aconteceria se pegassem naquelas cápsulas amarelas do Kinder Surpresa, as aumentassem cem vezes e fornecessem rodas. O nome vem da abreviatura para Kombinationfahrzeug, a designação original destas pequenas viaturas surgidas em Lima na década de 1950. Na altura, eram todas Volkswagen type-2, tentando resolver não só o crónico problema de falta de transportes públicos na cidade, como também o rarefeito espaço que é dado aos veículos nas ruas e avenidas. O nome alemão é de facto complicado, Combi soa melhor; e o efeito na cidade é notório, principalmente porque a eles se devem quase metade dos acidentes de viação em Lima.


No entanto, acabam por ser das minhas coisas preferidas na capital, porque funcionam de uma maneira incrivelmente patusca. Ainda o veículo não parou - e garanto-vos que não estou a exagerar no tamanho, é grande para carro, mas pequeno para autocarro e assim de cabeça, lembro-me de ver, no máximo, uns 20, 25 lugares de passageiros - e já um indivíduo sai. Que faz ele? Grita a todos o destino do Combi e faz uma publicidade colorida e com ginga: que é rápido, que é seguro, que é divertido, e assim inquire até transeuntes individualmente. Isto também acontece quando os semáforos avermelham e este corajoso personagem insiste em angariar mais clientes no exterior. É desenrascado e calcula na perfeição os ritmos da viagem. Od passageiros fizeram desta figura habito e nem viram a cara. Para além disto, serve também de bilheteiro e daquela vozinha que no metro anuncia as estações seguintes, alertando com volume e assertividade. No primeiro onde viajámos, o Ernesto, nome del hombre de combi, era também diplomata, pois quando soube que éramos portugueses, foi arrancando todas as referências lusas que possuía: Cristiano Ronaldo é o maior; os Portugueses descobriram o Brasil; Andrés Carrillo joga no Benfica! (Fixem o nome deste jogador peruano, pois só têm a noção do quanto Carrillo é popular no seu país natal quando andam pela rua e vêem dezenas de camisolas oficiais com o seu nome nas costas) Quer saber o que fazemos, o que achamos do Peru, porque apanhamos o Combi e nisto, o nosso intérprete é o Pedro, o guia da viagem que conhece perfeitamente o modo de vida peruano pois habita no país. Sempre que entras no Combi, a Cumbia segue-se, deixando toda a gente mais relaxada. Até mesmo malta velhota, e encontro bastantes, sorri e se mostra curiosa, embora não ensaie passos de dança quando nos aborda. Os peruanos, no geral, são simpáticos e já estão habituados a turistas. Lima, que não será de todo o principal destino turístico do Peru, não sofre de problemas que afectam outros locais mais focados pelo Turismo e tem, por isso, uma relação pacífica com os mesmos. O mesmo não se pode dizer do tórrido affair que os condutores da capital mostram com as buzinas dos carros. É quase pornográfico e digno de #metoo em bold. Começo a perceber que enquanto nós temos o Código da Estrada, Lima exerce o Código da Apitadela. Quando pretendes ultrapassar ou mudar de faixa, não fazes sinal: apitas. Isto vale para rectas, curvas e rotundas. Se vais parar ou abrandar na rotunda, dás uma guinada e apitas - por esta ordem; se pretendes alterar a faixa, o mesmo procedimento vale; e entre sinais com máximos e apitos, o trânsito em Lima circula e escoa, um pouco como os glóbulos metálicos da cidade. Em todo o tempo que pemaneço em Lima, não vejo um acidente. O que não é dizer muito: posso dizer o mesmo do Quirguistão e isso não é necessariamente uma recomendação de segurança.


Mas há razões para virem a Lima, para além do pitoresco. Se sobreviverem ao trânsito, sugiro-vos que procurem um restaurante. A cidade é considerada a capital gastronómica das Américas e come-se muito bem de facto. É regular encontrarem restaurantes daqui na lista dos 50 melhores do mundo e o facto de o país ser incrivelmente multi-cultural leva a que na sua cozinha se encontrem influências chinesas, portuguesas, creoulas, quechua, japonesas... Tudo misturado até mesmo nos pratos tradicionais, e destes o principal é o ceviche. É um jogo de risco com o nosso próprio estômago, pois trata-se de peixe ou outro produtos do mar como polvo ou calamares preservados numa solução de sumo de limão. Por isso mesmo deve ser servido o mais fresco possível, antes que dê raia. Acompanhado normalmente de batata doce, também pode trazer abacate - regozijem-se, novos vegans! - ou milho, algo que é omnipresente em toda a gastronomia sul-americana. Na prática, há muitas semelhanças com o sashimi japonês, ainda que as origens do ceviche estejam localizadas numa civilização pré-Inca chamada Moche, que não consta que conhecesse o rock ou que comprasse pacotes de chamadas à antiga Telecel. O prato é tão popular que existe um feriado nacional em sua honra, reparem bem. É, claro, a primeira recomendação que o Pedro nos faz e leva-nos a uma cevicheria chamadoa "El Muelle", ou seja "O Molhe", pois a não muita distância de onde estamos, ainda que com um desnível apreciável, encontra-se o mar. Quase toda a gente pede ceviche a uma senhora extremamente simpática que nos explica com cuidado os pratos, revelando um gosto e simpatias particulares na apresentação do que o seu país tem de melhor. A descrição do ceviche lembra-me o meu trauma gastronómico mais clássico, a minha nemesis sob a forma de moluscos do mar. Desde pequenino que a minha mãe descobriu um estranho fenómeno: polvo ou lulas que caiam no meu estômago são imediatamente regurgitados como se eu fosse um pelicano. Não acho que a melhor maneira de me apresentar a este país e ao grupo que viaja comigo seja através de reforçado canto gregoriano. Assim, perscrutando a ementa, uma dourada assada apresenta-se e eu aceito o convite para sair. Tenho pena dela, pois tem na minha memória a concorrência de uma perca das Faroé que me esmifrou os orgasmos do paladar em pouco tempo.

O restaurante fica numa rua secundária e calma, conseguimos conversar sobre as primeiras impressões do país, sobre fotografia, sobre outras viagens que fizemos. Os pratos chegam e os amantes de cerveja descobrem os prazeres da Cusqueña, uma birra bem popular no Peru. A dourada está uma delícia, não comparável ao meu amor nórdico, mas bem preparada, tenra, condimentada com pimenta e algumas ervas aromáticas que lembram bastante a cozinha mediterrânica. Quanto ao ceviche, os convivas parecem maravilhados e deslumbrados, o travo forte cítrico misturado com os molhos e condimentos ressaltando do peixe as suas qualidades melhores na ponta da língua. O Pedro alerta que um problema no Peru é o café, geralmente entre o medíocre e o criminoso, com um toque de desporto radical da boca. No entanto, conhecendo-se a cidade, até nos safamos, ainda há alguns lugares que se desviam da crença religiosa que um café bom é um café queimado. A pouca distância, fica o Colonia, um estabelecimento singelo, mas simpático. Defronte, um palácio simples, mas que se destaca das outras habitações no local. Questionamo-nos sobre o que esconderá, não está aberto. Em cima, de pé e desfraldadas, várias bandeiras batem continência ao telhado. Uma é imediatamente identificável como a peruana; ao seu lado, duas extremamemte coloridas, arco-íris, o prisma irisado dos Pink Floyd estampado num pedaço de pano. "É um bar alternativo", pensa aqui o vosso Poirot dos pobres, convencidíssimo que tudo sabe e tudo adivinha, "que coragem em exibir assim a bandeira LGBT num país tão conservador quanto o Peru. Gabo-lhes isso". Isto é uma estupidez; mas só descobrirei porquê quando chegar a Cusco e portanto, deixo-vos no suspense. Não em relação à minha estupidez. Acho que tal é do conhecimento geral. Esta particular é apenas bastante engraçada.


O café está aprovado e depois de uma manhã de andar em labirinto, a ideia é fazer a tarde quase toda em caminhada. Depois de mais uma voltinha de Combi, paramos em Chorrillos. Lá em baixo, vê-se a praia. O céu convida pouco, Lima é uma cidade permanentemente nebulada, embora raramente chova. Mas é o Pacífico, o tal oceano que não tem memória segundo Andy Dufresne, personagem principal de "The shawshank redemption". Nunca na minha vida tive o Pacífico ao alcance do meu olhar. Sobre ele sei quase tudo, que é grande, que é fundo, que é mais escuro do que os outros oceanos, sei os seus limites e recortes, países que banha, uma tonelada de informações acumuladas no meu sótão em forma de cabeça. Mas quando calco a areia da Playa Agua Dulce, apresento-me como leigo. As minhas pernas procuram o contacto com o mar, agacho-me e tiro fotos das aves que tiraram a tarde para passear na praia, mas guardo a máquina e entrego as minhas mãos ao Pacífico. Fecho os olhos, tento que o Pacífico seja maré alta que afunda as minhas guerras, a água não é fria, é tépida e estamos no Inverno, banho nela as minhas mãos completas e entrego ao meu corpo uma outra novidade, um outro oceano, um pedaço do mundo que nunca foi meu, nem será quando for embora, mas é agora parte do meu mapa. O Pacífico é um gigante escuro e balouçante e numa ironia de linguagem, é também violento, lar de vulcões e sismos abismos; mas enquanto ali estou de cócoras, deixando-lhe que me acaricie, é apenas água e extensão, um ponto de foco, uma estrada sem buzinas ou guinadas, sem confusão e levando-me numa viagem momentânea ao meu início. Não me tira o peso dos ombros, mas posso descarregar um pouco dessa tonelada. A água é mais densa com sal, mas por isso também mais rica. Pode ser que, nas águas do Pacífico, a minha guerra faça as pazes com os peixes e seja mais tarde um ceviche delicioso em quem tiver a sorte de com ela terminar em armistício gastronómico,