quarta-feira, dezembro 31, 2014

Dois mil e quatorze


Um ano é um saco vazio, e os dias pequenas partículas que se vão acumulando. Quando o tempo passa em rápida corrida, sem deixar outra marca que não seja a saudade do que não se viveu, as partículas não pesam e sem estarem carregadas do que seja, apenas tornam o saco num pequeno pano cosido com sujidade. Duas palmadas e uma passagem, e o saco fica pronto para, noutra oportunidade, acumular a passagem de tudo o que pode pesar. No entanto, as maratonas deixam o corpo mais pesado, e o saco é não hotel de partículas, mas reactor nuclear onde as mesmas chocam umas contas nas outras, e produzem o tipo de energia que alimenta estrelas, ou pelo menos arrasa cidades ao ponto da poeira. Viver muito implica uma carga maior, e quando se vive demasiado, explode-se. É a lei da energia: quando o corpo é pequeno demais para aguentá-la, ela extravasa, solta-se e o que fica de nós são uns cacos maiores do que outros, com a possibilidade de se reorganizarem novamente para voltar a acumular.

É assim que sinto o meu 2014. O ano em que vivi demais. O ano em que me expandi para receber tudo aquilo de que fugi nos outros todos. A morada onde habitei no sótão da felicidade, mas também desci a profundezas onde nunca estive, onde não queria estar, mas que já sabia fazerem parte de toda esta casa. Tudo o que fez 2014 já sabe quem acompanhou o estudo da dor em palavras que coloquei neste espaço. Todos vocês que me acompanharam, mesmo não dando a mão; e aqueles que, mais próximos, colocaram a mão no ombro. As pessoas que vibraram com o meu voo livre na atmosfera e aqueles que sorriram quando, num espaço qualquer entre minutos, as horas eram os nossos dias, meus e dela. O ano de 2014 foi quem esteve, e quem não esteve, porque a ausência, mesmo não sendo, por vezes existe com uma força de terramoto. Também foi isso, este ano, mas para minha surpresa, estes quatro algarismo também perceberam que no fim, quem nos vale somos nós. A maior parte do resto é paisagem. Podia colocar nomes, mas quem se agigantou para me servir de parede terá o seu momento de gratidão.

Não foi só perder, também se ganhou, e no inesperado. Desccobri que o meu coração abarca planetas, e expande também. Descobri que quando se abre o coração, fechá-lo é impossível. Descobri que choro na mesma proporção que sou verdadeiro comigo mesmo, e que as lágrimas são simplesmente as palavras que não consigo alinhar aqui para levar aos outros o meu mar. Descobri que sou muito mais forte do que me dou crédito, muito melhor pessoa do que me pensam e alguém que merece, acima de tudo isto, o que é bom. Descobri que não sei se aguentarei, mas estou ansioso por resolver esse mistério. Descobri como é bom ser útil em projectos maiores do que nós, e de como se aprende mesmo quando não se espera, e a vontade de colocar o nosso melhor em pequenas coisas que nos satisfazem no fim de contas. Descobri que quero saber se consigo ser feliz; e quero descobrir se consigo ser o homem que o meu pai um dia esperançou, se há 32 anos, quando me segurou pela primeira vez e me imaginou já grande, homem feito e pronto, se poderia vir a ter orgulho na confusão em que me tornei, no labirinto que desenhei qual Dédalo da perdição, e se no meio disso tudo poderia anuir e sorrir de cada vez que saio à rua e afirmo que sim, que sou eu e mais ninguém, que é o que posso dar e quero e não gostava que sentisses algures que não mereço carregar a tua memória e deixar-te beijos sobre a campa.

Também quero descobrir-me novamente nas mãos de outra pessoa. Destapar-me nos seus olhos e reviver o pequeno jogo que existe antes de um beijo.

Quero certificar-me que existe 2015. Que 2014 foi apenas uma explosão atómica e que depois da morte, da erupção, há vida a crescer, a brotar e a aparecer, rebentando com os solos. No meu desejo, 2015 não podem ser dias: devem tornar-se sacos de partículas, daqueles que não pesam, mas também não voam. Daqueles que estão nas nossas mãos, mas nem nos pertencem. Daqueles que simplesmente sopram e não fogem. São meus, e deles disponho para renascer. Quero que 2015 seja sobretudo isso, e que de sobretudo vestido, 2014 hiberne, apenas para acordar em mim de vez em quando.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

11-12



Um bocadinho. Um ponto na estrada pelo qual se passa. Uma mancha que se limpa. Uma nódoa que surge e se faz desaparecer. Uma bolha de ar que se rebenta porque estorva a vista. Um montinho de terra que se varre para fora do jardim. Uma relva que cresceu mais do que as outras e atrapalha a simetria. Um livro a mais que não cabe na estante e se mete no caixote. A bolacha mole que não se escolhe e atira para o lixo. Os calções quando chega o Inverno. O cavaquinho numa orquestra de sopros. A ínfima parte do que já foi, e não é. A célula disfuncional que precisa de ser destruída. A traineira de madeira podre que será abatida. O pedaço de oceano onde o crude reclamou um reino. A casa onde as vigas estão tão podres que nem vale a pena pagar o restauro. A folha mal impressa que se arranca, e pela qual reclamamos um livro novo. A memória que some depois de uma noite de bebedeira. O presente que se ofereceu e foi para o lixo. O filme que se apaga do disco rígido. O bocadinho de árvore que o zoom faz sair da fotografia perfeita. A linha de palavras que se risca, ou se apaga com corrector com vergonha que alguém saiba que chegou a existir. A sms que não tem retorno. A cama que é pequena demais para nós, e vai para o sótão servir de pasto para térmitas. Os talheres de plástico que cumpriram a sua função e vão para o lixo.Os sapatos esburacados que não se guardam, porque os novos brilham mais e a ruína não guarda recordações se não nos sentarmos sobre ela. As folhas do caderno que se rasgaram e já não contam. O álbum de fotos que se queimou, porque não se quer na corda do coração. O sofá que um dia nos acolheu, e agora apodrece no depósito de monos. O carro que um dia foi a nossa fonte de aventuras, e agora está desfeito num ferro-velho. O beijo que se deu, e agora é nada. Tudo o que se é, e que nada parece valer. Ser o tudo de uma série de nadas pespegados que se esfumaram.

Pedirem para olhar em frente, e só ver o que não existe. Há noites assim.

sábado, novembro 22, 2014

O tom dos dias



Haverá gente que certamente está farta já de ler sobre dor e sobre não estar bem, sobre quem foi bem embora e quem não se pode ter. Eu entendo bem: aliás, garanto a todos esses que se pudesse até, nem escreveria nada sobre o que aqui dentro é um profundo poço de petróleo a que atearam fogo, e não tem parado de arder, entre golfadas de soluços, desde há quase dois anos. Estou tão farto da minha dor quanto alguns de vocês, acreditem. Gostava que passasse, de ter alguma paz interior, mas já entendi que não vou tê-la em 2014, pois há sempre um novo motivo para acreditar que se algures existe um Destino, este é o meu ano do yo-yo: puxa-me para as alturas e depois deixa-me tombar, passeando o cão, raspando o chão comigo até a pele não ser mais do que um tapete. Nem sequer posso sentar e esperar que passe, porque naquilo que muitos anos são vazios, este é uma cornucópia de emoções, novas sensações, desesperos e vitórias, de tudo o que constrói de facto a vida, e não são coisas de plástico ou de metal, mas que carbura em tons loucos o nosso motor sedento de justificar que vive, e que não está simplesmente aqui em missa de corpo presente, ide em paz e o tédio vos acompanhe.

Dentro dos novos limites da dor que descubro todo o amaldiçoado dia em mim, sinto que lido com isto sozinho, raras vezes com a companhia de alguém. Isto é perfeitamente normal, pois nós somos, em última instância, os responsáveis pela nossa sobrevivência. Se um dia morrer alguém que é próximo, deixem que vos explique como se desenrola o processo de apoio: nos primeiros dias, surgirá muita gente que vos diz "Estou aqui para o que precisares, não hesites"; passadas umas semanas, o discurso evolui para "Pois, é não deve estar a ser fácil..."; um mês depois, um ou outro ainda se lembra de perguntar "Então, estás bem?"; depois disso, a vida continua e o meu mundo é o único que conta, e sou como o Principezinho, só no seu planeta, olhando para o espaço a perguntar-se se andará por lá alguém. É do mais normal: afinal, cada um tem as suas coisas, e quando se vê alguém na contorção de uma dor que não cabe em nós, o mais normal é ter alguma compaixão e nos oferecermos na totalidade, desejosos de ajudar; mas depois voltamos ao que é nosso e passa. Já me aconteceu, e não se culpa ninguém, porque não há culpas para distribuir, A vida assim o pede, e estou mais habituado à ideia de que estou o tempo todo só, e que de quando em vez alguém me agarra pelo braço, só para garantir que estou ligado à corrente a um mundo que não se limita ao que os meus pés pisam. Valorizo muito essas mãos, talvez mais do que elas pensam, e compensam outras mãos que não se estendem porque talvez tenham passado a ser manetas.

Não deixo de me surpreender, ainda assim, quando choram por mim. Aconteceu-me recentemente, e a visão de alguém a sair de si pelos olhos através de lágrimas por sentir como seu aquilo que é tão meu toca-me mais do que aparenta. Não soube o que fazer, nunca se sabe. Aproveitou para elogiar o que aqui escrevo, e percebeu que quando exponho a minha dor neste blog é para compensar essa vida solitária que me coloca mano a mano numa luta a solo. "Li aquilo e foi como se vivesse em ti durante uns minutos, és tu a expor o que é comum a todos nós, a arrancar a verdade das coisas", e os olhos estavam desenhados a sal líquido. "E quando li aquele texto que começa assim... Puta que pariu! E ela não voltou? Ela não disse? Ela não fez?" E continuou perplexa: como é que conseguia caber tudo em mim, e como é que eu conseguia pegar naquilo e transformar em algo assim? Quando lhe confessei o que me consome, e o que me tem consumido depois daquilo que ela tinha lido, ela sossegou-me. "A dor escolhe-nos, tal como o amor, para no capacitar e dar ferramentas, que mais à frente havemos de necessitar", e talvez seja verdade, que há um propósito em tudo isto, até mesmo vir aqui em dias em que não suporto o peso e venho aqui largar um pouco, seja para me expôr em ferida, ou pelo contrário lembrar que há algo de bom em que cada dia em que se acorda e nos entregamos ao que sentimos e queremos, mesmo que não tenhamos o que desejamos, e passemos a vida colados a uma ou outra pequena grande luz que brilha a nossa vida, aquecendo-a, deixando-nos na sua órbita, mas, em última instância, nunca se dando totalmente às leis da gravidade,

Por isso escrevo sobre dor. Porque não é, de facto, dor, mas sim vontade de sair disto, vontade de querer mais, vontade de mudar, vontade de recordar e de honrar, e vontade de não desistir, e de querer o que não pode, de não deixar morrer esse poço de que falei, porque se existe significa que estou vivo, e mesmo só, mesmo à deriva, mesmo com mãos ocasionais que não só me agarram, mas me confrontam, e num braille da pulsação me dizem "Estou aqui, mesmo que o aqui seja o nosso algures", vivo, e sem me esconder, espero Não sei se por ti, mas espero por mim, de certeza. Espero chegar um dia e poder dizer: "Hoje não dói, mas até queria que doesse, só um bocadinho aqui na barriga", e ao mesmo tempo sorrir e descobrir debaixo dos meus pés um segredo que me cresça asas nos tornozelos.

terça-feira, novembro 18, 2014

Contra/A favor



"Conta-me a história", pedes-me, e não há história para contar. Há pequenas narrativas que se juntam, que nem chegam a formar um todo. Desconheço o que queres que te conte, e notas a minha indecisão. Por isso, reformulas: "Fala-me dela", e aí a minha hesitação é outra. Mencionar-lhe o nome é tê-la presente, e se quisesse isso não me teria afastado. Não falar é esquecê-la, e se desejasse tal infortúnio não me isolava dentro de mim desde que lhe disse que não conseguia viver comigo, e por isso escolhia estar sozinho na sala da minha pulsação. "Há alguma coisa que possas dizer então? Pareces fora de ti", e pela primeira vez algo acertado surge numa conversa que não quero ter, mas que forças uma e outra vez. Fazes demasiadas perguntas, mas esse é o imposto fixo de ser cientista. Aqui não há ciência, a não ser que se conte a improbabilidade como uma teoria que define o mundo.

No meu silêncio evito-me, e por isso não lhe falo de momentos que me acertaram o compasso da vida, todos com ela. A abertura em prestissimo de compatibilidades, passando a um primeiro movimento alegricissimo, a orquestra em estrondo empurrando-nos um para o outros só com sopros, e que se substanciou no segundo movimento, quando no topo de todo descemos ao que de mais íntimo existe em nós e encontrei molto vivace nos teus lábios, num beijo adagio. Não sei quem tinha a batuta do concerto, mas por mais que tentasse fugir cavalgando valquírias, não consegui fugir, Nem tu, acho. A maior luta que existe num orquestra é entre o músico e a música: o primeiro pode até negar-se a servir a segunda, mas esta é uma força muito maior, mais obrigatória e urgente, que se impõe e não deixa espaço para dúvidas. Por isso, que posso eu contra quem me guarda nos braços e insiste em dizer que está tudo bem, que o planeta é nosso e só nosso, que a galáxia e os cosmos não interessam, e que enquanto estivermos deitados na relva, o granizo nunca a queimará? Tocas a música do que não consigo cravar em palavras num compasso ternário: um beijo, um abraço e a curvatura do teu sorriso, numa arquivolta dos sentidos. Deixei de ser clássico: baralhas-me e transformas-me em imprevisível jazz.

Não quero contar tudo isto, mas penso. Evito o que se segue, e quero guardar o que de bom ofereces, mas como um eclipse, surge tudo o mais que não aguento, e sai-me "Como é que algo que nos torna mais do que somos, que mal caibo nesta altura toda, pode deixar em mim uma falha sísmica tão desoladora?", e tu, cientista, tu, para quem a matemática é a suprema viga mestra das voltas do planeta, tens resposta pronta: ""Porque deixas. Porque isso de sentir é para quem gosta de descer lentamente à sepultura. Amar alguém é entregar um botão a outro, e esse botão, uma vez pressionado, dá-lhe o direito de te explodir quantas vezes as necessárias para que nada sobre, e caias sob o peso da tua própria felicidade. É uma lei universal da energia: quanto mais dás, menos tens; uma vez sem nada, ficas isso mesmo: ficas nada." Mas eu não me sinto nada. Pelo contrário, desde que te te deixei ao largo que me sinto demasiado, seja em confusão ou sentido ou talvez demasiado cheio de estar vazio; e nem toda a ciência e lógica podem fazer sentido ao que me rói: como é que fazer algo que é bom para mim é também passo largo para me maltratar como se fosse o meu inimigo eterno. De certa maneira, sou.

Uma palmadinha nas costas, e sorris. "Pois, mas é assim o mundo", e este é o código de quem não percebe nada, e acha que no meio dessa selva aleatória do ecossistema humano as coisas podem fazer sentido só porque sim, e porque tudo tem uma maneira de se entender, mesmo que não haja explicação. Achar que se pode amar alguém com quem não se poderá ficar, e mesmo assim permanecer inteiro o suficiente para viver o mundo. Sou pedaços, partidos e espalhados, e como arames que se atraem por um pólo magnético, continuam a encaminhar-se para ela, que não é minha, nem pode, e continuará a sua vida, enquanto eu me sento com alguém que claramente a percebe, mas não a conhece. Quando me despeço do cientista, ele fica entregue a cálculos, mas eu permaneço o resultado de uma soma mal feita.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Movimento



Arranquei quando o sol chorava, pois estava de lua. Girar a chave para dar um giro apanhou-me de surpresa, mas de certa forma estava à espera que o carro me levasse para longe dali e para perto de mim. Não me lembro bem o que me incomodou dessa vez. Talvez a grande pilha de pequenas coisas, ou pequenas coisas empilhadas à grande. Caiu-me tudo em cima, e a solução foi saltar dali para fora. Uma estrada é uma via de comunicação, mas quando estou fechado no interior de um carro, corta o acesso ao mundo, enquanto me conduz a um universo que me espera num encontro ao qual insisto em chegar atrasado. Cansei-me disso, e hoje vou partir no alcance da hora marcada.

Lembro-me de quando parei, ás 4 da manhã, no topo da montanha, e aí fiquei, comendo amendoins, até ver o sol nascer, enquanto a solidão do mundo me acompanhou; recordo-me a viagem de 36 horas até ao centro do deserto, onde renasci, e morri, e ressuscitei e quando voltei já não era o mesmo; vagamente me surge defronte dos olhos um clarão de luz que era uma indistinta cidade, onde encontrei duas aventuras, uma delas com pernas. A outra, sem pernas, foi a presença caridosa da noite, dando-me colo e escrevendo segredos no meu cabelo. De manhã, nem me lembrava delas, mas lembrava-me das pernas e esse talvez fosse um dos mistérios da noite; há na minha cabeça a ténue miragem de calor que a praia me trouxe, há dois meses, quando dormi três noites seguidas na areia numa preia-mar da alma. O sal da água conservou-me fresco, e em cada mergulho, mesmo a 10 graus de temperatura, sentia-me primordial e único, um pequeno corpo num grande corpo sem fim visível, mas com ele assinalado, um pouco como o empurrão que me leva à água até os meus lábios ficarem roxos, e eu ser quase insensível ao tremor, e aquele prazer de me enrolar na toalha e ficar sentado numa conversa de pupilas sobre um púlpito de areia,l uma oração a Nossa Senhora do marulhar, murmúrio de avé maria das ondas, bendito sou eu entre os perdidos que se encontram fora do mapa. Cuspi todos os mafarricos numa pedra, e fi-la levitar várias vezes até entregar ao mar o que eu próprio não sei fazer desaparecer. Dizem que nada lá fica, e que o vasto espelho reflectirá tudo o que nele quisermos perder; e por isso, nunca mais fui ao mar.

Não sei para onde o hoje me puxa. Talvez para o amanhã, mas sempre preso a ontem. Estilhaço-me, e vou a dez mil sítios, rodo como uma ponte que deixou para trás os pilares, corroídos, e não sabe bem se caiu no fundo do rio ou se ela própria é o fundo de qualquer coisa. Quando me partir em tabuleiros, não serei passagem para ninguém, mas eu próprio pararei para tomar notas. Uma caneta e um bloco, um caderno de suspiros e tremores, alguns dos teus lábios, alguns dos meus, todos no chapéu do mundo. À pala de ti, dou por mim empalado. Em Guarda, ou noutro lado qualquer. O carro avança e eu já sei como começar o traço nas folhas. Era uma vez o que foi vez nenhuma, mas o que também aconteceu sempre que fomos. Talvez viaje para longe de ti, mas será isso possível quando és o meu meio de transporte para fora do estrondo do mundo em chamas?

O acelerador do carro não responde, nem me mete travão, mas não é motivo para marchar atrás do que não nos eleva.

terça-feira, novembro 04, 2014

Lisboa e a menina moça



Voltei onde já fui feliz. Onde, quero eu crer, ambos fomos. Desta vez, para evitar um deja vu em câmara lenta melancólica, evitei Sete Rios e desci no Oriente. Foi estranho, isto de pôr os pés numa cidade que nos diz tanto e ter de conjugar-me no singular. Senti a falta do monóxido de carbono do terminal, senti a falta de ver o teu carro e de entrar para um mundo de coisas boas numa viagem de dois dias, da casa carnuda em que recebias os meus lábios, dos teus olhos a saltar à corda com mil e uma coisas que faríamos, e até aquelas que sabíamos não caber no nosso tempo disponível, ainda me lembro muito bem da falsa espontaneidade do teu sorriso, quando querias convencer-me de que era daquele momento, mas eu sabia bem que era de sempre, de todos os dias da semana em que, não estando comigo, te imaginavas. Chegar a Lisboa era regressar, de facto, e a mim mesmo. Ao que queria ser, pelo menos, e quando estava contigo, senti-me muito próximo. Nunca pensei poder sentir-me em casa numa cidade onde raramente estivera; e no entanto, acontecia de todas as vezes que, em Lisboa, me acolhias.

Recordei tudo isto. Recordar é dar corda ao coração, que se for uma caixinha de música, com engrenagens bem colocadas, toca-te ainda canções que aleijam, mas também confortam. Voltei e não te encontrei, mas sem te procurar, reconheci-te. Sozinho, no meio de um nenhures contemporâneo, cheguei a fechar os olhos para te dar a mão, e até deste, ou eu quis, por momentos, voltar a ser quem já não sou, pelo menos enquanto me tenho, mas sei que nos horas livres do pensamento, ainda vamos aos locais onde fomos, em plural, passar os nossos momentos singulares. Cenas passam na tela, e na sala de cinema os beijos são pipocas, e tudo o mais luz que se desvanece na escuridão e projecta as imagens no ecrã. Já sei o final. Mas continuo a ver, porque as surpresas só me agarram quando não lhes pego. Ali, parado de pé, a nostalgia passa em IMAX, e percebo então que vives em mim como um copo que se bebe sem que moleste a garganta, uma bebida que preciso para enfrentar o resto, mas já deixando de ser alcoólico. Revestes-me num silêncio que partilho,sem que realmente o tenha contigo, e Lisboa volta a ser nossa, ainda que não seja realmente de ninguém, e eu juro que consigo ver ao longe a tua silhueta e sorrimos um ao outro, encolhendo os ombros, com a vida em ciclovia e nós sem bicicletas.

E sem medo, damos as mãos, já sentados, e permanecemos num caos silencioso e desordenado. Não sei se morrerei um bocadinho de cada vez que vivo esta cidade, digo-te, e talvez isso faça parte de me refazer, até porque és tijolos. Sobes para cima do meu muro, e sem teres intenção disso, desapareces felina, o sorriso o último vestígio de que estiveste não estando. Tranquilo, anoto algumas palavras. Farei delas isto que se lê, e algo mais que guardo em mim, um pequeno gira-discos onde o teu riso passa em stereo quando fecho os olhos e quero ser mais um a crescer em mim. Sem dor, sem mágoa, sem mais nada que não uma centena de peta-zetas na memória, cada uma um brilho na tua cara. Em Lisboa, lembro-te menina, lembro-te moça, e o melhor de tudo, lembro-me menino a teu lado, sem querer crescer à força.

Não me esqueço, mas paro de me lembrar. A melancolia tem o seu momento, e outros, aos seus ombros, se tornarão também um exercício de faz de conta; e quando me levanto, regressaste ao carro, a Sete Rios, e aos meus braços. Estás bem, estás comigo, embora eu também esteja noutro lado. Posso ser muitos, posso ser uma versão melhor do que sou, e uma pior, e esta que sou agora é talvez a mais conseguida da possíveis. Mas no carro, abraçados, ficas com a versão que me melhor te encaixa: a que ajudaste a fazer nascer; e aí, podemos mesmo voltar onde fomos felizes, e ficar assim para sempre.

terça-feira, outubro 28, 2014

(Uma gaiola de ideias)



As horas de mistério não se resolvem com os ponteiros. Escondem-se ainda mais nas engrenagens do relógio, e não saem de lá até que aceitemos o tempo como paciência que responde às nossas inquietações. Chego ao equinócio de estações baralhadas, procurando a lenta mudança com sofreguidão e fome, mas não existe neste tempo qualquer banquete: petiscam-se os dias, e espera-se que grão a grão se encha o papo de contentamento trocado. Há dias onde estou bem aqui, evitando-me um quarto nas maçãs de Julho, e esses são os melhores. Esquecer é a parte mais importante da memória, apagar é muito melhor do que guardar e despir as palavras dos seus casacos afiados deixa-nos protegidos contra a anemia da dor; e de todos as vezes que a cama é uma rampa de lançamento para a incógnita do que virá, sinto a vontade de procurar o que tenho e herdei, mas em tons de novidade. É estranho como habitam em nós tempos diferentes, enigmas irresolúveis e um odor a velocidade ilegal de todas as vezes que o vertiginoso poder de nos afundarmos em nós resulta na descoberta de um outro canto de paragem obrigatória. Somos cidades: cada memória, uma casa; cada hora dessa memória, um beco; cada minutos dessa memória, pedras de calçada; e o infinito da lembrança são todas as luzes que na noite do dia se acendem e tornam o alfabeto dos olhares caídos em poesia das cores e prosa da pele. Existir é um ponto de encruzilhadas e cada uma delas cobre-se de horror e espanto em quantidades que não cabem no corpo que se arquitecta em estruturas pós-modernas, sendo que o moderno é não querer lembrar, não querer sentir, e o corpo está bem para lá disso, estás em pós, sem fazer pó do que nos recusamos.

O relógio é o meu corpo, que tem para o tempo a dívida de ser o máximo. O que está dentro do meu corpo, e que o tempo não vai corroendo em pequenas mordidelas ferrugentas, pertence ao que não se pode sequer contar, e só de tentar descrever sem parecer ridículo; e nessa confusão de não saber estar sem conhecer, adivinha-se e erra-se, e volta-se a tentar, e enquanto não se perceber que viver é uma série de passos, e não um plano, a dor é uma poltrona com algemas. O tempo tem várias moradas na cidade. Procuro a minha, e aquela que não sendo minha será um dia.

As horas de mistério são por isso nómadas, e serão sempre de mistério porque não têm respostas: apenas adivinhas em formas de respostas. Por isso mesmo se agrupam maratonas de letras sem que se chegue realmente ao final. Corre-se, apenas; e as horas corridas são as únicas que se aproveitam, ainda que não se entendam.

sexta-feira, outubro 24, 2014

Num outro planeta



A casa na floresta criava raízes sem código postal, e durante todo o ano nem sequer desfolhava. Vivia apenas em dois dias anónimos do calendário, quando Ele chegava do Sul e Ela do Norte. Era como se a realidade abrisse um rasgão, e Eles sem pedir licença entrassem e se encontrassem na casa sem qualquer tipo de indicações. Não era combinado, não era falado, mas acontecia, simplesmente. Um pouco como a casa. Ele e Ela tinham-se conhecido quinze anos antes, num concerto. Ele ia sozinho, Ela com duas pessoas. Uma delas era o marido, que desfiara no novelo de tempo nós capazes de obstruir a maior das aberturas. Viviam há dois anos, e já pareciam trinta, mas volta e meia gostavam-se e sorriam-se e trocavam banalidades comuns, e isso chegava-lhe. Não lhe interessava que o marido não conseguisse distinguir Bela Bartok de Bela Lugosi. ela era a sua bela, e isso chegava-lhe. Pelo menos, até vê-lo. Demorou, estava três filas à frente. Muitos ali pareciam viver a música, mas apenas ele se sentia à vontade o suficiente para lhe chamar existência. O movimento do corpo era um avião para fora daquele espaço, e foi a primeira vez que se cruzou com ele, algures nos céus onde ambos repararam que a intensidade é uma apresentação melhor do que o olá. Olharam-se, ele não voltou a ver o palco, e estava sozinho e ela só acompanhada, e quando os lugares da sala desapareceram só ficaram eles e uma redoma de som bandido na transumância dos afectos. Findo o espectáculo, o pretexto foi simples: Ele percorreu todos os lugares só para chocar com ela. Disse a si mesmo que era simplesmente para tocá-la, mas mais tarde pensou que se não lhe chegasse a tocar, era como se Ela fosse tão vaporosa como as notas, e sobrasse apenas como o breve produto de um abdominal da memória. O marido falava baboseiras e mais interessado no palco do que no espectáculo, não reparou quando Ele deixou cair um cartão nas mãos dEla, e nem lhe disse nada, mas Ela soube logo, e roçou com o dedo na perna dEle porque queria agarrá-la e fazer dela um instrumento de percussão, e viver na sua intensidade, na esperança de que não houvesse maneira melhor de sentir a música do que interpretá-la no corpo de alguém que a vive.

Telefonou-lhe no dia seguinte. Ouviram as suas vozes, mas as palavras ultrapassaram-nos. Tudo era demasiado veloz, e dois dias depois encontravam-se, Ela descobriu que ele também era casado, com uma mulher que não dizia baboseiras, mas se babava por banalidades de vez em quando, o que o aborrecia banalmente. Não se conheciam, mas sabiam-se, desde o momento em que sorriram à mesa e sentaram as vidas num copo, e meia hora depois, confessavam intimidades depois de terem sido íntimos. Uma vez no carro; outra no parque. Ambas sem música, ambas sinfonias.  Bateram palmas um ao outro, beijaram as tábuas do palco, e nesses beijos encontraram mil e uma razões para mudarem tudo ficando na mesma. Os lábios ganham coragem, mas não a devolvem, e por isso nunca se atreveram a fazer par. Sabiam apenas que não conseguiam estar no leito do rio sem saberem que havia no meio aquela ilha; mas por outro lado, viver na ilha seria sempre curto pelas inundações que acontecem quando chove demasiado e a ilha é limitado espaço de protecção.
Há uma certa segurança na banalidade, disse ela. O medíocre é a nossa referência quando a vida nos entrega moedas de lata e queres comprar o que não podes. Compras o que vai chegando, e se tentares saltar demasiado, perdes-te e nem sequer cais no chão.
E Ele percebeu então que nunca seriam ambos. No entanto, podiam dar-se ao luxo de se enriquecerem uma vez por ano, pensou, e disse-lhe, e ela concordou. Mais  do que uma vez seria tortura, e menos era apagar esta batota, e há que trapacear de vez em quando, só para saber que os limites da vida foram feitos para se saltar à corda. Naquela noite, naquela altura, deitaram-se a perder sem que tivessem algo mais a ganhar que não fossem dois dias. Apenas  e só, e há quem não se perca por uma vida inteira. No meio da cobardia, dois dias era um grito de coragem, um incentivo a serem mais. Mas nunca foram mais, porque  a vida é muita vezes pensada por fases, quando se tratam de momentos. Eles preferiam momentos ocasionais a um nada possível. A certeza do pouco e a incerteza do muito são irmãos gémeos e vestem de igual. no entanto, um calça sapatilhas para correr, e outro escolhe sapatos na ilusão de que a boa aparência é um estado civil.

Descobriram que se faz muita coisa em dois dias, quando a afinidade das pupilas dispensa o tédio das palavras. Caminham descalços, e deitam-se no encalço das árvores, e das folhas. Não entram na casa antes de fazerem uma casa só para eles; e quando abrem a porta, é para se deixarem do lado contrário: Ele joga às escondidas com o lóbulo da sua orelha; Ela perde no macaquinho de chinês de cada vez os seus lábios se põem a jeito no seu pescoço saliente. Emigram um para o outro, e um dentro do outro, e quando estão dentro é como se assistissem de fora ao mesmo tempo, e se percorressem como um carrossel de prazer, aos solavancos, mas cravado e veloz, onde se agarra com força e se grita como se o prazer fosse igual ao medo, e no final se respira de alívio e se repete em cada investida, e em cada vez que ela se aceita como a que gosta de ser fodida várias vezes, até sorrir muito para lá da casa e da floresta, e Ele ser aquela sinfonia intensa que a atraiu, e que de cada vez que ela o segura, todo ou às partes, treme nela uma febre mercurial que não tem cura, só cuidados paliativos,que vão segurando as suas pontas e não são nem banais nem medíocres: são a vida que ela gosta de experimentar sem viver. Aquela casa é redução da existência às unidades básicas: respira-se, come-se, fode-se, dorme-se e repete-se. Por vezes, come-se e fode-se em simultâneo, e nem isto é complicado. Lá fora, até ler ao final do dia é complicado; e de todas as vezes que Ele vai jantar a casa dos sogros, lembra-se sempre de uma feiticeira de joelhos a transformar todas as equações numa conta simples de somar. Ela guarda sempre para 365 dias um em que não tem outro remédio senão declamar poemas de gemido enquanto procura saber se se equilibra tão bem de gatas como em pé. A resposta é não, mas há beleza na queda, uma longa queda de dois dias que termina mal trancam a porta e escondem a chave no buraco da árvore até para o ano. Até se encontrarem num par que é ímpar, e voltarem a ser apenas átomos simples em choque incandescente, no universo daquela casa, deixando para trás poeira e faísca. Ali, durante dois dias, ardem, para que não se apaguem de todo durante os restantes.

São outros; e ser outro é, nos intervalos de se respirar, a reafirmação do que somos sem conhecer.


sexta-feira, outubro 17, 2014

Procissão dos passos



O luto tem cinco fases, segundo alguns entendidos, mas saltei algumas, acho que todas, e estou num local onde nenhuma se aplica. É estranho ser obrigado a viver duas perdas, mas se custa ao início, alturas chegam em que não se tornada complicado escolher. Ambas seguem em frente, mas uma delas é dever e a outra uma escolha ocasional, de entrega a uma dor voluntária que mantém feridas abertas, mas prontas a fechar, com vários pontos finais parágrafos. Faz-se do passado onde habitas um gerúndio, mas no interior, vais-te tornado pretérito perfeito quando um dias foste mais do que perfeito, mesmo depois de já te ter enunciado no condicional, que é a segunda das fases. Num ponto, tornar-te-ás indicativo de conjuntivos, e aí saberei que não és mais um verbo irregular, e que com regularidade te posso conjugar sem qualquer medo de errar no futuro. Não é uma fase do luto, mas também se vive, tem regras como a gramática e predicados que só eu, como sujeito da acção, posso determinar. Sinto de momento que posso pensar em mais do que és, e isso é bom. Certamente no teu canto, trabalhas noutras coisas, e eu também, pelo menos em quatro cidades que cabem num escritório. São passeios onde circulo sem medo, ajudam-me a evitar buracos, e acima de tudo a não cometer erros ortográficos. Sinto-me melhor do que pensaria. O bom nas situações limite está mais no limite do que nas situações; e esse limite é bem mais longínquo do que acreditávamos. A minha capacidade de aguentar dor é muito maior do que me dava crédito, embora haja momentos em que sinto que um metro e vinte de pernas é tão metafórico que vira figura de estilo. Esses momentos passam.

Textos outros há que já só contribuo presencialmente duas vezes por semana. Já nem vejo o local como cemitério, mas de cada vez que entro imagino um recreio escolar. Já fui professor, sei como é. Em vez de campas, vejo carteiras; os alunos têm o seu nome escrito e há faltas de material. Em vez de imaginar o meu pai deitado, está bem sentado, levantou-se da carteira e tem espaço, tempo e acima de tudo vigor para conversar com velhos amigos que não via há muito, inclusivé com o Nana aqui da frente, que, coincidência, está apenas ali a duas mesas, e são quase colegas de carteira. Sinto que em vez de esperarem pela eternidade, todos estão apenas a passar o tempo, e que a rebaldaria começa precisamente quando ninguém vê, nem arrasta a sua tristeza justificada pelo chão calcetado. Reúnem-se como noutros tempos, e voltam a ser, mesmo que não sejam de facto. A morte é pouco isso. Só se deixa de viver quando o nosso nome passa a valer tanto como o pó, e eu sei que o seu nome continuará a dourar durante muitos anos, pelo menos enquanto um de nós que o conheceu for vivo e puder falar de proezas, desgraças e até marretices. A soma do peso de um homem é isso, o que fica para trás e que se mantém à frente, Uma vida não se apaga com os músculos, mas é ligamento para o esqueleto da nossa memória, células nervosas que ultrapassam a bioquímica e numa outra realidade voltam a viver onde nunca puderam estar. Quando estou ali, à tua beira, é isso que imagino. Que de facto a história continua, e não acreditando em planos e cidades divinas e segundas oportunidades, os meus olhos, sinto-o. Quando fecho os meus olhos, vives uma Páscoa. Não tens qualquer cruz, e at+e sorris. De pé, volto a ouvir palavras da tua boca, para dizer que não me penteei. Perguntas se por acaso não perdi a chave do carro, e desta vez não o fiz porque guardei-a num sítio, como sempre me tinhas dito para fazer, e nem te conto de quando há uns dias fiquei trancado a partir de fora. Perguntas onde estacionei, e ele está mesmo ali, tens a certeza que consegues andar e tens bem, até procuras am redor uma barra para fazeres umas elevações, a marca de domínio másculo que Natal sim Natal não gostavas de nos oferecer. Caminhamos para o carro, e só paramos quando atravesso o portão e tens de ficar ali, só porque algém te pediu a ajuda e como sempre, não podes negar. Depois ligas-me, e venho buscar-te. Por certo, estarei aqui mal me digas algo. Nem dizes adeus, mas despedes-te com um ar certo de que compreendo, e voltas as costas, num passo calmo e forte, que põe qualquer alma penada em sentido. Eu peno e sinto-o. Quando chego ao carro, não estás lá.

É esta que me custa mais, tanto que não me custa porque me escondo quase sempre.Só aqui a dor regressa para me forçar as mãos, e para me colocar tudo em perspectiva, a perda e as perdas, o que se perde realmente e o que, no vórtice do ser, apenas já não se tem. Existir é fluxo, tudo a passar e só fica o que se vive. A passagem de uma fase para outra descobre cantos e recantos e aquela velha ideia de sermos realmente muitos é a nossa realidade. Perder é ganhar, de facto, nem que seja comichão. O limite da nossa expansão pode estar nas ilhas dos bem aventurados, e a boa aventura surge quando tudo o mais está perdido, e a única alternativa é deitar o barco ao mar e até aceitar que o proibido está implícito na fronteira do que aceitamos como capaz. Um passo em frente pode ser tropeçar num tesouro enterrado, inesperado e que vai dando ao luto cores alegres, festivas. Um não tem de se ver negro para fazer o funeral da dor. Basta apenas que aceitemos no palco as reviravoltas da pequenina faca que carva os nossos trilhos num mundo de madeira, um pouco como aqueles pequenos mundos guardados numa certa gaveta de uma mesa de carpinteiro onde aprendi a chorar sem uma lágrima.







segunda-feira, outubro 13, 2014

Votos públicos



Neste sábado que passou, tive o enorme prazer e honra de ver uma das minhas incontáveis bocarras a transformar-se num momento de potencial humilhação pública. À mera sugestão de que poderia ser colocado defronte de uma plateia a debitar coisas sobre um personagem histórico português, Viriato, sobre o qual apenas li umas coisas em livros diversos, um amigo que lançou um livro que envolve este poderoso símbolo da resistência, e tomou a deixa para me pedir se não podia, então, passar por expert noutra coisa que não seja fazer figuras de urso. Encurralado pelo pedido sincero e simples, não tive como dizer que não, e foi assim que dei por mim em Viseu a participar num evento que nada tem a ver comigo, e tudo tinha a ver com a figura principal do escritor, cujo entusiasmo era visível, o orgulho indisfarçável, e a ingenuidade da fé que eu poderia contribuir, de alguma forma, para elevar a fasquia do momento um dado adquirido de cada vez e que me olhava com aquele sorriso tonto de quem vai depositar no mundo um labor que sai de nós. De caderno à frente, com uns rabiscos e anotações, lá me pus a falar sobre pastores e guerreiros, sobre montanhas e montes, sobre rótulas para sempre perdidas e oportunidade que devem ser não só agarradas, como calcadas. Palmas choveram, certamente para me calar e interromper uma torrente quase metralhadora de factos, piadinhas e até a proeza de recorrer a "Breaking bad" a propósito da expansão romana na Península Ibérica. Em suma, não comprometi, que era sempre o meu objectivo. Sessão de autógrafos a correr, compra-se um exemplar para guardar numa lista de leitura que por agora deverá estender-se, pelo menos, até aos Cárpatos e num aperto de mão, o novo autor literário lança-me uma questão que tenho ouvido e lido de há alguns meses para cá com mais insistência, mas que está presente desde que uma professora de Português me convenceu de que tenho algum jeito para tecer tapetes de Arraiolos de letras: "Então, quando é que escreves um livro?"

A pressão existe, não é nova. Não posso precisar quantas vezes escutei este desafio, mas foram as suficientes não só para tremer perante o projecto, como também para me orgulhar desse encanto que a minha escrita pode causar no comum cidadão. Numa pausa, deixem que agradeça a toda a gente que me lê, aqui e noutros formatos. Sois todos gente que vive na pacatez da vida, e durante alguns minutos entregam-se aos meus delírios. É corajoso, mas não só: os comentários que me fazem a seguir, os likes no Facebook e o desejo ocasional de saber quando é que sai próximo encorajam-me. Confesso que não comecei a escrever para impressionar ninguém em particular, mas nos últimos meses, também porque comecei a sentir a minha escrita a evoluir para um nível cada vez maior de pureza, sensibilidade e transparência, passa-me pela ideia o que poderei provocar nos outros, nos seus sentimentos, até se aquilo que cravo numa página virtual se pode desfolhar em corações reais.Há qualquer coisa de muito reconfortante nas reacções dos outros, no seu gosto, no seu empenho em permanecer na órbita da leitura que proporciono, como se fossem pequenos planetas em forma humana que tomam as minhas linhas como asteróides potenciais. Saber que já provoquei lágrimas a alguém é embaraçoso, mas agradável em simultâneo; ler que as patetices que me ocorrem nos recantos da noite conseguem, de facto, ajudar alguém faz-me sentir menos pequenino.Quando toda esta curta multidão me tenta convencer a escrever um livro, não é que me abane, ou sequer me sinta obrigado a fazer disso uma missão. Deixo cair a sugestão para um canto qualquer da cabeça, e lá fica ela, a marinar. Eu respeito muito o acto de parir um livro, como objecto de eternidade e montra de mim mesmo.

No entanto, naquela apresentação, enquanto ouvia o meu amigo falar, começou a surgir aquela pequena inveja que só aqueles que sofrem de megalomania intelectual, sem no entanto o admitirem abertamente poderão perceber e aceitar como vulgar: a ideia de que alguém tinha lançado um livro e eu passara dez anos da minha vida com ideias vagas e preguiça tão latente que me colocaria num clube com João da Ega e Carlos da Maia. Pensei em várias coisas, muito na dor que permitia continuar aberta para me inspirar e de como um blog é um reservatório pequeno para acolhê-la, pensei no meu pai e de como seria triste e uma vitória em simultâneo poder deixá-lo viver uns anos mais entre nós através de páginas de papel. Numa neblina, num fogacho que pode até apagar-se, a ideia de arrancar de mim qualquer coisa de minimamente editável incomodou-se e não se deixou tapar. Manteve-se e mantém-se por aqui, e obrigou-me, mal cheguei a Coimbra, a recorrer ao caderno onde anoto todas as ideias, por mais incipientes e diáfanas que sejam. Surgiu ali a febril procura por uma desculpa não para fugir a algo que toda a vida me rodeou, como uma matilha de desejos, mas precisamente para finalmente me colocar numa rota de colisão com um dos meus maiores receios: o fracasso.

Faço aqui então, a todos vocês que me incentivam e que foram, lentamente, plantando a ideia, a promessa de que no espaço de dois anos tentarei escrever um livro. Não me quero comprometer a editá-lo, porque isso são outros quinhentos, mas pelo menos a colocar, de fio a pavio, um tapete para todos espezinharem ou limparem os pés com respeito, entre uma ou outra gralha que me escape como aqui sempre acontece.Nem sequer lanço a promessa de tê-lo escrito. Farei o que posso: tentar. Dentro das minhas possibilidades, e na moleza da minha vontade, é mesmo o que posso fazer. Quanto ao resto, depois saberão.

A má notícia é que terão de me aturar por aqui. Lamento, terão de sofrer tanto quando o público do evento de apresentação do livro que mencionei inicialmente.

quinta-feira, outubro 09, 2014

A sombra e a luz



A brisa vinha do sol, e as sombras talvez tivessem sido sopradas também; mas entre os ramos das árvores recortavam-se formas que montavam acampamento em torno da nossa toalha. A ideia do piquenique foi tua, mas a ideia de te evitar fora minha. No entanto, certas ideias não foram feitas para vingar, e a minha foi uma delas. Trouxeste o cesto, pediste-me apenas que levasse a toalha, e eu assim fiz. Querias que reparasse em ti. Há algumas semanas que nos tínhamos conhecido, e desde então que fizeras de mim a tua missão pessoal. Cada gesto meu encontrava um espelho na tua reacção, e se eu falava, tinhas logo qualquer opinião para lançar, ou uma simples piada que não me fazia rir, mas me dispunha a ser posto em sentido pelo teu sorriso. Nas poucas vezes que me convenceras a sair contigo, o teu pequeno espectáculo revelou-se, e o palco das ruas iluminava de cada vez que os teus olhos me tratavam como a única razão para se viver na cidade. Há duas noites, sentados no parque, ensinaste-me trezentos nomes de espécies de árvores, quem sabe pela pura vontade e nervosismo de criares raízes em mim. Criavas curvas com as frases, cada letra uma vertigem, cada ponto final uma corda suspensa convidando-me a agarrá-la. Em mim, habitava no solitário mundo das casas de árvore sem nome, e se reconhecia a floresta que plantavas em meu redor, na esperança que te desse a mão na clareira restante que com tanto cuidado criaras para mim, fingia que não estavas lá. Cada passo teu era um buraco que te criava, e nas tuas vontades, fazia-me de preguiça.

Nos teus cabelos existem segredos, mas não os meus. Esses estão dentro de mim, e não os conheces, nem à extensão da planície de vendavais que é o meu planalto emocional nas montanhas do que já passou. Não te vou dizer, porque quando solto a tempestade, envelheço mais depressa. Cada vez vez que amei sem retorno, esmoreceu e sumiu um pouco da minha alma, e o meu maior medo é que não sobre sequer o suficiente para me tornar fantasma depois de morto. Tu sorris um chamamento, eu pressinto uma armadilha; vestiste-te para me atrair só a mim, e eu vejo um problema geral; fazes-me rir, e eu quero chorar; cada vez que passas a mãos no meu cabelo, a tua pele é poeira, e o meu cabelo torna-se aço, e tu és a sombra do sepulcro de um túmulo onde já várias vezes fui cadáver, e retornei, e prometendo a mim mesmo que jamais voltaria a morrer, caí de novo em campas pouco sólidas. Aqui, no nosso lugar ao sol, sinto-me no lugar do morto quando tentas, pela força de seres a luz no meio deste parque onde a banalidade também corre e se senta em bancos, soltar-me do que não quero ser, e no entanto é assim que existo. Ainda me lembro do que fui, do que conseguia ser quando me tornavam na floresta dos seus passeios, mas é apenas um rumor que ecoa algures na minha cabeça, que sonha afundar-se, na água que a arraste e não acorde jamais, naquele marulhar do que entra e rodeia, num murmúrio dentro de mim que me afaste das mãos que me querem tirar do fundo, e eu pertenço ao fundo e aqui moro e tantas vezes aqui bati que acho ser esta a minha morada e tu vens não sei bem de onde, porque nos conhecemos através de alguém que desconhece alguém e mal tem conhecimento de mim, e engraçaste com o que disse, sem que tenha dito sequer algo de engraçado, e colocaste na tua cabeça que era eu, e não outro habitante da superfície, quem querias trazer para um piquenique, fazer feliz, talvez beijar, e sorrir ao ombro, descobrindo não uma floresta, mas um ecossistema total onde te tornes auto-sustentável.

É natural. Mas arrumado este lanche, passas para a sobremesa, e o teu sorriso dá lugar à alegrias entre dois lábios. Inclinas-te, eu tremo um pouco e desvio-me. Num segundo, sabes que não é de ti. E perguntas o que fiz eu. Porque é que não te consigo dar a mão, e quase sem lhe dar tempo para que se recomponha, dou-lhe a mão e digo que não é nada, que na palma da minha não há nada para ti. Não há nada que a faça crescer. Que mais tarde ou mais cedo, ela vai fazer como todas, e vai-me dizer que há vida para além do que se vive, e que se amou enquanto se esteve e isso é o mais importante. Mas o mais importante é mesmo estar,e quando ela não estiver, morrerá mais um pouco do que me dá vida, vai-se ela embora e eu fico em câmara ardente até só ficarem as cinzas. Desconfio quando me torno o desejo de alguém, e quando me oferecem abraços que se querem tornar cobertores. Tudo aquilo que representas é o que não acredito, e o que deixei de acreditar: que algures exista quem se dê ao trabalho de me fazer seu, ou se entregue ao ponto de se tornar minha de vontade própria e sem pensar que fica dividida ao meio. Quem, elevando-me, pode acompanhar-me no voo. Quem não é obstáculo, quem me traz para piqueniques e no meio da fúria e da dor, dá o beijo que me deste agora para me calar, porque estou a falar há tanto tempo que já nem me lembro, no meio do beijo, a razão por que te recusei, e quando as tuas mãos são veludo na minha cara, a tua boca como que apaga tudo o que queria dizer e se deixa estar, lendo o meu vazio, mas em verso, quando este era prosa.

Beijas e nem foi necessária qualquer pergunta. Estendes-te na toalha e deixas espaço para mim. Não há convite, e eu aceito-o. Dás-me o teu ombro e olhas o céu. Dizes-me "O agora é nosso. O amanhã será, mas ainda não veio. Como não vivemos lá, não conta. Este ombro existe, e a tua cabeça também." Agarras na minha mão, coloca-la sobre o teu decote, e lanças-me "Prever o futuro é muito bonito, mas o teu está aqui escrito e já assinei por baixo. Podes escolher o teu destino de cinzas ou estares destinado a queimar-me. Não te levo comigo, mas gostava me levasses contigo ao que não viveste e queres viver, ou então ao que sonhas repetidamente à noite, ou mesmo quando ouves da minha boca, e com paciência, trezentos nomes de árvores. Da minha boca, ouvirás o teu; e eu da tua, quando ouvir o meu, é como se tivesse sido novamente baptizada."

Não sei se leste isso algures. Quando acabaste. lembrei-me porque escolhi ser alguém amando. Porque o teu ombro é céu, e porque o teu beijo foi um foguetão.A minha mão pousa nas nuvens, e quando os nossos olhos se cruzam, dou por mim ansioso por descobrir onde se escondem as estrelas

segunda-feira, outubro 06, 2014

Passagem de nível



Desde que o meu cérebro me começou a mentir que fui pedindo ao meu acaso que tratasse de mim. Os dos hemisférios bem podem dizer-me que estou bem ou estou mal, que posso seguir ou que devo continuar sentado, mas o instinto que me rege ainda é o barómetro da pressão atmosférica que oprime ou sopra em Zéfiro por dentro de mim. Por isso, tenho-me entregado a um pequeno exercício de dor todas as noites, antes de ir dormir: meto por um atalho e esperam-me trabalhos quando surge a tua foto no meu ecrã. Nem me interessa o que está escrito, nem sequer o que fazes ou pensas ou queres: retorno sem ponto e voltamos a encontrar-nos nos teus olhos, que felizmente estão longe. Quase reflexo, a minha boca molda-se em lembrança da tua, cruzo as pernas desconfortável e uma pequena dorzinha dá de si, e dá em mim, já agora. Não o faço porque me agrada a mágoa, nem porque o saudosismo é o melhor amigo de não seguir em frente. Apenas pergunto a mim mesmo se já passou e se estou pronto, e a resposta tem sido não.

Apenas duas mulheres na minha vida me viraram por dentro, e se uma será sempre a incógnita das minhas equações emocionais, tive a plena sorte de ter sido correspondido pela outra, que me trilho e percorreu, e ainda se estendeu num prado de saltos e corridas, e de magia que não existe em qualquer varinha de condão, pois só dela era o condão de me tornar mágico. Quando deixou de estar, a magia não sumiu, e em fluxo guia os meus gestos e arranjou casa no sótão das minhas tralhas cá em cima. Não vai sumir, nunca; e não é um problema para mim. Uma coisa que descobrir sobre mim, desde cedo, foi a de que quando entrego a alguém essa imensa massa enrodilhada de guitas que sou eu, irei ter amor por essa pessoa para todo o sempre. Não consigo conceber de outra maneira. Amar alguém não é passar tempo ou partilhar gostos ou cumplicidade. É um acto de carnalidade pura, não a que beija e abraça e possui, mas que, dentro de nós, quase constrói uma casa com fundações para outra pessoa habitar quando quiser, no maior conforto. É mais difícil demolir uma casa do que adaptá-la, e por isso, quando chega o momento, construo uma parede e mesmo dentro de mim, estás fora do espaço que uma vez te concedi para que me tornasses feliz na estúpida ilusão de que éramos mil, e nesse espaço eu agarrei em ti e fiz-te a melhor coisa que a minha personalidade o meu ser criaram, naquele ponto onde me arranjaste num desalinho e fomos o que devíamos e o que merecíamos. Findo esse tempo, continuamos a merecer-nos, mas se calhar devemos ser outra coisa, ou estar noutro modo.
Todos os dias mudo, e se num dia te berro e noutro te choro, há aqueles em que apenas me deito, e sorrio quando abro uma gaveta e te encontro lá. Quando a fecho, posso correr-te aos pontapés do meu quarto, mas não o faço porque não existe justiça, e as pessoas perdem-se e encontram-se pagando sempre um preço, que é o outro. Não me importo de te ter comprado; e durante muitos meses pensei se te merecia, e se fiz tudo o devia para a tua manutenção. Inquietou-me; e agora aceito que não sou uma criatura divina, e que certas coisas não se controlam, que nunca te quis sequer controlar, que a tua vida procurará um sentido, e até encontrará, e eu não faço mesmo parte dele porque sou aquele que faz sentido num momento, mas que todos os momentos passam, e as dúvidas e inquietações ficam e só podem ser respondidas por ti, sendo eu uma vírgulas quando procuras pontos finais, exclamações, prefácios e epílogos. Sou um livro com muitas linhas e versos brancos, mas sou mais prosa do que poesia. Se calhar, De vez em quando também consigo voar, ainda que pareça ter raízes nos tornozelos. Tu mostraste-me isso.

Também te mostras na foto com que me castigo todas as noites. Mas já vai doendo menos, como se te consumisse em doses menores. É um remédio santo para a dormência, e cura para o desfiar anónimo dos dias. 

Mesmo que viva agora em mim, e tu estejas num anexo. Sei disso. 

terça-feira, setembro 30, 2014

Setembro



O meu pai faria hoje 58 anos. Melhor, faz hoje. Coloco o meu pai no passado, mas apesar da marcha irrevogável do tempo, está em meu poder deixá-lo no presente. Muitas vezes esquecemos que não controlamos tudo, mas a nossa percepção é isso mesmo, nossa. Viver o ontem ainda hoje é uma escolha, e se bem que a prisão do passado é perpétua, não tem que se sempre má. Por isso, somo pequenos actos de rebelião. Quando visito o meu pai, falo com ele como se o encontrasse em casa, ou seja nada. Mas imagino-o a olhar de quando me vez, como se me visse saído de Marte, e a voltar a atenção novamente para algures que o confortasse mais com a realidade; e hoje mesmo, levei um pequeno bolo, com uma vela, e cantei-lhe os parabéns como se ainda estivesse ali para ouvi-los e começar a bater palmas desalmadamente a gozar, cantando fora de tom e de ritmo, só para desvalorizar uma data à qual, claramente, atribuo mais importância do que ele lha daria.

Eu sabia que Setembro seria o mês de todos os portentos. Para além de um aniversário eterno, os meus pais fazem anos de casados; o meu avô Carlos fez anos no primeiro dia do mês, e ainda em Agosto, mas celebrado invariavelmente no mês seguinte, a minha avô Lurdes também celebraria um aniversário. Começo a ter demasiada gente importante a concentrar-se em tão pouco tempo. Quem se ri é o Natal, que passa a ser, por comparação, muito menos deprimente. Quem vão não volta, mas o problema maior é que nunca sai, e não conseguimos esquecer quando queremos. São sombras, por vezes fugazes, e quanto mais o tempo passa, mais desaparecem os contornos e bem podemos estar certos da sua realidade enquanto gente, mas a dúvida é se aquilo que fica é o que era, ou simplesmente o que acreditamos e fixámos com tudo o que dizem e contam e como queremos recordar. Quando o tempo se dilui, sobra a nossa versão do que é real, e uma ponta de insegurança invade sempre as nossas histórias e memórias. Eu creio que estou certo, que o Vítor, o Carlos e a Lurdes são quem eu me lembrava, e que todas as histórias aconteceram como as escrevo e conto, e que quem parte é uma certeza, e não um fantasma, que por muito que ainda lembre o meu pai, que ainda nem sequer soube morrer, os meus avós também lá estão onde quero guardá-los, quando me tento localizar a mim mesmo, nesta procura da minha individualidade, da qual eles fazem parte, desde as molas ao cimo da escada às sestas na sala e ao colo da Lurdes. Isso também faz parte.

A melancolia vai preencher o vazio do meu pai durante algum tempo. O universo tem um horror ao vazio, e sendo o nosso coração um cosmos, é natural que o abomine também. Já não choro, embora esteja tentado em ocasiões, não só quando Setembro acaba, mas bem para lá disso. Naquele rectângulo, cabem flores e pedras; mas também caibo eu, acima de tudo. Não é só a melancolia que preenche o vazio, são as pessoas também; e não tendo eu, mesmo com a altura, espaço para tapar o contorno do meu pai, consigo ao menos que uma campa não seja só frio e tristeza: é também espaço para cantar os parabéns a quem não pode sobrar as velas, mas incendeia o meu interior.

segunda-feira, setembro 29, 2014

A deriva do universo



Quando uma pessoa decide voltar a ser duas, o mais difícil não é deixar o outro: é voltar a estar connosco. Nem se consegue ficar sozinho, porque parece que não está ninguém onde ficámos; procuramos sempre regressar a outrem quando, de facto, nem sequer existimos. Há um corpo, há uma ideia qualquer de nós, mas não acontecemos. Recuperar isso é a parte mais difícil de partir.Queremos ser adjectivos, mas eles são grandiloquentes e não nos servem de nada, porque as palavras só amam quando do outro lado as abraçam. Palavras que encontram ausência são vazias e não desejadas. Por isso, surge a necessidade de sentar, chorar e durante uns bons tempos, exprimir tudo o que queremos, tudo o que sentimos através de verbos. Na inacção, a acção é uma boa maneira de mostrar que algo mexe, e não estamos bem mortos; e se de facto não estamos mortos, existimos, e podemos partir à nossa procura.

Sinto-me assim. Não sei bem que sou, nem sequer em que ponto estou. Gostava de poder deixar palavras bonitas sobre reconstrução, sobre progresso, mas quanto mais escrevo e quanto mais sinto, mais encontro o meu coração em todos os lugares menos o esquerdo do peito, e a maior prova de demência é usar precisamente o coração como símbolo de tudo o que me levaram, quando devia estar a colocar-me nisso. Não me levaram tudo, mas o que me deixaram foi a incerteza de estar completo.Há dias que se passam melhores do que outros, e se não sentimos que arrancaram algo à mãozada, é porque não demos sequer o que devíamos. É o meu único consolo: queria provar que era capaz de amar alguém, e consegui fazê-lo. O problema é que só eu é que reparei: do outro lado, silêncio, e partida; e fiquei eu, com tudo metido numa mochila e com guia de marcha depois ser atingido por um míssil teleguiado e os estilhaços sumirem na sua pequenez anã de lágrima vazia. Recolhê-los demora tempo, porque muitos não estão mais. Amar outra pessoa é basicamente uma desconstrução, e cada lego desmontado é uma certeza que não se voltará a colocar na ordem certa. Volta-se de uma relação com outra estrutura, e muito diferente de quando entrámos. Isto se alguma vez voltarmos de todo. Muitos permanecem numa nuvem qualquer, porque querem ficar o mais parto do céu que conhecem. Quem aí mora não sabe que se atravessar a nuvem encontra as estrelas, e nessa espera, torna-se num buraco negro que acaba até por sugar o céu estrelado, fazendo-o desaparecer.

Nesta nave espacial que é o blog, sinto-me em órbita de mim mesmo. Cada frase é uma tentativa de me alcançar e descobrir. Cada ponto final encerra uma ideia que abre três, e sinto como se estivesse a fazer a minha própria psicanálise através dos olhos de alguém doente. O diagnóstico ainda não é definitivo e só é reservado a mim mesmo. O que me mói, o que me farinha é qualquer coisa que ela me tirou, e também qualquer coisa que ela me deixou. Não estar, ainda assim ocupa um espaço que ressoa nos cantos côncavos da circunferência universal. Ela como uma gigante vermelha, eu como uma anã branca. Do Big Bang, sobrou a nossa poeira, reorganizando-se numa supernova. Duas supernovas, ainda nebulosas. Sentado aqui, da torra de vigia universal, ainda não consigo ver o que cria a minha. Continuarei sentado, e o meu público, vocês, em gravitação permanente. Ela virou meteoro, em rota de colisão com o planeta de "nem quero saber".


quinta-feira, setembro 25, 2014

Danos colaterais



No princípio do verbo surge a mágoa. A meio, os predicados da saudade; e entre o meio e o fim, a fúria substantiva de quem procura frases para não se ofender por ter amado outrem. A boa intenção é um inferno quando está cheia de pequeninas arestas de pequenas raivas cuja cabeça espreita sem nunca ser vista. Um dia, nasce e não pode ser ignorada. Tudo o que antes foi paraíso e sétimo céu é agora o quinto dos infernos. Onde a certa altura os dedos cravaram beijos nas palavras, hoje pregam estalos em pontos de exclamação! As interrogações não são sussurradas, mas lá dentro, numa caverna, ecoam em brados e urros, e não têm uma forma eloquente ou sequer humana. São sinceridades, tão verdadeiras como o amor que se teve, e que até se tem, mas que por demasiado tempo foi um gorro das cabeças das arestas. Chega o calor da refrega, e o gorro não é necessário: fica apenas o frio da acusação e tudo o que não quis dizer, nem mesmo a mim mesmo, e sai vaporoso num ou noutro assomo de lucidez.

Não quero dizer o que me deixa zangado. Sabe-lo. Preciso apenas da zanga para ruminar a tua pele e não senti-la várias vezes ao dia, sem que exista. Quando te vejo na rua, agora, irrito-me. Não estás lá e estás ao mesmo tempo, e irrito-me a dobrar porque nem sei se te quero real ou virtual. Na maior parte dos dias, não te quero mesmo, ou querendo-te longe, até te quero mais. Mas já é só querer, e o que desejo mesmo é querer-me mais do que te quero. Consigo-o até. Falei em prédios, em rios e em árvores, mas tudo isso sou eu. Saber-me importante, saber-me já de pé vale mais do que conhecer onde te deitas ou moras, e o que fazes, e se me preocupo contigo é porque levaste comigo partes importantes que parecem não ter reparação, mas o tempo é mecânico que cobra demasiado, mas nunca falha. As peças em falta serão substituídas, e é com isto que não me consigo zangar. A grande tempestade a que agora me entrego tem o seu sabor, não tão doce quanto sentir saudades do caramelo que te esconde da espuma dos dias e que saboreava de cada vez que beijava a tua pele, mas o gosto da liberdade de finalmente me conseguir entregar ao assomo de peito que ruge quando te vejo a ir embora sem regresso. Deixo de chorar e formo um alambique de fúria, que se tornará num outro tipo de aguardente.

Por isso, cerro um punho. A mão que um dia te foi cama e sofá, e chegou a ser mesmo almofada. Olho para os dedos meio vermelhos, em fruta, e deles brota um sumo que me consome e é combustível para trezentas mil imprecações sob a forma de olhares. Os meus olhos, que um dia te fizeram festinhas, agora gostavam de te pôr a vista em cima para saltarem das órbitas. Sabem o que viram, e o quanto precisavam de te ter visto quando lhes negaste isso. Pedir desculpa e saberes que te compreendo são areia na tua mão. Pensei que sabia o que sentia, mas descubro que apenas estou a começar a chegar aos termos finais do meu ecossistema sentimental. Armo-me e parto à caça, mas não é de ti: é de mim em vias de extinção. Já não o vejo há quase três meses, mas ele voltará. Não peço desculpa por seres o isco: é apenas justiça poética.

Num verso escrito a ácido, e com aquilo que é verdadeiramente o amor: um bocadinho de ironia, um bocadinho de sarcasmo, e o resto é descobrir o que se é para se encontrar quem se gosta.

segunda-feira, setembro 22, 2014

Nem aí, nem aqui


A realidade adiantou-se-me, porque me atrasei na tua cara. A humidade desceu sobre a terra, e o peso da noite deixava os humores alheios exaltados. Mas à volta daquela mesa, mesmo enquanto as tuas palavras criavam a distância entre tudo o resto e o nosso espaço, a tua cara atrasava-me o olhar. Tentei desviar, dando aos meus olhos a tarefa de se entreterem com qualquer outra coisa, fosse procurando cores em paredes alheias, ou mesmo dando-lhes dentes para que devorassem a lubricidade que se sentava numa ou noutra cadeira, confundindo a noite com qualquer outra coisa indefinida, mas fútil. Mas o único quadro tinha como moldura a linha de circular, sem princípio e fim, e com tudo o que há de mais importante no meio: dois olhos sendo árvores, o nariz um socalco que recebia a luz de uma lua que nem as nuvens conseguiam afastar da tua pele, e na tua boca eu imaginava uma língua em forma de barco, que me conduziria ao estuário onde desaguam os teus lábios.

Pensando na tua boca, parei. O desconforto afastou os meus olhos com os seus dedos, porque de súbito fui tomado pela imagem da minha boca na tua, e de como a tua cara seria tapada pela minha, e a crespidão estragaria precisamente esse quadro que vira. A minha presença em ti, mesmo que só de poucos centímetros acima da epiderme, soava a implacável blasfémia; e esse templo de esoterismo mágico, de segredos cabalísticos em doses cavalares, pareceu-me de súbito passível de ser conspurcado pelo que sou. Pelo minha imperfeição, pelo que sou agora, naquilo que me tornei, no desarranjo que me leva a olhar para a tua face como se olha para uma montanha que o sol acabou de beijar, depois de ter dançado com a lua um tango de amor repetível. Sem que me repelisses, eu próprio fechei-me, e recuei. Os meus olhos pregaram-se na madeira da cadeira; mas a tua cara continuava fixa, os teus olhos deixando-me em parafuso, a tua energia em curto-circuito na minha inabalável vontade. Entre o que olho e o que desejo, está o que posso; e é um facto que posso pouco contra a tua presença.

Levantar-me era pecar contra mim; avançar era pecar contra ti; rogar por ti não se faz a ninguém; resta-me esta confissão, de quem quer e não faz. O meu acto de contrição é olhar para a curvatura do teu rosto, marcando as pequeninas rugas que o teu cabelo, como uma cortina, desvela e deixar-me viver na pequenina dor do desejo que não se cumpre, da vontade sobre a qual não se age, e naquele arrependimento que os dias tornam num bloco de granito inamovível, que já rolou monte abaixo e não se pode tirar jamais porque está lá e não se pode viajar no tempo para deslocar. Na noite que avança, a tua cara é tudo isto, mas é também a esperança de que se consigo concentrar-me no que dizes e no que mostras, é tempo em que não penso em quem já não está. Concentro-me no que existe de facto, e não no que podia ser. Tento convencer-me de que pensas o mesmo. Aliás, passo o resto da noite nessa ingrata tarefa, e invento fábulas que permitam às pontas dos meus dedos encontrar um final feliz no começo do teu toque. Acontecem, de quando em vez. São pequeninos contos, mas todas as grandes histórias começam com uma frase.

A tua cara já foi um ponto final. Agora, é interrogação que me exclama uma pergunta: se der um passo, tropeço? Se der dois, corro? Ou fracturo na mesma se ficar parado, a olhar, em vez de reinventar o meu ciclo vicioso cara a cara com a nascente das coisas secretas?

sexta-feira, setembro 19, 2014

30 frases



A hora em que não penso em ti é aquela que ainda não começou. Contigo, só desperdicei o tempo que não gastei. Colhi as flores da tua pele num campo da minha visão. Votámos sim nas urnas da nossas bocas, de livre vontade e com o poder da decisão que aquele espaço invisível, mas cósmico, entre dois olhares confere a quem se ama. Línguas de fogo em bocas de incêndio não conseguem ter rescaldo final. Fiquei por ti pela ponta dos cabelos, na ponta dos dedos, no fundo das costas. Não penso em ti, logo não existo. Não te dou palavras, logo sou analfabeto. Não vou atrás de ti, logo não tenho sentido de orientação. Ponho-te num pedestal, quando és uma deusa caída. Procuro em ti um tesouro, no teu mapa enganador, onde o "X" está em todo lado. Não te amar parece fútil, mas viver sem ti dá-me uma riqueza que não pensava. Eras a moeda corrente que pagava as minhas contas algures no cofre em forma de coração. Viajámos sem nos movermos, mas também estivemos parados num movimento perpétuo que afinal tinha um prazo. Soube sempre onde estavas, até que me perdeste. Paciência de Job num suplício de Tântalo. Eras um labirinto, e perdia-me nas tuas curvas. Guardavas os meus segredos, mas também me revelavas tudo. Eras esquerda e direita, e não sei como acabávamos sempre por seguir em frente. Deitavas-te sobre mim, como um túmulo que anuncia ressurreição. Eu deitava-me sobre ti, e era um cobertor que anuncia lençóis desfeitos. Deitávamos-nos lado a lado e tombava o dominó. Talvez sejas agora uma miragem no meu horizonte da memória.Talvez esteja a ver demasiada magia no teu espectáculo de ilusão. Talvez tenha adormecido quando me piquei na roca do teu adeus. Ou então, gosto de viver uma fábula de efabulação, em que era uma vez eu e tu, a fazer de conta que não somos eu e tu, e podemos agora ser outros para nos voltarmos a conhecer e fazer tudo de novo. A moldura dos nossos braços mostra agora uma natureza morta. Mas o Inverno está apenas a fazer o turno enquanto não chega a Primavera. As quatros estações em seis meses, o sol todo num beijo, e neve quando não voltaste. Tudo na vida é um ciclo, e quase sempre preparatório.


terça-feira, setembro 16, 2014

Glaciar



A neve não fala, mas existem lá palavras. Não me interessa procurá-las, porque saí de casa descalço. As botas estão arrumadas na prateleira da entrada, e de lá não voaram porque voei eu porta fora, oprimido e pressionado, saí a correr e a arfar, inspirando o ar que é uma navalha, berrando-me que se pode, mas enquanto as pernas se colocarem uma à frente da outra, pode-se até sentirmos a mão com que o corpo se agarra pelo ombro e nos verga à força do limite. O corpo desliga-se e cai na neve, e fico, noite cerrada, a ver as luzes lá ao longe e a não ver o que mais me rodeia. É a escuridão; e é a noite também.

Lembro-me de estar estendido e de a cama ser o mal menor. Lembro-me de os lençóis serem pedra, e de me pesarem. Lembro-me da carta que me escreveste, e talvez a metamorfose tenha começado aí. Não era suposto. De facto, nem a carta era suposta, e a hora em que decidi vasculhar o bolsos do casaco estava adiantada em relação a mim mesmo e ao que consigo aguentar de ti. Consigo, mesmo com o frio a congelar-me os lábios, retroceder todos os passos, desde que me deixaste o casaco à porta de casa, numa caixa de cartão, até ao dia em que me "esqueci" dele em tua casa, e esperei que o trouxesses, mas passaram dois anos e não te lembraste se calhar. Ou se calhar, esqueceste-te das recordações, tudo propositadamente, e quando se esquece de propósito, é sem querer que nós tenhamos um. Não sei por que motivo o casaco ganhou o efeito boomerang. Na carta, não vinha nada disso. Só palavras e obscuridades, mais breu do que a noite que começa a cobrir-me; e para além da carta, o casaco trouxe uma pequenina dose de navalhas, em todo o tecido. Mal o agarrei, uma delas começou a rasgar-me o que tenho cá dentro e não é feito de músculos. Sangrou, mas ninguém viu. 

Olho para trás de mim, e a casa está a uns trezentos metros. O frio congela-me, mas se calhar renasci frio quando te foste embora, e aguento bem. A tarefa olímpica de me levantar corre bem. Os meus pés ainda respondem, e à vez, tentam levar-me para a casa. O vento pára, de repente. É como se a montanha percebesse que tudo tem limites, mesmo a dor, e que nos compreendemos. Certamente que, quando a neve se deita sobre ela, a montanha deve desejar que esta desapareça, e a deixe nua para que se enamore do sol e da lua, numa promiscuidade milenar que não posso conceber, mas aceito, porque os meus pés fazem agora parte dela. Cada pegada minha é calor que deixo na montanha; e cada metro de terra, na superação da adversidade, é quente em mim, na vontade de não sentir o teu peso de nenhuma maneira, e de nem pensar porque é que um caixote com um casaco pode virar a vida de um homem ao contrário como se fosse um terramoto, ou uma manápula gordurosa e viril que prende os tornozelos e me agita. Por sorte, desta vez caí sobre neve.

Os últimos metros são vertigem. A porta luminosa esbate e por momentos penso não conseguir. Uma vez transposta a ombreira, podia desmaiar. Não o faço, ainda assim. Já te dei alegrias demais nada vida e porque a escolha é minha, a minha mão pega no cutelo com dois braços e a tua forma, e lança-o à tempestade. Quando cai, a terra treme. Ou então, são só os meus pés, aliviados, ou mesmo com saudades, ou então são as duas coisas, e enquanto te quero beijar, também quero abraçar uma montanha sem ti, numa casa só minha. Ambas se misturam, mesmo quando não podiam estar mais separadas. Junto-me ao que resta de mim, de outras bulhas e pulhas, e fecho a porta.

Lá fora, o casaco cobre-se de neve e a montanha, no seu processo lento de deglutição das dores de parto do mundo, dá paz à tua alma. Mas como sempre, o que a montanha leva acaba sempre por devolver. Quando fecho a porta, não tenho a certeza de que abra a minha para sair. Talvez. Não sei. No entretanto, enrolo-me num cobertor e o sofá vai-me contar uma história. Era uma vez eu e tu. Viveram, e felizes. Foi para sempre, porque nada acaba realmente: apenas se troca.

sábado, setembro 13, 2014

D



A minha mão sempre foi mais leve na tua. Mesmo quando tudo o mais pesava, e agarraste-ma no que de mais pesado nos pode cair em cima, os dedos eram penas, numa palma de algodão e tudo o resto era ar. A tua pele sempre transformou a minha carne em vôo, em algo até mais leve do que o céu. Pelo menos, era assim que me enganava. Há qualquer coisa de mentira e de ilusão no amor, e é por isso que é mágico. Quando se ama, concede-se o engano e volta-se ao tempo em que a nossa criança acredita em histórias que não fazem sentido. A ideia de que duas pessoas se possam entregar uma à outra é tola no absoluto, mas é o desafio do impossível que nos precipita na leveza de duas mãos que se agarram. A tua agarrada à minha era isto: um faz de conta muito sério, para mim e para ti, tão real quanto a densidade das nossas bocas juntas, acrescentando linhas a esta história. Na mão, a linha da vida; na boca, o desalinho da pequena morte. A memória dos teus lábios nos meus é um estado de graça, apesar de tudo. Desconheço para onde vai o amor quando some, mas comigo nunca chega bem a desaparecer. Desconfio que se reúne num pequenino ventrículo que bombeia o sangue mais depressa quando me cruzo com uma imagem tua. Empurra com as suas mãos, agora pesadas e fortes, essa vida pelo meu corpo que se torna pequeno demais para ti, e para o espaço que nele ainda ocupas. Nunca se tem realmente alguém, mas é-se morada desse alguém, e ainda não foste embora, mesmo que já não estejas. A tua leveza está nessa capacidade de seres com toda a força aquilo que não podes.

Nunca te cheguei a descrever, porque para mim nunca foste: eras o efeito. Ainda és. Algures na tua cara reside um ponto que trata de mim como se fosse precioso, e esse ponto é meu. Não sei se o vês, se alguma vez o viste.Tratava de mim e lembrava-me de como pode existir algo fora das tripas do mundo. O amor sente-se, aliás, mais nas tripas do que no coração. Naquele novelo de fio desfiado que me percorria o peito em longitude de cada vez que sorrias. Sinto mais saudades do que em ti é grande, e para os outros pequeno. Da tua maneira de fazer birrinha, das pontas dos teus dedos a fazer cordéis dos meus pêlos, de um sorriso que era uma cama e da cama onde acordava outro sorriso. Sinto saudades das tuas sardas ao sol, e daquele único cabelo branco do lado esquerdo, e não vou negar de cada vez que caías comigo eu não conseguia acreditar que alguém aceitava a minha dor como uma honra ou uma benesse, como algo que é mais importante do que a sua própria habilidade de dar ao mundo um sentido através da felicidade. É do pequeno que sinto mais saudade, não de tudo o resto. O pequeno és tu, toda cheia de mínimos legos de personalidade, colados e indesmontáveis. Como a própria ausência do amor, uma força imparável. Um glaciar com lava dentro. Tu, afinal.

Não sei mesmo como é que as palavras te podem alinhavar. Nem sequer se te incendeiam no fogo eterno que transformaste em forma humana. As letras são apenas sons que se fazem, e quando se colocam numa página em branco, servem apenas de batuque, num código morse entre pessoas que não te conhecem nem te viram, e ainda assim se vêem forçadas a apertar a mão à força da impressão que me deixaste. Não é justo para eles, mas é aquilo com que menos importo. Porque não há justiça, e nós sabemos. Porque estas coisas acabam quando acabam, e quando não existe nada mais a pará-las a não ser um lapso de tempo que as trava. Ambos vamos ao chão e quando levantados, no chão estamos pois de um céu descemos. Regressar é a pior parte do fim. Ninguém nos pode tirar o caminho que se faz, mas a viagem é onde se quer estar, e voltar nunca faz parte do plano. Não posso dizer que te deixei, ou que me deixaste. Apenas que voltei, e que embora tenhas partido, sei que voltaste, de qualquer forma; não sei se onde querias estar, mas pelo menos onde precisas de reiniciar o caminho. Custar-nos-á caminhar por outra estrada que não a do nosso sol e não sei quando estarei sequer preparado para te deixar na tua. Saber e fazer são verbos muito diferentes de aceitar. Mas lá chegarei, pernas ao caminho e depois das lágrimas, fica o suor.

No entanto, o pedacinho do ventrículo continua a ser teu, tal como um espaço num pequeno canto da minha cama onde não me coloco. É o teu espaço, onde a persistência da memória esquece tudo o mais, e estou contigo porque me deixas e me queres. Na hora do lobo, podemos ser as lobas um do outro, numa alcateia de beijos a uivar dentro de mim e de ti.

quinta-feira, setembro 11, 2014

O valor



Existe uma lista na minha cabeça quando os dias são rastilho. Recolhe tudo aquilo que me impede de me fechar à vida. Com tanto balanço negativo que aqui aparece, a pergunta deve surgir várias vezes sobre o que ainda me mantém de pé, passando na linha dos dias como quem faz equilibrismo. Em primeiro, um cinturão negro em sarcasmo. Isso é óbvio. Em segundo, tudo que em baixo se amontoa num tesouro íntimo.

O olhar de orgulho da minha mãe quando chega a casa nas últimas semanas e encontra um filho com emprego. As natas de Condeixa. A luz que só se encontra quando, num quarto sonolento, se resolvem as pontas soltas de uma história dentro da cabeça. Seguir pela recta da Portela, a 80 à hora, num pequeno sorriso doloroso aberto pela "Wicked game". Sentir o coração debaixo do palato quando ainda penso nela. O meu reino no cimo de uma montanha, com Einaudi como meu escudeiro. Os farrapos de delícia em forma de tempo que antecedem o fósforo que acende dois lábios confessando sem palavras a vontade de se quererem. A vista do meu sótão. O sofá depois do trabalho. Os headphones na cabeça e o mundo desaparece. A mão que dou e puxa alguém de um poço, e esse alguém sorri com um obrigado e a existência ganha então razão. O próximo filme de David Fincher, seja ele qual for. Puré de batata feito em casa. As pevides compradas na praia. Sentir-me baptizado pela delícia de cada vez que mergulho mar. Sentir o efeito das minhas palavra no outro. Não acreditar que essas mesmas palavras ajudam quem seja, mas abraçar-me a mim mesmo no conforto de um agradecimento alheio de como a minha dor não me desarma em vão, Conseguir pôr a dor a trabalhar para mim. Escrever histórias que não podem ficar na minha cabeça. O céu limpo no cimo do Cântaro Magro. As minhas pernas a tremer no Pico Ruivo. Regressar onde me querem. Desorientar-me no livro onde me encontrei com o susto de mim. A possessão demoníaca do movimento Alegretto da 7ª de Beethoven. "Os Maias" uma vez por ano". JFK duas vezes por ano. Transmitir conhecimento, e reconhecer aqui que estavas certa. Os Penedos de Góis. Mostrar-me do outro lado da lente, aprisionando o mundo na liberdade do meu olhar. Aquelas pessoas mais rápidas do que a realidade, mais fascinantes do que o complexo e mais entusiasmantes do que o desejo. A Casa da Música a 23 de Março de 2013. Todas as vezes que pude aplaudir três indivíduos de Oakland que criaram uma casa de árvore dentro da floresta que é a minha racionalidade. A memória das molas na escada da minha avó Lurdes, e dela própria como uma cadeira onde me podia sentar com a certeza de que ser amado fazia parte da vida de criança. Quando outra ela me convidou para fazer pão. Beijar quem se ama. A volta ao corpo em 80 gemidos. Conversas em modo screwball. O prazer da inteligência e de alguém com quem se pode realmente aprender. Arroz doce quente. O entusiasmo de outros por coisas que valem a pena. Eu na cama e a chuva em código morse na janela, deixando mensagens na minha imaginação. Fruta fresca. O pedestal da boa televisão. Quando o encontro entre duas pessoas faz um sentido que não proibido. Ser eu.

A lista continua. Múltiplas razões, variados destinos, uma pequena caixa de madeira forrada a infinito Quando em modo infra, abrir. O que se vive parece ter imediata justificação entre tudo o que a pele guarda, regista e confere. O vale dos hemisférios é o único local onde me sento de olhos fechados e consigo ainda assim ver o universo. O cosmos numa lista que não se pode agarrar.

sexta-feira, setembro 05, 2014

Um casaco para todas as estações



Não me consigo lembrar de quando me tornei morada da tristeza. Olho para as minhas fotos em criança e pareço feliz. A minha infância foi um evento de felicidade: interessa menos ter sido amado por quem me regou, mas mais ter sentido o desejo por existir. Uma fotografia no meu quarto, com os meus avós maternos, capta o meu olhar na máquina, enquanto, sem braços, o Carlos e a Lurdes me envolvem de uma qualquer maneira que não se explica bem em palavras num blog. A imagem capta-a, e esse enlevo descreve como a minha infância não foi um berço de melancolia inesperada. Não fui uma criança triste. Batalhas de laranjas com os meus tios, o prazer de devorar livros, estar no mundo aberto e fechado do meu quarto, partilhar uma amizade com um urso de peluche, guardar amigos, sentir-me contente com o que tenho, possuir curiosidade pelo mundo...

Não sei mesmo quando a tristeza começou a pagar renda, mas não nasceu comigo. Algures, pelo caminho, escancarei-lhe a porta. Nunca tive, até há pouco tempo, qualquer problema sério. Desconheço a origem, e isso perturba-me. Preocupa-me mesmo que algo tão destruidor se tenha instalado e me ocupe, em avanço cancerígeno, num desejo que mal posso controlar. Não chega a ser depressão, e aleija demasiado para lhe chamar apenas incómodo. Mal está. O desalento poucas vezes se consegue traduzir em palavras válidas. Tudo parece cliché, desde o poço negro até à maré escura, também porque ser macambúzio já se tornou num estado quase banal. A minha tristeza apenas é banal por não ser especial. Por ser normal para mim, já deixou de ser um estado, e muitas vezes é a vida que levo. Sobrevive-se criando outro em nós, que vive a vida por nossa vez, mas o eu com que temos de conviver à noite, antes de dormir, continua na sua pequenina masmorra, por si construída.

Lembro-me de uma noite, há um tempo, quando chorei no peito dela. A única razão pela qual recordo, e porque aqui o menciono, é o carácter único desse momento: transparente e puro, belo e destruidor. Vi-me como era. Vi como a tristeza faz parte de mim, e nos minutos em que a amei com lágrimas, entendi só em lampejos o que me deixa triste: não saber o que sou eu, não caber na pele que me concederam, nem sequer perceber bem àquilo a que pertenço. Dois braços deslizaram e construíram o que não tenho naquele aperto. Sobra a tristeza que carrego, e que nem sequer é desalento, ou desesperança, mágoa ou desânimo. Não é uma sombra, não é um lago, não é um mar. Não é amigo, nem inimigo. Não cai em cascata, não jorra em torrente, nem sobra mentiras ao ouvido. Nem sequer me seca, ou esmaga. Não me abre um buraco para me tapar com lençóis de tristura, não me deixa aflito, nem mesmo em pânico. Não goteja, não rebenta, não ganha raízes, nem sequer brita em flores do Mal.

Os fardos carregam-se, mas a tristeza nem isso é, porque a determinada altura, à escolha, podemos abandonar o fardo. Talvez a melhor maneira de defini-la esteja nessa noite onde me vi do outro lado do vidro esbatido, ou de cada vez que olho a foto do meu pai no recanto de casa onde os que não vivem continuam a existir em imagem. É cruzar o alívio da alegria de ter alguém que me compreende e onde me posso deitar no conforto de ser o meu próprio lar com a frustração de não poder partilhar os frutos do sacrifício de um homem, a surgirem pouco depois de eles terem partido. Um paradoxo onde habito e sou ao mesmo tempo actor num drama em dois actos: no primeiro, vejo-me como um solitário; no segundo, procuro a companhia de outros e retorço-me cadavericamente na minha alma quando não a tenho.

O terceiro acto deste drama acontece de todas as vezes que mastigo a tristeza de estar à frente de um polígono de terra e penso naquilo que quero dizer a quem não ouve. Nos poucos minutos em que consigo estar composto a poucos metros de ti. Quando a tristeza que procuro definir tem uma forma bem sólida, bem concreta e não me foge mais. Está ali, É um espaço de tempo onde a tua cara é a imagem dessa tristeza, e ao invés de me roer com esse buraco de não saber, posso dar à tristeza a tua forma. Talvez a memória do prédio triste que sou não me ocorra, mas sei qual o andar onde moras. Falta-me o espírito para ser feliz à distância de um botão, mas enquanto morares, sei que a minha tristeza não é fútil, nem destrói. Bóia, à tona de ti, também dela, com braços mais compridos do que o tempo.

E também com tudo o resto que cria o mundo espectral onde viver é uma ousadia e um acto arrogante de soberba. A tristeza mistura tudo isso. Até mesmo a hipótese de um dia dar lugar à alegria.

terça-feira, setembro 02, 2014

Botões



As portas do elevador fecharam-se no momento em que as suas bocas se abriram uma na outra. A força da gravidade fez cair as suas línguas num mar de saliva, onde o afogamento não é  perigo público, mas sim salvação pessoal. Nada era inesperado, e nenhum deles queria estar à espera. Uma mão seja a outra de desejo, e por entre o desacerto dos passos dados na ponta dos dedos, a descoberta dos recantos atrapalha um pecado pouco original, mas que sabe sempre a obra de arte.
1.
Os seus lábios percorrem uma estrada imaginária que da boca dela conduz pelo pescoço ao vale do peito. Rapidamente nascem gemidos surdos, crescendo a pouco e pouco e em flor, a boca daquela faz das paredes metálicas os lençóis com que se contêm os gritos morde-se e guarda uma explosão que rebentaria o elevador, mas mais certo era continuarem na mesma a levitar. Uma língua no sítio certo dá asas, e naquele momento, numa vertigem para lá do horizonte do umbigo, alguém a tornava num anjo. Um anjo de pernas bambas, a sofrer de alegria, mas um anjo ainda assim. As pontas dos dedos criaram uma crespa floresta na cabeça daquele que conhecia por David, mas que naquele momento se chamava tudo aquilo que o dia a dia lhe negava.
13
Um fecho faz tombar mais defesas do que uma catapulta, mas também ele se lançou num ataque, e às tantas já não sabia o que a fazia tremer mais, se a canção do bandido ou a mão que se dá no momento de aperto. Mas senti-la noutro plano, talvez sendo outra pessoa, ainda que permanecendo a mesma que conhecia, tornava as suas calças no mais desconfortável dos adereços. Ainda pensava ele nisso, e já ela descobria como pô-lo à vontade.
27
Subir. Descer, O elevador ia mesmo para que andar? Que elevador? O que é um elevador? Será um elevador a fazê-lo sair do corpo de cada vez que está dentro dela? Terá um elevador tantos botões quanto os gemidos que ela lhe arranca? Terá a corda do elevador tanta tensão como a que ela lhe tirou do peito quando lhe sussurrou "Fode-me"? E será que se alguma vez fizessem amor, seria tão bom como quando fodiam? Os corpos eram os mesmos, mas quando se faz amor, não se chamam nomes a quem se ama, a não ser que só se goste um bocadinho, e que aquele momento em que as mãos vêem mais longe do que os olhos, ou em que o planeta é uma auto-estrada de pele que segue pelas coxas em direcção ao sabe-se lá onde, é apenas um momento que nos arranca de nós, mas sem nunca abanar. 
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Ela não sabia se o amor se pode viver de gatas, e quando lhe via os olhos, sabia enquanto ele se retesava, e não lhe dava descanso, nem era no amor em que pensava. Mas o elevador era mesmo esse lugar, onde se puxa o cabelo sem se querer mal, onde as putas são aquelas de quem se gosta e onde ele deixava de ser o seu marido, e era apenas um ele livre de tudo, e ela não era a esposa que tinha o jantar pronto a horas, porque no dia a seguir havia que cumprir o dever de ser mulher. Ali, eram ambos um cheiro indefinido do que já foram, e continuavam a ser, mesmo que o mundo lhe tivesse tirado isso, ou pelo menos pensava. No elevador, o mundo não entrava, e estavam num universo, bem maior do que o mundo, onde a comunicação era feita através de um código morse das pontas dos dedos
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As pernas tanto tremem que caem, e enquanto deslizam pelo elevador até ao chão, ele segura-lhe os cabelos. Sofia liberta-se ao de leve. Não consegue sequer sentar-se, e mantém-se no limite da rigidez, sem ousar tocar o chão com nada mais do que os pés. Ele ajeita as calças. Olha o relógio, são 4 da manhã. Ergue-se, e tenta vestir-se, mas ela ajuda-o, num pretexto mais para deslizar as suas mãos na cidade de um prédio único. Sorriem e lentamente, deixam de ser ele e ela, e passam a ser eles, novamente de regresso à responsabilidade de enfrentarem juntos a ideia de que um casal não pode foder num elevador.
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Beijam-se. As portas abrem-se e estão exactamente no andar onde começaram. Na sua cabeça, subiram 100 andares, mas o seu corpo rebentou tectos, e foi visitar uma galáxia ali mesmo ao lado do sol. Estava calor lá.

quinta-feira, agosto 28, 2014

Um sem-abrigo com casa


Verde a perder de vista em todas as direcções, nem uma montanha por perto e ali, no meio de nenhures, ele era uma casa sentada. Casas erguidas habitam-se, casas sentadas alugam-se, pelo menos até estarem prontas para serem habitadas outra vez. No silêncio das horas, a recordação do início não existia e há muito que se hipnotizara com o movimento da erva de cada vez que o vento a penteava. Alta como a casa sentada, a erva ocupava-se das distracções e casa existia apenas para si, ainda não para o mundo. Uma casa, quando se senta, continua a ter quartos e corredores, mas os primeiros estão fechados e os segundos escorregadios. Quando sentada, o melhor mesmo é evitar entrar na casa, e por isso mesmo esta se tranca, sem precisar de ninguém para fazê-lo. Fecha-se e fica ali, parada onde ninguém se lembra de procurar.

Chegara a altura de limpezas. Trocar alcatifa por chão de tacos, porque dos ácaros da alcatifa já a casa não precisa. Os tacos limpam-se melhor, deixam que todo o pó e o cotão se acumule e possa ser varrido de uma só vez, duas no máximo: uma para espantar a sujidade, outra para não deixar que a primeira se engane a si mesma. Momento é também de passar um pano nos azulejos, sujos e baços como se tivessem sofrido um banho prolongado de água, numa submersão completa, total e voluntária. As vontades pagam-se, e a dívida do azulejo era medida em manchas. Umas saem com mais facilidade, para outras não chegam apenas o pano e o líquido. É preciso algo mais que não tem agora em casa. Guarda na lista de compras e um dia destes vai conseguir. O agora não tem a mesma urgência do amanhã, mas é muito mais importante do que o ontem. Todos eles são um pequeno lampejo na sala da eternidade, que ninguém pode limpar, nem sequer fechar ou sequer conceber. A casa sentada apenas pode conceber um pequenino rodapé e tentar não estragar, porque a eternidade não dá mesmo para arranjar.

No sótão, o maior desarranjo. No sótão, nem o vento pode entrar ainda, que está tudo em pantanas e e a brisa recusa-se a ser responsável pela arrumação. Só a neve, e o sótão enche-se de neve até ao tecto. Preso no espaço e dando-se à frigidez das emoções que foram um dia caldeira vulcânica, o gelo é a única ocupação capaz de arrumar tal confusão. Mas como os glaciares abrem vales entre os caminhos que não existem, também demorará tempo até que se concentre ordem suficiente para que os passeios no sótão, de onde se têm as vistas mais vitais e importantes da casa sentada, possam voltar a ser livres e sossegados. Até lá, o gelo faz o seu trabalho, e fecha-se a porta ao resto.

A casa sentada continua fechada. Ele não sabe quando estará pronta, e dificilmente passaria alvará a si próprio se lho pedissem. Numa rajada. o vento abre-se em dois mares e ao fundo, o sol poente aponta-lhe o dedo, faz-lhe cócegas no nariz e de repente, apenas num momento que é fumo que se agarra com força aos dedos, as ruínas sentem que podem ser novo uma casa erguida. Nesse raio de sol está o segredo  da velocidade da escuridão, e de como a luz, veloz, demora a entrar em casas sentadas. Sem interruptores, sem quadro funcional e sem janelas, é impossível.

No entanto, as frinchas mínimas cortam o breu do Eu; e mesmo sentado, de pé 1 metro e tal de andares ganham pilares de sabedoria na beleza da queda.