sábado, setembro 09, 2023

THE X-FILES: o anti-poder

The X-Files é uma proposta absolutamente atentatória e uma bomba a ser largada sobre a ideia pública das acções governamentais. O seu criador, Chris Carter, sempre habituou os telespectadores norte-americanos a questionarem-se não só como cidadãos, mas também como seres humanos. Noutra série sua, Millennium, disseca o fenómeno da morte, dos homicídios e do impulso de matar, principalmente na América contemporânea, através das investigações de Frank Black. As fundações da sociedade norte-americana, bem como os seus valores base, são constantemente questionados, desde os excessos do fanatismo religioso, passando por delírios milenaristas e messiânicos, e acabando com referências directas a feriados tão americanos como o “Thanksgiving”, e a sua importância e real significado. Num episódios, “Roosters”, um dos personagens secundários, Peter Watts, explica longamente a Frank Black o significado simbólico da nota de um dólar, com a sua pirâmide encimada com um olho e a expressão “Annuit coeptis” Uma alusão explícita a um património maçónico presente na fundação da Nação. É, no entanto, com The X-Files que Carter vai mais longe. Fox Mulder e Dana Scully são as duas personagens principais e duas pontas de uma mesmo lança decidida a penetrar numa densa intriga governamental, onde ninguém da elite política norte-americana fica bem visto. Contrariamente a 24, onde David Palmer é a nossa esperança no poder político norte-americano e suas justificações, não existe luz por aqui. As orquestrações que os dois agentes tentam desvendar são normalmente simbolizadas por uma espécie de sindicato, um governo dentro do Governo (ou, numa perspectiva de religião civil, um sacerdócio dentro de outro sacerdócio), composto por figuras sinistras, que dão a entender ligações a órgãos superiores, como o Senado, o Congresso ou mesmo a Presidência. Uma conspiração ao mais alto nível. Mulder e Scully não podem ser mais diferentes: ele é abnegado, obcecado, sem vida privada e com uma crença incrível não só em conspirações e no paranormal (ou sejam em algo que há para além do real), mas também na justiça doa a quem doer. Scully quer construir uma vida pessoal, é céptica empedernida e crê que o Governo realmente existe para proteger os cidadãos. Mesmo quando as provas científicas, a sua religião pessoal, lhe indicam que há algo de errado no interior da política, ela recusa-se a acreditar. Mulder e Scully, apesar de tudo, tem aquilo que podemos designar como pedigree norte-americano. O primeiro é filho de um antigo membro de uma comissão do governo designada por Majestic 12, encarregada de lidar os segredos mais obscuros do país, como toda a verdade por detrás do fenómeno OVNI e mesmo projectos científicos administrados por cientistas nazis exilados; Scully tem como pai um militar, falecido durante a 1ª temporada, que lhe inculcou valores rígidos, conservadores e nacionalistas. No entanto, a diferença entre ambos, na forma de encarnar o poder, é notória. Se quisermos escolher uma figura que represente o poder em The X-Files, a escolha terá de cair num homem sem nome na série, mas que é conhecido informalmente por Cigarrette Smoking Man (CSM). CSM é o típico cabecilha de conspirações, tal como nos é descrito pelos teóricos do género: veste de cores escuras e tem o controlo sobre aparentemente tudo. Este é o homem que afirma, no episódio “Talitha Cumi”, no final da terceira temporada, Don’t threaten me, Mulder. I’ve watched presidentes die. Todo o percurso biográfico de CSM, como mostrado em “The musings of a CSM”, na quarta temporada, envolve-o nos principais momentos que chocaram a nação norte-americana na segunda metade do século XX: ele assassinou John Kennedy, Martin Luther King, envolveu-se em Watergate e numa determinada cena, ele aparenta controlar mesmo os divertimentos do país, nomeadamente os vencedores dos Óscares e quem irá ganhar o campeonato de basebol. Um poder assim, todo dominador, acima de tudo e de todos, é contra os princípios enunciados na religião civil, de entendimento entre os governantes e os governados. CSM mostra-se totalmente contra a liberdade pessoal, quando diz, novamente em “Talitha Cumi”, Anyone who can appease a man’s conscience can take his freedom away from him. No entanto, no mesmo episódio, ele explica porque é, actualmente, os homens nunca poderão tomar conta do poder: Men can never be free, because they're weak, corrupt, worthless... and restless. The people believe in authority. They've grown tired of waiting for miracle or mystery. Science is their religion - no greater explanation exists for them! Indubitavelmente, um pragmático, não um crente. Pode-se argumentar que The X-Files defende que, em última instância, é preciso acreditar e lago que nos é superior, não necessariamente, como no caso de Mulder, numa divindade, para conseguir ser um bom norte-americano. Nesse sentido, puramente espiritual, The X-Files faz a defesa e legitima a religião civil, ou algo semelhante, como factor primordial no bem-estar norte-americana. CSM, como personagem, funciona como contraponto do que acontece quando não se acredita: tornamo-nos iníquos e jogamos com a nossa glória pessoa, nunca com o serviço prestado aos cidadãos. Onde este aspecto de CSM se torna mais evidente é, claro, na conspiração central que faz mexer a série. Esta envolve uma operação que rapta cidadãos norte-americanos de suas casas, através de um acordo entre extraterrestres e esse Sindicato atrás referido, de que CSM faz parte. À partida, isto é quase dormir com o Diabo, por parte do Sindicato; e por outro lado, desrespeita, em muitos, os direitos dos cidadãos norte-americanos. O abuso da confiança que os norte-americanos têm no seu governo é levada ao extremo, quando vimos a saber que os cidadãos têm sido marcados, como gado, através do programa de vacinação contra a varíola promovido pelo departamento de Saúde dos EUA. Para mais, este programa teve envolvimento, na mitologia da série, de antigos cientistas nazis fugidos da Alemanha e que colaboraram com os norte-americanos. Ora, é a mistura de dois epónimos contraditórios e a definitiva afirmação de que este Sindicato dorme com um Diabo. Se bem que, oficialmente, o Nazismo tenha sido minimizado nos EUA, em comparação com o Comunismo, a série de Chris Carter vem trazer novamente à pedra o nazismo como grande mal. Inevitavelmente ligadas a estas conspirações estão as instituições militares, como o braço executante do Governo. Na verdade, algumas das características da religião civil norte-americana relacionadas com as suas forças militares estão presentes na série, e são desvirtuadas nalguns episódios. O exemplo mais cabal de análise do papel do exército na questão da memória contemporânea (e, mais directamente, ligado ao Memorial Day) é o episódio “Unrequitted”, da quarta temporada. Aqui, um soldado que se julgava morto, após ter desaparecido no Vietname, regressa, pois afinal fora deixado à sua sorte num campo de prisioneiros. Esta realidade, tantas vezes negada oficialmente, é o ponto de partida para a relação entre as entidades políticas e os seus heróis esquecidos, num retrato das relações entre os dois lados nada lisonjeiro para os primeiros. As instituições militares sabiam que este soldado, e outros mais, haviam sido abandonados, mas preferiram negar a sua morte a admitir isso. Assim, o objectivo deste soldado que volta é o de encontrar os responsáveis e matá-los. Numa leitura mais a fundo, o Exército criou o seu próprio inimigo. O mais simbólico é o facto de falarmos da guerra do Vietname, o único conflito armado em que os EUA foram derrotados (noutra perspectiva, falharam o seu “manifest destiny”). Uma cena mostra como as feridas dessa guerra nunca sararam: várias cenas são filmadas no Memorial aos combatentes mortos no Vietname e numa delas, o soldado regressado encontra uma viúva de um seu companheiro de esquadrão a chorar o marido enquanto olha o sue nome a dourado na pedra negra. Quando lhe entrega as chapas de identificação do marido, a reacção desta é chorar, duvidar e revoltar-se. O retrato de um soldado desiludido é elevado a uma raiva cega em “The walk”, passado num hospital de veteranos, onde um quádruplo amputado, zangado com a forma como o governo trata os seus veteranos, e também agastado com as decisões erradas de alguns dos seus superiores hierárquicos, arranja forma de se vingar deles, matando-lhes as famílias e destruindo-lhes a vida. Em The X-Files, há um respeito pelo militares, mas também uma repulsa pelos seus maus actos: um cancro que afecta Scully a partir da 4ª temporada é provocado por testes nela feitos pelo Exército. No entanto, a ideia que fica é sempre a da má utilização por parte da máquina política e do mau tratamento por eles dado às suas militares. Tendo em conta que a religião civil norte-americana dedica um respeito e admiração quase sagrados aos militares, não deixa de ser suficientemente contundente. Se, no entanto, como atrás foi demonstrado, The X-Files é uma série que desacredita todo o modelo político e espírito de missão (pelo menos, uma missão positiva) americanos, na sua temática extra-conspiracional acaba por dar força à memória da verdadeira América, aquela que normalmente a Televisão deixa de fora: a América profunda. De facto, mencionámos anteriormente que esta série se debruçava sobre as investigações de fenómenos paranormais efectuadas pelos agentes Mulder e Scully. Se alguns desses fenómenos paranormais acabam por derivar de mutações genéticas e experiências científicas desconhecidas, outros entram num outro tipo de património mítico que não sendo directamente da religião civil, ajuda a consolidar o espírito nacional ao nível antropológico, psicológico e místico, entrando num folclore que chega a ir bem mais trás que 1776. Se por um lado estes fenómenos paranormais dão forma a crenças arreigadas na psique norte-americana, por outro lado vêm lembrar que a América já era habitada antes de haver cidadãos norte-americanos. O episódio “Jersey devil”, da primeira temporada debruça-se, por exemplo, num mito recente, originário do século XIX, acerca de um monstro que vive área do estado de Nova Jersey. No entanto, foge à realidade do próprio mito existente, onde a criatura é representada como um híbrido entre um pássaro e um cavalo: em The X-Files, arranjou-se maneira de incorporar aqui um outro mito americano mais famoso, o do Bigfoot; e assim, este Diabo de Jersey surge-nos como um hominídeo aparentado com o Homem, na tradição do Bigfoot. O episódio, no entanto, relembra-nos outro dos mitos americanos: o da fronteira. Scully, a certa altura, pergunta a Mulder como é que uma tal criatura pode passar despercebida às pessoas das cidades de Jersey. Referindo os densos bosques perto das urbes, Mulder relembra como a América ainda não atingiu por completo a sua dimensão especial, ao dizer que há muitos segredos que as grandes florestas norte-americanas não revelaram; e dá como exemplo, no estado de Washington, a imensa floresta entre a Califórnia e Seattle. Assim, não é o espaço a última fronteira: é o próprio património mítico e territorial não explorado dos próprios Estados Unidos. Isto verifica-se igualmente em “Quagmire”, um episódio de traços classicamente paranormais abordando uma lenda índia acerca de um monstro pré-histórico que vive num lago norte-americano. Este tipo de fenómenos é reportado por todo o país, estando tão enraízado no imaginário norte-americano como o de Loch Ness se encontra no imaginário europeu. Em “Quagmire”, a possibilidade do desconhecido dentro de nós volta-se a apresentar com uma criatura desconhecida a viver debaixo dos próprios narizes da população e da comunidade científica em geral. Isto volta a levantar questões acerca de onde estabelecer afinal a fronteira do desconhecido na projecção norte-americana. Na série, os EUA são uma terra com muitos segredos ainda por desvendar. Noutros casos, os fenómenos prendem-se mesmo com um património histórico que não é propriamente norte-americano, mas que com o tempo entrou no espírito dos norte-americanos. “Sanguinarium”, na quarta temporada, debruça-se sobre um aparente caso de bruxaria numa clínica de estética e operações plásticas. A subtileza de misturar a superstição e a ciência num mesmo caso sempre foi o apanágio desta série, mas aqui ganha outros contornos. De facto, o autor dos actos de bruxaria é um dos médicos, o que nos relembra que, na América, o passado e o presente não estão tão distantes assim e que uma nação tecnicamente evoluída pode, na verdade, ainda acreditar em coisas que fogem ao seu domínio. Para além disso, “Sanguinarium” relembra toda a mística pagã da bruxaria, e num determinado momento, isso é ligado directamente aos fundadores da nação norte-americana. Nada que a série já não tivesse feito: em “Syzygy”, na terceira temporada, uma aldeia parece estar sobre ameaça de cultos demoníacos. E rapidamente se cria um ambiente de histeria em massa, de ignorância para com provas científicas e de medo generalizado, o que conduz a casos de justiça popular. Primeiramente, este acto de tomar a justiça nas próprias mãos, apesar de considerarmos o contrato entre os cidadãos e o Estado de tradição Rousseauniana, é algo que a Constituição inclui. A lei que permite ao cidadão possuir arma vai neste sentido, e alude a que se o Estado protege o cidadão, tudo bem; agora, o cidadão não é obrigado a confiar cegamente. O que está aqui em jogo é a afirmação do indivíduo como elemento fundamental na América e do seu direito a garantir a sua própria sobrevivência; em segundo, esta ambiência relembra-nos, historicamente, o famoso julgamento das bruxas de Salém, o que introduziu no vocabulário popular a expressão caça às bruxas, tantas vezes usada no século passado durante o período em que o senador Joe McCarthy manteve a Comissão para as Actividades Não-Americanas. O espectro do evento que precipitou o acesso de nacionalismo relacionado com a memória é também abordado numa perspectiva diferente, com interpretações distintas: “Home” da quarta temporada, ressuscita a memória daquela que é considerada a guerra fratricida da América. Em Home, a palavra fratricida não existe, no sentido de sangue, mas está lá no sentido da relação com o outro: o episódio descreve uma família de quatro irmãos e uma mãe que vivem numa casa que foi construída durante a Guerra Civil e desde então nunca mais foi alterada. Ou seja, temos uma metáfora de uma América que não conseguiu ultrapassar traumas, exponenciado pela estranheza que torna esta família assunto de um X-file: desde o século XIX que os membros da família têm sexo apenas entre si, não confiando em mais ninguém para entrar no círculo familiar. Aqui, há uma crítica muitíssimo subtil ao pressuposto tão norte-americano que é o de “nós e os outros”. Os descendentes de relações sexuais entre membros da mesma família nascem deformados; ou seja, se não nos conseguirmos dar com os “outros” e com eles alcançarmos um consenso, podemos ficar “deformados”. O episódio mostra ainda um brutal homicídio perpetrado pelos três irmãos, a um chefe de polícia de uma aldeia vizinha. O chefe de polícia (ou sheriff, nome que relembra as aventuras do Velho Oeste e dessa frontier, que aparentemente ainda o é nalguns pontos) é o símbolo do poder federal nos pequenos lugares, o que torna o acto dos deformados ainda mais atentatório aos princípios da religião civil de respeito pelo Estado e pelo outro. Como disse atrás, se há uma crítica aguda ao poder político governamental, há uma simpatia e um certo louvor pelo poder instalado na América profunda. Esta especificidade da comunidade como elemento fundamental da coesão norte-americano surge abordado de maneira extrema em dois episódios. Na segunda temporada, “Our town” relata-nos um caso investigado por Mulder e Scully, onde um homem desaparece misteriosamente numa floresta no norte do país. Na fábrica onde trabalhava, todos parecem esconder alguma coisa e quando uma das trabalhadoras morre de Kreutzfeld-Jacob, uma condição médica raríssima, e outros habitantes da pequena cidade têm idêntica morte, algo de estranho parece mesmo passar-se. Vem-se a descobrir que toda a cidade pratica um canibalismo ritual, parecendo ter uma apetência estranha por gente de fora da cidade. O primeiro homem a desaparecer sofria, precisamente, da doença que ia matando os outros. No final, os habitantes acabam por se ver obrigados a comer um dos elementos da própria comunidade para garantir o seu silencio, o que conduz Mulder e Scully à descoberta deste esquema, seu desmontamento, e da fábrica, que era o sustento económico desta comunidade. O líder espiritual desta espécie de culto pagão fora um homem que combatera na Segunda Guerra Mundial, no Bornéu. De facto, há poucos personagens masculinos em The X-Files que não tenham tido uma presença no exército no seu passado. Nesta comunidade, a lição parece evidente: quebrar esse espírito de união que existe entre as pessoas de uma mesma comunidade é acabar com ela. A partir do momento em que nos atacamos uns aos outros, em vez de dirigirmos a nossa atenção a um inimigo exterior, é o fim. Decerto forma, aquela comunidade reflecte um certo espírito norte-americano, cujo apelo político é constante quando se trata de calar vozes discordantes. Mesmo que se dê em circunstâncias retorcidas, como é o caso de “Our town”. Já em Humbug, da terceira temporada, a estrela é uma comunidade de antigas atracções circenses, com particularidades físicas muito alternativas: há um homem que já foi parecido com um gorila, outro que come tudo e mais alguma coisa, outro ainda que tem um buraco no lado onde mora um irmão mais novo, outro imune à dor… Esta é uma comunidade muito específica: é a comunidade daqueles que não podem viver em cidades normais porque não seriam bem encarados pela vizinhança; mas aqui, todos juntos, criam a sua própria harmonia. Mesmo que essa harmonia seja quebrada por um conjunto do homicídios… A comunidade de freaks mostrada por Humbug mostra um certo carácter ideal da América como lugar para todos. Esta cidade é efectivamente oficial e sancionada pelo estado da Florida, onde ela existe. Portanto, numa certa perspectiva, esta é a América como terra prometida, mas com ressalvas: estes freaks apenas são aceites porque vivem fora das comunidades normais No entanto, é-lhes permitido viver como comunidade, porque isso é essencial ao espírito do país: porque isso responde ao grande ideal norte-americano. Em “The X-Files”, o que é americano vê-se amiúdes vezes obrigado a confrontar o que é dos outros. Quando as mitologias e místicas específicas dos imigrantes são abordadas, entramos num outro tipo de análise completamente diferente. Embora se tenha falado que o Deus norte-americano era uma entidade abstracta que não mexia com outras religiões e crenças, a sua tradução legal obriga-o, na série, e através do FBI, uma agência federal, a entrar em choque com crenças diferentes da norte-americana. No episódio “The Calusari”, da segunda temporada, uma família romena é vítima da assombração de um dos seus elementos e não demora muito para que, entre as investigações de Mulder e Scully, surja uma equipa de exorcistas romenos para tratar da questão. Os agentes vêem-se obrigados a prendê-los e questioná-los, embora sem sucesso. Quando no final a intervenção destes exorcistas se mostra fundamental para a resolução do caso, perguntamo-nos qual será o “Deus” mais poderoso e mais resoluto: o norte-americano ou o romeno. De facto, Mulder ajuda ao exorcismo final, o que dá um ar ainda mais ambíguo à questão. Para mais, o inimigo aqui em questão é o Diabo, ou seja, o Mal (Evil), elemento fundamental também na religião civil norte-americana como contraponto ao Deus bom. Noutro episódio, “Hell money”, somos confrontados com o drama de uma família chinesa envolvida no tráfico de órgãos, com fantasmas chineses pelo meio. Todo o caso se desenrola em Chinatown, a comunidade de emigrantes chineses em Nova Iorque. Existe aqui, novamente, aquela especificidade comunitária que abordámos anteriormente. Quando Mulder e Scully intervêm, perturbam o equilíbrio existente numa comunidade que transforma o tráfico de órgãos num jogo de sorte e de azar, mas aceite por todos. As penas por fugir às suas consequências são de índole sobrenatural, e por isso o temor apossa-se de todos, mesmo daqueles para quem a extracção de órgãos significa a morte. No entanto, aqui, a presença de Mulder e Scully revela-se benéfica: a sua pressão leva à descoberta de que o jogo de sorte afinal estava viciado pelos seus organizadores, levando à revolta dos envolvidos, de forma violenta e anárquica. Ao contrário do caso romeno, a mística norte-americana leva aqui a melhor, não atrapalhando a resolução dos problemas das comunidades, mas antes ajudando a resolvê-los. Em “Hell money”, a América leva a melhor. Por fim, e porque o espaço não é muito, The X-Files aborda também algo directamente ligado à religião civil norte-americana e, por conseguinte, a ser-se americano: a espiritualidade messiânica. A história do episódio “Revelations”, da terceira temporada, contém em si os traços deste paradigma: um rapaz, verdadeiramente estigmatizado, é perseguido por um homem que se acredita ser um enviado do Demónio à Terra para matar doze portadores de estigmas, para assim permitir a vinda do seu Mestre. Mulder e Scully tentam proteger o rapaz, e Scully leva esta missão muito a peito: segundo o rapaz, ela está destinada a ser a sua protectora. Sendo Scully não só do FBI, mas, como vimos atrás, filha de um militar de alta patente, várias extrapolações podem ser daqui retiradas. Não é Mulder o focado nesta missão. Mulder, aliás, nem é crente, tem um vertente agnóstica bastante acentuada. Scully, apesar do seu cepticismo relativamente ao paranormal, é católica e tem fé. Logo, alguém com fé e que acredita é a única pessoa capaz de realmente lidar com o divino. Para mais, tendo antecedentes ligados a instituições quasi-religiosas, numa perspectiva norte-americana, é a mulher indicada para a tarefa em causa. O título do episódio é sugestivo: “Revelations”. Revelations é a palavra inglesa que designa o Livro do Apocalipse, que é, indubitavelmente, a parte mais profética da Bíblia; e é de messianismo, com toda a trama de um ser humano que simboliza a salvação, que aqui se fala. Um messianismo que só pode ser concretizado com a intervenção do FBI. Mais uma vez, embora tente desmontar a religião civil num ponto de vista puramente político e governamental, é nas pequenas coisas, míticas, que a série revela respirar o mesmo espírito que alimenta a alma norte-americana. A negação formal e prática dessa religião é emendada com um interesse genuíno numa América do Passado, uma América escondida e transcendente

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