quarta-feira, março 13, 2019

Perugrinação 16: Soltar



Onde é que tínhamos ficado? Ah, os meus intestinos. Quanto a isso... Ora, mal senti o espasmo de convulsão, soube de imediato que seria impossível adiar a vinda ao mundo das minhas últimas refeições sob a forma de composto orgânico. Achei por bem, porque me ensinaram, ainda assim, algum decoro, guardar para mim esta informação tão pessoal e apenas transmissível de maneiras particularmente nojentas. O grupo juntou-se e entrando no parque arqueológico, seguiu em fila, falando e rindo. Este que vos escreve deixou-se ficar um pouco na rectaguarda. Numa análise rápida e cirúrgica, a beira da estrada não convidava ao alívio e como tal, sobrava apenas a esperança que algures no amontoado de casas à minha frente existisse, de uma qualquer maneira, um WC. Tal verificou-se, mas, crueldade, as portas pareciam trancadas e sinceramente, estava a acumular demasiada tensão em mim para desperdiçar segundos à procura de jeitos e trejeitos de abrir fechaduras. Pânico. Entretanto, já não via gente. É preciso acrescentar que este é um daqueles locais arqueológicos que qualquer português pode considerar como seu, no sentido em que está mal sinalizado e não aparenta ter visitantes. Nem sei bem quem aqui viveu, mas outras prioridades tomam o lugar da minha curiosidade. Num passo rápido, quase de marchador olímpico, encontro o trilho que conduz o visitante pelas atracções, sem que, infelizmente, me depare com dinossauros qual Parque Jurássico. Melhor para mim: no filme, o advogado que se enfia na casa de banho acaba no estômago de um tiranossauro. É então que uma curva surge prometedora. O trilho guina para a esquerda, mas é a direita, por uma vez na vida, que me interessa. Há um declive súbito no qual me posso esconder e abrigar de olhares alheios. Não dá para aguentar muito mais e terei de improvisar este esconderijo. É agora.


Antes de agachar, baixo as calças. Célere, confirmo que trouxe um pacote de lenços. Aos quatro metros de altitude, arreio o calhau. Bato o meu recorde de verticalidade escatológica, embora isso me interesse pouco neste momento. Apenas aquela sensação de beatitude que acontece sempre que o meu tracto intestinal descobre um escape. O que me leva a referir esta aventura, porque parece haver sempre um evento escatológico em cada uma das minhas viagens - e nesta estamos já no segundo - são três pequeninos factores. O primeiro, importantíssimo, é a magnífica paisagem. Se existisse o desporto de observação profissional a partir de ponto de defecação, estava na Champions. A foto acima foi tirada durante a acção, uma vista incrível, com o friozinho raspando as nádegas e os olhos bem presos nas montanhas, picos nevados, um contorcionismo rochoso daqueles que alegra. Sim, estava a cagar no mato e a tirar fotos das montanhas. Que foi, não se podem juntar dois prazeres num só momento? Quem disse? E só não tirei os phones pronto a escutar música apenas e só porque não me recordei. Por momentos, e só me lembrei disso à posteriori, esqueci mesmo que estava naquela situação íntima, abstive-me por completo do lado lógico. É o quão espectacular se tornou o instante; o segundo factor acordou-me deste hipnotismo, quando olhei para um barulho que crescendo atrás de mim, estourou num "Ai não" e alguém, nem sei bem quem, está em posição de me apreciar em momento de fealdade, ainda que tenha o meu rabo numa conta não muito decrépita. Fleumático, reajo com indiferença: não há-de ser a primeira vez que a pessoa vê nádegas na vida. Para culminar, no meio da comoção, entre aguentar-me de cócoras, controlar uma respiração ofegante porque estou aos quatro mil metros de altitude e ser apanhado de surpresa num acto natural, toco sem intenção numa lente a meu lado, que intenta decidida pela ribanceira abaixo. Engulo em seco, assisto aos saltos e catrapins do objecto, que a certo ponto desiste da viagem e se aloja num pequeno buraco. Enquanto trato de me limpar, penso que talvez esta viagem ao Peru, depois da desgraça no deserto, talvez seja um funeral valquiriano para o meu equipamento fotográfico. Calças apertadas. Embora não pareça pelo que acabo de fazer, respeito demasiado a memória histórica para deixar os dejectos à vista de qualquer visitante... ainda que, provavelmente, o próximo só apareça daqui a duas luas novas. Um largo calhau serve-lhe de túmulo, paz ao seu cheiro. Agora, a lente. Pego-lhe, retiro-a do saco protector, tudo ok, tudo funcional. Bem, uma merda ao invés de duas.


A reserva arqueológica de Ankasmarka é o que resta de uma antiga cidade Inca que subia a montanha desde Calca. O ponto em que nos encontramos é apenas um de vários conjuntos de casas cujo perfil posso vislumbrar se observar a linha que daqui segue até ao vale. Gajos de fôlego, os Incas. O explorador espanhol Cristobal Molina, foi o primeiro europeu a narrar os modos de vida e localização dos habitantes da cidade. Contava que num passado longínquo, estes eram muito supersticiosos em relação às estrela, crendo com toda a piedade que um grupo delas em particular lhes anunciava que um dia o mundo seria destruído através de água. A cidade surgiu nesta altitude porque um pastor, ouvindo este aviso constante, reuniu a família e mantimentos e construiu uma casa no ponto mais alto possível, para que quando o dilúvio tombasse dos céus, a morte não lhe chegasse húmida. E assim chegou a catástrofe, cobrindo toda a Terra excepto os pontos mais altos dos Andes. O pastor sobreviveu e os seus seis filhos repovoaram o que sobrou. Ao contrário do que pensamos, lendas como esta não são exclusivas de Noé e da herança judaico-cristã, embora desconfie que a razão pela qual o explorador espanhol a incluiu no seu livro tenha sido para ligar, de alguma maneira, estes povos americanos com o bom nosso senhor jesus cristo.. Se pegarem num livro de qualquer mitologia mundial, é quase certo que encontrarão uma narrativa diluviana, o que sempre me levou a pensar que algures, num passado muito distante e já com seres humanos formados, o nosso planeta se cobriu de facto de água e a partilha destas histórias nada mais é do que o reflexo de uma consciência jungiana que todos partilhamos. Sim, é paleio científico, mas passei um parágraof inteiro a falar de defecação. É possível equilibrar. A mesma lenda recolhida por Molina conta que apenas uma espécie animal previu esta catástrofe: os llamas. É por isso que pastam sempre no topo dos montes, tristes pela desgraça, temendo que esta se repita e desta vez os condene. Hoje em dia, o local foi abandonado por todos, menos pela memória e a reflexa preocupação do governo peruano pela preservação de tudo o que tenha a ver com os seus famosos antepassados, ainda que quase ninguém mostre interesse em Ankasmarka. Existe uma excepção.  Funciona aqui ocasionalmente um projecto comunitário de tecelagem que traz aqui com regularidade conhecimento ancestral sobre roupa inca por parte daqueles que, já antigos, ainda se recordam das técnicas artesanais. Às vezes, vêm até aqui, sentam-se junto às casas, vestuário colorido, uma saia e um xaile que pode servir de cobertor para exposição das peças e trabalham. Se tivermos sorte, apanhamos um em flagrante esforço.


E temos sorte. Uma dupla de mãe e filha alapou-se junto ao trilho antes que este dê por si num miradouro. A seu lado, um bébé, atulhado num poncho azul, laranja, amarelo e vermelho, com um chapéu chuyo a condizer. Ri-se muito, o garoto; alguns de nós, claro, querem tirar fotos. Apenas observo. Vocês já me conhecem, pessoas não costumam ser o tema das minhas fotografias. No entanto, a excitação no garoto é tão genuína, vendo alienígenas de pele branca e sem os olhos amendoados, quase orientais, que caracterizam os indígenas Quechua, ali à sua frente e ele diverte-se, pensa que saíram de alguma história de faz de conta que lhe contaram antes de dormir. O espectáculo fica para trás enquanto caminho para o miradouro. A vista sobre o vale é extraordinária. É este o meu elemento, os pontos altos, as vistas onde o fôlego só não se tira porque estamos de facto no local onde só as aves conseguem respirar como deve ser. Ou descendentes que nos genes Quechua encontram a resistência à falta de oxigénio. Uma navalha rasgou a montanha e criou uma gigantesca garganta até Calca. A pedra castanha amarelou do sol que bate forte, ainda que sinta frio. O céu azul, os picos altos em trezentos e sessenta graus... É um convite a que me sente e aceito. O trilho continua ainda, até umas casas circulares sem telhado, mas por agora, quero o meu tempo, quero viver aqui nestes segundos que já passaram enquanto outros chegam. Com calma, retiro a máquina fotográfica, finjo que me interesso, namoro esta esplêndida visão num flirt que me aquece o sangue. Vários instantes registados no cartão de memória, mas o mais importante é aquela sensação que procuro sempre nestas viagens - estar vivo. Lembro-me de que cheguei a Lima com o meu interior em permanente decadência; mas os grandes espaços, a sensação de liberdade do olhar, a simples inércia não forçada, desejada e geradora de sorrisos, anula esse sentimento. Sei que não durará muito tempo, em mim a felicidade costuma ser a abelha que uma vez espetado o ferrão se condena a uma morte rápida; mas aqui sentado, acho que consigo fingir o suficiente para pensar que sou feliz, que consigo sê-lo. Penso em todos aqueles que me fingem que a vida é boa. Ao longe, eu e tu beijamo-nos sem que ninguém mais veja. Eu só queria dançar contigo sem corpo visível - palavras que nenhum de nós escreveu mas que se tornaram nossas, ainda que o nosso livro esteja fechado. Estou no meio do Peru, em nenhures e tudo o que me ocorre és tu. Sempre tu. A falta de oxigénio faz das suas.


Algum tempo depois, regressamos à carrinha. A estrada de pálido alcatrão continua a subir a montanha, uma serpentina na água que não flui. Curva segue curva, pela janela calo a paisagem, capto-lhe as mudanças, os planaltos, a sensação de que cada vez mais os metros apontam para cima. Quando a subida culmina, voltamos a parar. Cá fora, o corpo pesa. Quatro mil quatrocentos e cinquenta metros acima do nível do mar. Nos próximos dias irei habituar-me a esta altitude. E superá-la até. Neste momento, o meu corpo gere tudo isto com cuidado. Enquanto os meus colegas tiram fotos da porta que se abriu à nossa frente, aberta de par em par, uma paisagem que se esgueira sibilante pela rocha que gradualmente perde altura, a maior cobra que vi na vida, mexo os meus pés em direção a um pequeno topo do lado esquerdo da estrada. Parece-me o local ideal para capturar ambos os lados da montanha. Subo a custo, cada metro cansa-me, um passo parecem vinte, demoro a encontrar um ritmo a que possa chamar de confortável. Pedra bruta. Demoro alguns minutos e quando olho para trás, sou imitado e a dificuldade é partilhada. No meu objectivo, a máquina e eu voltamos a namorar o que a vista alcança. Os cumes montanhosos ainda guardam neve e o sol que nela reflecte dá à luz luzes novas. Como já devem ter adivinhado, estou a escutar Einaudi, "Time lapse" em loop. Nem ligo muito ao que os meus outros colegas fazem. Sei que me dá má reputação, mas estes são momentos em que não estou para ninguém. Vim aqui por isto. A espaços, nem penso. É o quão milagroso este firmamento bem terreno consegue ser. A minha voz prefere descansar, as minhas mãos tremem um pouco, mas não de frio, alguma excitação talvez, a sina de possuir uma sensibilidade tal que se deixa comover com o que a Natureza projecta sem câmara, mas também sente as dores do sentimento com uma carga quase pornográfica. Dançam em mim, quase em valsa, estas duas emoções díspares, o completo frenesim em ebulição de estar vivo, o angustiante desânimo do que desejo e não tenho nem terei. Nas entrelinhas de tudo o que escrevi está agora, passa esta corrente gélida também, da dor que não tem silêncio, de uma sirene que grita enquanto nada digo, nem exprimo. Este ponto, Abras de Lares, reúne ambos, com dificuldade, à força, e as negociações não surtem efeito. Por muitos milagres que as montanhas operem, este não será um deles.

No regresso à carrinha, não consigo desligar deste binómio que me define. Fugazes instantes em que me sinto, de facto, com sentido e o sentido proibido que me põe fora do convívio com o mundo. Quero calar tudo isso, quero calar-te acima de tudo, mas nem o oxigénio rarefeito me ajuda. Estou no topo, mas também aí existe um fundo, quase sem si mesmo, sem regresso garantido. "Vamos agora para Lares", diz o Pedro, "se enjoarem com facilidade, preparem-se que a estrada é acidentada" e eu preparo-me, não quero fazer o hat-trick do canto gregoriano. Sempre sem retirar os auscultadores, fecho os olhos. Não para evitar projectar o que quer que seja. Mais para fechar em mim um turbilhão muito mais indigesto: o paradoxo que me enche. Não tenho esperanças de resolvê-lo no Peru. Para fazê-lo, concluo, era
preciso ter galo.

quarta-feira, março 06, 2019

Perugrinação 15: Momentos mudos


Parece bizarro notar que num país com mais de um milhão de quilómetros quadrados, o Peru possua apenas quatro linhas de comboio; mas diz muito sobre o quotidiano do mesmo que a mais longa dessas linhas seja exclusivamente para uso turístico. A Peru Rail garante essa ligação, saindo de Água Calientes e terminando em Puno, a Sul, localidade de acesso a todos aqueles que pretendem usufruir do Lago Titicaca, cujo extremo mais setentrional se localiza em território peruano. Como em praticamente todos os países onde o investimento privado tomou conta das opções políticas, o comboio deixou de ser, ao longo do século XX, o meio de transporte importante que uma vez foi, atravessando o país de uma ponta à outra. É algo a que nós, portugueses, estamos bem habituados. Na cidade que tem sido parcialmente minha nestes dois últimos anos, e falamos de uma capital de distrito, existe o serviço apenas duas vezes por dia - uma viagem de ida e outra de regresso - em horários que não dão jeito a quem quer que seja. Perde-se algum encanto, porque não sendo o mais prático dos transportes, o comboio é certamente o mais romântico, nostálgico, capaz de gerar em nós instintos Proustianos. A única companhia que opera comboios na pátria de Machu Picchu é a PeruRail e ainda que garanta a cobertura de menos de 20% do território, transforma todo o serviço num deslumbre para turistas.  Na estação de Águas Calientes, uma voz em castelhano informa-nos da chegada das carruagens à linha. à entrada de cada uma, somos recebidos por dois funcionários impecavelmente fardados, com vestimentas de deseign criativo, branco e de linhas bordeaux. O vagão azul parece saído de um mundo smurf, mas no interior, a decoração é sóbria, onde em paredes beje desenhos de mapas antigos do Peru. Sou levado ao lugar por uma simpática jovem com menos uns dez anos do que eu, cujo inglês é comparável ao meu domínio do russo. Os bancos são confortáveis e recuam os passageiros no tempo. Não sei se propositadamente ou porque o orçamento ferroviário do Peru dá apenas para comprar uma caixa de pastilhas e um chupa, as carruagens evocam a antiguidade e quando o comboio arranca, chia e treme mais do que a antiga automora que fazia a ligação entre Coimbra e a Lousã. A velocidade é de apreciação da paisagem, algo difícil com o temporal que lá fora varre as vistas, e cada paragem uma maneira de fazer os pulmões esgueirarem-se por entre as frinchas das costelas.


A mim, nem me incomoda. O meu corpo, depois da excitação de ter visitado uma das "sete maravilhas do mundo moderno", recorda-se que esta brincadeira começou às três da manhã num exíguo quarto de hotel e que sou caloteiro de horas de sono. O embalo da viagem convida claramente ao pagamenro da dívida e num percurso que demora hora e meia, apago mais vezes do que as costumeiras. O conforto dos bancos apela a que simplesmente me instale e desligue o interruptor. Quando acordo, estamos perto da nossa estação e não me sentido recuperado, sinto-me que dei a mim próprio mais algumas horas de coerência para suportar o resto do dia. Descemos em Urubamba, mas ainda não é aí que pernoitaremos. Mais uma hora de viagem de carrinha conduz-nos a um Eco Lodge onde somos recebidos por uma família conhecida do Pedro. O lodge compõe-se de várias pequenas casinhas, cada uma delas abastecida por energia renovável e um sistema de canalização que aproveita a água. Parte dos produtos usados nas refeições são cultivados ali pela própria família. Cumprimentamo-los, antes de, por fim, gozarmos de um pequeno tempinho de morte temporária e precisa. Quando nos dirigimos para a sala de jantar, o Jorge, o meu constante companheiro de quarto durante a viagem, repara num bólide amarelo que descansa numa garagem improvisado com quatro paus e um telhado de zinco. Não consegue seguir caminho sem admirar as curvas, o design e me informar, um leigo de automobilismo, que se trata de um Mazda bastante popular nos anos 80, famoso por ter participado em provas de rali. "Caramba, isto é um RX", e fica tão maravilhado que pressinto problemas futuros com a polícia local e acusações de furto qualificado. Ao chegarmos à sala, voltamos a saudar a família. Um pai e uma mãe com quatro filhos. Num sofá mais afastado, uma senhora velhota diz olá, mas continua a ver as notícias numa televisão pequena. Já nos esperam alguns aperitivos, enchidos, alguns queijos, saladas, para petiscarmos. O jantar é arroz com carne e peixe, à escolha de quem quiser. Cai-nos muito bem, até porque eu, pessoalmente, sinto o meu corpo tão pesado e tão vazio em simultâneo que comida quente, feita ali mesmo com o cuidado caseiro, vem resolver toda  uma série de problemas. Antes de finalmente poder regressar ao meu bungalow, o Jorge não resiste e volta ao romance com a sua loura metálica. É apanhado no acto pelo putativo dono do veículo, o patriarca. Confessa-nos que é um daqueles projectos em continuação. Comprou a carcaça base numa sucata e nos últimos meses tem vindo a recuperá-lo, pois recordava-se de, em novo, assistir a a provas de rali passando perto de sua casa e ficar fascinado com aquele Mazda. Sempre sonhou ter um e agora, cumpriu o sonho. O Jorge gaba-o, depois ao veículo. Por momentos, penso que va cravar-lhe uma voltinha, mas não chega a esse ponto.


Despertar na manhã seguinte às seis e meia. Há um dia muito comprido que nos espera e começa precisamente no mercado de Calca, a vila mais próxima. Localizada no Vale Sagrado, não é particularmente turística, mas o Pedro insiste que nos ambientemos um pouco ao mercado, espaço onde chegam pessoas de toda a região, para que assistamos ao lado mais genuíno desta população próxima dos indígenas Quechuas, aqui sem tiques de exibicionismo excursionista. Este ponto de venda funciona como centro ecnómico de todos os pequenos produtores da região. É domingo e logo pelas oito da manhã, já está cheio de gente que traz consigo acima de tudo comida e tecidos. Os menos autêncitos tmbém carregam bugigangas várias que deverão ter sido produzidas no Peru, mas via Hong-Kong. Entre caras sorridentes e desconfianças latentes, vou caminhando devagar, tentando mostrar que não venho aqui para estragar o dia a ninguém, embora, estamos, a falar de mim, essa é semre uma possibilidade séria. Com a memória das minhas aventuras num mercado de gado em Karakol, recordo como estas pessoas mais simples podem encarar uma máquina fotográfica com declarado horror; mas sou recebido com curiosidade e no máximo, vergonha natural. Não peço poses, não peço abébias: só licença e autorização para captar momentos e assim sigo. Vê-se de tudo um pouco, desde bancas exclusivamente de sapatilhas, até velhinas que cortam pedaços de pimentos nos dão a provar. A maior parte das mulheres passeiam o Montera, um chapéu típico quechua, vestindo a Llicla, um poncho colorido à múltipla escolha, que as agasalha e protege também. Garotos correm por todo o lado, um pede-me que abra um pouco as pernas para rastejar por baixo de mim. Não têm medo, sorriem e brincam, volta e meia regressam à banda de onde saíram e voltam novamente a deambular. Alguns deles têm o tamanho de miudagem de sete anos, mas quando lhes descobrimos a cara, envelheceram trinta. O ar da montanha não deve fazer assim tão bem. Não se escuta música, mas barulho de vozes. Quase niguém grita pregões e os espaços estão bem definidos entre carne, peixe, verduras e tralha. As bancas são de madeira e ocasionalmente, há pequenos botequins de quatro paredes de metal. Num segundo andar, encontro uma larga sala, com duas bancas corridas de pedra, onde gente vê televisão e come cança e uma sopa estranha que mistura caldo de pato cozido com ervas aromáticas. Olho para o ecrã e passam as notícias, uma delas anuncia que foi recentemente aprovada no Parlamento uma Lei Mulder. Concluo que o Universo joga aos dados e me tocou a vez. No centro da sala, uma caixa de vitrais tapa a estátua de uma santa. Como pano de fundo, montanhas brutas. Ainda assim, sinto que não estou totalmente nas profundidades arcaicas deste Peru. Horas mais tarde, virei a confirmar que esta sensação é verdadeira.


No fim da visita, a ideia é regressarmos às carrinhas e subirmos a estrada que serpenteia a montanha sobranceira a Calca, a Suhasiray, rumo a Cuncani, uma exígua povoação completamente entalada em montes, recôndita, quase intocada. O dia soalheiro convida a passeio e a viagem continua. Em nosso redor, altas rochas compactas nem fazem sombra, por muito altas que sejam. A estrada carrega-se de curvas, umas ao enfim de outras, mas o condutor lida com elas suavemente, a velocidade cruzeiro. Nos meus ouvidos, música rouba-me das pessoas, mas coloca-me ainda mais no centro daquilo que procurava quando passei os olhos pelas imagens peruanas: as montanhas. Respeito-as, mas namoro-as, sei que me retribuem mais do que qualquer outra pessoa na paixão que lhes tenho. Quero captar o seu perfil e rosto, em linhas de definida atracção, trazê-las para Portugal comigo em algo mais do que a minha mente, mostrar-vos, atrair o vosso desejo para este canto do mundo. No mais, escrevo sobre os interstícios da viagem, os momentos de transição, as pequenas que se treslêem e ficam de fora do que se conta depois. Faço dos grandes cenários e dos locais conhecidos, dos Machu Picchus e Nazcas destas andanças; mas pelo meio, de um lado para o outro, existem pessoas e estórias pequenas, locais onde nos rodeamos do que é genuíno, aquilo que não chega em fotos, os transportes e as viagens de carro, aquilo de que mal escrevo quando os poucos que consomem estas crónicas absorvem. São os momentos mudos, porque raramente lhes dou voz. Mas hoje dei. De mercados e projectos tão simples quanto recuperar carros da nossa infância, os sonhos comuns de gente incomum porque os concretiza, recuar no tempo numa voltinha de comboio. As coisinhas que preenchem e ainda assim não chegam para tapar aquele buraco que sorve tudo, que não se cala e pára, que exige mais e mais nunca se contenta. A ideia de que alguma vez eu possa ficar satisfeito com a vida esvai-se, é fumo. A certeza de que não tenho o que quero é permanente. Pensar em ti, em ti mesma, e nunca alcançar o desígnio de acordar a teu lado, de partilharmos o que é meu e teu, de me fazeres um pouco mais, dói-me muito mais do que as pregas da viagem. Mas existe e reflecte-se em tudo, nas montanhas e no mar, nas cidades e nos descampados, nas rugas das pessoas, nas lágrimas que nunca me denunciam porque não deixo. Um outro género de momento mudos.

Paramos então. O topo da montanha não surge, logo isto não está no programa. Do lado oposto ao do nosso estacionamento, uma placa anuncia o Parque Arqueológico de Ankasmarka. O Pedro não sabe o que ali está, mas temos algum tempo a matar e nunca se sabe bem o que se encontra nos intervalos do planeado. Oportunidad epara esticar um pouco as pernas. A máquina vem comigo, ao que parece ainda ali queimaremos uma horinha. Tudo bem. A trezentos e sessenta graus, a minha fome de altitude mais do que fica saciada. Pressinto um festim para os meus olhos. Subindo a estrada, uma velhinha quechua traz as suas cabras. Saudações e ela segue, as cabras também. E é então que mais uma vez, das profundezas da minha escatologia pessoal, um trovão me rasga de alto abaixo e culmina nos meus intestinos. O rimbombar de séculos não se ouve pelos montes, mas eleva-me o pânico. Uma das minhas nádegas fala claramente para a outra: "vai haver merda entre nós".

terça-feira, fevereiro 19, 2019

Perugrinação 14: A velha montanha - segunda parte


Machu Picchu significa " a velha montanha" e diz respeito, obviamente, ao descomunal calhamaço de pedra que faz parte da sua iconografia. Estabelecida mesmo no meio dos Andes, não é tão antiga quanto a maior parte dos Europeus pensa, acostumados a associar velhas relíquias arqueológicas de outros continentes a tempos anteriores a Cristo. A Universidade de Coimbra, por exemplo, foi fundada quase dois séculos antes que este povoado fosse construído, algures em meados do século XV. Ao que parece, o seu propósito inicial era o de residência real para Pachacutec, imperador inca, o líder temporário de uma civilização que no espaço de quatro séculos armou o maior império da época pré-colombiana, que abarcava parte ou a totalidade de seis países actuais da América do Sul, unificados pela língua Quechua, a liderança Inca e o culto solar. Portanto, Machu Picchu apareceu bem tarde na cronologia inca, mas pela sua mística, por ter sido descoberta praticamente intocada já no século XX e também pelo cenário que traduzido em fotografia seduz de imediato, tornou-se sinónimo de uma civilização de cidades maiores, construções mais complexas e uma capital declarada e central do império em Cusco. O que é espantoso em tudo isto é que os Incas não são, de todo, uma cultura civilizacional normal. Aliás, procurar semelhanças entre esta e outras civilizações europeias ou mesmo asiáticas é fútil. Ao contrário destas, os Incas não possuíam veículos movidos a rodas, ainda que conhecessem o seu princípio de funcionamento; desconheciam animais de carga poderosos como cavalos ou bois; não criaram um sistema de escrita que possamos reconhecer como tal; e também não usavam ferro ou aço de qualquer maneira. No entanto, como expliquei, governaram o mais extenso império das Américas.

Percorrer a cidade ajuda a entender como tal foi possível, no entanto, a quem repare nos pormenores. Depois de vermos o nascer do sol, cada um ficou livre durante umas horas para circular livremente. Se estivermos no centro de Machu Picchu, é inevitável repararmos, situado num monte sobranceiro, num conjunto de três arcadas que nos vigiam. São as Portas do Sol, Inti Punku em Quechua. É o meu objectivo. Para lá chegarmos, é necessário fazer-nos ao caminho, rochoso mas seguro, que sobre gradualmente pela montanha. Não sou o único a fazê-lo, enquanto caminho vejo centenas de pessoas seguirem na mesma direcção, idades variadas, algumas com ajuda de batons. Pelo meio existem ruínas de antigas construções, pedras talvez sagradas, o mistério de como foram feitas sem o auxílio de metal. De vez em quando olho para trás, para ver a cidade lá em baixo cada vez mais longe e está geometricamente feita e organizada, rectângulos agrupados e delineados, casas que um dia foram algo mais do que buracos que vejo agora ao longe. Também começo a entender o quão difícil há-de ter sido encaixar tudo isto nas encostas das montanhas. Para mais, a zona peruana, como referi noutra crónica, é muito dada a achaques sísmicos. A engenharia e arquitectura da cidade fez-se para evitar terramotos, cheias, deslizamentos de terras e chuvadas repentinas. Um pouco como os nossos Açores e Madeira, a Natureza deve ter deixado letreiros a ameaçar com mil e uma catástrofes caso escolhessemos tornar os locais habitáveis. Mas fez-se. O mesmo caminho que percorro faz parte do extenso conjunto de estradas que liga todo o Império Inca. Daqui a Cusco, por exemplo, são cinco dias a pé; e foram encontrados achados arquelógicos neste local que mostram um comércio intenso com povoados do lago Titicaca, que fica a centenas de quilómetros no sul do país. Parte destas estradas ainda hoje existem e ligam aldeias e pequenas vilas de maneira pedestre. Quanto mais penso nos Incas, mais me lembro dos Romanos e de como certas inspirações estão apenas num éter qualquer, que culturas diferentes acabam por absorver em momentos diferentes da História.


Chegar às Portas do Sol não é cansativo, num passo decidido, mas moderado e com tempo para muitas fotografias, alcanço o topo e tenho uma vista privilegiada para o local de onde parti. A cidade é-me pequena à vista agora, a montanha que lhe faz sombra ainda mais dominadora, presente. Em redor, os picos andinos cobertos de vegetação relevam o clima tropical que afecta esta zona durante todo o ano. Olhando para o meu lado esquerdo, consigo ver o seguimento do trilho que percorri, perdendo-se entre a  vegetação, mas com acesso proibido ao público geral. Por aqui se fazia a entrada para a Machu Picchu, imagino guardas imperiais controlando o movimento dos viajantes e dos comerciantes. Pela sua localização remota, creio que a admissão ao local seria muito selectiva, entregue apenas a alguns escolhidos. Aqui só encontramos ruínas, mas aproveito o meu esforço para desfrutar da vista. Sento-me num socalco relvado e pousando a mochila, permaneço uns momentos fora de mim. Vejo em meu redor pessoas a fazer palhaçadas, outras que sentadas no chão cerram os olhos em meditação e mais uns apenas cansados, provavelmente ainda não habituados à altitude de quase 2800 metros em que se encontram. Eu apenas penso. Quero sentir, mas só consigo pensar. Não vou partilhar o que me baila convosco, guardo-o; mas várias coisas me sobressaltam, coisas que o éter do local, ou então uma diminuição drástica da quantidade de oxigénio no ambiente, apenas tornam maiores, mais ofegantes e presentes. Ser eu não é uma má experiência todo o tempo, mas alturas há em que me pesa por demais, ou se calhar ando a carregar tanta coisa inútil no meu saco, não aprendendo a largar, que esse mesmo saco se colou a mim e já faz parte. Ou então estou a dar uma simples desculpa para o meu aumento de peso. Uma pessoa com quem me envolvi uma vez ensinou-me alguns exercícios de respiração. "Experimenta, quando achares que o mundo é só aquilo que te pesa e assusta" e desde então que os uso a espaços. Ela comentou comigo que adorava estar aqui um dia e uma maneira de trazê-la talvez seja aproveitar essa dica que me deu. Estou assim durante uns minutos e pareço um daqueles maluquinhos New Age que tanto gozo. Mas resulta. A mente torna-se mais clara e vejo tudo como é: o sol a bater-me na face e estou vivo para poder presenciar toda esta maravilha e voltar para contar o que vi com a imperfeição das palavras.

O caminho de regresso faz-se mais devagar, atenção aos pormenores e também às pessoas, nas faces, a procura de algum tipo de iluminação em quem aqui a buscou. Nada reparo. Quando chego à casa do guarda, ponto de partida de todas as visitas turísticas a Machu Picchu, reparo nalguns magotes de gente. Nuns casos, são claramente grupos de vivenciadores New Age, juntam-se em círculo e de braços abertos para o sol, alguém no meio veste de forma folclórica e procura dar alguma orientação e rumo a quem tão sequiosamente o observa. São os turistas da procura, aqueles que vão fugindo do seu mundo na crença de que se algo melhor os espera, está bem longe, inalcançável e  assim é que está bem. O que interessa é a busca, a vida é movimento e indagação, a caçada da verdade, seja ela qual for, por mais largueirona e manienta que se revele. É a de cada um, mas acima de tudo é a de alguém que no-la dará. Outros grupos são de simples turistas que segurando folhetos e livros, Lonely Planet talvez, exigem conhecimento e interpretação por parte de um guia. Topam-se bem, estes guias. São homens, quase sempre, corpo curtido pelo sol e esquálido pelas caminhadas constantes. Não é o parque quem os fornece. Se queremos um, contratamo-lo directamente.Invariavelmente, são peruanos e para eles os Incas não são um simples povo desaparecido no passado: fazem parte do que os agarra à terra. A nós, calha-nos o Joel. Não tem mais de 40 anos, não lhe pergunto a idade e por cortesia, não lhe revelo que sim, estudei História. O Pedro, nosso líder de viagem, dá-me uma cotovelada e comenta "Sobre isto não lemos nós na escola em Portugal", mas o que o Pedro não sabe é que tenho um graúdo interesse pela América Pré-Colombiana praticamente desde que comecei a pedir enciclopédias emprestadas aos vizinhos. Que sei perfeitamente distinguir Quetzalcoatl de Viracocha, os Olmecas dos Toltecas e Chichen Itza de Technotichlan. É verdade, que o foco da História escolar é a Europa, esse centro do mundo que não é, umbiguismo de apenas quem usa palas no olhos; mas felizmente, a escola nunca foi o meu limite de conhecimento e curiosidade. Não me dei ao trabalho de pesquisar sobre este local a fundo e estou com genuína curiosidade em ouvir o que o Joel nos vai contar.


Há uma paixão nas palavras do Joel. Avançamos por entre as ruínas da antiga cidade e em pontos específicos, ele explica os segredos dos locais, ao variedade agrícola, o génio de engenharia, os sistemas de irrigação, os mistérios do culto religioso, de como o mundo se esquece do Império Inca, tão grande e tão organizado, como os Incas foram os primeiros a pensar em tanta coisa, de como as suas construções resistiram até hoje e como a sua capacidade organizacional não tem par no mundo. À minha volta, os meus colegas deliciam-se maravilhados; eu, simplesmente, sorrio e penso nos Romanos. Sei que a História não é uma competição de pilas entre povos. O orgulho nacional nisso a transforma e o Joel, de um Peru que há duzentos anos estava ainda sob o domínio espanhol e há menos de vinte e cinco permanecia ainda satélite na órbita da importância do mundo, mata uma fome de protagonismo não pessoal, mas da pátria. Não está ali para nos deliciar com arqueologia, mas simplesmente marcar posição e a imagem nas nossas mentes de que eles, os peruanos, são mesmo bons e importantes. Respeito isso, claro; e um olhar minimamente atento obriga ao espanto, principalmente pelo uso de técnicas de construção que não exigem cimento ou argamassa: as pedras pousam umas nas outras e é a pressão que as mantém rijas e hirtas. O problema arqueológico que isto coloca, e o Joel faz questão de referir, é que as casas e edifícios mais modernos são, precisamente, os mais frágeis aqui em Machu Picchu. Desde o Templo do Sol até à Intihuatana, a pedra de múltiplas pontas, quase tudo está alinhado especificamente na direcção dos grandes acontecimentos astronómicos, solstícios e equinócios, a relação com o Sol sendo o centro da vida Inca. A cidade está dividida por zonas sociais, o povo e a realeza vivendo em locais com separação bem delineada. Machu Picchu é uma cidade que desce por socalcos. Um pouco como a paisagem do Douro vinhateiro, embriaga da mesma forma.

Já na parte final da visita, o Joel explica particularidades da sociedade Inca. De como homem e mulher viviam juntos antes de casar, só para ver se a coisa resultava. De como o divórcio era permitido e as relações gay também, desde que o casal não fizesse muito alarido disso. A mulher podia propôr divórcio e trabalhava, concluindo eu que o antigo Peru era mais avançado socialmente de que a moderna Arábia Saudita. Por falar nas arábias petrolíferas, passa a meu lado um pequeno grupo de norte-americanos. Fazem barulho, como era expectável e como que cumprindo um cliché, fazem alarde público da sua ignorância em relação a tudo aquilo que não seja "America, fuck yeah!". Uma moçoila bem jovem, que tomou aparentemente a resolução de se bronzear de corpo inteiro aqui nos Andes, pergunta a um rotundo barbudo se não era esta uma das maravilhas do Mundo Antigo. E ele diz que sim, que é; uma terceira figura, porte atlético e louro de capilares, contrapõe e engelha o nariz. Isto não é assim tão bonito, não pode ser; mas o primeiro matulão garante, viu isso num programa, até houve umas eleições. Que até o Cristo do Brasil também era do mundo antigo. Quem me conhece há mais tempo, sabe que tenho uma baixíssima tolerância à estupidez, que vai diminuindo na proporção da estima que tenho pela pessoa. Não conheço estes burgessos, logo conseguem adivinhar o que se segue. Intrometo-me na conversa, de mansinho. Correcção: esta não é uma maravilha do mundo antigo. É impossível, porque elas localizavam-se todas na bacia do Mediterrâneo. Silêncio momentâneo. O génio barbudo insiste no que viu e eu explico, mais calmamente do que já fiz a alguns alunos que me passaram pelas salas, que isso foi algo recente, feito por questões turísticas para renovar o interesse no conceito. "Sabes muita coisa sobre isto, tu; mas por acaso estudaste História?" O tom gozão acalma quando respondo que sim. Cinco anos. E sou professor. Este foi o momento em que ele se apercebeu de que há poucas coisas mais eficazes do que um estranho desagradável que percebe daquilo que fala. Retirei-me com "Sabes, benefícios de uma educação europeia" e deixei-o a digerir o quanto o meu mundo é Velho, mas o antiquado era ele.


A visita termina no local onde começámos, o pórtico de entrada. Vão chegando camionetas de turistas. Uma atrás da outra. Apesar das restrições colocadas pela UNESCO e pelo parque, os limites são claramente ultrapassados: o Joel contou-nos que mais de seis mil pessoas visitam este local diariamente. Segundo as regras oficiais, apenas duas mil e quinhentas podem fazê-lo. É uma mina, Machu Picchu. Séculos depois de ser um dos últimos refúgios de um povo que viria a ser explorado pelos Espanhóis, a herança inca é hoje abusada aos pés do mesmo deus que seduziu os Europeus. Também reluz, mas não é o Sol. "Foi giro isto", diz-me alguém ao meu lado, e não usaria exactamente esse adjectivo. Gostava de ter sido largado à solta por entre as ruínas, sem constrangimentos ou tempo contado, mas o bilhete era válido por apenas uma manhã e à medida que viajo, percebo que o Tempo e o Espaço só casam bem na Física de Einstein, não nos desejos de quem se passei pelo mundo. Não vim ao Peru por estes calhaus, mas ficava cá mais uns tempos à conta deles. Para lá das imagens de Instagram ou do falso impulso epifânico que tantos aqui pretendem encontrar, há um genuíno encanto inusitado e intrigante sobre a Antiguidade nestas montanhas. Quando estou fechado numa sala de aula, a explicar História a gandulos, sinto-me sempre preso nos limites do que me corre na cabeça, no que quero mostrar, nesta paixão pelo percurso da espécie em sociedade e desiludo-me pois as paredes não expandem mentes. Ao ar livre do oxigénio reduzido, nesta banda que é mais do que um cliché ou um objectivo de vida que dura duas semanas, há um desconhecido arcano que como um sofá, obriga a sentar e contemplar. É o que me apetece fazer, mas chega a nossa camioneta, eu entro e instalo-me num lugar e de seguida, sou levado daqui. Só com memórias, fluidas e em fumo. A velha montanha fica para trás e a única coisa que me sobra é o velho eu que aqui chegou e continua a não renascer.

domingo, fevereiro 10, 2019

Perugrinação 13: A velha montanha - primeira parte


É uma faca de um ouvido ao outro, o toque de despertar. São três da manhã, enxofrina-me o visor do telemóvel. Sim, são três da manhã e estás acordado. O quarto é pequeno e na cama ao lado da minha, o Jorge parece ter sido apanhado no mesmo deslizamento de terras do que eu. Um pequeno sorriso mútuo, reconhecendo o mundo ao contrário onde nos encontramos, onde é noite e temos de fazer de conta que é de dia. Sinto-me grogue e com alguma dificuldade, distingo que as pernas têm lugar nas calças e não na camisola. Estamos em Aguas Calientes, uma pequena povoação no Leste do Peru que nada mais é do que um aglomerado de casas com uma única justificação: Macchu Pichu, a atracção turística mais popular do país. Não é isto que me traz cá, mas o Peru não fica exactamente ao lado de Portugal. Uma pessoa atravessa meio mundo e já que o meu corpo deu por si nos Andes, seria pecado não ceder a um cliché. Desde que, há uns anos, este local arquelógico inca foi incluído nas novas Sete Maravilhas do Mundo, toda a gente tem comichão em que cá vir. Claro que podemos questionar critérios - afinal, algo tão sem classe e estilo como o Cristo Redentor brasileiro está também incluído - mas ao menos, ao contrário das mesmas Sete do mundo antigo, estas maravilhas contemporâneas existem mesmo. Seria algo desapontante se, acordado a tão antecipada hora, desse por mim num planalto deserto ou apenas com meia dúzia de calhaus semelhantes aos que encontro espalhados pelo Pisco ceirense.

Ainda é noite e o nosso grupo desce desde o hotel até à zona dos transportes. Mesmo na escuridão, Águas Calientes é um pinhadinho de ruelas entre lojas, restaurantes e hóteis, com a mesma quantidade de personalidade que Luís Montenegro. Ainda assim, ouve-se já um rumor de vozes a alguma distância. Na paragem da camioneta que leva a Macchu Pichu, estão já, pelo menos, umas cinquenta pessoas, assim de cálculo. Organizam-se rudemente, a lembrar um rebanho. Está frio, mas o do inverno peruano, húmido, de lâmina pouco afiada. Sem Internet, não há muito para nos entretermos que não seja conversa de situação, algumas piadas ocasionais e o encosto do passeio. Olho na direcção da nossa chegada e uma rua com meio quilómetro vai-se povoando com o passar dos minutos. Às quatro e meia da manhã, já devem estar 200 pessoas. Meia hora depois, o dobro, a fila deixa de existir passando a ser um magote. Uma praga de turistas. Impermeáveis coloridos misturam-se com descontraídos adolescentes e pós-adolescentes em grupo, barulhentos, o linguarejar da Torre de Babel original. Não sei onde vêm, apenas para onde vão. É o sonho psicadélico de Viracocha. Cinco e meia e chegam as primeiras camionetas. O magote afunila-se. Fiscais de transporte tentam ordenar a entrada. Alguns polícias pairam, caso a praga necessite de insecticida. Depois de verificado o meu bilhete, entro e acomodo-me no meu lugar. No interior do transporte, um silêncio cúmplice de quem deve horas ao sono e poupa energia para a atracção principal. Quando saímos, já se notam matizes do amanhecer, mas o sol não está, ainda. A estrada que conduz a Macchu Pichu é uma serpente emplumada, com as árvores oferecendo cobertura ao corpo ofídio. Pela janela, observo caminhantes de frontal na testa, optando por um caminho alternativo, um trilho que corta a montanha quase a direito. Ainda são numerosos, pessoas que se desafiam fisicamente ou simplesmente tentando retirar o lado turista de um lugar que, para os Incas, sempre foi espiritual. No entanto, pela sua organização, pela ânsia de fotos pessoais, pela devoção às suas redes sociais e projecção no mundo virtual, são tão falsos como eu. Apenas têm maior caixa torácica.


A manada é reunida, depois da chegada gradual das camionetas. Já há luminosidade suficiente para que nos distingamos. Penso em como tudo isto é mais uma apropriação ocidental. Afinal, um arqueólogo americano chamado Hiram Bingham gabou-se de ter sido o primeiro a descobrir este povoado perdido a mais de três mil metros nos Andes. Olhando para a entrada, há uma placa, celebrando a amizade peruana e norte-americana com base no feiot desse garboso - e racista - cidadão americano. Como se Macchu Pichu fosse um presente envenenado. Como em quase tudo da versão histórica ocidental que se faz do chamado mundo dos pequeninos, é uma falsidade. O local já era conhecido de vários historiadores nacionais, em descrições, relatos e estudos. Pelo menos desde o século XVIII até que missionários espanhóis traziam consigo histórias de uma cidade, na base de uma montanha, nesta região. Quase de certeza que se referiam a este povoado. Mas Bingham pensou que era mais esperto do que os outros. Vinha dos EUA, claro. Bingham, um homem de boas famílias e hábitos eticamente discutíveis, ficou como o explorador das nuvens.

Somos encaminhados para o início de todos os trilhos que atravessam o parque arqueológico. Existem quatro percursos, mas a ideia do nosso grupo é chegar à primeira plataforma e fotografar a imagem mais icónica deste local no preciso momento em que o sol nasce. Aquela montanha elíptica verde e negra. Há uma fila de dezenas de metros que se contorce pelo caminho acima, pessoas como formigas, mochilas balouçando às costas, casacos coloridos combatendo o frio, sorrisos e compenetração. Por isso viemos tão cedo. A plataforma que buscamos, no entanto, preenche-se, curiosos e voyeurs, gente que anunciará a todo o mundo, segundos depois, que estão onde todos querem estar, apaparicados por uma certa sensação de superioridade geográfica do momento. A vista é reconhecível a qualquer pessoa que tem o Atlas Obscura na sua lista de favoritos. Aproveito uma nesga e planto-me, pés criando raízes para só me arrancarem dali à força da boa educação. Cedo a uma fraqueza e peço a alguém que me fotografe com o telemóvel. Mexendo nas definições da máquina fotográfica, tento calcular qual a melhor maneira de guardar para mim este momento; mas mais importante é o que baila na minha cabeça. Custa-me admitir inicialmente, mas há de facto um éter que não se vê nem se palpa em meu redor. Vai-se entranhando, tento definir, mas ainda não consigo. Preciso de mais presença. Cinismo de lado, absorção, encarar tudo isto não como um bacanal de turismo vendido e empacotado, mas algo mais que me preencha, que me faça atravessar a barreira do real. Há sete séculos, uma civilização trepou toda esta montanha, enfrentou a altitude ofegante e como uma criança que empilha uma torre de legos, deixou-nos uma cidade. Não se tinham dado ao trabalho só porque fica num topo. Quer dizer, talvez; boa parte das grandes cidades portuguesas devem a sua localização ou a rios ou a montanhas. Mas entre tantos topos, porquê este? A minha pele repousa, afrouxa, tenta mostrar-se receptiva. Já foste místico, já acreditaste nalgumas destas coisas. Era mais novo e mais parvo, mas ainda vive em ti, ou então definias-te ateu e não, como gostas sempre de afirmar com nariz empinado e quase num trejeito ridículo, que és agnóstico. Faz um esforço, instala-se e deixa que se instale. Sais do teu país à procura de motivos que façam a presença deste teu corpo físico e alma cadavérica justificação de existência. Atravessas meio mundo para encontrares o que quer que seja que achas que está no final da viagem, na ânsia de finalmente perceberes essa pergunta que não cala, mas também se anuncia. Se o fazes, ao menos fá-lo por completo. Aceita e nao recuses.


A luz então começa a surgir e envolve a cordilheira em nosso redor. Vegetação desce pelas escarpas abaixo, é um caldeirão verde. O sol espreguiça-se por uma frincha entre dois picos, oculto ainda lançam os seus raios, arautos da sua chegada. São brancos,  são amarelos, mas se repararmos bem, nem têm cor, são apenas um anúncio. O que está escuro, baço, de repente sorri. Na base daquela montanha reconhecível, as ruínas finalmente aparecem, uma dança entre a vida e a ausência dela na pedra que guarda séculos. O sol gradualmente beija todo os cantos das casas, as faces do monte, até as nossas próprias caras quando se liberta da prisão dos montes e assume o seu lugar no céu. Sento-me, fotografo e respiro, não tanto o ar, mas a luz. Por momentos consigo, e juro que é verdade, ignorar que estou rodeado de uma multidão. Não existem maníacos das redes sociais, agarrados do telemóvel, simples monos que não entendem fazer parte de um mundo com tanta gente, terroturistas de ocasião. Eu estou aqui e quase sou o único, enquanto me reservo e mantenho no óculo da máquina. Já várias vezes falei desta sensação de ser um apenas através da câmara e que na busca de registar aquilo que mais tarde vos trago de cada uma das minhas viagens, o foco é apenas no momento. Vejo com os olhos, mas todo o meu corpo sente. Nesta chegada a Machu Picchu, as primeiras impressões marcam-se na pele, em mãos invisíveis de um misticismo próprio e genuíno, não de expressões faciais forçadas e alegria barroca, mas numa certeza que ganho em cada uma das viagens: de que comecei as minhas aventuras a fugir de algo, mas que nunca serei apanhado agora, precisamente porque já não fujo. Em troca, apanho todos estes instantes que aos trambolhões e como se os escrevesse dentro de uma máquina de lavar roupa em funcionamento, vos entrego imperfeitos.


Subo mais um patamar. Continuo a caminhar sem reparar bem no que vejo, apenas no momento em que o dia nasce e estou aqui, no meio dos Andes peruanos, nestes despojos do Império Inca. Agora, vejo a velha montanha sobranceira às ruínas do lado oposto ao que me encontrava. Acomodo-me e volto a fotografar. Num golpe de sorte e de vista, enquanto o sol trepa a pulso do meu lado direito, do lado esquerdo a Lua descobre que não é mais bem vinda e retira-se para as profundezas. No momento em que olho, parece pousar num pico montanhoso que se assemelha à base de um cálice. É como uma bola de gelado pronta a comer, aluada. Sem muito tempo para pensar, capturo o instante em três momentos diferentes. Apenas um sai perfeito, mas faz-me sentir sortudo, algo que muito, muito raramente me acontece. A sorte de estar e de ser, de ver acontecer, de sentir o suficiente para encontrar a beleza em algo tão simples quanto uma percepção. Aquilo que a vida é, afinal. Um ponto de vista, uma impressão, ângulos múltiplos de um espelho e que se olha e reflecte aquilo que está dentro de nós. Baila em mim, sempre, o turbilhão do abismo, aquela sensação de que o poço é real e a minha boca a única entrada para o mesmo. Mas neste momento, sentado numa palete de plástico preto, nada disso importa. Só eu e o mundo, que consigo ver sem mais alguém. Talvez seja um qualquer feitiço inca que só acontece a quem acorda às três da manhã.

terça-feira, janeiro 29, 2019

Perugrinação 12: O sal da terra


Uma das razões pelas quais comecei a viajar foi o peso que a morte repentina do meu pai teve na minha maneira de encarar o tempo que me resta nesta massa planetária. A mania humana de planificar e esquematizar, jogando à malha com sonhos e ideias, ao atirá-los o mais longe possível da sua concretização - "Depois tenho tempo. Agora não dá" - é uma constante no nosso comportamento e ao ver alguém sumir assim, alguém que foi adiando e adiando para uma outra vida, talvez, aquilo que queria fazer e ver abriu-me uma janela onde o futuro deve ser o mais imediato possível. Queres, vai; podes, faz; estampas-te, azarinho (esta última, então, tem sido tão lema dos meus últimos anos que quase posso chamar a minha vida de sucata sem fugir muito à verdade). O meu pai vem comigo nas viagens que nunca fez, nem quis. Apenas porque se na vida não se atreveu a conhecer, é na morte que mostra coragem e tão em silêncio como de costume, mas estampado numa película fotográfica, aprecia a paisagem. Por isso, quando viajo, sei que tenho a morte por companhia, mas daquelas não está quieta muito tempo. Uma morte com bicho carpinteiro.

Quando nos aprestámos a sair de Cuzco, portanto, penso não ter tremido com a notícia de que uma das pessoas que connosco viajava sofrera uma perda familiar. É preciso galo sim, mas é mais do que isso. Contaram-me isto e a pessoa ao lado. Não me recordo de como reagi; mas apesar de levar na minha mochila uma forte estampa de óbito, sei que dentro de mim, de há quatro anos para cá, fechei um pouco a sensibilidade a falecimentos alheios. Não é por mal. Simplesmente, tirei esse equipamento. Acho que toda a gente pensa o contrário, pelo que escrevo, pelo que digo, pelo quanto já me procuraram em situações semelhantes na sua vida. Nunca soube lidar com a morte e não o aprendi com o meu pai. Talvez a pessoa me tenha pensado insensível, mas a verdade é que faço sempre o melhor para ser humano: estou um pouco e depois, retiro-me para não parecer um parvalhão. Quando regresso ao hall de entrada, onde combinámos antes de sair, sei já que ela vai regressar a Portugal. Nada mais óbvio. Relembro isto da aleatoriedade dos finados, de como tudo é muito lindo até de repente se tornar feio. Não quero mesmo pensar no meu pai, mas passo o resto do dia a decompôr no quanto as coisas são acaso, por muito que se sorria e se queira pensar que há um qualquer volante que controlamos. Despeço-me dela, sei o que sente e quando me sento na carrinha que nos levará até Ollantaytambo, vila a partir da qual acederemos à base de Macchu Pichu, um conjunto de sentimentos, de memórias encurvam-me a língua, mudam o sangue para gravilha.


Rapidamente este turbilhão é substituído pela mais poderosa emoção: o trovão que da cabeça se atira no abismo dos intestinos apenas para alertar que a soltura é uma necessidade. Depois de termos subido a cidade de Cusco, era só o que me faltava. A carrinha estaca na berma de uma rua pois alguém necessita de comprar uns comprimidos para o enjoo e eu aproveito a oportunidade. As ruas são palco de uma actuação folclórica, um patego desarranjado arrisca correr de pernas juntas, tarefa fisicamente contraditória, batendo a portas que não abrem, procurando um refúgio. Alguns minutos nisto e eis que nas profundezas de um rés-do-chão, encontro uma sala que alberga dois computadores. Um par de jovens retira o olhar da prisão do ecrã, contemplando-me na minha fragilidade humana; é uma sala de chuto, vejam lá, mas a droga fornecida está online. Como nem todos os peruanos dispõem de orçamento suficiente para acederem no conforto de casa à Internet sempre que desejam, ainda floresce este negócio. No entanto, a ligação que procuro envolve mais canos do que linhas e claramente é prova de muita fibra. Um bigodudo cinquentão mira-me com olho de lince, mas não me aborda. Nota o desespero, mas espera pela iniciativa. Pergunto por uma casa de banho. Com certeza, amigo. Pero son 10 soles, por favor. Dois euros e tal para me aliviar. Tudo bem. Não pergunto pormenores, ele simplesmente aponta o caminho da salvação e nem sequer me oferece hóstias. Um corredor estreito conduz a uma sala pouco iluminada, verdalha e do meu lado direito, um papel colado a uma porta, tosco e repentino, indica o WC.

Abro a porta e uma sanita mal lavada parece ter estado toda a viagem à espera das minhas peludas nádegas. Não é a pior casa de banho da Escócia, mas não será certamente o topo de gama no Peru. No entanto, por sentir que a minha zona intestinal se parece cada vez mais com a primeira meia hora do filme "Saving private Ryan", sendo o meu duodeno a praia de Utah, as hipóteses escoam-se. Baixam as calças e nem questiono. Abstraio-me de tudo, penso em praias e montes nevados, escuto Enya tocada por Iggy Pop, mas num acordeão. Tudo para não pensar que por esta hora, um imenso exército de bactérias se prepara para fazer de mim o paciente zero da próxima epidemia de peste bubónica. São cinco minutos rasgadinhos. E papel higiénico? Não há. Pois claro, os dez soles foram pela vista. Procuro no bolso e encontro um lenço de papel ranhoso. Não chega. Porra; e vejo no chão um folhita de nada que sem ter sido usada, já foi pisada. Penso no quanto este momento é incrível; há vinte anos, custava-me este alívio sequer fora de casa. Agora, num continente diferente, estou realmente a encarar com seriedade usar um papel imundo para passar onde tudo deve estar limpo. Sabem que mais? Se é o que preciso, seja; e chega. Há autoclismo, que pela tosse sofre de tuberculose. Quando passo pelo homem, venho a sorrir, e ele também, chulo, acabou de me gamar. Mas regresso aliviado. Recordo o quanto a sensação da chamada "real" é daquelas que tanta gente esquece, mas memorável quando no desespero encontramos uma saída.


Saímos de Cusco e antes sequer de pensarmos em Macchu Pichu, o Pedro informa-nos que vamos parar numa estranha atracção turística, o Salar de Maras. O que é? Umas salinas, e penso que ele está a gozar. À minha volta, vejo os Andes, monstruosa cordilheira onde rodamos acima dos 3500 metros de altitude. Mas de facto, sessenta quilómetros depois, com a magnífica paisagem montanhosa a fazer-nos companhia e a Cumbia voltando aos nossos ouvidos num ritmo gingão, a estrada chega a uma encruzilhada e cortando à esquerda, encaminha-se para um caminho de terra batida onde uma varanda permite estacionamento. Hora de tirar fotos. Quando me debruço, não sei bem o que vejo... Há uma imensidão de piscinas brancas que mais parecem o bairro residencial mais estranho deste lado do Atlântico. É o Salar de Maras, ou em quechua, Kachi Raqay. São escadas de degraus pouco profundos, no fundo dos quais se vai acumulando o sódio que mais tarde produzirá ao sal. Eu, beirão entre a montanha e o mar, cresci ligando salinas ao movimentos das marés; mas aqui olho em redor e só vejo montanha bruta. O alvor quase pode ser de neve, mas não. Há dez milhões de anos, tudo isto estava coberto por água salgada. Os Andes, no entretanto, ergueram-se e espalhadas pela paisagem, dezenas de pequenas psicinas de água salgadas sobraram. A sua conjugação química entrou no solo andino. Aqui, tudo tem origem numa nascente subterrânea, de onde um jorro contínuo de água brota. Através de um sistema de pequenos canais, a água é conduzida para as centenas de piscinas, cada uma delas com dono próprio, onde fica a secar ao sol para produzir o ingrediente mais comum da nossa culinária. Acima de tudo, é uma empresa comunitária: qualquer um pode ser dono de uma destas psicinas, explorá-la e trabalhá-la, mas precisa de pertencer à comunidade de Maras, vila a pouco mais de um quilómetro. As famílias mais antigas têm direito a locais mais próximos da nascente - exploradores mais recentes são recambiados para longe. Quanto maior for a família, maior o tamanho da piscina que lhe calha em atribuição. Qualquer um pode fazer parte deste sistema cooperativo, porque há muitas piscinas sem uso. Sendo hereditárias, passam para os herdeiros. Apenas precisa de pedir autorização aos líderes da comuna e aprender a cultivar o sal. Chega. É um sistema simples que já vem dos tempos Incas, onde o conceito de tribo e de trabalho familiar estava muito presente. Era impossível vê-lo hoje em dia, nestes tempos de capitalismo voraz, em que o único sal da terra é o lucro e cada um quer tudo para si.

Olho para o altímetro do telemóvel: estamos a 3380 metros. É impressionante. Ainda antes de entrarmos no espaço ds psicinas, há várias bancas que vendem produtos relacionados com o sal. Desde o simples culinário, com uma variedade de cores desde o azul ao encarnado - passando pelo fumado, que faço questão de trazer para casa por me parecer exótico. A minha mãe usou-o várias vezes e nenhum de nós se queixou, logo pior não cozinha - até ao medicinal, de cura de maleitas desde calos e feridas até à impotência, à gota, à tensão arterial... A certa altura, há toda uma componente de bruxaria e xamanismo que torna irresistível a visita às salinas. Um pequeno trilho enfia-se sobranceiro a todo o espectáculo e por aí caminhamos. Ao nosso lado, os pequenos canais levam a água às suas prometidas camas. Deixam o solo esbranquiçado. Um dos trabalhadores passa ao meu lado e pergunto se posso provar o sol directamente da piscina. "Si, pero cuidado!! Es muy salgado" e eu nem estava preparado para o sal ser salgado. Lá em Portugal, tem assim matizes de chanfana, compadre. É diferente, para falar a verdade, um pouco mais suave, menos denso - ressequindo-me os lábios com doçura. A água é quente, vem do útero terrestre. O sal sempre teve uma importância enorme para qualquer civilização. Era o ouro branco, usado como pagamento pelos povos mediterrânicos e ainda hoje derivou a palavra "salário" para o nosso vocabulário. Calculo apenas o valor que os Incas lhe davam; e aqui, em pleno Vale Sagrado, adquire um significado quase religioso, peregrinar na brancura da paisagem.


Quando a carrinha sobe a curvilínea estrada de terra poeirenta, o guia que connosco viaja, homem que falou quase ininterruptamente desde que saímos de Cusco, relembra-nos que está disponível para esclarecer dúvidas sobre o Salar e relembra-nos que se chama Sócrates. Mostra orgulho. Eu noto e pergunto: "Como o filósofo?" "Não, como o doutor", e fala de como o pai adorava o ídolo eterno da torcida do Corinthians, o revolucionário médio que marcou uma época de oposição à ditadura brasileira e também fez parte da melhor selecção nacional que nunca ganhou um Mundial em 1982. Mas sim, o filósofo também foi importante. Claro que sim, penso, é apenas e só o mais importante nome da filosofia ocidental. Mas orgulha-se de não conhecer um único Sócrates que seja mau. Como piada, viro-me para o Pedro e aconselho que em calhando, é melhor não mencionar o nosso Sócrates; mas o peruano apanha a dica, ouve o seu nome e quer saber. Explicamos-lhe rapidamente as aventuras de José no país das rendas e dos favores, dos amigs de infância dedicados e das casas em Paris. "Corrupto' Há um Sócrates corrupto? Ele roubou às pessoas?" E sim, dizemos, está a ser julgado por isso. Em Portugal, antes do futebolista e do filósofo, Sócrates é ladrão. Suspira o pobre homem, remete-se ao seu lugar e está uns minutos em silêncio, incrédulo. Estragámos-lhe a fantasia depois de regressarmos de um local quase mágico e único. Aprende, amigo: este é o verdadeiro espírito dos portugueses pelo mundo.

sábado, dezembro 29, 2018

Top 10 de 2018: Cinema

E têm-me perguntado "Então, não tens top 10 de filmes para este ano?" Ora essa, apesar de ter visto muitos menos obras de 2018 do que devia - tend recuperado um pouco nestas últimas semanas - penso que vi cinema suficiente para não me envergonhar. O critério usado foi o da estreia nas salas portuguesas, portanto não estranhem algumas das escolhas. Será, apesar do mito que so vejo filmes da Marvel, bastante ecléctico. Espero. Antes, umas menções honrosas: "Cold war" estaria com certeza aqui, se não fosse o pedestre quarto de hora final; "Spider-man: into the spiderverse" e "Isle of dogs" são, apesar das óbvias diferenças de estilo, duas das grandes obras de animação do ano, embora não caibam aqui; "The other side of the wind", embora imperfeito, prova como Orson Welles, mesmo depois de morto, acompanhou muito bem os tempos; "BlackKklansman" é um regresso de Spike Lee à raiva com algo não gratuito a dizer; "A quiet place" mostra que não é preciso ser político para ser fazer um filme de terror ao qual devemos prestar atenção;"American animals" é um bom híbrido de documentário e ficção, mas precisava de mais documentário; "They shall not grow old" e "Won't be my neighbor" são dois dos documentários do ano, ambos lembrando outros tempos e outros homens de que o mundo actual precisa definitivamente. Posto isto, vamos ao top 10.


10 - "Avengers: Infinity war": O culminar de 20 filmes encadeados, com altos e baixos, mas extremamemte eficaz como obra de entretenimento e com um raro final que entra na cultura popular de tal forma que define um gesto, "the snap", que entra no vocabulário global subentendido


9 - "Three identical strangers": Começa como uma história de vida luminosa e no fim damos por nós num túnel de trevas imenso. Tal como "The imposter" antes de si - um dos meus documentarios preferidos dos últimos anos - funciona não apenas como veículo de informação, mas também um thriller de reviravoltas assombrosas e, em última instância, trágicas. Porque o bom documentário não tem de envergar bandeiras de hashtag para ser destacado.


8 - "The death of Stalin": Em simultâneo um filme histórico e uma sátira política, o filme de Armando Ianucci é tudo aquilo que não se conseguiu encontrar em tanta suposta comédia aclamada este ano ("Crazy rich asians" é um dos filmes mais banais de 2018. A ideia de que a raça dos actores deve contribuir para a valorização de um produto tem de acabar): actores que sabem o que fazem, ideias traduzidas em piadas que rasgam o ecrã e estupidez bem medida como reflexo dos egos que definem o mundo.


7 - "Mission Impossible: Fallout": Nenhum outro filme - aparte outro que está mais acima - me proporcionou uma experiência de adrenalina numa sala de cinema como este em 2018, desde revolver-me na cadeira a agarrar com força os braços da mesma.È do caralho. Como uma franchise chega ao sexto filme para dar lições num género específico de cinema (em particular a lição de que só parece novidade aquilo de que se esqueceu) é açgp que me ultrapassa. A última meia hora de "MI: Fallout" é um pináculo.


6 - "Leave no trace": Homem leva filha para viver afastados da civilização e cria-a no meio do mato. Nâo é "Captain Fantastic", é Debra Granik com um olhar clínico, humanista, complexo sobre a relação entre dois indivíduos em co-dependência, às margens da sociedade, mas sem vilanizar esta nem os que nela vivem e querem ajudar Ben Foster e Thomasin Mackenzie estão incríveis e o realismo da sua relação no filme torna o desenlace final devastador, mas inevitável.



5 - "You were never really here"/"First reformed": Um empate, duas obras protagonizados por dois homens que não estão de todo em plena presença do mundo. Na primeira, Lynne Ramsay realizada um excelente filme sobre um mercenário tão desprovido de alma, tão perdido no mundo, e ainda assim capaz de nos criar empatia graças à enorme performance de Joaquin Phoenix. È quase uma viagem poética visual sobre o que significa não estar vivo ainda que se respire; na segunda, Paul Schrader regressa ao convívio dos bons com a queda de graça de um homem de Deus sozinho numa Terra pela qual ninguém parece querer lutar, apenas para descobrir que, em última instância a salvação pode estar literalmente no outro.


4 - "The shape of water": Um ano depois, espero que já tenha deixado de ser moda falar mal dele apenas porque ganhou o Oscar. A consagração de Guillermo del Toro para os cegos, é uma proclamção de amor pelo cinema, pelo estranho e pelo próprio amor. Visaulmente espantoso, como seria de esperar, apontando ao que de monstruoso existe no Homem e ainda que sendo muito menos subtil do que devia, um assalto total às emoções do espectador que triunfa porque del Toro nunca abdica do que lhe é queirdo, nem parte de si. A principal lição do filme.


3 - "First man": Um triunfo cinematográfico. Talvez o melhor filme sobre exploração espacial desde "The right stuff", trata o Espaço como um papão, os seres humanos como anões frágeis, que usam latas de sardinha para lá chegar, e leva o espectador numa experiência espacial sem que nunca tenha de pagar uma fortuna a Elon Musk. Damien Chazelle percebe o ritmo, o uso da escuridão e do silêncio como poucos actualmente e na sala de cinema, senti-me positivamente abananado. Acrescenta que é um excelente estudo de peronsagem de Neil Armstrong. Será, a meu ver, o grande injustiçado nos Óscares deste ano, o que so contribui para aumentar a sua mística futuramente.


2 - "Roma": Alfonso Cuáron fala de si mesma e em vez de ouvirmos olhamos abismados. Este ano, houve vários usos fantásticos do preto e branco no cinema, mas nenhum como em "Roma", evocando uma época e um mundo que poucos espectadores conhecem ou lembram, mas sentem. Capaz de resgatar a poesia dos pequenos gestos e a dor dos grandes erros, Cuáron cria um universo poderoso a partir da sua infância na cidade do México, num ano de todos os perigos, desilusões e crescimentos. Filmar a vida, às vezes, pode ser o maior triunfo cinematográfico. Mas não no meu top


1 - "Phantom Thread": Por mais voltas que dê e filmes que veja, volto sempre à obra-prima com que Paul Thomas Anderson nos brindou este ano. Cada vez mais um olho balzaquiano no que toca à desconstrução de indivíduos, Paul Thomas Anderson começa o filme como um desfile visual, um mundo dentro de mundos, para lentamente fazer cair o pano e revelar que afinal estamos a ver uma soberba comédia de duelos mentais, um jogo amoroso como se vê pouco actualmente, retorcido e meigo, terno e ácido, carícias de brutidão. Pela sublime realização, a banda sonora que enche de fumo o que a escrita deixa em branco e as performances incríveis (saudamos-te, Day-Lewis, mas que não se esqueça Vicky Krieps), "Phantom Thread" é o meu filme de 2018.

P.S: O pior filme de 2018 para mim? "Peregrinação". Tão mau que me sinto envergonhado como português por tê-lo a representar-me nos Óscares.

domingo, dezembro 16, 2018

Perugrinação 11: Cuscovilhar


Abro os olhos e verifico se chorei bílis durante a noite. Não. Pelo menos, a minha cara não está amarela. Há vagas impressões no meu rio de pensamento. Acho que estou num segundo andar. Acho que há escadas. Acho que fez frio mas agora não sei. Estou enrodilhado demais para querer descobrir. Claro que o meu estômago ainda parece a barragem do Assuão caso tivesse sido rebentada, mas por agora, tento remendá-la. O meu corpo não se queixa de mais nada. Combinámos na noite anterior que a manhã seria livre, de maneira a que todos pudessem recuperar daquilo que passei a baptizar como "Carreira do Inferno", apenas para me lembrar que essa deve ser uma marca registada da família artística de Tony e seus muchachos. É a primeira vez, nestas viagens, que me permito a estar longe em inactividade. Não me é natural uma viagem para tão distante e instalar-me como se estivesse em Portugal. É queimar tempo que paguei. No entanto, sinto-me fraco e meio derrotado, ainda que aquela nuvem negra que me envolveu quando cheguei a Lima tenha passado a um cinzentinho menos agressivo, sei que está sempre comigo e não gosto de enfrentá-la em inferioridade física. Já me bastam a mental e a espiritual.


No entanto, quanto mais tempo estou sozinho comigo, com os meus pensamentos, maior e  potente é a tempestade. Um banho de água quente, meio que para retirar a segunda pessoa que se forma sempre na nossa pele quando estamos presos numa camioneta durante 24 horas, e verifico que não se formou qualquer tipo de bolor na cabeça. Decido correr o risco de me alimentar. Quando abro a porta do quarto, brilha um sol que pede licença. Dá imediatamente para a cidade. Ensaio respirar fundo, não morro. Estou localizado na zona história de Cusco e há uma pequena varanda do lado direito onde posso vê-la. Se chamam a Lisboa a cidade da sete colinas, Cusco é a colina de uma cidade só. Nenúfares laranjas agrupam-se, feitos de telhas, e ocasionalmente pequenas praças interrompem a sua formação. Há bastante barulho, música, carros e tudo o que imagino que caiba numa cidade turística. Para se entender esta urbe, há dois dados fundamentais. O primeiro é que esta é a maior cidade dos Andes; o segundo é que ainda hoje é considerada, na Constituição, a capital histórica do país, por ter sido o centro do Império Inca. Entrámos nessa zona e está claro que a partir de agora, o turismo vai dominar os nossos destinos. Quem deseja visitar as ruínas dessa civilização mater do Peru, pára obrigatoriamente aqui, seja para usá-la como base de expedições e passeios, seja para procurar a melhor maneira de chegar ao El Dorado do turista da idade da Internet: Macchu Pichu. Quando subo mais um andar e chego à sala do pequeno-almoço - excepcionalmente servido para nós perto da hora de almoço, que atenciosos - ouvem-se várias línguas. Reconheço russo e francês, mas também japonês e um pouco de mandarim (não estranhem: uma vez aprendida uma língua oriental, as outras distinguem-se muito mais facilmente do que se pensa. A cadência e as inflexões identificam-se numa audição rápida). Cusco serve de porta giratória para tudo o que é guardado pela cordilheira andina.


Umas torradas servem de desculpa de alimento. Verifico se o leite é mesmo de vaca - lembrar sempre como me armadilharam com produtos lácteos de égua no Quirguistão - e ponho o pé nas águas da digestão. Não me afundo. Combina-se uma hora à frente do hotel para começar a visita; e quando começamos a percorrer as ruas, estreitas e empedradas, cheias de gente e bulício, confusas na sua desorganização e aparente falta de planeamento, começa a surgir um estranho cruzamento entre arquitectura colonial e inca que não combina. O Pedro, nosso guia, habita no Peru e a sua cidade é precisamente Cusco. Conta algumas lendas e histórias, experiências na cidade. Prefere-a a Lima, talvez por ser auto-suficiente e funcionar um pouco como aldeia grande. Na zona histórica, toda a gente se conhece e até os cães aparentemente vadios têm donos improvisados. Ele conhece-os todos pelo nome. O Pedro vai explicando histórias sobre a cidade, mas a minha atenção é dividida a meio. Sofro do mal das pessoas que lêem muito: conhecem o mundo todo sem nunca terem postos os pés onde que quer fosse. Prefiro dar atenção ao espaço, ao momento, às pessoas. A cidade é o exemplo perfeito da colonização espanhola nas Américas. Ao contrário de Portugal, que no Brasil encontrou apenas tribos indígenas sem grande formação ou complexidade civilizacional, bandos de gente metidos na selva e vivendo do que esta lhes dava, os Espanhóis deram por si a disputar este espaço com algumas das civilizações culturalmente mais complexas do seu tempo. Pensamos sempre nelas como antiquíssimas, mas os Incas e os Aztecas, por exemplo, eram contemporâneos da Expansão e haviam surgido dois séculos antes da mesma ter começado. Por isso, enquanto que os Portugueses construíram as primeiras cidades em território brasileiro, os nosso vizinhos e rivais apagaram o património urbano destes grandes povos. O que vemos em Cusco hoje não é Cusco: é a versão espanhola da mesma. Como quem quer comer um leitão da Bairrada, mas se contenta com uma imitação tragada numa estação de serviço em Aveiras. Em 1950, um violento terramoto destruiu um mosteiro dominicano. Por baixo, encontraram o que restava de um templo solar inca, no qual o sismo não tocou. Um desastre natural não conseguiu realizar aquilo que a crueldade e estupidez humana acabaram por fazer. Espanha passou pela América como uma placa tectónica esmagando a decência humana. Portugal teria provavelmente feito o mesmo no Brasil; simplesmente não tinha muito que apagar da memória. Mesmo assim, aquilo que fez não é de boa memória nem pouco mais ou menos.


É por isso que o maior monumento de Cusco, hoje em dia, é a Catedral de São Domingo, um horrendo exemplo de arte colonial, uma cópia do que se fazia na altura na Europa, mas feito com o mesmo cuidado e atenção que eu dedico a qualquer pessoa que me diz "Sabes, o que te animava era apanhares um bocado de sol". Localiza-se na Plaza de Armas, a principal de Cusco, e é vigiada, oh ironia, pela estátua de Pachacuti, herói da resistência Inca. Segurando uma lança, o seu dedo aponta em tom acusador para a montanha maior que guarda como uma muralha os habitantes de Cusco. Se o nosso olhar seguir a indicação, encontramos uma outra estátua, de um Cristo Branco, enorme, imitando o Redentor do Rio de Janeiro. Uma anedota fala que existe um diálogo subjacente entre ambas - Pachacuti inquire: "Foste tu quem roubou o meu ouro?", à qual o beatífico filho designado de Deus se faz de desentendido, abrindo os braços: "Eu? Não tenho cá nada!". Como símbolo maior do passado peruano. um misticismo especial rodeia todo este espaço. Cusco significa "A rocha do mocho" e diz respeito à sua lenda fundacional. Dois irmãos, os Ayar (Manco e Oche... não confundir com Rómulo e Remo. Voltaremos aos dois primeiros para a semana), são considerados os pais fundados dos Incas. Um deles, procurando o melhor sítio para fundar uma nova cidade, centro de um Império, criou umas asas e voou até aqui. Pousando numa rocha, assinalou então esse desígnio. Ouvirei falar mais vezes desta parelha, fundamental para se entender a mundividência inca. Mais do que em Lima, por exemplo, sente-se uma ideia de "incanismo", um orgulho particular em descender-se de algo genuíno vindo do passado. Vemos mais caras quechua, também, a clivagem populacional é óbvia.

Passeamos um pouco pelas ruelas apertadas e depois de várias voltas -e da passagem por um restaurante chamado "Cicciolina" - a mais conhecida rua de Cusco surge debaixo das nossas sapatilhas. O motivo que lhe dá distinção é, pondo isto à bruta, um calhau na parede; mas um calhau com estranhas propriedades. Assenta numa parede inca, muito diferente das restantes. São quadradas  e empilhadas noutra pedras geometricamente desenhadas, quase todas regulares... coisa que está não é. Entre esquinas e derivações, esta pedra tem doze ângulos e só de olhar, calculo que pese pelo menos uma tonelada. Para quem não consegue ter uma ideia disto, este bloco de granito, uma pedra que é densa e duríssima, foi cortado de um bloco maior doze vezes. Isto sem qualquer tipo de instrumento moderno. É verdade que, e isto é uma descoberta recente de etnólgoos e antropólogos que passaram décadas a conviver com tribos meso-americanas, há o conhecimento de uma pasta, com base em produtos naturais, que permite amolecer os minerais da pedra e facilita o seu corte. Ainda assim, mesmo com este desconto, continua a ser dos muitos enigmas das arquitecturas sul-americanas antes da chegada dos Europeus. Ninguém muito bem sequer se este tipo de arquitectura sólida e aparentemente simples é Inca ou já existia antes de a civilização se instalar neste vale.


Depois de passarmos pelo local de Cusco que serve o melhor café - conselho do Pedro, um pequenino recanto gerido por um casal argentino - subimos até um arco elevado com uma grande vista sobre a cidade. A guardar a sua entrada, um velhinho peruano, dono de uma mercearia, que cobra um sol de entrada antes de abrir velhos portões de ferro. O sol ainda está a cair lentamente e o alaranjado dos telhados brilha mais forte. É uma vista incrível, de uma urbe sem espaço para nada mais. Cheia, sem costuras. Incrivelmente fotografável, mas a minha máquina está manca. Uso a teleobjectiva e retiro uma amostra do que vejo. Entre nós, surgem umas palhaçadas, poses,  jogos de perspectiva. Temos tempo, está-se memso bem aqui. Descemos. Uma ladeira conduz-nos até à entrada de um hostel com pinta irlandesa. Num largo de igreja à minha frente, uns garotos jogam à bola. Troco uns passes com eles enquanto fotografo. O Pedro conduz-nos ao espaço interior do hostel, onde um pequeno caminho instala-se até um bar com esplanada que observa Cusco. É a altura do pôr do sol. Não se está mal. Tiro a minha segunda foto do projecto "Borges nas Américas" e ao vê-la, reparo que estou mesmo careca; mas já não me sinto tão mal do estômago. A comunidade médica ignorou durante anos os benefícios curativos de uma máquina fotográfica. Com o sol, vai-se também a temperatura agradável e fica frio depressa. Nem todo o álcool do mundo pode aquecer o gelo andino.

À noite, no regresso ao quarto de hotel, vejo a Beatriz pela primeira vez. É um brinquedo com alma, um Pinóquio que não engana quanto à sua fofura. Não me sinto mais perto dela, mas algo em mim se compõe mais humano, mais sensível. Ao adormecer, penso nesta cidade conquistada, nos sues mistérios, de como há tanto do mundo que a Beatriz verá um dia, mais do que eu, mais do que todos nós. Segundos antes de adormecer, palavras confortam-me. Conseguem esgueirar-me um sorriso. Não estou, de certeza, enjoado.