quinta-feira, outubro 20, 2016

Cronistão 11: Que força é essa?


Os processos biológicos do ser humano funcionam sempre fora do nosso relógio e quando te vês obrigado a parar uma viagem de carro no meio dos montes, sem qualquer cidade por perto, apenas e só porque os teus intestinos tocaram a sirene e precisam mesmo de ser salvos, és lembrado que por muito livre arbítrio que deus nosso senhor tenha dado ao ser humano, és em última instância escravo do teu corpo. A carne não só se diverte como ordena e pede e obedeces e pronto. Durante vários anos, a minha relação com o meu tracto intestinal, se me permitem esta divagação depois de duas crónicas tentando descrever beleza que não pode ser colocada em letras, foi sempre de enorme entendimento. Se eu não queria, ele não puxava, e na quase totalidade das ocasiões em que me via obrigado a permanecer fora de casa, longe do assento pálido de cerâmica a que me habituei a chamar de "trono real", o meu abdómen dormia sem ressonar. Quando resfolegava, uns breves momentos de meditação ajudavam a controlar; e só mesmo no limite dos prazos é que a evacuação se dava. Nos últimos anos, porém, o diálogo tem acabado e este processo de paz é mais parecido com a situação do Médio Oriente. Ora, portanto, estou eu a quase 3000 metros de altitude, frio a picar, um ventinho que trabalha como uma navalha, horas contadas para chegar a Naryn, com muito do caminho numa estrada de calhau e eis que sinto o apelo que temo. Tento gerir, mas logo noto que é impossível: os espasmos multiplicam-se, o desconforto aumenta. A caravana pára e depois de encontrar um rolo de papel higiénico, disparo pela porta procurando um abrigo. Sem sucesso, é uma planície e eu penso que porra, tanta puta de tanta montanha alta como tudo e não há um único montinho onde me posso esconder. A solução apresenta-se como a traseira do veículo, e aí aninho e sou servo do meu sistema digestivo. Uns minutos chegam para me reduzir à minha insignificância celular e quando regresso ao calor de um carro, deixo o meu vestígio mesmo no meio da estrada, ali no ermo, ali no nada. Rei por um dia, tonto na estepe. Acho que é qualquer coisa deste género.


Reencontraremos o alcatrão uns bons quilómetros à frente, mas só depois de entrar na montanha russa: sobe-se e desce-se, enormes rectas debaixo do sol, 14 cotovelos em curva sob granizo inclemente em Agosto, a luz dançando nas frinchas das montanhas, tapa e descobre das nuvens, fileiras de montes alinhadas geometricamente como pedaços de um lego que ninguém montou e parece ter brotado do chão. A viagem demora umas oito horas e quando damos com as vermelhas elevações que rodeiam Naryn, passando um túnel que as atravessa, sabemos que estamos perto. Esta cidade foi outrora vital na Rota da Seda - estamos a menos de 100 km da China e a maior parte dos turistas que se aventuram por esta região juntam todos estes "istões" num pacote. Naryn é ponto de passagem obrigatório para quem chega e vai, por uma questão prática. Deve o nome a um rio que a atravessa e é atravessada por uma longa avenida chamada Lenin, através da qual descobrimos que o grande papá comunista deixou uma grande impressão neste local: simbologia da época, bustos e estátuas... A Avenida é larga e limpa e apenas quando perdemos algum tempo a percorrê-la a pé nos apercebemos de que a cidade esconde perpendiculares onde domina o entulho. No entanto, vemos crianças a brincar felizes, pessoas vendendo fruta e legumes num mercado espontâneo, mulheres que à janela estendem roupa e nos acenam, um velhote bêbado metendo conversa em russo com gente que só fala a língua de Camões e Chagas Freitas. Acho sempre incrível como estas pessoas passam por cima de dificuldades e obstáculos que me fariam queixar durante minutos a fio e simplesmente vivem e fazem o melhor que podem com isso.


Quando regresso ao hotel, aproveito para visitar a sala de estar, que a há. Uma jovem vê um reality show local com o namorado e não querendo perturbar, sento-me numa poltrona fora da sala, onde converso com quem cá está. Vejo passar várias pessoas, de várias cores e vestimentas e penso como mesmo numa cidade de passagem, sem grandes pontos de aparente interesse, se encontram mundos e imagino as histórias que cada um ofereceria se nos sentássemos a conversar. Penso em como as viagens são mais do que o chão que se pisa e as paisagens que se colam à retina, de como deixamos outro tipo de vestígios que não biológicos e que as pessoas e os olhares também ficam connosco e se explicam ainda menos do que as emoções. Esteve-se e observou-se, contactou mesmo sem falar e quando no fim de um dia o cansaço se esbate e o nosso corpo se entrega à cama, parece que no quarto pairam também essas vozes e experiências e que só dormimos mesmo sozinhos se não pensarmos em outrem, ou não nos recordarmos que nos milhares de distância que nos separam de quem conhecemos, existe uma viagem constante de afectos. Desligo o telemóvel pouco depois de ler o teu beijo e quando adormeço, tenho a certeza prática de tê-lo sentido nos lábios.

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