quinta-feira, setembro 26, 2019

Fachinação 3: O olho que tudo vê


Kashgar é uma cidade com mais de dois mil anos. Ninguém sabe exactamente quando foi construída, mas é certo de que se situa num dos pontos mais importantes na História humana: a linha que separa a Ásia central dos antigos impérios que ajudaram a China a nascer. É aqui que se cruzam diferentes culturas e etnias, onde os tradicionais orientais de olhos em bico até têm uma importância menor. Aliás, a cidade é maioritariamente Uigur, um grupo étnico de maioria muçulmana e costumes ancestrais enraízados, cuja língua homónima teve origem no que é hoje o Médio Oriente. Dá para terem uma ideia do quão deslocado este povo se deve sentir num mundo de caracteres em mandarim. A cidade de Kashgar é conhecida por outro nome no resto do país, tendo sido adaptado para Kashi. É assim que se apresenta em estações de comboio, aeroportos, notícias da televisão; e apenas um dos vários sinais de extermínio cultural com que nos cruzaremos nos dias que aqui passamos. Os Uigures são o principal problema da política externa chinesa, circulando internacionalmente notícias de perseguições e raptos, campos de reeducação, destruição de património, tratamento destes cidadãos como seres humanos de segunda. É uma política que se estende a toda esta província, Xinjiang, a maior da China, um monstro geográfico maior do que a França e a Alemanha em conjunto. Montanhosa e desértica, não possui muitas cidades e estas são afastadas umas das outras. Pela sua distância em relação ao poder central de Pequim, Xinjiang é como que um familiar esquecido, lá longe, a quem são dadas garantias mínimas de sobrevivência, mas pouco mais. O preço em troca é a obediência e a conformidade e os cinco dias que aqui passaremos serão uma introdução ao que pode ser um totalitarismo disfarçado, bem educado, mas em última instância, fatal. Kashgar não é a capital da província; no entanto, é onde este processo é mais evidente.


Quando chegámos ao hotel onde ficaremos durante dois dias - um estabelecimento de cinco estrelas que na Europa se ficaria por três - as regras do jogo são óbvias de imediato. Apresentamo-nos na recepção e somos convidados e dar os passaportes. Nada de estranho. No entanto, pedem-nos que estaquemos num determinado ponto e olhemos um aparelhinho. Uma câmara. O bicho que mais rapidamente se reproduz nesta cidade. É pequenina e bem portátil, mas presente e um sinal de que sabem quem somos e onde estamos. "Chegaste a Kashgar", segreda-me enquanto me rouba a cara. Quando subo ao meu quarto, ainda venho a pensar no surreal que isto é. Mas deixará de ser surreal durante o resto da viagem. O meu companheiro de quarto é o Hélder, advogado no outro lado do mundo e que faz pela primeira vez uma viagem nestes moldes. Vai mostrando um espírito de um garoto a quem enviaram num campo de férias, um entusiasmo que só consigo reconhecer em mim numa memória distante. O quarto é um recreio, vasculha todos os cantos, mete conversa, faz perguntas sobre fotografia, conta como comprou a máquina antes da viagem e ainda está a tentar perceber como funciona, se lhe posso explicar, que lhe aconselharam aquela mas ele nem sabe muito bem se é melhor ou não. A Polícia Chinesa não poderá ajudá-lo, calculo. Ainda me sinto algo difuso, talvez por estar há mais de um dia sem dormir. Aqui, são quase seis horas. Fim de tarde. A ideia é darmos uma voltinha pela cidade e estranhamente, não me sinto mole nem com sono, apesar do abafado calor. O grupo reúne-se à entrada do hotel e antes de partirmos para visitar o centro de Kashgar, fazemos um pequeno desvio até um restaurante que não fica muito longe de onde estamos. Não é uma simples paragem de comezaina. Este edifício foi, até 1947,, um baluarte diplomático do Império Britânico na Ásia Central. Na altura, esta zona era um nada ainda maior do que é hoje. A única razão para a presença do Reino Unido na região devia-se ao chamado "Grande Jogo", um conjunto de manobras diplomáticas - e por vezes militares - que opunham a terra de Sua Majestade ao Império Russo, que na altura crescia em ambição e tamanho. O objectivo? O domínio da Ásia, principalmente do Médio Oriente. A História que aprendemos na escola, centrada no Europa, leva a que ignoremos que a importância que o maior continente do planeta teve na evolução dos povos. Mas nos finais do século XIX, quando o consulado foi fundado, ela era bem evidente. Na altura, qualquer cônsul nestas bandas devia ser desenrascado acima de tudo, pois tinha muito pouco apoio. Era como uma lança em África. Os cidadãos britânicos que por ele eram servidos encontravam-se espalhados por toda a província e muitas vezes, incapazes de dar notícias. Kashgar, se procurarem num mapa, fica a pouquíssima distância de quatro países; a partir daqui, chegavam informações de todo o lado, um local charneira do Oriente para o ainda mais Oriente. Apesar do humilde exterior, um alpendre verde com um branco, encimado por uma telhadinho pintado de várias cores com a indicação do nome do restaurante, Chini Bagh, saber todas estas informações torna o momento algo solene, imaginar as desventuras de espiões, as manobras diplomáticas, as revoltas que tiveram este edifício como alvo. No interior, ainda existem porções da arquitectura original, longos corredores brancos de traços arabescos, salas hoje de jantar com estuques e baixos-relevos de inspiração oriental, a interpretação britânica em modo kitsch da arte árabe. Faz-me sentir o que mais gosto quando visito locais ditos históricos: estar lá há anos atrás, sem máquinas do tempo, só a corrente cronológica a prender-me bem firme a anos que não são meus, nem nunca foram, nem podem ser. Mas por momentos, são-me emprestados.


Boa parte da cidade foi, à falta de melhor termo, achinesada. Uma sementeira de edifícios altos e sem identidade, misturados com imitações de arquitectura árabe. Longas avenidas atravessam-nas, rectas e direitas, percorridas por carros e pela maior praga que podem encontrar no país: aceleras eléctricas. Estão por todo o lado e na verdade, andam por todo o lado. Estradas e passeios, vias velocipédicas, eu arriscava-me até a teorizar que ajudam os seus donos a deslocar-se dentro de casa. São um bocadinho como o tubarão do "Jaws"- aproximam-se num silêncio que rumina e não se mostra até ao derradeiro momento, quando já estão a menos de um metro de nós e o condutor apita na subentendida atitude de que lhe saltamos fora da vista e ele nem tem de travar, São bandos de gafanhotos e é-lhes arrastado o segundo maior amigos dos chineses, o telemóvel. É frequente encontrar os condutores fazendo livefeed enquanto circula, sorrindo, falando, gestos grandiosos. Ninguém pestaneja, a circunspecta e dura Polícia chinesa nem chama a atenção. Tudo é válido, de videochamadas até aquela gravação que mais tarde cairá no Youtube. Enquanto circulam a quarenta à hora, sob póneis metálicos silenciosos. Ecológico, mas temível. Por vezes, a ecologia é levada ao extremo, quando em vez de uma ou duas pessoas, vemos bem assentadas no veículo quatro, cinco, até seis. Quase sempre crianças, quase sempre com menos de doze anos, rindo e cantando, como eu andava de bicicleta quando era garoto e me achava um radical e um fixe. Descobrir o que é realmente Kashgar implica abandonar as avenidas e entrar na cidade velha. Embora o governo chinês se esteja a entreter em fazê-a desaparecer, ainda sobram algumas partes. A entrada que tomamos está barricada com uma barreira de metal. De cada lado, soldados, metralhadoras bem visíveis. As mesmas armas que nos acompanharão nas voltas que daremos, a tiracolo de quem patrulha. É um cenário de guerra em modo light: aqui, a barreira impede potenciais atentados através de carros bomba. Nunca diria que existe no ar esse temor, essa ameaça de violência. Somos olhados por curiosidade por sermos ocidentais, penso que haverá nos uigures um espanto interior por ver ali pessoas tão diferentes e de tão longe. Esta terra não é para turistas. Mas são simpáticos, sorriem. Se queremos tirar fotos e formos gentis, tiram. Sozinhos e acompanhados. Saúdam-nos enquanto se enredam no seu quotidiano. Vejo talhantes partindo carne, vendedores de rua a grelhar comida, sapateiros e chapeleiros exibindo os seus produtos. Numa ruela, um velho vende antiguidades, guarda a porta do estabelecimentos ladeados por dois tapetes. Num deles, Lenine; no outro, o grande pai Mao. Olhando por becos, sou espreitado por crianças. Algumas brincam, outras escondem-se. À porta de uma casa de adobe, como quase todos os edifícios nesta zona, três miúdos abraçam-se depois de jogar à apanhada. Num primeiro andar, um jovem e bela mulher vigia-me por entre os cortinados de um quarto. Há cores vivas, risos, música parola no ar, pessoas normais de um lado para o outro em andanças próprias. Como no Quirguistão, os homens acocoram-se se quando querem descansar, impedindo os seus nadegueiros de tocar a sujidade do chão. Talvez preceitos de Alá, os mesmos costumes percorrendo a espinha da Ásia. Ainda que a fartura de agentes da lei torna a experiência menos autêntica, é inegável que mesmo na opressão, esta gente é gente. Como se ser gente fosse uma rebeldia interna, como se a normalidade, ou ficção da mesma, batesse o pé à força das mordaças e da vigilância. É bonito de se ver.


O nosso passeio é acompanhado constantemente pelos olhos que tudo vêem. De dez em dez metros, e não estou a exagerar, barras brancas atravessam a rua, levando ao pendurão quatro câmaras e microfones. São inescapáveis. Mais tarde, lerei que por aqui se ensaia um software de reconhecimento facial que permite reconhecer imediatamente as caras dos cidadãos que posam sem pedido para este olhar sem alma, sem chama. Xinjiang é a grande cobaia dos senhores que tudo sabem, tudo controlam, tudo asseguram. Quando as ruas abrem, conduzindo à praça mais velha da cidade, isso torna-se mais evidente. Esta praça tem 2000 anos, é atravessa pela Wustanbowie - rua mais velha da cidade - mas foi tomada completamente por vendilhões e comerciantes, afinal a actividade mais comum nestas partes. Abençoando a praça, a mesquita de Id Kah exibe a fachada amarela, mas fosca. O seu minarete é pequeno, mas destaca-se num edifício que pouco tem de grande. Encontra-se em obras. É a maior mesquita da China e boa parte das obras visam descaracterizá-la. Daí nem sequer lá colocar os pés. Tem espaço para vinte mil pessoas, mas é duvidoso que hoje em dia sequer um quarto lá ponha os pés regularmente. Ser abertamente muçulmano tem um preço na China. Normalmente, é a via mais rápida para um campo de reeducação. Tem mais de quinhentos anos e já viu nas suas escadas decapitações, perseguições a uigures e atentados. Quase sempre as vítimas são líderes religiosos e os agressores são de etnia Han, a mais numerosa da China. Mas hoje, dezenas de pessoas passeiam-se às sua frente com o sol a banhá-las e ninguém deve estar a pensar nisso. Vejo passar, a pouca distância, um coche que parece saído da Eurodisney e acredito com fervor na presença de Cinderela no seu interior, tal é o seu aspecto. Caminhamos por uma passagem subterrânea e damos por nós numa rua que é a zona de restauração da parte velha. Antes de entrarmos, nova barricada. A passagem de veículos é proibida, aceleras incluídas. Passamos por um parque improvisado que alberga centenas de motoretas. É impressionante. Em bancas viradas para quem passa, observo pães circulares, vegetais cortados com aspecto apetitoso, espetadas que são feitas a pedido. Há carne, principalmente de cordeiro, grelhando e tentando acorrentar corpos pelo olfacto. Volta e meia, e discretamente, somos fotografados e filmados com telemóveis. Podem ser curiosos, podem ser espiões. Na maior parte das vezes, estes últimos. Enquanto a minha atenção se prende em alguém que sem qualquer pudor me aponta uma câmara, uma face diferente cruza-se. É como a minha, sem traços árabes, sem olhos esguios. Vendo um grupo de ocidentais, pára também e apresenta-se: chama-se Michael, é norte-americano e aparentemente, o nosso guia conheceu-o na noite anterior num hostel. Está em Xinjiang há três anos, diz ele. É professor de inglês, diz ele. Decidiu viver cá uns tempos por gostar de aventura, diz ele. Tem saudades de casa, diz ele. Se precisarmos de qualquer coisa é dizer, diz ele. Que bom rever caras mais familiares, diz ele. E retira-se com mil desculpas, porque tem uma coisa combinada com amigos para o jantar e não pode ficar por ali; mas deseja.nos uma boa visita e quem sabe não nos voltaremos a cruzar, Kashgar não é tão grande assim.


 Vêem-se coisas curiosas nestes caminhos. São quase oito da noite e há um centro de saúde aberto virado para a rua. Ao fundo de um estreito beco, um velhote de cavas deita-se numa cama de armação amarela de ferro. Uma mulher bem mais nova vem trazer-lhe um chá e essa parece ser a única coisa que o convence a mexer-se de tão bem que está. Um garotinho encavalita-se numa estátua de bronze que homenageia os chapeleiros - coloca-se às cavalitas e finge que anda a galope. São ruas com vida. Mas a fome também ressuscita. Há a ideia de jantar num pequeno restaurante que fica na praça principal. Voltamos já em tons de fogo no céu, a noite tomba com vagar. Entramos num prédio e espera-nos um detector de metais e uma máquina de raio X. È procedimento padrão em todos os espaços públicos de Xinjiang. A minha mochila é observada e revistada, eu também. De braços no ar e inquirido por onde magnéticas. Somos todos iguais perante a lei. Subimos dois andares e o "Min'an" recebe-nos. O dono mostra-se hospitaleiro, junta várias mesas para totalizar os 13 lugares que ocuparemos. Espero que não seja a nossa Última Ceia. Os menus chegam e são em chinês. Os pratos têm imagens, o que ajuda. Nada que me surpreenda, este método. Enquanto escolhemos, uma banda entoa desgarradamente tons de beduínos. O deserto está perto, mas não tanto. Decidimos pedir vários pratos e partilhar. Enquanto não chegam, trocamos impressões e escutamos a música. Volta e meia, uma jovem de tule verde ensaia uns passos, sem que o ventre seja chamado muitas vezes à questão. Dança para os comensais, espectadores da sua expressão e mesmo sem grande brio ou chama, parece falar algo, apelar a algo que nunca atinjo verdadeiramente. A comida chega e descobrimos porque é que o Oriente é a terra das especiarias: há picante suficiente nestes pratos para criar uma crise nacional de hemorroidal. Bebidas são obrigatórias, alguns experimentam cerveja chinesa, que dizem não ser má. Há frango e cogumelos, tofu e carne de vaca, algum cordeiro, bastantes vegetais. Estamos esfomeados, o nosso estômago só conheceu comida de avião nas últimas horas - péssima, na minha opinião - e ainda que eu não vá nada à bola com gastronomia oriental, obrigo-me a ingerir algo para não fazer desfalecer o meu corpo. Não me dou mal.


Na noite já fixa, regressamos ao hotel pelo mesmo caminho que fizemos. Na praça central, crianças brincam à apanhada, há agora um pequeno carrossel, o calor convida a populaça a caminhar na rua. O regresso é assombrado pelas aceleras, que na escuridão passam de tubarões a panteras. O mesmo perigo, mas mais fosco . A Polícia continua na rua, as armas variam. De metralhadoras, passam a varas com laços na ponta. Como se fossem apanhar cães. Sinto-me mesmo cansado. As minhas pernas como rochas necessitam de se estender. Quando chego ao quarto, só penso nisso. Descanso em primeiro, banho depois. Ensaio aceder à Internet. Como a China controla a entrada em quase todos os sites ocidentais, sou obrigado a usar uma VPN; que é basicamente uma firewall que contorna as limitações chineses. As autoridades sabem, apenas permitem porque são simpáticas. Demoro a entrar, como é apanágio das VPN e a velocidade diminui drasticamente. Há certas coisas básicas que não consigo fazer, como aceder ao Gmail, mas as coisas fazem-se. Informo a minha família de que estou bem. Recebo fotos da minha sobrinha, d«os olhos da pequena Beatriz maiores do que Xinjiang. Aviso outras pessoas também. Amigos. Este mundo, e outro também. Escrevo o meu pequeno telegrama, como forma de me sentir normal na minha viagem, mas ainda não consigo o conforto que quero. Não conseguirei. Não ajuda que a minha maior bagagem nem sequer esteja no chão do quarto. Penso nos meus problemas e depois, nos destas pessoas que vi hoje, pessoas que mesmo quando não podem ser elas própria, não têm outro remédio pois é o que as faz viver. Apenas encontram disfarces, por vezes engraçados, por vezes arriscados. Penso em como os problemas são diferentes e de como as almas sofrem com igual intensidade, de como os corpos em dor se contorcem de maneira diferente conforme o que os aperta. Mesmo quando me passo por água, continuo a pensar. Nisto. Em mim. Nela. Ponho-me como para dormir e continuo a pensar; e sinto uma picada na nuca, que me diz que mesmo que sejam como o ar, os meus pensamentos são observados pelas câmaras. Sempre presentes, sempre perguntando, exigindo repostas a perguntas que não fazem. O olho que tudo vê

quarta-feira, setembro 18, 2019

Fachinação 2: Queimar fusos horários


Agosto foi o mês de Hong-Kong. Todos os dias, notícias dos protestos lutavam na televisão. De um lado, gente com cartazes e bastões num esforço cívico a pretexto da oposição a uma lei feita mesmo à medida de um outro país; do outro, a demonstração ainda incipiente do poder de um estado totalitário. A quinze de Agosto, Nossa Senhora abençoa os cidadãos do território autónomo com notícias de que o exército chinês se entrega a exercícios militares nas costas mesmo defronte da ilha. É um sinal óbvio, mas não só para eles. De certa forma, para mim também. Enquanto arrumo a mala, roupa cuidadosamente seleccionada, equipamento fotográfico pronto - não é muito nem particularmente especial, o que ajuda - as imagens das cargas policiais não me saem da cabeça. Parecia que até há um mês, aquela era uma das zonas melhor integradas no espaço chinês. Agora, a barafunda é total, fala-se abertamente de independência, pelo menos num canto deste centralismo que eu penso granítico - como estou enganado - reclama-se; e eu estou prestes a partir para uma zona geográfica onde o aperto é ainda maior, onde a opressão é descarada e o controlo tão próximo quando a marcação cerrada de Pepe às canelas alheias. Se eu tomasse boas opções de vida, não deprimia tanto, por isso.... espanta alguém? Dou por mim, no entanto, a escolher com muito cuidado as camisolas que carrego e principalmente, os livros de companhia. Deixo em casa, por exemplo, um livro de Murakami, por ser japonês; ou "A literatura nazi nas Américas", por pensar que a referência aos compinchas de Hitler me cause dissabores. Pode parecer ridículo, mas existem demasiados fantasmas na minha cabeça neste momento. Ainda estou a calcular como conseguirei manter um equilíbrio mental suficiente para suportar quinze dias de desconhecido, duvidando mesmo que a minha paciência me ajude a suportar desconhecidos. Não preciso que um rígido polícia oriental, remexendo na minha mochila, me chame a uma sala à parte por conta de um gajo que anda para ganhar um Nobel há anos e não conseguiu. Se ficar preso por lá, ao menos que seja por um Coetzee desta vida. E garanto-vos que não estou a exagerar: um amigo meu viu retida na fronteira, ao transitar do Quirguistão, uma edição do guia da Lonely Planet para o território chinês. Motivo? O mapa do país mostrava Taiwan como país independente. Algo que é aceite pela maior parte do mundo como facto. Mas o senhor Xi faz figura de urso e colocou como dogma que a nossa Formosa é um crime contra o que ele considera ser a verdadeira China. Que a sua independência é um logro; e como tal, esse meu amigo, guia desta expedição na qual embarco, apenas conseguiu safar um mapa de Pequim. Sim, é este ponto de picuinhice.

O avião parte às 8.20 da manhã seguinte. A minha família leva-me até Lisboa pela madrugada, eu iludo-me fazendo uma directa. Digo-me que dormirei no avião, embora saiba que isso não costuma ser hábito. Não faço as contas na alturas, mas  entre atravessar fusos horários, viagens longas, esperas em aeroportos e não pregar olho, estarei praticamente 48 horas a pé. Porque nada ajuda mais à saúde mental como um cérebro carcomido pelo cansaço. No aeroporto de Lisboa, ainda é noite, cinco da manhã. Despeço-me da minha mãe e do meu irmão e gracejo que se não voltar, peço à Polícia Chinesa que envie as minhas prendas por Correio Azul. A minha mãe não acha grande piada, mas a minha mãe não acha grande piada a qualquer coisa que eu diga que possa prenunciar uma catástrofe. O Humberto Delgado já fervilha. O meu voo ainda não tem balcão de check-in e portanto, alapo-me. Ainda que tenha passado algum tempo neles nos últimos anos, acho os aeroportos estas entidades estranhas onde as pessoas não existem bem. São apenas carregadas. Somos carga na verdade. Daqui para ali e depois para acolá até nos meterem numa coisa com asas. É o único local onde alguém como eu, cuja única vez que tive ambições de transgredir a lei foi desejando a morte instantânea de uma pessoa - só aconteceu por uma vez, mas foi realmente sincero e virulento, teve sorte de eu não ser telepata - se sente bandido a sério: obrigam-me a mostrar documentos, sou revistado, os meus pertences vigiados. Em simultâneo, é a versão cosmopolita de uma Loja do Cidadão, onde os papéis errados trancam portas e as senhas correctas permitem atendimento. Fascinam-me também as coisas tolas do utente de aeroporto, desde a clássica implicância que a segurança tem com as garrafas de água até ao esquema de extorsão visível e legal que ocorre na área duty free, onde podemos comprar um igual recipiente de água e levá-lo para o avião sem que sejamos acusados de terrorismo caseiro. Todo o processo de espera é como o mais longo e aborrecido recreio escolar. Finalmente, o voo para Frankfurt das 8.20 surge. Quando tento fazer o check-in das malas, há um problema com os bilhetes. Aparentemente, só na Alemanha posso pedir o meu lugar para Pequim. Ele existe, dizem-me, garantem-me, prometem-me, mas a partir de Portugal nada podem fazer. Começo a especular se o Humberto Delgado não é uma simulação virtual da União Europeia.

O primeiro voo corre bem. Não prego olho, tento ler e despacho uma edição do Courrier Internacional que tinha em atraso. Fala do aquecimento global. Basicamente, vamos todos morrer, a Greta Thunberg sofre de Asperger e isso é giro/demoníaco (conforme a pessoa que opina), Trump é um idiota e ainda temos tempo, mas afinal parece que não. Ah, e existem problemas no Gabão e casos de corrupção graves na Indonésia. É por isso que adoro ler esta revista: não só me informa como me permite entender que o ser humano, mesmo com as diferenças culturas, é um traste em qualquer lado. Confirma as minhas boas impressões do mundo. Também gosto dela porque me faz passar por cosmopolita e intelectual por saber coisas de países que habitualmente não surgem na TV. Há quem julgue que perco horas a informar-me, que tenho consciência cívica, quando basicamente adquiro esta informação por quatro euros. No fundo, o problema geral das pessoas é a falta de curiosidade. Sorte a minha, porque assim, pelo menos, são-me permitidas qualidades. Em Frankfurt, acabo por conhecer os membros do meu grupo. Não é complicado encontrá-los, somos os únicos a reconhecer o idioma português. Alguns já conheço, outros não. Nenhum deles se assemelha à Natalie Portman, o que é sempre um ponto negativo. A espera pelo voo é curta e o aeroporto de Frankfurt um tédio. Hospedeiras da Air China sorriem largamente, mas como se conhecessem algo que me está vedado. O meu lugar fica a meio do avião, mas tenho espaço à frente das pernas. Pela segunda vez na viagem, passo pelo processo de descolar, que por muito que o repita, sempre me parecerá estranho. Os rebites tremem, placas de metal tentam vencer o atrito e a pressão e penso sempre na magnífica cena de desastre aéreo de "Fight Club", quando um avião vomita os passageiros em pleno voo. Lembro-me que li algures que estatisticamente, os momentos de maior perigo numa viagem aérea são a descolagem e a aterragem. Sou a mente demasiado racional do Jack. Há alguma turbulência, sinto toda a minha biologia ainda mais apertada e espremida. Quando chega a acalmia, verifico o entretenimento de bordo. É pobre, a maior parte dos filmes são chineses. No entanto, ainda há espaço para a curiosidade. Decido verificar se de facto, os voos para a China obrigam a cortes e alterações nos filmes ocidentais. Cobaia: "Avengers: Endgame". Bastam alguns minutos para confirmá-lo, referências a alguns personagens são obliteradas para as versões disponíveis nos aviões. O longo tentáculo da sino-censura é longo e chega a todo o lado. Até à atmosfera.

Algures nas quase onze horas de viagem até Pequim, devo ter adormecido. Não fiz por isso. Alturas há em que o corpo é velhaco e nos rapta. Levou-me para longe, de volta a Portugal. Num descapotável azul, o sol beijava-me a cara como quem quer. Como já fui beijado um dia. Não queria levar-me consigo, porque o mar mesmo ao lado jogava ao macaquinho de chinês comigo e nada mais se passava, era só isto, uma delícia que se prolongava, um momento repetindo-se numa eternidade digna de Moebius, azul e luz, comigo seduzido. Não sei bem por que estava a ser dominado por tal imagem. Nunca tinha visto sequer o carro do sonho e o cenário em si fora fabricado completamente pela minha mente. Talvez o meu cérebro, melhor amigo e pior dos facínoras em revezamento, me estivesse a dar um recado. Que não estava sozinho nesta longa demanda, que me protegia e que cuidaria de mim sempre que pudesse, sempre que eu, na minha infinita complicação, não decidisse de livre vontade esticar-lhe os limites da resistência. Uma palmadinha no ombro occipital. Mantemos uma relação complicada. Umas vezes complico eu, noutras ele. Mas se mais ninguém se preocupa comigo, ele sempre por lá esteve no refúgio. Dentro da caverna da minha inconsciência, para onde me escapo sempre que o mundo se arma num breu incompreensível, cria uma ficção de sossego. Sabe do que padeço, o que me inquieta; e dentro de tudo isso, armou um cenário livre de mácula, livre de pecado. Puro nas intenções. Quando acordo, estou sobre a Mongólia - cuja capital, Ulan Bator, é um dos meus topónimos preferidos, pois parece o nome de um vilão de "Star Trek". Não deve faltar muito para aterrar. Vou sentindo a pressão da descida gradual do avião rumo a Pequim. Fecho os olhos novamente, mas não consigo regressar ao sonho. O carro azul partiu e a luz solar deu lugar a um amanhecer lento. São quase cinco horas locais. Lá em baixo, fábricas, telhados atropelando, sinais de que vive aqui uma multitude de gente à qual não estou habituado. A área metropolitana da capital chinesa é gargantuana. Ainda não cheguei, mas já lá estou uma hora antes; e quando dou por mim lá, não sei se estou de todo.


Uma coisa que se descobre de imediato sobre os Chineses é o seu amor profundo à falta de tradução. Quando a fazem, é em inglês macarrónico e necessito de perguntar a mim mesmo: como terá soado esta frase na cabeça de quem a escreveu? É necessário encontrar um voo interno que nos levará a Kashgar, mas demoro a perceber para onde ir e o que fazer. De um lado para o outro, sou iludido por um balcão que anuncia, saxonicamente, que é o check-in de estrangeiros. Trabalham lá duas senhoras de meia idade. Uma faz zero, a outra sabe fazer zero. Gastam meia hora a atender dois tailandeses, sem que lhes consigam resolver o problema. Não me surpreendo, visto que uma delas está ainda a tentar perceber o que é um computador, porque tem teclas e até que raio pode ser um quadrado luminoso com imagens e letras. Windows, em chinês, claramente se traduz por Windah! Com isto, um outro funcionário cruza-se connosco e talvez espantado por ver doze ocidentais agrupados num mesmo local - não sei se desconfiado de sermos roadies dos Fleetwood Mac - olha-nos. Mas diz zero. Contempla apenas. Um de nós lá ganha coragem para lhe perguntar se estamos no local certo. Um olhar vítreo, vazio, como se a nossa comunicação se desenrolasse em marciano. Com alguns gestos e a ajuda dos nossos bilhetes de avião, o jovem lá entende que estamos confusos, ou que somos perfeitos idiotas. Encaminha-nos até uns guichets onde preenchemos papelada que informa o divino Estado chinês de quem somos, de onde viemos, para onde vamos e até planos para jantar - esta última é inventada, mas não parece. São uns papeluchos amarelos, rectangulares, com os mesmos caracteres estranhos que vemos espalhados por todas as placas e também traduções mal amanhadas em baixo. Um novo balcão aguarda-me. Elevado, como para me mostrar o meu lugar. Do outro lado, uma mulher polícia com a cara mais séria que possam imaginar. Ordem para avançar, dá-me um outro polícia, que controla as filas, gesticula-me com ardor para que siga. Papel e passaporte do outro lado. Chega-te mais perto, vês esta câmara? Olha-a. Agora, põe a mãozinha neste sensor, tal como se explica. A foto do passaporte é minimamente parecida comigo? Óbvio, ambos temos cara de susto e calvície precoce. A minha imagem ficou agora registada no sistema chinês: onde quer que vá, saberão onde estou. Passaporte carimbado na minha mão, papelinho recolhido, posso avançar: estou oficialmente na China e travei o primeiro conhecimento com a sua máquina de controlo.

Um comboio interno liga os vários terminais e conduz-me ao três, a partir de onde seguimos num voo de seis horas para Kashgar. É a viagem interminável. Toma-me uma sensação de fraqueza, não física, mas espiritual talvez, numa mudança radical de culturas, numa sensação de ter queimado fusos horários sem sequer me terem pedido licença. Somos novamente controlados e revistados, implicam com as baterias da minha máquina e uma powerbank. Aparentemente, existe aqui um pânico do lítio. Que a China se mantenha longe do Gerês então. Quando um pequeno avião abandona a pista, estou preparado para apenas me reerguer no meu destino final. Mas não. Aparentemente, aqui a aviação funciona como a Rede Expressos. Mais ou menos a meio do caminho, aterramos. Problema técnico? Não. É apenas uma escala. De 45 minutos. Em Urumqi, capital desta província. Somos forçados a sair do aparelho e esperar meia hora neste pequenino aeroporto enquanto não nos dão ordem de reentrada. É quase ridículo. É novamente passar pelo pânico de levantar e descer. É tolo, é muita coisa que me ocorre e que se acumula quando tenho tantas horas sem dormir e uma enormidade de tempo em suspenso, literal. Regressamos e volto a sentir-me deslocado enquanto se ganha altitude. Ainda mal pisei a China - na verdade, quase nem pisei de todo - e isto já me parece quase uma subversão da ordem. Mais valia estar calado, porque me esperavam rodopios bem maiores. Vou escutando podcasts acerca de serial-killers e pessoas muito más, talvez na esperança de projectar nos sons as vontades que me acometem. Mas quando percebo que ainda mal partimos e já estamos para chegar, entendo que é melhor não dar muita bandeira, porque é complicado matar centena e tal de gente em dez minutos. Para além disso, sou incapaz de transformar uma bateria de lítio numa arma de destruição maciça. Não vi episódios de "Macgyver" suficientes.

Em Kashgar, a temperatura alta e o ar abafado são a primeira impressão que tenho. Na manga que nos conduz do avião ao aeroporto, uma carpete vermelha recebe-me e pelas paredes, videiras de plástico querem levar-me ao Alto Douro vinhateiro da candonga. Ouvi histórias do comportamento da Polícia neste aeroporto e sinceramente, estou preparado para tudo. Na mala, levo sete latas de atum e receio que impliquem com elas. Não demora muito até que a bagagem me chega às mãos. Mas, estranheza, a maior parte dos oficiais sorri ou joga no telemóvel. Há um que me pede o passaporte, mas nada mais. Faz sinal para que me encaminhe até à saída e possa, por fim, voltar a habitar o solo, que é o meu local de pertença. Sinto o meu ectoplasma ainda a regressar ao meu corpo e ainda não chegou todo. Espero que não tenha sido obrigado a dar explicações sobre mim ainda em Pequim, teria muito que explicar e faria certamente rir até a senhora mal encarada que me carimbou o passaporte. Mais do que partir, interessou foi Kashgar. Perceberam? Kashgar. A piada é má, eu sei, mas prometi a mim próprio que a faria numa crónica. Se a acharam de mau gosto, então parabéns: bem vindos à China. Faz parte da mobília.


quinta-feira, setembro 12, 2019

Fachinação 1: Um pequeno prólogo em forma de bico de obra


Não contava voltar à Ásia este ano. Fiz para mim próprio um regulamento de viagem e na lista impreterível de regras, sublinhei visitar um continente diferente por ano. Olhei para África, mas confesso que nada me puxou. A Oceânia no Inverno pode não ser exactamente a melhor hipótese e para mais, ainda que pertença a essa abastada classe da função pública que são os professores, decerto que gastei demasiado dinheiro na manutenção do meu iate. Não consigo explicar as minhas escolhas de viagem. Talvez no dia em que apresentar a mim mesmo argumentos racionais, deixe de viajar porque acabou o mistério. Bem sei que a razão e a ponderação são celebradas com purpurina e carpete vermelha, mas para mim, a vida ou tem um pouco de magia ou não vale a pena. Aprecio o toque do inexplicável nas costas, como quem chama a atenção e me diz "Estás lixado, vais decidir exactamente por aquilo que não deves e ainda por cima, vai-te parecer a ideia mais incrível e arrasadora dos tempos eternos e imemoriais". Sou um otário, basicamente, e até por mim próprio me deixo ser enganado. Necessito do indizível. Acho que é por esse motivo que tão facilmente deprimo; e também que quando dou por mim a pagar por uma aventura, penso trezentas vezes se não estarei a fazer asneira. Cada viagem uma asneira - é o lema que tenho e que carrego debruado a ouro no peito. Pois a asneira deste ano é a China. Sim, podem pasmar-se: pela segunda vez consecutiva, trago histórias de um país que vocês conhecem e cujo nome pronunciam sem se babar. Nada de Quirguistões, nada de ilhas perdidas no Círculo Polar Árctico: é a boa velha China, o Império do Meio, a cornucópia de bebés, os futuros senhores das trevas deste mundo. Esta asneira, no entanto, tem uma história. Daqueles estranhas e que por uns segundos vos farão questionar a minha bússola moral, e que começa com esta afirmação: vivo fascinado com ditaduras.


Aliás, as discussões das últimas semanas em torno de um museu dedicado a Salazar trazem-me delícia. Não porque seja particular fã dessa esclerose múltipla em forma humana, mas porque toca em algo que parecia ser, até há uns anos, um desses últimos redutos morais de nós como pessoas: ditaduras são más; e como são más, qualquer coisa que lhes esteja associada é para cuspir. Estudá-las é apenas um pretexto para lutos sobre a dignidade humana e oportunidades de afirmarmos, num pedestal, que somos muitos bons e que jamais regressaremos a esse tempo. Nunca esquecer. Mas também, nunca recordar muito, que somos gente de bem e não há cá lugares para muitas palavras sobre o assunto. O que é uma balela. Há uma análise histórica a ser feita sobre o tema, mas não cabe aqui. Digo apenas que esconder o pó debaixo da carpete não deixa uma sala limpa. Que por mais que queiramos guardar o pote de mel, há ursos que querem comê-lo e que talvez o melhor seja exibir o pote, mas explicar porque é que o mel está envenenado. Há qualquer coisa em mim que se deixa atrair pelos abismos da crueldade, não só de quem manda, mas também de quem obedece. Que questiona acerca dos motivos pelos quais, contra todos os nossos instintos - pelo menos, aparentemente - aceitamos um poder absoluto. De perguntar o que incomoda também quem se insurge: porque é que existe tanta gente que só encontra força para obedecer? De que maneira um tirano se transforma num pai que uma maioria aceita ou pelo menos não questiona? Em que ponto é que o ocaso da escolha passa a ser confortável? Na verdade, há já algum tempo que concluí que estas perguntas não se respondem apenas com os achados que se descobrem entre as linhas de um livro. A única maneira é experimentar e prestar atenção. Viajar até um país autocrático onde pudesse observar, qual Attenborough do totalitarismo, como raio pode alguém sequer construir um quotidiano quando to condicionam todos os dias. Há mais ditaduras no mundo do que se calhar pensam. Desde Cuba até à Coreia do Norte, passando pelas menos conhecidas como a Eritreia, o Turquemenistão ou a Bielorrússia. Ao todo, mais de dois biliões e meio de pessoas acordam sob este tipo de regime, a maior parte delas na China. Pareceu-me portanto que esta seria uma hipótese óbvia. Os Chineses nem conhecem o seu país por esse nome. Chamam-lhe Zhongguo, que significa qualquer coisa como o "Estado Central". Ou Império do Meio, na sua versão mais popular. Segundo país do mundo em área, primeiro em população, um sétimo do total mundial; e a ideia é corrê-lo de uma ponta à outra, mais de oito mil quilómetros em duas semanas. Há aqui cidades tão grandes que são governadas de forma praticamente autónoma. A história chinesa tem várias fases e grandes reviravoltas, como perceberão. A sua área de influência e população garantem sempre recordes. Para terem uma ideia vaga, a guerra civil que levou ao fim da dinastia Ming registou 25 MILHÕES de mortos. Vir à China não é apenas uma questão de exotismo. É entrar numa outra dimensão, em diversos sentidos da palavra.


A razão pela qual escrevo este preâmbulo tão longo onde refiro zero linhas acerca do que me aconteceu tem a ver com a complexidade da situação chinesa. Se nunca visitaram um país ditatorial, algumas das coisas que escreverei surpreenderão. A China é um mundo, com o quádruplo elevado ao cubo de culturas diferentes, histórias diferentes: há dezasseis línguas oficias e nem vou entrar pelos dialectos regionais aceites. Na tômbola que é a História, muitos povos tiveram aqui assento e por muito que o Partido Comunista Chinês esteja a tentar corrigir isso, os seus sinais ainda surgem, com maior ou menor força, por todo o país. Por muito que nos tentem convencer na escola de que o centro da História é a Europa, na verdade ele passa por aqui e pisar terras chinesas é quase voltar a um tempo antes do tempo. Vão entender que a China é uma construção dos Chineses, mas não da maneira que pensam; que regimes e pessoas podem ser duas coisas bem separadas; que há um custo inerente a viajar num país tão extenso; e que a não ser que tenhamos mais de cinquenta anos, não sabemos, de todo, o que é ser oprimido. Existe uma diferença muito grande entre aquilo que lemos nos jornais sobre o que é comportamento ditatorial e as formas que este assume de facto. Insidioso, por vezes muito mais subtil do que se espera. Que altera o nosso comportamento. Num certo sentido. estas serão as crónicas mais políticas que escrevi, porque é impossível vir aqui e ficar indiferente. A não ser que optemos por nos escondermos do mundo. Há quem me tenha dito que talvez veja mais mundo do que a maior parte das pessoas que conhecem e embora eu nunca me possa classificar de cosmopolita ou muito viajado, entendo que o nosso olhar é um professor muito útil e podemos aprender muito se pararmos um pouco para entender o que passa por nós de frosques de fresquinho. O que tento trazer da China é essa experiência, até porque visitei zonas muito pouco turísticas, locais onde muitas vezes era quase o único ocidental em dezenas de quilómetros. Se nada mais trago, que vos dê isto.


Um outro pormenor é importante de saber antes de mergulharmos na Ásia. O meu estado de espírito para esta viagem não era o melhor. Não me sentia preparado para fazê-la e lamento que esta história não tenha uma reviravolta feliz: quando cheguei ao fim, reforcei a minha ideia de que quem viajou não fui eu, mas uma espécie de carcassa com parte da minha centelha. Há momentos, raríssimos, onde consegui ser eu, mas na maior parte, foi como se estivesse a viver tudo através de interposta pessoa que nem pessoa era. Se alguém, antes de ter partido, me oferecesse o dinheiro que gastei e trocasse de lugar comigo, teria trocado sem hesitação ou dúvida. Mas tal não é possível. O tempo que demorei a convencer-me e a motivar-me é capaz de ter sido o mesmo que gastei na travessia da China. Não tinha outra solução que não fosse fingir que tudo ia correr bem, quando claramente não ia. A minha cabeça é tantas vezes uma casa assombrada. Os fantasmas não entram de férias como eu e não pagam taxa de bagagem extra. Simplesmente vão e aqui, em primeira classe. Não me vou demorar aqui a explicar o que se passa, que motivos me tiram essa alegria da exploração, o que me atormenta, o que me preocupa. É fundo e eu sei-o. Condiciona-me a vida e também me apercebo disso. Não pode ser resolvido em semanas e vai comigo para todo o lado, até aos cantos mais longínquos do mundo. Numa promessa a mim mesmo, um sussurro: dê por onde der, arranjando forças onde não podes, e frinchas que não tens, vais armar pelo menos um amostra de ti e aproveitar o que existe, ou pelo menos fingir tão bem que quando fizeres o sumário da matéria dada, quando te sentares para alinhavar em letras aquele fumo que viveste e chamas memória, vais acreditar piamente que tudo te encheu e transformou. De que esta é uma história feliz, de um ponta à outra. Não consigo acreditar, mas vou tentar fazer a melhor coisa a seguir: convencer-vos de que sim, e convencer-vos de que podem sorrir ou pelo menos crepitar no final de cada um destes capítulos. Se a minha vida real não é de consolo, que a realidade criada pelo que descrevo, a ficção real em fiação na vossa mente vos transporte e leve algum tipo de luz. A maior barragem do mundo é chinesa, logo faz todo o sentido.

Como podem ler, estou e sinto-me perdido. Na vida e na maneira como descreverei tudo, o desastre em cadeia que é este gigantesco país, o que lá vi e senti. Prometo-vos longas viagens de comboio, muitas histórias com polícias, objectos quotidianos que me tornam num terrorista, atum, Einaudi, montanhas e também um episódio hilariante que envolve esse símbolo de sapiência e bonomia que é um monge tibetano, desmontando mitos. E a certa altura, alguém quase cairá de uma cadeira perante a visão de uma mulher completamente nua. Mas só quando chegarmos a Turpan. E neste momento, nenhum de vocês sabe sequer que Turpan existe.

sexta-feira, agosto 02, 2019

Um simplório simplifica

Resultado de imagem para joão miguel tavares sim, há culturas superiores a outras

É estranho que num curto espaço de tempo tenham saído na imprensa portuguesa dois artigos que embora assinados por pessoas de diferentes formações - Maria de Fátima Bonifácio é professora universitária de História, João Miguel Tavares um jornalista - mostrem uma tacanhez impressionante que só pode ser considerada aceitável e normal nos tempos que correm. Bonifácio discorre sobre a incapacidade que pessoas de outras culturas, nomeadamente cigana e africana, têm em se inserir na nossa tão superior ocidental, deixando também um cheirinho de soberba religiosa. João Miguel Tavares bate o pé e coloca o espírito cultural europeu (ainda que se possa depreender uma outra interpretação de que falarei mais à frente) acima de qualquer outro: a sua arte, a sua política, os seus valores. Tavares, em particular, goza de uns quinze minutos de fama heróica devido a uma intervenção nas últimas comemorações do 10 de Junho. Na sua cidade natal de Portalegre, Tavares proclamou um discurso de tom anti-sistema, aveludado nas exigências, com um chavão facilmente compreendido: dêem-nos algo em que acreditar. Tavares, até então mais conhecido por um conjunto de crónicas patetas que desfia no jornal "Publico" e pela participação no programa "Governo sombra", ao lado de dois pensadores de classe como Ricardo de Araújo Pereira e Pedro Mexia, viu-se do dia para a noite elevado a um estatuto de intelectual da Pátria, de voz da Nação. Ninguém criou uma petição para substituir o nome de Camões pelo seu na designação do nosso feriado nacional, mas foi certamente por achar que tal não seria sequer suficiente para honrá-lo. O discurso de Tavares, exigindo rigor, direitos para as pessoas, mais saúde, mais educação, um Estado mais presente e a dar oportunidade a todos, entra em contradição com praticamente tudo o que Tavares escreveu como cronista, um mal disfarçado neo-liberal que se chateia com qualquer intervenção estatal porque "é de Esquerda", mas à primeira desgraça ou até incómodo pessoal, clama por coisas, exige coisas, acusa coisas. É o típico ideólogo idiota que só defende ideias em tom egoísta. O que é meu é meu, mas o que é vosso é vosso. Quando me convém. É algo muito comum também no outro espectro político, principalmente num certo campo artístico que dependendo de fundos estatais, faz dele o seu feudo. O alerta de "apoio às Artes" é o apoio a si mesmo. Nisso, há que dizer, Tavares é do mais português que pode haver. E não sei por que motivo ataca tanto a Esquerda, principalmente a imaginária que ele desenha na cabeça, pois tem bastante em comum com ela.

Quem criou ilusões sobre Tavares, desceu à realidade com o seu magnífico "Sim, há culturas superiores a outras". O título é polemico, e destinado ao click, mas o contéudo é uma ode à mentalidade pequena e sinceramente, um desprestígio em relação a uma escola onde leccionei no ano lectivo passado e que Tavares frequentou. Não vou analisar a crónica - para quê? Há quem o tenha feito melhor - mas o raciocínio que estabelece. Ou seja, a ideia de haver culturas superiores a outras. Bem sei que pode chocar algumas pessoas, mas sim, há culturas superiores a outras; a questão é saber o que é uma cultura diferente e o que pode haver de superior. Tavares usa o critério geográfico e espalha-se ao comprido. Porque, tal como Bonifácio, estabelece também a religião cristã como um conjunto de valores superior, origem desta nossa cultura ocidental que tão boas obras nos deu e com todos estes princípios tão europeus. Ora, o grande problema é que o Cristianismo não é, de todo ocidental. Como deve ser do conhecimento comum, a sua origem - ficcional ou histórica - está no Médio Oriente e tal como o Judaísmo antes de si e o Islamismo posterior, reflecte inquietações, eventos e morais que nascem precisamente daquelas zona geográfica. O Antigo Testemento deve ser lido em primeiro como um Código Penal, depois como epopeia mitológica fundadora de um Povo e só depois, mesmo no fim, como qualquer tipo de  manual de doutrina religiosa. Para os mais esquecidos, a Bíblia é um livro que defende, entre outras coisas, a venda legal de familiares como escravos para pagar dívidas, a criminalidade do consumo de camarão, o apedrejamento de pessoas por serem diferentes ou adultério, sentarmo-nos em cadeiras onde tenham estado mulheres menstruadas, comer morcegos, agredir assaltantes à luz do dia ou vestir roupa de lã. O Cristianismo é tão ocidental quanto o sushi, o chocolate, a K-Pop ou Bonga. Podem defender que estou a aldrabar um pouco, que obviamente Tavares se refere à Igreja de Roma, ao Papado e à sua direcção religiosa. Nesse caso, vamos defender uma organização que ao longo dos séculos oprimiu o sexo feminino, outras raças, outras culturas, apoiou governos fascistas, negou Ciência, censurou arte e cometeu imoralidades contra crianças? É essa a nossa superioridade? Não me parece; e no entanto, isto não é completa culpa de Tavares. O cronista alentejano apenas tem o "problema" de escrever num órgão de comunicação social amplo. A ignorância que debita foi-lhe transmitida em vários anos de escolas onde uma visão eurocêntrica da História lhe foi transmitida e passada de mão em mão. A Europa é o ponto fulcral dos acontecimentos históricos e fora dela, há ruído que só interessa a quem directamente a afecta; e quando fala do choque de culturas, é sempre para reforçar o negativismo e a violência. Portugal, por exemplo, foi na Idade Média um exemplo fantástico de convivência multicultural e multirreligiosa. O aspecto é referido de passagem nos manuais, mas pouco focado. A atenção centra-se nas batalhas, na guerra, na violência; e a ideia que fica nos espíritos é, obviamente, da incompatibilidade entre pessoas com ideias diferentes, existências diferentes. 

Uma cultura superior ou inferior deve medir-se não pela geografia, mas pelo seu próprio funcionamento e por aquilo que valoriza; e ainda por cima a "Cultura Ocidental" não existe. O que é esta Cultura? É a Democracia? Dificilmente: afinal, como sistema político generalizado, não tem ainda dois séculos. É a Arte? A base da Literatura Europeia está quase toda nos Clássicos Romanos e Gregos. Pelos padrões geográficos de Tavares, parece-nos que não há nada de errado; mas é lembrar que estas duas áreas, na Antiguidade, tinham mais em comum com o Norte de África e Médio Oriente do que o espaço europeu; e depois há também a ideia de "Europa", que é um conceito tão recente que mal tem meio século. Antes de 1900, havia uma ideia de "Europa", sim, mas que se pode traduzir muito simplesmente por "superioridade branca"; e é aqui o pensador portalegrense começa a entrar em terrenos perigosos. Ainda que tente escapar-lhes, ao abraçar-se no início do texto a um conjunto de pessoas de proveniências diferentes, é evidente que não o faz de forma sincera, porque a sobranceria europeia que lhe atravessa as palavras descai de quando em vez para este problemático território. O que é, novamente, fruto da ignorância.Tavares fala de tecnologia e evolução, mas esquece que foi graças a uma grosseira exploração de outros povos que o Ocidente que tanto venera teve a vantagem de poder desenvolver com calma o Iphone. Não por qualquer tipo de vantagem cultural. Tavares fala de Shakespeare como grande farol artístico e despreza, por exemplo, a cultura Zulu. Ó Joãozinho, e informares-te mais? E conheceres a epopeia de Shaka, texto de tradição oral Zuli que rivaliza com qualquer uma clássica? Tem todos os ingredientes de uma peça do velho William? E pegares na Mahabarata ou na Ramayana, os dois grandes poemas indianos, tratados de filosofia disfarçados de épico de ficção científica? E a "Ode dourada" muçulmana, deserto quente em forma de poema de Imrul Qays? Tudo isto é grande literatura. É excelente uso da palavra, é drama humano, é imaginação galopante, é conhecimento dos costumes, é tudo o que Shakespeare dá aos seus textos. O que têm estes textos em comum? Nenhum deles foi escrito por um europeu ou por uma norte-americano; e provavelmente, o nosso cronista, depois de anos de educação decente porque europeia, desconhece que existe vida para lá dos Urais.

Li muitas interpretações sobre o que Tavares quis dizer, mas tenta-se tornar complexo algo que é bastante simples. Não tem a ver com racismo ou com teorias da superioridade. Na verdade, ele assume um obscurantismo assustador. A corrente de normalização da estupidez nos tempos que correm pode ser explicada de muitas maneiras, mas nenhuma melhor da maneira como, nos países ocidentais, se explora muito pouco o mundo fora do nosso espaço seguro europeu. Bem sei que o programa Erasmus abriu fronteiras e portas, mas se entras numa casa com um chapéu enfiado até aos olhos, dificilmente verás o que quer que seja. É urgente uma nova revisão de como se ensina o Mundo, e a História principalmente. O simplismo das ideias de Tavares está a par das correntes que querem carregar o ensino escolar com a culpa branca das desgraças históricas, como se noutros espaços do mundo a crueldade não fosse também uma moeda corrente. O mundo a preto e branco em que vivemos tem uma enorme responsabilidade de demagogos e votantes desinformados, mas também de intelectuais que carregam medalhas de liberais e conhecem muito pouco aquilo de que falam, acreditando, como qualquer bom apoiante de uma direita mais esclerosada, tudo é simples de explicar e o Bem e o Mal são conceitos lineares. Foi acima de tudo isto que me preocupou naquele pequena texto pateta, que daqui a um ano não será lembrado e que terá tanta importante para o cânone cultural como estes parágrafos que agora encaminhei aqui em análise apressada. Porque reflecte, acima de tudo, falta de horizonte, de movimento, de curiosidade até. A vontade do conforto e de com isso, afundarmo-nos cada vez mais num conflito invisível que vigora e parece não ter fim entre os que lutam contra uma das mais antigas utopias da Humanidade: a união planetária. Quase sempre através de métodos sinistros, mas na esperança de que possa acontecer numa vantajosa condição de entendimento e aceitação mútuos.

João Miguel Tavares dá a si próprio algo em que acreditar, e aos leitores, mas é uma mentira, ignorante, mas grave, É sintoma de algo mais profundo, que atravessa toda a linha de crenças mais conservadoras ou liberais: a de que há um "nós" e existe um "outros" bem definidos, fixos, definidos. Que os valores não se traduzem pelas acções, mas por inamovíveis factores físicos que nos cravam e fixam de imediato quando nascemos. De que o futuro é tão igual hoje como o era há 500 anos. Talvez por isso os homens que neste momento podem desenhá-lo, de Trump a Bolsonaro, pareçam tanto criaturas arcaicas, fantasmas do futuro passado.

terça-feira, junho 11, 2019

Perugrinação 22: Finisterra em forma de gente



Já devem ter desconfiado que não escrevo as minhas crónicas de viagem mesmo na hora. Um caderninho vai sempre no bolso da mochila, com uma caneta a tiracolo. Anoto as impressões e os momentos, pequenas frases que me amparam a memória, uma bengala feita de gatafunhos. A minha capacidade de reter momentos e até cheiros sempre surpreendeu e explica porque é que pareço saber tanta coisa, quando na verdade sou ignorante noutro tanto. É um exercício não tanto de recriação, mas quase de bruxaria, invocando o passado como demónios que se alinham neste interface do Blogger; e sempre que escrevo é como se regressasse. Parte do prazer ladino de compôr estas recordações é egoística e egocêntrico tambem, buscando elogios, palavras simpáticas, quase que querendo confirmar de que não perdi um certo jeito para escrever. Mas a outra é o simples regresso onde já estive e provavelmente não volto. Tem sido sempre assim nas crónicas finais das minhas viagens anteriores, confirmei há pouco. Esta, no entanto, é diferente. Não porque não envolva tudo isto, também existe; mas simplesmente porque esta história te um fim diferente, um outro objectivo. Anunciei numas das primeiras divagações de viagem que o périplo pelo Peru teria algo de Odisseia, literalmente no seu sentido grego: como Ulisses voltou a Penélope, também eu regressaria, mas a alguém que nunca conheci.


Vi a minha sobrinha pela primeira vez no dia 4 de Setembro. Umas duas semanas depois de ter nascido. No seu berço, é um pouquinho de gente e tanto parece vibrar dentro dela, latente, dormente e adormecido até, porque ela tem os olhos fechados e ferra. Os bébés causam-me sempre muitas perguntas, principalmente como neles pegar, maneiras infindáveis de entretê-los e exercícios de paciência para suportá-los. A minha tolerância para com os bébés dos outros é muito curta. Sofro da maldição/benção - depende do dia em que me perguntarem - de ter um grupo de amigos onde muita gente ou já fabricou um rebento ou está com ideias disso e pelo menos encaminhado numa parceira. Eu não. Continuo naquela calamitosa solidão que é o meu estado natural, numa garantia de que enquanto permanecer só, o mundo não escorrega. Há dias, vários, mais até do que desejaria, em que felicidade alheia me incomoda. Não é por mal, não odeio ninguém. Incomoda-me por incapacidade própria de alcançá-la, como se não merecesse ou fizesse por isso. Quando a minha sobrinha acorda, encolho-me e mesmo querendo pegar-lhe, nem em mim pego. Preciso de alguns segundos e nos meus braços, vou fingindo que é assim, que posso e sei, mas sei que não posso, e os olhinhos pequenos, castanhos, ainda remelentos, nem me reconhecem. Na sua cabeça binária, sabe que não sou nem o pai, nem a mãe. Apenas um mostrengo alto, pelos na cara e assustador. Demorará alguns meses até me aceitar como tio, mas lá chegará. Por agora, sou um borrão.


Queria contar-lhe sobre tudo o que vi. Sobre as prendas que lhe trouxe. Sobre como o tio viu outros como ela, mas morenos e de pele encarquilhada, pressionados pela montanha, a tiracolo ou às costas de uma mulher quechua. De como o mundo vai ficando cada vez maior para mim a cada ano que passa. De como a partir deste dia, sempre que viajo, tenho o prazer de voltar para aquele pedacinho de pessoa. Gostava de lhe contar de como daqui a uns meses, fica maior e os olhos abrem mais, quase parece uma personagem de anime. De como temos brincadeiras próprias e coisas que só eu lhe faço, de como chora se está com birra e fica mais de cinco minutos ao meu colo, de como já estende as mãozinhas quando me chego a ela. Outras viagens. Não são os pináculos andinos, os mistérios de Nazca e Macchu Pichu, as lagoas perdidas na montanha, as estradas serpentinas e as rectas por entre aldeis e vilas perdidas no lixo, nem a Lima do fin de siécle, nem salinas encaixadas em altitude. O Peru fica lá longe, mas levar a Beatriz a viajar no meu colo é, em si, uma aventura que me sabe de apetite. Imagino-me por vezes a contar-lhes estas histórias, acordar uma curiosidade que ela nem sabe ter para galgar quilómetros e conhecer continentes. De como quando lhe perguntarem porque viaja tanto, a Beatriz responde "Havia um tio, como vivia sozinho ocupava-se a estar assim só onde se sentia mais em casa" e pensa algures nas histórias e nas memórias, com caderninho ou sem ele, talvez tirando fotos, talvez só guardando tudo com os olhos.


Quando escrevo esta última crónica, ela está longe. Não tanto quanto a América do Sul, mas igualmente mágica. Enquanto cravo estas palavras, sei para onde me leva a próxima rodada, mas são surpresas de outras calendas. Da Latina América, guardo uma redescoberta de algo que em mim morrera e agora aparece, um empolgamento do fogo secreto dos filósofos. É o mais importante, foi por isto que comecei a viajar: recuperar-me, recuperar o que se apagara pela erosão de anos. Uma colecção que se recupera para um dia, talvez, ser o tio que a Beatriz merece. Não que tenha encontrado isso no Peru. Mas quando, cá em baixo, a noite cai e não consigo escapar daquele mal-estar que só os abandonados sentem com força, recoloco-me em Ausangate e mesmo isolado, não consigo sentir-me remoto. Estou onde quero, onde mereço. E só por isso, o Peru manteve o estatuto que sempre me atribuíram - ave rara. Que continuará a voar, por muito estranho que o bater das minhas asas soe.

quarta-feira, maio 29, 2019

Perugrinação 21: Nostalgia, mas não de Tarkovski




Deixei Lima há duas semanas e quando volto, está diferente. Ou estou eu. Com mais pó acumulado, aposto. Quilometragem. Chegámos ontem de Cuzco. Ainda passámos um dia na antiga capital de Inca. Males estomacais voltaram a apanhar-me, mas ainda assim ganhei coragem para me levantar da cama e passear de tarde numa última vistoria pelas ruas, compras para amigos e família. A minha sobrinha começa assim uma carreira de ter um tio que lhe faltará a muitas festas de aniversário, em troca, terá prendas de todo o mundo. Num portal rectangular que dá para o interior de uma torre, um velhote quechua de chullo na mona sorri-me, um cliente. Pergunto-lhe sobre tamanhos pequenos, ele inquire a idade da destinatária - "Una ninã? Pero que linda!" - e ele nunca a viu. nem eu, sendo honesto. O que é que se pode escolher para alguém que não conhecemos? Sinto que é uma espécie de blind date com alguém que nem sequer tem gosto formado. Sou péssimo a escolher roupa, mas vem aí o Outono, a seguir o Inverno... Engraço com umas luvas verdes com quadrados de várias cores e um barretinho quechua com orelhas de abano e cordéis que parecem caracóis desfiantes, azul-claro, com algo de branco e laranja. Acho que a Beatriz gostará. Estou, basicamente, a escolher ofertas para daqui a uns anos. Não sei quem ela será tão à frente no futuro. Nem sei sequer como me verá, se me perceberá ou aceitará sequer, se não achará tudo isto pindérico. Mas pensando nela, torno-a bem real, defino-me em relação ao que lhe quero dar. Está pago, guardo num saco com as restantes prendas que adquiri. Dou mais umas voltinhas e regresso ao hotel. À noite jantamos e é a última vez que vejo aquele mar de casas com os pirilampos nocturnos a dizer presente. Pode parecer idiota, com tantas coisas bonitas que vi neste país, mas continua a ser das coisas mais fascinantes desta viagem, uma vista a partir da varanda do hotel, sobranceira a Cusco, num silêncio que crio para que tudo o mais fale, fale, diga. Não vos conto o que guardei da conversa, fica para mim. Fica para um caderno que é de alguém que não vocês. Escrevo nesse caderno na manha seguinte, enquanto esperamos no aeroporto da cidade por um voo interno para Lima. É o único aeroporto onde estive em que fui cheirado por cães polícia, procurando folhas de coca. Já tive armas apontadas a mim no Quirguistão, logo precisam de mais para me impressionar.


Hoje é o último dia neste país, na América do Sul. Amanhã regresso ao mundo que é meu. A ideia é visitarmos o centro histórico da cidade, que por própria admissão do Pedro, não é tão grande quanto isso. Por isso, sugere-nos a visita a um museu muito conhecido na capital, aquele que tem o nome de Mario Testino. Para os menos informados, é um famoso fotógrafo que ficou conhecido mundialmente devido a uma sessão feita com a falecida Diana Spencer, ex princesa de Gales. Localiza-se em Barranco, o tal bairro dos artistas sobre o qual já escrevi anteriormente. Num antigo palacete, reúne-se gente à porta, pinta de modernaços, alguns laivos hipsters, apreciam o sol da tarde num relvado da moda. Por sorte, a entrada hoje é à borla. Conheço várias fotos suas, são icónicas e no geral, celebram o excesso da fama, da festa, com um barroquismo muito próprio; e só quando paro de facto a observá-las, a reparar com olhos menos de quem folheia uma revista e de facto estaca para decifrar um mistério, de como a sua noção de cor é tão sul-americana. Há algo de todos os têxteis que encontrei nas profundezas dos Andes no seu mundo cromático, como se fosse um código de um peruano cosmopolita para os seus conterrâneos que não tiveram a mesma sorte: sou um peruano do mundo. Testino responsabilizou-se por tudo o que vemos aqui. Foi ele quem dirigiu o restauro desta mansarda, as fotos são suas, a curadoria das exposições temporárias de seu próprio gosto e escolha. Colabora com escolas e oferece oportunidades a novos artistas. Belo legado, mais do que fotos a preto e branco de um membro da realeza britânica. O rés-do-chão ocupa-se da carreira do Testino fashionista, fotos de celebridades e modelos, capas de revistas, portfólios da Vogue à Vanity Fair, o lado que projectou o fotógrafo na sua dimensão mundial. É quando acedemos ao primeiro andar que encontramos um espaço dedicado a vestimentas tradicionais do Peru Rural, impecavelmente iluminadas e fotografadas, a lente de um artista ao serviço da memória interna e folclórica do seu país. Mulheres e homens, crianças a saltar, pulsam tanto de vida quanto Kate Moss e David Beckham, se parecerem artificiais. Numa sala ao lado, as famosas fotos da última sessão da princesa morta. Sempre passei ao lado em torno desta plebeia britânica que aceitou um pacto com o diabo monárquico e deu por si acossada por fotógrafos literalmente até morrer. É apenas quando sozinho e em confronto com grande tela que noto como Testino lhe apanha uma melancolia plena nos olhos, mas principalmente nas mãos. É difícil de explicar, mas é um pouco como se os dedos procurassem um botão de passado que não existe. Para lá dos vestidos e da maquilhagem, com a cabeça pousa naquelas mãos, sente-se-lhe uma fome de fuga. Mas Testino não a deixa fugir, ainda que lhe permita a ilusão. Não é muito fácil apanhar pessoas. Eu não sei fazê-lo, não consigo, acho que não gosto. Acho demasiado intrusivo e viro-me para paisagens. Mas este peruano agarra-as pelos colarinhos, com a doçura de uma vicunha embeiçada. Torna alguém interessante, fulgente. É um dom.

De seguida, metemo-nos em táxis e rumamos ao centro histórico de Lima, uma extravagância colonial que vive disso, misturando nalgumas ruas um cosmopolitismo saloio de pequena grande cidade. Não o escrevo com desprezo. Há grandes edifícios e pequenos recantos, vida da América do Sul em curtas salas, cafés, ruelas. Como um grande embrulho espampanante, no qual descobrimos, depois de tirado todo o jornal, berlindes nada foscos. Já aqui falei das origens da cidade. Na altura não me demorei nos seus encantos históricos porque sabia que este momento chegaria; e o nosso percurso começa pela Plaza San Martin, também conhecia por Plaza de Armas. É o espaço público por excelência da consciência pública peruana. Se há manifestação, eclode aqui. Tomou o nome do libertador do Peru, José de San Martin, general que até era argentino. A sua construção marcou o centenário da independência do país, em 1922 e rodeia-o uma zona boémia da capital, com teatros e cinemas, salas de diversão, estabelecimentos nocturnos. Vou notando que a consciência pública não é apenas manifesta, mas anunciada. Este deve ser o Speaker's Corner do Peru. A cada canto, um magote de gente, ouve homens de megafone e aparelhagem sonora debitar as palavras de ordem mais acesa, trovoadas, e teorias de conspiração que fariam Alex Jones envergar uma erecção perpétua. Como quem nem quer ouvir, mas está doidinho por fazê-lo, aproximo-me de uma maralha que entre riso trocista e condescendente e a atenção dos que julgam, de súbito descobrir que o mundo tem uma manivela escondida que permite revertê-lo, escuta um arauto da desgraça; e qual é a sua? O Chile, esse país infame e ardiloso, vai atacando secretamente o Peru com a mais vil doença, o pior de todo os males: a homossexualidade. Pela calada da noite e penetrando profundamente nas fronteiras mais indefesas do país, presumo que as das traseiras, rapta os melhores filhos na nação peruviana e transforma-os com cabros, brócolis - gays. O método? A simplicidade de uma injecção, o tratamento demorado de um gás especial e a ideia é extinguir a população, acabar com ela, facilitar uma invasão futura. O dia brilha ainda, apesar do obscurantismo. Clama ele que a ditadura de Pinochet foi a única resistência a esta cabala da desgraça e que homem com homem é o rumo ao desfiladeiro quente do Inferno. O fim dos tempos, o tempo do fim. O renascer do Peru jaz em vaginas, aparentemente. Rio involuntariamente e ninguém nota, acho. No chão, esta voz do deserto exibe mapas, fotos, esquemas, ligações. Tudo aquilo que imaginariam nas paredes de um paranóico. Faz um grande gesto com o o braço, enquanto menciona Pinochet e por cima de si, passa um arco de sabão, feito por um palhaço - literal - que entretém miúdos numa banca lateral. É surreal, não mais do que aquilo que acabei de ouvir.


A pouca distância, encontra-se outro interessantísimo edifício cultural, a biblioteca pública Vargas Llosa. Quem lhe dá nome é do conhecimento geral, escritor do país que já meteu um Nobel ao bolso - de certa forma, é o Saramago desta gente, pois também é filho único nessa demanda Nobeliana das letras. A biblioteca tem o nome oficial de Casa da Literatura Peruana e o seu enquadramento dá-lhe um charme urbano que podia muito caber num largo romance sobre livros, palavras, mistérios presos em páginas. O seu edifício foi originalmente a principal estação de comboio de Lima, a Estación de los Desamparados, quase saída de Paris no seu desenho - o que é apropriado, visto que o modelo desta Lima que hoje conhecemos foi precisamente a Paris do fin de siécle. O nome não vem do facto de os antigos passageiros ficarem constantemente apeados junto à linha, mas sim de uma igreja que antigamente ficava neste local. Quando entro, noto o esforço realizado para manter o traço original da estação, desde a arquitectura até uma magnífico telhado de vidro, que conserva ainda os desenhos em vitral com que nasceu. Hoje guarda livros, mas ainda se sente que a qualquer altura, o gorgolejar mecânico e bruto de uma locomotiva se pode fazer ouvir e encher o espaço de fumo. Na verdade, descubro a ler uns folhetos, uma vez por mês tal acontece: um comboio liga Lima e Huancayo, cidade enfiada no interior dos Andes. Ainda agora lá estive, já me querem transportar de volta... Mantém tudo o que imaginamos, desde as bilheteiras em madeira até à escadaria de pedra e uma arquitectura de ferro que reconhecemos como europeia. É casa de livros desde 2009 apenas, mas que casa, e que utilização curiosa de um edifício civil. Ler aqui deve ser um poema em si. Fico com vontade de trazer os meus livros e escolher uma cadeira, qualquer uma, para durante o dia gozar da luz filtrada pelos vitrais, embalando-me em cenas de cinema que se constroem em camadas de papel, viver vidas alheias enquanto a minha é banhada a romance. Imagino-o e é encantador. Se procurarem em folhetos turísticos, ninguém vos aconselhará, por isso sugiro-vos ardentemente a visita. Vargas Llosa domina tudo, nome fundamental das Letras do país: as suas obras, a sua vida, a fotografia de um poseur artístico profissional com ar boémio, cabelo impecavelmente penteado e olhos daqueles que parecem dissecar a realidade ao mínimo ponto e vírgula.


Depois deste banho de cultura, um pouco de conhaque, com a possibilidade de ser literal. Mesmo à esquerda da Casa da Literatura, o bar Cordano oferece a possibilidade de parar e petiscar alguma coisa. É um daqueles sítios em que se entra e se viaja no tempo. Duas portas abertas, quase como se pudéssemos atravessar o início do século XX em vinte passos e regressarmos de imediato ao nosso. O Cordano foi fundado em 1905 por italianos, naturais de Génova, e ainda hoje aqui se mantém, um dos estabelecimentos mais antigos e tradicionais de Lima. 112 anos de existência e mantém praticamente o seu aspecto inicial. Não há música, não há televisão, não há wi-fi. Existe a conversa e a possibilidade de as pessoas continuarem a ser pessoas. Deve o nome a um par de irmão que foram co-fundadores do café e o legaram, mais tarde, aos filhos, que ainda hoje mantêm negócio em conjunto com os empregados, que também são donos do espaço .Em Lisboa, já lhe teriam tratado da saúde para criar um Alojamento Local. Por aqui, felizmente, ainda há quem permita que a cidade mantenha um charme próprio. De tal forma é importante que foi declarado, em 2005, património nacional.Os empregados respeitam um pouco estas raízes, não apenas no uniforme, mas também na atitude. Fotografias encarquilhadas nas paredes lembram-me orgulhos pessoais de dono, a alegria de receber gente ilustre numa casa que é mais do que quatro paredes, o prazer de ser anfitrião e assistir a vida que se desenrola em torno de mesas. Cheira a filme antigo e olhando em redor, ouço jazz, com tons de tango, vejo homens de chapéu de aba, cigarrinho ao canto da boca, num lanço de escadas rumo ao coração de alguma moça mais desprevenida e capaz de cair na esparrela de um copo. Este segundo dia em Lima desperta-me mais evocações do que o primeiro, ou se calhar estou mais disponível para recebê-las. Talvez a deriva pela minha paisagem, a montanha, tenha finalmente despertado a sensibilidade que adormecida, me esquivava da realidade. Na praça central da cidade, o sentimento de caos volta, mas justificado: muitas pessoas, trânsito acumulado, luzes abananadas. Oportunidade para ver mais de perto uma das curiosidades arquitectónicas desta urbe, os Balcones de Lima. Quase todos são dos período colonial dos séculos XVII e XVIII, e são hoje Património da Humanidade. Sendo Lima uma fundação original dos colonizadores espanhóis, os seus pormenores e pormaiores devem muito à Europa, a influências mouriscas e nestes balcões, claramente, ao sul do nosso país vizinho. Juntam-se aqui o Barroco e o Árabe, esculturas de madeira de vasto pormenor rendilhado. Ainda hoje continuam a ser símbolos do poder colonial. Serviam para o Vice-Rei local, representante máximo do poder imperial espanhol, se dirigir às multidões e o seu intrincado desenho, escondendo que está do outro lado da janela, permite a qualquer um ver as grandes cerimónias públicas sem ser notado. Este Balcões localizam-se em edifícios de poder e religiosos importantes e são, claro, imagens de diferenças de classe, para colocar os plebeus no seu devido espaço.

A noite volta a acabar num jantar no centro comercial onde na nossa primeira noite a sério no Peru, tomámos finalmente consciência de que estávamos noutro ponto, noutra realidade. Escolhemos com mais gosto desta vez e evitamos fast food. Um restaurante que observa a escuridão do Pacífico, onde nos tratamos de forma diferente, desta vez não como estranhos completos, mas apenas semi-estranhos. Acho que é o máximo que qualquer pode almejar nestas viagens de curta duração. As pessoas vão sendo amigas, com a noção de que o contrato acaba normalmente quando se regressa ao aeroporto. Conhecemo-nos, mas noutras viagens, arranjaremos outros amigos temporários, de lugar em lugar, uma colecção deles. Mas aqui, não pensamos nisso. Rimos e relembramos, comemos bem, sonhamos com a noite imbuída de sal marinho e luzes foscas. Lima, amanhã, não é, foi porque está para trás. Hoje é verbo ser; amanhã é verbo estar. Ainda estou meio abanando da violência sensorial da América do Sul e quando regressar, sei que sentirei falta. Ainda não percebo é do quê. Mas isso fica para outra reflexão, outro local. Hoje, como um belo bife com vegetais e ainda não voltei. Quero pensar que amanhã acordo, saio do hotel rumo à Casa da Literatura e tirando um livro das estantes da antiga estação, sou personagem de filme antigo, tão melancólico e nostálgico quanto o meu aparelho de sentir.

quinta-feira, maio 09, 2019

Perugrinação 20: O apelo constante da altura


É um azul claro limpo, fresco. A manhã é fria, mas queima de uma forma que não sei explicar. Talvez seja do sol batendo na diagonal ou dos picos nevados que defronte de mim sustentam esta casa que é a montanha. Num desafio ao céu, não murcham nem fraquejam. Ontem, a noite protegia-os, mas agora, na luz clara e desanuviada, apresentam-se sem pejo. Se olhar para o horizonte, estendem-se, sempre altivos, sempre enormes. É como um sonho directamente saído dos meus desejos maiores, que na neve ardem. Cobrem-se de branco, mas vejo-os de todas as cores. O Pedro chama-me a atenção com um toque no ombro, "Pequeno-almoço, bora", e sigo-o até uma casa larga, mas baixa. Quando entro, saúdam-me em castelhano, três homens que vão fazendo o pequeno-almoço. à mesa, copos e pratos estão servidos. No centro, recipientes com chá fumegante, é de coca. Subiremos hoje aos cinco mil metros de altitude, não é brinquedo. Melhor prevenir. Beberrico um pouco, mas não costumo ser de chás. Neste Hostal, no entanto, tratam-nos bem; e noto que neste fim de mundo,as convenções sociais são diferentes. Aqui, os homens cozinham. Não encaram isso como algo degradante ou menor: fazem questão. É uma experiência de camaradagem, um prazer em dar algo de seu a estrangeiros. As mulheres tratam de outras lides, criam os filhos e tecem ponchos e panos e cobertas e roupa para vestirem e venderem. Uma outra divisão de tarefas. O pão é bom, pelo menos, não sei se são eles a fazê-lo. Vou observando fotos que tirei até agora, enquanto como. Hábitos antigos, não consigo tomar o pequeno-almoço sem estar a ler. À falta de Internet e de livros, sobra-me o espólio fotográfico que tenho acumulado. Só consigo reunir algum orgulho acerca deste lado das minhas viagens quando, chegado a casa, percorro memórias em imagens. Um orgulho fugidio e não tão habitual, exijo de mim uma bitola que nem a máquina, nem o meu talento reduzido me podem dar. A quantidade de locais que visitei nestas duas semanas é tão variada que não acredito. Alguns já me parecem fumo, necessito de olhar as fotos de maneira a acreditar que os visitei, que estive lá. Na recta final de cada viagem que faço, o que vejo ganha a semelhança crónica de uma alucinação vívida.


Mochila arrumada, combinámos encontrar-nos no parque de estacionamento. Enquanto caminho, vejo melhor o que a noite me ocultou quando cheguei. Um límpido riacho atravessa o espaço do resort, amparado pela beleza da altitude e a vegetação rasteira e verde cansada do planalto. A electricidade dá-se aqui por meio de postes bêbados, que garantem os fios, mas por pouco. Chegam aqui quase por favor. Um cão negro, listado a mel, roça-se nas minhas pernas e merece uma festa. No parque, cavalos esperam em descanso. São uns dez. Dá quase um por cada turista luso, mas nenhum deles é puro sangue lusitano. O tamanho é mesmo a jeito para tótós como eu, que nunca montaram a cavalo. Já sabia previamente que este seria o meu dia de estreia nestas lides. É impossível não recordar o senhor Nuno, o homem velho mais novo que conheço. Não por ter o espírito jovial usar o português de maneira atroz. Simplesmente, não envelheceu um dia desde que eu era criança, e ele já era antigo nessa altura. O senhor Nuno era dono de um picadeiro ao cimo da minha rua. De quando em vez, subia para visitar os cavalos. Simpático, deixava que os acarinhássemos, déssemos comida e de quando em vez, aos mais corajosos ou aqueles com quem simpatizava, uma voltinha no Alegria, um cavalo branco manso, era prémio. Nunca o mereci, mas olhava sempre com curiosidade, inveja e aquele fascínio pelos animais que só as crianças que passam o tempo todo a ler fechadas num quarto podem conjurar. Estes anos depois, do outro lado do mundo, e finalmente vou fazer-me de cavaleiro. Calha-me em sorte um cabisbaixo equino cujo nome não fixei, o que é ingrato visto alombar nos próximos quilómetros com os meus quase noventa quilos. Vou chamar-lhe "Desorientado", por motivos que se tornarão claros mais abaixo. Um dos cuidadores, que nos acompanhará nesta viagem, incentiva-me. Por muito que eu saiba que o cavalo é bastante mais denso e musculado do que eu, parece que tenho medo de parti-lo se subir demasiado depressa, com ímpeto em excesso. Máximo cuidado da minha parte, até porque me passa pela cabeça a imagem do Christopher Reeves menos super e mais cadeira de rodas. É um jogo de confiança, porque ainda que estejamos no solo, o controlo não é nosso. Aquele bicho tem vontade própria, por muito que insistam que foi domesticado. É como se caminhasse não caminhando, uma experiência fora do corpo. Existir por interposto organismo. Mas quando começa a andar de um lado para o outro, sempre pela mão de quem o conhece e educou, não consigo ter a verdadeira noção de ser eu a fazer o caminho. Mas vendo aquela paisagem à minha frente, montanhas atrás de montanhas, sei que esta é a única maneira e tento habituar-me à flutuação.


Os cavalos seguem em fila. O Desorientado é o penúltimo, e eu por arrasto. Significa que qualquer foto que tire virado para a frente terá um comboio de dança em quatro patas. Mas o cenário vai-se desvelando à medida que subimos o trilho rochoso e é tudo aquilo que esperava: altitudes com gorro branco, as neves do final de Inverno aqui no hemisfério sul ainda bem visíveis e espessas nos topos das montanhas, mas em gradual sarapinto à medida que a altura se perde. Centímetros de vista, mas metros de rocha, são adicionados à medida que o trilho sobre e em segundo plano, dois irmãos montanhosos dormem, descansam, exibem-se. O caminho afunilado vai-se alargando e ao nosso lado esquerdo, corre um riacho que desce até ao nosso "resort". Mas são aquelas duas montanhas que nos dominam. É o Nevado de Ausangate, que com quase seis mil e quatrocentos metros vigia a nossa lenta cavalgada. Na mitologia Inca, era tão reverenciado que existe um festival anual que se desenrola aos seus pés, com o nome de Quyllur Ryti'i - na nossa língua portuguesa, a neve das estrelas. Como se todo este cobertor esbranquiçado fosse uma dádiva do céu, do mesmo Cosmos que ontem admirei em atenção e admiração suspensa. É ainda um centro do que sobra da original cultura desse grande império que englobou o Peru. É em Ausangate que funciona ainda uma vida de pastoreio única no mundo, que centra todo o esforço de uma sociedade inteira no seu sucesso. O trilho que fazemos serve essa economia, de aldeias espalhadas por estas montanhas, ligadas entre si por estradas apenas percorridas a pé. Pastores levam llamas e produtos associados para vender nestes locais desterrados. Olhando em meu redor, torna-se quase impossível conceber que alguém possa sequer viver para lá da linha do meu horizonte. Mas vivem. O Desorientado alheia-se a isto e faz por merecer o nome que lhe coloquei: no chão, o trilho está perfeitamente marcado, visível definido; mas o meu anexo de patas ignora convenções, julga-se um Guevara que relincha. Ziguezagues aleatórios, a escolha da versão mais difícil de dar as curvas, subir e descer quando pode perfeitamente ir a direito: este não é o fiel e equilibrado Brego do Aragorn. A certa altura, sinto o meu rabo a ficar dormente e as minhas pernas abertas num ângulo permanente que não é simpático. Penso nos filmes de faroeste, entendo bem porque é que os cowboys caminhavam como se tivessem ganho um assento num cacto.


Olhando para trás, já nem vejo o "resort", mas o que conta, de momento, é aquilo que está para aparecer à minha frente. O mais velho dos guias passa por nós a correr, com um saco às costas. O que levará? Aquelas altas montanhas vão-se aproximando, o trilho dá uma grande e larga curva para a esquerda, para me dar a conhecer um lago de água cinzenta, margens arenosas cor de barro, com picos nevados em segundo plano. Esqueço-me que estou num cavalo, lembro-me porque quase caio de tão espectacular é a revelação. Um dos nossos guias já está pronto a segurar-nos a montada, chegámos à primeira das lagoas de Ausangate. São sete e vamos percorrê-las a pé. Os bichos têm direito ao descanso, principalmente o meu. Se calhar, a desorientação foi de arcar com o meu peso. Em redor, é impossível não ver montanha e sinto-me regressado a casa. Um cão vem anichar-se aos meus pés, faço-lhe uma festa e de seguida, corre em direcção ao lago para saciar a sede. Em todo o espaço, rebanhos de llamas, espalhados em pequenos grupos. Numa criação artificial, duas pessoas vestem de forma colorida e sentadas, na base da montanha branca, estendem panos e cobertas para vender. Está explicado o mistério da correria e do homem do saco. Mas o meu foco está em absorver tudo isto para já. Todo este misticismo justificado dos Andes, tudo aquilo que vos tenho contado, o meu fascínio por esta região do mundo parece convergir neste momento na minha direcção. Estou para lá do óculo da máquina, há algo que sinto e que sulca as minhas reentrâncias mínimas da pele. Como se absorvesse bem para lá de mim e o oxigénio denso já não me fosse uma dificuldade. Sei que boa parte destas minhas crónicas se focam nesta estranha relação que tenho com as grandes paisagens e os cenários deslumbrantes, dominantes que encontro tão longe no mundo. Torna-se-me cada vez mais complicado transmitir o quanto tudo isto me esmaga e eleva em simultâneo, porque sinto em mim turbilhões que extravasam dicionários e só se explicam numa profundeza qualquer que só o olhar egoísta guarda. Tenho até medo de me afogar nos cenários que vou guardando e esquecê-los. É o paradoxo de quem viaja: estar no momento é em absoluto uma dádiva, bater continência a estar vivo, exuberar-nos; mas quanto mais vejo, mais hipótese há de me esquecer. Por isso, se a fotografia disto das viagens começou como um desafio estético, como procura de beleza, cada vez mais é uma caixa negra do que sinto quando estou aqui, no umbigo do meu mundo. Em casa, dias ou semanas ou meses depois de tudo isto não ser mais um pretexto para palavras que tenho escrito desde Outubro, é a essas imagens que voltarei para dar corda à alma, escutando uma doce melodia visual.


A caminhada procede-se em ritmo lento, acho que cada um de nós está maravilhado e compenetrado à sua maneira. As palavras são escassas, seguimos à letra o conselho dos Depeche Mode: apreciar o silêncio. O trilho de Ausangate tem perto de sessenta quilómetros na sua totalidade, mas nós, gente de fraca preparação física, fazemos apenas um giro de quatro em torno das lagoas que fica no sopé das suas montanhas. O degelo, quando se dá, deposita aqui as suas águas e o seu, em gesto de narciso, espreita-se nas água, forçando a paisagem a igual egocentrismo. Nenhuma delas tem tamanho ou profundidades que dêem para contar histórias monstruosas, mas ainda assim, existem para nos maravilhar. É uma oportunidade para fotos de reflexo e de qualquer outro tipo que destaque o estupendo impacto destas montanhas. Os Andes riscam a América do Sul de uma ponta à outra. Atravessam praticamente todos os países (das grandes nações deste sub continente, apenas Brasil, Paraguai e Uruguai não são tocados pela sua graça) e mesmo adormecidos e mudos, escondem uma longa actividade vulcânica que volta e meia agita estas terras. O mais violento sismo de que temos registo aconteceu em 1960, na pequena cidade de Valdivia, Chile. Fica mesmo aos pés dos Andes chilenos e por sorte, não era muito habitada: morreram "apenas" mil pessoas. Se correrem a lista de destaque de violência sísmica, nos vinte primeiros lugares existem sete registados nesta zona, um deles no Peru até, mesmo em Lima. Algumas das capitais mais elevadas do mundo, como La Paz ou Quito, também se localizam na cordilheira, cujo predomínio territorial forçou muitos dos seus cidadãos a habitá-la. Com isso, também a habituar-se à altitude como habitat; e isso torna os Andes num fascínio pessoal, imaginava acordar num ponto habitado desta região e abrindo as janelas com estrépito, dar por mim a devorar com os olhos longas montanhas que não consigo sequer encher com a gula. Esta voltinha pelo trilho das lagoas de Ausangate é um pouco isso, aquela sensação emotiva de calcar e percorrer, mas sem a capacidade de lidar com tudo isto, por mais que viaje, por mais que veja. É sempre de abrir a boca, nunca de dormência perante o encanto, o que é correcto aos sentidos que nos ligam ao mundo. As cores que nos dominam, o espanto que faz ceder o embrutecimento e o refúgio da normalidade que nos impede de ensandecer com as emoções. Apetece mesmo perder a razão e o juízo, sentar e não ir embora. É o que quero e não tenho direito. Vi todas as lagoas, trouxe na máquina as montanhas, mas este ar e esta luz só posso guardá-las durante os segundos em que disfruto. O paradoxo do viajante é este: ir e voltar, mas só estar neste intervalo. Os Andes são um momento. No regresso a casa, voltarão a ser letras num livro que leio e numa crónica que escrevo.


Voltamos aos cavalos. O Desorientado, pachorrento, vai comendo erva do chão. No regresso, não perdeu o gosto pelo perigo e nalgumas vezes, tenho de puxar as rédeas ainda que, como calculam, não saiba a maneira correcta de fazê-lo. Preciso da ilusão de controlo, mas depois de Ausangate, apetece-me apenas ser controlado pelo que deixo para trás e deixar-me levar. Não sei se algumas vez sentiram isto, como se fossem uma corda elástica. É como estou. O cavalo não entende, até porque nunca mergulhou em literatura, nem entende os profundos anseios e abismos da alma humana. Talvez vá assimilando que os donos de duas patas são criaturas complicadas, mas desde que o mantenham numa dose regular de comida, água e descanso, nada o incomoda. Por momentos, a plenitude é atingível, mas nunca acontece. Não é do balanço ou do cansaço: é de mim. Como se sentisse esplendor, mas isso não me chegasse. Como se apenas nos lábios de quem quero pudesse, por fim, recolher o que falta e fazer dos Andes vulcões, de Ausangate o tecto do mundo. Percebo que por muitas voltas que dê ao mundo, algo me faz falta; mas as voltas são minhas e faço-as porque viver é mais do que esperar, é ir em busca e criar caminho. Ainda que as patas que pisam o chão não sejam minhas.