quinta-feira, setembro 27, 2018

Perugrinação 3: Manhã em Lima


Um bocadinho de contexto: fundada no século XVI, por Francisco Pizarro, Lima é um monstro de cidade, sendo a segunda maior da América do Sul e terceira maior de todo o continente americano (atrás desses dois berlindes chamados São Paulo e Cidade do México). Pasmem-se, que a mim aconteceu o mesmo. Tem praticamente nove milhões de habitantes e nem sequer existia quando o Império Inca dominava o espaço do país. Como calculam, não é fácil circular numa metrópole desta dimensão. Se já vos descrevi o movimento pela cidade de madrugada como um caos que se intui, imaginem o que é viver nela durante o seu período mais fervilhante. Existe tecnicamente um metro, mas apenas com vinte e seis estações, espalhadas por trinta e cinco kms,  e que não se aproxima sequer das maiores zonas de interesse pela cidade. O táxi podia ser uma alternativa, mas como todas as grandes cidades que são, em simultâneo, selvas não há exactamente taxímetros ou taxas: uma pessoa fala com o taxista antes de entrar e negoceia um preço. Se for aceitável, a coisa faz-se; de outra forma, ou há discussão ou o negócio nem se realiza. Se eu devia achar estranho? Sim; mas lá está, vocês leram as minhas deambulações na Ásia Central. No que toca a transportes, sabem bem que é preciso algo descabelado para me surpreender. Quase aconteceu, ainda assim; e a culpa é do "Combi". É uma espécie de autocarro, o resultado que aconteceria se pegassem naquelas cápsulas amarelas do Kinder Surpresa, as aumentassem cem vezes e fornecessem rodas. O nome vem da abreviatura para Kombinationfahrzeug, a designação original destas pequenas viaturas surgidas em Lima na década de 1950. Na altura, eram todas Volkswagen type-2, tentando resolver não só o crónico problema de falta de transportes públicos na cidade, como também o rarefeito espaço que é dado aos veículos nas ruas e avenidas. O nome alemão é de facto complicado, Combi soa melhor; e o efeito na cidade é notório, principalmente porque a eles se devem quase metade dos acidentes de viação em Lima.


No entanto, acabam por ser das minhas coisas preferidas na capital, porque funcionam de uma maneira incrivelmente patusca. Ainda o veículo não parou - e garanto-vos que não estou a exagerar no tamanho, é grande para carro, mas pequeno para autocarro e assim de cabeça, lembro-me de ver, no máximo, uns 20, 25 lugares de passageiros - e já um indivíduo sai. Que faz ele? Grita a todos o destino do Combi e faz uma publicidade colorida e com ginga: que é rápido, que é seguro, que é divertido, e assim inquire até transeuntes individualmente. Isto também acontece quando os semáforos avermelham e este corajoso personagem insiste em angariar mais clientes no exterior. É desenrascado e calcula na perfeição os ritmos da viagem. Od passageiros fizeram desta figura habito e nem viram a cara. Para além disto, serve também de bilheteiro e daquela vozinha que no metro anuncia as estações seguintes, alertando com volume e assertividade. No primeiro onde viajámos, o Ernesto, nome del hombre de combi, era também diplomata, pois quando soube que éramos portugueses, foi arrancando todas as referências lusas que possuía: Cristiano Ronaldo é o maior; os Portugueses descobriram o Brasil; Andrés Carrillo joga no Benfica! (Fixem o nome deste jogador peruano, pois só têm a noção do quanto Carrillo é popular no seu país natal quando andam pela rua e vêem dezenas de camisolas oficiais com o seu nome nas costas) Quer saber o que fazemos, o que achamos do Peru, porque apanhamos o Combi e nisto, o nosso intérprete é o Pedro, o guia da viagem que conhece perfeitamente o modo de vida peruano pois habita no país. Sempre que entras no Combi, a Cumbia segue-se, deixando toda a gente mais relaxada. Até mesmo malta velhota, e encontro bastantes, sorri e se mostra curiosa, embora não ensaie passos de dança quando nos aborda. Os peruanos, no geral, são simpáticos e já estão habituados a turistas. Lima, que não será de todo o principal destino turístico do Peru, não sofre de problemas que afectam outros locais mais focados pelo Turismo e tem, por isso, uma relação pacífica com os mesmos. O mesmo não se pode dizer do tórrido affair que os condutores da capital mostram com as buzinas dos carros. É quase pornográfico e digno de #metoo em bold. Começo a perceber que enquanto nós temos o Código da Estrada, Lima exerce o Código da Apitadela. Quando pretendes ultrapassar ou mudar de faixa, não fazes sinal: apitas. Isto vale para rectas, curvas e rotundas. Se vais parar ou abrandar na rotunda, dás uma guinada e apitas - por esta ordem; se pretendes alterar a faixa, o mesmo procedimento vale; e entre sinais com máximos e apitos, o trânsito em Lima circula e escoa, um pouco como os glóbulos metálicos da cidade. Em todo o tempo que pemaneço em Lima, não vejo um acidente. O que não é dizer muito: posso dizer o mesmo do Quirguistão e isso não é necessariamente uma recomendação de segurança.


Mas há razões para virem a Lima, para além do pitoresco. Se sobreviverem ao trânsito, sugiro-vos que procurem um restaurante. A cidade é considerada a capital gastronómica das Américas e come-se muito bem de facto. É regular encontrarem restaurantes daqui na lista dos 50 melhores do mundo e o facto de o país ser incrivelmente multi-cultural leva a que na sua cozinha se encontrem influências chinesas, portuguesas, creoulas, quechua, japonesas... Tudo misturado até mesmo nos pratos tradicionais, e destes o principal é o ceviche. É um jogo de risco com o nosso próprio estômago, pois trata-se de peixe ou outro produtos do mar como polvo ou calamares preservados numa solução de sumo de limão. Por isso mesmo deve ser servido o mais fresco possível, antes que dê raia. Acompanhado normalmente de batata doce, também pode trazer abacate - regozijem-se, novos vegans! - ou milho, algo que é omnipresente em toda a gastronomia sul-americana. Na prática, há muitas semelhanças com o sashimi japonês, ainda que as origens do ceviche estejam localizadas numa civilização pré-Inca chamada Moche, que não consta que conhecesse o rock ou que comprasse pacotes de chamadas à antiga Telecel. O prato é tão popular que existe um feriado nacional em sua honra, reparem bem. É, claro, a primeira recomendação que o Pedro nos faz e leva-nos a uma cevicheria chamadoa "El Muelle", ou seja "O Molhe", pois a não muita distância de onde estamos, ainda que com um desnível apreciável, encontra-se o mar. Quase toda a gente pede ceviche a uma senhora extremamente simpática que nos explica com cuidado os pratos, revelando um gosto e simpatias particulares na apresentação do que o seu país tem de melhor. A descrição do ceviche lembra-me o meu trauma gastronómico mais clássico, a minha nemesis sob a forma de moluscos do mar. Desde pequenino que a minha mãe descobriu um estranho fenómeno: polvo ou lulas que caiam no meu estômago são imediatamente regurgitados como se eu fosse um pelicano. Não acho que a melhor maneira de me apresentar a este país e ao grupo que viaja comigo seja através de reforçado canto gregoriano. Assim, perscrutando a ementa, uma dourada assada apresenta-se e eu aceito o convite para sair. Tenho pena dela, pois tem na minha memória a concorrência de uma perca das Faroé que me esmifrou os orgasmos do paladar em pouco tempo.

O restaurante fica numa rua secundária e calma, conseguimos conversar sobre as primeiras impressões do país, sobre fotografia, sobre outras viagens que fizemos. Os pratos chegam e os amantes de cerveja descobrem os prazeres da Cusqueña, uma birra bem popular no Peru. A dourada está uma delícia, não comparável ao meu amor nórdico, mas bem preparada, tenra, condimentada com pimenta e algumas ervas aromáticas que lembram bastante a cozinha mediterrânica. Quanto ao ceviche, os convivas parecem maravilhados e deslumbrados, o travo forte cítrico misturado com os molhos e condimentos ressaltando do peixe as suas qualidades melhores na ponta da língua. O Pedro alerta que um problema no Peru é o café, geralmente entre o medíocre e o criminoso, com um toque de desporto radical da boca. No entanto, conhecendo-se a cidade, até nos safamos, ainda há alguns lugares que se desviam da crença religiosa que um café bom é um café queimado. A pouca distância, fica o Colonia, um estabelecimento singelo, mas simpático. Defronte, um palácio simples, mas que se destaca das outras habitações no local. Questionamo-nos sobre o que esconderá, não está aberto. Em cima, de pé e desfraldadas, várias bandeiras batem continência ao telhado. Uma é imediatamente identificável como a peruana; ao seu lado, duas extremamemte coloridas, arco-íris, o prisma irisado dos Pink Floyd estampado num pedaço de pano. "É um bar alternativo", pensa aqui o vosso Poirot dos pobres, convencidíssimo que tudo sabe e tudo adivinha, "que coragem em exibir assim a bandeira LGBT num país tão conservador quanto o Peru. Gabo-lhes isso". Isto é uma estupidez; mas só descobrirei porquê quando chegar a Cusco e portanto, deixo-vos no suspense. Não em relação à minha estupidez. Acho que tal é do conhecimento geral. Esta particular é apenas bastante engraçada.


O café está aprovado e depois de uma manhã de andar em labirinto, a ideia é fazer a tarde quase toda em caminhada. Depois de mais uma voltinha de Combi, paramos em Chorrillos. Lá em baixo, vê-se a praia. O céu convida pouco, Lima é uma cidade permanentemente nebulada, embora raramente chova. Mas é o Pacífico, o tal oceano que não tem memória segundo Andy Dufresne, personagem principal de "The shawshank redemption". Nunca na minha vida tive o Pacífico ao alcance do meu olhar. Sobre ele sei quase tudo, que é grande, que é fundo, que é mais escuro do que os outros oceanos, sei os seus limites e recortes, países que banha, uma tonelada de informações acumuladas no meu sótão em forma de cabeça. Mas quando calco a areia da Playa Agua Dulce, apresento-me como leigo. As minhas pernas procuram o contacto com o mar, agacho-me e tiro fotos das aves que tiraram a tarde para passear na praia, mas guardo a máquina e entrego as minhas mãos ao Pacífico. Fecho os olhos, tento que o Pacífico seja maré alta que afunda as minhas guerras, a água não é fria, é tépida e estamos no Inverno, banho nela as minhas mãos completas e entrego ao meu corpo uma outra novidade, um outro oceano, um pedaço do mundo que nunca foi meu, nem será quando for embora, mas é agora parte do meu mapa. O Pacífico é um gigante escuro e balouçante e numa ironia de linguagem, é também violento, lar de vulcões e sismos abismos; mas enquanto ali estou de cócoras, deixando-lhe que me acaricie, é apenas água e extensão, um ponto de foco, uma estrada sem buzinas ou guinadas, sem confusão e levando-me numa viagem momentânea ao meu início. Não me tira o peso dos ombros, mas posso descarregar um pouco dessa tonelada. A água é mais densa com sal, mas por isso também mais rica. Pode ser que, nas águas do Pacífico, a minha guerra faça as pazes com os peixes e seja mais tarde um ceviche delicioso em quem tiver a sorte de com ela terminar em armistício gastronómico,

quinta-feira, setembro 20, 2018

Perugrinação 2: Limando arestas


Viajo onze horas, mas aterro seis depois de ter descolado. Um avião pode ser a coisa mais parecida com um sonho de olhos abertos, o momento em que as rodas tocam a pista é apenas uma passagem entre fases de sono e as malas nem são reais, apenas um recado que o cérebro te envia de que não deixaste a bagagem onde querias. Enquanto espero, ainda não aterrei, acho, ou pelo menos se o fiz, não me despenhei por completo. É estranho que em longas viagens de avião, não se chega bem de todo, vamo-nos reunindo às partes, uma peça de cada vez até que o nosso corpo agarra com os dentes, a realidade. O processo demora-me e quando saio do aeroporto de Lima, baptizado Jorge Chavez - famoso aviador peruano - são quase seis da manhã. Uma noite carregada em escuridão e peso, em nebulosidade e torpor, recebe-me, deixo Portugal em brasa e chego de casaco ao Peru. Nunca estive à distância de um oceano do que quer que seja. O meu grupo de viagem está reunido, vão falando, mas nem ligo. Sinceramente, ainda nem me sinto eu e esta cidade é-me estranha, mais estranha do que qualquer outro local onde já estive. Há um peso sobre mim nos ombros, carrega-me e não consigo entender de onde vem, o que é, porque fica. Nunca me aconteceu em viagem, normalmente fico mais leve. Não sei se as horas em falta se transformaram em cúmulos. Mas quando entro na carrinha que nos levará ao nosso hotel em Lima, sinto-me capaz de ocupar todos os lugares dos passageiros.

Mesmo por entre o brilho torrado das luzes amarelas, Lima define-se como um caos descontrolado, mas intuído. O aeroporto situa-se numa periferia da capital, Callao, que se liga ao centro através de uma longuíssima e agitada avenida. Apesar de o sol ainda se esconder para lá do mar, o movimento é revolvido, carros e carrinhas brilham sobre si, ultrapassam-se e arrependem-se, uma azáfama incrível de publicidade e brilho, sombras em todo o lado, polícias sinaleiros com fardas verdes. Dentro da carrinha, ouvem-se os acordes do estilo musical que dominará a viagem: a Cumbia. Define-se, grosso modo, por um comboio que leva dentro uma orquestra de sopros e circula em carris de bitola estreita, quase sempre em risco de descarrilar. Surgiu na Colômbia, mas neste vizinho a Sul, é quase tão popular quanto Marte nos sonhos eróticos de Elon Musk. A sensualidade quer fazer-se sentir, mas perante o silêncio que reina na viatura, é uma tentativa falhada. Toda a gente sente falta de sono e sei que também preciso quando, entre um delírio e outro, vejo um enorme cartaz anunciando alguém que se intitula "El tío de Bigode". Confirmando que não, a minha sanidade não me desertou algures entre os Açores e Vera Cruz, confirmo que o cartaz é real, tem o tamanho da fachada do Dolce Vita de Coimbra e destina-se a fazer política. Sim, política, "El tío de Bigode", candidato a algo, votem em mim, tenho uma linha de pelos entre o nariz e o lábio, é a minha brand. Tino de Rans parece Franklin Roosevelt em comparação. Os edifícios de Lima somem e na minha retina, sobra apenas a multidão de publicidade eleitoral que enche paredes, postes, solo. Decorrem no país eleições autárquicas para presidentes da câmara e da junta, governadores dos estados e representantes nos governos regionais. É uma boa ocasião para estudar a fauna local e a primeira conclusão é óbvia: incrível como num estado multi-cultural do Peru a esmagadora percentagem dos candidatos é branca, que são 15% da população geral. Não admira, é provavelmente o grupo mais endinheirado da capital, mas cruzar isto com a Cumbia, estilo musical de raízes africanas, torna tudo irónico. Outro pormenor que me fica é a noção de que algures no mundo, os problemas quotidianos são muito diferentes dos meus: já perto do mar, passamos por várias placas que indicam o caminho de fuga em caso de tsunami. É um evento com tanta probabilidade peruana que houve a necessidade de a organização municipal estudar o assunto e avisar os habitantes sobre os procedimentos. Se estudarem no mapa, o país fica no chamado Anel de Fogo do Pacífico, área de grande actividade sísmica e vulcânica. Do lado direito, o mar que só se escuta. Do esquerdo, um morro enorme, onde assentam prédios. Pergunto-me o que aconteceria se soassem os alarmes e o horizonte fosse engolido por um muro de água rugindo, galopando com pernas sem forma. Tento nem pensar na conclusão.



A carrinha abandona as avenidas. Atravessa ruas de subúrbios, casas muito semelhantes entre si, estamos nas zonas habitacionais da cidade, onde edifícios de tijolo colorido, um pouco decadentes, com andares cimeiros incompletos proporistadamente para escapar a impostos de habitação - espertos - dão lugar a casas modernas, com formatos pós-modernos. Quando regressamos à avenida e depois da rotunda mais caótica onde já andei (e que só não me assustou porque levo no bucho quase duas semanas de Quirguistão), paramos. Olho pela janela, leio "Villa Santa". Um hotel. Quando entramos, o lobby está em pantanas "Obras, dizem-nos" e enquanto tento comunicar em português com o funcionário que nos atende, percebo logo que ele me olha como quem tenta decifrar a Pedra de Roseta e nunca viu hieróglifos na vida. "Non entiendo", diz-me ele e em bom Português escrever-se-ia "Não entendo", quase igual, apenas com uma certa picuinhice chamada til que nós, luso povo, achámos por bem enfiar nas nossas palavras. Tão pouco nos separa do Castelhano e no entanto, o jovem observa-me aturdido, atropelado pela conjuntura e pela situação. Vivendo perto da fronteira como este ano, tive várias situações de comunicação ibérica e surpreendi-me pela quantidade de vezes em que as minhas mãos eram mais inteligíveis do que as minhas palavras. Afinal, nem é uma questão de sotaque, pois na América do Sul, que é quase toda uma segunda Espanha linguística, o problema mantém-se. Podia ser da minha destreza, mas falo um castelhano minimamente competente, como mais tarde comprovarei. É mesmo dos achaques idiomáticos. Mudo para o inglês e God Save the Queen. A questão fica tratada em segundos, quarto 404, siga. A cama recebe-me e nem me sinto cansado ou com sono. Simplesmente quero estar de outra forma que não de um lado para o outro. Ando a mover-me há demasiadas horas, preciso de estabilidade. Sete e meia da manhã. Em Portugal, é hora de almoço e por Internet, lembram-me disso. Confirmo que estou bem, o avião na caiu, Lima não é uma favela gigante controlada pelo Primeiro Comando. "Sinto saudades tuas" e o peso que trago alivia um bocadinho. Tenho até às onze horas para me reencontrar. O meu irmão não ajuda quando me diz que a minha quase cunhada acabou de entrar na maternidade, águas rebentadas. A minha futura sobrinha, que devia nascer uma semana depois de eu voltar, decidiu ter pressa de conhecer o mundo. A apreensão torna-se um segundo lençol. Enquanto preparo a mochila, penso em quem ainda não existe mas está prestes a ver o mundo, alguém que cinco minutos antes nem sequer era um fulgor entre os meus neurónios e agora domina-os como se fosse o corpo caloso que une os dois hemisférios do meu cérebro.


Não partilho com o meu colega de quarto, com ninguém. Subo ao último andar, onde está a sala do pequeno-almoço. É pequena e para além de um casal velhote, apenas tenho por companhia uma televisão onde o mito latino Luís Miguel canta os seus êxitos com ar sonhador. Uma caneca de leite, pão acabado de torrar, manteiga à discrição, como e contemplo Lima enquanto tomo o pequeno-almoço. Não lhe encontro fim, só prédios, cinzento, barulho. É o meu primeiro contacto com a América do Sul, menos exótico do que esperava, mas tão vibrante como a promessa que se formou na minha mente. Quando acabo, chegam alguns dos meus colegas de viagem. Conversa de ocasião e refugio-me num recanto colorido, inimigo de daltónicos, onde um porquinho da Índia passeia e as paredes se recheiam de pequenos apontamentos humorísticos. Entre eles, um sinal que ameaça todos os que urinem publicamente de uma subtracção significativa de dois aspectos importantes do aparelho reprodutor masculino. Simpáticos. Marcámos às onze horas num espaço perto da entrada. Recolho a mochila no quarto e desço, tão pesado quanto cheguei a Lima. A sensação não desapareceu. O elevador, enquanto desce, range metafisicamente, a corda sustendo esforçadamente o meu peso existencial. Parou. À saída, desvio-me de trabalhadores, mudando mármores, pedindo desculpa pelo pó e pelo barulho. Quando me livro de tudo isto, quase nem me apercebo que me sentei e olho, elevados, cartazes de filmes antigos. "Gone with the wind". "The godfather". E num canto, "Casablanca", um filme que sei tanto de cor que quase consigo lê-lo em Braille. Como Rick Blaine, estou preso no Peru. Duas semanas. Não conto que do passado qualquer uma das minhas Ilsas ali apareça, mas não se sabe. Afinal, mudei de hora, mudei de estação do ano, com o Inverno arrefecendo a luz e com tantos candidatos políticos, algum deles pode até alinhar com Satã numa plataforma política. Este é o país da Cumbia: segundo se dizia antes, dançar era obra do Diabo; e o Peru pode muito bem ser o seu salão de baile.

quinta-feira, setembro 13, 2018

Perugrinação 1: A viagem das palavras


É uma história que adoro contar só para me fazer sentir especial de alguma maneira. Comecei a ler aos três anos. Conta a minha mãe que um dia, comecei a papagaiar uns títulos de jornais que estavam em cima da mesa, para espanto geral. Não me recordo de nada disso, mas consigo imaginar a cara do meu pai, se estava presente, um esgar de espanto com um misto de desconforto, um pouco como se a normalidade do mundo se perturbasse e se havia algo que ele não gostava era de quebras na rotina. Acho que vem daí a minha capacidade para absorver informação de uma forma absurda, lembro-me de com seis, sete anos já levar enciclopédias de casas alheias para me entreter no quarto. As que já estavam em casa marcharam e de página em página, os livros e a leitura definiram uma boa parte da minha vida, esticaram a minha sobrenatural curiosidade para lá dos meus limites. A minha família sempre o soube e tentou acomodar-se a essa voracidade. Dona Maria de Lurdes, avó materna que por felicidade me calhou, tomou conta de mim até aos dez anos e foi entendendo e observando todas as minhas peculiaridades, com alguma ternura mas todo o pendor de paciência. No meu décimo Natal, ofereceu-me dois livros, que ainda hoje não sei onde foi desencantar, nem sequer a razão pela qual os escolheu. Desconfio que em parte foi acaso e em parte não lhe apetecer procurar mais.

O primeiro, de Charles Berlitz, decretava o fim do mundo em 1999, por toda uma série de tragédias de criação humana que claramente nos condenavam à morte rápida. Talvez seja esta a melhor altura para informar que Berlitz acreditava também que o Triângulo das Bermudas era real, mas devem ter notado pela previsão que o livro não será talvez o maior paradigma do rigor. O segundo não o era mais, mas mostrou-se muito mais influente na minha criatividade. Robert Charroux é um nome que talvez não seja familiar para muitos de vós; a sua principal qualidade como autor é a defesa acérrima da teoria dos "Antigos Astronautas", popularizada por dezenas de memes graças a um programa, ahm, documental do Canal, ahm, Historia. "O Livro dos Senhores do Mundo" introduziu-me a esse mundo, que até mesmo uma criança de dez anos sabia torcer o nariz, pensando que idiota é o autor que quer passar a todos nós, humanos, um atestado de incompetência como espécie. No entanto, e esta é a parte de real importância de todo este relambório, no meio das páginas apareciam umas fotos de provas da sapiente infuência alienígena nas nossas antigas construções; e foi o meu primeiro contacto com o fascínio trepidante das pálidas linhas de Nazca.



Lá chegaremos a uma descrição mais elaborada, mas para quem nunca viu, existe perto da vila peruana de Nazca um conjunto de petróglifos, desenhos em superfície rochosa, bem definidos e determinados que em nada são fruto do acaso, cuja principal curiosidade é poderem ser vistos apenas a partir de um ponto alto. Ora, Nazca é um deserto, descrevia assim o livro, e o Bruno criança, ainda que com cepticismo, pensava sempre "Então mas que altitude existe num deserto? Porque é que se fizeram estas linhas? Quem é que as via?" e era uma boa pergunta que ainda hoje ninguém sabe muito bem responder e como toda a civilização Nazca quinou, porventura devido a causas climáticas e naturais, ainda hoje tentamos responder a isso. Aqueles desenhos brancos, figuras tão variadas quanto macacos e colibris e baleias, são das mais vívidas recordações do meu imaginário infantil, parte da minha pregação standard quando tentava convencer amigos e colegas de escola da enormidade de coisas estranhas e inexplicáveis que havia no mundo. Foi com Nazca que se iniciou o meu romance platónico com a América do Sul e o seu misticismo, mistério e capacidade de transcender, um continente tão vulcânico no sangue das suas gentes e alado na capacidade sobrenatural de se dar à vida de uma forma tão aberta e voraz que aquelas terras condenavam alguém a ser feliz como nunca alguém fora, mas a morrer só devido a isso. Quase tudo na América do Sul me fascina, desde a História à Mitologia às paisagens e à vontade quase primária de simplesmente me fazer à estrada. Nazca estrondou tudo isto e vendo no mapa, fica no Peru, o destino que escolhi este ano para a minha habitual aventura internacional de 2018. Escolham portanto sabiamente os livros que oferecem às vossas crianças. Nunca se sabe do potencial que têm em levá-las longe no futuro, mas de uma maneira que não estão bem à espera.

Por um lado, deve ser-vos refrescante saber isto. Eis um país normal, finalmente! Afinal, é conhecimento comum que o Peru existe e onde fica, o nome da capital e uma ou outra coisa que se possa visitar em todo o espaço peruano. A mais óbvia, e a primeira reacção quando informava os mais próximos do meu destino, é Machu Picchu, ainda que fosse, e confesso, um dos menores motivos de interesse a levar-me a atravessar um oceano. Queria ver montanhas andinas, riscar mais uma cordilheira da minha lista. Já começa a ser conhecido o meu amor pelas altitudes e nas noites que antecederam a minha partida, a mente dominava-se do prazer antecipado dos grandes e elevados espaços, topos cobertos de neve, vales entre grande montanha, fotos incríveis de cair o queixo. O programa que compunha a viagem incluía isso e dava a entender, como mais tarde descobri ser verdade, que a geografia peruana é bem variada: desertos, cordilheiras, praias, ruínas, urbes e lagos, para além de uma porção significativa de floresta amazónica que não cheguei a visitar. O Perú é o terceiro maior país da América do Sul, com cidades muito espalhadas pelo seu território, o que o torna num desafio para percorrer. É um berço de civilizações, tão grande quanto pelo menos a Mesopotâmia, e tem uma história riquíssima de gente obrigada a enfrentar condições naturais complicadas para florescer, um país com uma população multi-étnica muito variada, um grande número de ameríndios presentes, principalmente fora da capital, e um vasto grupo de asiáticos a viver no país, o maior em toda a América do Sul. Toda esta variedade, esta multidão de pessoas e influências, transforma o Peru num cruzamento de muitas coisas tão diferentes quanto Vargas Llosa e a Cumbia, as ruínas de Tihuanaco e os montes de lixo que mais tarde encontraria em aldeias tão afastadas da civilização; mas também uma rica gastronomia, gente inacreditavelmente acolhedora que se mistura com sabujos que se querem aproveitar de turistas e num aspecto retorcido de reunir o melhor e o pior, o Peru parecia ter bastante de Portugal.


Nas arrumações, coisas a não esquecer: um livro de Jorge Luís Borges que usarei para um certo projecto fotográfico registando as minhas passagens na América do Sul; um diário de viagem que me foi oferecido pela Isabel, cara amiga que acha algum tipo de valor aos meus passeios, que sente a alma cheia de cada vez que me lê ou vê o resultado fotográfico das viagens que enceto e conseguiu convencer o companheiro a preparar-me um caderninho com uma belíssima e evocativa capa desenhada a preto; um outro diário de viagem que escreverei como relato pessoal a quem, não indo comigo, é sempre minha companhia; a foto do meu pai olhando o mar, que desta vez atravessará para lá do mesmo num local onde a água corre ao contrário, o sol nasce do lado errado quando aqui for de noite, ainda se está a chegar à hora do almoço; muitas latas de atum; comprimidos para evitar altitude e certos problemas intestinais que surgem com frequência pelas condições comensais que por lá se encontram; duas leituras de companhia: uma história do século XX latino-americano pela esvoaçante pena de Eduardo Galeano e uma obra, que me foi aconselhada pelo catedrático viajante José Luís Santos sobre a Àsia Central, de seu nome "Rotas da Seda"; e claro, a minha fiel máquina fotográfica, algo escavacada, algo empenada, sempre pronta para a sua possível destruição de cada vez que a trago para registar com maior ou menor poder estético os mundos para onde me translado.

Esperam-me duas viagens: de Lisboa a Madrid, daqui para Lima, onze horas sem parança de voo nocturno, o silêncio do Atlântico na noite de uma avião. Apesar das horas de voo que levo, ainda não me habituei a descolar e aterrar, de todas as vezes, ainda aperto forte o braço do assento, ainda me sinto terráquo e animal de solo. Mas querer conhecer o mundo exige-nos tarifas: a primeira é desligarmos de tudo o que conhecemos; a segunda é dar a volta ao medo num pequeno foxtrot de risco; e a terceira é voltar na vontade de partilhar com outros, de apelar à viagem nas pessoas que conhecemos, de puxá-las para as outras realidades que vamos conhecendo. Esta é sempre a minha maneira de pagar este terceiro preço. Espera-vos um nascimento, uma morte e também um casamento, situações onde me vi no limite do pior e do melhor; mas como sempre honestidade, alguma tentativa de que isto não seja chato de ler e a garantia de que eu apenas regresso, na verdade são vocês quem viaja. Se tudo isto começou com a minha avidez da leitura, faz todo o sentido que o façam através da prisão que os vossos olhos dão às minhas palavras. 

quinta-feira, julho 12, 2018

Cabanas do Monte


Cabanas do Monte foi sempre infância para mim. Lá para o Sul, mas um bocadinho mais a Norte do que devia, em família íamos todos os Verões, tudo arrumado, duas ou três semanas de praia sem cortes. Em criança fartava-me, mas quando cresci, talvez porque quanto mais o tempo passa, mais longe nos colocamos da possibilidade de decidir como a nossa vida se desenha, escolhi regressar mais vezes do que pensei possível. Apesar de litoral, Cabanas do Monte não facilitava a sua descoberta e ambas as estradas repletas de curvas, uma vinda de Foros e outra ligando-a até Magamides, custavam sempre um bocadinho a passar. Com dez anos, o estômago frágil como se de papel, era costume dobrar-me à beira da estrada, perante a paciência incrível do meu pai, que aproveitava sempre para mudar a estação de rádio à revelia da minha mãe, que segurava lenços de papel enquanto assistia ao espectáculo de ver os seus gostosos cozinhados numa pasta meio verde, meio amarela, cheia de saliva. A vergonha levava-me à desculpa, mas ela não se importava: íamos à praia; e quase trinta anos depois lá voltava eu. Não tinha coragem para quinze dias de torrar ao sol. Um fim de semana pareceu-me suficiente, em Cabanas nada mais de interessante havia que uma linha de mar manchando a areia brevemente, convidando ao mergulho. Quer dizer, até ela aparecer.

Bem sei: esta é a parte da história onde a maior pasmaceira ganha vida apenas e só pelo fôlego que a silhueta feminina lhe pode dar. Sim, também é isso; mas eu não o sabia, nem calculava; não houve epifanias ou luzes, sininhos ou tininhos. Do que mais gosto em Cabanas é de uma esplanada a pouca distância da praia, onde faço tempo a ler até me apetecer mergulhar. É agradável e na maior parte do tempo, é uma brisa marinha que me acaricia a cara com sal. Mas há dois sábados, a minha face foi brincada com um chinelo de borracha, em certeira pontaria. O meu livro caiu ao chão e por entre a momentânea confusão de tempo e espaço, o sol à minha frente foi obstruída pela figura de aflição súbita que apenas se expressou com um "Foda-se" bem certeiro. Não teria dito melhor. Voltando a mim, confrontei a minha agressora, sem sequer perceber muito bem feições ou formas, mas um cheiro doce a pêssego tornou o meu regresso à percepção do real muito mais agradável. "Foi o vento, desculpe, está bem?" Não disse nada, as minhas mãos trataram de informá-la que sim, tudo normal, não tem mal algum, não se preocupe. "Viu o meu chinelo?", sim, de muito perto, mais do que queria. "Tem a certeza que está bem?", enquanto o encontrava. Quando se aproximou, definindo-se por fim, não me lembro de ser o apogeu do mundo, mas de certa maneira, o calor rodeava-a sem sequer afectar o seu discurso, e o controlo sobre os meus olhos era inegável. Quis pagar-me algo, quis compensar-me e a mim, que estava ali por leituras, apeteceu-me desfolhá-la. "Conheces Cabanas? É a minha primeira vez cá, falaram-me que era sossegado", e eu conhecia tudo desde criança, falei-lhe brevemente da minhas férias em família, mas na sua acutilância curiosa, perguntou-me algo a que nunca me tinha dado o trabalho de pensar: "Porque é que isto se chama Cabanas do Monte? Não vejo cabanas e muito menos montes"

A epifania deu-se aqui. Porque, sabem, andei uns quinze anos da minha existência a morrer um pouco mais ali todos os Verões, vítima de tédio; nos saltos e sobressaltos da minha cabecinha, que com a idade se foi ocupando de temas cada vez mais complexos e hormonais, nunca me passou pela cabeça questionar o nome dos nomes. É grave para mim, cientista, habituado a perguntar ao etéreo o porquê de tudo. Mas fazia tudo um certo sentido: as faixas costeiras não se caracterizam por elevações. Há pequenos topos, mas nada que levasse uma maralha de populares a decidir que por ora, tal terra deveria o seu nome a uma elevação. Dava as cabanas de barato, mas o monte... Era como se aquela terra, e por arrasto a minha memória da infância, nascesse de uma contradição. Cabanas do Monte podia muito bem ser a piada e eu, os meus pais, um prolongamento da gargalhada. O chinelo acordou o meu cérebro, mas antecipando-se, ela já estava de volta do telemóvel, puxada pela mesma dúvida. Sentou-se e passámos algum tempo de volta de mapas e sites e bebemos uns finos e mandámos vir umas empalhadas e em vez de mar, acabei a tarde, ao lado dela, junto de uma pilha de detritos a uns dez quilómetros de onde a indagação começara. "O monte é isto", e era, há vários séculos existia ali, com quase 400 metros de altitude, mas durante o terramoto de 1755, uma onda violenta abriu o solo e tudo o que estava amontoado foi deslizando até não ser mais do que uma irreconhecível instalação artística do poder natural. Foi quando a olhei e me apercebi de como esta mulher conseguia tornar o detrito interessante. Já lhe sabia o nome e o cheiro, a forma e a aparência, as palavras e os sons.

Jantámos nessa noite. Soube muito mais do que queria, mas menos do que devia. Nenhum de nós estava interessado no veraneio, Cabanas do Monte era apenas um pretexto para sair da realidade e sermos outros. Nesse fim de semana não sei que papel tomei, mas podem dizer que fui um pequeno brilho no olhar de quem à minha frente me confessou que eu lhe causava um certo arrepio na nuca quando, depois do jantar, demos o passeio dos tristes na marginal. "Sabes, li algures que os arrepios costumam passar com beijos", e não quis desmenti-la. Não sei que tipo de atalhos levam da nuca até à boca, mas apanhei-me num e não quis voltar atrás. Podia, devia, mas não quis. Deve ter sido do iodo da noite, ela também não regressou ao que era nos outros dias e juntos, criámos outros nós, mais livres, mais presos um ao outro e sei que chegámos a minha casa, mas partimos para outra. A sua pele sabia a ondas do mar, violentas como unhas que cravam, refrescantes como uma língua que apaga um fogo no peito e inesperadas como dentes que arranham a derme. Não sei se durou muito ou pouco, como disse foi outro que não eu quem fez tudo isto, mas lembro-me do seu olhar oceano, afogando-me de plena vontade, puxando e estrebuchando, depois acalmando-me com a carícia do afago sexo. "Sim, és aqui e agora", e aqueles olhos ainda hoje me fazem sentir muito menos adulto e responsável do que me pensava. O Domingo foi estendido, mas não numa toalha e quando o sol se pôs, já estávamos bem postos no despertar de cada um.

Não voltei a vê-la, embora quisesse. "É melhor guardarmos uma boa memória do que uma má narrativa" e ela era assim, eu não concordava, mas ela era assim. Cabanas do Monte, terra de contradições, cria lembranças em mim e mesmo que nunca seja casa, é sempre um local onde me apetece morar, ainda que esteja longe do mar. Basta que pense nos mergulhos nos seus olhos e de repente, é terra à vista.

terça-feira, junho 19, 2018

Portalegre


A grande digressão do ensino que ocasionalmente vai garantindo que a minha conta bancária não se transforma numa cópia da vitrina de troféus do Benfica trouxe-me em Novembro a Portalegre. A voz grave e agressiva de uma senhora perguntou-me se aceitava deslocar-me ao Agrupamento de Escolas do Bonfim para partilhar o meu conhecimento a nordestinos do Alentejo e eu, que receberia principescamente por isso (ou não... se calhar não), lá fui em procissão até à capital do mais desertificado distrito de Portugal. Tanto amo os grandes espaços quando viajo que as Nornas escandinavas, três anciãs que em Asgard mexiam nos teares que desenham os destinos das pessoas, encaminham a lotaria do concurso nacional de professores para o meio de nenhures. Se Colos era a encarnação literal deste conceito - sempre paradoxal ao nível da Física porque se nenhures é nada não pode ter um meio - , Portalegre é a sua sofisticação cosmopolita.

A cidade atravessa-se a pé de uma ponta à outra numa meia hora e passear no seu centro histórico é uma experiência semelhante à descrita na canção "Sound of silence, de Simon and Garfunkel: rara gente se vê e a que aparece, amiudemente usa bengala.  Portalegre é a excepção à ideia que temos acerca de um Interior que luta para não ser esquecido, que faz dos seus problemas um caminho em direcção ao triunfo: é uma cidade acomodada ao marasmo e não se nota um esforço substancial para mudar esse paradigma. Basta passear por qualquer uma das vilas que a rodeia para perceber um outro dinamismo, uma outra vontade. Em Portalegre, há um contentamento pela banalidade e nesse aspecto, não há como não me sentir em casa, pois lembra-me bem a minha Coimbra natal. A diferença é óbvia:pela sua posição e tradição histórica, a cidade funciona em piloto automático, sem que as exigências mínimas de decência sejam beliscadas. Aqui, onde a Beira encontra a planície, há uma tempestade perfeita de inércia que se estende como um bolor.

No entanto, apesar das queixas, há vantagens óbvias, a principal das quais ter reduzido a metade a distância para o que me é familiar. A Escola Mouzinho da Silveira, onde exibi a minha falta de habilidade para ensinar durante um ano lectivo quase inteiro é incomparavelmente maior e mais frenética que qualquer coisa em Colos. Demorei quase um período inteiro a decorar o nome dos meus alunos, o que é compreensível quando se têm oitenta e tal caramelos ao nosso encargo. Quatro turmas, três do Secundário - e uma com duas alunas surdas parciais, um regresso - e uma do sétimo ano para não perder a forma. Lidar com turmas de Secundário é uma experiência com os seus tons de diferente. Existem, como sempre existirão, aquilo que chamo alunos com olhos de tubarão - aquele olhar preto sem pupilas, de quem não tem nadinha na cabeça e nos permite ver a parte de trás do crânio;  mas há pérolas, alguma luz nas sombras, cabeças que se erguem quando se fala de geo-política ou arte, quando se conta uma pequena história da História ou se associam conceitos simples que eles nunca sonharam. É o momento da faísca, quando de súbito alguém se apercebe que andar na escola não é totalmente inútil. Ainda que o Ensino não seja uma actividade que me preencha ou estimule por completo, ter a oportunidade de acordar algumas mentes, poucas que sejam, não é um mau serviço.

Não me vejo como um professor que traduz a matéria para a aula. Eu quero lançar barro à parede, abrir horizontes, ver o que cola, dar a conhecer coisas novas ainda que aparentemente nada tenham a ver com História. Todas as semanas, no Secundário, sugeri filmes e séries; preparei-lhes uma lista de Spotify actualizada todas as semanas; falei-lhes do mundo actual; desmontei mitos; usei coisas diferentes para acompanhar matérias, que vão desde Monty Python a Rage against the machine. A escola, para mim, devia ser isto, um local de descoberta. Claro que me obrigam a ser um pisteiro de conteúdos, há aulas que são simplesmente explicações e organização em esquemas daquilo que deve ser estudado. Constato que estes adolescentes estão formatados para isso,sabem que há testes e que haverá algures a obrigação de estudar. No entanto, haver quem me peça empréstimos de livros porque me viu na aula com eles, quem aceite ler Borges gostando, quem gosta de Elliot Smith e o passa na rádio da escola, todos me fazem crer que não é trabalho desperdiçado, que se semeia e se colhe alguma fruta, ainda que a maior parte do pomar permaneça estéril e inerte. Há sempre um outro garoto que nos enche de orgulho e se bem que nunca guardei amigos entre alunos, há sempre um punhado muito reduzido que me faz ter vontade de manter contacto, perceber que não se perdem, que cumprem o destino. É uma das razões pelas quais a minha vida de contratado me chateia tanto. Sinto sempre um dever moral em relação a alunos de qualidade.

Agora que o ano lectivo termina, admito-me que vou ter saudades de um ou outro magarefe. É inevitável. Fui chefe de escuteiros durante anos e aprendemos que as ligações humanas são importantes. Continuam a sê-lo, ainda que os números dominem o Ensino; mas nem tudo é redutível à Matemática: quando, no fim de um ano, há quem te abrace (e já tem nota garantida) e chore, não podem ser equações.

segunda-feira, junho 11, 2018

O dia em que fui à TV



Depois de "Não gosto de ti assim, mas sempre podemos ser amigos" e "O que tu precisas é de sair, apanhar sol. Já experimentaste não estar assim?", a frase que mais devo ter ouvido na vida é "Porque é que não vais àqueles concursos da TV com perguntas?". Anos disto, desde o "Quem quer ser milionário?" até aos de hoje e ainda existe quem me queira convencer a comparecer num determinado programa actual na TVI onde Cristina Ferreira se mostra disposta a colocar no desemprego a sirene dos estaleiros da Lisnave. A ideia é simples: se o rapaz sabe tanto, que ganhe dinheiro com isso e não é de todo descabida. Não sei assim tanto (reconheço que conheço algumas coisas de muita coisa, mas já me cruzei com tanta gente inteligente na vida que ganhei a perfeita noção do meu lugar no grande esquema do mundo), mas já assisti a alguns destes programas e há magarefes que lá põem os pés e a sua cultura geral nem sequer chega para lhes apertar os cordões das sapatilhas. O que vos vou contar é a história de como, um bocadinho aos trambolhões, alguns amigos e conhecidos deram com a minha serena e pouco estética cara nos ecrãs de televisão assim de surpresa.

Inscrevi-me algures em Fevereiro, talvez. É ligar, deixar umas informações e depois alguém da produtora telefona e faz perguntas. Tudo começa assim, simples; sucedem-se depois mais telefonemas e muitas perguntas de cultura geral, o que me fez pensar ainda mais em como vão parar certos indivíduos a este género de programas. A triagem deve ser feita na mesma tômbola em que a minha vida se decide, de certeza. Três semanas depois, marcaram um casting pessoal, mas visto que por estes dias habito em quase permanência a 30 kms da fronteira com Espanha, a SP Produções, que oferta o programa ao mundo, foi simpática o suficiente para marcar uma chamada por Skype. Enviaram antes um questionários de seis páginas, perguntando o meu filme preferido, as viagens que fiz e a celebridade que me faria companhia num interessante jantar (obviamente, escolhi Natalie Portman...). Um tempo passou e nova chamada a confirmar que me seleccionaram e que a emissão estava marcada para dia 29 de Março. Isto não aconteceu assim rápido, mas pareceu, um bocadinho porque me deixei levar pela curiosidade de ir à televisão, que é afinal um desígnio obrigatório de ser português, como por finalmente pode ganhar dinheiro com uma habilidade inútil que tenho desde pequeno - acumular informação espúria num sótão chamado cabeça e usá-la para nada que interesse particularmente ou seja importante. Estão lá, caixotes ocupando espaço e ocasionalmente, em quizzes ou com mulheres que fogem mesmo da norma e acabam por se atrair pelo que é diferente e estranho (this guy), tem algum efeito. Fora isso, serve zero. Até este ano.

Calhou que o dia da gravação aterrasse imediatamente a seguir ao fim do meu trabalho no segundo período. Passei por Lisboa a correr rumo Paço de Arcos, onde ficava o estúdio do programa. A viagem pela linha de Cascais recordou-me outros tempos onde me sentia em casa naquele cenário e apercebo-me que o meu cérebro que acumula conhecimentos também não consegue comprimir memórias ao ponto do sumiço. Enquanto fiz o caminho a pé até ao estúdio, fui ruminando e recordando, mas também limpando um pouco os canais da mente. No estúdio, o concorrente é recebido por uma simpática assistente e conduzido a um camarim apertado, onde dispõe de um sofá e espelho. À minha espera, estavam já uma garrafa de água e um contrato de cedência de imagem. A Filipa esclareceu-me as dúvidas e indicou-me o funcionamento do programa e suas regras. Estudou Comunicação Social, em Coimbra, e tem um fraco por cinema documental, tendo em casa o guião para o seu primeiro filme do género. É o que realmente quer fazer, ali apenas ganha dinheiro. Rimos ambos pela coincidência de eu ser de Coimbra, mas tanta gente estudou lá. Enquanto espero, tento descontrair, lendo "The devil's dictionary", onde Ambrose Bierce traça o retrato de uma certa sociedade americana do século XIX, e entre uma ou outra risada, sinto em mim uma inabalável carga de nervos que estará provavelmente até ao final da gravação. Entre telefonemas e sms das poucas pessoas que sabem, um carinho distante ajuda-me. Sou chamado à maquilhagem. Entre algumas piadas auto-depreciativas que divertem as maquilhadoras, passam-me uma camada de base leve e de seguida sou conduzido ao estúdio, onde me orientam nos pormenores: aqui é onde começa, tem de estar em cima destas marcas. Olha para a câmara, faça uma saudação... um grito de guerra, diga que vai esmagar o seu adversário, diga adeus, qualquer coisa. Mas faça. Lá em casa o público não gosta de ver estátuas. Depois ensinam-me como funcionar com o aparelho de jogo. Testo umas perguntas sobre castelos e praias fluviais e volto ao meu camarim.

Um quarto de hora depois, conduzem-me novamente ao estúdio. O apresentador já por lá está, quer conhecer-me e apesar de nunca ter ido à bola com ele, parece-me simpático, tenta fazer uma piada (algo em que o rapaz não é particularmente bom) e explica-me que vai meter conversa comigo, que tem as informações que enviei no inquérito e que se vai focar no meu amor por viagens, na minha vida profissional e no meu gosto por cinema. Antes que se possa ir embora, peço-lhe que refira a minha verdadeira origem: sou de Ceira, não Coimbra (algo que, como quem viu sabe, ele cumpriu). Chega entretanto o meu adversário, um homem de meia idade com óculos. Aperto-lhe a mão, trocamos uns comentários de circunstância e enquanto ele se instala no palanque, regressou eu à minha posição defronte da câmara. É pequena, não uma daquelas que vêem na televisão. Uma lâmpada vermelha indica quando está ligada ou não, parece um olho electrónico constantemente fixado em mim. Enquanto ali estou parado, tento lembrar-me de tudo o que sei, algo tão evidentemente impossível, mas cujo único motivo é apenas descansar a minha consciência. Penso no que quero fazer com o dinheiro, se ganhar, penso em toda a gente que me apoia, penso na minha família, em toda a estrada da vida, em todos os livros que li em criança, em como tudo aquilo é estranho. Só não penso nos nervos, nem os sinto. O apresentador entra, é aplaudido. Não ouço nada. Mas então a luz vermelha pisca. É a deixa, nem pensei no que devia fazer. Sai-me uma espécie de olá a todos, meio isabelino, e subindo uns pequenos degraus, brilha algo de quente sobre mim, holofotes e uma ovação circular recebe-me. O palanque está ali, a equipa de realização em frente, o apresentador dirige-se-me. Cumprimentamo-nos.

Pedro Fernandes manda uma má piada sobre a minha foto. Esforço que rio, mas sai-me tão pouco natural que é evidente na gravação. No entanto, tudo isto é também uma má piada e de certa forma, o homem acertou na maneira como decidiu começar a minha primeira experiência em TV. Se não pareço nervoso, é porque não estava mesmo. E quando tudo acaba e acumulo zero euros ("Foi quem esteve mais próximo de derrotar o nosso campeão", diz-me o Pedro, e tive pena, porque também sou fã da Natalie Portman e adorava fazer-lhe umas perguntas"), regresso ao camarim e nem penso em nada. Informo a minha claque que tudo correu ao contrário, ninguém acredita .- "Mas como? Tu sabes tanto" - e voltarei à minha vida real. Dois meses depois, o programa passa na televisão e chovem mensagens, telefonemas de pessoas com quem não falo há anos e sou parado nas ruas da minha terra por quem se viu representado por alguém ceirense, "Foste lá dar cara ao pessoal camarada" e sou famoso de curta duração. O ecrã é tão pequeno quanto o tempo da fama, mas em mim, um grande passo foi dado. Os meus alunos viram também e partilharam no Instagram, na primeira aula da semana seguinte fazem-me tantas perguntas sobre tudo e estão também contentes. Todos ganharam alguma coisa, menos eu. De certa forma, é assim que funciona a fama.


quarta-feira, maio 09, 2018

As Ilhas Far Away 18 - Fora das Faroe


Passei quase trinta anos a dormir. Um dia acordei e decidi que conhecer o mundo era mais importante do que deprimi-lo. Foi assim que contra mim elaborei o plano de viajar uma vez por ano. Se a possibilidade surgisse, um continente diferente à vez. Escrevo isto e de imediato me sinto estrangeiro, não no sentido de Camus, mas mais como quem olha para si mesmo e só se reconhece aos repelões. A tomada de decisão ponderada sai um pouco pela janela e isto de viajar sozinho com companhia, de não conhecer ninguém e ainda assim ir, não sou eu, mas passei a ser. Cada pessoa que conhecemos ao longo da vida não nos conhece, mas vêem que somos nessa altura. Os recém-chegados ligam-me ao cosmopolitismo, porque sabem que viajo e vou a locais de nome estranho, mas na verdade, este é apenas um eu actual. Não fui assim a vida toda, perdi muito por não ser assim a vida toda e só agora que acordei os olhos de outros abrem para mim.


Sento-me em Portalegre. A cidade é tão mortiça na animação quanto as Faroé que deixei em Setembro, mas menos verde, menos sozinha, menos convite. Pensei muito naquelas ilhas dinamarquesas cá em baixo, de como cada ponto do Alentejo é de certa forma uma ilha e de como ter visto o isolamento das aldeias e vilas faroesas me faz encarar a planície e a distância encolhendo ombros e percebendo que estar isolado e só é um conceito. Se no Quirguistão aprendi que posso ser várias pessoas numa, que cada um me vê como quer entender o mundo e as pessoas, nas Faroé escrevi em mim que o mundo podemos ser nós e ninguém tem nada a ver com isso. A vida de quem está longe e mesmo assim tem de existir fascinou-me lá no Norte, naquelas casas de silêncio, mas não de vazio. Gente que respira os dias e expira as noites. Para quem a solidão é apenas o que os dias trazem, ou seja, o momento enorme que intermedeia idas e vindas da cama. É estranho como tão longe e numa paisagem tão diferente esse pensamento acaba por me confortar, que as paredes da minha casa não me limitam, mas são simplesmente a fronteira entre o meu espaço e o o resto, de como encarar-me e só a mim na vida não tem de ser um pesadelo como tantos anos pensei. Pode ser só vento, que vai e vem, que ajuda e empurra, mas nunca se vê exactamente, só o resultado.


Não encontrei a famosa felicidade dinamarquesa, mas sim um pequeno consolo, até, e fotos bem catitas. A viagem de regresso não tem que contar, tirando uma nova passagem por uma cidade onde já fui tanto e reduzido a menos que pouco, mas que se cruza sempre, com a inevitabilidade da rotação da Terra, na minha vida. As viagens que fiz desde então trouxeram-me aqui e o que visito senta-se em mim e está lá para que possa abraçar. É um contente conforto do espírito, quando os dias que se encaminham para a ruína parecem ter conserto de súbito e aqueles que estragados se esbatem são apenas o que ficou ontem. Na minha cabeça, penso na próxima, antecipo e sonho com uma nova escapadela e o maior medo é o regresso. Mas o mais importante desde que comecei a viajar foi ter aprendido a voltar. É uma arte. Implica estar de novo na normalidade sem esquecer que fomos excepcionais durante uns dias, mais do que pensávamos, em locais ainda mais excepcionais do que nós. A convivência com esta realidade só se consegue quando percebemos que os locais não ficaram lá, mas voltam connosco. Ainda na semana passada, e juro que é verdade, visitei Gasadalur num intervalo para almoço. Os olhos fecharam-se e o mar juntou-se à terra numa cascata e tudo o mais do dia sumiu. Estava lá, estarei sempre que quiser e a memória é um chicote em nós, mas também constrói camas, como um carpinteiro atento e atencioso que zela pela nossa sanidade.

Nenhum homem é uma ilha, mas ocasionalmente, quando ninguém espreita, sou um arquipélago. Verde, espesso, silencioso, que parece vácuo, mas é núcleo de estrela. Está lá no Norte e orienta-me quando a vida me faz girar. De vez em quando; mas a vida é isso, muitos de vez em quando em roda de mão dada que só terminam quando a roda se desfaz. Mas até lá, a música toca e tenho de dançar. É melhor do que o pior que sempre pensei.

terça-feira, abril 17, 2018

Ilhas Far Away 17: The shape of water - baseado em factos verídicos


"The shape of water" foi o filme que tomou de assalto os Óscares deste ano. Para os mais desinformados, fala-nos da relação tórrida entre uma mulher e um peixe, que Guillermo del Toro embrulha em papel de fábula para que se torne mais facilmente digestível. Gostei muito do filme quando o vi, mas senti-me imediatamente roubado, sentindo que a ideia foi decalcada de uma experiência que tivera meses antes nas Faroe. Também eu fiz amor com um peixe, tórrido e intenso, lento e musical; ou melhor, o peixe é que fez amor comigo. Mais propriamente com a minha boca. Explicar é difícil, roça o complicado, pois apela a sensações que se vivem e se percepcionam com os limites do corpo.


Este romance começou no nosso penúltimo dia nas Faroe. Discutira-se na noite anterior uma noite na capital, dispensando o planeamento de uma refeição caseira na perda de amor a umas coroas dinamarquesas. Nada contra, as coisas são caras por aqui, mas porque não viver como um nórdico por um dia? O Paulo, que já conhecia as ilhas de outras andanças, lançou para a mesa hipóteses. Havia um restaurante de sushi que era muito bom. Os hipsters da gastronomia saltaram logo a terreiro, ansiosos por poder instagramar para a posteridade um um pedaço de nigirizushi. Eu no entanto, e apesar de já me ter aventurado na cozinha japonesa, herança de dois anos de Japonês na faculdade (para quê? Amigos, não se tem uma vida amorosa árida na adolescência só à conta da personalidade), não sinto que alimento nipónico me encha o estômago; para mais, penso, se estou no norte do mundo, que coma alguma coisa no norte do mundo. E o que se digere por aqui? Carne fumada, por exemplo, filhos da fermentação natural do ar salino destas ilhas. Muitos vegetais. Bebidas caseiras, acima de tudo cerveja; e claro, em arquipélagos há peixe com fartura. A segunda sugestão do Paulo ia nesta sentido. No ano anterior, um restaurante servira-lhe um divinal peixe. Carinho, óbvio, não estamos propriamente Caipira, mas valia a pena. Espaço agradável, junto ao porto, típica casa de pescador adaptada a repositório de manjares. Pareceu-me bem, e logo mais alguns também preferiram a aventura de encontrar o Nemo. Bem, não o Nemo, caramba, coitadinho do peixe-palhaço.


Na noite seguinte, vestimos o nosso melhor fato de treino e demos as caras nesse restaurante. Como se adequa a uma história de romance, tomou o nome de uma mulher: Barbara Fish House. Nada de carne, só pratinhos de criaturas marinhas. Desde o início que nos ficou marcado como uma boa escolha, pois fora difícil arranjar mesa. Fomos obrigados a marcar para as seis e meia da tarde, mas como o nosso almoço me fez lembrar aquilo que comia durante as caminhadas nos escuteiros, o meu estômago importou-se muito pouco e até agradeceu o regresso aos horários de refeições medievais. Para refúgio de comensais nórdicos, esta casa da Bárbara tem telhados estranhamente baixos. Eu, que para os padrões destes calmeirões louros estou ao nível do Fernando Mendes e de três quartos de "Os Trapalhões", roçava com a careca no tecto. O interior é de madeira, claro ainda assim, com as mesas que apertam quem passa. É um espaço pequeno, mas bem organizado e decorado, simples luzes colocadas nos pontos certos. Da porta de entrada, vemos a cozinha, tudo transparente para quem chega. Recebe-nos uma jovem loura, bem gira, e o Gil, um dos que nos acompanha, pisca-me o olho e diz: "Olha, mais uma. Elas seguem-te" e o problema é que elas só me seguem, mas nunca me apanham. Talvez tenha mais sorte com o peixe. Chama-se Agda, sorri sempre e conduz-nos a um andar de baixo, vazio. A mesa está encostada a janelas que dão para os barcos atracados e eu aproveito para me sentar num banco corrido almofadado. Ao meu lado, a Maria e a Manuela trocam impressões sobre o local. O menu chega-nos às mãos. Escolhemos entradas e uma sopa de peixe. Como prato principal, peixe, está claro. Todos optamos por algo que em inglês se chama "Marcelo's ocean perch", mas para nossa desilusão, o presidente de todos nós nunca surgiu para uma selfie.


A comida foi chegando. As entradas saíram num voo do prato para as nossas bocas e quando a sopa chegou, eu especulava o que conseguiriam estes ilhéus com coisinhas do mar. Maravilhas, aparentemente, e eu nem sou de comer sopa de peixe. O melhor, no entanto, estava guardado para a sessão de sexo que uma uma perca de amor me reservava. A atracção foi imediata: mal apareceu sobre a mesa, era óbvio que ia comê-la. A galdéria mal escamada também se pôs a jeito, surgindo aberta a meio, de pé para mim. Aqui em Portugal, os peixes são muitos mais conservadores: deitados na sua travessa, aguardam iniciativa, esperam que os viremos antes que a acção se inicie. Este não, vinha pronto e não me fiz rogado. Devorei pedaço a pedaço, faca e garfo como brinquedos sexuais, cada ida à boca um caminho para o orgasmo. Não fazem ideia dos espasmos que me provocou. Nem cheguei a perceber muito bem como foi preparado. Parecia frito, mas nem um pingo de óleo me tocou nos beiços, mesmo a aparência crocante nem era pão ralado, não sei mesmo. A acompanhar, umas batatas a murro pequenas mas substanciais no deleite, regadas com azeite em gel, salsa e algum alho, um pequeno molho adocicado que se aconchega nas bochechas e serve de lençol para o imbróglio sexual em que eu e o peixe nos envolvemos. É triste dizer isso, mas tive menos prazer noutras aventuras. A sociedade fixa-nos tanto no prazer sexual que nos esquecemos de que os nossos sentidos são, por si mesmos, uma fonte de prazer intenso e explosivo, um arrasador sismo de deleite. Pela boca morre o peixe? Mais pela boca o peixe me matou de exultação. Sobraram as espinhas ao vento da nossa saciedade satisfeita. Mas ainda havia a sobremesa, um quente frio de gelado e chocolate aquecido que deu o golpe de misericórdia na resistência de alguém que toda a vida se armou em esquisito com a comida. Séculos depois de terem terminado as suas viagens, os Vikings haviam conquistado uma das mais difíceis batalhas que pode haver no plano humano: a minha resistência à novidade.

Saí do restaurante não de papo cheio, mas de pulmões bem vazios de arfar. Todos vínhamos contentíssimos. A Teresa, esposa do Gil, comentava que não se lembrava de comer um peixe assim e eu não queria ter memória exacta do que acontecera, apenas aquela impressão de arrepio que só as grandes e fugazes paixões nos criam que um qualquer pormenor proustiano nos faz revivê-las. Depois disto, ainda acampámos numa cervejaria onde encontrámos o gang dos niponófilos. A meio da noite, um jovem faroês aborda-me e implora-me que peça a Cristiano Ronaldo que compre aquela ilha. Está bêbado, dá-me umas palmadinhas nas costas e tira um boné que usa (sim, num interior, à noite) e o nosso permanente herói nacional da bola também é de uma ilha, deve perceber que nos podemos apaixonar por um peixe que isso não é estranho. Na volta, aposto que também gostou do premiado filme de Guillermo del Toro que a minha noite de prazer inspirou.

terça-feira, abril 10, 2018

Ilhas Far Away 16: A morte do artista


Não sei se alguma vez vos apeteceu falecer sentados num barco. Vamos supor, assim naquela, que o barco leva passageiros entre ilhas num dia de chuva e enquanto contemplam esta escolha extrema na vossa vida, a água cai do céu como se o Cosmos tivesse um autoclismo e estivesse decidido a secar o Eufrates. Na continuação desta suposição, imaginem ainda que há um convés encharcado, mortiço, triste, onde o vosso rabinho bem delineado alapa num assento de plástico que, pela humidade, faz com que dancem a conga de cada vez que o mar decide que está na hora de tocar os melhores hits de funk carioca sob a forma de movimento ondulatório. Completem esta imagem com o cinzentão céu que nem o canto das gaivotas revive, um simples manto que se enrosca nos vossos ombros e da profundidade literal do vosso ser, puxa tudo aquilo que vocês julgam não ter. O sentimento de comiseração é quase obrigatório e imediato; a ideia apocalíptica de que se vão fundir com a matéria do barco não só óbvia, como inevitável; e na vossa esfera craniana, como um motard no poço da morte, uma ideia rebatida gira e gira até vos enjoar mais do que o próprio oceano: mas por que raio aceitei esta viagem?

A resposta mais simples é de que sou parvo. É clara e aceitável para quem me conhece. De uma complexidade maior é a hipótese de que ando mal habituado. Passo a explicar melhor. Paulo, nosso líder de expedição, sugerira no dia anterior uma visita fora do programa. Com tempo a mais e motivação extra, porque não dar uma saltada à ilha de Sandoy? Nunca lá pus os pés, disse ele, e gostava, mas só se concordarmos todos. O vosso Bruno, estando ali tão longe, pensa que está por tudo, embora se recorde vagamente de, quando criança, possuir um estômago mais sensível do que um fã de Tokyo Hotel no pico da puberdade. Pois volta e meia acompanhava o meu pai para o emprego e trabalhar nas Lages, perto de Coimbra, implicava uma deslocação com curvas de grau de dificuldade montanha-russa. Chegava do avesso ao batalhão da GNR e a saga repetia-se sempre que a estrada se torcia. Visitas de estudo eram épicas e cedo fui aprendendo truques para me distrair de tudo isto - fechar olhos, aspirar o ar da viagem até cantorilar qualquer coisa para me distrair da agrura. Certas viagens aterrorizavam-me ainda antes de o carro ter começado a rodar. Com o tempo, fui curtindo o enjôo a um ponto onde este, repassado, se foi tornando em algo de tão esporádico que o julguei desaparecido. Portanto, à sugestão de uma viagem de barco, que é só das situações mais sedutoras para um vómito mor, nem sequer me ocorreu pensar, apenas aceitar, nada ia correr mal.

E havia Sandoy. A viagem até lá foi calma e sem grandes sobressaltos. De entre nós, alguns tremeram, sim, mas uma senhora já com a sua idade e experiência, enfrentava tudo como se estivesse a ler o jornal da manhã num café à sua escolha. Fora capitão de navios nos seus tempos de maior juventude e o elemento marítimo era-lhe tão confortável quanto o chão que todos os dias pisamos. Se tivesse poderes crísticos, aposto até que faria paso doble ali mesmo no mar. E perguntam: valeu a pena a viagem? Bem, Sandoy é dos locais mais deprimentes que já estive. Não é que seja feio ou desagradável, sofre apenas uma elevada dose de inconsciência. Não sei sequer se alguma vez se apercebeu de que existe. Existe apenas uma vila, Sandur, e mais tarde apercebemo-nos que tem zero cafés. Zero. É o mesmo número que existe em toda a ilha. Quem ali vive apanha o barco, como em jovem eu apanhava o autocarro, para se vir divertir a Torshavn. Não há nada para fazer, só ir falecendo de quando em vez, a pouco e pouco, sem grande escolha. O nome significa "Ilha de Areia" e enquanto lá estou, sinto um pouco como se o meu espírito se afundasse nelas movediças, de uma maneira lenta e armadilhada. E o que mais me surpreende é que há gente a viver aqui desde o século XI. Que parvoeira. Houve malta que se meteu em embarcações de casca de noz propositadamente para chegar aqui e dizer "Olha, parece-me bem fixe, acho que fico por aqui". Há terrenos férteis, é certo, mas ainda assim só consigo entender que algo seja aqui cultivado apenas por desprezo.

Talvez a bílis não seja merecida, mas vamos regressar ao início deste relambório. Este vosso caríssimo instalado em pleno trono do Hades. A coisa descreve-se rapidamente: mal a viagem de regresso começou, estava eu na cabine de passageiros a tentar simplesmente colocar-me numa certa ambiência de abstracção total, quando a conhecida sensação de centrifugação abdominal meteu a sua cabecinha de fora... E depois o resto do corpo, pés e tudo. A animação da viagem, afinal, estava guardada para o meu estômago. Cerrei as pálpebras, mas só consegui ver rios de vómitos na minha cabeça e perante isso, cantei para mim vários êxitos de Dino Meira, mas mentira mentira, é gregório que se atira. Recorri ao último recurso, quiçá também por alguma vergonha. No exterior, instalei-me de peito ao vento, literal e aspirei golfadas cada vez maior do ar marítimo. Era capaz de jurar que nesse dia alguém ligou uma máquina de lavar roupa no fundo do oceano e cada onda era causada pelo próprio Hulk a pedir boleia. Não sei se o barco abanava ou se era eu e a certa altura confundi a minha má disposição com a de outras pessoas, como se mentalmente todos os indispostos da viagem, numa manobra de baixa estirpe, tivessem depositado em mim os seus acessos. Era como se todo o mundo estivesse numa viagem de foguetão e eu fosse o foguetão. Foi mais ou menos um bocadinho depois do meio da travessia que me passou pela cabeça que o melhor mesmo seria acabar com a coisa ali. Pensei em cabecear um extintor, mas não me pareceu definitivo o suficiente; vi cordas, mas o mais certo era ficar ainda mais agoniado por ver uma coisa que faz tanta curva defronte de mim; lembrei-me que trazia comigo uma lata de atum, mas era de muito mau tom manchar o navio com o meu sangue. Ainda por cima, de tão ácido que sou, corria o risco de tudo corroer e levar comigo mais umas dezenas de passageiros. Por isso, mesmo que me tenha recusado a engolir em seco, fixei-me e agarrei-me ao mastro. A decisão de me aguentar à bronca era a única que sobrava para manter algum orgulho.

Senti então outra mão na minha. Segurando com força, como que me fixou entre o mastro e eu mesmo. "É normal, mas já passa... Vai correr bem e com os pés no solo, sentes-te outro. Já vi homens que faziam dois de ti a viver isso e com vergonha." E reconheci a voz, era da capitã que, sentindo problemas na embarcação, veio meter mãos ao leme do meu desespero para me guiar a bom porto. O silêncio tomou conta de tudo e nem ouvi nada mais que não fosse o mar e o mundo. Com ritmo certo, a minha respiração tomou conta do corpo e o tempo passou numa corrida de proa. Quando o barco atracou, ainda revolvido por dentro, consegui pelo meu próprio pé voltar ao meu meio natural, o chão que está bem paradinho e não magoa ninguém. Vitória da Marinha Portuguesa.  Mais tarde, vim a saber que está nos planos da Dinamarca abrir um túnel até Sandoy, passando por baixo do oceano que me transformou num Matutazo. Só estará pronto em 2021. Filhos da puta.

quarta-feira, março 21, 2018

Ilhas Far Away 15: Gasadalur


Quem me conhece há menos de 5 anos, tem de mim uma ideia meio enviesada e que não será partilhada por aqueles que têm o infortúnio de não se terem acautelado de mim enquanto cresceram. Se estas pessoas se encontrarem à mesa de um café ou no parque ou até num jantar (esta última teria de reunir condições muitos especiais e normalmente só acontece ou quando faço anos ou quando o restaurante é tão bom que toda a gente o conhece), trocando impressões e ideias sobre a experiência quase surreal que é conviver comigo, retratos conflituosos surgirão e alguém será, estou certo, chamado de mentiroso. Há vários aspectos dissonantes e poderia escrever um longuíssimo post acerca deste fantasy brunning, mas o que importa para esta crónica é a ideia que pode haver acerca do meu cosmopolitismo. Os neófitos assegurarão que sou um gajo extremamente viajado e curioso pelo mundo, que ano sim ano sim até me meto em aviões e aterro em locais esquisitos e depois trago fotos para toda a gente me perguntar onde é que é, mas ninguém quer ir na verdade porque são estranhos e longínquos. Ora, se embarco nestes aventuras, por certo serei um corajoso e expedito moço; no entanto, quem acumula mais tempo de serviço na Bruniversidade, desconhece este indivíduo e sempre me associará a 300 medos que me impediram de alargar os meus horizontes e vida na precisa altura onde tal é mais do que necessário. Para eles, imaginar-me no Quirguistão é tão fantasioso quanto pensar que Hogwarts é real, e talvez fossem esses que mais estariam boquiabertos se me vissem em Gasadalur, observando um cenário que deve ser único em todo o mundo.



É único, mas fácil de explicar: há um rochedo absolutamente descomunal, umbicalmente colado a outro rochedo que constitui afinal toda a ilha de Vagar e numa das bordas desse rochedo, talvez aquele que está mais a jeito, um ribeiro furioso decide levar a sua velocidade ao ponto da rebeldia e sem deter a sua marcha fluida, acelera num salto angular para se estatelar no oceano cinzento que lá em baixo clama pelo seu contacto. Gasadalur é apenas e só o palco de um namoro violento entre a água doce e a água salgada, num instante geológico rápido e que se repete de segundo a segundo. Os nossos olhos pensam que tudo é constante mas não: cada salto é seu e separado. A Natureza decidiu saltar em auxílio desta aldeia perdida, e reparem que vos tenho falado de lugares absolutamente entalados nos confins do demónio neste roteiro faroês. Se digo que está perdido, não falo de ânimo leve. Gasadalur deve corresponder à madeirense Curral das Freiras, uma povoação isolada de tudo o que é habitado pelas condições naturais e que se tornou sinónimo de desterro. Um papão habitacional. Rodeada por algumas das montanhas mais altas das Faroé (que ainda assim, relembro, nunca ultrapassam os 800 metros), aterrou num planalto sobre o mar e num arquipélago onde a Pesca é a principal actividade, viu assim condicionada a sua relação com o elemento marítimo. Os pescadores precisavam de trilhar quase quatro quilómetros até à aldeia próxima de Bour, atravessado um dos montes por um trilho que ainda hoje existe e que até 2004 foi a única maneira de sair daqui por via terrestre. 2004. Isto significa que enquanto em Portugal se construíam estádios simbolizando na perfeição a nossa relação com o pragmatismo do mundo real, algures, num ponto que pertencia à civilizada Dinamarca, uma povoação não tinha sequer estradas para automóveis ou veículos motorizados. Tal explica que em 2002, o registo tenha dado apenas 18 pessoas habitando em Gasadalur. Dois anos depois, por fim, algum Alberto João faroês rebentou com um túnel através da rocha e trouxe o alcatrão até este ponto. A ideia é que a população vá crescendo lentamente.


Tal não tem acontecido, mas ainda bem: é da maneira que ninguém estraga o que é bom. Gasadalur até é amigo de quem quer trabalhar: o verde fértil da terra convida ao cultivo, o abrigo natural protege as casas de alguns problemas naturais e deve ser de jóia pode assistir todos os dias ao espectáculo que vos descrevi no parágrafo anterior. Chamam-lhe Mulafossur e é, perdoem-me o vernáculo, uma paisagem filha da puta. No dia em que a visito, temos algum azar com o tempo. Chuva irritante insiste em convencer-nos a recuar, mas à saída dos veículos, quando paramos, as nuvens baixas fazem a barba ao monte imediatamente atrás da aldeia. É de fazer com que as patelas se chamem rótulas novamente à força do uso. Um pequeno trilho conduz a um ponto de observação perfeito e quando espreito no fim desse lamacento caminho, umas escadas de absoluta verticalidade conduzem ao mar lá em baixo. Soube mais tarde que foram construídas por ingleses na 2ª Guerra Mundial e inspiram tanta confiança como uma declaração de Francisco J. Marques numa rede social. Por momentos, aqueles em que esqueço que tenho família e até uma ou outra pessoa que se vai preocupando com o meu bem-estar físico, a ideia de descê-las assalta-me ao ponto de me roubar a carteira de mansinho. No entanto, perante a humidade do solo e o ângulo recto dos degraus, decido que se calhar é melhor ficar-me por aqui. Preparo a máquina e aproveitando tripés alheios, vou tirando fotografias como deve ser. É um deleite de vista, a sério, daquelas que renovam células de pessimismo mesmo que temporariamente. Há luxo que nada tem a ver com o conforto e quanto mais molhada sinto a roupa, mais feliz estou - sinal de que o tempo me pertence e posso gastá-lo a observar aquilo que aqui está desde o início de tudo. Não é cosmopolita nem corajoso: é apenas uma questão de lógica, de ver número digitais numa conta de banco e transformá-lo em palavras virtuais que tentam apanhar algo bem tangível e real.

Conta uma lenda que o nome da aldeia veio de uma mulher chamada Gaesa, que infringiu um jejum religioso e foi assim expulsa do local onde vivia. O desespero levou-a até este vale e aqui recomeçou a vida. Confesso que acho estranho que alguém tenha sido castigado e expulso para o paraíso, mas os mitos têm sempre algo de rocambolesco. Identifico-me com Gaesa. Também eu peco, menos do que devia, menos do que mereço, mas com a plena noção que posso vir a ser expulso do que me é pertença. Gasadalur é esse paradoxo de fazer o indevido e receber de vida muito mais do que pensamos. É um pouco como ir ao fundo e voltar à tona levado em braços pela Beleza. Chove e o cinzento do céu puxa-nos, mas na imagem da máquina, fixo a cascata em trezentos momentos diferentes mas colados num só. Sorrio, e isso é claro como a água.

sexta-feira, março 09, 2018

Os segredos que a Lousã "em serra" guardados


Gosto tanto da serra da Lousã que dou por mim em comichão sempre que vejo uma foto com aqueles baloiços e reclames em madeira que agora espalharam por aí porque ela é muito mais que aquilo. Mesmo não sendo lousanense ou de nunca ter morado colado a este mastronço alto de mil e duzentos metros, é-me essencial e faz parte de mim, do meu crescimento, do que me fiz.
Sei que para muitos, a maior parte, uma serra são pedras e árvores, estradas meio conservadas que a atravessam, alcatrão ou terra, bichos ocasionais, pausa de fim de semana, sombras e nevoeiro, qualquer coisa que inspira aquela foto bacana ou a tirada armada à poesia. Para mim, é lembrança e memória. O escutismo fez parte de mim durante vinte anos e mais de metade deles, tradição do meu agrupamento – 309 Ceira – subi a serra da Lousã a pé por todos os lados possíveis: a partir de Miranda, vindo pela Senhora da Piedade de Tábuas; dos lados do Coentral, seja pela estrada que já foi de alcatrão e hoje é de buracos, ou até por um caminho de terra que passa por um dos segredos mais bem guardados desta montanha, um motel abandonado; seja pela própria Lousã, quer corta-fogo acima e fogo à peça, quer pela Levada de Água apanhando depois via hoje aberta para o Candal (no meu tempo, bem mais fechada); ou pelo Terreiro as Bruxas; ou a clássica Rota do Talasnal.
As minhas pernas cansaram-se em todas elas. Vi veados e javalis, vi até humanos ainda morando nas Casas de Guardas Florestais, dormi nalgumas, acampei junto de outras. A neve envolveu-me, o sol queimou-me, a chuva deu-me vontade de desistir, mas a visão daquelas antenas lá em cima, o Trevim como objectivo, empurrava-me. Vinte anos é muito tempo para conhecer toda esta imensidão de pedra, que percorre seis concelhos entre os distritos de Coimbra e Leiria e parece ter tantas serras diferentes em si: quartzo e xisto, um pouco de calcário, castanheiros e cedros, carvalhos na mistura, Penedos de Góis e o Castelo de Arouce, a Pedra Ferida e as aldeias de xisto, a ribeira do Coentral e a água gelada da Senhora da Piedade, o Cabril do Ceira e o Observatório Astronómico, a Rota dos Moinhos de Água e a Rota dos Baldios… Até tenho de parar para me recuperar de todas estas visões na minha cabeça, do tempo geológico da serra que é tanto e do meu biológico tão curto em comparação. Sempre que aqui venho, aumento a minha vida em anos, sei-o.
Por que é que esta é a minha montanha preferida de todas em Portugal? Ainda que não seja tão alta como a Estrela. Ainda que, reconheça-se, o Gerês é mais largo e vasto e fica melhor em anúncios publicitários. Esta serra é para mim uma passadeira onde desfila uma parte do que fui sendo, e chega-me. É também o local onde regresso em primeiro quando passo muito tempo longe de onde cresci. Não é casa, mas é como se fosse. É colo, é afago, é abraço; e já me faz voar bem alto sem precisar de qualquer baloiço. Tão simples, assim.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Ilhas Far Away 14: Mar em terra


Quando andava na Primária, habituei-me a uma certa confusão em torno do meu nome. Chamo-me Bruno, de segundo nome Ricardo e entre colegas da escola, ou me tratavam por um ou por outro. Respondia a ambos, claro, mas para aumentar a confusão, tinha um vizinho que se trocava sempre e olhando para mim quando passava na rua, saudava-me "Olá, Nuno!" antes de seguir a sua vida. Três nomes designando a mesma pessoa, e nem sequer sofria de múltipla personalidade. Sempre fui eu, acho, pelo menos sempre me senti eu sem qualquer confusão. Nomes são palavras que designam: no momento em que saem da nossa boca, tornam-se algo concreto que não precisamos descrever. É por isso que um pequeno músculo pode ter o extenso cartaz fonético esternocleidomastoideo, e que toda a imensidão que nos rodeia se decreve apenas com duas letras: ar. Um nome é algo de bem definido, preciso e por isso muitas vezes se guerreia à conta do que chamamos ao que enche o nosso mundo. Ainda que pertencente à mitológica zona da civilização que se almeja (esse engodo que se chama Escandinávia), talmbém estes aspectos não são pormenores. Interessam muito. Na Ilha de Vagar, então, existe uma maravilha natural que fascina os olhos, mas confunde a mente pois ninguém se entende acerca do seu nome.


A Oeste, chamam-lhe Sorvagsvatn; a Este, Leitisvatn. Ambos se referem à proximidade de aldeias, conforme o ponto cardeal que tomamos como referência, mas aos meus ouvidos soa tudo igual; e em vez de ouvir, o que importa é ver. No geral, os faroeses percebem isso e quando se lhe referem, usam simplesmente a palavra "Vatnio", que tem o significado singelo de "o lago". São práticos e percebem que é bem melhor calçar umas sapatilhas e dar uma voltinha nas suas margens do que perder a voz e a sanidade em torno de palavras. Num espaço de 3 quilómetros quadrados e meio, a massa de água deita-se sem qualquer intenção de acordar. As águas mal mexem, ainda que sopre um vento apreciável e conseguimos ver os seus limites. Um termina  numa aldeia; o outro desaparece subitamente e funde-se com a linha do horizonte. O motivo simples: devido a uma ilusão de óptica incrível, dá mesmo a ideia que uma das margens do lago tem como parente o oceano. Parece elevar-se centenas de metros e cresce em nós a curiosidade de saber que se saltarmos com força o suficiente, este prato de água treme, inclinando-se para derrubar o seu conteúdo sobre o mar. É o que nos leva a fazer uma curta caminhada que na ida e volta não ultrapassa os oito quilómetros, feito por trilho bem definido e de gravilha, com terra lamacenta pelo meio. Não chove enquanto o fazemos, mas estou certo que aconteceu anteriormente na manhã. A lama está fresca, é recente. Começando em Midvagur, contornamos as ondas das margens com nuvens baixas e um verde luzidio. O silêncio é intenso e nem mesmo as várias ovelhas com que nos cruzamos o quebram. Pastam sem manifestar-se, olhando-nos com uma indiferença quase tão impassível quanto a do lago. 



No final do trilho, a terra desce subitamente para o mar. À minha frente, ergue-se uma falésia descomunal, tão nórdica que dói, chamada "Pedra do Escravo". É um ângulo agudo de pedra negra com cabeleira verde que impõe respeito. Ali, ao lado, sou quase nada, uma insignificância. Já estive junto a montanhas bem maiores, mas a sua rudeza e brutidade, a falta de educação de quem se sabe forte e de presença simplesmente incontornável, fixa-me os pés no solo. Escuta-se um barulho seco de mar contra a rocha. Não é imponente, não são trovões: é o quotidiano banal da água que se castiga a si mesma. È negra, reflecte o céu e talvez seja uma profundeza virada ao contrário. O terreno inclina e convida a subir, mas tenho o foco no topo daquele arrogante mastodonte geológico à minha frente. A caminhada não é longa, mas exige esforço súbito pela inclinação do terreno. No topo, posso então ver a cascata que tomba sobre o mar, a Bosdalafossur, e tenho uma surpresa. A altura, afinal, é curta. O lago chega ali e simplesmente descai numa cascata curta. A terra e o mar estão muito mais próximos do que pensava, quase nem há balanço para que a água se lance. É um dos mergulhos mais curtos que já vi, e olhem que já presenciei muitas bombas em piscinas e rios! Ouço então um zumbido mecânico que me distrai e quando olho para trás de mim, vejo um casal que se entretém com um drone. Duas colegas de viagem conversam na outra ponta da falésia e reparo que o rapaz que controla o drone as ouve atentamente. C'os diabos, ele percebe-as. É português!


Precipitação: afinal é brasileiro. Chama-se Kléber (claro que é brasileiro e se chama Kléber) e mora em Miami. A mulher a seu lado é a esposa e estão a percorrer a Europa. As Faroé são a última paragem. E Portugal? Nunca lá esteve. Pensa um pouco e afinal, deve ser o único país europeu que nunca visitou. Colonialismo ressentido ou vingança por nos termos apropriado de Ediberto Lima? A discussão permanece. O almoço morde-me e sentando-me no chão de erva, tomo como companhia a minha fiel lata de atum, que vou tragando enquanto olho as vagas lá em baixo, negras de espuma pálida. O vento sopra, mas meigo e sinto-me confortável, integrado, sinto o mundo também, mas apenas num murmúrio baixo  Venho de um país de longa linha de costa, com anzóis espalhados, anzóis que são também cabos e falésias, mas aqui sente-se tudo de maneira diferente: Os Portugueses são um povo de marinheiros, mas os Faroeses são gente que funde terra e mar. Uma espetada mista, vá, mas mais loura e menos queimada. A falésia onde me sento é um daqueles pontos raros onde um meio encontra o outro sem nunca se tornarem completos. Daqui a uns minutos, quando o grupo se tiver ido embora, descerei até ao limite. Estou em pé na linha do horizonte e o que aqui encontro é mais horizonte ainda. As pedras fazem-me balançar os pés no deslize e tomo todas as precauções para não depositar o meu corpo no breu marinho. Não sei que nome tem este lago, o que calha bem porque não consigo perceber onde começar e onde acaba, o que faz parte dele e o que é do mundo, e ali num local indefinido, eu próprio há tanto tempo procurando saber quem sou afinal, ajo como se fosse vapor: invisível, malhadiço. Um suspiro numa cascata que mal existe, o ponto final numa frase que duas aldeias escrevem de maneira diferente