segunda-feira, maio 29, 2017

Acção


Já me debrucei nestes meus relatos alentejanos acerca do que é, para mim, ser professor. Não sou bom, mas também não sou mau e dificilmente inspirarei uma turma de garotos a fazer o impossível.Tento encaminhar alguns para chegarem às notas que correspondem ao seu potencial - através, habitualmente, de tiradas de absoluta ameaça - e se conseguir fazê-lo, já me dou por contente. Agora, uma coisa que passa por mim e nunca abdicarei é a de tentar abrir a mente dos meus alunos a outras realidades que, na sua vida normal, nunca lhes passariam pelos olhos; e neste terceiro período decidi ser literal e apresentar-lhes, nas minhas aulas de Direcção de Turma, um pequeno e muito rápido curso de estética cinematográfica: uma Introdução à 7º Arte, se quiserem. Em oito semanas, e nada mais, o meu 7º A, composto por alunos bem diversos e quase todos habituados a vida de campo e da terra, sentar-se-ia para me ouvir falar de Cinema. Ou seja, um serão que alguns amigos meus descreveriam como o inferno na Terra.

É consabido que eu e a Imagem temos uma relação profunda. Não tanto como a escrita, da qual dependo para funcionar e viver e organizar-me, mas ainda assim, dedico-me ao ecrã e ao movimentos das cores e dos sons numa narrativa como alguém que precisa de perceber o mundo através do que é indirecto. A Música esmaga-me e arrebata-me, mas é através da Visão, mais do que qualquer outro sentido, que consigo atingir uma certa plenitude do Ser que só se pode encontrar por quem ama algo mais do que a si mesmo; e se amei algumas pessoas a um ponto da ulterioridade e da elevação da minha matéria acima de qualquer espírito ou alma penada, e na combinação da forma e da paleta cromática que sinto, por fim, estar na alma do mundo. O Cinema mexe demasiado comigo e tudo o que mexe comigo está condenado aos outros, em dissertações exclamativas acerca do quão bom e e importante é no grande esquema das coisas: filmes, séries, locais, luminárias, até mesmo as mulheres que amo, tão poucas - são pretextos para me explodir em entusiasmo e afirmar verdades aparentemente imutáveis que mudam, claro, segundos depois de o meu assomo exultante. Se adoro algo com fervor e vapor, anuncio-o ao mundo, espalho entre conhecidos e posso dar por mim, assim de repente, a ver a colecção de fãs de Ludovico Einaudi crescer nas minhas amizades próximas, só para dar um exemplo prático. Claro que passo por arrogante e alucinado, mas sempre passei por isso, em parte porque sou demasiado apanhado pelo calor da conversa e da discussão, pelo prazer de divulgar e espalhar palavra. Porque sou eu e não sei ser de outra maneira.

Fazer compreender este entusiasmos a garotada de 12 e 13 anos que cresceu a sua vida acreditando que Vin Diesel é o Marlon Brando da nossa geração não é complicado; o pior é explicar-lhes porque é que há coisas boas e coisas más, quando vamos crescendo com a ideia da subjectividade total. Nada é bom ou mau: nós gostamos e pronto; e é assim que o mundo se vai afundando numa certa depreciação estética que urge combater. Há Bom e há Mau. Não necessariamente pelo nosso gosto, mas pelo trabalho que encerram, pelas escolhas do autor, pela qualidade e importância da obra. Quis fazer perceber-lhes isso. Falei de edição e direcção de fotografia; a boa e a má realização; as diferentes formas de interpretar (e bem) uma mesma emoção; a importância de ritmo e banda sonora na definição de uma cena; a maneira como o casamento entre imagens e som pode mexer com os nossos sentidos e percepção. Este trabalho com miúdos pode ser incrivelmente frustrante, mas se formos entusiásticos o suficiente, e eu quero acreditar que sou até com História (quanto mais Cinema), explícitos e escolhermos as obras adequadas, nunca esquecendo que eles pertencem a uma geração que mal conhece os nossos clássicos dos anos 90, as recompensas podem ser múltiplas. Ter uma turma presa ao duelo a três final de "The good, the bad and the ugly" fez-me sentir como uma vitória; explicar-lhes o jogo de olhos de Michael Corleone antes de matar o capitão de Polícia em "the godfather" e sentir que pelo menos alguns perceberam a diferença dessa genialidade e de muito over-acting que vêm em filmes também; querer sair da aula e um aluno pergunta-te acerca do filme cujo trailer mostraste - "The fall" - sabe mesmo bem, assim como ter uma turma em pulgasd para assistir a uma cena de uma obra rodada no só take. Fi-lo perceber lentamente que Kubrick e Scorsese são génios absolutos, ao ponto de me perguntarem se podíamos ver "The shining" na aula ou mostrarem curiosidade por "Goodfellas" e fazê-los partilhar a minha paixão por outros realizadores como David Fincher ou Guillermo del Toro ou mesmo Hitchcock é uma benesse que guardo na solidão de Colos.

Nas últimas aulas do período, o desafio está a ser o visionamento de um filme a preto e branco: "Casablanca". Viram a primeira meia hora: Rick Baine já entrou em cena dominando, Ilsa acabou de chegar ao seu café e a intriga dos vistos está completamente em marcha. Ninguém adormeceu ainda, só um mânfio (que tem a mania de que é moderno) reclamou por vermos uma obra sem cores vivas e até agora não tem corrido mal. Já me perguntaram se no final lhes posso dar uma lista das fitas cujos excertos passei na aula. Talvez sim, talvez não: neste tipo de coisas, sei que há certas regras de conduta, mas o professor é que tem o director's cut.

2 comentários:

António Gil disse...

Fantástico trabalho Bruno. É um prazer ver que ainda há pessoas que se interessam por ir um bocadinho além do esperado.

luminary disse...

António, simplesmente um pretexto para falar de Cinema durante 45 anos :D