terça-feira, julho 14, 2015
Pai II
Não sei se um ano cabe numa frase, ou sequer em várias num ocaso. Passou, e apercebo-me que não consigo capturar com palavras aquilo que foge delas, e que custa a articular, nem que seja para puxar o outro de locais onde só ele mesmo se pode arrancar. às vezes, ajuda a mão no ombro, o abraço fugidio, mas sentido, e até uma meia dúzia de palavras atabalhoadas, com a muleta dos clichés. No entanto, e no fim fim que gera este princípio da certeza de que nada voltará a ser como dantes, estamos apenas connosco, e assim vivemos. É das primeiras coisas que se aprende quando perdemos alguém sem retorno, e descobri isso dois dias depois de o meu pai ter morrido, quando articulei um texto em que tentei expressar o que não conseguia ter expressão. Várias pessoas chegaram a mim: comoveram-se, reviram-se, choraram, e naquela altura percebi que por muitos que todos passássemos pelo mesmo, eu estava ali, entregue a mim, e chegando aos outros, mas parado no meu próprio luto. Torna-se cada vez mais suportável, mas nunca passa totalmente, a não ser que fujamos do mundo, e essa é uma viagem que não quero fazer, mesmo que esse mundo seja dor a cada golfada de ar. Sentir é o contrário da morte, e se não o fizesse, seria ainda menos o homem que era o meu pai.
Perdi muito neste ano que passou. Perdi uma pessoa que conheço desde que me soube eu, e perdi-a na roleta das células. Com ele, perdi o pouco de esperança que tinha no sentido do mundo, aquele faz de conta que nos anima os olhos quando ainda não descobrimos que não há grande sentido, nem qualquer tipo de organização. A poesia existe, mas na caneta do acaso, e nunca se escreve a tinta permanente. Percebe-se que em tudo o que se quer ganhar com os outros, aposta-se o que se vai perder, e quando mais se aposta mais se perde, e quando se joga, é preciso saber se estamos dispostos a perder-nos para nos ganhar. Quando via o meu pai a definhar aos poucos, a deixar de ser Vitinho para se tornar só num -inho, pensava nisso, de como, se é para ir assim, se é para explodir num estertor silencioso, numa jaula chamada corpo onde o cativeiro nunca chega aos olhos que estão de atalaia para dizer aos outros que se vive, sim, mas vive-se mal, e que nós ali somos ao mesmo tempo a vergonha da morte, e o consolo do tempo que se arrepia de frio quando a carne arrefece, se é para ir assim, mais vale a pena torcer a pele e arrepiar tudo o que nos pode arrasar, de colocar o pé na porta do metro que se fecha para reabri-la e entrar na viagem, mesmo que o túnel seja escuro, se é isso que nos deixa mais próximos do resto. Um ano depois, perdi muita coisa, no meio dessa perda maior que uma pedra e um monte de conchas guardam; mas ganhei algo que foi um casulo de arroz doce quente. Não foi ele que mo deu, mas a dor de alguém só serve quando aduba e fertiliza árvores nos outros, e nesse sentido, um ano depois, o meu pai conseguiu criar em mim um pequenino pomar apenas e só por ter sido, uma vez na vida, fraco perante um brutal verdugo contra o qual ninguém é forte o suficiente.
Sempre que visito o meu pai, pergunto-me perguntando-lhe: sou digno de carregar o teu nome? O teu espírito, aquilo que vêem em ti? Sou digno de seguir as tuas passadas e fazer uma vida? Sou digno de poder transmitir um dia a quem me vale mais do que eu a tua memória, o teu nome, a tua figura, a única coisa que afinal conhecerão de ti? Sou digno de estar aqui no que é teu, de proteger e guardar os teus, de ser eu, de me olharem como alguém que merece ser, pelo menos, respeitado, de alguém através do qual te poderão ver, mesmo nas tuas imperfeições maiores e pequeno coração de actos gigantes? Nunca obtive resposta, e a culpa não é tua, mas sempre minha. Um ano passou, mas eu não cheguei a lado algum, transito nem sei bem de onde para onde, nem de que maneira. Estar em frente a esse rectângulo onde agora te tratam como hóspede perpétuo é um pouco como trocar de estação no metro, procurando nova linha e nova cor para o rumo que se quer. Passou um ano e não sei para onde vou. Mas por dentro, descubro que continuo a pensar-te, de quando em vez, e a desejar que me aprovasses, e que me visses como um homem que na sua estranheza, apenas queria que lhe desses o mundo em meia dúzia de palavras e um sorriso retorcido. Que não há semana em que não gostasse de chegar a casa de cabeça erguida por estar num emprego onde constrói algo com os dons esquisitos que nunca lhe suprimiste. Gostava que pudesses ver esse homem que é uma criança ainda, por ser teu filho.
Passou um ano, e uma vida consegue lá caber dentro. Várias até, e sobra espaço para aquelas que podias ter vivido. Imagino-as, escrevo-as e nessas nunca morreste sequer. Apenas continuaste por aqui, e ser imortal é isso, mesmo que toque a finados e alguém chore quando o tempo passa. Estás, bem presente, e há quem viva sem sentir isso uma única vez.
segunda-feira, julho 06, 2015
Tens piada privada
Posso existir em muitos lados, mas vivo em poucos, rarefeitos, esparsos. Todos somos em corpo no mundo, abanando e tremendo no gozo e sacrifício do que é. Mas viver mesmo, ser mais do que os contornos da carne e explodir faíscante na vida, isso já acontece pouco, em em esporádicos lugares. Aqui, a escrever, existo de sobremaneira e naqueles momentos em que as palavras desenham a fina linha com que quero traçar o que penso, talvez me aproxime de viver. No entanto, a plenitude do mundo está no espaço entre os nossos olhos, horizontal ou vertical, seja quando nos deitamos em paralelo da nossa respiração, e no como torres que se defendem de uma guerra invisível, ou quando numa perpendicular entre o meu tronco sentado e o teu deitado, tomamos a amnésia do mundo com voracidade, e entregamo-nos a nós, aos segredos que podem acontecer entre um par que dança no mundo sem mexer os pés, e faz de todos os seus sons e cheiros papel de parede, só na atenção dos pormenores que são as pupilas e que se tornam, assim sem querermos, a respiração numa oração permanente, numa dádiva para ser gozada porque a cada viagem de ida e volta do ar, posso mirar-te e até mesmo tomar os teus cabelos como um lençol de seda nos meus dedos adormecidos, calmos, porque descansam num leito regalado de comedimento, de simplesmente ceder-me um pouco do que pode ser, do que não se tem, e afinal até se possui. O mundo que existe quando te olho, e tu tens o amável reflexo de me devolver o olhar, e de segurar a minha mão não agarrando, mas com mais cinco dedos invisíveis que me prendem em liberdade.
Viver quando nos encontramos é imediato: sem demoras, sem tempo, só com as medidas de lábios e pontas da língua a pedir meças um ao outro. És-me auto-suficiente.
terça-feira, junho 30, 2015
Luz vasta
Não lhe custou desembaraçar-se do saco-cama. Não lhe custou vestir-se de rajadas, e até por dentro as tempestades amainavam. Não lhe custou ver outros deitados ainda enquanto o céu já se em guaches espirrados talvez de um canto escondido das montanhas que se alinham como um exército cuja única função é proteger a sanidade daqueles que, acossados pelas bestas do quotidiano, percebem que só o topo de tudo é solução e escapatória. Não lhe custou perceber que a hora ainda não se apresentara em conformidade, e que a excitação não tem etiqueta e pode até surgir em gestos simples, como andar descalço no granito, esquecer sapatilhas e não pular, até mesmo contar o que não se vê no horizonte e imaginar se não haverá mesmo uma grande máquina de engrenagens oleadas que esconde os espectáculos. Não lhe custou a pedra fira, nem o blusão dois tamanhos abaixo, nem o conforto e certeza de estar vivo do frio, nem lhe custou companhia de estranhos, nem o mundo a dois terços ou mais, nem sequer o silêncio turbulento de surpresa, nem lhe custou faltar a mão dela agarrada à sua, dois sorrisos que compreendem o universo, um outro tipo de mundo fora deste, um planeta lá longe com pés fincados neste, e nem lhe custou perceber que o topo do rochedo estavam bem fora de ambos os mundos.
O que restou foi o Sol. Pinchou como se projectado por uma mão invisível, no regresso em que após todas as rotações abençoa tudo o que se vê, e até o que se desconhece. A diferença foi que desta vez lhe persignara a cara de luz, e tudo o que não lhe custava e custava deixaram de importar. Apenas aquela imagem de que tudo era possível, até mesmo o desaparecimento das trevas, só porque uma grande bola de pedra faz o favor de girar sobre si mesma, e tudo muda, tudo é diferente, todos se sentem mágicos e especiais. Apenas e só; e teve ali a certeza de que o apenas e só é a vida mesmo, sem as distracções das grandes coisas. Apenas e só. Tal como apenas e só, e quanto tempo decorrera desde a última vez, o sorriso apareceu de guerrilha na sua boca, por segundos, aparição mitológica e certeza folcórica. Um ponto pequeno, uma grande vitória. A Terra não parou, o Sol não se apagou, mas lá dentro de si, o Universo expandira.
quarta-feira, junho 24, 2015
Presente envenenado
Sou especialista em proclamar votos que nunca cumprirei. É isso que me torna num dos mais paradoxais críticos do político português. Quem me segue deve lembrar-se, ou então nem isso que não foi nada de assim tão importante, que há uns meses prometi a mim próprio, e aos próprios que a mim me lêem, que escreveria um livro no prazo de dois anos. Depois de algum tempo a marinar todo aquele caldinho de troviscal interior que gera os dramas que nos predispõem a carpir perante um vasto auditório de egocentrismo, gostava de anunciar que o processo começou e que por ora, a promessa será cumprida. A história está urdida, começa o processo de escrita. Gostava assim de partilhar convosco um pequeno excerto do que já está produzido. Mesmo que não comentem, mesmo que as vossas palavras não me cheguem, saber-vos aí foi uma das cordas que me levou a tratar a escrita como um amigo pessoal, um motivo para viver e uma maneira de me aperfeiçoar, desse por onde desse. Todos os dias em que escrevo são de desilusão pela imperfeição das imagens, o aquém das frases; mas são também um momento onde comungo do vosso apoio, do vosso gosto, do vosso entusiasmo. Considerem isto uma tentativa ténue de agradecer.
Lembrou-se de
uma história que o pai lhe contara havia anos, era ele uma criança de olhos
abertos, com uma lista de perguntas do tamanho do fémur de um mamute na ponta
da língua. Não lhe era difícil recordá-la, pois fora um evento único este, não
porque o pai fosse avesso a contar histórias, pois era alguém de quem as tretas
brotavam da boca como o suor assoma à pele, mas sim porque fora uma das poucas
que lhe contara, e afinal é difícil trocar palavras com o filho quando de
repente se some e este, com oito anos e agora de olhos bem fechados, com forte
possibilidade de aguaceiros, lança ciclones de dúvidas a uma mãe presa para sempre numa frente fria. De
qualquer forma, e onde ia, ia na história, era sobre Mitologia Grega, algo que
Paulo aprendeu a adorar, e depois desaprendeu de todo: a mitologia organiza a
vida numa estrutura bela e clara e linear, e Paulo chegara aos 30 anos com uma
certeza assinada por baixo a sangue de que a caminhada respiratória do ponto A
do paro ao ponto B do cadáver era tudo menos isso. O Pai contou-lhe que Cronos,
deus do Tempo, era um filho da mãe paranóico, mesmo sendo o mais poderoso dos
Titãs, cheio de força e poder. Mas Urano e Gaia, deuses do Céu e da Terra,
revelaram-lhe que estava destinado a ser substituído pelos seus filhos. Cronos
decidiu então enveredar pelo negócio do homicídio canibalista. De cada vez que
sua mulher Rhea dava à luz um filho, Cronos devorava-o sem se deter: o tipo de
divindade clássica a quem o clássico Hannibal Lecter dedicaria um altar feito
de dedos. Todavia, Rhea fartou-se, e ao sexto filho, sabendo do apetite e
loucura do marido, embrulhou uma pedra num cobertor e enganou-o, tendo o titã
engolido a rochosa oferenda, e daí talvez fosse forte mas pouco inteligente,
porque qual paladar confunde o sabor da carne com a rocha? Bem, mas este sexto
filho seria Zeus, futuro deus dos deuses, que cresceu e passou anos a planear
uma vingança daquelas contra o pai. Na altura certa, já adulto, Zeus tomou o
assunto nas mãos, sob a forma de uma foice e abriu a barriga de Cronos como
quem escancara as portas da prisão, fazendo sair de lá Demeter, Hestia, Hera,
Poseidon e Hades, seus irmãos e futuros compinchas de Selecção Olímpica. Ficara
sempre em Paulo a imagem irreal de homens e mulheres feitos saídos de um
abdómen como árvores que rompem por necessidade tão essencial de viver que tudo
o mais é paisagem. A vingativa prole armou então uma guerra contra o pai e seus
companheiros, e acabou por matá-los ou bani-los ou prendê-los, e Cronos acabou
os seus dias acorrentado numa gruta profunda, longe da luz do mundo e de tudo o
mais. Com o tempo, percebeu que os Gregos davam voltas às rotundas da linguagem
e da narrativa para dar lições de moral e descrever o mundo, e o que aquela
historieta contava era que o Tempo, ou seja Cronos, é a força criadora e
destruidora, que sem obstáculo devorará tudo aquilo que insufla de vida, Senhor
Supremo, põe e dispõe e pega na nossas vidas num baralho para voltar a dar sem
ordem, e só divindades conseguem domá-lo. Compreendeu que os Antigos veneravam
os deuses gregos não por serem mais inteligentes, mais fortes, mais belos ou mais
artilhados, mas porque num assomo tão humano como é a retribuição, conseguiram
descerrar o antro que tudo sorve num redemoinho indiscriminado. Várias vezes,
em noites como aquela, Paulo se vira como o Zeus que chega sorrateiramente,
empunhando uma lâmina de agoiro, e que o Pai deixara de ser tempo comum por ter
medo de si, de ser substituído e ultrapassado, sufocado de morte pela sua
presença. Na sua mente, era um inimigo, uma nódoa, e por isso ele se fora
embora da sua vida. Várias noites podem ser vários, e tudo isto uma vida inteira
de uma terceira mão a misturar o caldeirão que dentro de nós remexe cordas para
cima e para baixo no estômago.
sexta-feira, junho 19, 2015
Lírica
Se calhar fora tudo o produto de um livro de rimas do qual se tentam retirar poemas perfeitos à pressão. Sentado no banco de madeira, a noite a puxá-lo para espaços ainda mais desconfortáveis e a ideia de que, se virasse a esquina, encontraria apenas outra curvatura, ele acumulava estrofes sem destino e também um soneto que nunca sequer obedeceria a uma outra métrica que não a do caos e de uma ausência de tudo, simbolizada por uma pequena partícula com a forma dupla de alguém que não tem nome, mas na sua presença, concentra todas as razões pelas quais os pés se colocam à frente um do outro sem tossir ou arrastar.
Se calhar, nada rimava, e o que existia era simplesmente um jogo de engano, doce e divertido, onde todos contávamos a história de que éramos felizes, só porque o seu contrário significava o fim do mundo, ou pelo menos um mundo sem fins comuns. Escutava a noite, mas nem o dia lhe poderia sequer decifrar um código que todos viram, mas ninguém decifrara uma vez que fosse. Todas as desencriptações caíam pela base por se sentarem simplesmente num banco, e nem poesia ou filosofia traziam ordem a uma inquietação em moto perpétuo que pintava o seu sono de espertina e os acordares em tons de pontilhistas, pois cada dia era uma reticência.
Se calhar, respirar é uma figura de estilo: hipérbole de expectativas, pleonasmo de dores, a personificação do objecto que somos quando aceitamos as regras do jogo e na ausência de sentido, um oxímoro onde carpe diem e tempus fugit se abraçam, para se extinguirem em contradições.
Se calhar é tudo isto. Se calhar vale, ou não. Se calhar aguarda-se pelo que vem depois, ou antecipa-se aquilo de que se tem a certeza. Quando em dúvida, beija. Mesmo que não escrevas um poema, pelo menos cantaste um verso.
terça-feira, junho 16, 2015
Descobrindo as diferenças
Nas mãos, uma pedra, imperfeita e áspera, centeninhas de recantos não burilados, inacabados. A pele preenchia-os com a energia própria do calor do corpo, e num momento ele conseguia sentir tudo, até a ventania lenta que, uma vez por festa, faz festinhas no topo das árvores. Sentiu-se em contacto com tudo o resto, e num olhar, pensou encontrar o sentido não da vida, mas pelo menos de como a vida se desmonta, e baralhando volta a dar-se em peças inteiras bem diferentes. Na plenitude, pensou: porque nos escolhem e porque escolhemos? Porque é aquela mais do que a outra, e qual a diferença entre as mesmas dez pessoas que gostam do mesmo, que fazem o mesmo? O que nos leva a, sentados na vida, nos agarrarmos a uma e deixarmos as outras nove? Se os átomos são os mesmos, se a carne é igual em todos, se os beijos que guardamos no intervalo entre cada poro recebem o mesmo calor, a mesma intensidade, o mesmo resguardo, que impulso diabólico leva o pulsar de gigante vermelha a fixar-se em órbita daquele buraco negro especial que nos suga tudo, e não nos deixa nada a não ser a impressão de que somos maiores do que o Universo na pequenez do mundo frágil e indefeso que recebemos de herança? Aquela pedra, ali à sua mercê, era ele, nas digitais posses dos caprichos incompreensíveis do corpo e da mente, de tudo o que de misterioso há entre ambos, e ainda de outros primos afastados consanguíneos.
Nem todos são iguais, e se não era esperto para entendê-lo, algures em si um posto de decisão, pouco fiável mas tirânico, escolhia e sabia bem dos motivos. Há peles mais confortáveis do que outras, e lábios que são berços que embalam e não camas de pedras. Olhos feitos aparições que ordenam tudo, perfilam o mundo e trazem a uma cama as dimensões do planeta, aos cabelos o aspecto de um avião que percorre infinitas viagens enquanto as pupilas se colam na retina, e para lá disso, e abandonam os corpos que afinal são posse e consentimento, e prendem de tal forma que se pode viajar não parado como constrangido, e ser livre ainda assim. Para lá do que é comum, e das mesmas proteínas e substâncias que nos tornam filtros de um deus menor, há uma centelha minúscula que ardendo, é mais do que fogaréu. Na pedra, viu tudo isso, tentou entender o que existe, e não foi bem sucedido, mas algures em si, sentiu que se procurasse, encontraria então quem fizesse do andar um lençol de algodão, e dobrá-lo-ia para não se amarrotar. Talvez, num dia qualquer, numa altura das outras, e como se, por outro lado, conhecendo a vida lhe tirara não só matrícula como as matizes da íris, lançou a pedra para longe e fez dela um estafeta mensageiro, com esperança de que voltasse não na volúpia da brisa, mas talvez na constância dos regatos, e quis ter vontade de se sentar junto ao rio lá em baixo, esperando por boas novas, por camas e olhos e pele, por um riso que lhe atravessasse os ouvidos com a missão de lhe bater palmas por ter nascido, e dar-lhe finalmente uma razão para se levantar de manhã e poder olhar o mundo com a altivez do que se sentem desejados e com um propósito,
Não o fez. Ganhou na mesma. Duas semanas depois, encontrou uma outra pedra, mas festa estátua, insuflada de vida, espantosa como lhe criava múltiplos atalhos para ser ele, e ainda assim se reinventar sói pelo prazer de lhe dar 40 homens para amar encerrados num. Mas esse catavento é para ser virado numa outra nortada.
segunda-feira, maio 18, 2015
Inveja
Invejei o Tomás a minha vida inteira, e só o conheço há dois anos. Ele não é uma pessoa, mas uma aparição, pois não o conhecemos: ele surge, quase como se desse corpo aos nossos desejos e ânsias, e de súbito se tornasse indispensável apenas porque sentimos a sua falta desde o dia em que se toma a consciência de que a vida não é só acordar e dormir. Fui visitado pelo Tomás há três anos, pela primeira vez. Encontrei-o no topo do monte, a olhar para o topo de outro monte, ajoelhado e vergado. Sangue na pele, a roupa suja, estava ali há uns dias, de certeza. Quase que o mundo não era nada com ele, e mesmo assim, desde aquela primeira vez, que não consigo imaginar um planeta a rodar sem que o Tomás possa estar presente. Uns minutos depois, deu um salto e veio-me dar umas palmadinhas nas costas. "És tu", e pôs-se logo a falar de coisas quem nem percebi, de telurismo e da terra, de como as árvores são quem mais debita, e nem sequer cobram imposto. Falou-me de onde vinha, onde estava, e apenas não sabia para onde vai, porque "ninguém sabe, e quem diz o contrário anda a sonhar, e não o melhor tipo de sonho, aquele que nos puxa pelos cabelos num beijo", talvez, pensei eu, aquele que faz do monte o nosso quarto, e de cujo sono despertamos porque sim, porque apetece e nos pomos a desenrolar a nossa vida na cara de um estranho. O Tomás tinha esperado que surgisse um amigo, e depois de vários dias de desespero e pouca espera, uma voz tinha-lhe dito "Este, vai", e o Tomás estava decidido a fazer isso, porque não era de planos mas sim de repentes e vontades, usando mapas apenas para não se perder nas altitudes. Comecei a invejá-lo aí, quando pensei no quão livre era, e talvez triste, mas a boa tristeza que se melancolia em todo o corpo sem que deixe marca, apenas uma alucinação perfeita que faz adormecer sem medo. A minha tristeza carrancuda e lenta como uma corda de pedal guarda o sono numa caverna, e não me relaxa o corpo, contrai-me como um acordeon e nunca me solta. Ele deixara o peso muito para trás, e só subia montes porque por dentro, era penas, nas as que se carregam, mas as que permitem a levitação. Juro que, quando me apertou a mão, os seus pés ganharam algumas asas, asinhas, mas que carregam tudo consigo.
Desde então que invejo o Tomás. Eu vivo num mundo, ele já visitou uns sete, e não fica por aqui. Quero ir com ele, mas peso demasiado. Gostava de me sentar no topo de um monte, qualquer um, mas de preferência com o vento a servir-me de casaco, e ser apenas isso, moléculas que vibram com a passagem de outras moléculas, esquecer tudo, ser apenas eu, deixar-me de outros que invariavelmente aprendi a ser e voltar a mim, ao que sou ao que quero, ao que o Tomás me disse um dia "o olhar onde tudo faz sentido, e quando não te encontras em ti, mas sim num espaço sem palavras". Esse, onde te sentas e te transformas numa anomalia geológica: uma massa não inerte. Invejo o Tomás, mas não significa que não lhe possa gamar uma coisa ou outra.
quarta-feira, abril 15, 2015
Abraço de breu
Há quem não perceba a diferença entre estar triste e estar deprimido. É muito óbvia para quem sofre, mas pouco evidente para os que estando de fora, assistem a alguém que parece estar apenas ligeiramente indisposto. Não se está. Pesa por dentro, como a mó de um moinho, colada ao estômago. O esforço de quem se encontra mergulhado nessa dor de nada dar prazer, de tudo ter um sabor desfeito a cinzas, é precisamente não se tornar num vírus que contamina os outros que ainda se preocupam o suficiente para estender a mão e tentar ajudar, quando não o conseguem. Não porque não gostem ou porque não queiram: simplesmente porque não compreendem.
Tenho vivido em períodos de depressão desde os meus 15, 16 anos talvez. Na altura, começou por me parecer uma tendência para a tristeza ou um estado de menor alegria, mas à medida que esse estado se prolonga durante dias que são uma longa colecção de instantâneos perpétuos de se achar que não se tem nada, começa a surgir uma certeza meio vaga de que não é tristeza. Quando desaparece, a depressão é apenas a recordação de uma fase menos boa (outro nome que também lhe dão, quando querem fazer crer que é tudo parte da vida normal), mas o seu regresso, com uma força dupla e ainda maior, deixa a certeza de que não é normal, não é passageiro, não é leve: é a lei da gravidade da alma, fazendo-a cair em impacto no chão da nossa mente. É nesta porta giratória que tem circulado a minha vida. Quando digo às pessoas que já experimentei de tudo, e todas as sugestões que me deram, não minto. Estar com a mente ocupada, sair de casa, procurar estar com pessoas, tentar ser positivo, arriscar, fazer as coisas ao contrário do que faria normalmente... Tudo. Nada resolve. Os períodos podem durar semanas ou, como já me aconteceu, meses seguidos. Acontece aí que queres fugir da realidade, principalmente; e não é da realidade da dor, é da realidade total: não contactar ninguém, não ver mais nada do que as quatro paredes de uma divisão fechada. Aconteceu-me já simplesmente deitar-me na cama e passar o dia todo, porque o simples som de alguém a falar me faz chorar. Ser frágil assim, quase de forma irracional e inacreditável; ou simplesmente, não conseguir suportar a presença de alguém no trabalho. Dares por ti com dificuldade em respirar, sem qualquer motivo físico. Ou deixares-te só estar, desistir de quase tudo o que podes fazer, e sentires perder, no processo rápido, o gosto por tudo o que antes te fazia começar o dia. É pouco isto. A espaços, foi metade da minha vida.
Porque não procuro ajuda? Já o fiz. Não resultou. Podia tentar algo mais forte? Sim. Mas na mente de quem está deprimido, a pergunta é óbvia: porquê? E essa pergunta faz a diferença. Porque estar assim é confortável, de certa forma, mas também a garantia de que não piora. Não nos faz sentido erguer com a certeza de se cair, e saber que se cai ainda mais profundamente. Novamente, quando se explica isto, ninguém percebe; e não é mania de nos sentirmos especiais enquanto habitantes do negrume (eu não me sinto, pelo menos): é mesmo o que se explica e se tenta. De todas as vezes que voltou, foi mais longo, mais forte, mais intenso e mais desesperante. Não quero descrever aqui o tipo de ideias que já me passaram pela cabeça, ou até o que habita dentro de mim. Sinto, de certa forma, que ando a viver um período desolador há quase ano e meio, com pequenos espaços para respirar pelo meio, um período que me fez perguntar, várias vezes: de que vale a pena? Eu juro que tentei responder à pergunta de várias maneiras. Mas em todas as respostas, não consegui encontrar na vida um motivo sequer de prazer permanente que me faça querer estar vivo. De certa forma, mantenho-me por uma sensação de dever, um martírio não religioso de quem suporta dor mental impossível porque sabe que ceder ao que é fácil é destruidor para alguém específico e uma falta de respeito para com quem não está, e de bom grado eu daria neste momento os anos de vida que me sobram para ter essa pessoa de volta, porque não sei que mais farei com o tempo que tenho de percorrer de arrasto.
A diferença entre estar triste e deprimido é um pouco esta: quem está triste faz contas de somar com o amanhã; quem está deprimido quer simplesmente dividir subtracções de tempo, e arranjar um atalho para não estar consciente, ou sequer sensível. Sentir é o que sabemos mais, e por mais alto ou largo que se seja, nunca se é suficiente para aguentar a dor. Vivo na vontade de rebentar e no esforço de não fazê-lo, de fazer dos meus dedos ganchos, quando aqui e ali me oferecem um ponto onde me agarre.
Mas já faltou mais para desaparecer no vácuo do espaço.
quinta-feira, abril 02, 2015
Mentiras
Abri a caixa de correio e no fundo, dois envelopes inclinavam-se. Num deles, a escrita apressada e empilhada de uma caneta azul atirara-me aos olhos o nome do meu pai. Não é uma novidade que ele espreite ocasionalmente para fora daquela caixa. Nos serviços públicos e privados, nomes são números, e como a Matemática do luto, os números são imortais: existem sempre, porque prestam um dever. Mas ver assim na caligrafia personalizada de alguém que, pegando num envelope, tomou o meu pai como vivo e se demorou a enviar uma mensagem, abanou-me um pouco. Por alguns segundos, deixei-me levar pela ilusão e tentei-me a regressar para o interior de casa, chamando o meu pai do seu silêncio habitual para lhe entregar a carta. Durante esse pequenino espaço de tempo, onde couberam vários desejos, ele estava vivo. Menti a mim mesmo no 1 de Abril, e foi a única mentira que poderia tolerar: a de que o mundo não é mundo, mas sim uma construção, e que de quando em vez, os blocos tombam para se reorganizarem e termos a ilusão de que o tecido da realidade se vira do avesso, e que Julho foi apenas uma saída que não se tomou, e afinal o caminho correcto é mais à frente.
Contei então outras mentiras que queria ouvir. A dor que se vem acumulando no último ano não é afinal dor, mas sucesso; o afogamento de um adeus é afinal esbracejar livre em águas cristalinas; todos os choros de revolta são sorrisos de satisfação; a raiva permanente é comichão passageira; a derrota está rota e deixa passar todas as vitórias que mereço; cada dia ímpar encontra-se quando somos par um do outro; a minha boca na tua é a verdade que procuro, e tudo o resto leves rumores que me levantam a pele para soprarem tudo o que partilhamos num olhar. Deixo que a carta me minta, e crio também uma ilusão da realidade, porque sem ilusão e sem as mentiras que podemos contar, não existe sequer a esperança de que tudo não passou de uma possibilidade, e existem múltiplas possibilidades. Até conseguir sorrir é uma mentira, mas escolho, nesses segundos, não falar com a realidade, sermos mudos, cada um no seu canto.
Vítor Manuel Paiva Cristóvão Simões. Assim mesmo, no azul de uma BIC, cravado na carta entre o recorte do papel. Ali, na mão de alguém, o meu pai voltou a estar comigo, vivo; e por momentos, também eu voltei à vida, aquela que queria e não a que tenho. Uma mentira. No sopro dos teus lábios, mesmo que na minha mente, também não me importo de ser enganado; e voltar a abraçar o meu pai é real, e isso basta-me.
segunda-feira, março 30, 2015
Ramos
Abre os olhos e sente-se uma bola de canhão, lenta, os minutos são atrito e cada um deles pesa no peito. É virar as noites do avesso quando acordar se sente como um choque frontal. Há um disparo algures na barriga que coloca o corpo em prisão, sem grades, suspenso na pena que tem de si mesmo. Já lhe chamaram dor de pensar, mas aparecia-lhe sempre na ponta da língua a anestesia de viver. Ou de ir fazendo de conta que a vida existe para lá de um rectângulo. Silêncio sepulcral no quarto, batalha campal para ficar com os pés para fora da cova, e morre-se quando não se vê para lá do dia em que se existe. Dormir é sempre mais apetecível quando os momentos magoam os dentes: Regressar para um útero com duas pernas, mas sem nascer: apenas sentir calor, por uma vez que seja. O frio dos lençóis convida à ilusão e a simplesmente desligar, não aparecer, poupar o corpo a mais uma jornada; e aninhado, encolhido, ele sabia-o e queria evitar o inevitável.
O inevitável é a vida, que demora a adormecer e a dar-se por vencida, não a pulsação ou a faísca, mas sim a luz que desperta e lança para o mundo olhares cobiçosos, mesmo que a fuga seja a razão pela qual se respiram bofes, se rouba o fôlego que se deita fora e se constroem cabanas sobre areia, ainda que nos convidemos ao estertor e e seja o desejo mais vivaz aquele de sumir no colchão, de render a guarda e guardar a renda que pagamos por cada salto sem rede e cada arremesso de nós sobre alguém que rebate para bem longe, mesmo com lágrimas nos olhos, porque nos fôlegos só conta o cansaço e nunca o exercício. Era isso. Se assim não fosse, o pé não seria periscópio de carne fora da manta, e não se daria ao risco de calcar os destroços de suspiros anteriores, espalhados por todo o quarto como um nevoeiro tóxico de respirar, mas doce embalo da noite. Quando afastou a campa e se viu de pé num calvário, atirou-se mais fundo do que os seus pensamentos: agarrou em mais um dia e deixou que se acomodasse no seu bolso, junto aos outros.
Um dia pegaria neles todos, faria um calendário, paginado, que faria dos tempos de outros um adiantar da hora de Verão. Um dia, ou dois, ou três. Quando sair da cama é uma surpresa, o tempo torna-se presente de aniversário para o futuro.
sexta-feira, março 20, 2015
Um dia são dias
Para nós, os que perdemos um pai, o 19 de Março é um pouco como arrancar um dente: tem de se viver, sabemos que vai doer e já está. A questão é que nunca está, e que continua a doer mesmo depois de o sol se ter posto e reerguido no dia seguinte. É algo que continua, enquanto nos lembrarmos. Tem de ser assim, e se for de outra maneira, algo está errado. Só dói porque se sente a falta, e a ausência só marca quando a presença contou de alguma maneira. Vive-se assim: enquanto houver memória, não há corações adormecidos. É uma gradação, mas chega um ponto onde não baixa mais: estabiliza. Nunca me consigo habituar a ir ao cemitério, as poucas vezes que agora visito, e não sentir nada; e nem me custa o passado. Arrelia-me muito mais o futuro, e tudo o que o meu pai não pode viver, principalmente o que lhe podia proporcionar. Gostava que tivesse orgulho naquilo que faço, em ter um trabalho e em construir alguma coisa de base, de algures no mundo haver alguém que tem dias melhores só porque eu dediquei a isso o meu tempo. Gostava que pudesse um dia pegar num bébé a que chamasse de neto. Gostava de lhe dar a oportunidade de não adiar e viver o que um dia deu por garantido e que um atalho da vida lhe roubou. Tudo isso me dói, e se calhar é também egoísta porque o prazer que teria em vê-lo partilhar de tudo isso é mais meu que dele. Alguns meses depois, descubro que uma parte minha morreu com ele, e não teve enterro. Paira sobre mim.
Não vou falar mais desta dor. Não a vivo sempre, há dias em que consigo que me passe ao lado, principalmente dias em forma eLíptica e dias de amigos que estão quando até nem quero que pessoas invadam o meu espaço. Mas há quase sempre um momento em que não ignoro. Dias do Pai? São praticamente todos, devo-lhos e quero pagá-los. A minha prenda é cada momento em que respiro e sigo. Espero que seja o suficiente, pai.
segunda-feira, março 16, 2015
Um fragmento
Tiago olhava-o todos os dias, antes de dar o mundo aos seus pés. O seu olhar, numa tentativa de fazer do mundo um esboço de casa, tentavam trazer a Tiago algum conforto que aquele assertivo pilar com alma parecia encerrar no seu silêncio. Há muito que na aldeia se perdera a mística dos tempos antigos, mas em Tiago, reverberava ainda um lampejo do que não se descreve porque não se sabe, mas que se sente, pois nunca se esquece. Já só aqueles que tratam o tempo como um expoente elevado ao cubo erguiam, pelo menos, um reflexo gesto de saudação a quem lhes protegera os sonhos de criança. Tiago imitava-os, já adulto, mas tudo tinha um sentido: afinal, ele guardava em si ainda o que sonhara em criança.
domingo, março 08, 2015
Bloco
Consegues senti-lo? O giroscópio da tempestade a abanar na tua barriga, chamando pelo movimento penumbra de todas as cavernas que te deixam oco? O esmorecimento, o desânimo, o descalabro que martelam com mais fulgor do que qualquer outra música ou ruído? És capaz de inquietar a tua mão em ti, e perceber como um redemoinho te absorve afunilado para o teu interior, espirrando-te numa confusão de peças para que nem sequer tenhas veleidade de te reconstruir? Sentes, não sentes? Está lá, e depois de se dar aos ventos, é incapaz de parar. Roda sobre si mesmo, faz de ti rotação e às voltas tantas, percebes que nem sequer te mexes, e que nem pretendes fazê-lo. Por dentro, o bulício; por fora, a inércia. Colocar o teu peso sob as pernas custa quase tanto como dar pernas ao peso do tempo que te preenche. Sentes sim. Até demais. Quando estar junto a outros te transforma os olhos em lagos, quando simples palavras alheias são agressões ao teu bem-estar, quando cada palavra de incentivo é uma úlcera por dentro da carne. Tudo gira, nada te parece giro. Nada te parece sequer: apenas está ali, a boiar, a rotação desacelera a gravidade e flutuas sem atrito e realidade, todos os resultados possíveis e aleatórios te são indiferentes. Não alternativas, porque não as escolhes. Cada desvio e cada atalho têm o mesmo destino, e tu sabes qual é: o giroscópio é também bússola e o rumo encravou.
És curto demais, e encolhes-te na cama. Lençóis por cima, todo o mundo uma muralha que te recusas a ultrapassar, porque não há razões. É aí que finalmente sentes a falta de sentido.
terça-feira, março 03, 2015
MicroMacros
Sem ela, o tempo é uma colecção de estilhaços. Carlos, de pé no centro do seu próprio mundo, perguntava-se se um dia era dia sem que a voz dela fizesse nascer o sol, mas o mundo gira em redor dos astros mesmo que agora o tempo fosse menos particípio e mais passado. Carregava em si o peso das partículas, dos pós que se amontoam aos poucos nos tecidos e nas articulações e fazem os segundos em que que nos desintegramos, apodrecemos e, consequência final, carregamos o nosso próprio fim. Cada passo é mais um bocadinho de nada, e por isso estava parado. Se não se mexesse, talvez sossegasse, na ladina paz do respirar que parece prolongar a vida quando traz a pequena morte ao corpo, e um funeral florido ao espírito. Carlos carregava o seu próprio andor sob duas pernas, e no momento, a imobilidade pareceu mais amiga do que os gestos. Quando nos dói, a acção assume figura inimiga, e há sempre a ideia de que um passo equivale a peças partidas. A dor transforma a pele em porcelana, cada movimento uma fisga pronta a rachar o que aparenta estar inteiro, mas sabemos, numa pequena nuance do ar, que quebrámos sem apelo. Era isso, Carlos partiu-se, e o peso era tudo o que nele estava contido e agora perseguia o vazio com a mesma voracidade com que digeriu Carlos.
Como tudo o que se parte, Carlos foi ao chão. No pó acumulado, talvez um casulo, e mesmo na verdura que o tapa, uma caverna. Em tudo o mais, vassoura que acumula na caverna tudo o que escapou. Voltar a ser inteiro ou refazer-se com o que se tinha: tudo o que Carlos pode procurar é simplesmente saber se está a tempo de se desfazer do que não pode.
terça-feira, fevereiro 17, 2015
Conhece-te a mim mesmo
Beijo-te, nesse momento, não como quem ama, mas não tem outra maneira de rezar. O teu altar em forma de boca recebe.me, ora por mim, ide em paz por aí baixo e que este senhor te acompanhe nas voltas dos lençóis. Nas voltas de mim, porque eu também sei quem sou quando te descobres. Porque me descobres também.
sábado, fevereiro 14, 2015
Deixar-se levar
Voltamo-nos para o rio e mergulhamos em nós. Num abraço, a noite é uma esfera, e fora dela estamos nós. Fora da noite, dentro de um outro rio, mais lento, mais escuro, mais tudo. Mais até do que nós. Um rio planeta, perdido nas estrelas que também morrem nas águas. Eu e tu, um planeta. Mãos que são placas tectónicas e novamente lábios em erupção. O resto da noite é um movimento de rotação e a manhã ocupará o seu trono. Dois rios correm: um para o mar, o outro para si mesmo. Eu e tu, um planeta.
quinta-feira, fevereiro 12, 2015
(Espuma)
Cai a neblina, que sabe a mudança, e na areia espessa, que se prende ao mundo, está um búzio. É o búzio das seis e meia da manhã, quando a noite ficou para trás e os olhos só se fecharam para esquecer. Quando o mar me calça os pés com espuma, o búzio é a minha única garantia que tudo isto é real, e que a neblina me veste no faz de conta do despertar. Pego-lhe então e a sua abertura lembra-me lábios que beijo nebulosamente todas as vezes que me solto em mim. Encosto-os ao meu ouvido e ouço a canção das esferas, o cosmos, as nebulosas e mesmo entre uma ou outras supernova, velhos destinos, sussurros e murmúrios. Há quem ouça o mar nessas aberturas: eu mergulho em ti, e naquela manhã, a primeira desde há muito em que o mundo me sabe a outra coisa que não a tua pele, regresso a outros tempos de mar revolto, e de barcos encontrados na tempestade, onde parecem encontrar a razão de navegar. Dou por mim a abraçar um búzio, como se me pudesse devolver tudo o que quero dar e não sou autorizado, e num momento entre minutos, o meu corpo está deitado na areia, mas nem se molha quando o mar se aproxima, o mar foge e nem lhe toca, e enquanto estou a assim, juro que o búzio também me beija, que as manchas madrepérola são os teus olhos castanhos e a praia tem as nossas paredes brancas. Não sabia que a saudade sabia a iodo, mas o teu corpo sempre aqueceu o mercúrio do meu sangue, e num beijo que não existe, o vestido de neblina puxa o sal como cobertor e sinto-me temperado pela tua memória.
É memória de quem não volta. Há mar e mar, e o teu ir implica não voltar, excepto lembrar-te quando ainda sorrias, ainda amavas e ainda respiravas. Tudo o mais são marés, que vêm e voltam, e estando eu na lua, a atracção é imediata. Às sete da manhã, ainda vives num búzio, que guardo no bolso. Ao fundo, a linha de horizonte confirma-se que não voltas, mas que eu tenho o eterno retorno aos teus lábios, no calor de um búzio. O limite chama-me, mas olhando à volta, o meu lugar é aqui, contigo, numa aparição marinha.
sexta-feira, janeiro 02, 2015
Hiato
Brava gente, durante um tempo (talvez meses), não escreverei nada aqui. Se o fizer, será muito esporadicamente e porque me apeteça de facto. Mas quase de certeza que não acontecerá. Não me sinto mentalmente capaz de escrever sobre o que seja, de momento, ou de tentar colocar aquilo algo que me satisfaça e orgulhe e sinta que vos possa dar prazer de alguma forma. Agradeço a todos os desde o início me têm seguido e acompanhado a evolução deste blog, e aos que, mais recentes, têm partilhado as minhas alergias e tristezas. Regressarei um dia, mas não vos posso dizer quando. Apenas que não será breve.
Obrigado e até ao meu regresso
quarta-feira, dezembro 31, 2014
Dois mil e quatorze
Um ano é um saco vazio, e os dias pequenas partículas que se vão acumulando. Quando o tempo passa em rápida corrida, sem deixar outra marca que não seja a saudade do que não se viveu, as partículas não pesam e sem estarem carregadas do que seja, apenas tornam o saco num pequeno pano cosido com sujidade. Duas palmadas e uma passagem, e o saco fica pronto para, noutra oportunidade, acumular a passagem de tudo o que pode pesar. No entanto, as maratonas deixam o corpo mais pesado, e o saco é não hotel de partículas, mas reactor nuclear onde as mesmas chocam umas contas nas outras, e produzem o tipo de energia que alimenta estrelas, ou pelo menos arrasa cidades ao ponto da poeira. Viver muito implica uma carga maior, e quando se vive demasiado, explode-se. É a lei da energia: quando o corpo é pequeno demais para aguentá-la, ela extravasa, solta-se e o que fica de nós são uns cacos maiores do que outros, com a possibilidade de se reorganizarem novamente para voltar a acumular.
É assim que sinto o meu 2014. O ano em que vivi demais. O ano em que me expandi para receber tudo aquilo de que fugi nos outros todos. A morada onde habitei no sótão da felicidade, mas também desci a profundezas onde nunca estive, onde não queria estar, mas que já sabia fazerem parte de toda esta casa. Tudo o que fez 2014 já sabe quem acompanhou o estudo da dor em palavras que coloquei neste espaço. Todos vocês que me acompanharam, mesmo não dando a mão; e aqueles que, mais próximos, colocaram a mão no ombro. As pessoas que vibraram com o meu voo livre na atmosfera e aqueles que sorriram quando, num espaço qualquer entre minutos, as horas eram os nossos dias, meus e dela. O ano de 2014 foi quem esteve, e quem não esteve, porque a ausência, mesmo não sendo, por vezes existe com uma força de terramoto. Também foi isso, este ano, mas para minha surpresa, estes quatro algarismo também perceberam que no fim, quem nos vale somos nós. A maior parte do resto é paisagem. Podia colocar nomes, mas quem se agigantou para me servir de parede terá o seu momento de gratidão.
Não foi só perder, também se ganhou, e no inesperado. Desccobri que o meu coração abarca planetas, e expande também. Descobri que quando se abre o coração, fechá-lo é impossível. Descobri que choro na mesma proporção que sou verdadeiro comigo mesmo, e que as lágrimas são simplesmente as palavras que não consigo alinhar aqui para levar aos outros o meu mar. Descobri que sou muito mais forte do que me dou crédito, muito melhor pessoa do que me pensam e alguém que merece, acima de tudo isto, o que é bom. Descobri que não sei se aguentarei, mas estou ansioso por resolver esse mistério. Descobri como é bom ser útil em projectos maiores do que nós, e de como se aprende mesmo quando não se espera, e a vontade de colocar o nosso melhor em pequenas coisas que nos satisfazem no fim de contas. Descobri que quero saber se consigo ser feliz; e quero descobrir se consigo ser o homem que o meu pai um dia esperançou, se há 32 anos, quando me segurou pela primeira vez e me imaginou já grande, homem feito e pronto, se poderia vir a ter orgulho na confusão em que me tornei, no labirinto que desenhei qual Dédalo da perdição, e se no meio disso tudo poderia anuir e sorrir de cada vez que saio à rua e afirmo que sim, que sou eu e mais ninguém, que é o que posso dar e quero e não gostava que sentisses algures que não mereço carregar a tua memória e deixar-te beijos sobre a campa.
Também quero descobrir-me novamente nas mãos de outra pessoa. Destapar-me nos seus olhos e reviver o pequeno jogo que existe antes de um beijo.
Quero certificar-me que existe 2015. Que 2014 foi apenas uma explosão atómica e que depois da morte, da erupção, há vida a crescer, a brotar e a aparecer, rebentando com os solos. No meu desejo, 2015 não podem ser dias: devem tornar-se sacos de partículas, daqueles que não pesam, mas também não voam. Daqueles que estão nas nossas mãos, mas nem nos pertencem. Daqueles que simplesmente sopram e não fogem. São meus, e deles disponho para renascer. Quero que 2015 seja sobretudo isso, e que de sobretudo vestido, 2014 hiberne, apenas para acordar em mim de vez em quando.
quinta-feira, dezembro 11, 2014
11-12
Um bocadinho. Um ponto na estrada pelo qual se passa. Uma mancha que se limpa. Uma nódoa que surge e se faz desaparecer. Uma bolha de ar que se rebenta porque estorva a vista. Um montinho de terra que se varre para fora do jardim. Uma relva que cresceu mais do que as outras e atrapalha a simetria. Um livro a mais que não cabe na estante e se mete no caixote. A bolacha mole que não se escolhe e atira para o lixo. Os calções quando chega o Inverno. O cavaquinho numa orquestra de sopros. A ínfima parte do que já foi, e não é. A célula disfuncional que precisa de ser destruída. A traineira de madeira podre que será abatida. O pedaço de oceano onde o crude reclamou um reino. A casa onde as vigas estão tão podres que nem vale a pena pagar o restauro. A folha mal impressa que se arranca, e pela qual reclamamos um livro novo. A memória que some depois de uma noite de bebedeira. O presente que se ofereceu e foi para o lixo. O filme que se apaga do disco rígido. O bocadinho de árvore que o zoom faz sair da fotografia perfeita. A linha de palavras que se risca, ou se apaga com corrector com vergonha que alguém saiba que chegou a existir. A sms que não tem retorno. A cama que é pequena demais para nós, e vai para o sótão servir de pasto para térmitas. Os talheres de plástico que cumpriram a sua função e vão para o lixo.Os sapatos esburacados que não se guardam, porque os novos brilham mais e a ruína não guarda recordações se não nos sentarmos sobre ela. As folhas do caderno que se rasgaram e já não contam. O álbum de fotos que se queimou, porque não se quer na corda do coração. O sofá que um dia nos acolheu, e agora apodrece no depósito de monos. O carro que um dia foi a nossa fonte de aventuras, e agora está desfeito num ferro-velho. O beijo que se deu, e agora é nada. Tudo o que se é, e que nada parece valer. Ser o tudo de uma série de nadas pespegados que se esfumaram.
Pedirem para olhar em frente, e só ver o que não existe. Há noites assim.
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