sexta-feira, setembro 23, 2016

Cronistão 5: O mundo animal



O aspecto é de salão paroquial em Medellín, ainda para mais quando nos deparamos com um jardineiro caprino de quatro patas, mas o Park Hotel revelou-se um local agradável para repousar a nossa coluna nos dias que passámos em Karakol. A dona, uma senhora com os seus sessenta anos cujo nome a minha memória deixou fugir, não fala inglês, mas revela-se prolixa em russo, como qualquer bom quirguiz. Sabe que Portugal é na Europa, mas perde-se um pouco nos pormenores e também não é importante. Traça o limite, no entanto, na presença de calçado no interior do seu espaço: o hóspede ou entra de chinelos ou descalço e nem há contra-argumento! Existe um pequeno móvel com prateleiras para sapatilhas e sapatos e botas. Pisem as carpetes da simpática senhora com algo mais do que uma tira de plástico a proteger-vos as palmas dos pés e serão brindados com um olhar mais fulminante do que uma pistola. E por falar nisto: lembram-se dos Clint Eastwoods de que vos falei na crónica anterior? São tipos que por acaso têm uma arma em casa e, em ocasiões especiais (como, por exemplo, quando um grupo de ocidentais chega de malas aviadas a uma hospedaria de Karakol) surgem com a intenção de garantir que tudo está bem, que estamos em segurança.Talvez lhes escape a noção de que observarmos, assim do nada, uma arma de fogo nos deixe poucos seguros, mas tirando isso... bom trabalho! Ocasionalmente vemo-los na "lounge" do hotel, sempre a relaxar na Internet, porque, afinal, existe um código internacional de laxismo, acima de qualquer cultura, entre seguranças do Ocidente e do Oriente.



A tarde desse primeiro dia em Karakol fez-nos rumar aos Sete Bois de Vermelho, rochedos enormes em manada a poucos quilómetros da cidade. À noite, saimos para jantar e foi logo na primeira casa que nos pareceu aceitável. O nome está em cirílico e soa a algo como Micmasa, e infelizmente, quando abrimos os menus, apercebemo-nos de duas coisas: que tudo está em grafia russa e também que a dona do Park Hotel não é a única pessoa do Quirguistão ligada ao sector de hotelaria e restauração que desconhece uma língua que é falada por mais de metade do mundo conhecido. Somos convidados por uma prestável, e muito aflita, empregada de mesa, mais nova que eu e até do que o meu irmão, vestida de seda azul, lenço amarelo na cabeça e o sorriso de um veado que ficou encadeado pelos faróis de um jipe. Em atrapalhação, leva-nos a observar no exterior um painel publicitário de lona, onde figuram imagens bem convidativas dos principais petiscos da casa. A olho, e sem saber bem ao que vamos, escolhemos. Eu arrisco cobleti, que é algo parecido com panado de vaca. Come-se, embora não fique com vontade de abusar. No final, deixamos uma gorjeta de 100 som à simpática garota. Ela julga que é erro, tenta devolver e gentilmente fazemo-nos entender que é uma dádiva que lhe damos pela atenção e esforço que nos deu. Ri primeiro, quase chora depois, segurando a nota como se capturara o mais importante bicho do Pokemon Go. Para ela, é talvez uma fortuna; para nós, portugueses que se começam a sentir alemães nesta terra de moeda desvalorizada, é simplesmente euro e meio. Que no outro lado do mundo, longe dos nossos problemas e da nossa classe média de 500 mil euros, são o suficiente para colocar luzes de Natal em pleno Agosto no dia de uma miúda. Há maneiras piores de me sentir turista.



Caio na cama às dez da noite e apago-me de imediato. Finalmente convenço-me de que tudo é real e o meu cérebro bebe todas as horas de sono que consegue, porque na manhã seguinte temos alvorada às sete. Nem me custa acordar. Desço descalço e tomo o pequeno-almoço de duas opções: omelete de queijo ou crepes. Sejam crepes então e conversamos o que nos espera como programa da manhã: uma visita ao mercado de gado local. Uma coisa é falar; outra coisa é dar por mim numa coisa que faz a Ovibeja parecer a Expo 98. O chão mais limpo é de terra, porque no momento em que entramos num espaço com o tamanho do Queimódromo de Coimbra, lavrado de gente com os seus animais, rapidamente o gesto reflexo de não pisar bosta se digere: tudo acaba por ser bosta. Cheiro mais com os olhos do que com o nariz, pois tantos estímulos transformam o meu corpo numa sinestesia permanente e mal consigo apreender tudo o que me cerca. Vacas, cabras, ovelhas, cavalos, bichos humanos, todos em caminhos que nem se marcam mas se sabem, os de quatro patas puxados pelos de duas patas em cordas ou guitas, olhares perdidos, ignorantes e por várias vezes, pessoas que engelham pânico na presença de uma máquina fotográfica, como se um "clic" fosse possessão, alguns fazem sinal da cruz na minha direcção e sinto-me um exorcismo forma humana, o que se acentua mais quando cabras se acariciam nas minhas calças para abrir caminho.


Há gente que vende ferraduras, que soam forte mesmo sem fazer barulho, principalmente nas mãos de uma menina que domina o ferro e ainda olha para mim com vista dura, prática, esperando a foto mas prosseguindo. Um tipo empina o cavalo à minha frente e sinto-me num western asiático, ilusão quebrada quando puxa do telemóvel e conversa assim montado, porque quando se dirige um equídeo não se paga multa. O barulho é galopante, uma mistura de sirenes, bramidos, o reino animal manifestando-se sem grande desespero, mas exasperando-se. É a missa de Karakol, toda a gente vem, mesmo sem nada para vender, porque pouco mais há que passe por entretenimento nesta terra. Conversa-se no meio dos bichos, alegremente, livremente, mesmo que a Polícia passe de vez em quando, talvez também porque neste fim de mundo, onde um homem é segurança só porque possui uma arma em casa, não tem nada para fazer. Cumprimentos e abraços, um fã de Cristiano Ronaldo sabe que sou português e insiste que lhe tire uma foto, e depois aos amigos, e depois à família e acabo por traçar um retrato oficial com bichos e tudo. Sinto o que nunca senti na vida: o homem civilizado no meio da aldeia, uma aldeia que já só me lembro de quando mal tinha pernas para trepar limoeiros e laranjeiras; quando o mugir das vacas e o relinchar dos cavalos dança no meu pavilhão auditivo, obliterando tudo o mais, sou recordado que venho de algo um pouco mais moderno do que aquele recinto, mas pouco, que vi e ajudei na matança do porco e na vindima, que não tratei de amimais mas vi tratar e ajudei a minha avó a matar cobras à pedrada. Eu não sou dali, mas parte daquele pequeno circo ressoa em mim e leva-me a outras memórias. Enquanto fixo tudo em fotos, e vejo um cavaleiro que foge para longe quando me vê apontar a máquina, sei que apesar de dar gorjetas, não sou muito mais do que aquela gente simples e não simplória, que teme que a sua alma fique presa dentro de uma caixa negra, que se mistura com a bicharada porque lhe está ligada.



No final, arruma-se o que não se vendeu, e alguns homens têm de puxar bodes e cabras à viva força. Em contentores que parecem saídos da Lisnave, há lojinhas que vendem tudo ao copo, água inclusive, e outras coisas. Quando se viaja, não se deve procurar o que se tem, ou então acha-se o repetido; no entanto, por mais longe que caminhemos e voemos, haverá sempre um ponto em que nos encontramos, seja nas ramagens das florestas, no murmúrio das ondas, nas curvas empedernidas das ruas fechadas de velhas urbes; ou então simplesmente num tempo que foi meu, em que todos os sentidos se misturam para me devolver o que sou de verdade e não muda com as minhas rugas, os meus erros, as minhas intensidades da idade. Num mercado de gado, reencontrei-me pessoa; e isso, amigos, é o fungaga da bicharada.


terça-feira, setembro 20, 2016

Cronistão 4: Dar de beber aos cavalos



Nunca vira um lago com linha do horizonte, mas é primeira vez de muitas primeiras desta viagem. A estrada que liga Bishkek a Karakol estende-se pela margem norte do Issyk-Kul, um mastodonte aquático que impressiona pelo tamanho e também por ser a referência mais próxima que este país trancado na Ásia Central possui como mar. Cheguei a perguntar, posteriormente, a quirguizes se alguma vez os seus olhos lhes tinham revelado a benesse do oceano. Não, disseram-me todos, mas temos o grande Issyk-Kul; e lá enorme é ele: 182 km de comprimento, 60 km de lago, o segundo maior lago em altitude do mundo (a seguir ao Titicaca) e também vice-campeão em lagos salinos em volume (apenas ultrapassado pelo Cáspio, esse intrujão que se faz passar por mar, mas que, por ser uma massa de água sem qualquer contacto com outras, é de verdade um lago). Situado aos 1500 metros de altitude e rodeado pelas montanhas da cordilheira mágica do Tien-Shan, que me fará companhia nos próximos dias, nunca congela. Desde os tempos soviéticos que se estabeleceu como um dos destinos balneares de eleição do grande império russo imaginário e pelo caminho, vemos algumas datchas e bungalows para turista frequentar. O que muitos desconhecem é que terá sido aqui, pelo papel fulcral no percurso da Rota da Seda, que surgiu a Peste Negra, levada pelos mercadores orientais até à Europa, para espalhar mortandade.

Hoje em dia, o maior perigo de morte que se reflecte nas águas azuis, profundas e aparentemente frias do lago não é a hipotermia (algo que parece não afectar os Quirguizes, que se banham aqui como quem está em Aljezur): é a peste motora. A rede viária do país foi desenhada a régua e esquadro, com rectas intermináveis e curvas bastante subtis. Quase todas as estradas contornam as montanhas, e as modalidades de piso são três: alcatrão nas vias que ligam cidades importantes; macadame e pedra em estradas secundárias; e nos caminhos do fim do mundo, existe gravilha, terra batida e qualquer tipo de pedra que caia das montanhas que habitualmente são atravessadas por estes caminhos de cabras, pois a elas pertencem, mas também de vacas e cavalos. Ocasionalmente, encontramos pedaços de caminho "em obras", que significam simplesmente que nos espera um lençol de flanela onde um grupo de traças decidiu fazer uma despedida de solteiro. 

O condutor da nossa Sprinter  desvia-se dos obstáculos ocasionais como quem faz uma gincana e cedo nos apercebemos que as regras da ultrapassagem são bem diferentes: a carrinha mete o nariz, enche-se o peito, passa-se à rasa. Três veículos ultrapassando-se em simultâneo rumando em sentidos opostos é um costume e cinco serão record olímpico e algo a que assistirei ainda por estas terras. A existência de uma mente comum quirguiz é postulada, até porque nunca se vêem choques frontais onde as leis da Física tornam obrigatório que existam. Acontece um desvio de última hora e o trânsito desenrola-se como se nada fosse. Todos brincam a isto, camiões incluídos, grandes inimigos da velocidade, e ao fim de quatro dias, apercebo-me que ainda não vi uma única mota a circular. Sabem que mais? Verei zero em toda a minha estadia. A Polícia vigia tudo isto com o mesmo ar plácido das águas do lago. De vez em quando manda parar algum veículo: se tiveres sorte, és um amigo de longa data; se não tiveres, é provável que fiques sem algum dinheiro para poderes seguir viagem. Ninguém se queixa ou desentende, é a lei aplicada à escala local e afinal estás a centenas de quilómetros de qualquer civilização, que não podes chamar a aldeias de madeira e zinco espraiando-se ao logo de uma rota essa palavra tão cara a um europeu.

Até Karakol, vamos recolhendo também outros passageiros. Isto é, afinal, a RBL cá do sítio. Basta estar à beira da estrada, esticares o dedinho e o condutor pára. Dizes ao que vais e ele dir-te-á como é. Se todos se encolherem, cabem mais; e assim apertados, vemos desfilar numa passerelle de quatro paredes crianças, senhoras idosas e um ou outro pintas que só quer visitar alguns amigos no café da localidade seguinte. A viagem comprida prolonga-se ainda mais e as minhas costas não estão apenas quadradas: já são um cubo onde mal consigo encontrar posição. As poucas paragens que fazemos são para comer e seguir, naquilo que se pode Não durmo há mais de 24 horas, mas as guinadas e quase colisões que se seguem com a regularidade de um metrónomo não me deixam dormir. Consigo manter a sanidade e alguma certeza de que sou eu, e que tudo é real. A imensa extensão do Issyk-Kul coloca em tudo um ar de miragem mirabolante, como se as estradas com bichos e bichos na estrada rugindo com pedais e rodas nem ali estivessem,. As altas montanhas, a terra vermelha e amarela que rodeia as margens, uma estrada que só parece existir na mente descabelada de um autor russo miserabilista conjuram-se na minha cabeça para nem ter a certeza de estar ou existir e quando, onze horas depois de abandonar o aeroporto, damos por nós no nosso objectivo, desço e pergunto-me se é agora que encontro repouso para os restos mortais do meu corpo. 

Não, ainda há aventuras para viver; e julgo de imediato que uma delas será fugir com os meus pertences. Mal a Sprinter estaciona junto ao nosso hotel, o portão de entrada está ocupado por dois homens, jovens, óculos escuros nas trombas num dia em que nuvens cinzentas dão o tom, que cavaqueiam. Podia ser uma cena normal, mas um deles, entre as costas e as calças, mostra uma pistola Colt, que calculo não esteja lá para um disfarce de Walker, o ranger do Texas. Bem vindos a Karakol, cidade entre os mundos russo e chinês, mas que pertence em toda a totalidade à Quinta Dimensão.

sexta-feira, setembro 16, 2016

Cronistão 3: A Oriente, tudo de novo



A Kati é uma amiga húngara que conheço há muitos anos. Para lá de tudo, sempre ocupou um lugar exótico na minha existência: veio do Leste e ficara minha amiga. Ainda hoje, quando falo dela, ser húngara destaca-a de outros que me são conhecidos ou amigos, morando num país lá longe que quase ninguém visitara. Sempre achámos isto curioso entre nós e decidimos uma vez, nuns dias que passámos juntos, fotografar os nossos pés virados de frente, como se acabassem de se conhecer. Era o Ocidente conhecendo o Oriente, se bem que fôssemos ambos europeus. No entanto, historicamente, Viena era a fronteira mental de uma Europa que se pensava civilizada. Tudo o que fosse para lá da capital austríaca era barbárie e desconhecido. Na cabeça de meio continente, quase até ao final do século passado, a Kati, nascida e criada em Budapeste, era tão estrangeira e oriental quanto as especiarias e o chá. Pensei várias vezes naquelas fotos quando aterrei no aeroporto Ataturk, em Istambul, e na minha chegada às portas da Ásia pela primeira vez.

Aeroportos são aeroportos, todos no mesmo esquema; mas basta sair do avião e parar na lounge do Ataturk para perceber que assim não é. O outrora vincado laicismo turco tem-se mostrado permeável à influência religiosa e política de grupos estranhos aos valores da República e pelos corredores desta gigantesca cidade internacional montada no lado europeu de Istambul, vêem-se vestimentas árabes que só estava habituado a olhar nos ecrãs próximos dos olhos, mas longe da acção. A burka é mais comum do que esperava aqui, na verdadeira fronteira entre Oriente e Ocidente, e vê-se nos olhos de muitas das mulheres que se cobrem de cima a baixo uma submissão passiva, não necessariamente exercida por violência, mas por hábito. Em muitos casos, não há silêncio e observam-se casais em amena cavaqueira, se bem que o homem tenha a posição dominante. Ao contrário que imaginava, como ocidental doutrinado na visão do árabe mal parecido e ogre, os homens, na generalidade, são cabeças de família como aqui; nota-se, no entanto, algo diferente. Não sei bem se é religioso ou costumeiro, mas um facilita o outro. A enormidade do aeroporto, no entanto, dilui esta diferença Vê-se tanta cabeço com pés que apesar do choque, tudo é esquecido. Há duas horas para matar antes de apanhar o voo de ligação para Bishkek e o Zé Luís, o guia da expedição e meu amigo, sugere uma volta pelo Ataturk. Certificamo-nos da porta do nosso avião e sei que estou num outro tipo de metrópole quando chego a contar mais de setecentas, uma enormidade. Setecentas descolagens possíveis, todas diferentes, num só espaço. A posição de Istambul na arquitectura geográfica do mundo tem aqui outra prova. Estamos noutro mundo. Para celebrar este exotismo muito próprio, comemos um Big Whopper ao jantar e pagamos em euros.

Depois de quase meia hora de caminho, chegamos à nossa porta. Quando, alguns minutos depois, o nosso avião estiver a fugir do Ataturk, suavemente e sem pressa, darei por mim a espreitar o Bósforo de cima. É uma enormidade, um enxame de pirilampos sem ordem, uma procissão de candeias que se espalha por dois continentes cumprimentando-se através de uma ponte, e fazem parte de um mesmo país, de uma mesma cultura, de um cosmopolitismo que não conheço na minha ponta da Europa e que só observei, muito brevemente, como turista de permeio. Na distância de segurança da altitude, tudo me parece fascinante, mas inerte, e quando vejo com distinção dois continentes separados e unidos, a minha percepção mudou. Não consigo dormir, uma noite branca e em branco, os assentos desconfortáveis ou o meu formigueiro e a mudança de cenário não me deixam sossegar e pregar olho. No ecrã de bordo, as milhas vão queimando, uma atrás da outra. Do topo, passo por Arménia, Geórgia e atravessando o Cáspio, a maior massa de água interior do mundo, entro então nos "-istão", dos Cazaques e dos Uzbeques. "-istão" significa "terra de" e acolhe as etnias originais e povos que aqui habitavam  e sobreviveram à passagem de Genghis Khan, dos Otomanos e dos Soviéticos. Lembro de cabeça o mapa da região e à noite, reconheço todas as principais cidades, faróis urbanos que se destacam na escuridão dos espaços desérticos e mal habitados que dominam as estepes imensas da Ásia Central. É então fácil descobrir Bishkek, já com o sol a avisar o horizonte que chegou o seu turno, e o avião vira para a direita. Não demora até aterrar e naquele baque das rodas, onde o avião parece um nadinha rápido demais mas se estaca com assertividade, estou no "istão" dos Quirguizes.

O aeroporto de Manas (um dos três deste país, pasmem-se) tem o nome de um herói nacional, guerreiro pois está claro. Faz o de Lisboa parecer o de Istambul. Os guardas alfandegários, com os seus chapéus verdes medindo o dobro das suas cabeças, pedem-me o passaporte. É o necessário aqui, não se paga visto e olhando em volta, não somos os únicos ocidentais a chegar, embora a população seja maioritariamente asiática. Quase ninguém fala inglês e o guarda comunica comigo por grunhos e gestos bruscos. Quando abre a boca para falar, é em russo e os olhos amendoados confundem-me, porque a minha mente está condicionada a esperar chilrear oriental. Não sei como disfarço a confusão, mas lá me deixam entrar no país. Presumo que aqui os terroristas não tenham barba, ou então estejam já habituados à presença de hipsters. O Quirguistão ainda não é, de facto, um país mainstream, logo é bem possível.

No aeroporto tratamos logo de uma série de coisas: cartões de telemóvel (as chamadas para o estrangeiro são bem mais baratas por cá) e levantamento de dinheiro. Nenhuma das máquinas multibanco funciona, são quatro e todas em cirílico. Quase tudo o é e a coisa só se leva direita porque o Rogério, um portuense, teve umas aulas de russo há uns anos só por diversão. É ele que ajuda o Zé a explicar a um velhote que parece o actor brasileiro Elias Glazer (ou para os menos familiarizados com novelas brasileiras, o pai do Jeff Goldblum no "Independence day") que somos nove e queremos alugar uma carrinha para nos deslocarmos a Karakol, a quarta maior cidade do país, numa viagem de 400 km sobre quatro rodas.  Não entende e um neto que até se safa em inglês serve de intermediário. A coisa fica combinada: 1500 som à cabeça (o que dá, grosso modo, vinte euros... a CP rouba de catano). Com as bagagens todas reunidas, descobrimos que o nosso transporte é uma Mercedes Sprinter branca. Às sete horas da manhã, Bishkek é já uma cidade feita bafo de calor e mesmo sem entrarmos no centro parece-nos confusa, desorganizada, onde tudo se resolve com buzinadelas, gestos bruscos e vozes que se levantam. É o meu primeiro contacto com o Quirguistão

Não tenho presença de espírito ainda para absorver tudo e quando este cai em mim, com a noção quase surreal e irreverente de que não estou no meio, e nem sequer no meu fim, a carrinha arranca, o aeroporto é reduzido pela distância a uma miragem e durante onze dias, estou aqui eu, mas sendo outro, porque como posso eu viver aqui sendo o mesmo que era além? Ficaria bem aquém do que quero viver. Deixo que o choque me apanhe e quando, nos primeiros cinco minutos, a Mercedes tem quase três encontros frontais não planeados, desconfio que este choque pode muito bem ser literal e mais vespertino do que espero.

quarta-feira, setembro 14, 2016

Cronistão 2: Um estado em espírito



Dizes às pessoas que vais ao Quirguistão e parece que voltam a ser crianças. As perguntas atropelam-se na boca, a língua não se liberta rápido o suficiente para deixar passar as dúvidas que me apontarão num raio, e a primeira não tem sequer seguimento: "O quê?", como se o nome de um país pudesse despertar em alguém tanta incredulidade que faz até duvidar da sua existência. Tal confirma-se pela questão que se costuma seguir: "Isso existe?". Existe pois; "Fica onde?", e num exercício de memória, consigo explicar que assentou acampamento algures na Ásia Central, acho que junto da China, talvez perto da Rússia, pois até pertenceu à União Soviética;

"É perigoso?", desconheço, sabes, mas acho que não. Percebo o teu medo, acaba em "-istão", e nesses países rebenta muita coisa. Este é dos mais calmos, mas não admito assim à cara podre que temo. Pesquisei sobre o mistério deste ponto Q e ouvi falar que se raptam noivas (sorte a minha que tenho pila), há estradas muito manhosas (e sei que numas delas passo de certeza) e em 2013 se registou um caso de peste bubónica. Claro que me apavoro, mas se fugisse de tudo o que pavor me sopra, não me teria partilhado com a D., nem girado em redor de um mundo em forma de L. O medo está lá, mas nós também e muito antes que o temor tomasse tomos de forma; " E porque vais?", ora, porque é bonito. Um amigo meu mostrou-me fotos e eu adoro montanha, encontram-se paisagens daquelas que toma o oxigénio como refém. Para mais, fartei-me de ser conas, e isto não digo alto nem por estas palavras. O código que uso é o de fazer algo que me deixe desconfortável em bom, mas na verdade, há um cansaço do normal, do aceite, do conhecido, do confortável. Quero sofrer a atracção pelo imprevisto e pela pele que não é nossa mas aos poucos, com engelho, vestimos e não se mostra tão estranha e estrangeira assim; "Mas isso tem praia?", Não e qual é o problema?; "Estavas melhor no Algarve", o que interpreto como um auto-recado que o interlocutor dá a si mesmo, assustado com alguém que toma nas mãos decisões incomuns. Seguem-se mais vinte perguntas sobre comidas e bebidas, sobre as pessoas e a religião, sobre o acto de alienação que é pôr os pés no outro lado do mundo quando existe outro tanto de permeio.

Não revelo, claro, mas há uma pontinha de irreverência, uma arrogância aveludado de poder dizer que se esteve em locais em que ninguém conhecido ousa sequer pensar ou sonhar, de trazer até ao amigo e conhecido um pedaço daquilo que se entrevê e se ouve falar. Enquanto arrumava as mochilas, roupa para um lado e escolhia livros para a viagem, pegar na máquina fotográfica conduzia-me a essa ideia de postar fotos do catano, receber elogios, gabarem-me a coragem quando estava a ser egocêntrico nas horas, pelo menos de início. Queria ler e ouvir pessoas gabando o quão diferente era, como sempre quis desde criança, de me tornar menos igual e menos comum. Queria ser especial e na noite antes de partir, entre pernas a tremer e saudades tidas como certas, vi-me aquele intratável adolescente que queria ser diferente a todo o custo só para não ser como os outros. No entanto, sem sabê-lo, o amigo que me deu dormida nessa noite tornou tudo muito mais simples. O Google Maps levou-me ao Quirguistão ainda antes de encontrá-lo, e vimos por alto o que me esperava. Recolhemos informações, gabámos as conquistas de Genghis Khan e o J.P, que me conhece de tempos em que ainda não era tão idiota, sabia que a comida é sempre aquele problema que me torna mais picuinhas do que um recém-nascido e também quis saber o que se comia e, sendo ele quem é, o que se bebia. Na conversa, reconciliei-me com a noção de que sou afinal tantos outros que transformam a curiosidade num desafio e a descoberta do mundo numa pausa da vida, de sair para ali porque o aqui está visto e é casa. Ninguém quer ficar para sempre e é por isso também que saímos do ventre materno: cansamo-nos do mesmo e o ar limpo do exterior arranca-nos com mais força do que o obstetra. Percebi naquela conversa o meu universal dom de ser intrometido na simpatia do alheiro que me é externo.

Acordei bem cedo na manhã seguinte, inspirei mais fundo do que o Poço Negro e sabia que me esperava uma longa viagem, uma noite mais branca que as de Doistoievski e só para dar o tom, encontrámos um par de cuecas no pátio exterior, como se algo me impelisse a preparar para tudo. Quando saí do apartamento, quando entrei no Metro, quando cheguei ao aeroporto e conheci os meus colegas de viagem, apenas o meu corpo ia passar no check-in: o meu espírito pairava a uma altitude superior a qualquer avião e estava já no Quirguistão inquirindo, procurando e na preparação da chegada do que não pode violar as Leis da Física. Não fez sequer escala, voou directo. Estava com energia mais do que suficiente para nem sequer dizer adeus aos pássaros e quando, por volta das onze da manhã, senti aquela transição nos ouvidos, a palmadinha interna que anuncia que passámos a ser aéreos, um pequeno formigueiro eléctrico era mais do que medo ou curiosidade ou mania de ser bom: era uma esperança muito secreta, muito escondida e só minha, de que algures no lá longe encontraria outras versões de mim e que num diálogo entre nós, sairia uma versão muito melhor do Bruno que de Portugal brotava.

quinta-feira, setembro 08, 2016

Cronistão 1: a desistência da memória



Regressar de uma viagem é trazer um mundo escrito em braille. Não chegam os olhos, é preciso mesmo tocar-lhe e o pior é traduzi-lo. Um cartão de fotos, um caderninho de notas ou até palavras com que se tenta reconstruir um edifício de dias feito, ancorado apenas em trapos que deles ficaram num mar em permanente movimento algures na nossa cabeça, são apenas uma cadência ferrugenta e opaca de toda a vertigem do que deixámos lá longe, mas que se faz perto apenas no exercício da memória. Viajar é recordar e recordar é apenas falsear o que de autêntico nos tomou e surge, qual filme, nos vidros da janela, quando olhamos ao longe uma fuga ao tédio e pedimos ajuda a nós mesmos, acumuladores de factos e feitos, fabricantes dos modos de fuga. Foge-se e finge-se, e aos outros arma-se algo de parecido com a realidade, mas que são apenas traços de um quadro maior que se viveu. É o drama maior do viajante magnânimo, querer levar outros connosco e saber que se chegou já atrasado, e que chegar é antónimo de partir: quem nos escuta, quem queremos connosco na aventura ficou em terra e nós ainda no ar desejamos apenas ser o veículo certo das experiências que ficam. Mas é apenas o que lhes sucede, ficar, pois de nós não saem.

O que trago do Quirguistão é apenas pálido manto, um teatro de marionetas em forma de pessoas, simples vultos em pano de fundo de paisagem, e nunca encerrarão momentos despojados que contados surgem anémicos, mas que num tempo presente, foram tudo. Estar parado, sentado, rodeado, e mesmo assim correr livre todos os cantos do pensamento e do registo, fotografar montanhas mas nelas ver muito mais do que um registo de milhões de anos remexidos. Em pequenas notas, tentando concentrar largos traços, pretendo deixar-vos as cenas dessa peça que foi uma viagem de semana e meia a terras com séculos de História e uma realidade que apenas se observa sem se explicar bem o que se viu, e é o que vos dou por adquirido: a minha total inabilidade de vos colocar nas estepes da Ásia Central e uma certeza inabalável de vos deixar uma porta aberta para a futilidade destas pequeninas crónicas. Convençam-se de que não vão viajar: são apenas turistas na realidade do acto, no lugar do pendura e vendo a minha realidade em vidros foscos. Entre as sombras e as formas, está um país chamado Quirguistão.

E é isto que tenho para oferecer

quinta-feira, agosto 18, 2016

Quirguistão


Escolhes. O corpo é de desconforto, mas marinando algures numa gruta por debaixo de todos os teus conscientes, sentes um apelo a tão só seres outro, de modo a finalmente te encontrares. É estranho, mas antecipas que, no final, te fará sentido. Já algures, em página ou ecrã, que ser humano é angariar uma colecção de desafios, inesperados ou auto-impostos, que nos expandam como o Universo. Cada apelo a superares-te, ou a estar numa situação diferente, num lugar alheio, ensacado por cheiros, sons, vistas e também superfícies que não encontras em redor dos teus quartos, soa a destino, como se tudo se marcasse previamente e a gerência não tivesse responsabilidade por qualquer imprevisto. São hipóteses que se tomam, ficar quieto ou partir, deixar-se estar ou dar a deixa a que o calafrio da novidade e do medo dêem lugar à maravilha. Há alturas disso, de simplesmente fazer uma coisa que não condiz contigo, de te surpreenderes, tu que até nem és dado a muitas surpresas e que tens um metrónomo em ti tão rígido que nem a dissonância consegue rachá-lo. Quebrar com a rotina, de quebra-costas mas num quebra-mar, rompendo até as fronteiras fictícias daquilo que te julgas capaz.

É tudo um pouco isto, quando tomas a decisão de viajar para o meio de algum nenhures e a decisão é irreversível. Partes, um pouco manco, um pouco ansioso e com medo, leste o pior e viste o melhor e não sabes qual te sairá na lotaria. Sabes que és xoninhas, mas escolhes aquilo que só pertence a quem se atreve e a quem faz do mundo a sala de estar de casa, quando tu vês o mundo como a boca de uma piranha. Aguentas-te à bronca e partes, esperas poder voltar para contar e mostrar, mas não tens a certeza, pois estarás tão longe que te isolas do mundo. É altura de respirar bem fundo, duplicar a capacidade pulmonar e deixar assentar em ti um mantra futebolístico: QSF.

Assim como assim, a escolha fez-se para marcar golo, não é? Penso em rematar em vez de passar. Um ponta de lança na Ásia, e até ao meu regresso.  

segunda-feira, julho 18, 2016

Linguagem



Encontrei-a na conferência, mas ela a mim uns dois meses depois, se a memória não foi atropelada pelo sangue. Sem palavras estava, com uma pequena comunicação sobre filosofias e linguagens, cuja origem nem me interessa gora, mas apenas que nas minhas mãos meio texto se alinhava enquanto que a restante metade esperava criação instantânea no momento em que após "Senhoras e senhores, o doutor Rodrigo Melo" fosse esperado da minha boca iluminar uma plateia inteira com ideias e conceitos, alguns prosápia, uma dose de verborreia, mas tu nem assististe. Soube eu depois, claro, tal como depois soube que ver-te naquele dia não foi tão inofensivo como pareceu. O nosso cumprimento, mãos uma na outra, fora um falso negativo e o cruzamento no coffee break mais grávido de oportunidade do que parecia. Claro que só o soube quando me conheceste então, dois meses depois, e no entretanto nem pensei mais em ti. Mas também não me lembrava de mais nada desse dia: conferências são todas iguais. A minha vida de académico é uma câmara lenta de deja vu, só mudam as estantes.

"Posso perguntar-lhe algo?", e voltei a reparar em ti. Uma lembrança finalmente colocada no lugar, no passado vestias azul, naquele momento qualquer coisa semelhante ao vermelho, e essa cor assentava-te muito melhor como descobri mais tarde, principalmente quando nada vestias para ocultá-la. "Claro", e nos teus olhos de pupilas perspicazes a pergunta que só não podia ser calada por quem ou é maldoso ou então acha uma piada tão grande à vida que lhe descobriu o sentido: que é escrita por um comediante: "Você inventou aquela conferência toda, não foi?". Tremi e entaramelei um pouco, meio chocado meio zangado, todo eu mais vermelho do que a tua roupa. "Só metade", e nem escondi o meu pequeno crime. "Até gostei, e digo-lhe que preferi assim: conferências costumam ser habitualmente instalações artísticas mal montadas, e eu gosto mesmo é de thrillers". Ela era da corrente comediante, portanto, e falámos logo dos nossos altos e baixos de conversas em público, de como imaginar a plateia nua nem acalma, só enerva, porque existe sempre alguém com ar de quem tomou banho pela última vez no século XIX e sem roupa, então, que pivete. Concordámos que a falta de desodorizante não combina com o excesso de sapiência, que a pluralidade dos mundos habitados de Giordano Bruno pode ser contraposta ao minimalismo das mentes ocupadas de tantas e tantas universidades, e que o truque infalível para o relaxamento antes de falar era uma ida prévia à casa de banho. Ela preferia kiwis, mas comigo geleia de morango quente nunca falhava. Hábitos nossos, que eram de cada um, mas na conversa se foram tornando num património que podíamos tornar comum e transformar em amizade. Trocámos cartões.

Nunca nos ligámos no entanto. Sei bem que esta história teria sido bem mais engraçada com posteriores encontros, a rapidez de um beijo escondido, depois de horas de rica conversa sobre o mundo, a vida, as correntes do conhecimentos e todos os demais termos que nós, professores, usamos para passarmos por gente esperta. Na verdade, passaram-se três anos até que nos voltássemos a reencontrar e apenas para dizer um rápido olá entre voos no aeroporto de São Petersburgo. Ela falara sobre Dostoievski e a cidade (a que eu assistira, apesar de nada ter a ver com a minha área) e eu fora apenas com a minha ex-mulher de dois anos como apoio moral. Ex-mulher, não ex-amiga (foi sempre, aliás, e mesmo quando morreu, vinte e três anos depois, continuava a ser talvez o mais feliz divórcio dissonante da lógica que encontrei). Mandámos umas piadas, recordámos aquela longa conversa uns tempos anteriores e seguimos cada um a sua vida. O cartão que me entregou ficou guardado, numa gavetinha, mas bem trancada, porque como na vida, e como nas comunicações de conferências, a minha especialidade era deixar a coisa a meio: abrir em grande de depois ir improvisando, e ela notara o meu improviso, desmontara-o e sempre pensei que, se um dia a convidasse para um bar, se nos escondêssemos num recanto mais afastado de todos, sorrindo, acariciando o tampo da mesa como metadona da pele, ela descobriria que Rodrigo Melo é um daqueles que aparece mas não fica, que surge mas nem urge e que se rasgar convicto um papel, é para mais tarde recolá-lo. Estava aqui alguém demasiado bom a ser mecânico da observação para que de repente lhe abrisse o meu capot. Preferia que o meu motor tossisse. O meu telemóvel nunca apitou o seu interesse, portanto deixei-me ficar estacionado.

Penso nisto enquanto espero falar sobre mecânica da pontuação e a filosofia de Popper. Bem chato para vós, bem interessante para um conjunto de ressequidos na plateia. Esta está toda escrita e revista, nem eu sonharia improvisar sobre Popper. Seria Impropper (desculpem a piada, garanto que costuma resultar em certas salas mais filosóficas). Faltam uns segundos para entrar. Então, um rapaz, cópia de imitação de classe, entrega-me um bilhete. "Vem da plateia", e espreito um pouco pela cortina vendo apenas sonolenta gente esperando soporífero. No papel, "Acabou a espera", e não entendo, nem a filosofia, nem a linguagem. Quando entro, ela sobe ao palco, agarra na comunicação, rasga-a e eu nem quero saber dos papéis, só consigo forçar uma miragem que me racionalize tudo aquilo, e quando ela, que nem o nome quero pronunciar com medo que suma em fanicos, cruza os braços, seio que quer que improvise. Que desta vez faça tudo por inteiro, mas da maneira mais difícil. Improppério (outra piada de salão), e o microfone ligado recebe-me: "Desconstrução para reerguer o mundo, e recuperar a linguagem", um silêncio absoluto, algumas palmas, estardalhaço receptivo, todos contentes por poderem« sair mais cedo, e tendo aprendido tanto sobre Popper como se me tivessem escutado por inteiro.

Ela devolveu-me o cartão. "Demorei, mas cheguei, e onde estava não digo; mas sempre vim a teu caminho" e perguntou-me logo se havia algum bar para onde nos pudessemos escapulir. Claro, disse, conheço um com recantos distantes. e onde as mesas são mágicas e seriam as únicas onde me atreveria a imaginar todo um mundo de palavras arfadas que faria brotar da sua pele.

sexta-feira, abril 01, 2016

O que fica e o que vai



Cá estou num barco, que mais parece um berço tal o embalo das ondas, e só consigo escutar a água no marulho do barulho. Nunca gostei de barcos, nem para pescar e amigos meus adoravam isso. Acordavam de madrugada, material arrumado em sacos e estojos, o alto mar como destino. Nunca me interessou. Fiz uns anos de corridas automóveis, era mais novo, e a sensação de ver o mundo a ficar para trás, da ausência de permanência e de multiplicar os tempos, quase como se pudesse viver o passado, presente e futuro nas voltas de uma pista, faziam-me sentir um tipo com poderes incríveis. Um barco está parado ou avança sem vertigem, mesmo quando abre as velas, como o meu, ou com um motor carcaça que mal o arrasta o suficiente para tornar o céu numa ilusão. Barcos são bons para quem gosta se parar e observar, e para mim isso sempre foi uma perda de tempo. O momento é o que é, e acabou. Foi-se: na velocidade, os momentos dividem-se e multiplicam-se e somam-se aliás a cada vez menos tédios. Um barco representava tudo aquilo que, para mim, a vida não deve ser: estática, paciente e frágil, submissa a outros elementos foram da minha própria vontade,

Mas a vida é quase toda ela submissão, aprendemos nós com os anéis nos ossos. Seja  ao panorama ou às suas pequenas partículas, e a Lia foi o meu bosão de Higgs. Apesar da falta de velocidade quando nos conhecemos (algumas palavras trocadas na festa de aniversário de alguém comum), também senti o mundo a ficar para trás, como se a mesma vertigem dos motores existisse nos olhos de uma outra pessoa (e existe). Nas nossas palavras, poucas, nasceu uma espécie de adrenalina que não se encontra nas pistas, e eu soube, desde logo, que o inquebrável que sempre conhecera como a minha pessoa estava destinado a ser vergado, de livre vontade. Aproximámo-nos, associámo-nos, juntámo-nos e durante anos, fomos cadeia, até que, há meio ano, ela se desprendeu de mim, e na verdade de tudo, pois pouca coisa que não a memória pode prender alguém que morre, e assim se extingue de forma deformada, cedo e sem que eu possa controlar. Algum tempo antes de ter chorado tudo aquilo que contive desde os dilúvios adiados da minha infância, convenceu-me a comprar um barco. O motivo era idiota, algo relacionado com nunca ter visto o pôr do sol num horizonte marinho, e quando lhe perguntei se não era para isso que serviam os cruzeiros, a Lia, que era bastante possessiva, desenrolou um imenso ensaio oral sobre a podridão do mundo e das pessoas e que nada disso lhe estragaria o desejo. Tínhamos o dinheiro e na altura, o fantasma do nada futuro assombrava-nos em fôlegos. Comprei-o e assim, o gentil movimento de uma bola de fogo que pica o ponto atrás de um limite fictício foi um ritual semanal. Nenhum de nós sabia manobrar o barco, mas felizmente conhecemos o Ti Rola, antigo pescador, homem que vivia na rua e que por um acaso, se é que foi acaso, surgiu e ouvindo comentários sobre o mar e sobre as suas incertezas, tirou do peito aventuras marinhas de outras idades suas, e bóia puxa rede, nos envolveu nesse pequenino sonho de pegar num barco para que eu e a Lia navegássemos num outro tipo de oceano, onde se encalha em recifes e não beijos e duas cadeiras de praia podem ser os lugares mais preciosos para se assistir ao espectáculo do fim do mundo, com a certeza de que nos dia seguinte este recomeça, de novo caminhando para o sue renascimento como cúpula da noite.

O que faço hoje, com o Ti Rola ao meu lado, é simplesmente forçar-me a deixá-la para trás: entregar ao profundo aquático estas cadeiras, mas estou aqui há umas três horas e não quero despedir-me. Nem é a primeira vez que paro e me recordo e sou acometido da única paralisia que é cura e não doença. O Ti Rola entende e vem, de todas as vezes. Gosta do mar, gosto do sal, gosta até dos limites fictícios. Eu também lido bem com o fictício e menos com o que é real. Por isso gosto mais da vapidez da velocidade do que do olhar permanente e fixo de embarcações que se sustentam sobre a densidade fluida das águas. Se tu fosses passageira, tudo era mais fácil; mas foste hóspede, e é muito mais complicado despachar uma casa do que um carro.

Mais difícil então é deixar para trás o que nos põe de pé de manhã e nos deita à noite.

sexta-feira, março 04, 2016

Escolhas



Lembro-me de ser mais novo, criança no recreio da escola entre toques de campainha, e em qualquer canto a hipótese de encontrar minúsculos dedos a tocar o acordeão de um "Quantos queres" cresciam à medida dos meus passos. Quem inventou esse jogo certamente se fartou de jogar à lotaria, entre tantos milhões de hipóteses e possibilidades, e numa qualquer inocência que já sabe muito bem do que a vida joga, reduziu tudo a oito, e sabendo também, que a vida não só é roleta, como também póquer de cartas escondidas e bluff, atribui um algarismo a cada escolha: escolhes o número, calha-te o desconhecido. pode ser maçã ou banana, pode ser vermelho ou amarelo (e só quer amarelo quem ainda não percebeu que na magia das cores, o amarelo é demasiado revelador e tem tanto mistério quando um banco de madeira acabadinho de pintar. Não um carcomido: os carcomidos já apalparam tantos rabos que imaginar um exército de pessoas sentadas é um pedido para nos sentarmos), pode ser carro ou foguetão. Quando te pedem, não sabes, e não saber faz parte do jogo e da piada, do riso que se segue ao aleatório, de uma certa roleta de amigos que gira e giros que são, só riem porque também eles já quiseram quantos, e quandos.

Cresce-se e de um jogo de oito hipóteses aprendi vários mais, com múltiplas escolhas de escolha múltipla. O meu preferido, no entanto, tem uma só: abro a porta do quarto e se estiveres lá dentro, um ponto apenas pode levar a vários caminhos, maiores até do que o quarto (e nalguns momentos, maiores até do que é maior, para ser sincero). Atravessar a fronteira entre o mundo e essas quatro paredes é tão arriscado quanto seguir para lá dos Urais, e tão perigoso. Adoro encontrar-te estendida na cama, a ler só. Esse caminho, por si, puxa perguntas sobre o livro e recriminações que não se falam e só se olham. Se não estás a ler, simplesmente olhas o tecto, e perguntas são também estorvos, pois estás a olhar bem para lá de tudo, desenhando um outro mundo onde te confortas de poltrona. Dizes-me várias vezes "Vou acolá, onde não me prendem, e não és tu quem me agarra, mas sim, este ar podre do quotidiano, onde se respira secura se queremos viver e passar de um dia para o outro sem medo do sacrifício", e esse olhar que me repreende é viagem e trilho. Enquanto olhas o tecto, mais vale a pena deitar-me no chão e nem sequer tocar na cama. Quando entro na casa de banho, não demora mais do que a passagem de um pente até que estejas também, olhando por cima do meu ombro. Perguntas-me o que faz um homem quando percebe que, no espelho, é outro que não aquele que viu pela última vez. O mesmo que a mulher, provoco eu: sobressalta-se, habitua-se, regozija-se e a melancolia do amanhã em que tudo se repete estende-se e eleva-se sobre nós. Uma vez, quando te respondi algo do género, simplesmente agarraste na minha cabeça como quem segura um ovo para parti-lo, e por momentos julguei mesmo que ias fazê-lo, mas só fechaste os olhos. Segundos que para mim foram fotografias tuas, e quando me largaste, um sorriso e um beijo na testa. Senti-me melhor.

São muitas as histórias deste quarto, impressas por nós, impressas em nós e sobre nós também. As tuas preferidas são aquelas que acabam num sumiço; as minhas, habitualmente, começam por uma brincadeira e terminam na mais séria das coisas, séria porque me muda e transforma, porque quando termina sou outro. Na verdade, são a mesma, e é um "Quantos queres?" diferente, entre risos, ou simplesmente sem barulho, simplesmente uma cadência de pingos de corpos, das quatro dimensões da língua (que, saibam vocês, só se podem ver com bocas a três dimensões: a que sobra, a quarta, ninguém sabe bem como apanhar, mas o certo é que todos a sentem e desejam), de elementos puros, do cheiro a tempestade que se define pelo movimento e também pela paz depois do movimento, de uma série de escolhas e de coisas que começaram bem antes de fazermos de um quarto algo de parecido com um quinto dos Infernos. 

As escolhas, os caminhos e tanto que pode acontecer ali pelo meio. Nós incluídos, e quanto termina, não é bem um fim, mas outro começo, outra história.Um sem número delas.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Quantos queres?



Se o fumo da memória se pudesse agarrar, de maneiras quem nem eu entendo nem a Física permite e nem a Química gera, as minhas mãos seriam uma caverna. Não sei se alguma vez observaram de perto uma pintura rupestre. Não é exactamente uma pintura: na verdade, é feita tão em braille, com entalhes e depressões, que se pensarem que os nossos antepassados eram cegos ou viam com as mãos não se tornaram alienados de repente. Figuras e desenhos são, na verdade, a expressão física de alguém que quer deixar marca, que se recusa a simplesmente vaguear no sopro de vida que lhe foi concedido e não se importa que o que tem à frente seja rocha, ou que esteja frio medonho e incapacitante e só exista, à entrada da caverna, uma pequena fogueira, ou que de repente um urso entre e o apanhe desprevenido. O importante é o prolongamento de si para o mundo que conheço, para o real que faz parte dos seus dias. Ele vai, mas ao mesmo tempo, há-de ficar.

As memórias são assim. A inevitabilidade do seu sumiço é certa em quase todos os casos, mas enquanto existem são marca do que já não é, e o que não é pode ser um momento fugaz, uma longa história que se estica ao ponto da transparência ou a pessoa que quando esteve era tudo, e mesmo não estando é um bocadinho mais do que devia ser. Não sei em qual destas categorias coloque a Olívia, que passou em mim como um pincel pré-histórico. Eu, superfície rugosa; ela uma palha de aço encarniçada. Juntos só podíamos criar faísca e daí ao fogo é uma baforada. Tudo o que me lembro é de ter desaparecido, porque eu caibo aqui e nesse passado fui tanto que a minha existência passou de certeza por um estado da matéria desconhecido, no meio ponto entre acontecer e simplesmente apagar-se, onde quando nos sentamos explodimos em trezentas e setenta mil partículas, cada uma delas um ponto que a Olívia beijou, e por isso não pode ter durado meses, nem sequer o meu tempo de vida.

Não me consigo lembrar, sabem, é o maior problema das memórias, é que nunca nos lembramos delas, nem quando as temos presentes. Por natureza, não se pode confiar na memória, nem para consolar. Nunca é bem o que se viveu, mas pode ser até bem mais do que houve. São tudo o que temos, mas são nada ao mesmo tempo. A Olívia simplesmente seguiu o seu trilho de amnésia, ou não, nem siei, nunca lhe perguntei nem posso e fiquei com este saco de memórias que é também um saco de nada, cheio de ar, que virado do avesso deixar cair precisamente o que já existe no chão. Criar este palácio de lembranças dói na destruição, porque até que ponto não ficámos só nós com a fotografia mental da sua construção? Quando se cria algo, quer-se ser lembrado, deseja-se que mesmo ao longe, mesmo quando um regressa ao estado binário, o palácio continue a existir de certa forma, de uma maneira que ambos partilham, que em noites quando sopra o vento e eu me aperto na dúvida de que o meu corpo ainda exista por completo quando sinto tanto a tua falta, desmembrado e espalhado pelos cantos da cama, também a Olívia, também tu te desfaças um pouco e nas fendas refulja um brilho de mim, que ainda me guardas e só na ruína da noite permitas que espreite e saia de ti e também me abraças na mágoa de que não me tens de facto nos teus braços. Revives, como eu, outros enlaces de sacos no chão e mãos livres para nos sustermos, mas não nos sustínhamos de todo pois a roupa caía mais rapidamente do que nós na realidade do reencontro. Minutos depois, a queda era uma falha tectónica, e tremo ainda hoje quando o revejo.

No entanto, pode apenas ser memória, ainda que a tua pele tenha existido na realidade das minhas cavernas com dedos; e agora, que relembro, sou os teus olhos. Vejo-me através deles e não sei se é a adoração do passado ou a ignorância do presente. Não sei se esse olhar chega ao futuro, se me vês também lá, e o truque derradeiro da memória é a viagem no tempo, de julgar que o futuro acontecerá exactamente da maneira como o vejo, e que é passado e que a Olívia foi-se e não volta sequer para me dizer que tudo estará como eu penso, que pelo menos me posso recrear novamente nos espaços em aberto de um sorriso genuíno que mentia aos recantos escuros da vida da mesma maneira que a memória me engana nas manhas do que me lembro, ou penso que lembro, pois recordar é o coração a fantasia e a realidade em negação.


Mas a Olívia é, em totalidade. É tudo isto, é tudo o que nela projecto; e é também o que sempre me deu e tirou. Ela é eu e é ela; e um dia, seremos ambos qualquer coisa, quanto mais não seja uma memória.

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Colectâneas 3


Quando acordo, duas marcas espalham-se pela minha cama: a minha e a do sonho que tenho contigo. À noite parece que ressonas, mas é apenas o meu coração a saltar batidas que devia fazer. Chamo-lhe a apneia do suspiro.

Dou-me liberdade para te amar, sempre, sem me prender ao que seja. De te ver sempre que quero, de te beijar quando o desejo, de te ouvir rir quando bebo a tua alegria como alguém que preciso para que o mundo faça sentido. Dentro de mim, pelo menos, és livre de ser quem és, de fazeres o que desejas, de me abraçares quando te queres atirar contra o meu peito. Neste momento, para mim, liberdade é ser teu. Não é uma prisão: é espaço amplo onde consigo finalmente ser eu todo.

O teu nome percorre as minhas veias em maglev e agarra-se a todas as minhas células sanguíneas, ao ponto de sangrar ser o maior pecado que posso cometer.

Se a relva dos campos crescesse com os meus suspiros, o mundo era todo ele um pulmão de clorofila.

Vive em mim um ectoplasma bem definido, toma a tua forma quando, sem esforço, me recordo do ar em suspensão à tua passagem. As partículas assentam e fazem fila pelo rasto que deixas, desintegram-se por não terem a energia que sustenta o que deixas para trás, as sementes, a luz. O ectoplasma tenta ser tu, mas é apenas uma imagem. O ectoplasma quer ser tu. Deixas?

Quero dar-te todos os meus amanhãs, para que não acorde uma única vez na blasfémia de não te pertencer e ao teu mundinho. Para isso, gostava de embrulhá-los, com laçarote, e deixá-los à tua porta. Numa manhã fria, mas de calor tendencial, sais à rua, e antes de tudo o mais tens a caixa. A tua curiosidade desembrulha-a e o apartamento onde vives é de repente um canto, algures no mar do Tempo, e dás por ti no melhor dos mundo possíveis. Escolhes. Gostava de aparecer. Mas só se me invocares, pensando que mais do que tudo, gostavas de ouvir um "psiu". É a fórmula mágica do meu encantamento, está escrita na parte inferior da caixa. Os amanhãs são nossos, de uma maneira ou de outra, enquanto não desaprender a respirar.

Ela deixa-se levar, ele, levado da breca, deixa-se ser tótó, no cimo de uma torre. Felizmente, salvas-me, Rapunzel, e fica selado um conto de fadas onde vivem felizes para sempre, porque não interessa a duração do momento, mas a sua intensidade: aqui, está a eternidade.


Quando a cama é pormenor, tudo o mais biologia  do destino, e nos teus olhos encontro finalmente o que procurava desde que me ensinei a deprimir: o sentido de tudo, o caos organizado, a vida finalmente dar uma resposta ao porquê. É isto, és tu.


terça-feira, janeiro 12, 2016

Truques



Aconteceu uma noite que assim, parado no caminho, assentei mesmo a meio da migração de pirilampos. Passaram por mim, rodearam-me e no calor de Verão, estival e seco, que preenchia pontilhado os espaços onde não conseguia encontrar-me, nem no destino nem na presença, a luz era fugaz, corrida. Nem me lembro agora porque parara, pois não fora cansaço, nem urgência, nem esquecimento, nem sequer nenhum interruptor que impedira o meu corpo, frágil e entroncado, de exercer acção. Se me tentar recordar, só me ocorre o vento, soprando as searas dos campos, os mesmos de onde os pirilampos, em consonância, decidiram que era a hora. Desconheço as minutas dos minutos, mas sei que era a hora. Pequenos luzeiros, vagantes sinais no peito da noite, oferecendo-se às minhas dores, aos meus vagares vagalumes.

Parei por ti, acho. Quanto mais me recordo, mais sinto que era tudo sobre ti, sobre mim, sobre quem era antes de te conhecer, quem deixei de ser depois de, devagar, deixares tudo o resto vago, vagamente.

Sem me mexer muito, sentei-me na estrada de terra. Grãos de poeira tomaram morada na minha roupa e os pirilampos, sem avançar, haviam descoberto nas partículas e moléculas que formavam o meu casulo invisível. uma razão mais para aprender ballet, instintivo. Devia ter sorrido, mas não o fiz. nem me zangue~i, nem me aborreci. Apenas estive, e em meu redor, com o vento, as luzes, o lençol desfraldado dos campos, até mesmo a temperatura, tudo variava e flutuava, mexia, vivia. Eu estava parado, estático. Um travão na minha vontade, e tanto brilho em meu redor, acredito até que pousaria em mim se ao menos conseguisse parar o meu próprio trovão e simplesmente respirasse, sem sobressalto, apresentando um sinal de era porto seguro. Mas não, o exacto oposto.

Os pirilampos contornaram-me durante algum tempo e num golpe de súbito, apagaram-se. Reagi, como não? De olhos abertos, vi-te então, uma imagem pálida, um simples susto da noite, e beijámo-nos e então sumiste, e veio outra além de ti, que eu desconhecia, e ela sorriu e contou-me uma piada, que esqueci, mas era mesmo engraçada e tinha nas mãos coisas que nunca tinha visto, mas eram um quarto daqueles onde dormimos sem sobressalto. Não sei quem era, mas nos dedos trazia várias respostas, pois quando se sentou, os pirilampos, ponto por ponto, trouxeram o céu à Terra, encostadinho a mim, bem próximo de tudo o que está preso ao que se move sem se mexer.

Ficámos ali, sem nada mais que não o maior jantar à luz das velas sem comida que podia ser concebido. Se era ilusão, não me importava: quando lhe chamam magia, ninguém se chateia.

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Cabimento



Já é costume chegar ao final do ano, desta volta que a terra efectua em torno do Sol, como se lhe prestasse vassalagem para continuar a funcionar, e esparramar em palavras fartas aquilo que pensei do meu ano. O que senti, o que fiz, o que atingi, o que ficou muito aquém do além imaginado. Isso tudo. São vários parágrafos, muita carga emocional, um armazém vasto de memórias e recordações. Para conseguir fazer justiça a tudo o que se sente em 365 dias, à matéria da alma que afinal transforma o Tempo em Vida, ao que preenche os espaços vazios da espera com flores e árvores e montanhas, O meu coração num braseiro é o que permite pintar telas, sem nunca esquecer paisagens. Este ano vai ser muito mais curto. Prometi viver 2015, mas parece que morri mais do que outra coisa. Se o ano anterior foi o atropelo de um camião desgovernado e sem aviso, este foi a tentativa de me levantar na estrada apenas para atravessar, por vontade e decisão próprias, uma passagem de nível com guarda, no voluntário desejo de ser trucidado e arrastado linha fora. 2014 foi o ano do acaso; em 2015, escrevi o meu próprio guião, numa daquelas obras que se arrastam até um ponto intolerável, e estão apenas no início. Falhei como ser humano, principalmente para comigo, acima de tudo. Abdiquei de uma das minhas maiores qualidades, a razão, e deixei-me levar pelo mais secreto dos meus trunfos, uma habilidade quase sobrenatural de transformar a minha emoção em dois universos em expansão contínua que inevitavelmente colapsam e deixam atrás de si uma cadeia de buracos negros, Guardo coisas boas de 2015, e mais do que se calhar vejo agora. Pequeno e grandes momentos, a certeza de amar e ser amado, mais do que uma vez, a certeza de escolher o que é certo no que mais magoa, a definitiva confirmação de que em forma humana, sou apenas uma pilha de feridas. Há demasiado nestes 365 dias, literal demasiado, tanta coisinha que neste metro e oitenta e seis só cabem as lascas do que sobra. Não falo mais, porque não quero e não deixo, porque não tenho mais que partilhar, porque vivi segredos transparentes, águas que passam e regressam no seu ciclo. Foi isto, fui eu, muita coisa, e o relato disso farei a quem tiver a coragem de segurar a minha cabeça no seu colo, fazendo dela uma almofada dos meus pensamentos de tortura.

Tudo o resto já leram. Meu ou das ficções pequeninas que aqui vos deixei. Se quiserem descobrir, releiam, e imaginem, e suspirem e partilhem. Se eu merecer. O meu 2015 foi a substância dos vossos momentos aqui. Se valeu de alguma coisa, não foram dias perdidos.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Barro à parede



Noites há em que acordo assim, e desconfio que nem dormia, e me lembro se alguma vez te conheci, ou simplesmente foste um dado adquirido. Deu-me sempre a ideia de que eras menos uma pessoa e mais uma entidade, daquelas que pairam sobre o mundo, semi-divinas ou mesmo divinas de todo, e que a certa altura se fartam dos cosmos e do etéreo, mergulhando na sujidade da condição humana para experimentar o que doer sem sangrar. De lá de cima, chamem-lhe o que quiserem, os olhos sem corpo observam-nos e pressentindo uma nova aventura com a qual podem sacudir o tédio, surgem então, escolhem e incorporam, e penso que foi assim que apareceste na minha vida. Nessas noites de meio caminho, onde nem fecho os olhos e nem os abro, apenas pressentindo as paredes do quarto como uma realidade, é assim que te interpreto. Como quem pousou os pés na minha vida, mas sempre voando, planando e só aterrando o suficiente para que sentisse na pele que foste real. Sei que o foste, ou desconfio, mas mesmo a minha memória se confunde quando te tento posicionar nos meus dias, nos que passaram, e com ironias de paradoxo, só tem a certeza de ter ver num futuro próximo.

Depois levanto-me da cama e não tenho outro remédio senão convencer-me que estou desperto. A varanda é uma caixa-forte de solidão, e quando o vento sopra, a esperança é de que te desempoeire das avenidas do meu cérebro, e a desesperança é que realmente o faça, e tenha de reviver a realidade de nós, do que podia ter sido e do ligeiro cheiro a alfazema que deixavas nos meus lençóis. Seria de olhos bem abertos, perder-me em sonhos das tuas palavras, em conversas longas e cheias de curvas, rectas mas retorcidas nas intenções, de um sumo chamado abraço, de uma pausa entre o teu joelho e a tua cintura, de um número inconcebível de algoritmos e variáveis que ocorrem nos segredos de duas bocas. Quando me tento forçar a retratar o que era, como eras, quem eras, só me ocorre o abstracto, e era mesmo isso, uma força sem presença, uma tempestade de destruição maciça, uma contradição de benesse, de paz, de realização, de esperança, que deixa no rasto todo o entulho e leva consigo as almas dos corpos, como se não quisesse saber da carne ou da matéria, e ambos sabemos que isso é mentira, que noutras alturas fomos essa carne, essa matéria, e matéria mais do que suficiente para conceber num mundo real encarnações de nós mesmos em plenipotência feliz.

Olho o horizonte e não sopra uma aragem. Hoje, vais continuar um pouco enterrada e posso estar na varanda, ver os pináculos breus ao longe, montanhas da nossa memória e guardar-me para sofrer contigo mais tarde. Sei que voltas, regressas sempre e eu aqui estou, sem esperar, mas desesperando por estar à tua espera. Por querer articular um mundo de teias que me envolvem e produzir apenas farrapos.

Rasgos sem rasgo.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Perguntas e respostas



Era eu criança e ia com o meu avô salpicar-me de verde. Quem nasce na aldeia, não foge ao tractor e quase todos os dias, pelo menos aqueles em que não tinha trabalho em casa, era pegado por cabelos brancos que me depositavam numa caixa aberta e ouvia "Os trabalhos são para mais tarde", e lá íamos. Lembro-me das várias camisas de fazenda que usava, longe da moda, perto do pragmatismo, como eram todas diferentes à ida e irmanadas no mesmo castanho quando regressávamos. Os meus braços, que nessa altura eram apenas arrancas, pouco faziam. O avô levava-me porque gostava da companhia, porque sempre quisera ser professor e nunca tivera alunos, e a sorte, ou os genes, se forem científicos, deram-lhe um neto com línguas de perguntador. Eu queria saber tudo, e cruzava-me por vezes com a ideia de que os meus pais não me deixavam passar tempos com os meus avós: apenas faziam uma pausa da minha incessante metralhadora com dois lábios. Ao início, o meu pai achava mais piada do que a minha mãe, mas rapidamente ambos se uniram na sua macambúzia vontade de me ver calado e em silêncio. A televisão não me calava, nem sequer a comida, e lembro-me de ter ficado de castigo por falar enquanto comia. O castigo fora o silêncio, a que me obrigaram jurando que enviariam a comida para o lixo e que os meninos de África, que tantas vezes via cobertos de moscas no jornal, chorariam muito e a culpa era minha. Aí calava-me.

O meu avô nunca me calou. Era o que ele mais adorava, ouvir-me, e até evitava tantas vezes usar a moto-serra para cortar lenha só pelo barulho. Abria todos com o machado, balançando um corpo maciço, um carvalho perene e velho, mas resistente, e escutava todas as questões. Porquê disto e daquilo, o que é aquela fruta, esta folha, a árvore que vimos no caminho, e também porque é que a avó ri tão pouco, e essa resposta tive de esperar ainda uns anos, pois não é aos oito anos que nos contam histórias de desastres de automóvel, e percebi porque é que tinha tão poucos tios na família. Mas tudo o que era o mundo, ele respondia. Pinheiros ciprestes, plátanos; pêssegos, laranjas, nêsperas; é granito, é xisto, pode ser calcita. O mundo era para ele um desfile, só de modelos, e era como se, qual estilista, ele conhecesse de cor as forras dos vestidos. Um dia, saímos mais cedo e fomos de carro, não de tractor, e o avô levou-me ao topo de um monte. "Chama-se Trono do Mundo", disse-me", e contou-me o meu pai, e até o pai do meu pai, que aqui se sentavam os reis quando visitavam a zona. Vinham a pé, nunca de cavalo, e apenas com quem mais confiavam, sentavam-se e contemplavam. Ficavam como nós, sabes, à mercê do esplendor, à mercê da beleza, com o peito e o coração arrancados pelo que vês daqui, e não é especial por ser de um só homem, mas único porque pertence a todos". Olhei e senti-me rei, não daquele pedaço de terreno, mas de qualquer outra coisa superior. Disse "É granito", e sentei-me, e aquele professor que sempre trabalhou sem salário no corpo do meu avô ficou satisfeito e puxou-lhe os cantos da boca num sorriso que valia mais do que qualquer "Excelente" a vermelho". Gostávamos os dois daquilo.

Quando o avô morreu, felizmente ainda anos suficientes depois para te ter conhecido, prometi-lhe que te levaria numa aula permanente pelos cantos do Reino. Morrendo aos poucos, mas vivendo mais do que muitos, o avô deixara-me um documento mais importante do que qualquer testamento, e também a última fotografia que conhecemos da avó, e ela está a sorrir, acho que o fez só para mim que era o neto de quem ela mais gostava, por ter sido o primeiro. Com a fotografia, a folha trazia um retrato ainda maior do futuro que ele me pedia. Chamava-se "Nós e as serras". Desatei-me a rir, e depois a chorar. Os nós apertados podíamos ser eu e ele, ou nós, lado a lado, na reinação do solo. A lista era enorme, todas as serras que ele visitara em vida, comigo ou ainda antes de eu ser um montinho no mundo, e pedia-me agora que como ele me dera tudo, eu não podia ser menos. Escolhera-te, e a escolha era tudo o que podíamos ser, uma escolha somos nós e o que desejamos e podemos ser e projectamos, e em ti eu via-me na perfeição, muito mais distintamente do que alguma vez me vira ao espelho. Perguntei-te se querias ir, e tu pensaste, nem respondeste e só na recolha de um abraço a resposta surgiu, e eu sabia qual era. O avô continuaria a viver e a ensinar-me, mas agora numa outra sala de aula, com outra professora. Éramos os dois alunos, a bem dizer. Eu fora do avô, tu contavas-me histórias sobre a tua irmã mais nova, e do quanto aprendias com ela, e das férias com o teu pai perdidas na montanha, e invejava-te. Com o desafio do avô, a inveja acabara e íamos partilhar um reino. Não era herança, era projecto, e nas tuas mãos, como várias vezes nas do avô, encontrei todas as respostas que alguma vez desejei.

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Não ser eu



Era como se o mundo fosse a redoma dos dias, ali, visto daquele ponto. Lá em baixo, crespo e agressivo, o mar percussão pontilhava os rochedos no sopé do cabo, e eu acabara ali três dias de caminhada, e para quê? Para andar, só. Partir de um ponto, não ter sequer um fim e simplesmente despir-me de ideias e de consciência, abandonando o meu corpo aos solavancos do acaso. Nunca fora assim, nunca mesmo: era, sou, serei até quando os meus pés se cansarem de fincar a rocha, o homem do plano e do objectivo. Se saio de casa, é porque existe onde estar; se levanto, não é só para esticar a coluna; se me deito, estou cansado; e se falo, nunca é para outra coisa que não exprimir o inevitável. Tudo em mim tem um motivo e um esquema onde juntas se ligam a culatras, onde as vírgulas são apenas pequeninas pausas para grandíssimas respirações de movimentos longos e efectivos. Há quem viva: eu funciono, e um dia, concluí-me disfuncional.

Nem foi por qualquer choque ou súbito horror, mas num simples esgar pela janela do autocarro, que nem costumo apanhar, vi um homem aninhado no passeio, e estava a chover, e o autocarro parou, ali, trânsito diabólico antes da grande rotunda. Vi o homem primeiro sozinho, depois com público e queriam arrancá-lo, mas ele nada,. ali estático, e vestido de cinzento, parecia até fundir-se com as pedras do passeio. Um pateta, pensei para mim, e conclui que estávamos apenas a assistir a um espectáculo grátis de mais um maluco. Mas nem se mexia, nem falava, nem gritava, nem endoidecia. Estava, apenas, como se o corpo tivesse ficado e tudo o mais que anima o que é humano fosse uma lenda, um mito, uma história que se conta à noite. Não era doença, não era nada, ou era tudo: alguém imóvel num simples acto de incapacidade, de nem se consegur mexer, e aquela contorção dos membros junto ao tronco, a cabeça que quase desaparecia para dentro da camisola amarrotada. O mundo esmagara-o, assim. Num golpe de rasgo, paralisara-o, sem soluções, sem nada que não fosse entregar-se à infância do movimento, ao feto que não vivera ainda e assim parado, assim a pedir talvez a misericórdia da inconsciência, ficara no passeio.

Pensei que também ele um dia funcionara e e olhara para agendas e tabelas e fora de X a Z porque Y ficava no meio, e que talvez num destes dias, também eu, um indivíduo completo de corpo, ficasse assim sem mente e sem futuro nos olhos, e abandonando tudo o que fazia de mim funcional, simplesmente me desligasse e deixasse que o meu contorno no passeio fosse a minha herança para a paisagem dos dias. Fiz por mim o que se deve fazer: dar-me oportunidades, porque só em mim existe esse poder. Escolhi tudo invertido, e ao contrário então, deixei-me estar numa aldeia, nas linhas de um mapa, na borda de um espaço imaginado que de real tinha apenas aquilo que lhe desconhecia. Comecei junto de uma árvore, acabei numa falésia e na ironia das escolhas que se fazem às escondidas do hábito, parei numa falésia que não queria abandonar. Cobrindo o céu cinzento e arejados por ventos poentes, por recados do verde que cobria as minhas sapatilhas molhadas, projectados sobre mim como um impermeável que molha, mas protege e seca lágrimas que ainda nem tinha chorado, quis desistir de funcionar e entregar-me simplesmente à existência. Quis esquecer a minha vida, o que fiz, o que sonhei e perdi, e simplesmente desaparecer naquele pequenino espaço das coisas imensamente pequenas na sua simples grandeza. Quis ali também chorar o vento e as bátegas do mar projectadas, e quis se fosse possível, só existir naquela redoma, esquecer o passado, ignorar até que o tive e simplesmente ser, sem mais nada, sem peso, sem passado, só transmutar-me no que não tem tem memória e não recorda.

Se hoje lá voltarem, que isto foi há dez anos, encontram-me lá. Algo de parecido comigo, pelo menos. Já fui outra substância, já carreguei outra bola de negrume. Hoje, a única coisa que carrego é a leveza dos suspiros.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Fachada



Há muito tempo atrás éramos quatro garotos, e depois virámos quatro gandulos, cheios de si, cheios de tudo, vazios de juízo, e quando crescemos, fomos durante alguns anos quatro gajos a fingir que sabiam o que fazer, quando no mais básico que a vida tem iam inventando trezentos esquemas, a maior parte para poderem dizer que sim, que sabiam o que era ser adulto, quando na verdade ainda estavam bem na infância da maturidade. Hoje, somos só três, e ainda não consegui bem olhar para o meu carro a pensar que vai estar um lugar vazio. Nunca desconfiei que o Tiago cumprisse o que sempre prometeu. Achámos sempre que no seu estilo habitual, eram papéis para a rua, confettis de uma festa deprimente que ele montara, entrada exclusiva para os que tinham o azar de orbitarem em torno daquele carisma que o levou a chumbar três anos seguidos, e mesmo assim não ficar retido nenhum ano. Aldrabices, petas, mas acima de tudo uma capacidade quase sobrenatural de transformar um evento comum num desígnio divino e endovélico, num obstáculo que nenhum ser humano conseguiria ultrapassar e justificava assim clemência das altas autoridades. É estranho como, sentado aqui com um caixão aberto e o Tiago saído daquela que, desejava eu, fosse a mentira mais evidente, a única clemência que ele nunca alcançou foi a sua própria.

Tiago, o super homem, o devorador de noites, o criador de dias que pareciam saídos de filmes e invenções, daquelas histórias que se contam em bares e são incríveis, inacreditáveis, e os homens de mulheres de bom senso seriam acusados de estupidez caso acreditassem, mas também de idiotas se não acreditassem, porque pelas mesas, pelas paredes, sobre canecas de cerveja e copos de whisky, bastava que o nome "Tiago Ferraz" se propagasse num sopro e num bafo etílico e de súbito, o mundo virava ao contrário e sim, contar que se vira um indivíduo meio baixote, mas encorpado, a usar os cornos de um touro para dar piruetas já não parecia tão bizarro assim. "Tiago Ferraz" era a senha do enigma, a solução da pergunta da esfinge, e ao mesmo, em si mesmo, um mistério de supimpa enormidão. Se calhar, a ilusão era nossa, que o Tiago nunca quis iludir alguém ou esconder-se do mundo: de duas em duas semanas, dizia "Um dia destes, faço-o" e depois de lhe darmos palmadas nos ombros, sorríamos e pensávamos que este homem estava a ser doido. Porque uma coisa é vermos alguém macambúzio pelos cantos, a apagar-se, a entregar-se ao ar para que o sorvesse de uma vez e assim pudesse inventar-se como sombra branca. Mas nunca, ele era a alma da festa, era a corda que puxa o motor de arranque e se possível fosse, o carro vassoura que, estando os outros queimar os últimos vapores de combustível, ainda seguia em rally com a multidão. Há pessoas que são a alma da festa: na sua ânsia gulosa de tratar a vida como um banquete de rodízio, o Tiago era a alma do mundo, e como podemos acreditar quando a alma do mundo nos diz "Um dia destes, acontece, vão ver"? Não podemos, mas ali, à minha frente, à nossa frente, tornámo-nos três em vez de quatro.

Eu era um, os restantes nem interessam porque íamos a reboque. Eu conhecia-o há mais tempo, porque crescemos na mesma rua, e só quando acordei para as coisas importantes da vida, como as pessoas, é que percebi que o Tiago tinha uma vida paralela, num túnel que se afastava da superfície, algures longe de toda esta azáfama de homem de todos. Uma vez, levou-me ao cabo da Roca. O vento cuspia-nos, e nem assim ele se demovia, bem apertava o casaco e eu, encolhafado, apenas o olhava, perguntando-me o que raio via ele naquele promontório ocidental, a cauda ou o nariz da Europa, e num repente o Tiago abriu os braços, e pensei que ia mesmo voar, mas não voou. Inspirou fundo e foi como se uma epifania lhe empurrasse o sangue para os orifícios, e ele se pudesse desfazer ali em hemoglobina, mas não. Puxou a minha mão e apertou-ma. Durante uns segundos, deixou-se estar, assim imóvel, assim a sentir-me, e disse "Ela é a tua. Não a deixes, e nem te enganes", e percebi que estava a falar de ti, sabes, mesmo que nessa altura eu não soubesse o quanto queria ficar contigo, e o quanto o cabo da Roca, esse promontório do Ocidente, seria o local onde encontraria o meu absoluto Norte, segurando a tua mão com aquela que o Tiago apertava. "Sabes, continuou, eu não pertenço aqui, e daqui a cinco anos sumo, e não me vês. Não te estragarei o Cabo da Roca, não te preocupes, vou para outro lado", e lá estava ele novamente com aquela conversa em que nunca acreditámos. Na nossa cabeça,, só existia o Tiago das polkas em cima da mesa, das cantigas em plena explosão da voz, das ruas estreitas que se tornavam praças de fandangos e arenas do riso. Se o Tiago não era feliz, quem podia ser?

Mas ele sempre nos avisou, sempre. Que a vida era uma festa, mas num canto, bebendo um absinto negro, havia alguém que se sumia a cada grito, a cada passo, a cada instância em que crescíamos e nos tornávamos mais leves, abandonando tudo. O Tiago era um mártir, e a verdade é que cedo deve ter entendido isso, que por mais que lutasse, nunca conseguiria deixar o seu outro para trás, e que aquelas festas foram simplesmente a sua tentativa de nos dar a vida onde só existia, lenta e imparável, como ponteiros de um relógio que vai sumindo os seus minutos, a morte se assumiu corpórea à nossa frente. Aquele não foi o verdadeiro fim do Tiago: durante os anos seguintes, viemos a descobrir mais façanhas, mais aventuras e vários Tiagos, até: um de 15 dias na Tailândia, outro de dois meses na Islândia e até um que, fugindo de tudo, plantou um pinhal numa área de três hectares na zona de Almeida. Quando chegar a altura, montaremos lá um piquenique, com tudo a que o Tiago tivera direito. Excepto um cabo. Aquele cabo. De qualquer forma, ele já levantou voo, não sei para onde penso sempre, quando um vento mais forte me leva o guarda-chuva em dias de Inverno, que é apenas ele a ser o Tiago, e que toda a rua é uma imensa área onde me puxa para mais uma partida, mais uma brincadeira, mais uma voltinha.

Mas eu nunca acreditei nele, por isso que sei eu de ventanias?

sexta-feira, novembro 27, 2015

Colectâneas 2



Explica-me porque é que a tua cara é a razão pela qual eu desejo que o mundo continue a rodar em torno do seu eixo.

Já alguma vez reparaste como o sol tem vergonha de não providenciar tanta vida quanto tu?


Quando penso em ti, sabe-lo? Sente-lo? Criam-se tempestades eléctricas dentro do teu cérebro? Gostava de saber se o caminho que vai do meu coração ao teu te é perceptível, se quando a tua falta me faz pesar três toneladas mais, também te pesa e te dói, se nos teus dias olhas para a parte inferior do Facebook e choras um bocadinho sem deitar lágrimas porque o nome não está, tal como eu, se também te custa o final da tarde quando a minha voz não te chega e todos os outros dias em que eu me aninhava na tua mão e na tua bochecha e agora imagino-te assim encaixada em mim como quem sonha e vê tudo. Gostava, Mas ter o que se gosta é uma aventura bem diferente.


Vale o que vale. Sem ti, vale menos. Não vale de muito. Montes e vales entre a minha vontade e o teu céu da boca. Vale tudo, até, mas sem valer grande coisa. Não valeu, e mandamos isto tudo abaixo. Que dizes? Não me vale de muito o pedido, mas lá está: vale o que vale. Ainda assim, vales-me mesmo quando não vale, e quebro as regras, e na tua imagem, imagino o que a vida pode ser, quando a minha vale, mas sem valer-me de muito.

Há quanto tempo não digo que te quero, valentemente?


A tua voz escapa-se da prisão da almofada pelo meu ouvido encostado, desbrava o meio caminho entre o sonho e a vigília, cruza-se com tudo o resto que me aflige e antes de se esgueirar pela clarabóia em forma de orelha, deixa um recado: estou mas não estou. Não posso, mas quero. Não devo, mas é como se fizesse. Não esqueças; ou não, mente-te uma e outra vez até que soe a verdade. A sério. Voas e novamente, a tua voz escapa-se da prisão da almofada...


Ontem flutuámos de mão dada na parte de trás do Sol. Não sei o que vimos, porque só fechei os olhos para sentir o teu sangue por debaixo da minha pele. Nem sei se lá estavas. Para mim, sim, e o que sonho e penso, normalmente, é aquilo que existe no momento. Se todos os momentos fossem tu, fossem a tua mão na minha, fossem o que existe para lá do sol, então abriria os olhos e e abraçava-te assim, sem te tocar. Não precisava de mais, nem sequer de flutuar. Podíamos estar simplesmente de pés bem assentes na terra, mas a mente fica bem para lá das estrelas.

terça-feira, novembro 17, 2015

O que é verdade



Lá porque vos vos conto isto, não pensem que é verdade. Melhor, assumam que é, mas não assumam que eu assumo, porque senão sumo da vossa presença e nada conto. Aconteceu, mas quem teceu, não conto. Porque não sei. Quando os pés escorregam para as sapatilhas de caminhada, em volta higiénica por outro lugar que não eu, as estradas tornam-se borracha de apagar, mas nunca até agora se haviam tornado num livro que escrevo enquanto caminho. Desta vez deu-se, e o pior é que não dá para devolver. Caminhar tem destes perigos: uma vez saídos do conforto e do conhecido, entramos numa zona onde tudo pode acontecer, por muito a banalidade dos dias seja certa, e a previsibilidade da vida nos seja uma garantia de 2 anos, com a eternidade da certeza. Quando as pernas se decidem a contar uma história, o corpo segue, a cabeça simplesmente pára, porque não é com ela a narrativa.

Ora, tanta volta, e mesmo que o percurso seja circular, pelo curso desta história ainda não vos levei e agora é que vai ser. Não sei se conhecem o Vale de Embolo. É uma pequenina povoação que se sente orgulhosa pelo facto de lhe chamar povoação. Quando montes de pedras formam rectângulos, a convenção exige que lhes chamemos casas, e eu não sou a convenção, mas a minha mãe ensinou-me a, pelo menos, respeitar o mundo e as pessoas e as coisas, e a minha mãe não está aqui, por respeito à morte e ao seu poder infinito, mas se em espírito já me olhar com carinho, e reprovação, decerto ficará satisfeita, em parte, por vos apresentar de embalo Vale de Embolo como um fantástico e típico local, daqueles onde se está e se convive, e até nem apetece sair. Imaginem Vale de Embolo assim, porque, vá lá, de que serve a realidade? È um estorvo, e se vos conto isto, se o podem imaginar e não ver, mais vale que imaginem em estilo. Vale de Embolo, património da Humanidade, igreja de magnífica e onerosa ruína, ruas escavacadas em homenagem aos Antigos. Era assim, e fora neste pedaço esplendoroso da nossa História civilizacional que decidi parar para beber uns goles de água. Passeio-me sozinho, habitualmente, e a companhia da música é suficiente, por hábito, mas desidratante por esforço. Engatei-me numa laje de pedra, que fazia as vezes de banco junto à igreja. Vale de Embolo, no coração do Caramulo, fora ideia de um grupo de camponeses e pastores, fartos de viajar, e que se decidiram por armar um povoado pela simples razão de estarem cansados. Naquele momento, consegui ter empatia por aquelas simples gentes, embora me tenha perguntado se, nos horrores do Inverno beirão, pelo menos três ou quatro gerações não tenham questionado a localização.

Como turista, estava aprovadíssimo: a laje de pedra servia ao mesmo tempo de miradouro, e lá ao fundo, numa linha do horizonte desenhada por uma mão tremelicante, a neblina formava um lençol, enrugado e enxovalhado, e por isso mesmo natural como o mundo, e todas as manhãs que dele sopram. As minhas costas tomaram a parede da igreja como suas, e pude, por fim, respirar em pausas, massajar as pernas, sentir os pés levitar. Vi então, a surgir por detrás de uma casa, um braço peludo. Hirsuto e musculado, apertava a pedra como se disso dependesse o sangue que lhe corria nas veias. Durante alguns segundos, arrancou pedaços de granito, e neste ritmo caíram também pêlos do braço, e diminuíram músculos, e o braço, que antes parecera uma coluna de templo romano, era agora como que uma lança de um soldado romano, fino e frágil e branco, um pouco como me sentia naquele momento. Não se avistava vivalma na rua, eu era a única testemunha e lembrei-me, dois quilómetros antes de me ter cruzado com uma palavra que indicava uma direcção, e essa direcção, na altura cómica, enfeitara-se festivamente de horror: a cova do Lobo. Eu sou da aldeia, sim, mas de uma aldeia que cheiro bem a monóxido de carbono da cidade, e já os meus avós me contavam histórias daquelas, mas era só um braço, e que estava a ver eu, pensei, senão uma alucinação da hipoxia? Mil metros de altitude, a respiração torna-se turva, mas não o suficiente para confundir o que seja com um par de mandíbulas que espreitaram por detrás da parede, pontiagudas e assertivas, mas em simultâneo a minguar e assumindo camaleónicas a forma humana dos lábios.

Preparei-me para tudo, fosse o que fosse tudo, ali em ermos solitários. Com lentidão e calma, arrumei a água e preparava-me para assumir a minha masculinidade vertical e partir para expô-la ao resto da montanha, quando a lincatropa visão se apresentou total, ou melhor, não se apresentou de todo: por detrás da casa, surgiu uma adolescente com os seus 14 anos, nua como só a montanha se costuma apresentar, e olhando para mim como quem se assusta com as frinchas do vento à noite. Aqueles olhos negros que me fitavam, meio incomodados e meio incómodos, foram o que me convenceu de tudo. Podia explicar-me os braços e os dentes e as lupinas feições, mas aquele olhar é de quem guarda segredos de betume em cofres de betão. Mesmo na fragilidade de um corpo, as pupilas podem ser como socos, e de momento, estava a ser esmurrado sem piedade. No entanto, tomei conta de mim, num pigarreio, e olhando em redor, vi um lençol estendido numa casa vizinha. Quando ela o tomou da minha mão, respirou um pouco melhor e eu observei então nódoas negras que podiam ser de várias origens, mas eram todas nas virilhas, três ou quatro, com a forma de mãos, e percebi que por muito que te transformes e mudes, certas coisas permanecem. Ela percebeu, e mesmo que não se tentando justificar, agarrou-me com força o pulso e puxou-me a mão para o cabelo. Farrapos colados, peganhentos, vermelhos de óxido: era sangue. "Nunca mais", aliviou então a alma, e não era um motivo, mas aquela solidão de monte era outra realidade afastada, sem protecção, sem ninguém a quem prestar contas, e quando tudo aperta, sermos outros é a sobrevivência possível.

Não me quis esforçar para perceber o que para mim seria ininteligível, mas afaguei-lhe cara. e mesmo humana, encolheu-se canina e pela primeira vez nalgum tempo, sentiu algo mais do que a selva e a floresta e o distante. Vim-me embora, preso por uma trela aos seus olhos até que me afastei da aldeia e pensei no que vira, no que sentira e no que pode ser verdade ou mentira. Mas a realidade, quando estás longe do topo do nenhures, é sempre uma percepção.


sexta-feira, novembro 13, 2015

Presença



É tão certo como um metrónomo: ao dia 5 de cada mês, entro neste restaurante, arrastando chuva ou fazendo sombra à luz do sol, e numa floresta de odores, caris e especiarias de ementa indiana, procuro a mesma cadeira que já me conhece. Sento-me e guardo para mim uma hora de tempo que não existe no relógio. Eu sei que os minutos se apagam, mas não estou no presente, apenas algures para trás da cadeira e da porta e até da própria cidade. Volto a ti. Não me lembro de agora de nos termos conhecido, e isso significa que talvez tenhamos sabido um do outro durante toda a vida, que uma vez postos no mundo, o ar foi a primeira memória que inspirámos, e algures entre as moléculas, como espaços onde se habita sem corpo, estava eu e estavas tu. Recordo-me, e recordar é dar movimento ao coração, segundo os gregos, de me sorrires pela primeira vez, e de tudo o que desfilou desde então, de como pode ser mais perigosa uma fila de dentes que convida a mãos agarradas do que um pelotão de fuzilamento alinhado, com a nossa cabeça na mira das armas. A tua imagem consegue, na simples virtude de ser indelével, tornar-te presente passado todo este tempo, e ver à minha frente, e não dentro da minha mente, um momento há quinze anos, uma simples troca de opiniões sobre um livro de Borges entre dois estranhos num banco de jardim. Era de filme, nas cenas seguintes, a cadência certa do hábito fez-nos trocar muito mais opiniões, voltando ao banco como  se de um duche quente se tratasse, nas folhas e nas árvores, no vento e no sol. Eu e tu como constante do solo, pés que afagam a terra e avivam o inanimado, transformam lugares em confortáveis corpos onde conversas se espraiam e olhares são  feitos ganchos.

Um dia disseste "jà alguma vez experimentaste indiano e livros", e nunca combinara nada de tão exótico, aliás eu era um daqueles homens maçã, que na dúvida entre que fruta comer escolhe a mais banal e nem nunca pensar comer diospiros ou romãs ou fisális, é sempre mação ou pêra. Tu, a evidência de uma fisális mulher, puxavas-me a ser outro, e aceitei o convite porque me podias levar até às selvas indonésias. Ouvira falar de gente que hipnotiza com os olhos, mas quando abrias a boca, não tinha outra hipótese senão ser vidro entre as tuas palavras, não que estilhaçasse, mas sim transparente, pois nessa altura podias ver exactamente quem era¨. A tua pergunta amarrou-me e almoçámos nesse dia, rindo bastante, reparámos pela primeira vez que nos tínhamos tocado, e que as palavras podem arrepiar-te a epiderme mesmo que sejam mera invocação do desconhecido em sons perceptíveis; e foi nesse momento que se constatou o medo que existia nessa simples iniciativa, como se fôssemos diáfanos, talvez até imagens e hologramas, projecções de vontades e anseios, da ideia de gente que não pode existir. Mas o mundo é tão grande que se quisermos desenhar alguém no quadro negro da hipótese, é bem provável que algures um giz lhe tenha dado pó e traço. Decidi não te tocar, e tu na mesma, sem dizermos um ao outro, e a partir desse 5 de Janeiro, cada dia 5 cinco era de almoçar no restaurante. Começou com palavras, mas à sexta ou sétima refeição, o silêncio era um embalo e já nem sabia o que comia, pedia sempre o número 1 da carta, e ficava uma hora apenas a olhar-te e a existir na tua cara. Sabia o teu nome, mas eras tão mais do que letras e ordem. Nos meus dias, tornaras-te na razão pela qual, de manhã, te convences de que a verticalidade do teu corpo não é uma dor, e que os zumbidos eléctricos que te alimentam o pensamento são não um enxame, mas a luz da respiração.

Parou tudo um dia, e porque não apareceste. Não o entendi, mas se surgiras sem explicação mal te apresentando, existindo apenas num banco de jardim como se na minha vida não tivesse um único motivo para justificar pegadas e o meu tempo neste planeta e agora pudesse fazê-lo. Nunca me refiz de que prescindisses de mim como razão, e era isso que mais me matava, não me sentir em ti. Era como se eu estivesse a viver numa dimensão paralela, onde desejava com braseiro nos lábios, e me podia até desfazer só para te ter à minha frente. Sem qualquer outro rumo, não consegui impedir-me de ser como Vasco da Gama e aportar nas Índias, de nos trazer, a mim em corpo e a ti em ilusão, de me sentar à mesa e lendo sempre um livro diferente, memoriar apenas. Pergunto sempre se já chegou alguém, e há dois anos que a resposta é não, mas guardam-me sempre este luar, nunca se deve desperdiçar um cliente fixo e os indianos percebem bastante de Matemática normalmente, disseste-me tu uma vez. Hoje leio Wodehouse porque não quero que a minha cara seja fronha de almofada, e pedi desta vez o número 3, nem sei o que é, mas assim como assim, davas sabor a tudo e agora tudo me sabe ao mesmo.

O ar muda atrás de mim, ouçou-o e deve ser a jovem de nalini na testa, que acho nem ser dela, que me veio servir há pouco. Desvio-me para o lado, dando-lhe paisagem, mas um pano tapa-me a visão e deixo cair o livro, páginas que em bloco se protegem, e alguém o apanha e me recoloca no colo.  O pano desliza e desaparece, e a minha cara pressente pele e calor, algum suor, tremores e espasmos nos músculos, uma ansiedade, medo. Toco nas mãos e mais pele, uma face, inclina-se e cola-se à minha. Uma voz que me cresce no coração anuncia "São páginas, mas podes ler sem luz, aliás até é melhor", e quero perguntar-lhe tanta coisa, e no sofrimento encontro o valor da ignorância, ou pelo menos de adiar a iluminação, e se calhar é isso que ela me está a pedir, escuridão, e nem quero ver quem conheço de cor, apenas ser um prolongamento do seu mundo, e o valor seguro das terminações nervosas. Por mim, ficava ali até todos os relógios terem passado de validade, tornando-se obsoletos.

Mas estou a enganar-vos, pois quero beijá-la desde o nosso primeiro livro.