terça-feira, agosto 27, 2013

Purgatório das Almas: vão para o Inferno...


Indivíduos que estacionam mal e porcamente parque nos HUC 

A única razão pela qual desejo que os vossos amigos e parentes melhorem é para ver os vossos carros fora dali. Afunilam o trânsito, deixam em segunda e terceira fila sem ninguém lá dentro e cortam muitas vezes o caminho a quem quer entrar filas de lugares vazios que ficam inacessíveis pela falta de educação (que ultrapassa a falta de civismo) com que enchem os HUC. Para isso, já me bastam alguns auxiliares, enfermeiros e médicos que por lá andam. O problema maior é que a vossa doença não se cura no hospital, e suspeito que seja já crónica e ireversível. Desejo-vos um camião TIR a varrer os vossos carros até ficarem o mais parecidos possível com uma tortilla.

Incendiários e negligentes vários

Esta época de incêndios está um acontecimento normal: uma catástorfe acontece de vez em quando, e o queimódromo deste ano é apenas o reflexo de anos anteriores. Bem sei que o Sporting saiu de moda no ano passado, mas isso não é razão para deixar que o verde desapareça do nosso país, para mais quando a lagartagem regressa em força nesta época. A culpa tem caído em incendiários (que, pelos vistos, são gente mal resolvida e frustrada, com vidas patéticas... Nunca teria pensado nisso se não fosse a Psicologia a dizer-mo), e com razão desejo que a moldura penal que os enquadra se aproxime dos 25 anos máximos que a nosa Lei permite, mas é impossível ignorar a repetição de tudo isto, e a falta de planeamento e prevenção que anualmente permite estes incêndios: desde pequenos donos de terreno até latifundiários, passando por Câmaras Municipais e Governo, que tiram apoios aos bombeiros, mantêm os mesmos planos de emergências e impedem a formação contínua dos Bombeiros, algo que é indispensável para mudar este estado de coisas que só pode ser comparada a uma guerra civil que travamos com o páis que já existia antes de caminharmos a duas pernas feitos macacos.

Guerrilheiros das condolências

A mentalidade do linchamento em grupo é tão habitual no ser humano que já não admira, mas o uso da morte de bombeiros como arma de arremesso política tem uma tão grande falta de tacto que se torna necessário definir os limites do mau gosto. Se concordo com o desejo de condolências oficial à família de António Borges? Claro que não: se é um caso de amizades pessoais, envia-se um pedido pessoal e pronto. Qualquer megafone oficial deve ser usado em nome do Presidente da República, e não do cida~doa de Boliqueime. Agora, encher a página de Facebook da presidência da República de desejos de condolências a uma bombeira morta é não só desvalorizar a morte dessa mesma bombeira, como usar aquilo que é um momento de dor para colegas e família como instrumento de descarga de frustrações. Mas afinal, é isso o Facebook. Curioso que entre tanta guerra de condolências, interessa mais a estes manifestantes enviá-las para o senhor Cavaco do que para quem de facto vai sentir a falta daquela que era jovem antes de ser bombeira. Se a um faltou o sentido de Estado (embora, soube-se depois, ele tivesse de facto expresso o luto pela morte dos vários bombeiros nesta época de fogos), a outros faltou o sentido de decoro, ocupado por uma vontade de serem cruzados numa guerra santa contra a infidelidade à Pátria. 


quinta-feira, agosto 22, 2013

Lapso


O tempo é o que nos impele, e o nosso maior adversário. Medi-lo já foi uma obsessão, e as unidades em que tentámos encaixá-lo para fingirmos a compreensão nos escapa como ele próprio são apenas tentativas de desespero na sua fuga. O filósofo Antífono dizia que o tempo não é uma realidade, mas sim um conceito, ou até uma medida. É uma ilusão, e já o poeta Auden alertava que não se pode conquistar o Tempo, pois este é uma ilusão. Há uma marca sobre nós, a que chamamos tempo, mas nada mais é do que o compasso da decadência. A melhor maneira de enfrentar isso a que chamamos Tempo não é a fuga, ou o movimento: é sim a pausa. O momento em que decidimos parar e enfrentar o Tempo com a única coisa que ele não pode fazer, que é tomar conta de si mesmo.

Decidi sentar-me e com os meus olhos, orbitar duplamente. Agarrei em dois lençóis de tempo, assentei o meu eterno rabo neles e contemplei a cerúlea cúpula sobre mim, espaçada aqui e ali por farrapos de algodão em forma de gás, e lançando-me, nos ouvidos, numa auto-estrada em direcção ao prazer sob a forma de Ludovico Einaudi. Para muito, caches são plásticos. Para outros, aventura. Para mim, uma cache boa fica no cimo da montanha e se as condições estiverem mesmo perfeitas, são a oportunidade para me libertar desta frágil e patética carcaça em direcção a um mundo que existe sobre mim e em que a minha vida é muito melhor, pois sou eu que a invento sem amarras. Segundo a máxima hermética, tanto em cima, como em baixo; mas aqui, o que está em cima vale tanto, tanto que é tontice pensar que o de baixo se pode comparar.

No topo da montanha, existo eu e a música. Há também ecos de um mundo melhor, mas não existe Tempo: só um lapso onde me encontro, com o meu batimento cardíaco e a minha respiração.

domingo, agosto 18, 2013

Jorro curto


Corro na rua e travas-me pelo simples acto de me aparecer na cabeça como te vi nesta manhã. A luz da janela bate no teu rosto e o meu corpo é um quarto escuro onde jogámos à macaca com os umbigos de onde surgimos, escondidos e depois à mostra de toda a gente. Para lá voltamos apenas para repetir o nosso nascimento para quem nos dá vida uma segunda vez. Porque páro quando me manténs em movimento? É que a felicidade é tão ténue que tenho medo que essa luz onde tomas banho, deitada nos lençóis, te dissolva e eu encontre o teu espectro quando tomar para mim a tua pele, que cobre o teu corpo numa atracção a que as minhas mãos só resistem se forem cortadas. Não podem parar, e não vão enquanto a tua pele for terreno partilhado pelo meu desejo e pela tua vontade.

A vida é o meu exterior; então, porque é que só quando te encontro dentro de mim consigo sentir-me vivo?


sábado, agosto 17, 2013

Alapar



O lugar na História pode ser uma poltrona, mas também um arbusto espinhoso; largo como a galáxia de Andrómeda, ou pequenino como a cabeça de alfinete; ou se mora numa enciclopédia, ou simplesmente num papelucho perdido num caderno. No entanto, tenho a certeza de que é a única coisa na minha área de conhecimento que toda a gente quer: sentar-se no cronológico friso com a certeza de que o seu nome ressoa até haver ouvidos com capacidade para escutar. O assento está adequado à medida do nalguedo e amibições de cada um.

No meu caso, ganhei ontem esse lugar à custa de ua relíquia história de que falei aqui há uns tempos: o Ford Escort Boston, o meu bólide intergaláctico na onda de estrelas universal que é a minha vida. Louvei a sua classe e presença, resistência, robustez e fidelidade, mas alertei que, por muito que me custasse, o seu tempo estava a chegar ao fim. Embora se batesse como um resistente contra esse nazi malévolo que é a decadência, a força de vontade (e da mecânica) tem os seus limites. Consciente disso, não me nego a levá-lo para voltinhas, principalmente quando essas voltinhas são aventuras enormes e pedem um veiculo à altura. ou seja, algo que possa levar uns toques sem ninguém se importar. Aí, ele asusme o papel principal, e entrega-se à sua missão. No entanto, também claudica, e foi isso que aconteceu em Cerdeira, concelho de Arganil: numa marcha a ré inclinada, a sua embraiagem demonstrou que a terceira idade automóvel também inclui falta de potência, e sem Viagra que me valesse, bem tentei, mas não havia maneira, entre mão no travão e pé na tábua, de tirar dali o Boston celta. Maus estacionamentos originados por anos de emigração em França não me ajudavam; foi então que se escutou "Eu já fui taxista em Lisboa e vou tirá-lo daí". Ser taxista em Lisboa não é uma garantia de segurança quando toca a manobras, precisamente o contrário. É como sofrer de apendicite e ouvir "Eu aprendi umas coisas com o Jack, o estripador: sossegue!" Surgindo um obstáculo na forma de uma mulher de andarilho, o expedito indivíduo soltou um agradável "Sai da frente, ó coxa", e rapidamente se dispôs a servir de meu ponto de referência. Devia prescindir do espelho e concentrar a minha atenção nas suas mãos. Este Luís de Matos da calçada de paralelo contorcia-se e girava nas suas instruções, como se o meu Ford fosse um leão, e estive para alertá-lo que o meu carro não era um Peugeot.

Ora, enquanto o drama se espalha, assomam cabeças à janela, como pássaros que, estando escondidos numa árvore, vêem milho no chão. Na rua, há plateia; de becos saltam jovens que correm e vêm assistir a este combate hercúleo entre um automóvel e as leis da Física newtoniana. Idosos e novos, todos querem ver, e comentar. O suposto taxista recebe apoio moral da mulher, que garante aos restantes que o marido é motorista da Carreira, muito bom. Eu só espero que ele não conduza da maneira como me dá indicações. Não duvidando do talento do senhor, e lutando para defraudar quem assistia ao show de roda, deitei uma olhada ao meu espelho e calculando A + B menos C (de choque) lá manobrei o carro de forma a virar o bico ao prego. Então o Escort encheu as válvulas com a centelha que ainda lhe restava e salvou uma situação embaraçosa. Agradeci ao controlador de tráfego rural e escutei palmas. Tomei a consciência de que eu era o evento mais excitante que aquela aldeia assistia nos últimos tempos, e seria tema de conversas durante dias, marcando assim, com um cheiro estonteante a embraiagem, o meu lugar no panteão da Cerdeira. Netos ouvirão um dia a história do patego que não conseguiu tirar um carro em marcha atrás. Serei descrito como uma sombra dentro do carro e um poço de suor com pernas, e o meu carro será descrito como um chaço inútil. Mas terei dado, dentro da minha limitação como indivíduo, vida à História, que dizem estar pela hora da morte. Uma história é parte da História, e sentado no banco de condutor, tomei o meu lugar na da Cerdeira.

Resta dizer que depois me fui, passear. O carro deu boa conta de si, e quando voltei a passar pela Cerdeira, um outro andarilho atravessou-se-me à frente sem aviso. Quase lhe chamei coxa, mas depois lembrei-me de que o meu passado como taxista em Lisboa era nulo.


quinta-feira, agosto 08, 2013

Uma expiração


Os Árabes fundaram um dia Aljezur, e por que razão o fizeram não sabemos. Talvez se tenham enamorado do mar, tão diferentes de outros mares de areia a que estavam habituados. Quanto a mim, apenas desejava rumar ao sul e pisar o distrito de Faro pela primeira vez, o único em todo o território continental que as solas do meu calçado não tinham alapado a borracha. Sendo eu português há uns 30 anos, parecia mal que o Algarve nunca tivesse possuído os meus olhos. 2013, o ano da incerteza, acabou por me conduzir a esse território desconhecido. Já aqui desenvolvi a minha falta de gosto pela praia, em contraste com a calma e puro prazer de mergulho com que o mar me arrasta por si dentro, sem respeito qualquer pelo meu auto-controlo. O Algarve é definido por este mesmo elemento, que num lençol refulgente se espraia até um limite fictício nos nossos olhos, e pela terra em partículas finas onde os turistas estendem a toalha. Algarve é praia, e quem o visita tem só apenas esse objectivo na ideia. Na sua paisagem, não se pode deixar de pensar que o território algarvio acaba por ser um prolongamento do Alentejo, e da sua estranha mistura entre um verde ordenado exótico com a secura que o sol traz à terra, e dá tons pálidos e dourados ao que a nosa vista cobre e procura. Foi assim que vi o Algarve, e nunca consegui deixar de pensar na paisagem alentejana enquanto o visitava, permanentemente confundindo as províncias em erros inconscientes. Faz parte da maldição desta terra, que tem tanto que ver, e é reduzida a um mero local turístico de veraneio marinho, algo que é alimentado por quem lá vive. No fundo, é também um sintoma da falta de imaginação com que este país é rumado ao ram ram do já batido.

Outras ideias me cruzaram a cabeça esta semana, mas não quero falar aqui sobre a maior parte delas. Mas quero dizer que entrei novamente numa casa que já não visitava há muito, e apenas entrevia em telefonemas. Soube bem, como se de facto o tempo não fosse linear, e pudéssemos realmente esticar o espaço em quilómetros éter dentro de nós, sem scuts ou portagens, porque a amizade é gratuita entre quem se gosta, e quem sabe que meias palavras são enciclopédias de conhecimento entre amigos.

domingo, julho 28, 2013

Um ano da graça por onde vagabundeiam desgraçados


A primeira vez que Bruno Fernandes leu Bolaño foi no Verão de 2013, em Coimbra, onde aguardava na sala de espera do S. Jerónimo tinha ele 30 anos. O livro em questão era "2666". O jovem Fernandes desconhecia no momento que aquele romance era na verdade cinco, e que o autor estava morto num só pedaço, e que este pedaço era na verdade cinco desejos de testamento que se tinham fundido num só por vontade dos editores. Fernandes não achou isto estranho, ou até aproveitador, o que pode ser atribuído a uma ingenuidade a galope, ou então à pura absorção que a escrita muitas vezes seca, mas a espaços límbica de Bolaño lhe provocou quando leu a frase "A primeira vez que Jean-Claude Pelletier leu Bolaño foi em 1980, em Paris...". Depois dessa frase, seguiram-se várias, num encadeamento de mão em mão como crianças que jogam ao "senhor barqueiro". É do carácter dos portugueses decretar o lirismo como o último dos seus bastiões, mas Fernandes sabia que em Bolaño o lirismo não era evidente. Estava enterrado no meio de cadáveres de mulheres, das areias do deserto, de pessoas que fodem porque precisam de descarregar o tédio de viver numa cama, como se fosse uma arena, e a vida uma tourada em permanência que arrasta a atenção para o centro das pulsões a que o sexo dá expressão, forma e até asas. A beleza da loucura pode estar simplesmente num livro deixado à conta dos elementos numa corda de roupa, mas era mais fácil procurá-lo no homem que conseguiu sair do fosso da vida através de receitas de costeletas.

Um chileno a estampar o México num livro, e as dezenas de cadáveres que apareem maquinalmente ano após ano desde 1993. A primeira, Esperanza Gomez, veio antes de Oscar Fate, cujo destino fora conhecer a filha de outro Oscar,um Amalfitano. Mas Rosa veio depois de Liz Norton, que tanto Pelletier como Espinoza sonharam possuir, como se fosse a argola onde se agarravam quando a figura de Benno von Archimboldi se tornou tão fantasmagórica que as suas mãos já só apanhavam pouco menos do que fiapos de solidez enganadora. Morini, mesmo paraplégico, ganhou a corrida, mas nada pôde fazer por Esperanza, nem dar esperança a um país tão imerso no horror costumeiro que uma pilha de mortas por toda a gente esquecidas não incomodava mais do que uma picada de mosquito. Archimboldi conseguia percebê-lo, se voltasse a ser Hans Reiter, mas preferia estar no fundo do mar a cultivar algas, longe dos estilhaços dos morteiros, das explosões da guerra e tendo na cabeça a noite em que contemplou a Baronesa von Zumpe a foder com o Coronel Entrescu, homem lendário do exército romeno pelo tamanho da sua descomunal verga. A vida e a morte estão separadas por anos, que são páginas, que são frases e que no final, nada mais amontoam do que os grãos de areia que preenchem o deserto do estado de Sonora, numa Santa Teresa que é ficção, mas ao mesmo tempo real em Ciudad Juarez.

Na última página de "2666", Bruno Fernandes encontrou isso, e estava rodeado por isso, mesmo que isso o fizesse fugir assim à certeza de saber superar as agruras da espera. São 1100 páginas que contêm tudo o que se quiser, e cuja violência que põe o mundo em chamas é tão natural como comer ovos rancheros no México. O Mundo esquece que há violência, porque se renova através dela, e engole o que resta da vida num golpe bárbaro que está no coração dos homens. Fechando o livro, Fernandes guardou para si não a violência, mas a imaginação que permite a um homem morto viver durante muito tempo na bílis segregada pelo seu cérebro, a que alguns chamam pensamento, mas só por desconhecimento de que a alma existe, ou não, e assim dar espaço aos racionalistas, como Leibniz ou Descartes, de assumirem que é o cérebro a razão última do mundo, mas claro que isto é falso, porque a razão única do mundo são as mulheres mortas de Sonora, que todos esquecem, mas que querem lembrar, e no entanto a morte existe para ser lembrada por quem não tem medo e esquecida por quem a teme, e por isso as mulheres mortas continuam esquecidas, juntamente com aqueles judeus enterrados na vala da cidade polaca. A vitória da Morte existe quando a imaginação é derrotada, e Fernandes lia em Bolaño um desespero cínico que queria acreditar realmente na imaginação, e em úlitma instância na loucura, como figuras crísticas de ressurreição. O escritor era Lázaro, regressando da morte para ser lembrado, mas o derradeiro insulto que podia receber era precisamente a glória do reconhecimento. 2666 é o ano onde o paradoxo se cruza, e se Archimboldi realmente ganhar o Nobel, Hans Reiter vai esquecê-lo, e lembrar-se apenas de que no apocalipse, os livros são combustível. Mas curiosamente, também o podem ser da salvação. Bruno Fernandes arrumou o livro na mochila, levantou-se e procurou a chave do carro. Uma vez encontrada, saiu do hospital e partiu para casa.

quarta-feira, julho 24, 2013

Having the time of my life, watching the clock tick


Uma boa vida é feita de equilíbrios, e o balanço de lastro existe muitas vezes fora de nós. No meu caso, que sou alguém com uma tendência para a melancolia, espaçada por acessos de "WTF", preciso de procurar no exterior algo que impeça que a melancolia alastre como uma colónica de bactérias, e me impeça de avariar, de quando em vez. Encontrei o meu lastro em 1998, numa cassete emprestada por um colega de secundário cuja fixação por bandas de punk pop ainda se mantém hoje. O álbum da cassete, "Nimrod", entrou-me no ouvido com a violência inexplicável de quem, pensado ser um intelectualóide acima de gostos populares, ignora que é naquela idade que os gostos são verdadeiramente formados, e que o nosso cérebro sabe instintivamente o que nos forma, e compõe, e constrói. No meu caso, descobri que uma dessas peças agrupava três rapazes de Oakland, Califórnia, fãs de trocadilhos de sexo e drogas, e que encontraram precisamente nesse gosto uma via verde para se baptizarem depois de uma noite de charros. Falo, como adivinharam aqueles que me conhecem, dos Green Day.

Nunca é fácil fazer perceber às pessoas porque gosto de Green Day. Devo ter dez anos a mais para continuar a gostar deles, como se a partir de uma certa idade tivéssemos de abandonar o que para nós faz mais sentido. É uma tolice. Ou então, como se chegado a um certo ponto de erudição, descer ao nível dos três acordes fossem uma despromoção. Outra tontice. Há várias razões pelas quais a música que esta banda faz me preenche, mas a principal é a mais simples de todas: faz-me sentido. Os Green Day permitem-me descer à realidade quando estou demasiado perdido na complexidade dos meus pensamentos, e preciso de um simplificador. De algo que me desligue tudo o resto para me poder concentrar naquilo a que a vida se reduz. Aliás, os meus gostos mais refinados e os meus gostos mais simples têm algo em comum: são sempre questionados, mas por pessoas diferentes. Ora, isto leva-me a crer que os nossos gostos, para serem bons, têm de ser nossos, independentes da opinião alheia. Há sempre um motivo ara questioná-los, mas desde que seja nosso: em tudo o resto, como diz o meu amigo Amrstrong, "I wanna be the minority".

É por isso que, sempre que o trio surge por este cantinho marinheiro, eu navego rumo à excitação de vê-los ao vivo. Não é grande o sacrifício, mesmo que se dê dinheiro para ver outras bandas que até nem se aprecia: os Green Day são uma das melhores bandas ao vivo que conheço, um carrossel portentoso de acção, movimento e o contrário de crenças modernas de que a melhor maneira de curtir um concerto é abanando a cabeça e parecer irónico. Num concerto desta banda, há festa rija, e ninguém está parado, porque não pode, a estimulação é constante e não há aquela pausa, nem o aquecimento: é-se lançado para um passeio dos alegres como aula de cardio, mas sem música irritante. Toda a banda é excelente ao vivo (Mike Dirnt, aguerrido e com sentido de humor; Tré Cool na justificação plena de que as regras sociais só servem para quem não tem a imaginação de existir por si mesmo), mas é em Billie Joe Armstrong que o espectáculo encontra a sua expressão máxima, como um cicerone maior do que tudo, sempre elogioso e caprichoso, invectivando o público, exigindo atenção, chamando espectadores a brilharem no palco. Há quem atire barcos insufláveis e abra garrafas de champanhe, mas os músicos a sério sabem o que é trabalhar uma audiência, e Armstrong trabalha-as há 20 anos. O concerto não foi perfeito... Faltaram temas essenciais ("Brain Stew" é sempre um momento de catarse, e não acabar com "Time of your life" é uma bofetada na cara) e a concentração demasiada em Dookie roubou outros potenciais momentos numa noite que foi até de memórias menos esperadas. Mas isto são queixas de um fã, São aqueles que mais vivem os momentos; e no entanto, depois de acabar o concerto a dançar um slow, não posso deixar de voltar ao início: a vida é feita de equilíbrios, e nada como, depois de me terem acompanhado em fases de secura feminina, proporcionarem-me a coragem para assumir que sim, estou aí ara as curvas e cheio de truques novos. Tal e qual como os rapazes californianos. Obrigado, e como disse da úlitma vez, a próxima vez que voltarem já vem tarde. 

quarta-feira, julho 17, 2013

Frases inúteis: 6º versículo


Há na tua boca um atalho para o meu coração que me põe a fazer rotundas

terça-feira, julho 02, 2013

A parte da espera


Agora que a minha família já o assumiu perante uma comunidade de coscuvilheiros que insistia em imputar ao meu pai males que só Deus imaginou para Job, posso escrever aqui o que já deixei a intuir há umas semanas: o meu pai tem cancro. Não é com muito à vontade que o assumo, pois considero que é um assunto muito meu, e o meu percurso para navegar pelo impacto que esse facto tem no meu humor e na maneira como passei a encarar a vida a mim pertence, pelos meus pés e desviando-me de clichés vários. Acredito que quem me rodeia é bem intencionado, e agradeço o apoio, mas há vultos dentro de nós que só encontram projecção à luz certa e exacta, e este é um deles. É uma partilha que se faz não com quem merece, mas sim com quem nos entendemos em meias palavras sem precisarmos de usar um dicionário para descrever pormenores e nuances que preferimos manter na sombra.

Por que razão falo eu então do assunto? É simples: acontece que uma pessoa cujos males me perturbam o pensamento está a passar por um problema semelhante, e fez-me perceber que partilhar partes do percurso pode servir para criar um trilho menos pedregoso a quem vem atrás de nós, e venho deixar aqui um pequenino traço do que me desenha neste quadro. Sendo a pena de quase prisão do meu pai ter de fazer duplo tratamento de radioterapia e quimioterapia toda a abafada tarde, sou eu o guarda prisional que o conduz à Estufa dos HUC. Durante hora e meia, um silêncio está para ser preenchido e recuso-me a aceitar que sejam os restantes prisioneiros a fazê-lo por mim. Decidi então, num assomo asinino, mas ainda assim bem intencionado, ligar o processo de cura do meu pai (sim, estou a tentar ser optimista... não sai naturalmente, mas dêem-me um desconto) a um livro que ofereça a mim mesmo um obstáculo simbólico que em nada se pode comparar ao mal real cancerígeno. Percorri as estantes aqui de casa, e o meu indicador puxou o tipo de calhamaço gargantuano que seria a refeição perfeita nesta viagem ao outro lado dos espectros. O meu companheiro silencioso tomava para si uma data pouco evocativa, mas que ressoava na cabeça: "2666"

Indo já a um terço deste labirinto que o falecido Roberto Bolaño (que faleceu, claro está, de causas oncológicas) , custou-me a ver inicialmente a mão ordeira do Acaso nesta escolha: "2666", até agora, apresenta uma série de personagens, sem aparente ligação entre si, que odeiam o mundo e os seus designios de tal forma que viver é a sua paixão, como se fossem Cristos a caminhar entre nós num calvário permanente. O tema é a procura: seja por Benno von Archimboldi, pelo poeta Rafael que vive num manicómio, mas cuja única loucura parece ser a arte, pela paz interior perturbada por vozes e livros que aparecem na casa mas desaparecem da memória, pelo assassino de mais de 200 mulheres, pela vontade de foder que é descrita como a máquina do mundo, impessoal, imperfeita e apenas necessária para pacificar o que não pode ser pacificado através de um acto paradoxal, destruidor e cheio de potencial de vida. Tudo isto num terço do livro, e espero pelo que vem a seguir. É estranho que tenha de ler isto enquanto estou rodeado dos vultos de que falei. Porque faço questão disso mesmo: de só ler naquela sala, naquele momento. Um momento que é mais do meu pai do que meu, mas que, à minha maneira, vou moldando no meu espaço, no meu tempo, em pequenas estátuas de paciência. "2666" ajuda ao meu estoicismo. Molda-o também e faz-me suportar o pequeno terror que é estar rodeado por putativas mortes, um pouco como olhar através de uma janela com o alcance de 30 anos. Ou menos.

Um caleidoscópio de 2666 cacos de vidro. Todos ao molho, todos ao monte, todos no cone. O cone é a vida. que sugada, nos faz esperar pelo próximo sobressalto; mas no entretanto, esperamos sentados. Umas vezes em silêncio, noutras tomando a palavra, mas quase sempre em silêncio. É o que se pode fazer.

segunda-feira, junho 17, 2013

Decente docência


Não me considero professor. Dei aulas durante dois anos, e por uma razão cada vez mais nobre em tempos de vampirismo: precisava de dinheiro. A inutilidade do curso de História num país de pouca criatividade no uso de competências faz com que seja difícil haver saídas para quem encara a sua vida na perspectiva daquilo que gosta em vez do que me torna um ciborgue ao serviço do mercado de trabalho, e reconheço isso. Por isso, o Ensino foi uma das vias possíveis de aplicação dessa competência, como gostam de lhe chamar. Gostei de ambas as experiências, por razões diferentes. Numa, pude receber um salário pela primeira vez e ter uma experiência nova. Noutra, fui para um local distante e desconhecido, onde vivi uma realidade escolar diferente e fiz amigos que ainda mantenho. Ambas as experiências mostraram-me o que são os professores: há bons, maus e péssimos; preocupados e despreocupados ao ponto do estaladão; gente que se importa com os alunos até levarem as suas dores para casa, e aqueles que vão para a escola contar tempo até à saída para irem às compras; há professores que tentam fazer das tripas coração ara conciliar o seu trabalho com a família, e outros que sem família encontram na escola uma maneira de consumir o seu tempo para não andarem desocupados; há quem prepare aulas, quem improvise e quem repita as mesmas coisas todos os anos; quem exija dos alunos e quem não exija. Há de tudo. Dizer "Os professores são isto" é um erro. Assim como tento não julgar toda a classe médica pelos incompetentes que já apanhei por esses hospitais e centros de saúde, espero que haja a mesma atitude de bom senso em relação a outras profissões.

Se estivesse empregado, faria greve. Não faria, como alguns dizem, porque quero salvar a Escola Pública. Aliás, há uns tempos falei dessa imagem de anjo branco que foi veiculada na greve dos médicos, e considero-a falsa e uma forma quase egocêntrica de ver uma greve como o derradeiro local de batalha entre o Bem e o Mal. É uma greve; e a maior parte dos grevistas fazem-na por puro interesse pessoal, e não há nada de errado com isso. Não faria greve pelos sindicatos, um grupo de homens e mulheres que não sabe o que é pôr os pés numa sala de aula há anos, e tenta usar os professores que defendem como trampolim para outras aventuras políticas (e, de caminho, lixar jovens, como eu, que gostavam por uma vez de um concurso nacional de professores com regras que os favorecessem, em vez de ser todos os anos para os mesmos). Não faria por asco ao Governo, embora haja todos os motivos para combater o actual estado político das coisas com todas as armas ao dispor, mesmo que o primeiro-ministro ache que democracia é aquilo que lhe dá jeito. Faria greve por mim. Porque há, de facto, uma diferença necessária entre horários de professores e da restante função pública. São 35 horas que não incluem o tempo gasto em casa no seu trabalho de docência. De cabeça, e do que me lembro, eu até trabalhava mais de 40 horas semanais. Ninguém me pagou horas extraordinárias, porque as fazia em casa. Por isso, não invertam a lógica; porque, de facto, a forma como a vida de professor está idealizada, como operário ao serviço do Estado, é um desrespeito pela maneira como a relação professor-aluno deve funcionar, e destrói a célula familiar que a Direita tanto aprecia, fazendo um professor andar de Norte a Sul todos os anos; porque a ânsia de reduzir gastos do Estado está a subverter aquilo que deve ser o Estado: um órgão do qual todos abdicamos a nossa liberdade total de decidir  pois confiamos que será feito o melhor a nossa favor para uma cabeça cibernética que vê número e não pessoas no espaço do País.

Não me incomoda que seja num dia de exames. O Governo teve a hipótese de mudar o dia dos exames, e não quis. Apresentou uma proposta em Maio e deixou duas hipóteses temporais: ou o mês seguinte, ou o próximo ano lectivo. Perante a impossibilidade da segunda, escolheu-se a primeira, e numa data com impacto, que é afinal o objectivo de uma greve. As pessoas fazem greve desde os tempos do Antigo Egipto, e acontecem habitualmente porque as relações entre trabalhadores e empregador chegaram a um ponto de ruptura. Pode-se questionar se é o que se passa aqui. O que não se pode questionar é que as coisas estão a decair na educação há alguns anos, e que a única altura em que os governantes se parecem preocupar com o futuro dos alunos é quando esta preocupação vai ao encontro dos seus interesses. Não tenho visto um cuidado tão grande com o futuro dos alunos no corte de avenidas de emprego causado pelas políticas económicas dos últimos anos; nem vi este extremo cuidado com os exames em alturas passadas de enunciados mal elaborados, ou corte dos tempos lectivos mantendo-se os mesmos programas, ou dando aos professores outras tarefas para além da docência (já fiz de advogado, psicólogo, assistente social e até cozinheiro numa escola... Agradeço a minha dificuldade de me envolver emocionalmente com outros, ou andava destruído),mas não a quem está no poder. A escola é transformada em duas coisas: um local onde os cidadãos deixam os filhos para não terem de aturá-los e educá-los, e um campo de treino para os robôs do futuro que devem obedecer ao que lhes dizem e submeter-se às necessidades da sociedade abandonando os seus sonhos.

Pois bem, a linha foi traçada hoje. O braço de ferro não tem sempre de cair para o mesmo lado, e uma greve pode não ser só uma comichão, mas sim uma hemorragia interna. Que isto inspire outras profissões a fazerem o mesmo. Como disse Miguel Esteves Cardoso, o português é muito pacífico, menos quando lhe pisam os calos. Somos o mais antigo país da Europa. Como nação, somos mais do que quem quer desmontar conquistas que damos como necessárias para a nossa existência democrática saudável. Dizerem que se faz isto por motivos de força maior não pega. Sabem porquê? Porque nós, as pessoas, os cidadãos, somos o mais válido motivo de força maior que existe.

terça-feira, junho 04, 2013

Parklife


Quatro acordes. Foi o que necessitei para explodir de vez e sair de mim mesmo durante dois minutos e pouco, comungando dessa demência colectiva com um grupo de gente que saltava como se tivesse molas em vez de carpos e falanges. Graham Coxon deu cora ao meu relógio, e de repente parecia um coelhinho da Duracell, abraçado a três espanholas, bradando uma só vogal que se espalhava pelo parque da cidade do Porto até aos ouvidos de quem trabalhava na refinaria àquela hora. Tinha sido já uma experiência catártica e transcendentes, a espaços celestes, que vivera na hora e meia anterior. Mas aqueles dois minutos, dois agitados, abençoados e libertadores minutos, alimentavam a fornalha da minha vontade há anos. A minha cabeça, eterna prisioneira, sempre encontrou em "Song 2" a solução para se desembrulhar, para fugir na fuga da fugida de dois minutos que concentram assim tudo aquilo pelo qual vale a pena pular e dar cabo do nosso bem estar físico em prol de um som que nos controla qual homem das marionetas.

Os Blur têm nessa canção um marco musical comparável à Nona de Beethoven, ao "Peer Gynt" de Grieg ou à "Yesterday" dos Beatles. Ficará para sempre como o nosso património musical e emocional. Não consigo explicar porque gosto de Blur. Sei a razão de viver fascinado pelo trio de Oakland que Billie Joe Armstrong lidera entre um e outro acesso etílico, mas os muchachos do Essex entraram pela minha vida sem eu dar licença, mantendo-se à força da sua música do caraças. Há um génio particular na criação bluriana, que mistura um estilo popular com o gosto pessoal de perseguir sonoridades diferentes, e inovar. Passada a fase Britpop (um céu e inferno particulares, condensados em dois anos), os álbuns dos Blur são sempre diferentes, e procurando novos planaltos musicais: no álbum homónimo, o rock indie norte-americano destilado pelo quarteto britânico; "13" é a experimentação com trezentos mil sons, num cut/paste que resulta no mais sensível e genuíno álbum da carreira; e em "Think tank" explora-se a world music, enquanto Albarn reflecte o seu próprio percurso pessoal, sem a oposição de um ausente Coxon, nos Gorillaz. Um percurso que me tornou não só fã, mas também uma pessoa com melhor gosto musical e a necessidade de um dia poder agradecer, em gritos e esperneios, o que aqueles quatro me tinham dado.

E foi assim que se uma andorinha não faz uma primavera, milhares de hipsters podem compor uma, e florir ali para os lados de Matosinhos em adoração àquelas bandas obscuras e artistas esquecidos que compõem a sua personalidade irónica e desgarrada. Eu mal queria saber disso: sabia ao que vinha. Fui sozinho, em peregrinação, de mochila às costas e pernas destreinadas. Mas fui; e esperei as horas que eram necessárias. Esperei para ver raparigas e rapazes entregues à cena pop, como se não houvesse outra alternativa. Depois de "Beetlebum", senti-me dessincronizado com o mundo, embora confiasse que as minhas não Adidas me fizessem chegar ao céu de caramelo onde me poderia acertar novamente. Não houve pausas para beber café ou ver televisão: a ternura entre o público e o quarteto, onde Alex James era epítome de coolness e Dave Rowntree o baterista com a fiabilidade do caseiro de uma casa de campo, nos fazia sonhar que naquele parque, podíamos passar toda a uma vida. Mas tudo tem um fim, até mesmo os séculos. Foi uma tristeza vê-lo desaparecer debaixo da passagem que se estendia por cima do palco, mas o seu regresso provou que haverá sempre um amanhã, universal, onde gritamos woo woo e voltamos onde comecei: quatro acordes. O mundo explode, dezasseis anos têm finalmente alguma justiça e eu sinto na boca algo de parecido com felicidade. Não é bem o mesmo, mas o borrão nos meus olhos é muito parecido com lágrimas. Obrigado Damon, Graham, Alex e Dave.

quarta-feira, maio 29, 2013

Sociopatia




A ala de oncologia de um hospital foi criada para ser a sala de aula do curso de sociopata. Quando entramos e olhamos a sala de espera, é obrigatório fazer crescer em nós uma distância emocional em relação à miséria. As cadeiras estão cheias de pessoas em diversas fases de tratamento, e vemos desde indivíduos com a saúde suficiente para se sentirem quase invencíveis e optimistas, até espécies de árvores encarquilhadas, ainda não velhas, mas conhecendo que a sua folha está caduca, e o Outono dará lugar a um Inverno de descontentamento de quem as amam. É como se uma súcubo cruel passeasse pela divisão, dando beijos de morte a toda a gente. Alguns, sortudos, levam apenas com chochos leves, deixando apenas um leve travo a acre e amoníaco. Um punhado tem o azar de ser vitima do linguado mais desagradável de todos, que revira não apenas a boca, mas todo o corpo numa convulsão que apaga o brilho que há nos olhos e a dignidade última que é podermos estar erguidos pelos nossos próprios meios.

Podia ser só isto. Mas no caso dos HUC, o edifício de oncologia tem dois andares adicionais.

A visita ao intermédio prolonga esse sentimento de biasma, onde já nem se consegue sentir medo, que é um primo muito afastado da esperança, em grau zero. Existe resignação, e espera, e ainda assim o espaço para a incerteza que as situações extremas ainda têm. Existe uma gigantesca clarabóia que dá a ilusão de não estarmos dentro do que seja, mas sim num elísio espaço, com uns toldos e cadeiras, como se fosse a esplanada onde alunos de um mesmo curso se reúne nos intervalos das aulas. As conversas parecem de adolescentes: fala-se de Radio, de como correm os testes de Quimio e das novas tecnologias da TAC, um novo Ipod que coloca o som realmente dentro do cérebro. No entanto, tal como a clarabóia, serve apenas para disfarçar o desconforto, um faz de conta requintado e misericordioso. É um acordo de cavalheiros entre colegas da mesma canalhice, ao compreender que não se pode estar ali a falar Daquilo a toda a hora e a todo dia, mesmo que seja Daquilo, a partir do momento em que o mundo lhes cai em cima, que todos os dias e todas as horas se vão preencher a partir de então. Tenta-se fugir Daquilo, mas dos outros que sabem Daquilo, porque só vão conseguir falar Daquilo e de nada mais, à tonelada.

Assisto a isso todos os dias; e assisto com a desconfortável sensação de saber mais sobre o real estado Daquilo do que quem tem de carregá-lo. Vejo sorrisos de abençoada ignorância, quando me apetece cair por dentro e desfazer-me. Felizmente, como disse ao início, a ala de oncologia cria sociopatas. Ou, no meu caso, reforça-os. Se nunca ninguém fez uma defesa da falta de empatia como uma dádiva social, serei eu o primeiro. É tão ou mais útil do que o seu oposto, quanto mais não seja porque nos permite ser nós mesmos, completos, em situações que claramente nos ultrapassam em curvas. Só podia, porque se a vida fosse uma recta, não chocávamos tantas vezes.

terça-feira, maio 28, 2013

O real escreve-se também com frases


Amanhã vou escrever uma carta que nunca vais ler, porque sempre acho que não tinha carta branca para que fizesse parte dos teus hoje. Vais estar na ponta da minha caneta, no fim dos pensamentos, no meio da página. Mas essa totalidade vai ficar entre mim e a minha vergonha. Porquê? Porque sou egoísta, e isso é uma boa forma de nos salvarmos quando a perdição está em nos darmos assim, de um todo logo, completamente faseado.

sábado, maio 25, 2013

Frases inúteis: 5º versículo


A tua cara pode bem ser uma fonte ou uma campa. A sede é a mesma.

sábado, maio 04, 2013

O amor mais que perfeito é aquele que não existe: 8 frases



Sentada na rocha, pareces uma sereia com um o canto da perdição mudo nos teus cabelos. É apropriado que queira ser o marinheiro a viajar nessas ondas, mas tento não cair novamente em redemoinhos, ainda por cima no topo de um monte. Se te voltas e sorris, não estou mais perdido do que encontrado, mas ainda assim tens o bom senso de manter o olhar longe da minha fraqueza. É em piloto automático que me sento a ver até onde consigo estar longe, sem aproximar a minha distância da proximidade que quero ter da segurança do que está longe. São horas, digo. Horas de quê? De acertar o meu relógio. Levantas-te e o teu sorriso é o basta para me desacertar os lapsos de tempo num compasso cujo maestro é a arritmia.

Frases inúteis: 4º versículo



Tu, a monção de censura, acabaste de chumbar o estado do meu orçamento emocional para este ano.

Um pequeno apontamento acerca da estupidez


Todos têm defeitos que os descabelam, e um dos que me coloca possesso é a estupidez; e aqui, quando falo de estupidez, é da voluntária e orgulhosa: o indivíduo que é idiota puramente burgesso e labrego de discurso e ideias, e ainda assim tem a mania de que sabe coisas e melhor ainda, deve ser escutado e respeitado. Estou a fazer esta separação, porque quero ser justo para com aqueles que, mais simples, não sabem mais porque não podem. Porque a vida não lhes foi simpática, ou então porque não querem e vivem bem assim, respeitando as suas limitações, mas mantendo uma curiosidade saudável pelo mundo. Há quem lhe chame sabedoria popular ou simplicidade, mas eu prefiro tratar isso como saúde mental. Afinal, se não formos curiosos, resta-nos pouco como seres humanos, e como gente. 

Tenho defendido nos últimos meses que uma guerra à inteligência tem existido de há uns anos para cá. Não apenas nas altas esferas, como se gosta de pensar quando dedos apontam a governantes e testas de ferro, mas no cidadão comum. Tudo aquilo que possa ser considerado um pensamento complexo é encarado como "teorias", dito desdenhosamente como se fosse sarna a coçar e desparasitar o mais rápido possível para não chatear. Alguém que gosta de ler é um parvalhão que merece ser insultado na rua, e qualquer coisa de semelhante a raciocínio articulado leva com bocejos e aquele ar de quem acabou de sair da cama pela manhã. Mas depois, chovem queixas acerca do estado das coisas, no molhado das redes sociais, das mesas de café e no tête à tête das ruas. Não queremos ser chateados pelo pensamento, mas depois, exigimo-lo naquele que elegemos, porque, claro está, nós temos: os outros não. Coitados deles. Se aparece alguém que se mostra capaz de falar um pouco mais a sério, e de forma capaz, o rótulo da arrogância aparece com rapidez. É verdade que entre um arrogante estulto e outro versado não há grande diferença de atitude; há no entanto na realidade, que costuma ter, espanto um preconceito contra a incompetência.

Nem me quero referir às grandes batalhas que se travam entre Iluminismo vs Obscurantismo, num cenário que retrocede até aos século XVIII nalguns aspectos. Nem quero, inclusive, defender um castelo científico ao qual já apontei defeitos por várias ocasiões. Dirijo-me apenas à inteligência pura de cada um de nós: acordai. Se querem um país melhor, aprendam a pensar. não desprezem livros e letras, tenham curiosidade. Falam crescer espírito crítico. Não aceitem aquilo que vos põe à frente, nem mesmo que venha com o rótulo do Facebook. Aceitem opiniões alheias, conversem argumentando e não insultando, deixem que outras ideias passem por vós, quanto mais não seja para reforçarem as vossas estruturadamente. Não se entreguem à estupidez, por favor. Porque o que é demais, farta.

domingo, abril 28, 2013

Frases inúteis: versículo 3



Só gosto do amor passageiro na certeza de que és a condutora

Frases inúteis, versículo 2


Vou parar de dizer o teu nome repetidamente, ou morro de diabetes

Frases inúteis: 1º versículo


Não há anjos a voar quando olhas o céu. Simplesmente desvanecem-se quando se apercebem que te amam mais do que a Deus.

segunda-feira, março 25, 2013

Dolce droga


A propósito da descoberta de "Una mattina", há quase sete anos e meios, escrevi o seguinte acerca desse álbum: "A música é leve, e Einaudi parece tocar piano com a mesma gentileza que eu gostava que me lavassem o cabelo". No espaço de tempo em que coloquei o ponto final deste post  escrevi este, esse Einaudi, que é também Ludovico, tornou-se num dos maiores accionistas de tudo o que se passa na minha mente, e no que seja que congela as minhas emoções e as deixa expostas ao sol, de quando em vez, para me derreterem. No sobe e desce da minha cotação, do meu próprio índice, é ele o factor que evita crashes definitivos e me permite, uma e outra vez, voltar ao positivo, em vez de continuar no vermelho durante longos meses de uma economia de mercado em queda livre. Há uma relação de união siamesa entre a minha capacidade de renovar o meu humor e as cordas de piano que ele martela e estica ao ponto de me esticar também a mim até à varanda de uma qualquer paisagem que só existe no segredo que a sua musica partilha comigo.

A manhã transformou-se no amanhã, e num livro nocturno que num lapso de tempo lembrou uma onda, em dias de espuma, que rebenta num quarto fora deste mundo. As mãos de Einaudi deixam de tocar um piano, e passam a carregar nos meus botões. O pianista italiano é o meu quadro eléctrico: desliga os curto-circuitos dentro da minha cabeça, e carrega em alta voltagem aquilo que de criativo brota dela, permitindo-me equilibrar-me numa fina linha de desequilíbrio controlado. Não posso exagerar a importância de Ludovico para o meu bem-estar pessoal. Se uma pessoa pode ser uma pauta, ele desenha em mim boa parte das minhas notas, e em períodos muito negros foi mais do que um psicólogo. Bem sei que é costume retratar a importância da música em termos hiperbólicos, mas não aqui. Sem Ludovico, eu seria certamente um destroço humano mais acentuado; e por isso, vê-lo ao vivo era uma obrigação, em que falhei duas vezes, porque ainda que ele me torne um ser humano mais completo, não faz de mim uma pessoa mais corajosa para vencer os meus pequenos medos picuinhas, que me rebaixam e me aprisionam. Em 2013, venci-os, finalmente, e peregrinei, em direcção à cidade do Porto, para me sentar num auditório e deixar que o italiano fizesse de mim o que ele quisesse.

Ele fez. Tudo o que eu consenti, e mesmo aquilo que, em resistência, apenas cedi porque nunca deixaria de ser eu. Na música de Einaudi, descubro aquilo que escondo até de mim mesmo, e numa composição que voa, saltei para um pequeno lago de água salgada que produzi em golpes de vista catrapiscada. Foi uma experiência que a palavra "magnífica" apenas pode traduzir em sombras baças para os não-iniciados. Mas aqueles que, como eu, fazem de Einaudi um refúgio e uma fonte de prazer quase invisível, inefável, sabem do que falo. Em duas horas, saí deste mundo, e passei algum tempo (um lapso, até) fora daqui, num lugar onde viver é algo que pouco tem a ver com a sobrevivência, e a melhor das existências possíveis é uma só, sem qualquer vislumbre do que possa ser pior. Porque não existe. Pode conseguir-se isto com música e por num tempo em que nos querem reduzir a números, e a importância dos nossos gostos, escolhas e actos a aritmética económica, lembrarmos de que há momentos e actos que simbolizam a nossa divindade interior é mais importante do que nunca. Encontrar-me em Einaudi lembra-me disso, que ser agnóstico é precisamente o que me define como crente: o sentido é aquilo em que acreditamos, nada mais. Tudo o resto são ideias impostas; e nada disso está em Einaudi. Nele, encontramos o que quisermos, o que acreditamos e em pequeninos momentos, até aquilo que somos. Ludovico não é um génio musical, mas a sua música é uma lâmpada mágica onde cabem os desejos mais importantes do mundos: os nossos.

No final, os aplausos. Foi uma paga simbólica. Nunca na vida poderíamos devolver o que Ludovico Einaudi nos tinha dado, com a sua orquestra. Sorrimos todos uns para os outros, e nem nos conhecíamos. O pianista italiano sorriu-nos também. Agradeceu com uma timidez exuberante, e desapareceu do palco com os seus realizadores de sonhos. Naquele momento, estava eu, e não o outro eu. Podia ter dito tudo o que me ia na alma, se as pessoas certas ali estivessem. Em silêncio, fechei-me e guardei com aconchego as memórias daquele par de horas. Vão para aquele local especial onde guardo os sorrisos da minha avó, os jogos de futebol com molas aos 8 anos, o meu primeiro beijo dentro de um carro e uma pequena meia hora onde fiz um pão com alguém que podia caber na composição de Einaudi "Bye bye, mon amour". Há lá mais coisas. Mas as que disse, como a música de Einaudi, partilho-as com os meus amigos. As restantes, são minhas, e vão continuar a compor-me durante o resto da minha vida. Um pouco como os passeios no teclado de um certo italiano.

sábado, março 16, 2013

Período de reflexão


A pensar se vá ou não vá. Se for, já sei que vai ser aos trambolhões, e a tocar música saariana em xilofone ósseo com os queixos.

sexta-feira, março 15, 2013

Palermices em torno de infantilidades emocionais




Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.

                          Luís de Camões



Para um zarolho, a sua vista alcançava o que dez mil olhos não vêem toda uma vida. Os meus, pelo menos, só vêem isto de quando em vez, e fazem-se de cegos às visões claras da luz que, ironia, me cega. Jogar no escuro, e saltar à corda desfiada em traços brancos, jogando às escondidas a apanhar macaquinhos, chineses porque distantes. A distância é a da poesia que se aproxima do que sentimos e somos, para nos deixar entrever por debaixo da pala o que ignoramos.
Mas enquanto levarmos tudo na brincadeira, está visto que é da melhor criancice.

quinta-feira, março 14, 2013

O que é uma palavra



O novo século trouxe uma multiplicidade admirável de novos elementos que enriquecem as nossas vidas. No entanto, em companhia paralela, soltou igualmente na nossa existência mínimas alterações que, na sua pequenez, viram ao contrário algumas das nossas construções mentais. A bastardização de alguns termos é apenas uma releitura dessas mesmas alterações, dando de barato conceitos que já foram exclusivos ou pelo menos restritos, e agora se vêem invadidos por falsos ídolos e enganadores camaleões que se fazem passar por eles. Duas delas, que me irritam particularmente, são as palavras nerd e "génio".

A sério que me irrita o (ab)uso da primeira. Um qualquer indivíduo que viu todos os filmes da saga "Star wars" chama a si esse título, porque o paradigma dos últimos anos mudou: hoje, ser nerd é algo bem fixe, até porque a própria significação da palavra mudou. Basta alguém saber meia dúzia de tangas sobre um assunto mais obscuro e pimbas, é nerd. Ou geek, que é uma coisa diferente... É passar em lojas de informática ou telemóveis, e há lá um "Ponto Nerd" ou "Canto do Geek" ou algo semelhante. Há um aproveitamento comercial em redor do que é se "nerd", que apenas acontece porque se convencionou que nerd é cool. Não é. Por definição, não pode ser. Parte do encanto de ser nerd reside na falta de aptidões sociais e dificuldade de enturmar que apenas advém de muito tempo passado em casa a obcecar com objectos de pop culture ou erudição. Ser nerd é, por exemplo, não ir a um encontro com uma miúda porque na noite em que ela marcou isso contigo, dá um episódio de "The X-files" e por acaso, a Internet ainda é uma coisa da pré-história, e tu não tens video porque só apanhas a TVI na casa do forno da tua avó, e se perdes o episódio, corres o risco de nunca mais voltar a ver. Usando uma história que, obviamente nunca se passou comigo. Vocês sabem que não. Gostar de "The big bang theory" não faz de vocês nerds; mas ter lido livros de Carl Sagan ou Stephen Hawking sobre o assunto e com gosto, isso sim, já vos pode trazer algum bem. Como em tudo, para sê-lo, é preciso trabalho, dedicação e saber que a perda de virgindade não tem, de facto, um timing, e que andam miúdas lá fora, mas livros e filmes são objectos de devoção e dissecação que estragarão a vossa vida social, mas vos tornarão, a longo prazo, pessoas mais interessantes para quem realmente se deve interessar: vocês mesmos.

"Génio" atingiu também uma banalização que me aflige. Devia ser das palavras a ser usada com mais tempero, e no entanto, quão facilmente é brandida num jorro instantâneo de fascínio. Qualquer boa satisfação nos faz dizer de alguém que é um génio; uma simples piada que nos provoque uma risada faz-nos sair essa palavra; e surgem, assim em moldes de hipérbole, nomes que ganham contornos míticos e exagerados. Dei já como exemplo aqui, há uns anos, Quentin Tarantino e a sua mania de fazer mash-ups com filmes. A quantidade de vezes que lhe é colado o rótulo de genial é já o suficiente para se tornar num adjectivo automático quando se gosta de um filme do texano. Ora, para melhor se comparar e ter a distinção do que é ser genial, nada como numa semana nos embrenharmos na cabeça de um outro realizador cuja complexidade e valor da obra deita a de Tarantino por terra e cujo nome, colocada na mesma frase com este, só pode ter como motivo uma diferenciação cabal da habilidade de ambos: Stanley Kubrick. Ver "The shining", "Eyes wide shut", "Full Metal Jacket" e "2001 - a space odissey" na mesma semana é não só perceber a vastidão de inteligência e ideias que existe entre ambos (e outros supostos génios que todos os anos são brandidos nos escaparates), como pedir uma espécie de desintoxicação de cinema durante uns dias, pois ficamos tão habituados ao gosto de picanha argentina que mudar para bifes de pá só pode dar mau resultado no paladar e no sistema digestivo. Um Génio é alguém cuja obra permanece isolada, inalcançável, intemporal, que nos desafia completamente a pensar e a ver o mundo de uma maneira diferente, e desperta em nós 380 sóis a explodir, apenas para entendermos que fomos apanhados no respectivos buracos negros de fascínio no resquício da experiência.

Tarantino, não o nego, é bom, nerd. Mas comparado com Kubrick, como disse alguém, é um berlinde; e daqueles que nem têm muitas cores por dentro.

sexta-feira, março 01, 2013

Pipocas avinagradas



Para além de um tratado sobre o umbiguismo do mais alto calibre, onde as flutuações de humor entre deprimido e macambúzio desempenham papel que não é meramente decorativo, este blog tem revelado, ao caminhar em direcção ao seu oitavo ano de existência, a preferência por combater o falso moralismo e o politicamente correcto sempre que a oportunidade surge. Essa motivação já levou a que tudo levasse por tabela, desde sindicatos, protestantes, polícias, os Jogos Olímpicos de Pequim, supostos amigos dos animais, homens, mulheres, populistas e demagogos, entre outros. Muitos seres humanos, e até Miguel Sousa Tavares já por cá arroxou. Separados, são todos interessantes na sua matreirice, mas em conjunto, formam um grupo que em nada desmerece a Operação Gladio italiana no que toca a cinismo, se bem que fiquem a milhas na utilização ponderada da inteligência, nobre dádiva que nos dá tanto quanto exige.

"A pipoca mais doce", um blog que é o mais lido de Portugal (o que já de si diz bastante das prioridades e interesses daqueles que o criticaram há uns dias), tem vindo a ser sujeito a insultos inflamados, porque a senhora que o escreve, e comenta moda, fez, admiração, comentários de moda a uma menina, não sabendo na altura que esta era uma doente oncológica.  Não tendo acompanho em tempo real o comentário da nossa menina de milho frito aos gostos fashion da noite, presumo que quando deitou abaixo a indumentária de Anne Hathaway (não sei se o fez, mas qualquer cidadão decente e com opinião devia tê-lo feito), ninguém se terá erguido com o vigor da fúria que só a indignação ferve nos nossos punhos. Aposto que riram, ou abanaram a cabeça em caso de discórdia; mas um par de comentários a uma rapariga doente chegam para começar nas estações de "Moda é fútil" e acabar nos apeadeiros de "Que falta de respeito pelo ser humano!". Ora, estas pessoas estão a ler um blog de moda, logo não me parece que a questão de superioridade moral se coloque; e mesmo que só tenham apanhado a notícia mais tarde no Facebook, passaram os olhos e começaram a chamar nomes, o que também é muito pouco fofo quando se quer ter razão e marcar uma posição moralista. Suponhamos que se descobre amanhã que Passos Coelho tem cancro: quem andou a chamar-lhe nome deve sentir-se culpado? Não. Porque estar doente não dá direito a um passe contra críticas. E julgar que dá é ser paternalista e condescendente e o raio que o parta. Uma blogger de moda fala sobre moda... Nada mais. Se é esse o seu gosto, e o que a move, seja. A miúda estava vestida pindericamente? Não sei; mas por estar doente, merece-nos mais respeito do que alguém com saúde? Na minha opinião, não, porque isso é começar a colocar humanos em escalas diferentes, e já se sabe que quase todas as ideologias estranhas começam assim: quem merece estar acima e abaixo da linha. O quê, é uma questão de bom senso? Ler coisas no Facebook e fazer delas um palanque para parecer melhor humano?

Há uns tempos, uma outra blogger de moda criou celeuma por afirmar querer muito uma mala Channel. Não interessava que ela reiterasse que o modo de atingir este objectivo era trabalhando e poupando (ou seja, como deve ser): interessa é atirar lama. Apontar o dedo, falar mal, rebaixar alguém e subir na nossa conta usando isso. Se é horrível criticar a roupa de uma adolescente com cancro, usar essa situação para falarmos num megafone e fingir que somos melhores do que outros é algo de baixo e mostra como o Facebook é realmente uma rede social: pega na experiência mais pura de bairro, a maledicência, e amplia-a a uma escala que jamais foi vista em toda a história da espécie humana. O pior disto tudo, e o mais irónico, é que cada vez mais é moda.

P.S: De muito mais pideriquices se poderia falar: da atenção que a imprensa está a dar um assunto que é fait-divers de Internet; do processo que Sofia Alves que mover à senhora da Pipoca, que levará à primeira discussão no campo de Direito sobre o que é ter estilo ou não; ou do que transforma a própria blogger em alguém cujo gosto em roupa é tão infalível que a torna numa personalidade nacional. Mas tudo isso são pormenores acessórios, que vão escapando pelas frestas do chão: o que interessa é o fogo de artifício, o folclore e a fachada. Afinal, aquilo que é a moda e o seu pequeno mundinho.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Ao gosto


A terceira faixa do novo "In a time lapse" de Ludovico, o Einaudi, leva o nome de "Life", mas assina-se como bem mais do que uma palavra. Arranca-me pela raiz desde os primeiros acordes e as suas notas carregam por mim acima como uma manada de elefantes que decidiu não deixar em pé qualquer embondeiro da savana. Tudo em quatro minutos e vinte e três, concentrados no portento que é querer chorar e não saber. Mesmo com o meu MP3 num cemitério onde já erigi demasiadas lápides em louvor da minha falta de jeito, a cavalgada musical não me saía da cabeça encostada no lugar do Expresso, cabeça essa que por acaso me pertence, a caminho de Braga. Porquê? Porque quando viajo, é normalmente isso que sinto. Não vivo de um síndrome de permanente insatisfação com o lugar em que me encontro; mas penso que a rotina pesada é inimiga do conhecimento, e mesmo dar saltos no escuro, e no longe, não corresponda à minha natureza, cumprimento-me de cada vez que saio do casulo e bato as asas um pouco mais longe. O ar é um dos meus melhores conselheiros quando diferente; e é sempre diferente, nas cambiantes da luz e da satisfação. Quando o acto necessário de respirar nos enche as medidas, algo de estranho, e bom se passa.

Descubro em Braga que as amizades nunca são o que parecem. Não são construções de tempo lineares, e aplicam-se-lhes as mesmas regras da teoria da Relatividade de Einstein: é possível voltar atrás e colocar o presente no passado para descobrir alguns trilhos em direcção ao futuro. É tão simples aquilo que a simpatia pode fazer crescer em alguém, e o quanto é preciso vermo-nos de fora através de desconhecidos para percebermos que raio de ferrugem encrava os mecanismos com que tentamos construir a simples e bela deriva de conhecer pessoas e esperar se feliz assim. Talvez seja uma ilusão pensá-lo, e sei que quando fujo a mim mesmo, ao meu instinto, e me iludo, a coisa nunca corre bem. Mas de vez em quando, é necessário arriscar um estalo sonante para perceber quando confiar em nós e evitar levar outro. Aprendi-o há uns meses, reforcei-o agora. No geral, o género humano é confuso, metido em si e amedrontado, para além de levar muitas vezes longe de mais o acto de não emitir emoções e sentimentos (sei bem, pertenço-lhe). Mas no particular, há casos onde a única dor que podemos arrancar é a de sentar e esperar que passe, em vez de calcar com os pés um chão onde não há areias movediças, apenas a solidez com que construímos alguma certeza, pouca que seja, para correr ao nosso lado. Ou subir escadas até ao Bom Jesus.

Tudo num lapso de tempo. É o que temos, é que se passeia, é que nos pousa sobre a cabeça e faz pesar os momentos; e também o que torna as viagens de Expresso a parte decididamente menos transcendente de uma viagem. Einaudi devia ter também uma composição sobre isso.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

A expressão, antes da liberdade



Não consigo pôr de lado a minha opinião de que Miguel Relvas representa um tipo de decadência cínica. A culpa não é inteiramente dele: como país, ajudámos a construir e a aceitar, com a nossa passividade e o mau trato que damos à inteligência, estes ciborgues que se instalam no sistema nervoso central do sistema que nos governa. No entanto, o que direi a seguir é algo puramente de lógica e de raciocínio, baseado numa crença de que embora o mundo e os valores não sejam inteiramente subjectivos, como alguns relativistas algo idiotas querem fazer crer, há mesmo situações que são caleidoscópios à espera da perspectiva correcta.

Uma amiga minha defende que cantar durante o discurso de um político não lhe cerceia a liberdade de expressão, e está certa. Por natureza da profissão, um político terá sempre um exercício desse direito superior ao meu, por exemplo, que muito raramente na vida de tive um microfone à frente, e nunca para me dirigir a um potencial auditório de centenas de milhar para exprimir aquilo que realmente penso acerca do estado de país. Relvas e eu estamos no mesmo patamar no que toca a liberdade (embora isto seja discutível), mas no que toca à expressão, vai uma distância como daqui ao Brunei. É por isso que não consigo entender em que é que aqueles cidadãos que para lá foram usar "Grândoa, vila morena" com o uso que Zeca Afonso intentou afectaram a liberdade de Miguel Relvas. Este, no final, deve ter dobrado a folha de papel e regressou ao carro apenas melindrado por ter apanhado, surpresa, cidadãos descontentes com as suas argoladas constantes e reocupados com a situação de sobrevivência em que, na generalidade, se transformou a vida de quem continua a ser cidadão no próprio país. Se amanhã lhe abrirem o microfone nalguma reunião do PSD, ou conferência no Hotel Sheraton de cinco estrelas, ou numa comissão parlamentar, as palavras continuam lá, serão ditas e manter-se-ão iguais a tantas outras que ele já disse. Não é que eu seja muito mais original, mas tenho ao meu serviço apenas o Facebook e este canto onde só passo de vez em quando, e o meu público é muito restrito, na medida em que se quantifica nas poucas pessoas que me vão querendo ouvir. Na verdade, quem protestou fez um favor a todos: se há coisa que normalmente irrita, é a repetição, excepto quando usada por motivos artísticos, e se bem que Relvas seja um artista, não é um daqueles a que queiramos assistir.

Já que estou a falar sobre política, não posso deixar também de notar como a oposição é, de facto, das piores coisas da Democracia quando,como hoje, a política deixou de ter o monopólio da inteligência. É também por aqui, pela quantidade de labregos e energúmenos que ocupam cargos de relevo que a noção de Serviço Público se expõe a crítica facilitistas quando comparada com o Serviço Privado. A constante exigência de demissões, de forma a precipitar novo sufrágio, sem apresentar qualquer ideia ou conceito estruturado acerca da resolução da crise, e a falta de coragem de assumir ideias que fracturem realmente (quando já se viu que depois de Irlanda e Grécia, Portugal será nova vítima do fenómeno "Falhou nas outras, mas nesta tenho a certeza que fazemos o mesmo e dá!"), de ser criativo, cria em mim o tipo de dúvidas que até agora estavam reservadas às parvoíces internas da minha mente. Liberdade de expressão, dada a quem não tem grande coisa relevante a exprimir.

E depois, perguntam-me por que sou pessimista.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: sete frases


Regrido aos sete anos quando tenho de te falar. Ao longe, ao perto, é queima-roupa, mesmo que me faça sentir nu. Nem precisas de me olhar, pois eu próprio não sou cego ao que me trava. Sento-me e espero que passe, mas um pensamento de cordas feito amarra-me à cadeira, e eu deixo. É estranho como posso gostar de ti, e no entanto não gostar de gostar de ti enquanto desgosto de mim mesmo. Gostar (d)e ter medo. Preencho-me de sustos e torno-me num fantasma.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

(Delírios à noite)


Ora, quando estamos sossegadinhos no nosso canto, a existência, que assume as feições de um jocoso anão endiabrado, lança-nos de Ford Escort Boston por entre estradas e caminhos onde apenas os máximos conseguem enxergar alguma solução. Ainda por cima, o meu não tem os faróis em conformidade com as consistência do breu desde há muitos anos, e conduzir à noite acaba por se transformar num exercício com duas consequências: aumentar a minha hipermetropia e conseguir presenciar, por momentos, um best of dos melhores momentos que Stevie Wonder vê num palco, quando toca ao vivo.

Propuseram-me que escrevesse uma peça. Depois outra. Ficámo-nos por um test-drive de quinze minutos depois de conferenciar com as calendas de Roma, para ver no que dá. Se alguma vez escrevi peças de teatro? Claro, no 9º ano, quando adaptei o "Auto da Barca do Inferno" em verso livre(mente manhoso) para uma peça de zero espectadores. De nada vale dizer isto à remetente da encomenda, que diz ter grandes esperanças para a empreitada. As Calendas mostraram-se mais comedidas, mas igualmente dispostas a esbofetearem-me se não aproveitar a oportunidade. Interessa tentar, claro. Mesmo que me espalhe em grande... Viver é uma sugestão de espalhos até aprendermos a andar sem escorregar. Disse-me alguém, acho. Mas posso estar enganado. com tantos remetentes.

No entretanto, um outro projecto mantém um espaço da minha mente na peugada de José Cid, dez mil anos depois entre Vénus e Marte, e com direito a passagem na Dimensão Alternativa? Qual? Não sei, mas certamente uma onde uma obscura área que criei numa adolescência deprimente me possibilita ocupar algum tempo e alguma cabeça, se bem que ainda não a carteira. O Boss, figura das entrelinhas, diz-me que pode ir longe. Eu encolho os ombros e continuo a pesquisar e a escrever. Na televisão, figuras políticas incentivam ao empreendedorismo. O Boss empreende e eu prendo-me à ideia de que posso fazer disto algo de bom, de novo e de significativo. Um pouco como D. Miguel, rei abolutista, deve ter pensado quando lhe sugeriram armar as Guerras Liberais.

Como a minha cabeça adora puzzles em catadupa, achou que devia mudar a sua natureza. Parva. Até parece que não me conhece e não lidou com esta catadupa de reviengas durante a trintena de anos que demorei a construir quase nada. Insensato, estou a ponderar dar-lhe ouvidos. Criar e aceitar oportunidads. Pessoas de bem dizem que me querem ver feliz. Talvez seja mais fácil, assim sendo, a parte do ver do que a que me toca. Assim como assim, se tiver que tocar, que seja boa música. Ao menos, criam-se melodias que ficam, e que até aos surdos trazem prazer. Pelo menos, foi o que escutei algures, dentro da minha cabeça


terça-feira, fevereiro 05, 2013

Duas pequeninas linhas


Está na hora de fugir à própria fuga, e investir. Investir em acções de bolsa cheia de vontade. Quanto mais não seja, porque com mais dor, chega menos palha a este blog.

sábado, janeiro 26, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: seis frases


Descasca-me as camadas, corta-as e ignoras-as. No teu colo, deita a minha cabeça e barra-a com o calor das tuas mãos. Mergulha os teus dedos por entre o meu cabelo e sorri com o corpo. Separa os meus cambiantes, invisíveis mas ao teu alcance, e peneira as minhas inseguranças até restar apenas a minha certeza em ti. Mistura-te bem comigo, aquece-me com o o vapor que os teus lábios transformam em cola e transforma-me. Estou pronto a ser servido derretido.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: cinco frases


A caneta percorre o papel como eu gostava que os meus dedos desenhassem suspiros na pele que te reveste o brilho. Fixo na folha pequenas taquicardias que nunca aparecerão nos exames. De vez em quando, paro e tento acertar-me, mas deixas-me sempre errado. O pior é que me convenço de que estou certo, e que erro quando guardo os papéis na gaveta. É a minha vida, num papel químico estragado.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: quatro fases


O relojoeiro deu-lhe corda e explicou que só começaria a trabalhar quando chegasse a hora. A hora de quê? De ele trabalhar. Saí da loja, e vi-te cinco minutos depois: o meu coração fez tique-taque.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Os "amigos" do amigo



A tolice pode originar fenómenos fascinantes. Nesta perspectiva, o princípio de "Vox Populi" é um dos fenómenos mais fascinantes de todos. Em grande ou pequena escala, a regra "a maioria decidiu, é o melhor" tem redundado em decisões incompreensíveis ou, a longo prazo idiotas. Podia citar um caso recente, que conduziu à confirmação daquele velho lema "BAS" (Vítor Hugo, onde quer que estejas... RTM), mas prefiro chamar a atenção um outro mais geral e que se senta agora nu cadeirão em S. Bento, a manipular os destinos do nosso país.

Nada contra a democracia, aliás. É o sistema de governação mais justo, se bem que pode ser dobrado, pois conta com a participação geral. No então, não se pode classificar a democracia de "inteligente", porque se baseia no nosso comportamento (e, em raros momentos, na nossa inteligência). Nem precisamos de ir às urnas para confirmar este facto: as redes sociais onde passamos uma boa parte do nosso tempo e gastamos bastante energia intelectual atestam-no. O caso particular que me tem despertado a atenção é o do Zico, um cão alentejano (que, pelo que leio, é mais simpático e imaculado do que a irmã Maria de "The sound of music"). Leio na diagonal textos de "amigos dos animais", gente que defende, no que escreve, que um animal pode ser equiparado a um ser humano, e que por isso Zico não deve ser abatido. Não está escrito, mas fica subentendido que Zico deve também receber miminhos e um prato com Pedigree Pal.

Esta gente é idiota que dói. Convém revelar, antes que estereótipos sejam brandidos, que fui o orgulhoso dono de um cão durante oito anos. Esse cão morreu há três meses e meio. Nesse espaço, não consegui pegar nas minhas mãos para escrever sobre ele ou sobre o facto. Gostava realmente dele, e lamento não ter feito suficientes coisas por ele e com ele.Ainda me dói lembrar-me da morte em forma canina nos meus braços, e vislumbrar-lhe nos olhos, momentos antes, essa certeza de que a vida tinha posto travão e nada mais havia a fazer. Partilhar esse momento esmurrou-me lágrimas dos olhos, mas fez-me entender melhor o que passa pelo ânimo de um cão. Logo, eu não odeio animais. Não posso. Adorava o meu cão, uma criatura idiota que lambia a sujidade e preferia a chuva à protecção de um telheiro. Uma coisa que tive sempre presente na minha relação com o bicho é que estávamos em patamares muito diferentes: ele é uma criatura pura de instintos, eu um ser que recebi uma educação que me permite dominar esses instintos quando estes representam um perigo para mim ou para os outros. Um animal não é uma propriedade ou um objecto; e por muito que nos apeteça, às vezes, não é um escape para as nossas frustrações emocionais. É imprevisível e pleno de natureza. Ter um animal é um risco, precisamente por isto: porque não somos iguais. Nós podemos ser responsabilizados, eles não. O meu cão mordeu-me, várias vezes, e arranhou-me. Ninguém cá em casa o treinou para ser feroz: é a sua natureza. Tolice é pensarmos que podemos contorná-la ou desligá-la apenas porque nos relacionamos com eles. A beleza de ter um animal é podermos ler nele e nas suas reacções o que quisermos. Pensarmos que sorriem e que se dispõem a amar-nos, quando o laço que nos une é um pouco mais complexo do que isso. Os animais estão connosco numa relação de dependência e confiança. Por um caso de extrema fidelidade canina, há noventa e nove de que ninguém fala de cães que foram à sua vida.

Não acho que o Zico mereça ser abatido. Mas daí a torná-lo um mártir ou fazer dele uma criatura inofensiva que nunca morderia ninguém é apenas uma ilusão em que vive uma série de gente que acha que humanos e animais são irmãos e vivem neste planeta em igualdade. Pensar isto não é ser amigos dos animais: é um exercício de animismo perigoso, falso e que quando repetido muitas vezes, se torna numa verdade que é difícil abanar. Os "amigos dos animais" têm razão, se calhar: animais e humanos estão em níveis diferentes; mas se calhar, não todos os humanos; e principalmente, não da maneira como estes "amigos" me querem pregar,

sábado, janeiro 05, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: três frases


A minha natureza é inerte. É por isso que amar-te me coloca em vias de extinção. Protege a minha espécie.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Uma moedinha no meio dos olhos




A cidade moderna como exemplo de decadência é um cliché deprimente da arte moderna. Seja em "Blade Runner" ou "Se7en", a visão das nossas urbes surge contaminada por um mal-estar semelhante ao provocado pela visita a um balneário masculino que não é lavado há uma semana. O motivo apresentado, por regra, é a desumanização que a vida nas cidades provoca no ser humano. Parvos intelectuais. A razão é muitíssimo mais simples e é simbolizada por uma criatura que vagueia entre nós, mais perigosa do que um terrorista muçulmano, mais irritante que a criança nascida da união entre o Quimbé e o Nuno Eiró, mais sebosa do Jorge "Jabba, the Hut" de Brito: o arrumador de carros.

Nuca escondi o meu ódio particular a esta espécie de criatura. A palavra "ódio" não é hipérbole, pois dentro das minhas entranhas, misturam-se sucos gástricos e mentais que produzem o arreganhar de dentes típico de quem não pode ver determinada pessoa, coisa ou ameba à frente. Conduzir é, por acaso, algo que me relaxa. Adoro meter-me num carro, colocar música a tocar e conduzir, nem que seja para aviar uns recadinhos aqui perto. No entanto, quando, preparando-me para atracar o veículo, me deparo com uma dessas criaturas, a onda zen esbate-se no areal e dá lugar a caranguejos que me apertam o cérebro. Podem dizer que tenho problemas com homens de aspecto oleoso, mas não acontece isso. De facto, se me aparecer à porta um desses indivíduos a representar uma associação de não sei quê que recupera toxicodependentes, lido com eles com calma e pose. Posso não lhes dar dinheiro algum (porque desconfio de quase toda a gente que, não me conhecendo, me bate ao portão e me quer falar sobre droga), mas permaneço a menos de um metro e dispenso atenção. Corrigindo, eles roubam-me a atenção. Mas é por uma boa causa: por dois minutos, pareço humano.

O meu problema com o arrumador é o mesmo que tenho com mafiosos: são criaturas que se movem em franjas da sociedade onde a lei existe, mas se finge que não. Quando paira sobre nós a ameaça de danos materiais no veículo que tanto estimamos, caso não paguemos a moedinha costumeia, isso tem um nome: extorsão. Aliás, estamos a pagar o quê? A minha mãe dotou-me de dois olhos para encontrar o lugar que essa criatura das trevas me aponta! A moeda premeia a familiaridade com que o arrumador me berra à distância "Hei" como se fôssemos amigos? Não percebo bem. Nem sei quem se lembrou de cobrar às pessoas por absolutamente nada, a não ser o não cumprimento de uma ameaça nunca exprimida, sempre subentendida. É o que esquema perfeito: não podemos ir à polícia queixar-nos, porque não há nada a queixar.

Se estes tipos, em vez de arrumar carros, estivessem nua juventude partidária, o país seria desmantelado a um ritmo impressionan

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Pedido pungente que não envolve crianças, animais ou doenças terminais


É muito difícil de explicar um acesso de inferioridade, mas como toda a gente (tirando Mourinho, os filhos de Tony Carreira e Madonna) teve pelo menos um, presumo que percebam um pouco do que me apoquenta. Talvez não totalmente, eu nunca percebi muito bem de onde me vem isto ou o que o causa. Mas existe e tenho de lidar com ele. Não me é difícil admitir que tenho este problema. Quem lida e lidou comigo sabe quantas vezes me queixo disso, ao ponto de me tornar numa companhia pouco agradável. No entanto, só me apercebi do quão incapacitante e profundo este estado se tornou neste ano. Não houve um momento específico, um lapso de tempo ou momento de claridade turva que me indicasse que estou perto do fundo. Mas olhei e vi a falta de prazer que tenho em actividades e gostos de que desfrutava com largueza e autoridade, considerando como certa a minha personalidade baseada nesses pilares. Mas hoje, duvido. Duvido de mim bem para lá da capacidade: duvido até mesmo na existência e naquilo que me constrói e me edifica. Pior ainda: aproxima-se a semana do ano que mais me custa. O que peço neste pequeno texto é que tenham paciência. Tentem compreender e mostrem mais humanidade do que aquela que vos demonstro. Um bocadinho, pelo menos. Ajudem-me a ultrapassar estes sete dias e chegar a 2 de Janeiro pelo menos na mesma condição em que me encontro nesta noite de 23 de Dezembro. Eu agradeço-vos, de uma maneira ou de outra. Talvez a escrever, que ainda é das poucas maneiras com que alegro a populaça desse lado. Um obrigado de antemão.

Não se preocupem demasiado. Amanhã, deixarei aqui um apontamento sobre arrumadores de carros e verão que continuo intratável como sempre.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

O amor perfeito é aquele que não existe: duas frases


Sento-me, olho-te, desvio-me e evito. Por fim, aceito e temo e entrego-me e fujo, para voltar só porque regressar é a melhor parte de gostar.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

O amor perfeito é aquele que não existe: uma frase


Pego nas tuas palavras, faço a minha cama e deito-me numa almofada em forma de faz de conta.