quarta-feira, junho 03, 2020

As andorinhas do meu beiral

Andorinhas e os espinhos de Cristo, conheça a lenda - Meus Animais





A identidade da casa onde cresci tem muito pouco a ver com o número que a burocracia lhe atribuiu e mais com aquilo que os anos lhe foram colando. Nem falo de sujidade, ou de uma fuga de cor que obrigado a uma pintura renovada a cada dez anos - e mudando sempre a tonalidade: nasci numa habitação meio castanha e hoje, quando a refiro a amigos e conhecidos como ponto de orientação, tenho sempre tratá-la pelo amarelo. Aquela cor que se afligiria caso todos gostássemos do mesmo, ao que parece. Mas a memória mais frequente, e hábito reciclável, que mais me recordo de associar a este paralelepípedo com memórias lá dentro coladas é o espectáculo das andorinhas em Primavera. Para aqueles que não sabem do que se trata, importa esclarecer que não falo de caminhando na rua, olhar para o azul do céu e observar, em cruzamentos rápidos de negrume com asas, aves que parecendo perdidas, encontram-se sempre no último segundo da curva da vertigem. Desde que sou eu que as andorinhas regressam, todos os anos, aos seus ninhos de barro germinados nas bordas do meu telhado. Na sua ausência, os ninhos decaem e estragam com a passagem do tempo, as transformações do Inverno. Mas nunca os tirámos. Ficam lá, como referência, e elas voltam todos os anos. Não sei por onde andam no resto do tempo. Os ornitólogos falam em migrações para locais mais quentes, portanto costumo encarar sempre o desaparecimento das andorinhas como uma sabática em África. Renovam o bronze, recarregam baterias, são outras durante seis meses; mas todos os inícios da Primavera, as correntes de ar empurram-nas de regresso a Ceira e processo recomeça. Tapam os buracos com terra e ramos, na azáfama do tempo marcado e contado, da biologia perpétua do ciclo da Terra. Existem ninhos de ambos os lados da moradia e portanto circulam a toda a volta neste trabalho. Ouço-as chilrear, a irrequietude de todo um impulso numa voz que nem sequer canta; e nas manhãs, ou madrugadas que se prolongam quando não consigo dormir, é esse trinado que me indica a chegada da manhã. Dentro dos seus ninhos, já com pequeninas crias que de quando em vez metem a cabecinha de fora dependendo dos pais, anunciam que acordam para o mundo e continuam a sua demanda.

O ciclo das andorinhas sempre fez parte da nossa vida. Não são nossos animais de estimações, mas tratamo-las como tal, porque de maneira a que nos fascinem, existe todo o trabalho sujo por trás. Nem tudo é bonito ou admirável. Manter os ninhos implica deixar o telhado sujo e mesmo na ausência dos pássaros, permanecem ali como lembrança. Nem sequer são objectos bonitos, apenas montes de terra castanha clara que à distância e para um olhar menos treinado, quase parecem colmeias. Quando voltam a ganhar vida, os problemas duplicam. Em minha casa, as andorinhas moram por cima da escada que conduz à porta principal e também numa varanda adjacente à cozinha. São, portanto, locais que frequentamos. A presença constante dos visitantes deixa também outros restos da sua passagem, mais escatológicos, que se amontoam no chão. O trabalho de lavar sobrava sempre para a minha mãe, mangueira em punho, pelo menos uma hora de labuta, porque incluía também a varanda principal da casa, defronte da sala de estar do primeiro andar. Dava trabalho, ela chegava sempre cansa e no tempo de calor, pior ainda, a temperatura tremente juntava-se ao trabalho já de si cansativo. Mas por cima dela, o chilrear daquelas balas com asas não a deixava sozinha. Aqueles pássaros sempre foram para mim coisas diferentes. Nos filmes norte-americanos, há sempre a imagem dos traços na ombreira da porta que permitem visualizar a evolução do crescimento dos garotos. As andorinhas são isso para mim. A minha inocência infantil via nelas apenas animais fofos que animavam a minha vida no seu voo, na sua presença, no seu som. Quando comecei a conhecer mais o mundo e a ciência, percebi porque regressavam todos os anos, o que é uma migração, a diferença entre o Verão e o Inverno. Na minha adolescência, onde o calendário escolar se confunde com o civil, elas eram sempre sinal de fim de aulas próximo e férias de Verão. Na tarde quase noite do meu tempo adolescente, sempre que as observava, perguntava-lhes porque se a vida melhora de facto, se o drama acaba, se algum dia uma rapariga vai olhar para mim da mesma maneira que eu olhava para a Scully. Na minha vida adulta e suas migrações, identificava-me com elas e voltar a casa na Primavera encontrando-as sossegava-me o coração e pregava-me os pés bem no solo, como se de facto regressasse a casa. Aprendi também a suspirar quando via famílias constituídas em ninhos e eu procurando incessantemente alguém com quem partilhar a aventura da minha vida. Elas voltam sempre, mas apenas para me lembrar de que andar em duas pernas é mais complexo do que voar em duas asas. Passaram de simples visitas e reflexos da minha mente. O que também quer dizer muito da minha personalidade e onde ela foi parar.

Quando vejo meio metro de gente chamado Beatriz a apontar indiscriminadamente para o céu britando "Piu piu, piu piu", é um pouco como se recomeçasse o processo. Tal como as andorinhas regressam, aqui em casa o encanto por elas vai migrando e regressando também de cada vez que algum de nós ainda consegue olhá-las com o encanto infantil do fascínio. O seu dedinho aponta, as mãos batem palmas, no meu colo ela ri e diz "piu piu, piu piu", olha em redor e acompanha o seu movimento errático. É feliz. Penso em como nada disto se sucederia se nos tivéssemos dobrado à preguiça. se a minha mãe não suportasse todos os anos o trabalho de limpeza, de manutenção, se todos os anos não se dispusesse a aceitar de novo as andorinhas, não haveria Primavera. Quer dizer, havia, mas com menos flores. Para as coisas boas, é inevitável, o esforço está presente. Sem querer suportar a merda e o esforço de limpá-la, não surge depois a reciclagem do sorriso. A felicidade está tantas vezes ligada ao quanto querermos trabalhar para que aconteça e não simplesmente encantos e ténues acasos do destino que interpretamos como sinais ou inevitabilidades. Ser feliz dá trabalho. Que o digam as andorinhas que todos os anos reconstroem os ninhos sem piar nem queixume. Talvez seja de estar a chegar aos quarenta anos, mas é nisso que agora penso quando as vejo. Há quem tente curar a crise da meia idade com carros novos e cortes de cabelo arriscados. Eu interpreto pássaros e escrevo sobre isso. Podia dar-me para pior.

segunda-feira, maio 18, 2020

Viagens na minha terra


Na Ceira dos anos 80, as escolhas de escola primária eram simples. A principal era a das Vendas de Ceira; aqueles que viviam no outro canto da freguesia invariavelmente entravam na do Cabouco, local onde só pus os pés uma vez na vida e não como estudante; alguns aventuravam-se para outro concelho e acabavam na do Senhor da Serra, território de mitos e lendas que nos chegavam aos ouvidos através de amigos de amigos. Há um lugar afastado do centro, o Carvalho, que teria as suas hipóteses, mas sinceramente só comecei a conhecê-lo bem mais tarde na vida e falava-se entre os adultos por dois motivos: um desastre de aviação militar na década de 50, soprado com respeito a propósito do choque dos aviões com a parede da serra do Carvalho (parece impressionante, mas a serra do Carvalho mal tem 400 metros) numa manhã de nevoeiro. Talvez tenham visto D. Sebastião; e o facto de o Carvalho ser um lugar partilhado entre dois concelhos, Coimbra e Poiares. Dividido ao meio, por escolha da população, ficava longe de igual forma de ambas as sedes de concelho. Sempre achei isso curioso, e imaginava os habitantes daquela terra como uns eremitas, longe do mundo civilizado, como sevandijas das matas, na minha imaginação de criança. Em adulto, descobri que têm uma povoação mesmo ao lado chamada Terreiros de Além, que é das poucas toponímias que conheço a combinar de morte com o título "Indiana Jones e...". A infantil população de Ceira estava espalhada então até aos dez anos, quando as escolhas de carreira escolar começavam a afunilar para Coimbra. Excepto quem andava na escola do Senhor da Serra. Mas essas pessoas, como referi, viviam numa espécie de névoa de mito e lenda, fora do espaço que considerávamos nosso, e nunca partilhavam todas as desventuras que contávamos entre nós; e pela maneira como nos falavam da sua escola, pareciam saídos de uma iniciação ao banditismo que, tímido e impressionável como era em criança, fascinava-me a atemorizava-me em simultâneo. Aí, estas crianças viajando para a adolescência eram novamente divididas em três tribos, mas bem distintas: a da Carreira; a do comboio; e a do autocarro.

Eu pertenci a esta última até terminar a carreira académica. Não vou aqui aborrecer-vos com as intrincâncias do 10-Ceira, a linha que me levava do centro do meu mundo ao centro de qualquer coisa a que íamos chamando "escola". Por muito que não o tenha usado, o meu foco é o comboio. Hoje uma memória assim esbatida nas conversas de café e grupos de partilhas de memórias da minha terra, houve uma altura em que era como que uma coluna vertebral que unia principalmente as povoações do sul da freguesia, o Sobral e as Vendas de Ceira, à cidade. Com o advento do Metro Mondego, patranha que encheu os bolsos a alguém e esvaziou Ceira de opções de transporte, já nem os carris sobram. As minhas recordações das carruagens são esparsas. Na verdade, poucas vezes usei a "automotora", a locomotiva preferida das linhas regionais. Nunca lhe senti a falta. Em criança, tenho aum vaga ideia de ver imagens da tragédia ferroviária de Alcafache, onde dezenas de pessoas - num número não especificado até hoje - mal sobraram calcinadas em morte depois da colisão entre dois comboios perto de Mangualde. Nem era bem medo o que me causava, mas espanto. Pensava às vezes na mágoa dos meus pais se não me conseguissem reconhecer. Morrer não me assustava em criança, algo que não posso dizer na minha condição de adulto, e acho que me perturbava mais a inquietude familiar em relação ao meu corpo. Imaginava a minha mãe em pranto, o meu pai numa certa desolação muda. Escusado será dizer que tive uma infância pouco paradigmática, ou se calhar encaixando no paradigma daquilo que dei quando cresci: uma ave rara. No entanto, os meus traumas valiam menos do que passar a noite em casa dos meus avós maternos, que me criaram a meias. Havendo oportunidade, adorava ver televisão com o meu avô e conversar com a minha avó sobre Coimbra e sobre a nova escola, sobre o que fazia. A Lurdes nem era bem segunda mãe, era mesmo primeira avó. Mesmo depois de passar os dez anos, gostava de ficar uns minutos comigo antes de dormir, a falar de patetices e a explicar a vida da terra, a fresa e que agora já não brincava tanto com as molas. Mesmo que eu não precisasse, insistia em deixar a luz acesa. Porque assim ficava mais sossegada. Nem era por mim, era por ela. Hoje penso que se calhar já antevia dentro de mim a génese da escuridão que foi crescendo e tomando conta, e como se quisesse mantê-la ao largo mais uns tempos, porque eu até merecia ser criança ainda, guardava a lâmpada iluminada como uma candeia que protege o Santíssimo das investidas demoníacas. Ela acreditava um pouco nessas coisas, tirava quebrantos e rezava responsos a pedido de outros. Não sei se resultava, mas sempre senti nela uma sensibilidade diferente para o mundo e para a realidade. Talvez por isso gostasse tanto de mim, talvez por isso sinta a falta dela de uma forma quase de navalhada ainda que ela já não ande por cá em duas pernas fez quinze anos em Abril; e o valor dessas noites só cresceu no tempo. Mas morando ela no Sobral, sabia que teria de usar o comboio para ir à escola de Coimbra. Porque independentemente dos nomes, sentíamos todos isso em Ceira: íamos à escola à cidade.

Tenho tido tempo para recordar isso. O adiantamento da minha barriga em sentido protuberante levou-me a usar a caminhada como método de combate ao alargamento. O ramal ferroviário deu lugar hoje a uma via de terra batida que uso como trilho de passos. A minha ligação emocional àqueles espaços é exígua, e apenas sinto um aperto quando perto da estação do Sobral olho para a casa dos meus avós e está igual. Ou se calhar eu mudei tanto que quero manter em estado perfeito os refúgios em mim que me recordam do que fui de feliz. Faço um percurso simples e quase sempre em recta. Atravesso duas pequenas pontes sobre as águas escuras do rio Corvo, que murmura depois das chuvadas, mas em silêncio se guarda nas alturas de seca, e atravesso o breu de um túnel curto, mas que a meio escurece por completo. Se parar, as luzes de ambas as entradas são visíveis; o chão, no entanto, engole-me. Como se me recordasse de que que por muito que tente deixar entrar a luz, a sombra segue-me; ou então, que reparo muito mais na constância da sombra do que na vibrância dos raios luminosos que querem rasgá-la. Sigo e chego à Tremoa, de onde regresso ao ponto inicial. A ideia é moer-me as pernas e pensar o mínimo possível, mas recordo sempre os meus avós, mesmo por entre a monótona voz de relatos de crimes reais que me costumam acompanhar no exercício. O mundo é bem real à beira da linha. Casas no campo, cabras do monte, pastores e cães barulhentos. Aldeias mais esguias e pequenas do que a minha, mais sós, mais prontas a separar-se e talvez voar como um balão para algures. Há quem espreite à janela, talvez esperando o comboio que não volta, sentindo saudades de serem alguém com o barulho da automotora. Já tentei recordá-lo, e não consigo. Talvez porque recordar é dar movimento ao coração, literalmente, e eu sou uma criança de autocarro. A voz monocórdica fala-me de facas e sangue, e quando o relógio cardíaco engrena, lembro-me do meu avô vendo a tourada e a chamar nomes ao Futre; e também das batatas fritas meio queimadas que a minha avó fazia e de como o comboio, por muito respeito que me causasse, parava sempre naquela estação do Beco Trás das Eiras, não suburbano, mas sobre-humano no quanto me fazia sentir querido. Quando chego ao final da malha que dou a mim mesmo, verifico os quilómetros e as calorias. Verifico também o coração, mas não apenas a batida. Tento convencer-me de que sou querido, e num longo olhar pela recta do comboio, não consigo ver a resposta. Sinto-a, mas temo-a. Talvez, quando não encontramos quem nos aceite no regaço em adultos, regressemos onde um dia nos sentimos no mundo mesmo. Ou então, se parar no túnel e não reparar no breu, talvez a Lurdes tenha lá deixado a voz. Talvez se retirar os auscultadores a ouça e talvez ela me diga, como me dizia sempre em criança, que as coisas se resolvem. Sempre. Ainda que não se resolvam como queremos, resolvem-se inevitavelmente. E depois beijava-me na cara e tapava-me no sofá e desejava-me um bom sono e que sonhasse com coisas boas. 

Há noites em que a ouço. E em que quero que o comboio passe. Mas já não volta. Ainda assim, tenho o consolo de ser um menino do autocarro; e que talvez a solução esteja aí. Uma via diferente para um destino diferente. 

quarta-feira, maio 13, 2020

"Tio, tio, tio"


Palavras são apenas isso até que a boca de alguém as torna em qualquer coisa de real; e agora, quando ouço, numa repetição persistente, "Tio, tio, tio", a minha natureza própria como que desaparece e começo a sorrir como um tolo. Por vezes é dito à minha frente, noutras estou ainda a aproximar-me da divisão de onde saem estes sons beatíficos. "Tio, tio, tio", como um alarme de aproximação de algo que gera no interior de um ser pequenino qualquer coisa que nem esse próprio ser consegue bem entender, apenas quantificar num palrar metrónomo. "Tio, tio, tio". Quando entro, vejo meio metro de parte de mim, muito indirecta, cabelo castanho encaracolado e roupa riscada de muitas cores, porque ela descobre que adora "paintá" e o que ela gosta mesmo é de pedir ajuda a arrancar as tampas das canetas com força e deixar tudo salpicado como o anúncio televisivo a televisões de alta definição. Sorri-me, quase sempre, noutras finge uma cara perplexa. Já sabe o que é manipulação e reserva uma cretinice sorridente, como se estivesses prestes a pedir algo e algures destrancasse que o segredo para fazer alinhar um adulto é simplesmente parecer simpática e bem disposta. Como se entendesse por instinto que na gente grande, a visão de uma criança pequena desperta a simpatia e também uma certa esperança que desaparece quando crescemos. Como se acreditássemos que o simples contacto com a infância que se arrumou tão distante, ainda que não seja agora nossa, desperte aquilo que hibernou e espera Primavera.

Acontece-me, de vez em quando. Pego nela ao colo e pergunto onde está a Beatriz, e ela aponta para si; pergunto onde está o tio e o seu dedo aponta repetidamente para o meu peito, e pergunto-me se na sua inocência ela encontra aquilo que não consigo de maneira alguma descortinar. Eu próprio em mim. Mas ela aponta e ri muito. Peço-lhe um xi e a cabeça cai no meu ombro com abandono. Tenho direito a beijos quando ela se dispõe a isso e nem sabe ainda como se dão beijinhos, abre apenas muito a boca e encosta à face quando calha, porque tem alturas em que o nariz é o destinatário e desvio-me a bem da saúde pública. Fazemos uma brincadeirinha com isso, de cada vez que damos beijinhos fazemos "Muá" muito alto e ela volta a rir muito porque gosta é de estardalhaço e de barulho, de ligar a banda sonora do triciclo e de ficar a abanar de um lado para o outro. Gosta quando lhe passo certas canções, da guitarra do Rodrigo e da Gabriela, da Badinerie de Bach, algumas coisas de Green Day e a "Comics" dos Caravan Palace. Tem a sua sala de jogos e quando brincamos, finjo que durmo e ela finge que acredita e acorda-me com palmadinhas na testa, e depois espera que lhe sopre na cara, em primeiro para gritar um bocadinho e depois fingir-se de zangada. Quando não brinca, caminha pelo quarto e quando se cansa, deita-se no meu colo sem pedir e fica só uns segundos quietinha, como que a recarregar uma bateria que traz na barriga, no "Pipinho", volta a entregar-se ao mundo.

No exterior, procura o "piu piu no céu e mesmo quando não o encontra, olha-me e pergunta "Vistes, vistes?" e eu faço que sim, que vi tudo e vi muito com ela, e até vejo tanta coisinha pequena e grande que me escapa fazia tempo, um pedacinho de parte de mim que sorri quando me vê, que me pede mãos e peito, que sem medo me aceita, que me faz sentir parte de algo, importante para alguém, que me faz ter vontade de sair da cama quando acordo, por uma vez, só para descobrir se hoje ela vai aprender algo de novo. Uma palavra, um tique, um gesto, uma dança, uma mecânica qualquer que na sua cabeça a estabelece e faz saltar um bocadinho mais o crescimento. Sejam a existência de pássaros, o miar dos gatos ou que quando ela está presente, consigo ser mais eu. O que preciso tanto, e fazia tempo que outra pessoa não tinha esse poder sobre mim, de me transformar de uma forma tão profunda que na verdade, nem mudo e sou aquilo que enterrei com a bonomia perversa da desesperança. O que nos liga a alguém não é inexplicável por norma. É uma soma de tempo, vontade, química e acaso; e a afeição de um bébé vem muito das duas primeiras, mas também de algo que eles reconhecem e não se explica, e é esse algo que dá aos adultos um poder quando estes sorriem ou abraçam. Uma nova possibilidade, um oráculo profundo que nos garanta que há mais de bom a chegar, que ainda que nos sintamos um ciclo repetido, pulsa ainda o que sonhámos, o que imaginávamos, há tanto, que nos tornaríamos. Sem erros, sem nos estragarmos, ainda antes de termos ganho o poder inconcebível de magoar alguém e a dádiva da dor dentro de nós como triste lembrança de que não somos nem imortais, nem imunes ao que é bom. Um bébé é uma estrada para um futuro onde somos os alguéns de um passado onde tudo era tão soalheiro quanto o sorriso de uma criança e tão terno e suave como os seus bracinhos estendidos pedindo um biberon.

"Tio, tio, tio" não é apenas um chamamento da Beatriz. É a recordação do que queria para mim, a insistência em ter esperança mesmo quando não se acredita nela, o empurrãozinho pequenino para fingir, durante uns momentos, que tudo pode ser como deve e não como é. Ando perdido em escuridões e ela puxa-me as calças e pede colo. Aponta para a porta da rua e saio com ela. Mesmo quando chove, há sol e eu consigo segurá-lo. Não devia ser possível, porque sou humano, mas este vem revestido da melhor capa protectora que existe: a possibilidade.

quinta-feira, abril 23, 2020

Fachinação 27: Epílogo


Acordo. É o último dia. Os últimos dias passam sempre como o milho na mó, espremidos, um pó que é soprado e nunca se apanha. Últimos dias de fuga do mundo, últimas dias de preocupações em arrumar, últimos dias de despedir de quem fez parte do nosso tecido esvoaçante de dias anteriores. Mais do que dizer adeus, últimos dias são de voltar a dizer "olá" a nós mesmos no regresso. É só quando me sento na cama em dias últimos que entendo tudo o que ficou para trás nas viagens que faço. Somos sempre alguém diferente quando estamos longe, quanto mais não seja porque nos dobramos à novidade dos locais, à diferença das pessoas. É como me sinto, pelo menos, não exactamente estranho... mas outro. Ser outro dá muito mais trabalho do que ser estranho. Porque temos de nos conhecer também no que fazemos e passar os dias à procura dos traços que sabemos nossos. Não sei se é por isso que quanto mais avança a viagem, mais melancólico fico. É como se tivesse saudades de mim, ou pior, como se soubesse que este novo eu, com pontos que gosto e que são novos, é apenas temporário. Que perco-o mal esteja de novo na realidade que deixei em Portugal. Não sei porque me embrenho nestes pensamentos agora, que são sete da manhã. Talvez porque a noite anterior foi surreal.


Apanhámo-nos numa das ruas mais decadentemente capitalistas da capital do maior país comunista do mundo. A Dongqidao é uma espécie de Quinta Avenida chinesa, luzes brilhantes e milhentas de lojas de multinacionais, restaurantes de comida rápida, o crespúsculo substituído pela intensidade da electricidade. É uma das vias mais importantes da capital chinesa, cheia de estabelecimentos comerciais e embaixadas. Há uma loja da NBA com quatro andares, todos eles visíveis a partir de fora; e numa rua paralela, podemos ver até bem ao fundo casas em estilo colonial onde se alojam embaixadas de países tão diferentes quanto a Mongólia, o Vietname, a Irlanda, Roménia ou Cuba. O mundo, vai-se a ver, encontra-se sempre no consumo. Na compra. NO comércio que vem tão da antiguidade chinesa quanto o Mandarim ou o chá. Caminhamos um bocado à deriva durante vários quilómetros, até os pés nada mais serem do que chapa. As minhas pernas, depois da malha da manhã e do início da tarde, estão feitas colunas de templos antigos, pedra escavacada. Com um ratito no estômago, jantar é necessário. Dividimo-nos e inevitavelmente, no meio de tantos restaurantes de comida chinesa, o meu último jantar em Pequim é num McDonalds. Não me sabe mal, digo-vos. A única loja onde acabaremos por entrar, para compensar o desvio superficial, é uma livraria. Tenho bastante curiosidade depois da experiência, que agora me parece fumo, em Kashgar. Encontramos bastante literatura ocidental, best-selles. Uma coleção imensa de Shakespeare, quase tudo de Stephen King em chinês e em inglês, Stieg Larsson, tudo o que se espera de um entreposto livreiro ocidental. Mas num canto mais selecto da loja, onde as estantes são de uma madeira nobre e o espaço muda em largura, longas prateleiras acomodam, clássicos chineses de filosofia e compêndios de acupunctura. Estes não se desfolham, abrem-se. Longas ilustrações caem-me para as mãos e caracteres chineses analisam pontos de pressão, conselhos para não transformar as agulhas em algozes de paraplegia. São carotes, mas há quem compre. O grupo de advogados do grupo ainda namora uns códigos penais chineses, mas também acaba por não trazer. Em grande destaque, num poster, Xi Jinping anuncia o seu mais recente livro, um gigantesco plano para o país com ditames que foram integrados na Constituição nacional no ano passado. No exterior, o contraste. Uma avenida fervilhante, colorida, em vagas de gente que não morrem na praia, mas antes ressucitam no pavimento. Azáfama total, de um lado para o outro.  Em todos os cantos, grupos exibem-se em cultura. Não sei se voluntário ou se estamos na altura de algum festival; mas do exterior da livraria, se olhar em meu redor, há demasiado a acontecer. Mais distante de mim, gente vetsida de verde salta e rebola em números circenses, aguns deles comandando um dragão de plumas que parece uma montanha russa. Têm de todas as idades e marcham no ritmo dos mal ensaiados, mas que adoram o que fazem. Mais perto, três portas à nossa esquerda, um grupo instrumental de sopros enche a rua com aquele trinar que me irrita tanto da música chinesa; e à nossa frente, mas do o outro lado da rua, dezenas de dançarinos azulados, numa coreografia orientada, estão longos minutos em movimentos orientais ao som de baldas de fazer chorar não as pedras da calçada, mas o cimento do chão. Mexem-se numa câmara lenta deliberada. A conduzi-los, um senhor de t-shirt branca, com a convicção de que ser Messias pode envolver passos de dança Atrás de sim, as montras de uma Prada anunciam saldos e roupas de corte elegante e muito na moda. Sei que o contraste traz uma ironia óbvia, mas prefiro concentrar-me em quem, por um gosto decerto, se encontra a esta hora da noite num local tão movimentado em coordenação completa com outras pessoas pela simples razão de mostrar a todos a sua cultura, a sua intenção, a sua mensagem do que é para si ser chinês e viver a China, Um só país, uma só cultura, uma só gente. Pouca discordância na coreografia, no gesto. Unidade. Representam a ideia deste país, na sua força de imposição a todos os que sendo diferentes, são convidados a ponta de uma bastão a serem iguais. Uma China multicultural de uma só expressão e direcção.


É a última imagem que guardo antes de me ter deitado, já torcido, na noite anterior. Há viagens em que sentimos que ainda há mais, que podemos mais. Nesta, a minha mente e o meu corpo sentem a necessidade de regressar. Não sei se é da China ou de mim. Talvez no tenhamos infectado ambos. O que é uma palavra engraçada de usar, porque quando escrevo estas, muito depois de viajar para casa e de ser revistado por causa de um lenço de papel ranhoso em Munique, China é o país que domina todas as atenções. Estamos todos fechados em casa à conta de um bicho que brotou de lá. Algures em Dezembro surgiram uns rumores. Quase ninguém prestou atenção, porque aparentemente não era nada. No entanto, porque uma estadia no país me deixou desde logo alerta a verdades e sossegos do governo local, comentei com alguns amigos que aquilo não era verdade, que a situação de certeza era mais séria. Longe de sonhar que em Março estaria fechado em casa, mas ainda assim com uma desconfiança que não é paranóia porque se esteve para lá dos truques da autocracia chinesa; e a verdade é que Xi Jinping foi negando até a pura brutalidade e granítica resistência do Comité Central ter chocado de frente com algo que nem a sua soberba humilde pode dominar: a natureza invisível. Em duas semanas, uma das províncias do país brotou uma doença respiratória que nos dias seguintes se espalhou pelo mundo, tendo matado, no dia em que escrevo, mais de cento e cinquenta mil pessoas. Numa reacção previsível, a China perseguiu os médicos que alertaram com tempo, depois agiu. De forma célere e brutal. Fechou todos os cidadãos em casa e colocou penas de prisão pesadas sob a cabeça dos prevaricadores. A economia contraiu e o dragão chinês, que dias antes rugia de poderoso com as patas dominando o mundo, via a sua economia contrair ao tamanho de uma gruta de Bezem Klik. Por várias vezes tentou afrouxar as medidas de confinamento, apenas para ver o bicho ressurgir em grande força, em grande estilo. A máquina repressora via-se ultrapassada por um inimigo indomável, como uma praga vinda dos confins da raiva dos uigures, conjurada algures numa banda do mercado de Kashgar e lançada à China Oriental da etnia Han dominante, a mesma China que os persegue e às restantes minorias, com uma arma que não distingue ninguém. Actualmente, decorre uma tentativa de reabrir o país. Toda a gente caminha de máscara, controlado pelo telemóvel - com de costume, o instrumento de submissão preferido dos chineses - constantemente abordados pela Polícia e pelo Exército. Quando cheguei em Agosto, pude assistir à maneira como uma pequena parte do país suportava esta ignomínia todos os dias, perante uma cegueira geral e falta de queixa. Hoje, todos os chineses sabem o que é viver, de facto, apertados contra uma parede e tratados como criminosos apenas por presunção. Como algo tão minúsculo se tratou se colocar um país no lugar.


Estes epílogos costumam ser textos mais curtos onde reflicto sobre o que vi e o que aprendi. Sobre pessoas e lugares, sobre mundos tão fora do meu e que mesmo apanhando-me na curva da melancolia ou pior ainda, me impelem sempre a voltar, ano após ano, à arena da viagem. Em 2020, é pouco provável que consiga sair daqui, com tudo adiado para 2021, na melhor das hipóteses. Mas não há grande lições a tirar deste périplo pela China a não ser as que já registei. A experiência da opressão vista de fora, a multidão de línguas e rituais diferentes, sítios que só se explicam na luz do olhar que brilha quando os contempla, a força de sentar e assistir, pensar, guardar. Começo a pensar que viajar não é muito mais do que isso, uma tradução mal feita da linguagem do espanto. Que nem as fotografias, tenho pensado nisso, conseguem contornar. Tenho pena dos anos em que fugi do mundo, percebo agora bem que não se vive em páginas ou em ecrãs. Pelo menos, não se vive o que não podemos ser durante os dias. Numa confabulação tão fora daquelas que concebo na minha cabeça, estas Chinas que vi guardam-se numa caixa de memória, que desperta sempre que ouço o nome ou vejo os protestos em Hong-Kong, filas de doentes em Wuhan, a silhueta de Tony Leung e Maggie Cheung em "In the mood for love". Percebo o que as notícias não dizem e mostram. Não é ser especialista é intuir na experiência o que ficou por falar. A viagem tem-me ensinado coisas que nem pensei aprender e só vos posso transmitir nestas crónicas, por vezes escondido, por vezes ao arrasto daquilo que me atormenta e acaba por passar. Obrigado a quem as acompanhou todas as semanas, escrevo isto para mim, mas são vocês quem acaba por usufruir e no fundo arrebanhar a sua propriedade. No momento em que as publico, são vossas. Como todas as minhas viagens acabam por ser, e como a próxima também a será. Porque decerto, para lá de toda esta prisão, iremos fazê-la juntos. Eu, vocês... e os meus demónios também.

quinta-feira, abril 16, 2020

Fachinaçao 26: Quantos queres?


Localizado na zona Leste de Pequim, o Mercado de Antiguidades, conhecido no idioma local como "Panjiuayan" é um perfeito microcosmos de uma China que nem um estado repressivo e vigilante consegue dobrar. Porque encarna toda a anarquia que só pode existir num país com mais de um bilião de pessoas. É um espaço enorme, dividido em cinco parte bem distintas, longas ruas, algumas estreitas e outras bem espaçosas, mas com uma coisa em comum: tudo se vende; e quando digo tudo, estou lá perto. Só não vi pessoas e animais ao desafio dos saldos, e mesmo assim não garanto que não existisse, algures debaixo dos meus pés, uma sexta galeria subterrânea. De resto, se puderem pensar numa coisa, ela existia no Mercado. A confusão e a flexibilidade das regras é tal que é conhecido por um outro nome mais coloquial: o Mercado Sujo. Não porque seja particularmente perigoso ou dominado pelo crime; apenas porque tudo se negoceia com jeitinho e preço visto não será necessariamente preço pago. É algo que se vai descobrindo nesta Pequim mais próximas das pessoas e que se entende uma certa filosofia de trabalho que traria alegria aos patrões portugueses e horror aos empregados. A ideia de ganhar dinheiro é importante e se tivermos de fazer compromissos para isso, por muito que esses compromissos sejam contra-intuitivos, o Chinês acha justificável. Na noite anterior, enquanto deambulávamos por uma zona de restauração nocturna, vi a placa de um restaurante aberto vinte e quatro horas por dia - não para take away, mas para refeições em mesa mesmo. Oferecia também espectáculos de tango ao vivo duas vezes ao dia. Está-lhes no sangue. Já aqui vos falei da antiguidade das Rotas da Seda, brotando de Pequim para florir por toda a Ásia rumo à Europa, do quanto o comércio faz parte sanguínea da vida destes povos de tão longe de nós. Não com salamaleques, mas resolvido numa simples conversa, na diplomacia de uma gargalhada, na simpatia imediata criada com duas piadas. Nestes quarenta e oito mil e quinhentos metros quadrados, negoceiam habitualmente mais de dez mil pessoas, divididas em quatro mil lojas ou bancas. Calcula-se que ao fim de semana, a altura em que se fervilha com mais vontade no espaço, por volta de setenta mil clientes e curiosos passeiem os seus olhos pelo que se oferece à vista a troco de uns yuans se desejamos possuir. Desde, dez mil são estrangeiros. Como nós; ou como Hillary Clintom que chegou a visitar este mercado numa visita oficial quando era Secretária de Estado norte-americana. O mais curioso é que apesar da sua fama e tamanho, começou em 1992 como um ajuntamento espontâneo de vendilhões à beira da estrada que passa defronte da entrada principal. Com o tempo, mais pessoas traziam os seus sacos e caixotes, com artesanato, quinquilharia e raridades, preservando a cultura popular chinesa numa capital cada vez mais a virar-se para o betão, o cosmopolitismo e uma certa ideia tacanha de progresso. Era como se ali, entre regateios e pregões, entre apertos de mão que valem mais do que PIN de cartões e notas e moedas que saem facilmente das carteiras quando seduzidas por uma boa proposta, estivesse o que é de facto o país. Eu vi muito nestes quinze dias, muitas facetas do que é ser chinês e as encruzilhadas em que a China se encontra numa geografia multicultural que não pode ser totalmente eliminada, por muito que seja o esforço. Mas aqui, sinto um pouco daquilo que é o espírito desta gente, não de simplicidade, mas de um pragmatismo quase frio, mas simpático. Quando me começo a perder entre berros e olhares convidativos, atirando o meu para a mercadoria, é que começo a encontrar uma China mais autêntica.


O que podemos aqui encontrar? Ora, o Mercado divide-se em cinco zonas principais. Logo à entrada, concentra-se uma série de bancas que vende exclusivamente ícones e estatuária budista. Se tiverem sorte, ainda apanham algum artífice a trabalhar numa. Algumas cabem num bolso, outras precisam de um guindaste e uma carrinha de caixa aberta para ser retiradas. Horas mais tarde, já à saída, passo no mesmo local. Uma estátua de Buda, quase da minha altura, está a ser carregada para um camião com a ajuda de uma empilhadora. Dá para entender porque esta zona fica ao ar livre, sem coberturas. Logo de seguida, dentro de um edifício de betão de dois andares, situam-se as lojas que vem mobília antiga e vintage. Não chego a entrar, porque para mono, sinceramente, basto-me eu; e ainda que o voo para Portugal seja com a Lufthansa, a sua política de bagagem é ainda assim apertada. Mas dou uma olhada para o interior do primeiro andar. Uma das lojas anuncia exemplares mobilários do tempo da Revolução Cultural chinesa, o que os torna, desde logo, sobreviventes natos. Numa terceira zona, que atravesso com algum vagar, alfarrabistas tentam-nos com livros antigos. Oferece-se um manancial quase sem paragem de propaganda comunista que vai até aos tempos de Mao. Seguro nas mãos um exemplar do famoso "Caderno Vermelho", escrito pela luminária principal do comunismo chinês, datado de 1953, quatro anos após a Revolução Chinesa. Espalhados por outras bancas, ha´romances policiais censurados, bandas desenhadas contando as vidas de heróis comunistas, versões chinesas de clássicos ocidentais, como as peças de Shakespeare ou "Os três mosqueteiros" de Dumas, e também exemplares de jornais, calendários curiosos, pinturas tradicionais chinesas e cartazes de propaganda. É também numa banca em particular que encontro das coisas mais bizarras que vi à venda: baralhos de cartas temáticos e bastante politicamente correctos. Mais atrevidos até do que aqueles que envergam desnudas mulheres Um, por exemplo, representa uma alta figura do Partido Nazi em cada uma das suas faces. O Rei de Espadas é Himmler. O de Copas Goering. Cepo como era, claro que o amigo Adolfo tinha de ser o Rei de Paus, com Eva Braun a acompanhá-lo no naipe. Talvez os Chineses não vilanizem tanto o ex-Fuhrer porque afinal, o Holocausto fica-lhes tão distante quanto a nós o Grande Salto em Frente. Se há comunistas em Portugal convencidos das qualidades de Estaline e Mao, não podes estes amigos chineses ser igualmente ignorantes em relação ao ditador de bigode ridículo? Mas há mais até: naipes com líderes comunistas estrangeiros, de Trotsky a Tito; um apenas dedicado a OVNI; diferentes pratos de cozinha chinesa; vegetais coloridos; representações várias de dragões; pin-ups da década de 50; cartazes da boémia Paris do século XIX; e o pináculo de bom gosto de que é uma história ilustrada dos atentados de onze de Setembro de 2001 contada com estrutura irrepreensível. No naipe de Copas, o horror das imagens da tragédias, prédios em ruínas, a famosa foto do homem que salta de cabeça para baixo; no naipe de paus, a vida do mentor deste ataque, Osama Bin Laden, desde um ladino riquinho das Arábias até à assunção completa como barbudo terrorista e mentor de terroristas; no de Ouros; a reacção norte-americana: a guerra do Iraque, o Afeganistão a ferro e fogo, o Patriot Act, Dick Cheney quase fazendo de conta de tipo porreiro; no naipe final, o de Paus, a famosa operação que executou Bin Laden, sem a participação de Kathryn Bigelow. Mais à frente, noutra loja, encontramos uma variante de cartas com o triplo do tamanho e imagens diferentes. Na verdade, depois desta zona, quase acredito poder encontrar as próprias bolas do dragão algures debaixo de um pano vermelho numa banca. Não me surpreendo.


A quarta secção do Mercado Sujo é também a maior, de longe. É a do Meio e consiste, basicamente, num salve-se quem puder de produtos. Em contentores ou simples mesas, expõe-se joalharia. pinturas chinesas, caligrafias artísticas, jade, contas de plástico e de pedra, produtos em bronze, vasos de cerâmica, mobiliário de madeira pequeno, arte tradicional chinesa, arte tradicional tibetana, molduras, bijuteria, cerâmicas várias, álcool proibido, pinturas celebratórias do Ano Novo Chinês de Yangquling, escultura em madeira de Quyang, cristais de Jiangxi,... Ninguém sabe bem o que é falso ou autêntico. Pode ser apenas uma arca de tesouros infindável ou simplesmente o Evereste da falsificação. Só posso reportar o que vi por ali, no meio de tanta gente. Peçam-me para assegurar autenticidades e é impossível. Não levei uma lupa para ler as letrinhas miúdas de cada artigo. Comprei algumas coisas, claro, mas pela pura curiosidade de levar para casa produtos chineses comprados na China... A surpresa maior, no entanto, encontrei-a na última secção deste labirinto. Mesmo no seu centro, um outro edifício de dois andares passa despercebido pela sua falta de personalidade. No entanto, aqui se encontram as lojas mais selectas, onde os produtos trazem certificados de autenticidade, mas também preços exorbitantes. Entro com o Zé Luís e encontramos dois garotos a brincar aos cowboys. Tendo em conta os papel destes na exploração de culturas nativas, não posso deixar apropriado. Damos uma volta rápida no rés do chão A maior parte das lojas vende móveis, tecidos dourados, objectos brilhantes. Nada que nos interesse. Subindo ao primeiro andar, recebem-nos dois enormes bustos. Um é de Lenine. Outro de Mao. Dois ícones vermelhos, dois filhos da mesma mãe comunista, separados por quilómetros de distância e a ânsia de serem os únicos galos na Revolução mundial. Fotografo-os, aproveitando o jogo de reflexos das caixas que os tapam. Enquanto caminhamos nos corredores, encontramos uma loja que vende exclusivamente os mesmos baralhos de cartas que encontrámos na secção dos alfarrabistas. Existem outros sobre tragédias várias e temas ainda mais questionáveis (Chernobyl anda por lá, Hiroshima também. Penso ter visto outro sobre cenas de chacina e morte generalizada, mas pode ser a minha memória deixando-se levar pelo mau gosto). Infelizmente, está fechada. A desilusão insufla ambos e carregamos as nossas penas pelo resto do andar. É para lá de uma porta sem grande fanfarra, no entanto, que nos confrontamos com algo impensável. O interior desarrumado rodeia um homem calvo, bigode de Fu Manchu, que passa o tempo em torno de uma fumarada de nicotina. O som pálido de música tradicional chinesa não deixa a sala sem perguntas ou respostas. Mas em primeiro plano, muito perto de nós, um manequim inexpressivo enverga um uniforme militar. As calças são pretas e estão curtidas, gastas, mas limpas. A camisa, verdade, cobre-se de algumas insígnias, a maior parte preta ou branca, grande, mas não espampanantes. Nos colarinhos, inscrições em alemão que não consigo traduzir nas minhas limitações. Na cabeça do manequim, um capacete negro, de ferro, pesado. Vejo a águia emplumada; vejo a cruz gamada negra; botas de cabedal; colarinho branco debruado a negro. Olhamos um para o outro: é uma farda da Wermacht, a infantaria nazi, do tempo da Segunda Guerra Mundial. Não sabemos se é autêntico, mas... se for falsificação, está muito bem feita. Tem os pormenores todinhos, inclusive alguns mais específicos, de divisões de elite deste corpo do exército germânico. Por curiosidade, abordamos o dono da loja. Perguntamos onde arranjou aquilo. Fixa-nos inexpressivamente durante uns segundos e abana a cabeça. Não revelará. Quanto é? Aponta num papelinho: 300.000 yuan. Mesmo depois de desaparecidos, os verdadeiros nazis continuam a fazer razia. No caminho para a saída, continuo a perguntar-me acerca da tortuosa rota que levou aquela relíquia até Pequim. Os Nazis não combateram para estes lados, que eu saiba. Algum coleccionador? E que público haverá na China por este tipo de artigo? O Mercado Sujo, no entanto, continua a guardar os seus segredos.


O dia estava mesmo reservado para consumir. À tarde, damos por nós no Silk Road Market, um centro comercial gigantone de quase vinte andares prestação de serviços de compra e venda. De certa forma, é uma modernização do Mercado Sujo onde deambulei de amanhã. Os produtos também estão organizados e separados, mas aqui por andares; o negócio faz-se depois de muita conversa, mas sem apertos de mãos, só dinheiro na mão; e também podemos encontrar de tudo - com um bocadinho de esforço, se me dispusesse a vender um dos meus rins, tenho a certeza de que acharia comprador e intermediário. Os homens estão completamente virados para a relojoaria e electrónica e ambas as secções de localizam no nono andar. A porta do elevador abre-se e quando olho, há um longo corredor apenas com lojas de relógios. Mal a campainha de chegada soa, cabeças espreitam pelas portas das lojas. Está iniciada uma batida aos nossos yuans. Quando percebem que somos ocidentais, o frenesim da excitação aumenta exponencialmente. Um pouco como se um virgem adolescente desse por si trancado no vestíbulo de um desfile de modelos. Os convites chovem logo, querem convidar-me e levar-me a passear, algo que não estou sinceramente habituado. Entro logo na primeira loja que surge, mas mais como observador. Deixo outros viajantes mais experimentados na descodificação das regras do negócio. Não é muito complicado. Todos os lojistas falam um inglês aceitável e a primeira abordagem é clara. Um elogio lato, um comentário engraçado, pergunta acerca de onde somos. Invariavelmente, a reacção é "Ronaldo", mas lembro-me de um ter dito "Pena terem vindo embora de Macau, os portugueses de lá são todos muito simpáticos". Salamaleques feitos, sob a luz forte das montras, o primeiro passo é dado: quer um relógio? Diga a marca. Imaginem que desejam Montblanc. Sem problema ou hesitação, uma pesada e volumosa mala de metal surge que vinda da Terra Média em expresso Gandalf. A tampa dá de si e no interior, dezenas de caixas. Em cada uma, um relógio. Podem ser originais ou réplicas, é um bocadinho como no Mercado. Mas uma pessoa não está aqui ao engano. Sabe bem que esta é uma lotaria com pouco de aleatório e que muito provavelmente, as imitações reinam supremas. Podemos experimentar. Revelo já que não uso relógio. Na verdade, estou aqui em missão abnegada. Venho em compras. Para o meu irmão, principalmente, amante de relógios. Eu não gosto de lhes sentir a presença no pulso, tornam o tempo numa espécie de prisão acorrentada que consigo sentir sem ter pedido licença. Mas o rapaz ainda por cima desejou-me para padrinho do que de mais importante há vida dele, merece. Quando o jovial homem me aborda, procurando um cliente, finjo que sei muito do assunto. Digo a primeira marca que me vem à cabeça: Omega. O product placement em filmes resulta de facto. James Bond como macho Alfa e Ómega. Numa olhada, naquela arquinha metálica com pega, encontro um relógio negro, com mostrador azul, ponteiros brilhantes. Apela-me. Não sei se ao meu irmão, mas se ele quiser trocar, até lhe dou a morada do centro comercial. Olho para o Zé Luís, que tem muito menos piedade e escrúpulos do que eu. Sei o que se segue, aquele jogo que os asiáticos tanto disputam e que pode cair para qualquer lado: regatear. É um jogo para o qual pessoas como ele nasceram, pessoas cujos escrúpulos seleccionáveis não incluem agiotas e especuladores. Deixo a coisa nas mãos dele. O preço inicial é mil e duzentos yuan. Isto atira para os cento e cinquenta euros, algo que não estou disposto a gastar. Sei que sou professor, milionário nascido, mas não. O regateio é uma operação cínica. Acontece, porque ambos sabemos que o verdadeiro valor do objecto não é o preço estabelecido. Muito menos aquele que estou disposto a dar por ele. Mas o relógio deve ser despachado. Por isso, há mortais encarpados e flik-flaks à retaguarda naquilo que cada uma das partes está disposta a ceder. O truque é perceber as linhas do desespero, até onde podem ser esticadas e dobradas. As deste homem tinem sonoramente quando se chega aos quatrocentos yuan. Um desconto de mais de 50%. O argumento derradeiro até é dado por mim. Explico-lhe que ele pode ter um cliente que paga mil e duzentos, ou seis a pagarem várias vezes quinhentos ou seiscentos. Porque ao beneficiar-me, entra no goto dos meus amigos, explico; e os meus amigos tornam-se seus amigos. Pensativo, meditabundo, olha para o tecto; e cede. Cumpro a minha parte, encaminhando os restantes portugueses para ele, no meio de tantas lojas. Alguns levam três, quatro relógios. Não me sinto mal com a implacabilidade de regatear.  Naquela tarde, estou certo de que o lojista ganhou o dia.


Ainda há espaço para despachar mais prendas, incluindo uma para a minha cunhada e uns tecidos de seda que a minha mãe me encomendou propositadamente. Isto junto a uma loja chamada Earhub, com um logotipo bem semelhante a um conhecido site de conteúdo visual mais arriscado. Já tenho tudo, penso. Falta-me uma prenda para alguém, mas não encontrei algo de que gostasse. Reencontramo-nos todos no rés do chão. A linha dezasseis do metro levar-nos-á para o centro de Pequim, onde terminaremos o dia jantando. Na saída, passamos junto a uma foto onde um grupo de jovens chinesas rodeia um bonacheirão sorridente, com ar patusco, que não é mais que o antigo mayor de Londres Boris Johnson. Aconteceu numa visita onde este ilustre homem de visão foi beber dos Chineses e da sua experiência olímpica de 2008, mesmo a tempo de Londres 2012. Os políticos chineses, de facto, não têm quaisquer problemas morais. Boris também não: estão bem um para o outro. Mesmo em frente à foto, há, claro, mais um banca de bugigangas. Claro que há. O dia foi tirado para isto. Atrás de uns bonecos, vejo um globo de neve Um acaso feliz, Tinhas-me pedido um, se a encontrasse. Que adoravas a redoma dos globos, isolando um pequeno mundo na sua calma e placidez, de como quem vive nele não é afectado por nada, mesmo nada do exterior. Várias vezes fazíamos piadas sobre o nosso pequeno planeta surgir quando nos juntávamos, quando o resto da realidade sumia por um buraco negro e sobrávamos nós, muitas vezes abraçados, muitas vezes anichados um no outro, sempre de mão dada, sempre acima de tudo e abaixo da nossa própria fatalidade quando existimos. Compro o globo e guardo-o. A intenção era dar-to, mas enquanto arranjo estas letras como substituto daquela dor que nos transforma em gelatina, continua lá em baixo, numa gaveta. Guardado, a prémio. À espera que por uma vez acabe o regateio. É teu, não preciso dele. Espera-te, mesmo quando não me esperas. Veio de um ponto da terra onde os beijos que dou no ar são para ti, onde à noite consegues ser o último fumo do meu estado de vigília, onde vais comigo sem presença. É o teu globo, a tua redoma. Não sei se o nosso planeta, mas está cheio de estrelas. Parte delas feitas de um sal que só nos meus olhos se esconde.

quinta-feira, abril 09, 2020

Fachinação 25 - A Grande Muralha da China




Escrevo isto uns bons meses depois de visitar a Muralha da China, mas enquanto procurava as palavras do começo de texto, só me conseguia lembrar da manhã em que me sentei em pedras andinas para ver nascer o Sol sobre Macchu Pichu. Não sei se por gostar mesmo de História, mas para mim as pedras não são pedras. Vejo-as sempre como feltro do tempo. As coisas acontecem ali em redor, muitas vezes contra elas, sangue e pele, espadas e alfaias agrícolas, toda a curva de uma alegria ou recta infinita da decadência. Às vezes penso que abrindo uma, de uma maneira específica, num encantamento particular, tudo isso fica a descoberto e descobrimos que as pedras gravam tudo. Que a História se pode ver como um filme. Existem parapsicólogos teorizando sobre essa possibilidade para fantasmas, que não são mais do que uma mera repetição de eventos, momentos e comportamentos de séculos anteriores. Enquanto a luz solar desvendava as frinchas rochosas daquelas casas antigas, da montanha que protagoniza postais e fotos de epifanias bacocas de influencers, a minha mente tentou imaginar como seria tudo aquilo com Incas; e não me acontece em todos os locais antigos que visito. Há alguns que puxam essa fuga ao presente e à realidade que se aceita, como se a sua simples construção evocasse qualquer ponto indefinível a partir do qual nascem realidades. Sim, soa a delírio, mas só entende quem se abre aos lugares e aos espaços que não morrem, só se renovam. Pensei muito em Macchu Pichu dentro da camioneta que nos levou para fora de Pequim naquele dia em que pude riscar mais um cliché turístico do meu caderninho: a Grande Muralha. Habitualmente, quando na China e entregando-se nas mãos de companhias turísticas o turista é levado a Badaling, o pedacinho da Muralha mais próximo da capital chinesa. Torna-se mais barato e prático, mas estraga fotografias: a imagem de um longo rebanho humano calcando pedras desse caminho empedrado e muralhado é o ideal para quem quer dar por mal empregue o tempo e dinheiro gasto a vir à China para ganhar o direito a poder dizer depois aos amigos que a Muralha é espectacular/nada de especial/ya, é fixe. Apesar de ter aprendido, com os anos, a apreciar um pouco do contacto com pessoas em países que visito, ainda mantenho a ideia de que o mundo é uma coisa bem gira e o que o estraga são as multidões. A experiência humana é gira, mas às gotas. Trazemos histórias bem engraçadas, mas demasiada perde a piada. Felizmente que o guia da viagem, o Zé Luís, mesmo gostando bem mais de gente do que eu, também é um purista da bela imagem solitária de um local icónico. Como tal, vamos em rota para Jinshanling, duas horas a Norte. Tem tudo o que a Muralha pode oferecer, desde muros, muralhas e muralhitas, ameias e torreões, postos de vigia e degraus. Ficando mais distante de Pequim, a esperança é que seja lembrada e visitada por muito menos povo. Daquele de turistas chatos. Pude fotografar uma Macchu Pichu deserta, sem ninguém. Espero a mesma oportunidade no outro lado do mundo, numa imagem que tem muito mítico, de maneira literal.


O mito maior é a de ser visível a partir da Lua. Já o ouvi tantas vezes que quase parece facto científico. O curioso é que a sua origem vem do século XVIII; quando William Stukeley, um antiquário britânico, que ao comparar a Muralha de Adriano à sua bem mais imponente congénere chinesa, comentou que a do Oriente era superior e tal era atestada pelo facto de poder ser vista a partir do nosso satélite natural. Calculo que seja fácil concluir o ridículo da afirmação feita numa altura onde não só o Homem não tinha colocado os pés na Lua, como por alguém que não tinha feito nem sequer a muralha toda, nem se lhe conhece qualquer visita ao Extremo Oriente... A partir daí, surgiu a crença e foi repetida por todos o tipo de viajantes de cadeirão até à famosa colectânea de bizarrias "Ripley's Believe it or not". Já foi desmentida várias vezes pela NASA; mas aparece sempre, vinda dos confins da ilógica. Repare-se que apesar da sua extensão, a imponência da Grande Muralha é igualada por várias construções no planeta, como as Pirâmides por exemplo, ou o Taj Mahal. OU Chichen Itza. Ou Angkor Wat. Sobre nenhuma delas é alegada tal coisa. Mas nós somos a civilização científica que um dia acreditou que Marte tinha canais e isso era um sinal de vida inteligente no planeta vermelho, logo... Dito assim não parece estapafúrdio. No entanto, isto revela o quanto é insofismável a existência de uma construção tão gargantuana quanto esta. Repare-se que estamos perante algo que se estende por mais de vinte um mil quilómetros. Mas a Muralha, em sim, não existe. Porque aquilo que conhecemos por esse nome é um conjunto de várias fortificações diferentes, construídas em diferentes alturas da História chinesa, e que foram sendo somadas umas às outras. Foi a ameaça dos povos nómadas das estepes, o local de onde viria a ameaça dos Hunos e mais tarde os Mongóis, que levou a esta decisão. O século VII A.C viu a primeira fase de construção inicial e no terceiro século após o nascimento de Cristo, o primeiro imperador da  China, Qin Shin Huang, uniu os vários pedaços numa muralha única. Mas quase nada existe desta fase inicial. Os pedaços mais conhecidos e visitados actualmente são da dinastia Ming, entre os séculos XIV e XVI. Pelo meio, outras dinastias expandiram a Muralha até à dimensão que conhecemos hoje. Jinshanling é uma dessas porções. Data de 1368, erguida sob o comando de Qi Jiguang, um famoso general do tempo Ming. Existem aqui sessenta e sete torres de vigia, três torres farol, onde eram colocados grandes fogueiras para servirem de referência à distância - um pouco como os marcos geodésicos hoje funcionam para o mapeamento militar - e cinco entradas. Tudo isto em dez quilómetros e meio, a setecentos metros de altitude. E alguém teve de fazê-lo. Ao contrário de Macchu Pichu, onde o que confunde é a motivação de construir uma cidade num local tão deslocado e ermo - e só percebemos de facto o quanto isso perplexa quando percorremos a estrada que lhe dá acesso, uma linha elástica sussurrante ao contornar uma montanha que atinge praticamente os dois mil e quinhentos metros de altitude - o que me fascinava na Grande Muralha era a pura força bruta do tamanho e da extensão, da quantidade de homens que aqui deixaram o couro e a vida só para erguer defesas. É algo que só pode acontecer quando uma nação tem gente para queimar. Um pouco como a União Soviética e as suas grandes obras, também a China é um colosso suportado por esqueletos e morte. A população tem sempre um aspecto fundamental na história dos países. Portugal, por exemplo, nunca tece de facto um império colonial, ao contrário do que gostava de propagandear, simplesmente porque não possuía gente suficiente para controlá-lo. Daí ter construído apenas pequenas cidades ou fortalezas que serviam propósitos comerciais. Uma área ocupando quatro continentes, mas presa por arames. A China, na sua imensa extensão e população farta, é pelo contrário uma cornucópia de braços de trabalho e carne para canhão. Pessoas não só problema nem obstáculo para ideias. Não sei se haveria um método mais eficaz de evitar invasões. Repare-se que os Romanos, como disse em cima, experimentaram a mesma táctica nas Ilhas Britânicas com a Muralha de Adriano. Esta media, e mede ainda hoje, 120 quilómetros. Ora, isto é um vigésimo do que os Chineses fizeram, embora num período de tempo maior. Já expliquei que não sou muito de clichés turísticos, mas em dois anos seguidos, visito igual número; e este acaba por ser uma excepção porque o interesse é puramente egoísta: quero, de facto, perceber o quão esmagadora é esta construção.


Uma vez chegados ao parque de estacionamento, a primeira surpresa é ver zero pessoas. Nenhuma fila de turistas, nenhum magote de fotógrafos de pacotilha irritantes. O centro de visitantes está também deserto e é aqui que esperamos pelos bilhetes. Subimos uma pequena estrada e perante a hora, meio dia e meia, decidimos que o melhor é almoçar qualquer coisa. Numa lanchonete à beira do caminho, pintada de cores garridas, como um dos piores hambúrguer da minha vida; acho que é a última vez que me queixo da comida chinesa. A carne é verdadeira comida de plástico, os molhos um cruzamento dentre uma facada no esterno e um armadilho imitando Maria Callas. Bebo água para empurrar, mas só piora. No entanto, e esta é a experiência de outros dias muito longos em viagem, o importante é ter energia no corpo. Não sei como será o terreno, nem a distância. Já tive o azar de levar a chamada martelada - quando o corpo desliga sem energia e só queremos, basicamente, que nos puxem com um guindaste - e não é algo que me apeteça repetir. Ainda para mais, numa Maravilha Moderna do Mundo (trademark). Portanto mordo a bala que é este hambúrguer, o que é uma comparação apropriada porque sinto que eventualmente me matará. Que estarei daqui a vinte anos numa condição física óptima, mas repente tenho um ataque súbito e é esta coisa que como a malhar com pouca misericórdia. Neste intervalinho sentado, noto duas coisas importantes. Em primeiro, uma magnífica dor de costas com quem me deitei ontem à noite assume contornos de esplendor. Talvez tenha sido do belo prato de camarões micro que comemos de entrada numa espécie de tasco oriental, existe dúvida; mas a certeza é de que me substituíram as vértebras por cutelos. A segunda é que uma infecção num dedo também promete brilhar a grande altura na sua vermelhidão. Nota-se mais quando pego na mochila. Torna-se óbvia quando seguro a máquina. Não é como se fosse passar as próximas quatro horas de mochila às costas a fotografar. O que quer dizer que não me deverá incomodar... Penso nisso enquanto um teleférico nos leva à entrada desta secção da muralha. A viagem ainda dura quase dez minutos, tempo suficiente para contemplar o longo planalto, as montanhas em redor, um tapete calafetado a verde lá no fundo. À medida que a altitude sobre, tornam-se evidentes os primeiros sinais de fortaleza. Pequenos torreões lá ao fundo, como se fossem topos de montanha, uma cintura castanha a uni-los por entre o verde. Vê-se ao longe, mas é claro. Quando chegamos ao ponto mais alto, surge à frente uma enorme torre de vigia. Ao sair, permito-me uma perspectiva em todo o redor e no raio de quilómetros para a minha esquerda e para a minha direita, a linha muralhada continua, intervalada por torres maiores e mais pequenas, postos de vigia. Desafia a mente descrever... o espanto da enormidade do que vejo. Quando olho para a esquerda, em direcção a Leste, consigo distinguir, baças, fortificações a uns cinquenta quilómetros de distância. Portanto, ela continua e segue por um longo, longo caminho. Subo a escadaria da torre, em três lances de degraus e não demoro a chegar ao caminho principal. Boné ajeitado, máquina pronta, dores que vêm comigo e a jornada pode começar. Num dos tijolos que fazem de chão, há caracteres desenhados, em chinês. Não sei se recentes, não sei se filhos da poeira de séculos. Mas quero imaginar que em noites frias, em tardes de tédio e de espera, um soldado se entreteve a rabiscar suspiros da demora na forma de traços.


A primeira noção a ter é a de que apesar dos restauros e da conservação, isto é uma construção que dura há mais de dois milénios. Tem personalidade. Não é como boa parte dos castelos portugueses, que tão recauchutados durante o Estado Novo que o Tempo não passou por eles, que as suas muralhas jamais presenciaram mortes ou batalhas. A Muralha está estragada. Faltam-lhe tijolos nas paredes, blocos no caminho. Existem muito mais buracos do que os que se vêem nas fotos; e embora todas as torres pareçam iguais, a passagem dos minutos e a experiência da visita ensinam as diferenças. As mais importantes e maiores são encimadas por pagodes. A maior tem dez metros de altura e é conhecida como a Torre do General. São três andares com funções diferentes. No topo, o dormitório de soldados. Enterrado nas entranhas da muralha, o depósito de armamento. Entre os dois, as janelas que oferecem a vigia. Quando tocava a rebate, daqui corriam os soldados. Um dos mistérios maiores, para mim que visito, rodeia os adversários. Porque uma mirada muito rápida pelas condições de terreno gera em mim a certeza de que só um bando de alucinados escolheria este ponto específico para atacar. As encostas montanhosas são escarpadas e praticamente impossíveis de trilhar. Não consigo entender como é que qualquer general optaria por uma estratégia quase suicida de para entrar em território chinês usando uma via intrasitável. Bem sei que Aníbal tentou conquistar Roma pelos Alpes, mas isso acaba por ser uma brincadeira de Sumérios em comparação. O nosso guia é um chinês que, maravilha, fala a nossa lusa língua. Na verdade, é um especialista no nosso país. A companhia para a qual trabalha organiza pacotes turísticos internacionais e a sua área é a Península Ibérica. Conhece Lisboa e o Alentejo, Coimbra e o Porto - algo pelo qual lhe quero dar os pêsames, mas travo-me a tempo - e por isso domina o idioma. Ouço as explicações iniciais mas rapidamente percebo que a acção e o interesse estão longe dali. Com o tempo, sinto boa parte do grupo a ficar para trás, em parte também pela destreza física diferente de cada um, e dou por mim acompanhado apenas de Mário, comendador máximo de Fronteira, e Tiago, conde maior da advocacia. Volta e meia trocamos umas piadas e uns comentários, mas na maior parte do tempo, cada um existe no seu mundo de contemplação. Cruzamo-nos com uma quantidade anormal de turistas italianos, mas falando com alguns pelo caminho, entendemos que são um grupo de meditação que procuram a auto-descoberta aqui longe. Depois de no ano anterior ter apreciado a mesma pandilha nas terras peruanas, apanho-a agora aqui, no lado oposto do planeta. Parece que a auto-descoberta está em todos os locais, excepto aqueles perto de onde vivemos. O que é espantoso. Caminhar na Muralha é uma mistura de aula de cardio e body pump, porque um outro mito que tenho de desmentir é da planura do caminho. Vai em altos e baixos, grandes declives a pique. A certo ponto questiono-me, e fico a olhar bem antes de me estragar numa ladeira sem degraus que com uns trezentos metros, como é que os soldados corriam de um lado para o outro nestas condições em casa de ataque. Eu levo apenas a mina mochila e uma máquina fotográfica. Eles carregavam dezenas de quilos de armadura e armamento. Hoje está sol temperatura amena, um dia espectacular; mas imagino nas estações frias, aqui em montanha, quando o metal se torna mais frio do que o próprio gelo. Ser enviado para tarefas na Muralha devia ser um castigo dentro do exército. Menor castigo é o momento em que, perante um lance de degraus mais íngreme, uma jovem italiana que caminha à minha frente aproveita uma escorregadela para assentar o seu fofo rabo em primeiro na minha cara, depois nas minhas mãos. Não planeava que alguma moça se atirasse a mim tão longe da minha terra, mas a vida é feita de surpresas.


Demoro quatro horas e meia no passeio. Tiro uma enormidade de fotos, mas não conseguem substituir o que os olhos guardam. Aquilo em que ainda penso quando escrevo isto. A visão de uma longa sela sob montanhas que nada mais são do que dorsos de cavalos rochosos. A impressão esmagadora de me encontrar numa torre e conseguir mais dez, quinze, vinte estendendo-se para bem longe é algo que não pode abandonar a memória de quem quer viver os momentos onde está. Onde existe. Há locais onde é céu parece ser mais real e o mundo um bocadinho mais do que cores e formas a que o nosso cérebro dá ordem para não se perder. Quero se transcendente, mas a certa altura não dá mesmo. Perante o riso de duas mulheres, um riso histérico e exagerado, mui nobre comendador Mário lança para os seus amigos portugueses uma imortal frase: "Ri-te ri-te, menina, que quando souberes que a vaselina tem areia até choras". Segundos mais tarde, descobrimos que são brasileiras ao falarem connosco e Mário não consegue confrontar condignamente a sua falha. Sâo ambas do Rio Grande do Sul e também se espantam, como eu, que no meio de tantos milhões e de tantos quilómetros, se tenham cruzado com quem partilha o mesmo idioma. O Mário também, mas não exactamente pelos mesmos motivos. Contemplo também este acaso, no meio de tantos que encontrei na viagem. Em dois terços dela andei meio perdido em mim, duvidando da minha vida, questionando escolhas, carregando pessoas como se fossem sacos de cimento a esmagar-me, ameaçando apertar o meu corpo, e o meu espírito contra o chão. Eles ainda existem. Mas aqui, tiram férias. Há um poder natural dos locais que esmagam, porque não esmagam apenas a compreensão, mas tudo o mais que apanham. Sinto isso nas montanhas, sinto-o aqui. Há uma sensação presente, em ambas, de que sou tão pequeno e um pormenor tão pequeno na História. De que os meus problemas se agigantam em mim, mas continuam a ser minorcas em tudo o mais que se passa. Que transitam, como as pessoas, de que tudo flutua e está condenado a desaparecer. Que há quem goste de ti em marés e tu nenhuma outra hipótese tens se não sentir-me areia da praia. Que pode escolher mas só para ti. Que esta Muralha serve para proteger, mas também caminhar: portanto guarda e abre o horizonte, e preciso de ambas. Ma saberia que precisaria mesmo nos meses seguintes e que estes quadros que construo nesta tarde me seriam um refúgio de tudo. Uma viagem prolonga-se enquanto a recordamos, nos ossos principalmente. Quando chego ao final, à torre de Jingshan, não tenho água e estou cheio de calor. Uma velhinha espera-me para cobrar uma garrafinha desse lóquido precioso fresco, dez vezes mais do que o preço normal. Sou roubado, mas aceito ser vítima. Talvez seja um padrão. Tenta impingir-me umas camisolas, mas até os maiores otários têm um limite. Sentado na rocha, à sombra, vejo bem o que andei e o que não andei também. Atrás de mim, existe o que me faltaria andar, se continuasse. Sei que a Grande Muralha da China tem princípio e fim, mas enquanto aqui estou, fingirei que não, que nunca acaba. Que é um bocadinho como o que me assombra. O assombro aqui é outro, e como aquele que fantasmas passados presentes me atormenta, também se vai prolongar. Dos meus olhos para tudo o mais no meu corpo que um bisturi não corta. Que não existe, mas mas que sentimos lá. Que é tão livre que uma Muralha, aí, é sinónimo de liberdade.

quinta-feira, março 26, 2020

Fachinação 24 - Eu gosto é do Verão



É mesmo ele. É Yasser Arafat- Não ressuscitado, entenda-se, nem mumificado. Múmias em Pequim, só Mao (tão poderosas no imaginários que passando defronte do seu mausoléu, vi algumas pessoas em vénias dedicadas). Está num retrato na parede de um corredor que conduz à saída do Quanjude, um dos mais antigos restaurantes de Pequim. Assume-se como o local onde foi criado o famoso Pato à Pequim, mas sendo eu da zona onde dois concelhos lutam até à morte pela autoria da chanfana, não levo demasiado a sério. Ao lado de Yasser Arafat, estão, entre outros, George Bush pai, Pélé e Fidel Castro. Um conjunto ecléctico de personagens. Fundado em 1864, o Quanjude tem uma certa reputação de classe entre os Chineses. O nome aliás demonstra isso, pois significa perfeição, união e benevolência. Beneficiou da protecção do primeiro líder do governo da China comunista, Zhou Enlai, que o frequentava amiúde e aí organizava banquetes para membros do Partido e para os dignatários estrangeiros que visitavam o país. Quando o Quanjude começou, em 1864, foi um ardil. O seu dono pagou principescamente a um dos cozinheiros do Palácio Imperial pela receita de um pato assado que era muito do agrado da Corte. Foi o primeiro restaurante a servir esta iguaria às massas e é hoje um dos franchises de comida mais conhecidos na nação. Apesar dos problemas que teve durante a Revolução Cultural, pela sua ligação a um período de História chinesa que estava fora da esfera comunista, é um local muito frequentado pelas elites políticas, como provam estas fotos de tanta gente famosa. Vim a saber mais tarde que existe um Quanjude em Portugal, caso queiram experimentar. Este tem todo o ar de espaço muito frequentado. Quando entrámos, estava praticamente cheio e tinha dois andares, várias salas de azafama gastronómica, o pato como vedeta central desta hora. Eu nem gosto de pato, mas comi carne de porco. Também estava boa. Os apreciadores da aves confirmaram, pelo menos que estava bem boa; e olhando aquela parece, vimos logo que estávamos em boa companhia. Da mesma maneira que aqui em Portugal aproveitamos todas as partes de um porco, desde as orelhas até aos cascos - porque poucas coisas revelam a penúria crónica de um povo como a sua habilidade criativa de recorrer como alimento ao que ninguém deseja levar à boca - nenhum pedacinho do pato é desperdiçado. Os seus pés tratados como iguarias de entradas, as entranhas propostas como deliciosos pratos no menu, a sua carne em mil e trezentas formas de preparar dentro de um forno a lenha. Como entrada, uma das especialidade são pezinhos de pato com mostarda. Pela cara dos meus colegas, não era de deitar fora. Fígados e corações també estavam disponíveis para aventureiros do palato. Pele tostada, sopa de língua de pato... O bicho morre, mas não é desaproveitado. Quando voltamos à rua, alguns sentem que caíram que nem uns patinhos neste almoço. Faz sentido. O meu espanto maior é que ninguém saio do restaurante a grasnar.


O plano para a tarde é visitar o Palácio de Verão, que fica fora da cidade. Uma hora, mais ou menos. A maneira mais rápida de lá chegar é através do Metro. Entramos na estação de Jiangdoman e já no subsolo, a primeira preocupação é a compra dos bilhetes. Não há bilheteiras, só máquinas. Que, claro, não têm instruções em inglês claro. Nem maneira de explicar como funciona o sistema de redes do metropolitano de Pequim. É enorme. Conseguimos ver que existem vinte e três linhas e com a maior parte dos nomes em Mandarim, sem qualquer pista que dê a entender a proximidade de algum local conhecido. Em redor, ninguém para ajudar. Um senhor idoso que carre o chão notou a nossa perplexidade e confusão, um grupo de ocidentais a carregar de várias intensidades e maneiras num ecrã. Inglês simples não resulta, gestos também: não consegue entender-nos. Alguns transeuntes, simpáticos, juntam-se, até um jovem que fala a língua de Shakespeare finalmente nos orienta. A compra exige uma série de escolhas que vão bem para lá da quantidade e do destino. Com paciência, talvez oriental, educa-nos nos modos chineses e lá seguimos. À nossa espera, um detector de metais e uma máquina raio X. É um procedimento comum. Ah, como tinha saudades... Depois de olharmos para um mapa, conseguimos entender mais ou menos o caminho a fazer. Por cinco vezes mudaremos de linha, até chegarmos à vermelha - aquela que passa perto do Palácio. Através de um sistema de cores semelhante, mas mais complexo porque mais numeroso, aos dos metropolitanos portugueses, encontramos a nossa plataforma. Estendendo-se por setecentos quilómetros - sendo por isso o mais longo do mundo - , o Metro de Pequim inclui duas ligações directas ao aeroporto, um maglev e uma ligação de comboio urbano, precisamente aquela que apanharemos para chegar por fim ao nosso destino. Estende-se por 405 estações e detém o recorde do maior número de passageiros transportados num único dia, uns esquálidos treze milhões e meio de pessoas. Liga o centro da cidade aos seus subúrbios, alguns deles quase a cem quilómetros de distância, e faz funcionar a grande metrópole. O que mais me espanta enquanto percorro esta estação é que está absolutamente limpa, sem qualquer vestígio de lixo. Apesar da quantidade de gente que aqui deve passar todos os dias e da evolução brutal que este sistema passou desde 1969, quando tinha apenas duas linhas, até hoje. Como se fosse o reflexo concreto do crescimento e estado da sociedade chinesa. Cada plataforma é estreita e encontra-se entre duas linhas. Conforme a direcção que se deseje, tomamos uma ou outra. Para protecção dos passageiros, a passagem para o comboio só ocorre quando se abre uma porta de vidro que é controlado pelos sensores da plataforma e da carruagem. Inteligentes. À hora marcada, chega o transporte. Uma eficácia incrível que se repetirá nas estações seguintes. Esqueçam a pontualidade britânica. Não há lugares sentados para todos, muita gente decidiu apanhar esta linha, uma das mais movimentadas da cidade, à hora depois de almoço. O interior é dominado por pessoas e cartazes de recrutamento para a Polícia que pelo ar intimidador dos modelos escolhidos, devem querer captar gente pelo simples medo de serem presos caso não aceitem o apelo. A publicidade mais capitalista está guardada para certos espaços nos túneis onde ecrãs espalham a boa nova de restaurantes luxuosos, roupa desportiva da NBA, concertos espantosos de bandas chinesas, um sem fim de joalharia e mulheres jovens de olhos rasgados fazendo beicinho enquanto brilham com pedras nos dedos. É a primeira vez que vejo marketing feito desta maneira e tenho de admitir, é espantoso.


O Palácio de Verão revela outro tipo de espanto. Ocupando três quilómetros quadrados, é um complexo vastíssimo de lagos, palácios, jardins e bosques. Três quartos da sua área é água, o que lhe confere a função de reflectir aqui na terra a beleza da esfera celeste. No entanto, praticamente nada é natural dele. O lago Kunming domina a sua paisagem, dois quilómetros de margem a margem e descansa em plácida horizontalidade entre duas colinas. Uma nomeada de Longevidade. Nenhuma das estruturas é natural. Aliás, a colina foi construída a partir da terra removida para a criação do lago; e ambos estão desde então associados e ligados na maneira como desenham a paisagem. A verdade é que só nos apercebemos disto muito depois de entrar no Palácio. Porque a percorrê-lo, existem vários caminhos cuja quantidade quase nos confunde. O dia está limpíssimo, tépido, o sol explora os nossos sentidos, a brisa sopra na direcção perfeita, na velocidade ideal. É uma mão dada de momentos que são impossíveis de estragar e não sei se por essa ilusão sensorial, se pelo meu corpo se sentir menos corpo e mais transcendência, é a primeira vez que tenho a sensação de estar a ver algo verdadeiramente chinês. Sem artifícios, sem armadilhas, sem qualquer tipo de reescrita histórica e recauchutagem épica. A essência dessa sabedoria oriental que verte das palavras de Confúcio quando as lemos. Surge-me uma vontade indefinível na força que em senta e me segreda que o importante é estar e não correr. Seguro a máquina fotográfica, claro, mas depois desta viagem longuíssima de duas semanas, de ter corrido milhares de quilómetros e encaixado o corpo numa rotina maquinal bruta, os meus músculos, em reunião com o esqueleto que me move, decidem que a hora não é do sobressalto, mas da pacificação. Depois de uma pequena caminhada por entre árvores, o enorme lago Kunming asurge por entre as folhagens e sou puxado, por uma corda que sinto à cintura mas não vejo nem palpo, para a sua margem. É um dos pontos de vista mais emblemáticos destes espaço, o espelho aquático sem fim à vista, confrontado por uma colina bem inclinado, muito verde, de onde brotam pavilhões e pagodes coloridos , um quadro pintado pela mão do homem, mas cujo impacto no meu olhar está bem para lá disso. É-me sempre estanho explicar as viagens que faço. Porque não posso, porque as frases saem-me sempre como papel esmagado que não se aguenta ao mínimo escrutínio. Porque este momento que descrevo, por exemplo, é tão mais do que paisagem ou de que é água e árvores e pedra. É mais complexo do que estar sentado parando o tempo na mão, mais do que a foto que tiro ou a piada que atiro a quem está ao meu lado, mais do que aquele silêncio que reclina as costas e descansa o cabelo desgrenhado. Não se explica porque é um daqueles momentos em que me sinto vivo, mesmo, sinto aquela pulsação carnuda e carnal que me ressuscita da morte a que me entrego na rotina, no quotidiano. As sensações pelas quais viajo são estas. Encontro-as em montanhas, em vales longos ou em espaços onde tudo se conjuga, o que se vê e aperta mas também o que se sente e levita, onde um Palácio cria Verão e Primavera e um Outono suave nos meus sentidos. Quase consigo perceber o encanto enlevado que os Chineses têm por si mesmo, o país, a cultura, a visão de um mundo cheio de energias que se cruzam, ordens que devem ser respeitadas. Aqui não penso na opressão ou na vigilância, no roubo da identidade cultural, não tenho discursos políticos. Estou apenas, e não é nada pouco. É muito. Estar é o mais difícil no mundo, simplesmente ser e permanecer durante uns segundos sem pesos do passado ou ânsias do futuro. É o que sinto aqui sentado. A leveza da vida. São segundos. Mas a intensidade é eterna, é pulsante.


Não que a história deste Palácio seja desinteressante, muito pelo contrário. A sua origem coincide com a primeira mudança da capital chinesa para a actual Pequim - na altura chamada Yanjing - em 1161. Wanyan Liang ordenou a construção de um palácio para as suas férias nesta zona, à altura chamada de Colinas Fragrantes, pela quantidade de árvores e flores que aqui existiam. A expansão e construção do palácio demorou mais de sete séculos, com cada dinastia acrescentando o seu pedaço. Alguns edifícios, como um templo enorme do século XV, desapareceram; mas ainda se preservam as memórias dos passeios sobre o lago que levavam os membros da Corte ao mesmo, em fins de tarde como este em que passeio agora. Com o século XVIII e a dinastia Qing vieram a maior parte dos jradins e bosques que hoje podemos percorrer. Em consequência, o consumo de água aumentou drasticamente, o que obrigou ao aumento do lago Kunming e a criação de outros mais pequenos. No entanto, isto afectou o abastecimento de água da própria Pequim, visto que tanto o Palácio como a cidade eram alimentados pela mesma fonte, localizada a poucos quilómetros daqui. Então, o imperador Qianlong, por sugestão da esposa, criou dois novos lagos alimentados pelo Kunming, que se destinavam ao consumo dos pequineses. O desenho final deste complexo bebe de várias lendas da mitologia chinesa e dos seus locais: cada um dos lagos representa uma montanha mágica presente nas lendas da China Oriental. Este encanto desaba, no entanto, em 1860, quando o exército britânico, na altura envolvido nas Guerras do Ópio contra a China, invade o Palácio e queima uma boa parte do seu conjunto. Um evento que ainda hoje é traumático para os Chineses. O que sobrou inteiro foi pilhado pelos Ingleses e pelos Franceses e as décadas seguintes trouxeram várias reconstruções por causa de conflitos locais e recuperação do que foi destruído pelos Ocidentais. Quando o último imperador chinês abdica em 1912, pondo assim fim à era imperial chinesa, o Palácio foi aberto ao público e entregue à municipalidade de Pequim, que o transformou num parque aberto a todos. Desde 1998 que é Património da Humanidade e isso deve-se não só à sua História e importância no imaginário chinês, como à quantidade absurdas de ponto de interesse que podemos encontrar e que não posso explicar minimamente nesta crónica. Acho que precisaria de umas três e só aqui passei uma tarde e vi tudo muito a correr, porque preferi estar em vez de andar. Mas destaco a Torre do Incenso Budista sobranceira ao lago; o Barco de Mármore, uma escultura naval em pedra com vitrais que jogam connosco no fim de tarde; a ponte dos Arcos que une dois pavilhões; o Jardim dos Prazeres Harmoniosos; e ao longe, vista a partir desta margem, a Torre de Jade, como um farol sem luz cravada numa ilha.


Mas o que posso partilhar convosco é o momento pelo qual todos os visitantes esperam. O Sol vai descendo gradualmente do lado esquerdo do horizonte e nessa viagem de eterno retorno, com lentidão diminui a força da sua luz. As sombras no solo tornam-se cada vez mais inclinadas, esticadas até um ponto de quebra. As árvores escurecem, os objectos transformam-se, mudam a sua forma por momentos como se fosse o Sol a sustê-los. Uma longa promenade contorna uma das margens do lado, estende-se num pequeno deleite acompanhando essa saída sorrateira que o soalheiro astro faz. A ladeá-la, muros com formas esculpidas, onde casais e pessoas sós namoram em simultâneo com o ocaso e o fim de tarde. Alguns pagodes mais pequenos estendem-se por este passeio. Olhando, há quem se estenda em encosto apreciando as águas do lago fundindo com este espectáculo. Nas suas caras, a reflexão, e fico com a ideia de que este é um hábito muito comum, de perguntar às águas sobre as cascatas da vida. Um Património Mundial onde se pode passar o tempo sem contar minutos e regressar num outro dia. Vou documentando a progressão do Sol com fotos, cada uma tirada em luminosidade diferente, oferecendo claro-escuros mais evidentes. Cada vez mais perto, junto a um templo, junta-se gente num varandim com vista privilegiada. Quando lá chego, consigo contemplar tudo, desde as várias colinas até à Torre de Jade, o Barco de Mármore, a Torre do Incenso. Por trás, o Sol em descanso e em contra-luz. Num golpe de óptica, arranja maneira de ir sumindo mesmo ao lado da Torre do Incenso, acentuando-lhe os contornos, esmagado a minha vista, escapando cada vez mais da minha lente. A água do lago torna-se negra, depois prata, depois ouro e não regressa aos tons de tarde. Talvez amanhã. Em meu redor, dezenas de pessoas e de câmaras, alguns totalmente preparados com tripés super cósmicos e máquinas super galácticas, preparas com minúcia e minutos para este preciso momento. Então termina e a noite cai. Ou então ainda existe, prolongando-se durante meses, aparecendo na minha memória, terminando esta crónica