terça-feira, dezembro 31, 2013

Uma ficção de fixação


Já estive aqui um dia, e parti, e voltei porque a porta estava aberta. É o que basta para que regresse: se a porta estiver aberta, eu entro porque não tenho outro pretexto para me excluir. Quando entro, estás lá, e quando saio não ficas e se ficasses de certeza que me olhavas para a nuca e sabias: ele volta. Não sei porque é que falam tanto de hipnotismo, quando basta abrires a boca e eu até faço de galinhola se preciso for. Dentro deste quarto, sou outro, sou quem obedece a um poder superior, não porque sejas maior do que eu (porque não és), mas porque és mais do que eu (o que se, se me deixasses pensar, poderia até discordar... mas hoje não). Lá fora não sou assim. Lá fora, mando em mim e em quem mais for. Lá fora, não há feitiços que me derrubem. Mas aqui dentro, caio na caldeirão e sou mais um ingrediente da poção mágica. Outras bruxas tiram o quebranto: tu tiras-me do sério, tão facilmente que parece brincadeira.

O jogo começa: eu sou um berlinde, tu disparas-me e acabamos por começar pelo fim das coisas que nunca têm princípio quando começam, e quando acabam no ponto sem retorno, é para regressar ao que não começámos, e vestirmo-nos e sair do quarto. Como não vivemos os dois, habitamos nos intervalos que conseguimos, e sempre sem esperar que se saiba. Conversamos entre nós usando linguagem gestual: as nossas línguas e os nossos gestos são conversa suficiente. Batemos e debatemo-nos entre nós quando te trinco e quando me mordes, mas acima de tudo quando me apertas e és um redemoinho que me despedaça e só me deixas vir à tona por clemência. Navegar pelas tuas coxas é encontrar tesouros, mas também andar à deriva nos dias seguintes procurando o que se encontrou e desapareceu no espaço de três beijos, um afago e a cegueira de um orgasmo gradual que cresce em nós e em vez de envelhecer, rejuvenesce. Na tua carne assinam-se tratados de não agressão, mas rapidamente os quebramos com o mesmo prazer com que entramos neste quarto

Quando te vais embora, é como se nunca tivesses estado. Tudo existe enquanto é, e quando deixa de ser foi como se só  morresses. Eu demoro sempre mais a partir: sou o último a chegar, sou o último a partir, mas o primeiro a ficar não se sabe bem como. Até sei. Mas não to digo, porque cairia deste cais onde partimos para as navegações ondulatórias na superfície da pele. Por isso, quando visto o casaco, tenho também que calçar chinelos como se fosse outro personagem.

Só não deito as sapatilhas ao lixo porque são caras; e porque caminhar sozinho ainda é a única maneira que tenho de te levar comigo de mão dada.

sábado, dezembro 28, 2013

Retrovisor



13 apóstolos se sentaram à mesa quando Jesus morreu, e começou o zero de 2000 e tal anos, que culminariam neste. Assim como 13 esteve presente antes do calvário e paixão, também 2013 foi sinónimo de um percurso pessoal cujo Golgota se vai avistando, e se adia com cada dia em que ouço ressonar de um quarto no canto da casa. Mas disto já me leram todo o ano, e ao tentar hoje dar a mão a alguém que ao longe vive o meu futuro que está sempre próximo mas felizmente se afasta, agarrando nesse alguém, em pensamentos, antes que as pernas lhe traiam, não tenho nem coragem nem vontade de navegar no pântano novamente. Giro a quilha do barco para mares superiores e serenos, onde 2013 teve espaço também para caminhar sobre as águas ao invés de me afundar.

Todos os anos se aprende, e em 2013 aprendi a destruir parte da minha vida para reconstruí-la, pouco a pouco, numa obra que continua para o ano e ao bom estilo de Gaudi adia o seu fim. Melhor para mim, que vou sendo perdigueiro da minha própria curiosidade e transformando a escola de Sagres em algo de mais parecido com Ceira, faço o meu próprio Descobrimento. O que descubro é milagroso e explica porque é que consegui passar por 2013 como alguém, que calçando botins de aço, ainda assim aprende a fazer piruetas no gelo. Descubro que a mecânica do coração é mais complexa do que o pulsar de um ventrículo, e que continua a bater mesmo quando enfartes ténues e arritmias em forma de gente o forçam a desfibrilhar de quando em vez ao compasso do sorriso que é vida, e no posterior é morte um pouco todos os dias até que, como o Cristo anterior citado, se ressuscita para abraçar essa magia em que se escondem as cartas e se pede ao outro para escolher, e se reza, seja a Cristo seja a nós, que a carta escolhida seja aquela em que pensámos. É uma lição que só se aprende quando já não se é; mas parte de se ser outra vez está aqui, naquelas palavras escritas no quadro negro da existência, onde deus tem 10 000 nomes e um deles é o dela. Que ela? Não sei; mas terá o seu nome, e não terei que acreditar que é omnipotente. Porque isso não existe; ou então, se existe, o seu poder é tornar-se perfeito e redondo para mandá-lo para o caralho. 2013 também foi confirmar isto.

O bom de 2013 foi confirmar amigos, descobrir outros e regressar a paisagens humanas que desprezei e a quemagora, humildemente, peço que aceitem que tenho falhas como um vidro rachado, e apenas requisito que me dêem algum calor para que me regenere e reerguer para que nos possamos reconhecer. São amizades in media re(s). Vão desde ilhas até terras ainda mais distantes que não vêem o mar, e pelo meio há mais uns quantos habitantes deste cubo mágico que sou eu. Fizeram e fazem parte, e se alguns chegam ao final do ano e têm prendas de Natal, eu tenho prendas da vida toda. Comecei 2013 a olhar para o deserto, e chego aos termos findos vendo oásis por aqui e por além, e sentindo-me saciado, e até parvo por ter pensado, um dia, que eu era a fava de um bolo-rei que as pessoas escolhem comer. Estes comensais devoraram-me para o bem e para o mal: vão desde distantes ilhéus que me fazem sentir próximo sem que eu entenda bem o porquê da estima que me têm, até alguém que tem o tudo e o nada do meu querer, e nesse paradoxo se deriva. Existe também a acidez doce dos citrinos, e a ajuda de quem mal me conhece, mas já impera na minha gratidão. Há de tudo. Inclusive quem me deseja "Feliz Natal" pessoalmente, algo que nunca aconteceu naquela dimensão. Há isso.

Também houveste tu, oito anos depois. O capuchinho amarelo. Um silêncio confortável, uma alma perdida à procura de onde se encaixar, e viste o que vejo, com os teus olhos, com a tua lente e com a tua sensibilidade. Percebo como funcionas, sei que não tiveste culpa, mas gostava de te ter feito sorrir mais. Mesmo que tal fosse tão impossível como escapar ao que sou. És uma migalha de mim, mas agora, a digestão tornou-se mais fácil. Não é que tenhas menos condimentos: o meu estômago é que se tornou mais eficaz.

2013 foram os três de Oakland a acordar-me antes que chegasse Setembro, mas concretamente em Julho. Foi o dia em que dançámos, ao som de um amor brutal, que para mim foi coreografado pelo Acaso que me sorri de quando em vez, e que me enche de arroz doce quente tão poucas vezes na minha vida que quando o provo, deixo flutuar o sabor durante meses. Antes, já quatro moços da Britannia haviam celebrado a poder universal que a música exerce sobre quem a ouve, e sobre mim, que tive a coragem de enfrentar sozinho medos ridículos apenas porque vê-los era uma missão. Cumprida, agora que está. Mas antes de todos eles, o pianista italiano foi o primeiro a transtornar-me as certezas de mim, e provocou um terramoto de réplicas que duraram nove meses. Saber que o meu pai tinha entrado num TGV para a morte foi 1755/Lisboa vivido cá dentro. Ouvir Einaudi no Porto virou as placas tectónicas do avesso e sacudiu-me para o lado oposto, arrancando-me/desarranjando-me/desbaratando tudo onde me escondo. Não sabia que era possível alcançar a plenitude em cima de umas teclas, e pensei que um homem que concede vida a outros pertencia à divindade. Dois erros que não cometerei. Partilhar isso com quem se gosta foi atinar com a vibração do eu para os outros. Acima de tudo, quando descarrilei, Einaudi voltou a dar-me linha, não para me enforcar, mas sim para subir ao céu que é o lugar onde somos nós, e sentimos que as coisas podem, por fim, fazer sentido.

2013 foram muitas outras aventuras mais pequenas: a estreia no Algarve, dormir no cimo do Cântaro Magro e ver nascer o sol, percorrer sozinho o imenso vazio que espaça o Pico do Arieiro e o Pico Ruivo, foi descobrir a fotografia como uma outra extensão do que sinto e vejo e gosto, foi aquela aventura de subir a Garganta de Loriga com gelo e neve, foi voltar à pré-História no Fanal, foi ser abraçado pela simpatia de um casal anglo-luso, foi ver veados no Trevim, foi semear colheitas para 2014.

Foi um ano de tudo. De como erupções vulcânicas têm, de seguida, terreno fértil para fartas colheitas. 2014 tem promessas de uma odisseia com ciclopes e Calipsos. Vai ser outra vez um fartote. e se o acaso fatídico não me tocar também a mim, palavras rolarão e apregoarão os meus sermões. Não sou apóstolo, não sou Messias, mas também acredito; e a minha crença está enterrada no fundo de um poço de dúvidas, que é onde cresce com mais força.

segunda-feira, dezembro 09, 2013

O que eu vivo



Desde pequeno que me agarro às palavras quando quero fazer um iglo. Há quem prefira colocar pessoas em seu redor, mas quase sempre elas me foram falíveis, e talvez eu também já esteja meio que falhado; por isso, a imparcialidade das letras que se agregam para fazer sentido ao que queremos exprimir em tentativas falhadas até o alvo certeiro explodir cheio de sentido é o meu sextante, a minha capa, aquilo que uso para me orientar. Quando o cancro, em forma de filho da puta mercurial, entrou pela minha vida como se lhe devesse uma cobrança à colecta que esquecera, o meu primeiro instinto foi chorar; depois ler, e depois escrever. O meu segundo instinto foi ignorar quase tudo o que lera, descobrindo, desconsolado, que boa parte do que se escreve sobre a doença tem como objectivo fazer-nos sentir bem e dizer que tudo dará certo no final. Algo de imprevisível, que no fim acaba bem. Tirando Miguel Esteves Cardoso, que guarda a melhor porção do seu "Como é linda a puta da vida" para relatar, com doses iguais de fúria, impotência e um amor que não acaba nunca , a luta que a sua mulher trava contra o cancro, toda a gente faz da viagem a marcha a ré um passeio de pé descalço pela praia, onde se apanham umas conchas de vez em quando, e a quantidade de lugares comuns faz-me perceber, precisamente, aqueles que me atiram todos os dias, quando me perguntam acerca do combate em forma de tango condenado, onde Gardel é substituído por Death in Vegas.

Eu tento responder com o mínimo de palavras possível, não me atraiçoando, e não atraiçoando a situação. Aceito que me peçam para ter força, não quero que chamem "coitadinho" ao meu pai. Agradeço quando me informam que rezam por ele, nos seus momentos privados, apetece-me partir a cara com um pá a quem me pede para rezar, e que deus vai ajudar, e vai intervir. Entendo quem se preocupa, e até, no meio de tudo, não visita o meu pai por ter medo de descobrir em si a explosão que o coração sofre quando a impotência é o único sofá numa sala de azulejos frios; não entendo quem passa mais tempo com perguntas idiotas do que com silêncios solidários que confortam e aceitam que a vida tem tanto de milagroso como a morte tem de inevitável. No centro de mim, claro, a raiva fica contida, numa caixa. Sai quando usufruo de um teclado, ou simplesmente de um par de ouvidos capazes de aguentar com arestas pontiagudas. Não se torna fácil a descoberta destes portos de abrigo: de Vales a Hortas e Costas, Saro no espírito que em Cunha se espreme e me levanta. Leio Borges e troco Katalins por Catarinas, no meio da confusão, onde a Craveira que pensava ser de grande porte é afinal pequena. Felizmente, abrigo.me em locais que não são de Madeira,, mas sim de betão. É o que me protege. Porque esta doença não é uma passeio. É um Ultra Trail sem mochila e com sapatinhas de chumbo.

É apetecer destruir tudo em nosso redor. É querer regatear com o Diabo anos da nossa vida para dar a outra pessoa. É congelar o coração neste Inverno de um ano, para só descongelá-lo quando o Inverno for uma noite de mil horas. É ser funcional nas acções e disfuncional em quase tudo o resto. É envergar uma máscara, e mentir aos outros enquanto a temos. É sentir a solidão na companhia, e saber que nessa companhia estão aqueles que gostam mais do que nós próprios nos gostamos. É um samba protagonizado por tetraplégicos, aplaudidos por uma avenida inteira de manetas, coreografados pelo último dos homens que desconhece o que é o ritmo, a dança e tudo o que é bom na vida. É ser pai, mas sem ter filhos. É, mesmo com boa vontade, saber que há uma luta que é sempre nossa, sozinha, para onde temos de crescer ou simplesmente mirrar até sermos menos pessoas. É não ter ninguém que realmente nos compreenda. É desilusão com tudo, e ter pouca esperança na ilusão da magia do milagre. É quimio, rádio, Depakines e medicamentos que acabam em Zol e que se tomam uma vez por dia. É dar comida na boca, limpar ranho do nariz, mudar de fraldas, e no final receber de troco um "Não" que é como se nos dessem um clíster de ácido clorídrico. É correr para o hospital às seis da manhã, andar até lá às duas da tarde, secar numa estufa até às quatro e arrastarmo-nos quando acaba o tempo. Por hoje. Amanhã há mais. É acabar livros em catadupa, porque, lá está, sem as palavras não há protecção para mim. É ouvir Einaudi e aquecer um pouco, e quando quente, pôr os dedos a trabalhar como um motor de combustão espontânea.

É isto, e é mais, que cada um tem para si a dor na forma que mais lhe for familiar. No meio do que é comum, cada um procura para si o seu conforto e o seu desequilíbrio. Para todos, é horrível, horrendo, horripilante, horroroso, horrífico, a toda a hora. Por isso, quando lerem um texto inspirador ou sentimental sobre alguém que partilha esta luta com alguém, desconfiem. Quem não reconhece a sua incapacidade de ser ele mesmo enquanto enfrenta isto, não sabe onde está metido. Com o tempo, acostuma-se, mas não porque seja fácil. Apenas porque é mais útil; e quando se tem o tempo contado a cada minuto, a inutilidade é um lixo que não se recicla.

domingo, novembro 24, 2013

Diz o Borges de acordo com o Wikiquote:



  • Time is the substance from which I am made. Time is a river which carries me along, but I am the river; it is a tiger that devours me, but I am the tiger; it is a fire that consumes me, but I am the fire.

E o sacana está certo. Muito certo. Presente que não se importa com o Passado e está-se bem a cagar para o Futuro. Tudo o que se mistura, sem se tocar, num momento que dura dias e só pára para dormir. Percorre-se fio a pavio, sem dinamite mas com pequenas explosões que abanam o conceito de que o Tempo não volta para trás. Não há máquinas do tempo, mas existem as constantes que nos prendem ao chão e não nos deixam esquecer que apesar de o tempo não parar, encontra dentro de si pequenos quartos e salas onde o que foi não volta a ser, mas se pode transformar noutro tipo de serão. 

E onde posso aprender a ser melhor pessoa. Mesmo que seja para voltar, mais tarde, ao costume. No entanto, enquanto estás, eu estou também como agora. O que é o mesmo que dizer que existo um bocadinho mais.

domingo, novembro 17, 2013

Matriz de avaliação



Antes de começar a exposição, anuncio que acredito piamente na teoria das camadas da verdade do meu caro amigo Bruno de Figueiredo: as cabeças que vemos nas notícias têm cordelinhos agarrados, puxados por mãos que fazem parte de uma outra camada da verdade, e que por sua vez tem uma terceira a controlar tudo o que se passa. Por isso, perdoem-me a falta de ingenuidade, e não aprofundar a terceira camada, ou seja, o feiticeiro que por detrás de um biombo, tudo vê e controla. Annuit coeptis, o rei que tudo vê. Posto isto, comece a liça.

Já várias vezes exprimi por aqui a minha opinião sobre o estado da Educação em Portugal. Tenho uma posição mais privilegiada do que muitos (inclusive o próprio crasso que dirige a educação, e que chamando-se Crato, julga ser o Prior máximo de quem ensina). Chamar-lhe "Educação" é esticar a palavra até desaparecer, pois não é esse o objectivo das escolas em Portugal. O seu papel, na visão de anteriores governos, é ocupar o tempo das crianças enquanto os pais trabalham, com baixos salários e alimentando uma mecânica social e económica que usa as pessoas como instrumentos. A escola pública, acolhendo os filhos dessas pessoas de condição social mais baixa, tem o papel apenas e só ocupacional. É por isso que a escola privada tem sido mais protegida: é onde os filhos das pessoas com mais pessoas podem estudar confortavelmente longe do caos e do pânico. Por aqui se percebe que a falta de aposta no ensino público por parte da classe política não lhe causa problema: o plano é este, e quanto menos dinheiro se injectar mais se pode dar ao ensino privado, ou simplesmente guardar para outras acções. Não é que sirvam para equilibrar as contas: para isso, era necessário haver um plano orçamental e económico que justificasse cortes, e já se viu, em três anos de governação em PSD, que isso não existe. Há um guião, mas não reforma o Estado: serve de guia a um filme de terror sem fim, com facalhões a trabalhar. Corta-se nos gastos, e pelo meio uns membros em forma de pessoas. Para quem tem ilusões, é isto a Educação em Portugal.

Daí o meu espanto quando se sugeriu uma prova de avaliação de conhecimentos a ser realizada por professores; e não todos os professores: professores contratados. Há aqui um requinte que tem escapado a muita gente: esta prova não é dirigida a toda a classe docente, mas precisamente aos seus elementos mais novos, frágeis e que urge despachar. Nada que não mude, a política sindical dos últimos dez anos tem defendido aqueles que há mais tempo se encontram no ensino, a começar pelos moldes em que é realizado o Concurso Nacional de Professores. Por isso, quando me dizem que os professores são uma classe protegida, é preciso pôr travão no mito. "Alguns", não fazem todos, e colegas meus, da minha idade, que tiveram de cirandar de norte a sul nos últimos anos, a troco de um ordenado que servia para pagar alojamento, gastos mensais, viagens, e pouco mais, não são favorecidos por nada mais do que uma vontade de sofrer em prol de algo que gostam e, acredito, da única competência que aprenderam no seguimento da grande luta nacional do Ensino Superior. O saldo da luta é claro: derrota em toda a linha da esperança de emprego, e uma vitória retumbante da precariedade. Talvez o Ensino Superior se tenha tornando numa roleta Darwiniana onde os mais fortes sobrevivem, e os mais fracos se acumulam à entrada de Centros de Emprego. Tendo em conta a visão economicista dos nossos tempos, muitos considerarão isso a perfeita prova das teorias de Educação mais extremas. Batem palmas e parabenizam-se com o Estado do mundo. Logo, estende-se essa visão mais longe, e o passo mais lógico é escolher, de entre os mais fracos, aqueles que têm mais força de vontade e a coisa que mais se possa parecer com competência docente. Algo que, como disse, acredito ter muito pouco valor nos dias de hoje, naquilo que se pensa como "a Escola".

Depois de abrir a ferida, o ministério adiciona-lhe sal: professores que fazem a prova (e cuja realização determina se podem participar no concurso de professores seguinte) são obrigados a pagar. Todos. Quer estejam a trabalhar ou não. Tenham ou não fundos para isso. Quem não tem, pede emprestado, e não há de mal com isso, pois segundo Nuno Crato "Vinte euros não é nada". Parece-me adequado que para uma prova que vale tudo, vinte euros não sejam nada. Também me parece adequado que uma prova que torna em "nada" toda a formação de um professor (sejam três ou quatro ou cinco anos), seja nada o valor que se paga. Num país onde a política de Educação é irrisória, vinte euros são risíveis, não é? Nuno Crato, que muitas esperanças suscitou quando agarrou num ponteiro laser desse quadro interactivo que é o sistema educativo português, tem mostrado que não é incompetente, ao contrário do que se apregoa: é bastante sagaz, dividindo para conquistar, traçando a propaganda com mestria, e fazendo crer que não só os docentes são parasitas que nada fazem, mas que é justificável tirar a superioridade científica dos professores perante os alunos para que seja mais fácil despedir os docentes. Numa profissão onde essa superioridade é tudo o que pode eventualmente garantir que um aluno acredita naquilo que sai da boca de um professor, vê-se que o interesse não é a estabilização ou a valorização do ensino: como em tudo que tem sido feito nesta legislatura, o interesse é o de ver números a diminuir.

O Ensino português tem muitos problemas, e entre todos os que se relacionam com as escolas, o maior está fora delas: a falta de organização política, e também uma retirada total de escrúpulos e paixão pela arte de educar e aprender. Interessa menos a aprendizagem, e mais a avaliação. Como se as duas coisas tivessem muito pouca relação entre si. Avaliar mal e porcamente professores não é diferente de avaliar mal e porcamente alunos, com programas demasiados extensos para as aulas que se têm, sobrecarregar docentes com tarefas que lhe tiram tempo de preparar aulas e o constante favorecimento de docentes mais velhos, e desinteressados, que se tornam numa esclerose militante, prejudicando alunos e colegas mais novos com genuíno gosto e vontade de tornar o Ensino em algo de atraente e positivo. A prova que querem fazer não avalia nada disto. É um soundbite, um estandarte de batalha que serve para um lado e outro se distraírem do que realmente interessa e de um ataque que nem sequer é encapotado à capacidade da Escola Pública. Sou fruto dela, e não me dei mal. Uma fraca Escola Pública é reflexo de um fraco Governo; e um fraco Governo nunca poderá avaliar o que seja, porque não tem capacidades ou competências para ser respeitado. Não tem a superioridade científica inerente ao cargo de professor.

Uma nação decente faria a única coisa que pode ser feita: entraria nas salas de avaliação no dia 18 de Dezembro e rasgaria as provas. Sem medo. Desautorizava todo um ministério que só está nisto para estragar; e num só dia ensinava aos seus alunos uma lição muito mais importante do que as que poderiam aprender nas restantes aulas: o bom uso do nosso direito natural à libertinagem.

terça-feira, novembro 12, 2013

F.


Doeste-me duas vezes. Uma quando partiste, a outra quando ficaste. Na primeira, a dor foi acamada pela certeza de que a história continuava a ser escrita; na segunda, o desgosto levedou com o fermento da nossa quebra, e durou até ao ponto onde não te conseguia distinguir do que era certo. Certamente que te diluíste no rio do tempo, mas sem nunca saíres da superfície dos seixos. De vez em quando, regresso às margens do rio e faço os seixos dançar sobre a superfície da água. Saltam pingos, tornam-se estilhaços, e a ironia está saber o quanto me dóis.  É tudo truque de prestidigitação, pois cria uma ilusão: a de que conseguiremos transformar a dor em prazer, pela simples vontade e desejo de confiar no coração. Mas a cabeça sabe o que o coração não reconhece, que os barcos partem rio acima e não regressam. Por muitas pedras que lancemos, por muito que esfomeemos, por muito que tracemos mapas. São viagens de ida, que nunca têm volta.

Ou têm. Tu tens. Vais ter, pelo que me disseste. Eu nunca parti, de facto, da margem do rio, mesmo que tenha escrito a mim próprio uma longa missiva dizendo o contrário. Quando soube que regressarias, o fim transformou-se em entretanto, e o talvez num definitivamente perpétuo de viagens em torna da minha mente. O paradoxo é que me anulas a racionalidade. Se não confio no coração, nem posso seguir a cabeça, fico sem saber para onde me virar, ou se nasci torto sem hipótese de me endireitar. Não existe ter amado alguém: ama-se, e vai-se gerindo mesmo quando acaba a pulsão de revolver e correr e mudar tudo o que se move para mover quem amamos. Mesmo que não haja esperança ou solução, mesmo que não haja saída. Amar é saltar à corda com a realidade, e esperar não tropeçar, mesmo sabendo que as pernas se cansam e a corda passa debaixo de nós em modo perpétuo. Mas não nos cansamos de tropeçar, até que outro alguém pega na corda; e mesmo aí, o suor do outro continua lá, na ponta que apertou na mão.

Sei que quando te vir, vou sentir a energia de cem milhões de sóis. Sei que quando te abraçar, vou criar galáxias. Sei que quando começarmos a falar, ou haverá um Big Bang, ou uma Anã Vermelha. Sei que quando caminharmos lado a lado, terei sempre de me vigiar. Sei que me vou guardar, com a noção de que me arrobarás com um sorriso. Sei que me vou defender, porque, afinal, também contribuíste para que fosse assim. Sei que vou perceber o inglês que não sabes, mas nunca entenderei o que não falas quando olhas para o chão. Não sei se nos vamos reconhecer, porque oito anos são muito tempo. Temos ambos menos cabelo, talvez um pouco mais de sabedoria, mas acumulámos mais dor. Tu perdeste o teu pai, eu vejo o meu a trilhar um caminho numa floresta escura. A par e passo, as nossas vidas não andaram emparelhadas, mas houve sempre qualquer coisa que me fez voltar àquele momento em que chegaste e eu parti de mim em direcção ao que ainda não conhecia. Antes de me teres doído a primeira vez; e apesar da energia do reencontro, sei que me vais doer uma terceira vez, quando chegares. Um bocadinho, e uma boca de dor a engolir-me, e a cuspir-me. Mas contigo, a dor devora-me outra vez. Porque sempre me foste indigesta. É isso que acontece com refeições demasiado condimentadas e saborosas: custam a digerir.

sábado, novembro 09, 2013

O que está certo


A imagem que existe de mim é a de alguém meio desligado da realidade. Entendo como é que ela surge, e provavelmente está mais certa do que aquilo que gostaria de admitir. Defino-me sempre como um adulto não funcional, o que está dentro do limite da crença. Não estou bem equipado para lidar com as responsabilidades de ser crescido, mas já aprendi, pelo menos, que isto vai lá de tropeção em tropeção, construindo fisgas com erros para apedrejar os vidros que nos separam dos nossos objectivos. Os cortes ficam, mas cicatrizam e transformam-se em histórias para contar. Nunca é mau. Apenas quem não esteve na sala de espera de um centro de saúde não dá valor a ter-se memória e mundo interior. De preferência cheio de selvas para uma pessoa se perder e andar embrenhado para não ouvir problemas alheios.

Ora, tenho notado, neste último ano, que essa imagem tem mudado um pouco. Várias pessoas chegam à minha beira e cumprimentam-me com um certo esgar de orgulho. Há nos seus olhos um reconhecimento folclórico equivalente aos rituais de passagem e crescimento masai, na concordância de que estou numa nova etapa e de que agora posso ser olhado com respeito. Percebo com rapidez que tudo isto se deve a passar a ter sido babysitter e enfermeiro do meu pai, no seu caminho pedregoso de doença e frustração. Não quero que isto soe a queixa, porque a maior parte das pessoas que me interrogam sobre o estado do meu pai, e até sobre o meu próprio estado, são incrivelmente bem intencionadas. Posso não querer falar com boa parte delas, como já aqui escrevi, mas isso não significa que não reconheça o mínimo, e máximo, de preocupação nos seus rostos, e até mesmo aquele ligeiro ar de quem não sabe bem o que dizer. Eu reconheço-o tão bem, já dancei com esse ambiente sonoro, e é de um desconforto atroz, que partilha a mesma impotência de quem vê alguém a desintegrar-se atomicamente a cada pequena detonação tumoral. Ainda assim, não entendo esta congratulação e sentimento de que estou a fazer algo de louvável. Não vejo a coisa assim, nem poderia. O que estou a fazer é a única coisa possível.

Ele é meu pai. Quando eu não tinha sequer capacidade de juntar letras para escrever "Pai", vigiou-me e conduziu-me e levou-me a que estivesse aqui, sem saber o que quero fazer da vida, mas com a certeza de que a vida dele é algo de que vou fazer parte até que ele deixe de ser parte da Vida. É aquilo que tem de ser feito, é o que está certo e tanto como a memória, é a maneira que ele tem de se perpetuar e garantir que o construiu não foi apenas uma casa ou uma vida, mas sim pessoas que sabem o que deve ser feito, porque deve ser feito e acima de tudo, que o maior feito é ser pessoa completa e atenta, procurando estar lá com a simples intenção de se querer bem. Para mim, não é mais do que isto. É o meu dever, é aquilo que sinto e o que me dá alguma paz interior, no meio desta turbulência. Talvez ele não saiba, mas faz-me crescer: não funciono como adulto, mas vou-me sentindo, um bocadinho mais, como tal. Como sempre, o meu pai a conduzir-me.

quarta-feira, novembro 06, 2013

O primeiro em Novembro



O blog é meu, por isso permitam-me uma pequena aulinha de História: o 1 de Novembro foi instaurado no século VIII e celebrava, inicialmente todos os santos e mártires que tinham morrido em nome da Igreja. No entanto, o feriado em si é mais antigo e data do quarto centénio, quando por uma questão prática de juntou num só dia (por ocasião do 13 de Maio, curiosamente) todas as celebrações dos mártires da Cristandade, visto que o ano tinha 365 dias e os Romanos eram particularmente bons a matar cristãos, com uma eficácia superior à quantidades de números disponíveis no calendário. Podemos recuar ainda mais para encontrar o sagrado neste dia. O "Samhain" celta celebrava-se por esta altura (entre 31 de Outubro e 1 de Novembro) e embroa não tenhamos a certeza de que envolvia a crença de que os mortos regressariam a este mundo para se aquecer na lareira, é certa de que representava não só a questão prática da passagem do ano e mudança de colheitas, mas também o período em que Sidhe, divindade máxima dos Celtas, como que abria a cortina entre este mundo e o outro, permitindo que os humanos e os não-humanos (como os duendes ou os elfos) pudessem comunicar e observar mutuamente. Pode parecer algo muito distante, mas vem daqui, por exemplo, a tradição do Magusto, e na zona galaico-portuguesa, estas tradições têm sido recolhidas e consideradas parte fundamental do folclore local. Ainda hoje marca o Solstício de Inverno (nas marcações de certos monumentos megalíticos) e passagem do Verão para o Inverno.

Este feriado não é religioso: é anterior a nós todos, e aos que estão para trás, representando o que somos cá dentro, as nossas crenças extra racionalidade e a mundividência que o Ser Humano criou e herdou na passagem das gerações. É ontológico, e o que não é lógico é que se acabe em nome de uma coisa tão passageira quanto é o dinheiro. A nossa relação com o Passado e com os mortos, aquilo em que transformámos esta celebração de Vida, é importante. Mas uma sociedade sem Memória é uma sociedade de pessoas e não de gentes. A eliminação do primeiro de Novembro é culpa nossa também, que não sabemos respeitar a sua importante na ordem da existência.

sábado, novembro 02, 2013

O estado das coisas


HENRIQUE
 Quer saber o que é Portugal, realmente? Fora desses livros bonitos que andou a ler, de tudo o que há para trás e o orgulha tanto? Portugal não é muito diferente de Alcácer Quibir. Lembra-se de quando viu aqueles cadáveres, a confusão? Aquele silêncio que sucede aos grandes desastres? Esse silêncio é Portugal. No entanto, o grande desastre ainda não acabou, e o silêncio continua, rebentando-nos os ouvidos.

D. SEBASTIÃO
Alcácer-Quibir foi uma ruína particular…

HENRIQUE
 E hoje, Portugal é uma ruína geral. Ninguém sabe o que o aguarda. Não é que não queiram saber, mas como isto anda, até se tem medo de saber. Todos os dias, há uma nova má notícia para nos deixar em pânico. O dinheiro falta porque ninguém tem onde trabalhar. Quem trabalha, recebe uma miséria. Não somos pessoas deste país: somos coisas deste país, problemas para quem brinca à governação. Dessa maneira, cá andamos, devagar, devagarinho, também em guerra, mas connosco e com aquilo que éramos há dez anos e não pensávamos ser agora. Temos de conviver com um Alcácer-Quibir todos os dias. 

in "Uma merda qualquer que escrevi há uns tempos"

sábado, outubro 26, 2013

Pergunta, resposta; reformular


Pode um terramoto ter réplicas durante anos e anos? Sim, tiver epicentro em ti. Vale-me que os meus ossos são anti-sismo, ainda que os faças tocar rumbas cubanas

domingo, outubro 13, 2013

Inventar o que já é mentira por si mesmo



A minha máquina de viajar no tempo é a tua fotografia. É muito simples a mecânica quântica de quanto acelero em direcção ao passado quando a olho. Sem botões, mas desabotoando o stress, a memória pára e recua, atrás até ao momento onde o teu escorrega em forma de sorriso ficou parado num pequeno cartão de plástico, talvez a pairar até que este se decidisse que tinha pelo menos alguma capacidade de reter tudo o que teu sorriso pode conter. O que é muito para o pouco do cartão, mas talvez pouco para o muito que desejo vê-lo novamente, e de certeza demasiado para o que sou. Como é que dentes alinhados, como soldados que te guardam a boca onde quero inserir a minha língua até eu próprio viajar para outra dimensão, me tremem a certeza, e arrancam de mim coisas que não pensava sequer entender? São dentes, é marfim, nem sequer sente, e no entanto, arranca o que sinto em palavras de esplendor iluminado que ainda conseguem deixar na sombra que não esqueço o teu sorriso, e que não te esqueço, e que num qualquer canto do passado, onde o futuro ficou debaixo de uma pedra, estamos nós, talvez à espera de sermos presentes um do outro. Um dia destes. 

O tempo é contínuo, mas continuo a tempo de ti. Não sei, talvez. Tenho a certeza de duvidá-lo, e de que viajar no tempo é tão ficção quanto estas palavras são reais e verdadeiras. Porque a memória mente,e o engano é afinal tudo aquilo que temos quando a verdade da vida é pouco mais do que uma aula de física teórica dada por um disléxico.

sexta-feira, outubro 11, 2013

A idade da inocência



A propósito do frenesim em redor de Malala Yousafzai, uma daquelas criaturas que parecem saídas do mesmo reino de inverosimilhança das pessoas de bem que encontramos de vez em quando, uma equipa de reportagem dirigiu-se à sua aldeia para avaliar as reacções dos habitantes. Entre o orgulho natural da glória de uma filha da terra, um homem disse que era tudo muito bonito, mas desde que Malala tinha saído do país, os Talibans haviam destruído mais dez escolas e nenhuma tinha sido construída. O triste é que ele tem razão: o Nobel é o prémio do complexo de culpa do Ocidente, que se sente interventivo ao dar um prémio a uma adolescente pensando que vai alterar algo no terreno. Mas não: as negociatas do costume continuarão e a zona do Paquistão e do Afeganistão continuará dominada pelo mesmo grupo de irredutíveis extremistas que quase mataram Malala e que continuamente lutam pela instituição obscurantismo na zona. E o que fará o Ocidente que aplaude a jovem paquistanesa? Nada. Não move uma palha. Depois de erros de casting sucessivos nos últimos anos (e neste ainda podemos ter Putin a ganhá-lo...), o Nobel da Paz deste ano provará uma coisa: nós não merecemos Graça quando nos é apresentada tão inesperadamente, e talvez seja por isso que os suecos se sentirão compelidos a premiá-la. Nada contra Malala, cuja acção e rigidez de boas intenções deve reduzir uma boa parte de nós à imperfeição que passeamos pelo quaotidiano. Ela não tem culpa de sermos assim; e se calhar, na sua aldeia lá longe, na cordilheira do Pamir, não fazia sequer ideia de que estas pessoas que divulgam a sua história de coragem têm muito mais a ver com aqueles contra quem luta do que ela pensará


segunda-feira, outubro 07, 2013

O horror de não pensar



Há algo de estranho neste livro. Não o conteúdo, que é, como de costume quando Judt pega na palavra, vivaz, inteligente, erudito e lúcido em demasia, mas em saber que a lenta desagregação física do corpo do historiador inglês (que viria a morrer em 2010 de esclerose amiotrófica) é incapaz de deter um dos intelectos mais activos e ágeis do final de século passado e início deste, um homem para quem a intelectualidade era uma arma, uma obrigação e um dos pilares estruturantes de uma sociedade justa e funcional. Longe de ser um espectador, Judt, durante toda a sua carreira, fez viver a sua crença de que o intelectual é interventivo e lutador, e usa o seu ponto de vista como algo de atingível e real, por muito utópico que possa parecer. A sua defesa do Estado-Providência, o modelo de governo que preferia, devia ser a leitura de cabeceira de Pedro Passos Coelho. Judt soube ser sempre um desses, com toda a classe: polemista como poucos, sem medo de afirmar à boca grande o que se comentava à boca pequena, a sua crítica à política de Israel tornou-o num judeu muitas vezes apelidado de anti-semita, como se tivesse um ódio à sua própria origem. Ele, melhor do que ninguém, sabia do que falava: um sionista convicto, a sua vida num kibbutz durante a Guerra dos Seis Dias abriu-lhe a pestana para a realidade. Ao contrário de muitos intelectuais actuais, ele viveu o que pensava.

Na conversa que manteve durante vários dias com outro colega historiador, Timothy Snyder, Judt parte do seu percurso de vida para se lançar em reflexões sobre os temas que marcaram o seu percurso académico como historiador, e as suas lutas públicas como intelectual e pensador: o sionismo no pós 2ª Guerra Mundial; os fundamentos intelectuais do Marxismo; a memória do Holocausto; o estado-providência; a invalidade do estado de Israel como hoje existe; a Europa depois a 2ª Grande Guerra; o declínio do papel do intelectual, e da Esquerda, nas sociedades actuais. É inevitável que o "Thinking the 20th century não soe a epitáfio intelectual, e é-o de facto, quanto mais não seja pelas ideias que Judt deixa livros que, sabemos agora, nunca poderá acabar, e da chama e vontade que existe dentro de um cérebro ao qual a esclerose não chega e continua a articular, entre intervalos temporais, os caminhos que julga serem os necessários para o triunfo e felicidade do percurso humano. A sua defesa do historiador como um participante na actividade pública e política, sem nunca esquecer o seu papel como anotador (e não intérprete abusivo) dos factos, figuras e acontecimentos é constante, e esta discussão intelectual com Snyder serve não só como a prova cabal da perda precoce de um dos nossos grandes cérebros como colectivo humano, mas também é prova de que o raciocínio livre e informado, numa era obscurantista onde grassa a estupidez e meia dúzia de bitaites passam por opiniões com fundamento, é um bem tão precioso quanto um orçamento equilibrado. Para que se possa pensar, devidamente, o vigésimo primeiro século.

terça-feira, setembro 24, 2013

Viagem em torno de mim mesmo


Na graça deste ano sem grande piada, fiz-me à preia mar que me tem deixado em baixa, e numa viagem em torno de mim mesmo, de circum-navegação permanente e onde a cabotagem tem sido o capote deste cabotino ser, posso anotar no meu diário de bordo, vazio nesta quinzena em que vos deixei náufragos da deriva habitual das minhas emoções e capacidade maior de elevar a minha estupidez natural a objecto de interesse, saltei pontos de vista, e de gramática, e descobri sobre mim rotas que registei num mapa traçado sem linhas de crescimento.

Descobri que sou mais crescido que pensava, mas ainda assim pequeno quando se pede ser adulto, desmentindo verdades sobre ser criança e forçando-me a enfrentar dez anos da minha vida onde talvez me tenha recusado a ser eu como devia, e me tornei numa caricatura que apenas se transforma em traço objectivo e superlativo muito de vez em quando. A espaços, quando me devia espremer e apertar, para me fazer sair. Não sei se ainda vou a tempo, mas corro na mesma. No máximo, perco a corrida, mas ganho mais de mim.

Descobri que é possível ver um estranho em alguém que se conheceu durante 30 anos, mas que são precisamente esses anos que devolvem ao estranho a capacidade de ser ele mesmo.

Descobri que afinal não choro sempre, mas só de vez em quando; e que quando se semeiam lágrimas, colhem-se estátuas permanentes da nossa dor, mas também da resistência ao tempo que apenas se encontra na memória que guardamos e nunca abandonaremos à mercê de qualquer choro.

Descobri que quando quero, posso ser bom. O meu problema, de facto, é a falta de vontade.

Descobri que através dos meus olhos, posso ver outra dimensão, e captá-la, e outros gostam. Mesmo que nunca lá tenham estado e só exista o meu testemunho a comprová-lo.

Descobri quem são vocês, aqueles com quem me quero partilhar, e doer. Também me lêem. Obrigado. Aos outros, com quem não me quero partilhar mas por aqui passam, obrigado também. Mas desculpem-me apenas vos mostrar a ponta dos cabelos, quando aos outros exibo tudo aquilo que em mim fervilha e arde.

Descobri que escrever me é tão essencial quanto dispensável é esta dor que sinto nas mãos; e tento que uma não condicione a outra.

Descobri que as minhas baboseiras não são muito diferentes dos outros. A prova está em cima. Felizmente, estão cá vocês para ver na baba um resquício de água cristalina; e aí, a descoberta maior, e mais mágica, é a vossa. Obrigado, gente.

sábado, agosto 31, 2013

Contar o que se tem


Navega-se para a angústia ao engano. O amor é o carrossel de que todos falam, mas é na angústia que encontramos os carrinhos de choque menos parolos da nossa existência: a música é cacofónica e nem sempre dá para apanhar o ritmo, embora a orquestra continue a tocar impiedosamente até perdermos a completa noção do que se ouve, do que se vê mesmo de quem toca. Descompassadamente, angustiamo-nos e a única certeza é que de que há sempre mais uma voltinha e mais uma viagem. Recomeça-se a queda depois de nos levantarmos, e há sempre outro começo para o fim elo qual acabamos de estar. O desespero raramente se faz esperar, e com ele vem a dúvida do que somos, e a certeza definitiva de que aquilo que não somos, temos de construir. É tão simples quanto isso, e já nos complica demasiado.

Tenho sabido o que é isso. Esta semana, espreitei pelo caleidoscópio da angústia e via cristalizado o bom que tenho e que não o sei, e que espreitado por entre vidros, nunca me parece o suficiente para achar que faço o que devo ou posso, que estou à altura. Não há espaço em mim para sentir orgulho, para me sentir bem. A angústia não só reduz o mais capaz homem que conheço, como também aumenta a minha incapacidad ede me achar capaz e à altura do tamanho da dor que me rodeia e dos fiapos de sombra projectados nos passos inchados de quem precisa de ajuda. O amor faz de alguém o mais forte e o mais fraco, mas só a angústia consegue modular as nossas forças como se fosse um sintetizador clássico, teclando o tema de "The exorcist" em variações diabólicas, mas sempre agourentas. 

Felizmente, há quem dê outra música. Aí, pouso o caleidoscópio e vejo-me por outros, olhando para o que tenho e o que dou. Encontro a minha cura

Embora me escape sempre aquela que mais desejo. 

terça-feira, agosto 27, 2013

Purgatório das Almas: vão para o Inferno...


Indivíduos que estacionam mal e porcamente parque nos HUC 

A única razão pela qual desejo que os vossos amigos e parentes melhorem é para ver os vossos carros fora dali. Afunilam o trânsito, deixam em segunda e terceira fila sem ninguém lá dentro e cortam muitas vezes o caminho a quem quer entrar filas de lugares vazios que ficam inacessíveis pela falta de educação (que ultrapassa a falta de civismo) com que enchem os HUC. Para isso, já me bastam alguns auxiliares, enfermeiros e médicos que por lá andam. O problema maior é que a vossa doença não se cura no hospital, e suspeito que seja já crónica e ireversível. Desejo-vos um camião TIR a varrer os vossos carros até ficarem o mais parecidos possível com uma tortilla.

Incendiários e negligentes vários

Esta época de incêndios está um acontecimento normal: uma catástorfe acontece de vez em quando, e o queimódromo deste ano é apenas o reflexo de anos anteriores. Bem sei que o Sporting saiu de moda no ano passado, mas isso não é razão para deixar que o verde desapareça do nosso país, para mais quando a lagartagem regressa em força nesta época. A culpa tem caído em incendiários (que, pelos vistos, são gente mal resolvida e frustrada, com vidas patéticas... Nunca teria pensado nisso se não fosse a Psicologia a dizer-mo), e com razão desejo que a moldura penal que os enquadra se aproxime dos 25 anos máximos que a nosa Lei permite, mas é impossível ignorar a repetição de tudo isto, e a falta de planeamento e prevenção que anualmente permite estes incêndios: desde pequenos donos de terreno até latifundiários, passando por Câmaras Municipais e Governo, que tiram apoios aos bombeiros, mantêm os mesmos planos de emergências e impedem a formação contínua dos Bombeiros, algo que é indispensável para mudar este estado de coisas que só pode ser comparada a uma guerra civil que travamos com o páis que já existia antes de caminharmos a duas pernas feitos macacos.

Guerrilheiros das condolências

A mentalidade do linchamento em grupo é tão habitual no ser humano que já não admira, mas o uso da morte de bombeiros como arma de arremesso política tem uma tão grande falta de tacto que se torna necessário definir os limites do mau gosto. Se concordo com o desejo de condolências oficial à família de António Borges? Claro que não: se é um caso de amizades pessoais, envia-se um pedido pessoal e pronto. Qualquer megafone oficial deve ser usado em nome do Presidente da República, e não do cida~doa de Boliqueime. Agora, encher a página de Facebook da presidência da República de desejos de condolências a uma bombeira morta é não só desvalorizar a morte dessa mesma bombeira, como usar aquilo que é um momento de dor para colegas e família como instrumento de descarga de frustrações. Mas afinal, é isso o Facebook. Curioso que entre tanta guerra de condolências, interessa mais a estes manifestantes enviá-las para o senhor Cavaco do que para quem de facto vai sentir a falta daquela que era jovem antes de ser bombeira. Se a um faltou o sentido de Estado (embora, soube-se depois, ele tivesse de facto expresso o luto pela morte dos vários bombeiros nesta época de fogos), a outros faltou o sentido de decoro, ocupado por uma vontade de serem cruzados numa guerra santa contra a infidelidade à Pátria. 


quinta-feira, agosto 22, 2013

Lapso


O tempo é o que nos impele, e o nosso maior adversário. Medi-lo já foi uma obsessão, e as unidades em que tentámos encaixá-lo para fingirmos a compreensão nos escapa como ele próprio são apenas tentativas de desespero na sua fuga. O filósofo Antífono dizia que o tempo não é uma realidade, mas sim um conceito, ou até uma medida. É uma ilusão, e já o poeta Auden alertava que não se pode conquistar o Tempo, pois este é uma ilusão. Há uma marca sobre nós, a que chamamos tempo, mas nada mais é do que o compasso da decadência. A melhor maneira de enfrentar isso a que chamamos Tempo não é a fuga, ou o movimento: é sim a pausa. O momento em que decidimos parar e enfrentar o Tempo com a única coisa que ele não pode fazer, que é tomar conta de si mesmo.

Decidi sentar-me e com os meus olhos, orbitar duplamente. Agarrei em dois lençóis de tempo, assentei o meu eterno rabo neles e contemplei a cerúlea cúpula sobre mim, espaçada aqui e ali por farrapos de algodão em forma de gás, e lançando-me, nos ouvidos, numa auto-estrada em direcção ao prazer sob a forma de Ludovico Einaudi. Para muito, caches são plásticos. Para outros, aventura. Para mim, uma cache boa fica no cimo da montanha e se as condições estiverem mesmo perfeitas, são a oportunidade para me libertar desta frágil e patética carcaça em direcção a um mundo que existe sobre mim e em que a minha vida é muito melhor, pois sou eu que a invento sem amarras. Segundo a máxima hermética, tanto em cima, como em baixo; mas aqui, o que está em cima vale tanto, tanto que é tontice pensar que o de baixo se pode comparar.

No topo da montanha, existo eu e a música. Há também ecos de um mundo melhor, mas não existe Tempo: só um lapso onde me encontro, com o meu batimento cardíaco e a minha respiração.

domingo, agosto 18, 2013

Jorro curto


Corro na rua e travas-me pelo simples acto de me aparecer na cabeça como te vi nesta manhã. A luz da janela bate no teu rosto e o meu corpo é um quarto escuro onde jogámos à macaca com os umbigos de onde surgimos, escondidos e depois à mostra de toda a gente. Para lá voltamos apenas para repetir o nosso nascimento para quem nos dá vida uma segunda vez. Porque páro quando me manténs em movimento? É que a felicidade é tão ténue que tenho medo que essa luz onde tomas banho, deitada nos lençóis, te dissolva e eu encontre o teu espectro quando tomar para mim a tua pele, que cobre o teu corpo numa atracção a que as minhas mãos só resistem se forem cortadas. Não podem parar, e não vão enquanto a tua pele for terreno partilhado pelo meu desejo e pela tua vontade.

A vida é o meu exterior; então, porque é que só quando te encontro dentro de mim consigo sentir-me vivo?


sábado, agosto 17, 2013

Alapar



O lugar na História pode ser uma poltrona, mas também um arbusto espinhoso; largo como a galáxia de Andrómeda, ou pequenino como a cabeça de alfinete; ou se mora numa enciclopédia, ou simplesmente num papelucho perdido num caderno. No entanto, tenho a certeza de que é a única coisa na minha área de conhecimento que toda a gente quer: sentar-se no cronológico friso com a certeza de que o seu nome ressoa até haver ouvidos com capacidade para escutar. O assento está adequado à medida do nalguedo e amibições de cada um.

No meu caso, ganhei ontem esse lugar à custa de ua relíquia história de que falei aqui há uns tempos: o Ford Escort Boston, o meu bólide intergaláctico na onda de estrelas universal que é a minha vida. Louvei a sua classe e presença, resistência, robustez e fidelidade, mas alertei que, por muito que me custasse, o seu tempo estava a chegar ao fim. Embora se batesse como um resistente contra esse nazi malévolo que é a decadência, a força de vontade (e da mecânica) tem os seus limites. Consciente disso, não me nego a levá-lo para voltinhas, principalmente quando essas voltinhas são aventuras enormes e pedem um veiculo à altura. ou seja, algo que possa levar uns toques sem ninguém se importar. Aí, ele asusme o papel principal, e entrega-se à sua missão. No entanto, também claudica, e foi isso que aconteceu em Cerdeira, concelho de Arganil: numa marcha a ré inclinada, a sua embraiagem demonstrou que a terceira idade automóvel também inclui falta de potência, e sem Viagra que me valesse, bem tentei, mas não havia maneira, entre mão no travão e pé na tábua, de tirar dali o Boston celta. Maus estacionamentos originados por anos de emigração em França não me ajudavam; foi então que se escutou "Eu já fui taxista em Lisboa e vou tirá-lo daí". Ser taxista em Lisboa não é uma garantia de segurança quando toca a manobras, precisamente o contrário. É como sofrer de apendicite e ouvir "Eu aprendi umas coisas com o Jack, o estripador: sossegue!" Surgindo um obstáculo na forma de uma mulher de andarilho, o expedito indivíduo soltou um agradável "Sai da frente, ó coxa", e rapidamente se dispôs a servir de meu ponto de referência. Devia prescindir do espelho e concentrar a minha atenção nas suas mãos. Este Luís de Matos da calçada de paralelo contorcia-se e girava nas suas instruções, como se o meu Ford fosse um leão, e estive para alertá-lo que o meu carro não era um Peugeot.

Ora, enquanto o drama se espalha, assomam cabeças à janela, como pássaros que, estando escondidos numa árvore, vêem milho no chão. Na rua, há plateia; de becos saltam jovens que correm e vêm assistir a este combate hercúleo entre um automóvel e as leis da Física newtoniana. Idosos e novos, todos querem ver, e comentar. O suposto taxista recebe apoio moral da mulher, que garante aos restantes que o marido é motorista da Carreira, muito bom. Eu só espero que ele não conduza da maneira como me dá indicações. Não duvidando do talento do senhor, e lutando para defraudar quem assistia ao show de roda, deitei uma olhada ao meu espelho e calculando A + B menos C (de choque) lá manobrei o carro de forma a virar o bico ao prego. Então o Escort encheu as válvulas com a centelha que ainda lhe restava e salvou uma situação embaraçosa. Agradeci ao controlador de tráfego rural e escutei palmas. Tomei a consciência de que eu era o evento mais excitante que aquela aldeia assistia nos últimos tempos, e seria tema de conversas durante dias, marcando assim, com um cheiro estonteante a embraiagem, o meu lugar no panteão da Cerdeira. Netos ouvirão um dia a história do patego que não conseguiu tirar um carro em marcha atrás. Serei descrito como uma sombra dentro do carro e um poço de suor com pernas, e o meu carro será descrito como um chaço inútil. Mas terei dado, dentro da minha limitação como indivíduo, vida à História, que dizem estar pela hora da morte. Uma história é parte da História, e sentado no banco de condutor, tomei o meu lugar na da Cerdeira.

Resta dizer que depois me fui, passear. O carro deu boa conta de si, e quando voltei a passar pela Cerdeira, um outro andarilho atravessou-se-me à frente sem aviso. Quase lhe chamei coxa, mas depois lembrei-me de que o meu passado como taxista em Lisboa era nulo.


quinta-feira, agosto 08, 2013

Uma expiração


Os Árabes fundaram um dia Aljezur, e por que razão o fizeram não sabemos. Talvez se tenham enamorado do mar, tão diferentes de outros mares de areia a que estavam habituados. Quanto a mim, apenas desejava rumar ao sul e pisar o distrito de Faro pela primeira vez, o único em todo o território continental que as solas do meu calçado não tinham alapado a borracha. Sendo eu português há uns 30 anos, parecia mal que o Algarve nunca tivesse possuído os meus olhos. 2013, o ano da incerteza, acabou por me conduzir a esse território desconhecido. Já aqui desenvolvi a minha falta de gosto pela praia, em contraste com a calma e puro prazer de mergulho com que o mar me arrasta por si dentro, sem respeito qualquer pelo meu auto-controlo. O Algarve é definido por este mesmo elemento, que num lençol refulgente se espraia até um limite fictício nos nossos olhos, e pela terra em partículas finas onde os turistas estendem a toalha. Algarve é praia, e quem o visita tem só apenas esse objectivo na ideia. Na sua paisagem, não se pode deixar de pensar que o território algarvio acaba por ser um prolongamento do Alentejo, e da sua estranha mistura entre um verde ordenado exótico com a secura que o sol traz à terra, e dá tons pálidos e dourados ao que a nosa vista cobre e procura. Foi assim que vi o Algarve, e nunca consegui deixar de pensar na paisagem alentejana enquanto o visitava, permanentemente confundindo as províncias em erros inconscientes. Faz parte da maldição desta terra, que tem tanto que ver, e é reduzida a um mero local turístico de veraneio marinho, algo que é alimentado por quem lá vive. No fundo, é também um sintoma da falta de imaginação com que este país é rumado ao ram ram do já batido.

Outras ideias me cruzaram a cabeça esta semana, mas não quero falar aqui sobre a maior parte delas. Mas quero dizer que entrei novamente numa casa que já não visitava há muito, e apenas entrevia em telefonemas. Soube bem, como se de facto o tempo não fosse linear, e pudéssemos realmente esticar o espaço em quilómetros éter dentro de nós, sem scuts ou portagens, porque a amizade é gratuita entre quem se gosta, e quem sabe que meias palavras são enciclopédias de conhecimento entre amigos.

domingo, julho 28, 2013

Um ano da graça por onde vagabundeiam desgraçados


A primeira vez que Bruno Fernandes leu Bolaño foi no Verão de 2013, em Coimbra, onde aguardava na sala de espera do S. Jerónimo tinha ele 30 anos. O livro em questão era "2666". O jovem Fernandes desconhecia no momento que aquele romance era na verdade cinco, e que o autor estava morto num só pedaço, e que este pedaço era na verdade cinco desejos de testamento que se tinham fundido num só por vontade dos editores. Fernandes não achou isto estranho, ou até aproveitador, o que pode ser atribuído a uma ingenuidade a galope, ou então à pura absorção que a escrita muitas vezes seca, mas a espaços límbica de Bolaño lhe provocou quando leu a frase "A primeira vez que Jean-Claude Pelletier leu Bolaño foi em 1980, em Paris...". Depois dessa frase, seguiram-se várias, num encadeamento de mão em mão como crianças que jogam ao "senhor barqueiro". É do carácter dos portugueses decretar o lirismo como o último dos seus bastiões, mas Fernandes sabia que em Bolaño o lirismo não era evidente. Estava enterrado no meio de cadáveres de mulheres, das areias do deserto, de pessoas que fodem porque precisam de descarregar o tédio de viver numa cama, como se fosse uma arena, e a vida uma tourada em permanência que arrasta a atenção para o centro das pulsões a que o sexo dá expressão, forma e até asas. A beleza da loucura pode estar simplesmente num livro deixado à conta dos elementos numa corda de roupa, mas era mais fácil procurá-lo no homem que conseguiu sair do fosso da vida através de receitas de costeletas.

Um chileno a estampar o México num livro, e as dezenas de cadáveres que apareem maquinalmente ano após ano desde 1993. A primeira, Esperanza Gomez, veio antes de Oscar Fate, cujo destino fora conhecer a filha de outro Oscar,um Amalfitano. Mas Rosa veio depois de Liz Norton, que tanto Pelletier como Espinoza sonharam possuir, como se fosse a argola onde se agarravam quando a figura de Benno von Archimboldi se tornou tão fantasmagórica que as suas mãos já só apanhavam pouco menos do que fiapos de solidez enganadora. Morini, mesmo paraplégico, ganhou a corrida, mas nada pôde fazer por Esperanza, nem dar esperança a um país tão imerso no horror costumeiro que uma pilha de mortas por toda a gente esquecidas não incomodava mais do que uma picada de mosquito. Archimboldi conseguia percebê-lo, se voltasse a ser Hans Reiter, mas preferia estar no fundo do mar a cultivar algas, longe dos estilhaços dos morteiros, das explosões da guerra e tendo na cabeça a noite em que contemplou a Baronesa von Zumpe a foder com o Coronel Entrescu, homem lendário do exército romeno pelo tamanho da sua descomunal verga. A vida e a morte estão separadas por anos, que são páginas, que são frases e que no final, nada mais amontoam do que os grãos de areia que preenchem o deserto do estado de Sonora, numa Santa Teresa que é ficção, mas ao mesmo tempo real em Ciudad Juarez.

Na última página de "2666", Bruno Fernandes encontrou isso, e estava rodeado por isso, mesmo que isso o fizesse fugir assim à certeza de saber superar as agruras da espera. São 1100 páginas que contêm tudo o que se quiser, e cuja violência que põe o mundo em chamas é tão natural como comer ovos rancheros no México. O Mundo esquece que há violência, porque se renova através dela, e engole o que resta da vida num golpe bárbaro que está no coração dos homens. Fechando o livro, Fernandes guardou para si não a violência, mas a imaginação que permite a um homem morto viver durante muito tempo na bílis segregada pelo seu cérebro, a que alguns chamam pensamento, mas só por desconhecimento de que a alma existe, ou não, e assim dar espaço aos racionalistas, como Leibniz ou Descartes, de assumirem que é o cérebro a razão última do mundo, mas claro que isto é falso, porque a razão única do mundo são as mulheres mortas de Sonora, que todos esquecem, mas que querem lembrar, e no entanto a morte existe para ser lembrada por quem não tem medo e esquecida por quem a teme, e por isso as mulheres mortas continuam esquecidas, juntamente com aqueles judeus enterrados na vala da cidade polaca. A vitória da Morte existe quando a imaginação é derrotada, e Fernandes lia em Bolaño um desespero cínico que queria acreditar realmente na imaginação, e em úlitma instância na loucura, como figuras crísticas de ressurreição. O escritor era Lázaro, regressando da morte para ser lembrado, mas o derradeiro insulto que podia receber era precisamente a glória do reconhecimento. 2666 é o ano onde o paradoxo se cruza, e se Archimboldi realmente ganhar o Nobel, Hans Reiter vai esquecê-lo, e lembrar-se apenas de que no apocalipse, os livros são combustível. Mas curiosamente, também o podem ser da salvação. Bruno Fernandes arrumou o livro na mochila, levantou-se e procurou a chave do carro. Uma vez encontrada, saiu do hospital e partiu para casa.

quarta-feira, julho 24, 2013

Having the time of my life, watching the clock tick


Uma boa vida é feita de equilíbrios, e o balanço de lastro existe muitas vezes fora de nós. No meu caso, que sou alguém com uma tendência para a melancolia, espaçada por acessos de "WTF", preciso de procurar no exterior algo que impeça que a melancolia alastre como uma colónica de bactérias, e me impeça de avariar, de quando em vez. Encontrei o meu lastro em 1998, numa cassete emprestada por um colega de secundário cuja fixação por bandas de punk pop ainda se mantém hoje. O álbum da cassete, "Nimrod", entrou-me no ouvido com a violência inexplicável de quem, pensado ser um intelectualóide acima de gostos populares, ignora que é naquela idade que os gostos são verdadeiramente formados, e que o nosso cérebro sabe instintivamente o que nos forma, e compõe, e constrói. No meu caso, descobri que uma dessas peças agrupava três rapazes de Oakland, Califórnia, fãs de trocadilhos de sexo e drogas, e que encontraram precisamente nesse gosto uma via verde para se baptizarem depois de uma noite de charros. Falo, como adivinharam aqueles que me conhecem, dos Green Day.

Nunca é fácil fazer perceber às pessoas porque gosto de Green Day. Devo ter dez anos a mais para continuar a gostar deles, como se a partir de uma certa idade tivéssemos de abandonar o que para nós faz mais sentido. É uma tolice. Ou então, como se chegado a um certo ponto de erudição, descer ao nível dos três acordes fossem uma despromoção. Outra tontice. Há várias razões pelas quais a música que esta banda faz me preenche, mas a principal é a mais simples de todas: faz-me sentido. Os Green Day permitem-me descer à realidade quando estou demasiado perdido na complexidade dos meus pensamentos, e preciso de um simplificador. De algo que me desligue tudo o resto para me poder concentrar naquilo a que a vida se reduz. Aliás, os meus gostos mais refinados e os meus gostos mais simples têm algo em comum: são sempre questionados, mas por pessoas diferentes. Ora, isto leva-me a crer que os nossos gostos, para serem bons, têm de ser nossos, independentes da opinião alheia. Há sempre um motivo ara questioná-los, mas desde que seja nosso: em tudo o resto, como diz o meu amigo Amrstrong, "I wanna be the minority".

É por isso que, sempre que o trio surge por este cantinho marinheiro, eu navego rumo à excitação de vê-los ao vivo. Não é grande o sacrifício, mesmo que se dê dinheiro para ver outras bandas que até nem se aprecia: os Green Day são uma das melhores bandas ao vivo que conheço, um carrossel portentoso de acção, movimento e o contrário de crenças modernas de que a melhor maneira de curtir um concerto é abanando a cabeça e parecer irónico. Num concerto desta banda, há festa rija, e ninguém está parado, porque não pode, a estimulação é constante e não há aquela pausa, nem o aquecimento: é-se lançado para um passeio dos alegres como aula de cardio, mas sem música irritante. Toda a banda é excelente ao vivo (Mike Dirnt, aguerrido e com sentido de humor; Tré Cool na justificação plena de que as regras sociais só servem para quem não tem a imaginação de existir por si mesmo), mas é em Billie Joe Armstrong que o espectáculo encontra a sua expressão máxima, como um cicerone maior do que tudo, sempre elogioso e caprichoso, invectivando o público, exigindo atenção, chamando espectadores a brilharem no palco. Há quem atire barcos insufláveis e abra garrafas de champanhe, mas os músicos a sério sabem o que é trabalhar uma audiência, e Armstrong trabalha-as há 20 anos. O concerto não foi perfeito... Faltaram temas essenciais ("Brain Stew" é sempre um momento de catarse, e não acabar com "Time of your life" é uma bofetada na cara) e a concentração demasiada em Dookie roubou outros potenciais momentos numa noite que foi até de memórias menos esperadas. Mas isto são queixas de um fã, São aqueles que mais vivem os momentos; e no entanto, depois de acabar o concerto a dançar um slow, não posso deixar de voltar ao início: a vida é feita de equilíbrios, e nada como, depois de me terem acompanhado em fases de secura feminina, proporcionarem-me a coragem para assumir que sim, estou aí ara as curvas e cheio de truques novos. Tal e qual como os rapazes californianos. Obrigado, e como disse da úlitma vez, a próxima vez que voltarem já vem tarde. 

quarta-feira, julho 17, 2013

Frases inúteis: 6º versículo


Há na tua boca um atalho para o meu coração que me põe a fazer rotundas

terça-feira, julho 02, 2013

A parte da espera


Agora que a minha família já o assumiu perante uma comunidade de coscuvilheiros que insistia em imputar ao meu pai males que só Deus imaginou para Job, posso escrever aqui o que já deixei a intuir há umas semanas: o meu pai tem cancro. Não é com muito à vontade que o assumo, pois considero que é um assunto muito meu, e o meu percurso para navegar pelo impacto que esse facto tem no meu humor e na maneira como passei a encarar a vida a mim pertence, pelos meus pés e desviando-me de clichés vários. Acredito que quem me rodeia é bem intencionado, e agradeço o apoio, mas há vultos dentro de nós que só encontram projecção à luz certa e exacta, e este é um deles. É uma partilha que se faz não com quem merece, mas sim com quem nos entendemos em meias palavras sem precisarmos de usar um dicionário para descrever pormenores e nuances que preferimos manter na sombra.

Por que razão falo eu então do assunto? É simples: acontece que uma pessoa cujos males me perturbam o pensamento está a passar por um problema semelhante, e fez-me perceber que partilhar partes do percurso pode servir para criar um trilho menos pedregoso a quem vem atrás de nós, e venho deixar aqui um pequenino traço do que me desenha neste quadro. Sendo a pena de quase prisão do meu pai ter de fazer duplo tratamento de radioterapia e quimioterapia toda a abafada tarde, sou eu o guarda prisional que o conduz à Estufa dos HUC. Durante hora e meia, um silêncio está para ser preenchido e recuso-me a aceitar que sejam os restantes prisioneiros a fazê-lo por mim. Decidi então, num assomo asinino, mas ainda assim bem intencionado, ligar o processo de cura do meu pai (sim, estou a tentar ser optimista... não sai naturalmente, mas dêem-me um desconto) a um livro que ofereça a mim mesmo um obstáculo simbólico que em nada se pode comparar ao mal real cancerígeno. Percorri as estantes aqui de casa, e o meu indicador puxou o tipo de calhamaço gargantuano que seria a refeição perfeita nesta viagem ao outro lado dos espectros. O meu companheiro silencioso tomava para si uma data pouco evocativa, mas que ressoava na cabeça: "2666"

Indo já a um terço deste labirinto que o falecido Roberto Bolaño (que faleceu, claro está, de causas oncológicas) , custou-me a ver inicialmente a mão ordeira do Acaso nesta escolha: "2666", até agora, apresenta uma série de personagens, sem aparente ligação entre si, que odeiam o mundo e os seus designios de tal forma que viver é a sua paixão, como se fossem Cristos a caminhar entre nós num calvário permanente. O tema é a procura: seja por Benno von Archimboldi, pelo poeta Rafael que vive num manicómio, mas cuja única loucura parece ser a arte, pela paz interior perturbada por vozes e livros que aparecem na casa mas desaparecem da memória, pelo assassino de mais de 200 mulheres, pela vontade de foder que é descrita como a máquina do mundo, impessoal, imperfeita e apenas necessária para pacificar o que não pode ser pacificado através de um acto paradoxal, destruidor e cheio de potencial de vida. Tudo isto num terço do livro, e espero pelo que vem a seguir. É estranho que tenha de ler isto enquanto estou rodeado dos vultos de que falei. Porque faço questão disso mesmo: de só ler naquela sala, naquele momento. Um momento que é mais do meu pai do que meu, mas que, à minha maneira, vou moldando no meu espaço, no meu tempo, em pequenas estátuas de paciência. "2666" ajuda ao meu estoicismo. Molda-o também e faz-me suportar o pequeno terror que é estar rodeado por putativas mortes, um pouco como olhar através de uma janela com o alcance de 30 anos. Ou menos.

Um caleidoscópio de 2666 cacos de vidro. Todos ao molho, todos ao monte, todos no cone. O cone é a vida. que sugada, nos faz esperar pelo próximo sobressalto; mas no entretanto, esperamos sentados. Umas vezes em silêncio, noutras tomando a palavra, mas quase sempre em silêncio. É o que se pode fazer.

segunda-feira, junho 17, 2013

Decente docência


Não me considero professor. Dei aulas durante dois anos, e por uma razão cada vez mais nobre em tempos de vampirismo: precisava de dinheiro. A inutilidade do curso de História num país de pouca criatividade no uso de competências faz com que seja difícil haver saídas para quem encara a sua vida na perspectiva daquilo que gosta em vez do que me torna um ciborgue ao serviço do mercado de trabalho, e reconheço isso. Por isso, o Ensino foi uma das vias possíveis de aplicação dessa competência, como gostam de lhe chamar. Gostei de ambas as experiências, por razões diferentes. Numa, pude receber um salário pela primeira vez e ter uma experiência nova. Noutra, fui para um local distante e desconhecido, onde vivi uma realidade escolar diferente e fiz amigos que ainda mantenho. Ambas as experiências mostraram-me o que são os professores: há bons, maus e péssimos; preocupados e despreocupados ao ponto do estaladão; gente que se importa com os alunos até levarem as suas dores para casa, e aqueles que vão para a escola contar tempo até à saída para irem às compras; há professores que tentam fazer das tripas coração ara conciliar o seu trabalho com a família, e outros que sem família encontram na escola uma maneira de consumir o seu tempo para não andarem desocupados; há quem prepare aulas, quem improvise e quem repita as mesmas coisas todos os anos; quem exija dos alunos e quem não exija. Há de tudo. Dizer "Os professores são isto" é um erro. Assim como tento não julgar toda a classe médica pelos incompetentes que já apanhei por esses hospitais e centros de saúde, espero que haja a mesma atitude de bom senso em relação a outras profissões.

Se estivesse empregado, faria greve. Não faria, como alguns dizem, porque quero salvar a Escola Pública. Aliás, há uns tempos falei dessa imagem de anjo branco que foi veiculada na greve dos médicos, e considero-a falsa e uma forma quase egocêntrica de ver uma greve como o derradeiro local de batalha entre o Bem e o Mal. É uma greve; e a maior parte dos grevistas fazem-na por puro interesse pessoal, e não há nada de errado com isso. Não faria greve pelos sindicatos, um grupo de homens e mulheres que não sabe o que é pôr os pés numa sala de aula há anos, e tenta usar os professores que defendem como trampolim para outras aventuras políticas (e, de caminho, lixar jovens, como eu, que gostavam por uma vez de um concurso nacional de professores com regras que os favorecessem, em vez de ser todos os anos para os mesmos). Não faria por asco ao Governo, embora haja todos os motivos para combater o actual estado político das coisas com todas as armas ao dispor, mesmo que o primeiro-ministro ache que democracia é aquilo que lhe dá jeito. Faria greve por mim. Porque há, de facto, uma diferença necessária entre horários de professores e da restante função pública. São 35 horas que não incluem o tempo gasto em casa no seu trabalho de docência. De cabeça, e do que me lembro, eu até trabalhava mais de 40 horas semanais. Ninguém me pagou horas extraordinárias, porque as fazia em casa. Por isso, não invertam a lógica; porque, de facto, a forma como a vida de professor está idealizada, como operário ao serviço do Estado, é um desrespeito pela maneira como a relação professor-aluno deve funcionar, e destrói a célula familiar que a Direita tanto aprecia, fazendo um professor andar de Norte a Sul todos os anos; porque a ânsia de reduzir gastos do Estado está a subverter aquilo que deve ser o Estado: um órgão do qual todos abdicamos a nossa liberdade total de decidir  pois confiamos que será feito o melhor a nossa favor para uma cabeça cibernética que vê número e não pessoas no espaço do País.

Não me incomoda que seja num dia de exames. O Governo teve a hipótese de mudar o dia dos exames, e não quis. Apresentou uma proposta em Maio e deixou duas hipóteses temporais: ou o mês seguinte, ou o próximo ano lectivo. Perante a impossibilidade da segunda, escolheu-se a primeira, e numa data com impacto, que é afinal o objectivo de uma greve. As pessoas fazem greve desde os tempos do Antigo Egipto, e acontecem habitualmente porque as relações entre trabalhadores e empregador chegaram a um ponto de ruptura. Pode-se questionar se é o que se passa aqui. O que não se pode questionar é que as coisas estão a decair na educação há alguns anos, e que a única altura em que os governantes se parecem preocupar com o futuro dos alunos é quando esta preocupação vai ao encontro dos seus interesses. Não tenho visto um cuidado tão grande com o futuro dos alunos no corte de avenidas de emprego causado pelas políticas económicas dos últimos anos; nem vi este extremo cuidado com os exames em alturas passadas de enunciados mal elaborados, ou corte dos tempos lectivos mantendo-se os mesmos programas, ou dando aos professores outras tarefas para além da docência (já fiz de advogado, psicólogo, assistente social e até cozinheiro numa escola... Agradeço a minha dificuldade de me envolver emocionalmente com outros, ou andava destruído),mas não a quem está no poder. A escola é transformada em duas coisas: um local onde os cidadãos deixam os filhos para não terem de aturá-los e educá-los, e um campo de treino para os robôs do futuro que devem obedecer ao que lhes dizem e submeter-se às necessidades da sociedade abandonando os seus sonhos.

Pois bem, a linha foi traçada hoje. O braço de ferro não tem sempre de cair para o mesmo lado, e uma greve pode não ser só uma comichão, mas sim uma hemorragia interna. Que isto inspire outras profissões a fazerem o mesmo. Como disse Miguel Esteves Cardoso, o português é muito pacífico, menos quando lhe pisam os calos. Somos o mais antigo país da Europa. Como nação, somos mais do que quem quer desmontar conquistas que damos como necessárias para a nossa existência democrática saudável. Dizerem que se faz isto por motivos de força maior não pega. Sabem porquê? Porque nós, as pessoas, os cidadãos, somos o mais válido motivo de força maior que existe.

terça-feira, junho 04, 2013

Parklife


Quatro acordes. Foi o que necessitei para explodir de vez e sair de mim mesmo durante dois minutos e pouco, comungando dessa demência colectiva com um grupo de gente que saltava como se tivesse molas em vez de carpos e falanges. Graham Coxon deu cora ao meu relógio, e de repente parecia um coelhinho da Duracell, abraçado a três espanholas, bradando uma só vogal que se espalhava pelo parque da cidade do Porto até aos ouvidos de quem trabalhava na refinaria àquela hora. Tinha sido já uma experiência catártica e transcendentes, a espaços celestes, que vivera na hora e meia anterior. Mas aqueles dois minutos, dois agitados, abençoados e libertadores minutos, alimentavam a fornalha da minha vontade há anos. A minha cabeça, eterna prisioneira, sempre encontrou em "Song 2" a solução para se desembrulhar, para fugir na fuga da fugida de dois minutos que concentram assim tudo aquilo pelo qual vale a pena pular e dar cabo do nosso bem estar físico em prol de um som que nos controla qual homem das marionetas.

Os Blur têm nessa canção um marco musical comparável à Nona de Beethoven, ao "Peer Gynt" de Grieg ou à "Yesterday" dos Beatles. Ficará para sempre como o nosso património musical e emocional. Não consigo explicar porque gosto de Blur. Sei a razão de viver fascinado pelo trio de Oakland que Billie Joe Armstrong lidera entre um e outro acesso etílico, mas os muchachos do Essex entraram pela minha vida sem eu dar licença, mantendo-se à força da sua música do caraças. Há um génio particular na criação bluriana, que mistura um estilo popular com o gosto pessoal de perseguir sonoridades diferentes, e inovar. Passada a fase Britpop (um céu e inferno particulares, condensados em dois anos), os álbuns dos Blur são sempre diferentes, e procurando novos planaltos musicais: no álbum homónimo, o rock indie norte-americano destilado pelo quarteto britânico; "13" é a experimentação com trezentos mil sons, num cut/paste que resulta no mais sensível e genuíno álbum da carreira; e em "Think tank" explora-se a world music, enquanto Albarn reflecte o seu próprio percurso pessoal, sem a oposição de um ausente Coxon, nos Gorillaz. Um percurso que me tornou não só fã, mas também uma pessoa com melhor gosto musical e a necessidade de um dia poder agradecer, em gritos e esperneios, o que aqueles quatro me tinham dado.

E foi assim que se uma andorinha não faz uma primavera, milhares de hipsters podem compor uma, e florir ali para os lados de Matosinhos em adoração àquelas bandas obscuras e artistas esquecidos que compõem a sua personalidade irónica e desgarrada. Eu mal queria saber disso: sabia ao que vinha. Fui sozinho, em peregrinação, de mochila às costas e pernas destreinadas. Mas fui; e esperei as horas que eram necessárias. Esperei para ver raparigas e rapazes entregues à cena pop, como se não houvesse outra alternativa. Depois de "Beetlebum", senti-me dessincronizado com o mundo, embora confiasse que as minhas não Adidas me fizessem chegar ao céu de caramelo onde me poderia acertar novamente. Não houve pausas para beber café ou ver televisão: a ternura entre o público e o quarteto, onde Alex James era epítome de coolness e Dave Rowntree o baterista com a fiabilidade do caseiro de uma casa de campo, nos fazia sonhar que naquele parque, podíamos passar toda a uma vida. Mas tudo tem um fim, até mesmo os séculos. Foi uma tristeza vê-lo desaparecer debaixo da passagem que se estendia por cima do palco, mas o seu regresso provou que haverá sempre um amanhã, universal, onde gritamos woo woo e voltamos onde comecei: quatro acordes. O mundo explode, dezasseis anos têm finalmente alguma justiça e eu sinto na boca algo de parecido com felicidade. Não é bem o mesmo, mas o borrão nos meus olhos é muito parecido com lágrimas. Obrigado Damon, Graham, Alex e Dave.

quarta-feira, maio 29, 2013

Sociopatia




A ala de oncologia de um hospital foi criada para ser a sala de aula do curso de sociopata. Quando entramos e olhamos a sala de espera, é obrigatório fazer crescer em nós uma distância emocional em relação à miséria. As cadeiras estão cheias de pessoas em diversas fases de tratamento, e vemos desde indivíduos com a saúde suficiente para se sentirem quase invencíveis e optimistas, até espécies de árvores encarquilhadas, ainda não velhas, mas conhecendo que a sua folha está caduca, e o Outono dará lugar a um Inverno de descontentamento de quem as amam. É como se uma súcubo cruel passeasse pela divisão, dando beijos de morte a toda a gente. Alguns, sortudos, levam apenas com chochos leves, deixando apenas um leve travo a acre e amoníaco. Um punhado tem o azar de ser vitima do linguado mais desagradável de todos, que revira não apenas a boca, mas todo o corpo numa convulsão que apaga o brilho que há nos olhos e a dignidade última que é podermos estar erguidos pelos nossos próprios meios.

Podia ser só isto. Mas no caso dos HUC, o edifício de oncologia tem dois andares adicionais.

A visita ao intermédio prolonga esse sentimento de biasma, onde já nem se consegue sentir medo, que é um primo muito afastado da esperança, em grau zero. Existe resignação, e espera, e ainda assim o espaço para a incerteza que as situações extremas ainda têm. Existe uma gigantesca clarabóia que dá a ilusão de não estarmos dentro do que seja, mas sim num elísio espaço, com uns toldos e cadeiras, como se fosse a esplanada onde alunos de um mesmo curso se reúne nos intervalos das aulas. As conversas parecem de adolescentes: fala-se de Radio, de como correm os testes de Quimio e das novas tecnologias da TAC, um novo Ipod que coloca o som realmente dentro do cérebro. No entanto, tal como a clarabóia, serve apenas para disfarçar o desconforto, um faz de conta requintado e misericordioso. É um acordo de cavalheiros entre colegas da mesma canalhice, ao compreender que não se pode estar ali a falar Daquilo a toda a hora e a todo dia, mesmo que seja Daquilo, a partir do momento em que o mundo lhes cai em cima, que todos os dias e todas as horas se vão preencher a partir de então. Tenta-se fugir Daquilo, mas dos outros que sabem Daquilo, porque só vão conseguir falar Daquilo e de nada mais, à tonelada.

Assisto a isso todos os dias; e assisto com a desconfortável sensação de saber mais sobre o real estado Daquilo do que quem tem de carregá-lo. Vejo sorrisos de abençoada ignorância, quando me apetece cair por dentro e desfazer-me. Felizmente, como disse ao início, a ala de oncologia cria sociopatas. Ou, no meu caso, reforça-os. Se nunca ninguém fez uma defesa da falta de empatia como uma dádiva social, serei eu o primeiro. É tão ou mais útil do que o seu oposto, quanto mais não seja porque nos permite ser nós mesmos, completos, em situações que claramente nos ultrapassam em curvas. Só podia, porque se a vida fosse uma recta, não chocávamos tantas vezes.