segunda-feira, dezembro 26, 2016

Cronistão 18: A casa da montanha


Não sei se alguma vez se viram aos pés de uma coisa com sete mil metros. Uso a palavra "coisa" porque pode ser tudo o que imaginam que se ache na disposição de ter de metros sete milhares, cabalísticos ou não. Se nunca usufruíram do prazer, posso dizer-vos que é uma enormidade e que nada na vossa vida em altura se pode sequer comparar ao espanto que é o sentimento de uma insignificância abençoada, a descoberta de que há limites a ultrapassar e que o topo do mundo será sempre ilusório. Penso que vos é conhecido o meu gosto por montanhas, trepá-las e conquistá-las, fotografar o seu relevo, recorte e poder, simplesmente ficar cativo de um hipnotismo de apneia, a falta de ar sempre que se contempla o topo, a fartura de vida quando olho em redor e há tantas elevações que o meu próprio coração é o retrato de uma taquicardia orográfica. O Quirguistão, para um guloso como eu, é basicamente um rodízio de rocha e os próprios Soviéticos reconheceram o fascínio quando escolheram baptizar a maior montanha do seu território com o nome do homem que fez mover a revolução soviética. Hoje tem o nome de Avicenna, no Tajiquistão, mas por aqui, não há quem não lhe chame Lenine, Lembram-se do fetiche que este país tem por estátuas do seu próprio santo e anjo vermelho? Pois claro que tinham de passar isso para outro plano, literalmente. Claro que, em 1993, um outro pico chamado Ismoil Somoni (para a Rússia, Pico Estaline) revelou ter mais 300 metros, mas isso são pormenores.


O Pico Lenine estende-se pela fronteira com o Tajiquistão  e é, descubro depois, uma dos mais fáceis picos do mundo para escalar acima dos sete mil metros. À medida que nos aproximamos, fica essa ideia e vê-se, ao longe, uma base de montanha para alpinistas. Ninguém quer subir pelo lado Tajique, país que sofreu recentemente uma violenta guerra civil e ainda tem má reputação. Vemos alguns alpinistas, mas nenhum em subida. Contemplam, como nós, a monstruosidade daquela montanha. É Verão, mas está ainda completamente coberta de branco, como se um lençol a tapasse num sono de hibernação permanente e a certa altura alguém (que não Lenine, que está em Moscovo à vista de todos) despertasse do topo. Encho os pulmões de oxigénio, puro mas denso, fazendo arrepiar o meu sangue e trazendo-me um tipo de cansaço que só em altitude se encontra.Há uns vinte minutos que saímos do local de dormida e a a marcha é lenta, pelas muitas fotos que há para tirar, mas também porque a marcha se faz por trilhos apagados, destruídos pelas águas do degelo e não planos. O céu nebulado ameaça uma chuva que nunca vem e inundo-me do aparato fulgente da Natureza, que vejo em caldeirões de montanha onde se cozinha neve, pequenos lagos que mais não são do que passos de gigante que deixaram para trás espaço para repouso das águas e também nos olhos de quem sabe que a máquina fotográfica é apenas uma testemunha silenciosa e imperfeita para o que assistimos. Deve ser esta a reacção mais repetida que encontram nos meus relatos, mas é impossível não senti-lo. Conseguem vê-lo nos olhos dos guias locais, que são amigos de bar destes montes e paisagens, que com eles partilham conversas no balcão do quotidiano e que não conseguem cansar-se de engolir com as pupilas este manjar visual.

Na base do Lenine, há um glaciar, de onde brotam águas que no Inverno abrem uma garganta. Esta, quando a visitamos, leva pouco volume aquático, mas dá à paisagem um tom irreal. A temperatura baixa enrola-nos como um yo-yo e caminhar é a única solução não apenas contra o mundo extraterrestre, mas também os tremores de frio patrocinados por uma orquestra de rumba hipotérmica. Há luvas, há barrete, há um grosso casaco e ainda assim, não conseguimos competir com a grossa pelugem dos vários iaques que encontramos em manadas. Dominam o planalto, que parece um plástico de bolhas com os seus altos e baixos e quando nos observam, trazem avisos mudos. O nossos respeito é imediato, aprendi a nunca questionar bichos territoriais cujos cornos são o dobro da minha cabeça e penso que o cliché da Ásia Central é isto: alta montanha, iaques, neve e assombro. Alguns clichés existem porque são de facto verdade, e na verdade, repetindo a palavra, o cliché de aqui escrever isto funciona porque qualquer assombro ao qual não queiramos encontrar a artificialidade do voo poético só pode mesmo ser despachado em frases que fazem parte do nosso código genético como viajantes, Quando o sol se põe, já estamos perto do acampamento e deito um último olhar ao gigante pico que não tossiu enquanto ali estivemos nem espirrará depois de irmos embora. Descansa plácido, imune aos nossos destinos, alheio às minhas preocupações e anseios e devaneios e nunca se importando com as dores que carrego e que na viagem me fazem, por vezes, dar solavancos na culpa do meu prazer. É como se me observasse sem julgar, mas também sem ajudar, e com isso me avisasse que a vida é isto, uma gigantesca montanha cheia de cortes e recortes, com avalanches ocasionais e topos desmedidos de conquista.


Ou talvez seja apenas rocha. Um dos princípios da montanha é que te dará apenas e só o que procuras e que és. Tudo o mais, fica para quem vem depois de ti.

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