terça-feira, janeiro 29, 2019

Perugrinação 12: O sal da terra


Uma das razões pelas quais comecei a viajar foi o peso que a morte repentina do meu pai teve na minha maneira de encarar o tempo que me resta nesta massa planetária. A mania humana de planificar e esquematizar, jogando à malha com sonhos e ideias, ao atirá-los o mais longe possível da sua concretização - "Depois tenho tempo. Agora não dá" - é uma constante no nosso comportamento e ao ver alguém sumir assim, alguém que foi adiando e adiando para uma outra vida, talvez, aquilo que queria fazer e ver abriu-me uma janela onde o futuro deve ser o mais imediato possível. Queres, vai; podes, faz; estampas-te, azarinho (esta última, então, tem sido tão lema dos meus últimos anos que quase posso chamar a minha vida de sucata sem fugir muito à verdade). O meu pai vem comigo nas viagens que nunca fez, nem quis. Apenas porque se na vida não se atreveu a conhecer, é na morte que mostra coragem e tão em silêncio como de costume, mas estampado numa película fotográfica, aprecia a paisagem. Por isso, quando viajo, sei que tenho a morte por companhia, mas daquelas não está quieta muito tempo. Uma morte com bicho carpinteiro.

Quando nos aprestámos a sair de Cuzco, portanto, penso não ter tremido com a notícia de que uma das pessoas que connosco viajava sofrera uma perda familiar. É preciso galo sim, mas é mais do que isso. Contaram-me isto e a pessoa ao lado. Não me recordo de como reagi; mas apesar de levar na minha mochila uma forte estampa de óbito, sei que dentro de mim, de há quatro anos para cá, fechei um pouco a sensibilidade a falecimentos alheios. Não é por mal. Simplesmente, tirei esse equipamento. Acho que toda a gente pensa o contrário, pelo que escrevo, pelo que digo, pelo quanto já me procuraram em situações semelhantes na sua vida. Nunca soube lidar com a morte e não o aprendi com o meu pai. Talvez a pessoa me tenha pensado insensível, mas a verdade é que faço sempre o melhor para ser humano: estou um pouco e depois, retiro-me para não parecer um parvalhão. Quando regresso ao hall de entrada, onde combinámos antes de sair, sei já que ela vai regressar a Portugal. Nada mais óbvio. Relembro isto da aleatoriedade dos finados, de como tudo é muito lindo até de repente se tornar feio. Não quero mesmo pensar no meu pai, mas passo o resto do dia a decompôr no quanto as coisas são acaso, por muito que se sorria e se queira pensar que há um qualquer volante que controlamos. Despeço-me dela, sei o que sente e quando me sento na carrinha que nos levará até Ollantaytambo, vila a partir da qual acederemos à base de Macchu Pichu, um conjunto de sentimentos, de memórias encurvam-me a língua, mudam o sangue para gravilha.


Rapidamente este turbilhão é substituído pela mais poderosa emoção: o trovão que da cabeça se atira no abismo dos intestinos apenas para alertar que a soltura é uma necessidade. Depois de termos subido a cidade de Cusco, era só o que me faltava. A carrinha estaca na berma de uma rua pois alguém necessita de comprar uns comprimidos para o enjoo e eu aproveito a oportunidade. As ruas são palco de uma actuação folclórica, um patego desarranjado arrisca correr de pernas juntas, tarefa fisicamente contraditória, batendo a portas que não abrem, procurando um refúgio. Alguns minutos nisto e eis que nas profundezas de um rés-do-chão, encontro uma sala que alberga dois computadores. Um par de jovens retira o olhar da prisão do ecrã, contemplando-me na minha fragilidade humana; é uma sala de chuto, vejam lá, mas a droga fornecida está online. Como nem todos os peruanos dispõem de orçamento suficiente para acederem no conforto de casa à Internet sempre que desejam, ainda floresce este negócio. No entanto, a ligação que procuro envolve mais canos do que linhas e claramente é prova de muita fibra. Um bigodudo cinquentão mira-me com olho de lince, mas não me aborda. Nota o desespero, mas espera pela iniciativa. Pergunto por uma casa de banho. Com certeza, amigo. Pero son 10 soles, por favor. Dois euros e tal para me aliviar. Tudo bem. Não pergunto pormenores, ele simplesmente aponta o caminho da salvação e nem sequer me oferece hóstias. Um corredor estreito conduz a uma sala pouco iluminada, verdalha e do meu lado direito, um papel colado a uma porta, tosco e repentino, indica o WC.

Abro a porta e uma sanita mal lavada parece ter estado toda a viagem à espera das minhas peludas nádegas. Não é a pior casa de banho da Escócia, mas não será certamente o topo de gama no Peru. No entanto, por sentir que a minha zona intestinal se parece cada vez mais com a primeira meia hora do filme "Saving private Ryan", sendo o meu duodeno a praia de Utah, as hipóteses escoam-se. Baixam as calças e nem questiono. Abstraio-me de tudo, penso em praias e montes nevados, escuto Enya tocada por Iggy Pop, mas num acordeão. Tudo para não pensar que por esta hora, um imenso exército de bactérias se prepara para fazer de mim o paciente zero da próxima epidemia de peste bubónica. São cinco minutos rasgadinhos. E papel higiénico? Não há. Pois claro, os dez soles foram pela vista. Procuro no bolso e encontro um lenço de papel ranhoso. Não chega. Porra; e vejo no chão um folhita de nada que sem ter sido usada, já foi pisada. Penso no quanto este momento é incrível; há vinte anos, custava-me este alívio sequer fora de casa. Agora, num continente diferente, estou realmente a encarar com seriedade usar um papel imundo para passar onde tudo deve estar limpo. Sabem que mais? Se é o que preciso, seja; e chega. Há autoclismo, que pela tosse sofre de tuberculose. Quando passo pelo homem, venho a sorrir, e ele também, chulo, acabou de me gamar. Mas regresso aliviado. Recordo o quanto a sensação da chamada "real" é daquelas que tanta gente esquece, mas memorável quando no desespero encontramos uma saída.


Saímos de Cusco e antes sequer de pensarmos em Macchu Pichu, o Pedro informa-nos que vamos parar numa estranha atracção turística, o Salar de Maras. O que é? Umas salinas, e penso que ele está a gozar. À minha volta, vejo os Andes, monstruosa cordilheira onde rodamos acima dos 3500 metros de altitude. Mas de facto, sessenta quilómetros depois, com a magnífica paisagem montanhosa a fazer-nos companhia e a Cumbia voltando aos nossos ouvidos num ritmo gingão, a estrada chega a uma encruzilhada e cortando à esquerda, encaminha-se para um caminho de terra batida onde uma varanda permite estacionamento. Hora de tirar fotos. Quando me debruço, não sei bem o que vejo... Há uma imensidão de piscinas brancas que mais parecem o bairro residencial mais estranho deste lado do Atlântico. É o Salar de Maras, ou em quechua, Kachi Raqay. São escadas de degraus pouco profundos, no fundo dos quais se vai acumulando o sódio que mais tarde produzirá ao sal. Eu, beirão entre a montanha e o mar, cresci ligando salinas ao movimentos das marés; mas aqui olho em redor e só vejo montanha bruta. O alvor quase pode ser de neve, mas não. Há dez milhões de anos, tudo isto estava coberto por água salgada. Os Andes, no entretanto, ergueram-se e espalhadas pela paisagem, dezenas de pequenas psicinas de água salgadas sobraram. A sua conjugação química entrou no solo andino. Aqui, tudo tem origem numa nascente subterrânea, de onde um jorro contínuo de água brota. Através de um sistema de pequenos canais, a água é conduzida para as centenas de piscinas, cada uma delas com dono próprio, onde fica a secar ao sol para produzir o ingrediente mais comum da nossa culinária. Acima de tudo, é uma empresa comunitária: qualquer um pode ser dono de uma destas psicinas, explorá-la e trabalhá-la, mas precisa de pertencer à comunidade de Maras, vila a pouco mais de um quilómetro. As famílias mais antigas têm direito a locais mais próximos da nascente - exploradores mais recentes são recambiados para longe. Quanto maior for a família, maior o tamanho da piscina que lhe calha em atribuição. Qualquer um pode fazer parte deste sistema cooperativo, porque há muitas piscinas sem uso. Sendo hereditárias, passam para os herdeiros. Apenas precisa de pedir autorização aos líderes da comuna e aprender a cultivar o sal. Chega. É um sistema simples que já vem dos tempos Incas, onde o conceito de tribo e de trabalho familiar estava muito presente. Era impossível vê-lo hoje em dia, nestes tempos de capitalismo voraz, em que o único sal da terra é o lucro e cada um quer tudo para si.

Olho para o altímetro do telemóvel: estamos a 3380 metros. É impressionante. Ainda antes de entrarmos no espaço ds psicinas, há várias bancas que vendem produtos relacionados com o sal. Desde o simples culinário, com uma variedade de cores desde o azul ao encarnado - passando pelo fumado, que faço questão de trazer para casa por me parecer exótico. A minha mãe usou-o várias vezes e nenhum de nós se queixou, logo pior não cozinha - até ao medicinal, de cura de maleitas desde calos e feridas até à impotência, à gota, à tensão arterial... A certa altura, há toda uma componente de bruxaria e xamanismo que torna irresistível a visita às salinas. Um pequeno trilho enfia-se sobranceiro a todo o espectáculo e por aí caminhamos. Ao nosso lado, os pequenos canais levam a água às suas prometidas camas. Deixam o solo esbranquiçado. Um dos trabalhadores passa ao meu lado e pergunto se posso provar o sol directamente da piscina. "Si, pero cuidado!! Es muy salgado" e eu nem estava preparado para o sal ser salgado. Lá em Portugal, tem assim matizes de chanfana, compadre. É diferente, para falar a verdade, um pouco mais suave, menos denso - ressequindo-me os lábios com doçura. A água é quente, vem do útero terrestre. O sal sempre teve uma importância enorme para qualquer civilização. Era o ouro branco, usado como pagamento pelos povos mediterrânicos e ainda hoje derivou a palavra "salário" para o nosso vocabulário. Calculo apenas o valor que os Incas lhe davam; e aqui, em pleno Vale Sagrado, adquire um significado quase religioso, peregrinar na brancura da paisagem.


Quando a carrinha sobe a curvilínea estrada de terra poeirenta, o guia que connosco viaja, homem que falou quase ininterruptamente desde que saímos de Cusco, relembra-nos que está disponível para esclarecer dúvidas sobre o Salar e relembra-nos que se chama Sócrates. Mostra orgulho. Eu noto e pergunto: "Como o filósofo?" "Não, como o doutor", e fala de como o pai adorava o ídolo eterno da torcida do Corinthians, o revolucionário médio que marcou uma época de oposição à ditadura brasileira e também fez parte da melhor selecção nacional que nunca ganhou um Mundial em 1982. Mas sim, o filósofo também foi importante. Claro que sim, penso, é apenas e só o mais importante nome da filosofia ocidental. Mas orgulha-se de não conhecer um único Sócrates que seja mau. Como piada, viro-me para o Pedro e aconselho que em calhando, é melhor não mencionar o nosso Sócrates; mas o peruano apanha a dica, ouve o seu nome e quer saber. Explicamos-lhe rapidamente as aventuras de José no país das rendas e dos favores, dos amigs de infância dedicados e das casas em Paris. "Corrupto' Há um Sócrates corrupto? Ele roubou às pessoas?" E sim, dizemos, está a ser julgado por isso. Em Portugal, antes do futebolista e do filósofo, Sócrates é ladrão. Suspira o pobre homem, remete-se ao seu lugar e está uns minutos em silêncio, incrédulo. Estragámos-lhe a fantasia depois de regressarmos de um local quase mágico e único. Aprende, amigo: este é o verdadeiro espírito dos portugueses pelo mundo.

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