domingo, março 18, 2012

Os tribunais certos


Os anos passam, e apercebo-me finalmente o quão errado estava por me odiar a mim mesmo, ou questionar tudo o que fazia. Não interessa o que fazes agora, interessa o que já fizeste e os filtros dos outros. Contra isso, nada podes fazer. Já foste julgado, e isso é que conta. Segue em frente e aprende que no fim de contas, interessas tu e o julgamento que fazes de ti mesmo.

Vou parar é com esta merda, que pareço o Paulo Coelho.

Ser homem


O dia da Mulher é sempre uma altura de lembrar os direitos das mulheres, e o tratamento que receberam durante séculos. Fala-se de direitos de mulheres, salários e greves; de opressão e exploração. Maldosamente, certos elementos do sexo feminino aproveitam para bradar o quão superficiais os homens são. É, portanto, uma altura para grandiloquência e cabotinismo. Não é diferente de qualquer outra efeméride ou data importante, então.

Há no entanto uma vítima esquecida no meio de toda esta confusão: o homem que não sabe ser homem. Aquele que não encaixa no estereótipo que se faz dos homens, e que existe de facto. O "gajo". O macho. O indivíduo que perante um armário estragado ou um quadro eléctrico defeituoso, pega nas ferramentas e resolve o problema, enquanto lê "A Bola"; que sabe perfeitamente a diferença entre um Golf 1.3 e um Golf 1.8; alguém que sabe preencher um formulário do IRS; que malha um copo só porque os amigos estão em casa. Eu assumo publicamente que não sou este homem.

Não digo isto com o desdém de alguns. O meu pai pertence a esta categoria, e com todo o orgulho. É um senhor simples e que não tem grandes preocupações para lá do quotidiano, o que já sobra, como sabemos. Toda a vida do patriarca Cristóvão Simões girou em torno de uma ideia: suportar a família e resolver os seus problemas. Fossem eles construir uma churrasqueira, ou garantir que eu teria uma educação de luxo que me conduziria ao desemprego. Era o trabalho dele; e quando se reformou com 55 anos de uma carreira ao serviço da GNR, a sua missão estava cumprida. O filho mais velho tornou-se a primeira pessoa a formar-se na família, o mais novo tem todo o ar de ir longe na vida, conseguiu tornar-se dono da sua própria casa, tem as finanças controladas e está casado há 32 anos.. Invejo o meu pai, porque não sei se alguma vez conseguirei ser assim tão realizado nas pequenas grandes coisas que fazem a nossa vida. O que não significa que despreze aquilo em que somos diferentes, e que nunca tiraria de mim mesmo.

Sou apanhado nesta armadilha da masculinidade principalmente quando conheço outros homens, que não têm qualquer hipótese de saber as coisas pelas quais me interesso realmente. Cada homem presume que o outro fala uma linguagem comum. Por isso, se falam para nós acerca daquele escape fabuloso que meteram no jipe e lhes permite trepar seis penedos sem suar, há a expectativa de que o interlocutor perceba exactamente a maravilha dessa tecnologia. O que faço normalmente é disfarçar a ignorância espelhada no vazio do meu olhar com um "Isso é espantoso", ou "Um amigo meu falou-me disso...", dito com tamanha convicção que passou mesmo por membro daquele clube. Eu, claro, não digo muito mais. Fui-me interessando por futebol, porque seria talvez o assunto que compreenderia mais facilmente, para servir de ponte. Não é fácil falar daquilo que refiro como "aquelas coisas". Tornam-nos interessantes durante um período curto de tempo. Depois, passamos a ser como "macacos amestrados", e se tivermos sorte, ficamo-nos por aí. Se tivermos azar, evoluímos para arrogantes, o que só tem piada se tivermos realmente um ego onde caiba a arrogância. O que não é o meu caso.

Fui acusado durante tantos anos de ser um pretensioso intelectual enorme que passei a fazer um esforço hercúleo (que não foi de boa vontade, sou sincero) em perceber este género de coisas, e em dar-me com pessoas diferentes. A ironia da história é que aqueles com quem me dava anteriormente, nos círculos onde a minha pretensiosidade intelectual não só era aceitável como celebrada, me passaram a olhar de lado. Dizer que gosto de futebol é uma punhalada, e qualquer observação mais comum lança dúvidas sobre o meu estado mental. Fui confrontado por alguém que me disse, há pouco tempo, que já tinha sido mais inteligente. É provável, se calhar. Mas não trocaria a experiência a que me entreguei, acho. Não sei se fiquei a perceber mais quem não tem aspirações mais na vida que não sejam ser feliz e passar um bom bocado (e são bem nobres, tais aspirações). Pelo menos, aceitei que é um opção tão legítima quanto a minha de me destruir lentamente até não conseguir tirar felicidade de mais nada.

No entanto, penso que fugirmos daquilo que somos não será a melhor opção, mesmo que aquilo que somos não seja exactamente o que nos deixa confortável para sermos aquilo que queremos ser. No entanto, isso pode ser impossível, e no fim de contas, viver acho que é um pouco conformarmo-nos com a vida tal como a podemos esculpir. Com a matéria-prima que temos, e com as oportunidades disponíveis. Reconhecermos as limitações, e se podemos evoluir a partir daí; aceitarmos o que nos trava, e gerir as nossas expectativas com essa bagagem. Ou então, lutamos contra tudo. O que é o conselho que se dá mais vezes, mas claramente por alguém bem mais ajustado nas suas opções de vida.

Ser homem é mais do que aquele modelo que tracei, claro, embora não deixe de me sentir desconfortável a falar com a maior parte dele. O que as pessoas não percebem é que não vejo isso como o mundo a ser ridículo: encaro isso como a minha própria inabilidade em lidar com o quotidiano. Porque é a resposta mais simples, e não tem nada de errado. Com honestidade, o quotidiano pode ser muito complicado de vez em quando. Mas lá está, é por isso que tenho o meu pai.

segunda-feira, março 12, 2012

Gritos de Ipiranga 1


Aquele que a minha coluna vertebral aparenta querer mandar em relação às minhas costas.

sábado, março 10, 2012

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

A culpa é deles


Hoje é dia de festa na blogosfera benfiquista e dos benfiquistas. Aquele clube que todos acreditamos ser o melhor do mundo, independentemente de evidências racionais, comemora o seu aniversário 108. Percebo que confunda algumas pessoas que eu, que me pronuncio como agnóstico e sou desconfiado por natureza, seja do Benfica. Afinal, nenhum outro clube exige ao seu adepto uma devoção ilimitada e cega. Ser do Benfica implica também ser-se adepto porque se é do Benfica: não há ódios a outros clubes a alimentar a paixão. Os outros são os outros, estão no seu canto e cada benfiquista sabe que nunca serão melhores do que nós. Tudo porque, claro, não são o Benfica.

Este era o post ideal para cantar as belezas dos encarnados; ou mesmo tecer a linhas de letras uma ode a essa aparição divina que é Aimar com uma bola nos pés; talvez até cravar uma estaca no Barcelona e provar, por A mais B, porque é que o Benfica da década de 60 é a melhor equipa que jamais pisou um relvado, ou relembrar sagas épicas, como aquele 4-4 em Leverkusen, o melhor jogo que vi na vida.
Podia ser post para isso tudo; mas como sempre na contra-corrente, quero apenas aqui confessar que o incondicionalismo não faz parte do meu benfiquismo. Sim, não foi do Glorioso em todos os 29 anos desta vida. Curiosamente, não é algo que não me orgulhe, porque o Benfica é grande, mas a minha consciência é maior. O culpado não sou eu, e nem sequer o Benfica.
O nome do primeiro meliante ressoa em mim memórias ternas do primeiro gosto por futebol, ao ver jogar o meu primeiro herói dos relvados: Rui Águas. Era um bom ponta de lança, que chegou a fazer dupla à vez com outros dois senhores (Mats Magnusson e César Brito), e cujo pai é ainda hoje um dos grandes ícones no clube. No entanto, em 1988, Rui decidiu que seria uma boa ideia envergar a camisola do FC Porto. Ignorando que isto era um pouco como vestir a Scarlett Johansson com estrume, o jogador pululou alegremente durante duas épocas não como papoila saltitante, mas como estrunfe musculado. Esta pobre criança, inocente nas suas crenças, seguiu-o; e durante dois anos dos quais não me orgulho particularmente, rejubilei com os feitos do conjunto nortenho, numa memória que tento hoje recalcar, sem sucesso, e que me assombra como um fantasma, principalmente quando ouço Pinto da Costa a falar e penso no que me poderia ter tornado.

Voltei a casa, quando Rui, lúcido, redescobriu o bom gosto e voltou à Luz. No entanto, uns anos mais tarde, já eu era um indivíduo com consciência formada (dentro daquilo que podemos imaginar de consciente a caber num tipo que nem tinha feito 18 anos), quando o nome de João Vale e Azevedo enetrou no Benfica e se veio a tornar no sinónimo de fraude, falcatrua e crime. Era como ver um emulado de outras figuras que povoavam o futebol português nessa altura (e aqui, o tempo passado é intencionalmente humorístico). Não conseguindo pactuar com desonestidade, decidi que enquanto Vale e Azevedo estivesse à frente do Benfica, não conseguiria ser adepto. Portanto, durante outro breve período, descobri uma simpatia pelo Rio Ave, que nessa época, nas ondas de Carlos Brito, conseguira terminar a primeira volta apenas com dois pontos, e ainda assim garantir a manutenção na última jornada. Ainda hoje nutro uma enorme simpatia pelos de Vila do Conde.

Mas quando o calvo Corleone de Londres saiu do assento encarnado, dando caminho a um bêbado inveterado, mas ainda assim mais honesto, regressei ao ventre que me aquece e acolhe desde então. Um ventre que me fez descobrir gostosas maneiras de dizer "caralho", e que me entrega a irracionalidade de bandeja, principalmente quando Emerson é titular e a lógica do mundo não existe.

No fundo, para mal dos nossos pecados, o Emerson faz parte dessa equação Benfica, que é tornar o impossível parte do quotidiano. É por isso que nunca podia ser de outro clube.

Parabéns, Benfica.

domingo, fevereiro 26, 2012

Aquelas previsões...


Como é costume todos os anos, deixo aqui os meus palpites para a noite de logo. São pessoas e transmissíveis via blog. Este ano, a escolha de filmes foi fraca... No conjunto, temos filmes quase todos medianos, e nem sequer pode haver comparação com o ano passado, por exemplo. No entanto, no ano da nostalgia de Nosso Senhor 2012, o menos mau parece ser o denominativo comum.

Melhor filme - "The artist"
Melhor realizador - Michael Hazanavicius, "The artist" (Dói-me quase tanto como ver Tom Hooper ganhar no ano passado)
Melhor actor - Jean Dujardin, "The artist" (até ontem, George Clooney teria sido a minha escolha. Mas a marcha do francês parece inevitável. Não sendo má, a prestação do fracn~es é a pior das cinco)
Melhor actriz - Meryl Streep, "The iron lady" (embora possa arder com esta escolha. Cuidado com Viola Davis)
Melhor actor secundário - Christopher Plummer, "Beginners"
Melhor actriz secundária - Octavia Spencer, "The help"
Melhor argumento original - "Woody Allen, "Midnight in Paris"
Melhor argumento adaptado - Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Stan Chervin, "Moneyball"
Melhor montagem - Thelma Schoonmaker, "Hugo"
Melhor fotografia - Emmanuel Lubezki, "Tree of life" (Tirando "The artist", quatro excelentes trabalhos de fotografia este ano, mas o de Lubezki é extraordinário)
Direcção artística - Dante Ferreti, "Hugo"
Os dois prémios de som vão para "Hugo"
Melhor guarda-roupa - "The artist"
Melhor banda sonora - John Williams, "War horse" (Ludovi Bource, por The artist" é o provável vencedor, mas recuso-me a escrever isso, com medo de vomitar)
Melhor filme estrangeiro - "A separation", Irão
Melhor documentário - "Paradise lost 3"
Melhor filme de animação - "Rango"
Melhor caracterização - "Harry Potter and the deathly hallows"
Melhor canção - "Man or muppet", Brett Mackenzie

sábado, fevereiro 25, 2012

Review rápida: "The artist"


"The artist", filme francês que tem muito pouco de temática francófona, tem-se tornado na história do ano. Vindo não se sabe bem de onde, tem conquistado prémios atrás de prémios, e neste momento, o seu caminho até à vitória final nos Óscares parece imparável. De facto, é estranho que assim seja, numa primeira olhada: é um filme mudo, estrangeiro, a preto e branco. No entanto, 2012 é o ano do saudosismo, se olharmos para os filmes mais nomeados nos prémios do cinema norte-americano, e esta é a obra que melhor resume isso.

Ajuda também que seja um trabalho de casa bem feito. Para começar, a história não é particularmente complexa: George Valentin, grande estrela do cinema mudo, é apanhado desprevenido na transição para o cinema sonoro. Recusando a aceitar esta nova introdução, perde o dinheiro numa super-produção que ele próprio financia e vê-se arredado das luzes da fama, enquanto Peppy Miller, uma estrela ascendente, toma o seu lugar. No final, é esta que, apaixonada desde sempre por Valentin, lhe salva a vida e faz regressar ao seu lugar por direito: a fama. Portanto, nada de novo nos enredos do cinema mudo. As personagens são bastante unidimensionais (Valentin: orgulhoso; Peppy Miller: bondosa que dói; o homem que dirige o estúdio: carrancudo de bom coração) e lembram o mediano cinema mudo escapista de que o início do cinema foi feito. Por isso, para além de um belo trabalho de promoção dos manos Weinstein, porque é que a obra é tão falada?

Primeiro, porque é um filme simples. Segundo, porque relembra o mais básico do nosso gosto, o de ver gente a representar, antes de o nosso cérebro ser obrigado a pensar muito sobre aquilo que vê. O segredo de "The artist", para mim, está nisto. É feito com simplicidade, e aparenta ser mais sofisticado do que aquilo que é. É portanto, um filme de que se pode gostar à vontade e ficar-se bem visto ainda por cima. Ninguém vai falar realmente mal de "The artist". No entanto, é um objecto bastante estranho: partindo de um pastiche (pronto, paleio intelectual) do cinema mudo, utiliza um estilo e movimentos de câmara bastante modernos. O espectador mais leigo não o notará, mas quem, como eu, conhece razoavelmente o cinema de Chaplin, Keaton, Lloyd entre outros, não deixará de sentir estranheza com algumas panorâmicas que têm muito pouco a ver com o cinema que "The artist" tenta emular. Compreendo que este é o trabalho de um autor próprio, mas este acaba por nunca se decidir se vai homenagear ou se envereda por algo pessoal, e a sua obra fica ali presa a meio, numa estranha metamorfose. De facto, "The artist" é muito mais interessante quando se descola do seu modelo básico, e encena algumas sequências mais surreais que se destacam sem dificuldade.

Tecnicamente, o filme não é nada de extraordinário. Há um sentimento de "Já vi isto em qualquer lado". Não serve como desculpa a fotografia a preto e branco, porque quem viu "Schindler's list" sabe muito bem que é bem possível ser original dentro deste formato. A banda sonora é um pouco confusa, algo de estranho num filme quase mudo, onde este pormenor é que guia a história. Certas deixas sonoras têm muito pouco a ver com os momentos em que entram e criam, novamente, uma estranheza desnecessária.
O filme ganha nas interpretações, e penso ser isso que me prendeu a conseguir achar interesse a tudo isto. Jean Dujardin tem um excelente domínio da linguagem corporal, desde a expressão facial, até à própria postura. Estudou os actores da década de 20, mas ainda assim, não imita ninguém realmente: George Valentin é seu, todo cheio de charme e energia e carregando cada nota de sentimento com convicção e clareza. Berenice Bejo, o seu interesse amoroso, não é tão bem sucedida, mas tem ainda assim bons momentos (fica na retina uma cena envolvendo-a mais um casaco e um cabide. É nestes pequenos momentos, fora da homenagem estilística, que o filme descansa e se torna realmente bom a espaços).

Temos, portanto, um filme perfeito para ganhar o Oscar: não maça ninguém, tem sentimento a rodos e presta uma homenagem a Hollywood. Haanavicius, o realizador, soube replicar o melhor do cinema mudo, e esta poderá ser a maior utilidade do filme: levar aqueles que gostaram de vê-lo a descobrir a obras-rimas originais que inspiraram "The artist". Aliás, em muitas delas, vão encontrar um cão tão fofinho, ou mais, do que aquele que acompanha Valentin todo o filme.

Reviews rápidas: "War horse"


Apesar do mito escrito e montado durante as últimas duas décadas, é uma mentira que o cinema de Steven Spielberg seja absolutamente sentimentalão. Não há dúvida que tem uma grande componente emocional, girando normalmente em volta dos mesmos temas (o sentimento de abandono, a fractura da família, a procura de um sonho), mas desde "E.T" que o realizador não faz uma obra que seja desavergonhadamente sincera nas suas intenções de colocar o mais duro dos homens a chorar. A espera acabou: chegou "War horse".

Tentativamente, conta-se a história de um cavalo e das suas aventuras entre humanos, do nascimento à morte. É estabelecida, desde a rimeira cena do filme, a sua ligação a Albert, o filho de uma família de agricultores do norte de Inglaterra, no início da segunda década do século XX. Tempos difíceis obrigam Albert e o cavalo (que é chamado de Joey) a formar uma ligação forte, na luta para ajudar a família composta por um pai alcoólico, coxo e demasiado orgulhoso, e uma mãe que independentemente disto, odeia o marido sem nunca deixar de amá-lo. Mas então, começa a 1ª Guerra Mundial e a família tem de vender o cavalo ao exército para ser usado no conflito. Albert fica inconsolável e promete resgatar Joey do meio do conflito.

Como se vê, a história é uma espécie de cana de açúcar, de onde se pode retirar sacarina à discrição; e é isso que Spielberg faz. Em cada momento que há hipótese de lágrima fácil, a virtuosidade do seu cinema une-se a uma excelente banda sonora de John Williams para nos fazer soluçar como crianças. Em certas alturas, resulta; noutras parece excessivo. A culpa é de um argumento desestruturado, que nos vende uma história entre Albert e Joey, para de súbito mudar tudo e transformar o filme numa sucessão de vinhetas ond o cavalo passa por várias mãos, e criando lições de moral sobre as várias desumanidades da guerra. Nada que Spielberg não tenha feito, com muito mais pinta, na abertura de "Saving private Ryan". O personagem de Albert parece também saído da década de 40 de Hollywood, sem uma única pulsão sexual que o movimente durante toda a trama. Só lhe interessa o cavalo. Mesmo para um realizador que nos deu alguns dos mais emblemáticos símbolos da ingenuidade cinematográfica, é uma pouco forçado. Nota-se que isto intencional, e que há piscares de olhos vários a cineastas dos tempos clássicos de Hollywood (David Lean, John Ford, Frank Capra), mas para um espectador leigo, compreende-se que soe a falso e forçado.

No entanto, o filme faz-nos esquecer isso durante as duas horas e vinte que dura. Como? Com algumas das cenas mais bem filmadas do ano. Steven Spielberg é dos maiores virtuosos da câmara que o cinema já viu, e este filme é, basicamente, money shot atrás de money shot: a entrada de um dos personagens refletida no olho do cavalo; uma transposição de cena encolvendo uma camisola de lã e um campo inglês; uma manada de cavalos num quieto sobressalto após um tiro decisivo. Estar nas mãos de um cineasta com esta imaginação visual é um luxo, para mais quando ele compõe também algumas das cenas do ano. A corrida desenfreada de Joey por entre as trincheiras, numa cena de batalha nocturna, é das melhores coisinhas que vi nos últimos anos.
Conscientemente, as cenas de guerra são filmada de maneira diferente de "Saving private Ryan"; mas como não? Estamos a falar de ua obra que reescreveu o modo de filmar e montar uma cena de guerra contemporânea. Ao invés de câmara de mão, Spielberg opta por planos largos e afastados, sobrevoando o campo de batalha, com uma montagem sóbria e discreta. Não é isso que tira a potência à carnificina, o que é a verdadeira moral do filme: a inutilidade da guerra e a forma como destrói as ligações humanas e o que temos de mais belo no mundo. Tudo visto pelos ohos de um cavalo que, estranhamente, é o nosso ponto de ligação a toda a história. Se antropomorfizar em demasia, o realizador cria uma empatia entre cavalo e espectador que dura todo o filme e nos faz temer por ele como uma personagem humana.

Amigos dos animais vão adorar isto, porque lhes faz esquecr de que cavalos e outros animais são seres irracionais; mas o tom do filme mistura realismo e fábula, nem sempre com equilíbrio, e é por aqui que o filme falha. Todo o virtuosismo técnica é deixado coxo por uma verdadeira dose cavalar sentimentalismo, que embora resulte a espaços, nunca é natural o suficiente para não pensarmos, depois de o filme que acabar, que andaram a brincar às marionetas connosco. Brincaram com muito nível, é certo. Mas ainda assim, brincaram.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Epígrafe tumular


Talvez isto merecesse uma reflexão mais estruturada e profunda; mas não sou Eduardo Lourenço. No entanto, quando leio que ninguém reclamou o corpo do já infame triplo homicida de Beja, não consigo deixar de me lembrar dos sermões de Via Sacra, quando se elogia José de Arimateia por ter requisitado e dado sepultura ao corpo de Jesus. Os padres costumam apelar aos católicos que sejam superiores à indignidade e sigam este exemplo.
Mas lá está, Jesus era mais giro e inspirador do que um idoso macilento e com desequilíbrios psiquiátricos.
Cada sociedade tem o Jesus que merece, se calhar.

(E não, não estou a dizer que o senhor de Beja é Jesus. Malta católica sem senso, desamparem a loja)

domingo, fevereiro 12, 2012

Segredo de estado


Circula à boca pequena que o Governo quer fazer uma pequena alteração levezinha. Em vez de 2012, estamos em 1812, e assim resolvem-se uma série de problemas: o 10 de Junho, o 5 de Outubro e o 25 de Abril vão ao ar. A Alemanha ainda não existe para nos tramar, e como os ingleses vão acabar por tomar conta disto, a culpa da crise nem é nossa. Os governantes andam pelo Brasil, e assim como assim, a economia lá já está a bombar, e o que interessa é o tempo de Verão. Tudo somado, o impacto menor será nas condições de vida de quem ganha menos: fica tudo na mesma. Com os votos contra de PCP e Bloco e abstenção do PS, que tem medo de que a palavra "Socialista" volte a significar "militante de esquerda", é previsível que a alteração passe na Assembleia e receba entusiástica promulgação do nosso presidente, que sonha voltar a uma era de déspotas da classe de um Napoleão ou de um Metterlink.
Na próxima semana então, as alterações entrarão em vigor, e o nosso hino vai mudar para a famosa música de Tachaikovski que toda a gente pensa ter sido composta de propósito para o filme "V de Vingança".

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Piratas da Canavilhas


Penso que, mais do que a crise, a palavra chave deste ano civil será "saque". Isto deve-se ao facto de a máquina política estatal ter, aparentemente, desistido de aprender qualquer competência útil para mudar a situação económica do país. Assim sendo, apostam na tentativa mais básica e facilitista (ou seja, Portugal no seu melhor) de arranjar dinheiro: colocar impostos em tudo o que se mexa. Não interessa que não tenhas dinheiro para ti, pagas-nos e acabou.
O último episódio nesta saga (ou "saca", conforme a perspectiva) surge com a chamada "Lei da Cópia Privada" (LCP), que une o descaramento do assalto à hipocrisia da bandeira imoral. Ora, consta desta lei um aumento sobre todo o tipo de equipamento informático de armazenamento de dados, o que engloba tudo desde discos externos, pens, CD e até telemóveis. O motivo é o combate à pirataria informática, um cancro maligno que prejudica milhares de artistas que ganham milhões e respectivas empresas que os apoiam, que apresentam todos os anos lucros astronómicos.
A LCP é idiota, claro está. Idiota, porque implica assumir a derrota no combate directo à pirataria comercial. É a lógica de "tudo o que arder, queimar". Apanha tudo por tabela, desde o gajo que vende DVD pirata no mercado cigano até ao tipo como eu que guarda no disco externo textos pessoais, fotografias e outros materiais de autoria própria. O PS, proponente desta lei que já vinha do anterior reinado da ministra da Cultura Gabriela Canavilhas, está a chamar-nos a todos ladrões, e partindo desse princípio, age em conformidade. Como resultado, um disco de 1T (1o24 gigas), que até agora custava à volta de 80, 90 euros, passará a custa mais 20,48, ou seja apontado aos 110 euros. Isto porque cada Giga vai passar a ser uma taxa de 2 cêntimos. Portanto, imaginem quanto custará um de 150 de euros...
Esta é uma lei claramente desfasada da realidade, pois afirma a certa altura que os casos particulares de propriedade deste tipo de equipamento não são comportamento padrão. Mas está tudo bem? Quem é que não tem, em casa, uma pen? E há assim tão pouca gente a possuir um disco externo? Pressupondo que quem possui qualquer um destes objetos em casa é um pirata informático de alta estirpe, que rouba por aí e lucra à bruta, enfarda lá esta taxa! Uma estupidez legal de proporções ciclópicas, não só pelo tamanho, mas também porque, tal como o ciclope mítico, revela uma visão muito estreita.
Uma pergunta que deve ser colocada é a do destino deste dinheiro todo. Se supostamente isto é para compensar artistas e companhias pelas perdas devido à partilha de ficheiros, como é distribuído o dinheiro? E a quem? E que percentagem?
Já que estamos numa de perguntas, como distinguir partilha particular de negócio comercial? Emprestar um qualquer ficheiro numa pen não equivale ao mesmo acto correspondente do mundo físico, ou seja, emprestar um livro?

Perguntas que obviamente não foram colocadas e mais uma lei onde o que interessa é ver onde se pode gamar. O enredo, no entretanto, complica-se: Sociedade Portuguesa de Autores lançou no seu site um comunicado onde demonstrava todo o seu apoio a esta lei, nomeando vários artistas e autores como apoiantes da mesma. Mas alguns nem sequer tinham sido ouvidos nessa questão impediram para o seu nome ser retirado dessa lista, como por exemplo António Pinho Vargas. Eis, portanto, a SPA a piratear nomes alheios...


segunda-feira, janeiro 23, 2012

Previsões que só lembram ao careca... dourado


Chega aquela altura do ano em que lanço por aqui, para curiosidade de uns e suspiro aborrecido de outros, as minhas previsões relativamente aos nomeados para os Óscares. Serão anunciados amanhã, mas se quiserem ganhar dinheiro nu site de apostas, não vejam estas, que não quero ser responsável por perderem dinheiro.
Confesso que este ano me vai ser muito mais fácil assistir a todo este fenómeno. Ao contrário do ano passado, o meu investimento emocional será mínimo, visto que, mesmo com o filme de Deus metido ao barulho, as hipóteses de conseguir ganhar são remotas. Ainda assim, vai ser divertido, pois os candidatos deste ano poderão ser o conjunto mais old school dos tempos recentes. Vamos a isso! Deixo-vos as categorias principais, e deixo as técnicas para não melindrar quem me quiser perguntar depois

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

"The adventures of Tintin"
"Rango"
"Puss in boots"
"Cars 2"
"Kung fu Panda 2"

MELHOR DOCUMENTÁRIO

"Pina"
"Paradise Lost 3"
"Project Nim"
"Buck"
"Undefeated"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO"

"A separation" (Irão)
"In darkness" (Polónia)
"Footnote" (Israel)
"Pina" (Alemanha)
"Monsieur Lazhar" (Canada)

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO

"Moneyball"
"The descendants"
"Hugo"
"The help"
"The girl with the dragon tattoo"

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL

"Midnight in Paris"
"The artist"
"Bridesmaids"
"50/50"
"Young adult"

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA

Octavia Spencer, "The help"
Melissa McCarthy, "Bridesmaids"
Berenice Bejo, "The artist"
Jessica Chastain, "The help" (ou "Tree of life"... Não sei porquê...)
Shaileen Woodley, "The descendants"

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO

Christopher Plummer, "Beginners"
Albert Brooks, "Drive"
Jonah Hill, "Moneyball"
Kenneth Branagh, "My week with Marylin"
Nick Nolte, "Warrior"

MELHOR ACTRIZ

Meryl Streep, "The iron lady"
Viola Davis, "The help"
Michelle Williams, "My week with Marylin"
Glenn Close, "Albert Nobbs"
Rooney Mara, "The girl with the dragon tattoo"

MELHOR ACTOR

George Clooney, "The descendants"
Brad Pitt, "Moneyball"
Michael Fassbender, "Shame"
Jean Dujardin, "The artist"
Gary Oldman, "Tinker Taylor Soldier Spy"

MELHOR REALIZADOR

Michel Hazanavicius, "The artist"
Woody Allen, "Midnight in Paris"
Martin Scorsese, "Hugo"
Alexander Payne, "The descendants"
David Fincher, "The girl with the dragon tattoo"

MELHOR FILME (Ninguém sabe ao certo quantos nomeados haverá, eu arrisco estes...)

"The artist"
"The help"
"Hugo"
"The descendants"
"Midnight in Paris"
"The girl with the dragon tattoo"
"Moneyball"
"War horse" ou "Tinker Taylor Soldier Spy"

sábado, janeiro 21, 2012

"The girl with the dragon tattoo"


Fui ganhando fama, durante anos, de ter uma fé inabalável em David Fincher, e nos seus poderes cinematográficos. Ainda antes de ser moda, como o é agora, gostar-se do realizador norte-americano, eu proclama alto e bom som o quão ele era bom. Defendi "Fight club" quando não era popular fazê-lo (quando alguns amigos meus o viram, alguns anos depois da estreia, pareceram saídos de uma filme completamente diferente do que pensavam ter visto) e tem-me acontecido o mesmo com "Zodiac", que começa agora a ser classificado com a excelência que nele detectei. Eo conheço a obra de Fincher seja de que ângulo e direcção for. No entanto, as semanas que antecederam a estreia de "The girl with the dragon tattoo" abanaram um pouco a crença. Embora não o admitisse publicamente, temi esta estranha escolha de projecto. Achei "The social network" o melhor filme de 2011, e numa década em que Fincher começava finalmente a sair de um certo nicho onde queriam entalá-lo, voltar a esse mesmo nicho não me parecia a melhor opção. Seja dita a verdade: não conhecia minimamente esta obra, apenas pormenores superficiais que li por aí.
Depois de ter visto o filme, posso descansar: este é um filme Fincheriano de uma ponta à outra.
A história, despida dos pormenores, é quase de Agatha Christie: um jornalista, Mikael Blomkvist, caído em desgraça, é contratado por um milionário, Henrik Vanger, para investigar o desaparecimento da sua sobrinha Harriet, um mistério com 40 anos. Quando a investigação fica algo entalada, é contratada também uma detective provada chamada Lisbeth Salander, que faz da atitude e vestuário um sonoro "Vão-se foder" para quem queira ouvir, e mesmo para quem não queira. Juntos, investigarão uma trama que envolve, segundo o milionário, um conjunto de matulões, grunhos, sádicos, o mais detestável conjunto de pessoas que ele jamais irá conhecer: a família Vanger.

A partir daqui, a investigação desenrola-se mais ou menos como o previsto, com curvas em ziguezague e revelações e alguns buracos na narrativa expectáveis. Na verdade, o filme é menos sobre este mistério e mais sobre a relação entre as duas personagens, e principalmente sobre Salander. O que tem lógica, visto que o cinema de David Fincher sempre se centrou na ligação que se estabelece entre personagens, havendo sempre uma que mora nas franjas da sociedade. Sejam os binómios Somerset/Mills, em "Se7en", Jack/Tyler Durden em Fight Club" ou Eduardo Saverin/Mark Zuckerberg em "The social network", a obra deste realizador vive disto. Salander e Blokmvist passam metade do filme separados, na sua história particular. Blomkvist investiga o desaparecimento de Harriet, enquanto Salander tem de lidar com um funcionário público, que é o seu tutor no correspondente sueco à nossa Segurança Social, que trata Salander como uma escrava sexual em troca do dinheiro que lhe é devido pelo Estado. Nessa parte, o filme envereda por algumas sequências de violência sexual quase explícita, mas filmadas com gosto e pinta por Fincher, encenando momentos de horror de forma muito estética, nunca lhe retirando o poder. Claro que, quando Salander exerce a sua vingança (e ela surge, nada temam), Fincher podia pô-la a violá-lo com um extintor, que nós aplaudiríamos na mesma.

É quando os dois se unem e partem à aventura que fica claro que num filme onde os homens odeiam as mulheres, na sua maioria, a mulher é a mais capaz e assertiva, em todos os sentidos. Salander podia ser elevada a uma espécie de anjo vingador, mas na maneira como Rooney Mara (excelente) a interpreta, é uma espécie de fantasma, que percorre o filme de pulsão em pulsão, sem nunca se prender. A vida, e tudo o mais, parecem passar-lhe ao lado, e apesar de todas as contrariedades que lhe sabemos, e de outras que apenas podemos pressupor, ela recusa-se a transformar-se numa vítima. Ora, isto já pode ser difícil de engolir para quem imagina qualquer pessoa traumatizada como um destroço humano choramingas. Quererem convencer-nos que uma mulher pode ser tão capaz como um homem... É apenas a cereja no topo do bolo; e no entanto, Fincher, em todas as cenas, faz questão de deixar claro, que Blomkvist é quem necessita de protecção. desta maneira, este é um filme de subversão de expectativas; e querem coisa mais fincheriana do que esta? Não sendo totalmente intencional, é de um humor refinado colocar Daniel Craig, ou senhor James Bond durão, a fazer de um repórter que nunca se dá bem nos seus confrontos, e precisa, até ao final, que uma rapariga o salve de todas as encrencas. Isto para não falar da complexa intimidade sexual que se estabelece entre ambos, e que reforça a ideia de que Salander e os seus desejos não dependem de ninguém: apenas da sua própria vontade. É esta independência, em vários sentidos, que torna esta personagem feminina como algo interessante e fascinante de seguir numa obra de ficção.

Um outro tema que o filme retrata bem são as aparências. Uma das taglines utilizadas para o filme, "O que está escondido pela neve é revelado na relva", é um provérbio sueco que já indiciava isto. A ideia que temos da Suécia como país organizado justo esconde um passado nazi e certas correntes de extrema-direita que estão latentes e bem preparadas para despertar. A casa daquele que se vem a saber ser o responsável pelos crimes é o perfeito retrato de um país Ikea: na superfície, uma cozinha fabulosa, móveis lindíssimos, organização perfeita e confortável; na cave, todos os instrumentos de tortura imagináveis, incluindo um CD de Enya que é posto a tocar na cena mais divertida do filme, num efeito contrário ao que a cena pediria nas mãos de um realizador normal. A Suécia é um personagem presente no filme, desde a arquitectura das suas cidades e espaços, até à própria atmosfera invernal, que escondem sempre algo debaixo da perfeição. O nosso instinto voyeur é chamado ao serviço, tentando entrever por entre a neve e a calma, o próximo jorro de macabro e grotesco.

Já referi a excelência da interpretação de Rooney Mara como Lisbeth Salander, e nunca é demais reforçar isso. Não vi a versão o original sueco, nem li o livro, mas esta Salander convenceu-me como personagem. Uma espécie de fantasma prisioneiro, que compartimentaliza a sua vida numa casa dentro da sua cabeça, e veita ao máximo que os quartos comuniquem entre si. Mara consegue ser um granito não sentimental, sem nunca nos deixar de parecer humano. Os seus olhos não deitam só fogo e enxofre. Há ali também uma qualquer faísca de emoções que se vão desvelando, lentamente, com o passar do tempo, e atingem o seu culminar numa cena final anti-climática, mas bela à sua maneira. Craig também vai bem, embora nunca se consiga desligar do ar durão que lhe associamos, mas a culpa não é dele. O filme tem também um elenco de secundários muito forte(com Plummer a aparecer com muita classe como o patriarca da família Vanger, e Stellan Skarsgard banalmente oleoso, no melhor dos sentidos). A realização de Fincher neste filme é muito segura e calculada, parecendo escolher a atmosfera em detrimento do espalhafato, e tomando as opções certas com intenções ainda mais acertadas. Não será, porventura, o mais seu potente trabalho de realização, mas é um trabalho de certeza e mestria, e que me faz pensar que de filme para filme, Fincher se está a tornar mais seguro. Espero, com isto, que Fincher não vire um Tim Burton do séulo XXI, constantemente a repetir-se, nos seus estilos e tiques. Este filme mostra que não há ninguém que trate a banalidade do mal tão bem como ele. O que quero ver ainda, como apóstolo, é o que Fincher trará a seguir, num patamar novo. Elogiem-se também a segura direcção de fotografia de Jeff Cronenweth e uma banda sonora eerie de Trent Reznor e Atticus Ross, que parecem retirar música do gelo.

Como ponto menos positivo do filme, queria destacar o final, que mesmo bem filmado como tudo, diminui a catarse da história até à potente cena final, subtil, mas certeira. Talvez tenha sido isso que me retirou do filme extremamente satisfeito, mas não maravilhado, como esperaria. No entanto, é um filme que tem crescido em mim, quanto mais penso nele. Isso só pode ser bom.
E nunca mais vou ouvir o tema "Orinoco flow" com os mesmos ouvidos...

sábado, janeiro 14, 2012

Os factos da vida


Quanto mais conheço das pessoas, mais percebo quem prefere dedicar-se a objectos inanimados.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

terça-feira, janeiro 03, 2012

"Tinker tailor soldier spy"


Assistir a filmes com cinéfilos origina sempre piadas quase herméticas. A prova cabal deste facto é verificável quando se assiste ao trailer de "Tinker tailor soldier spy". Ouve-se, à medida que os nomes dos actores vão desfilando, a enumeração de anteriores encarnações: "Um filme com Dracula... Sherlock Holmes... Mr. Darcy... Julio César... Bane... Xerife de Nottingham... O tipo de quem o Alien sai da barriga...". Quando o riso se acaba, surge uma ideia quase adquirida. A de que o elenco deste filme é, assim de caras, a razão mais óbvia para ir vê-lo. O refugo da interpretação britânica não tem lugar aqui.
Esse é, sem dúvida, o maior trunfo de "Tinker tailor soldier spy", um drama de espionagem à antiga, e que, por muito britânico que seja o pedigree, só podia ter sido realizado por um sueco, Tomas Alfredsson (que continua a sua senda de obsessão pelos anos 70, evidenciada por "Let the right one in", um excelente filme de vampiros a evitar por Twilightómanos) vem de uma terra que criou, desde séculos anteriores, uma refinada casta de melancolia que não se encontra em mais algum lado. O filme, que é mais uma deambulação existencial e menos um thriller "whodunnit" de espionagem, deixa-se barrar por este ambiente, e nas suas melhores cenas, é precisamente o tipo de coisas que nos afecta mais pelas coisas que se não se dizem do que pelo que é dito na cara: um olhar, um trejeito, um silêncio. A Guerra é Fria por fora, mas no interior é tudo menos isso.
O romance de John Le Carré é uma reflexão sobre o desgaste que uma vida de enganos pode ter num indivíduo. Habitar num mundo de mentiras e desconfiança é essencial quando é essa a nossa profissão, mas torna a vida fora dessa esfera um deserto imenso. O filme não foge disso, e a pergunta essencial que está no seu centro (e que dá origem ao infeliz título português) remete para a descoberta de uma "toupeira", ou seja, um agente duplo na alta cúpula da espionagem britânica. A tensão criada por toda esta odisseia não é conseguida de forma barata e fácil: o filme arde lentamente em lume brando e a pouco e pouco, vai-nos sobressaltando. Quando a solução desaparece, aliás, parece quase anti-climática (e óbvia, para quem prestou real atenção aos pormenores), porque precisamente não vem embrulhada em grandes flashes. É-nos mostrada com precisão clínica. A mesma que permite que os pequenos espaços de humanidade da história, como uma pequena aventura que o personagem de Tom Hardy vive numa missão, quase como anticorpos estranhos no meio de um tecido de racionalidade. Mas é por isso mesmo que são benvindos.
Penso que a cena que melhor define aquilo que o filme transmite é protagonizada por Gary Oldman e uma cadeira. Oldman, numa interpretação prodigiosa de controlo corporal e emocional, é um centro deste filme, e na cena em questão, abre um pouco do seu mundo a um silencioso subalterno. Conta a história de como conheceu a figura maior da espionagem russa, quase por acidente. Naqueles momentos, em espaços, vemo-lo reviver algo que o agita verdadeiramente e o humaniza. É uma cena de arrasadora subtileza emocional, que representa todo o ambiente do filme. Alfredson tem ao seu dispôr actores enormes, que mesmo em pequenos papéis, dão vida a personagens que ficam connosco. A elegância com que o sueco conduz a acção mostra como ser antiquado não é, em nada um defeito, e de como a espionagem de hoje em dia não tem de ser filmada como se fosse uma corrida de Formula Um. Compreendo que, em pontos, o filme possa ser frustrante para quem é mais apressado; mas os amantes dos pormenores, como eu, retirarão o gozo da segunda e terceira vez que virem o filme.

"Tinker Taylor Soldier Spy" é, portanto, estilo e excelentes performances. Fala da capa da mentira e do quanto ela rouba o mundo em nosso redor, quando vivemos a vida toda nela; e também de como a fidelidade é importante. Não só entre pessoas, mas também a valores de bom cinema que nunca devem morrer.

Nota: 9/10

segunda-feira, janeiro 02, 2012

3 palavras para o meu 2011: Madeira


Quem me rodeia habituou-se a reconhecer palavras-chave que me identificam: cinema, Green Day, televisão, palhaço imenso. São como etiquetas que se colocam e que, num jogo de "seis graus de separação", ermitem que, por exemplo, eu e Natalie Portman estejamos à distância de uma alavra. Ah, Natalie Portman...
Mais um vocáculo entrou na arena desse jogo em 2011, o de uma zona que passou o a ser vilipendiada por tudo quanto é lado e que eu estive numa posição privilegiada para observar. A Madeira entrou no iaginário nacional como um imenso sorvedouro de dinheiros público,s mas no meu 2011, ela estará sempre como, ahm, casa? Estou mesmo a dizer isto? É que nalguns círculos, "Ceira" é outra palavra que se me cola como bandeira erguida em orgulho fervoroso (ou simplesmente piada gostosa).
A Madeira marcou o meu 2011, e a minha vida, talvez. Nunca tinha tido a experiência de morar sozinho, e a primeira vez que o faço, vou para uma ilha, bem longe de tudo o que me é confortável. Sem conhecer ninguém, o que é pormenor a reter. A solidão que passei anos a imaginar na minha cabeça tornava-se forçada e inescapável. Demorou até me reorientar, mas quando o fiz, descobri que aquela ilha reflecti muito daquilo que sou: uma ilha também. Foi o primeiro passo nas pazes que tive de fazer com esse facto, e reconhecer que a minha natureza é ser um solitário.
Madeira foi também uma experiência profissional razoavelmente gratificante, onde trabalhei com miudagem boa, e outra que merecia ser coberta de cal viva, mas não convém referir isto nos relatórios de observação. Alguns ainda me escrevem hoje, a perguntar como estão as coisas, e isto não pode ser necessariamente mau. Madeira fez-me mudar algumas coisas a nível pessoal, na mina relação com os outros. Madeira tornou-se num cofre de coisas que nunca partilharei neste blog, mas que são valores ainda sem cotação bolsista, e ainda bem. Madeira tentou, ao máximo, desprovar a minha crença de que ninguém me curte. Quase o conseguiu.
A Madeira foi, portanto, um palco de mudança, onde muita coisa permaneceu na mesma. Mas um lugar onde ao lado de fanáticos regionalistas, existe muita gente boa que tive o privilégio de conhecer e trabalhar. Um local onde pude contactar com novos extremos da contradição humana, e chocar com realidades que na minha cabeça eram patetas, e passaram a ser... bem, menos patetas, que eu sou de ideias fixas.

Madeira é uma terra a que aplico "obrigado" sem medo de exagerar. Porque o agradecimento constante passou a fazer parte de mim por causa dela.

Mas sempre que tiver oportunidade, vou zurzi-la quando merece!

terça-feira, dezembro 27, 2011

O choque do futuro


Em 1970, o futurista (profissão interessante) Alvin Toffler escreveu um profético livro chamado "Future shock", onde descreve uma sociedade que, em virtude do excesso de informação e de mudança, está condenada a adoptar a transitoriedade e o descartável como regra geral, e perde assim uma sentimento de pertença e de posse que os seus antepassados tiveram por viverem num mundo que funcionava a uma velocidade bem mais modesta. Lembro-me de ter lido livro no meu 12º ano, algo que não estava totalmente preparado para fazer. Ainda assim, ficou-me na memória uma passagem sobre algo tão trivial quanto os pratos de papel, e maneira como, ao usá-los, parecemos acelerar o acto de comer, retirando-lhe o prazer. Toffler fazia crer com isso que o mundo estava a avançar para um estado de uso e abuso, em vez de se dar importância a momentos e objectos. Indirectamente, era a crítica a um lento e progressivo combate ao acto de memoriar.

Ora bem, peço perdão pelo parágrafo reminiscente da minha cadeira de Teoria da História. Vem esta referência a propósito de uma ideia, idiota como quase todas, que me cruzou a cabeça ao ver fotos antigas no meu quarto. Aquelas fotos foram tiradas há mais de vinte anos e mostram-me, em criança, com alguns membros da família. São imagens perfeitamente normais, mas comecei a pensar sobre a importância dada ao acto de tirar fotografia, quando as máquinas fotográficas não eram generalizadas e se utilizavam rolos com um limite de fotos. De cada vez que se carregava no botão, era bom que se tivesse a certeza do que se queria fazer. Cada retrato devia ser uma boa oportunidade para gastar uma foto.
Há uma imagem que me comove sempre que a vejo, e que mostra os meus avós maternos, que perdi na década que passou, a olharem para mim como se fosse o melhor presente de Natal que eles tiveram em muito tempo (lembro que ainda era criança, e quando somos crianças, parecemos automaticamente fofinhos). A foto está tirada precisamente no momento certo, em que o mundo parec parar e a mudança ainda não meteu quinta para um mundo de fotos digitais por dá cá aquela palha. Naquela foto, o mundo parou por momentos, e eu fiquei com um instantâneo que me lembra, anos depois, que a memória não é transitória e faz parte de nós. No momento em que a perdemos, também desaparece o nosso sentido de ser e a pessoa que somos.

E é só isto.