quarta-feira, janeiro 22, 2020

Fachinação 17: A fábrica de milénios


Se pesquisarem no Google por montanhas coloridas, encontrarão centenas de imagens. Uma grande parte delas, no entanto, provém de dois locais em pontos opostos do planeta. Um é Vinicunca, parte central das Montanhas Arco-Íris e principal meca dos turistas que no Peru querem ver esse fenómeno geológico bizarro e quase surreal. Já aqui falei dessas Montanhas, a propósito das minhas crónicas peruanas, embora por felicidade tenha feito a visita a uma zona, Pacallpoyo,  onde as pessoas não põem os pés porque tal implica uma viagem de quase 45 minutos por estradas de terra batida e por locais onde o ser humano não habita: apenas se passeia e faz vida ocasional. Há que contar também com o factor rebanho: para onde os outros vão, o humano habitualmente segue; e a turba de turistas vai a Vinicunca. Tiram muitas fotografias lindas, postam nas suas continhas fazendo beicinho e permanecem na memória digital que domina o mundo. Uns meses mais tarde, cada um de vós pesquisa pela vossa curiosidade e encontra-as. Quando a imagem não é da América do Sul - e recomendo, quem não leu a minha visita a essas coloridas elevações de Pacallpoyo, que o faça, pode comparar com o que lerá nesta "Fachinação" - invariavelmente chega-nos da China. A norte da província de Gansu, a meia hora de Zhangye, localiza-se o Geopark de Danxia, um local que apesar de ficar na região menos habitada de todo o território chinês, é constantemente realçado como um dos mais belos em todo o país. Divide-se em três partes, embora apenas duas delas sejam visitadas regulamente. Tal como as multicolores massas terrestres da Sudamerica, também em Danxia existem montanhas de brilho especial e variado. Foi o que li antes de chegar. Podia estar aborrecido por repetir a experiência, mas a verdade é que este é o tipo de fenómeno que não cansa; e tenho motivos para um orgulho especial: há apenas três lugares no mundo onde este espectáculo existe. Já visitei dois, faltando-me outro no Kansas, EUA. Qualquer dia posso dar uma cátedra sem ter qualquer tipo de formação sobre Geologia. Ou apresentar um programa só sobre montanhas coloridas. Sonhos.


Claro que chego alerta para o dedo turístico que estes locais sempre envolvem. As imagens praticamente todas que são apresentadas aos visitantes, ainda antes que estes ponham os cotos no país, pecam pelo abuso dos efeitos digitais. Filtros de Photoshop e alinhamentos cromáticos carregam e exageram as tonalidades dos minerais e um pouco à maneira das imagens de auroras boreais, criam uma expectativa de espectáculo que raramente se cumpre. Pacallpoyo, por exemplo, é um local extraordinário e de deixar os olhos com água, mas a julgar pelas fotografias promocionais, qualquer um esperaria uma capa de álbum saída do psicadelismo da década de 60, com Jimi Hendrix tocando um solo num gigantesco charro e raios de arco-íris saindo dos olhos de Janis Joplin. No entanto, quando no local, a subtileza é maior e o que conquista o visitante é a envolvência total na cordilheira andina, de maciços rochosos enormes e nevados, que me fizeram sentir como se tivesse encontrado um oásis perdido. A certa altura, esperei dinossauros que nunca chegaram. Uma alienação positiva. As cores regressaram a um aspeto menos excêntrico e extravagante, mais terreno. Ou seja, menos alterado pelo estagiário que nessa semana ficou responsável pela alteração dos folhetos. Daí que, à medida que os carros se aproximavam de Danxia e os meus colegas de viatura trocavam impressões sobre as imagens que haviam procurado online, entre alguma expectativa de fotos capaz de ganhar prémios National Geographic - e ocasionais comentários mais coloridos, mas não necessariamente sobre Geologia - eu aconselhasse prudência. Moderação, acima de tudo. Recordei a minha experiência no Peru e contei, de forma muito mais reduzida, o que escrevi aqui em dois parágrafos. Entre os presentes, o Mário, comendador de Fronteira e Perry Mason da planície alentejana, lapida uma frase que precipita no silêncio curto que antecede uma gargalhada explosiva: "Doutor, veja bem o que diz, que todos nós queremos ver o arco-íris a brilhar: não interessa que um marreta nos revele que afinal é apenas a luz batendo nos pingos de chuva. Não nos roube o sonho".


Milhões de pessoas chegam para ver o sonho. Isso transparece na maneira como o Centro que toma conta desta atracção gere as visitas. Mal compramos os bilhetes, e após um curtíssimo período de espera, indicam-nos até uma plataforma. Aí, mais de dez camionetas já estacionadas abrem as suas portas para os turistas. São camionetas daqueles de cinquenta e tal lugares, o que já me dá uma ideia bem definida do volume de visitantes que este local costuma ter. De outra forma, a organização não se teria prevenido. Com a subida do poder de compra na China, as pessoas podem entregar-se a diversões; e tendo em conta que o horário de trabalho na China ascende regularmente às doze horas e os trabalhadores apenas têm direito a duas folgas por mês - e períodos de férias reduzidos que mal permitem viagens dentro do próprio país, quanto mais o estrangeiro - é normal que os pontos de interesse nacionais tenham prioridade. Por isso, vindos principalmente desta província e das vizinhas, multidões atropelam-se para assistir a todas estas cores e ao vivo. Nunca vi nada assim, não em quantidade de gente (Machu Picchu, por exemplo, bate facilmente este aglomerado em quantidade), mas na lógica maquinal e industrial da tour que nos é proposta. Visitar uma atracção chinesa, seja ela natural e arquitectónica, obedece às mesmas regras e uma delas é a de seguimos o caminho que nos é proposto e pouco mais. Em Portugal, por exemplo, se quiserem visitar, vamos supor, o Covão da Ametade na serra da Estrela, podem chegar a pé ou de carro; por cima ou por baixo; podem simplesmente dar um girinho rápido ou explorar todos os seus recantos. De forma alguma haverá alguém a policiar-vos ou a ditar ordens. Aqui, pelo contrário, há apenas um percurso. Um caminho alcatroado, de uma faixa e sentido, permite às camionetas percorrê-lo. Apenas podemos parar em cinco pontos, predefinidos. Os veículos estacam, o turista sai e vai à sua vida. A camioneta também. Vê, fotografa, faz o pino se assim o entender e depois pode voltar à mesma paragem. Há-de aparecer nova boleia para o próximo ponto. Visitar Danxia é, portanto, como andar de autocarro; e o que há para ver não pode ser mais democrático: velhos ou novos, ágeis ou empenados, todos assistem ao mesmo e dos mesmos locais. Esta é uma das grandes diferenças em relação ao que vivi no Peru, por exemplo, onde a liberdade do espaço contagiava as nossas pernas.


A segunda grande diferença, e isso é óbvio logo na primeira paragem que fazemos, são as cores. Assaltam os olhos de imediato. As matizes são de fogo, amarelos, laranjas, leves encarnados que na rocha habitam. Entrecortando, veios de cor escura atravessam este oceano berrante. Parece algo de mágico, mas não é: este bolo de camadas rochoso é o resultado indirecto da formação dos Himalaias, Quando a grande cordilheira asiática saltou dos confins da Terra, vítima do choque a ilha que hoje é a Índia com a plataforma continental, o impacto foi tão brutal que provocou enormes deslizamentos de terras e fendas em dezenas de quilómetros. Aqui, precipitou a queda e acumulação de vários depósitos minerais, a maioria derivados de arenito, em montes. Os milhões de anos de tempo, tratados a chuva e vento, esculpiram o resto. Não existem arestas nestas pilhas: são arredondadas, lisas e pequenos canais que as atravessam são o resultado das águas que ocasionalmente caem nesta região. Portanto, esta arrebatadora paisagem está aqui desde sempre; no entanto, apenas a partir de 2011 foram criadas acomodações turísticas e desde então que chegam aqui manadas de mirones. Onde me incluo a partir de hoje. É um circo, a bem dizer. Logo na primeira paragem, três camionetas largam a turba em simultâneo, uma massa disforme de verticais gentes troca os seus olhos pelas lentes e põe em cena um espectáculo que me incomoda sempre, principalmente porque sei, no fundo, que faço parte dele. Não de maneira completa, mas contribuindo com o meu quinhão. Sessões fotográficas de telemóvel, biquinhos para a câmara, fotos de grupo. Agora tiro eu, agora tu, agora juntos. Fotografo o topo, o meio, o fundo, o conjunto. Gritos e estrépitos vários, a incapacidade de desfrutar completamente deste espaço. No Peru, sentei-me no chão durante largos minutos contando os picos montanhosos, pensando naquela que me põe o coração como um forno vidreiro, ingerindo em lento banquete todas as nuances de uma beleza que me era tão superior que no meu pequeno tamanho só me restava prostrar. Aqui, uma feira popular toma conta e em vez de carrosséis há carroças motoras. Ao invés de serem puxadas por animais, trazem-nos. Eu sei que estou a ser algo bruto, mas aqueles que me conhece sabem que odeio ajuntamentos. Que procura a solidão dos espaços, a distância das pessoas. No entanto, como podem notar, escolhi a China. Eu sei, é uma tragédia de minha própria autoria. Mas retira-me a capacidade de desaparecer por completo como tanto gosto. Um chinês activa um drone e o zumbido assombra-me, causa-me uma sarna que nem mil patas caninas conseguem coçar. Recorro o que tenho: headphones nos ouvidos, Einaudi a combater esta peste negra com pés e a máquina como método de me inserir sem que ser engolido.


Não sei se seguindo conselhos portugueses, cada ponto é visitável através de um sistema de passadiços de madeira. Porventura, a franchise do Paiva, que se foi estendendo ao restante Portugal tornando trilhos pedestres algo em vias de extinção séria, já terá aqui raízes, numa vingança contra o domínio do investimento chinês. Uma pessoa dá uma curta voltinha por plataformas de madeira, recolhe umas imagens e depois regressa para apanhar novo autocarro até ao próximo ponto. São cinco, o mais imponente, segundo contam, é o quatro. Algumas passagens estão vedadas ao público hoje, inclusive uma que me desperta bastante curiosidade, pois inclui uma ponte himalaia e um ponto final num topo que deve oferecer uma soberba vista. Fica para outro dia então... A segunda paragem tem pouco para ver, mas na terceira, depois de subida uma rampa em curva, temos o apogeu da multidão, onde três plataformas de madeira oferecem igual número de posições de observação e claro, todas devem ser religiosamente cumpridas. Na última, assisto a uma livestream de duas adolescentes que no final me pedem que as fotografe com o telemóvel. Uma delas arranha inglês e pergunta-me de onde sou. Os seus seguidores querem saber quem tirou a foto e é visível que sou estrangeiro. À minha lusa resposta, sou recebido por um "Macau!". É simpático ter nascido num país visto como vilão colonialista e no entanto ser recebido com um sorriso como resposta a isso. Mesmo ao lado, há uma sessão fotográfica profissional envolvendo uma noiva e outra modelo, que o fotógrafo capta à vez. O pano de fundo das montanhas coloridas é, de facto, invejável e nesta zona em particular, com um ponto de vista elevado, ainda mais impressionante. Aqui, juntam-se às cores quentes variações azuis, cobalto talvez, que sobressaem das rochas. A certa altura, o céu nublado abre e os raios de sol incandescem as montanhas. Não é bem fogo, mas é como se o cenário tivesse mudado e depois de mudas, as montanhas pudessem por fim falar na força da forja da sua criação. Todos os veios de minério são visíveis a olho nu nas suas variações e um certo canto de milénios e períodos geológicos ecoa e esmaga por completo toda a maralha que insiste em prestar mais atenção a ecrãs e à sua imagem plasmadas nos mesmos. Ali atrás de si, longe de selfies e chamadas de atenção ao mundo de que existem sim e até fazem coisas porreiras, algo muito mais profundo, comovente ressoa. Sei bem, cinco meses depois, que tema ecoava nos meus ouvidos quando parei simplesmente para assistir à comunhão entre o Sol e a Terra (era a "Ascent", de Einaudi) e são estes momentos que na memória me ficam, mesmo quando tudo conspira para criar em mim amnésia.


A partir daqui, as montanhas ganham espinhaços que a luz solar releva ainda mais. Quase tenho vontade de caminhar até ao quarto ponto e fotografar pelo caminho, mas não tenho tempo. Novamente a motor; e quando chego, multiplico a experiência de multidão por dez. Deve ser, de facto, o local mais recomendado deste tour há longas filas que se rebocam pelos passadiços numa longa volta. Suspiro. Acho que vou tomar o meu tempo por aqui antes de embrulhar com tanta gente. Vejo dois pequenos miradouro, separados por uns cem metros. No primeiro, a vista que se me oferece supera qualquer incómodo que seres humanos me possam causar. É um mar vermelho e laranja, que nas ondas da erosão se estendes por uma longa distância. Distinguem-se com nitidez funda todas as cores e fronteiras entre si. Neste momento, quero descrever e quase não posso, porque é mesmo algo para ser usufruído pela visão em directo e não um tempo depois através de palavras ténues que tentem reflectir algo que claramente não entendem. É um quadro surreal, de paisagens que não podem existir e no entanto, cá estou a eu a guardá-las de várias maneiras. Não há melhor sítio para me entregar ao ritual costumeiro nas minhas viagens. Retiro da mochila a foto do meu pai olhando o mar e aqui, tenho outro tipo de oceano para que ele se entregue, depois de viver uma vez, à contemplação. Procuro um local que não possa ser pisado por gente distraído, mas sobra-me apenas a cerca do passadiço, onde coloco a mochila para apoiar a imagem. Tiro várias versões da foto e na última, acaso incrível, um parapente surge para compor a imagem. Há ocasiões onde até a doença turística pode servir para o Bem. Arrumando a foto, penso se devo fazer algo que me passou pela cabeça. Hesito. Mas faço. Há uns anos, alguém que.. alguém, vamos ficar por aqui, ofereceu-me um calendário perpétuo pendurado num porta-chaves. Uma prenda idiota, sim, mas no genuíno desejo que serviria para marcar todos os nossos encontros. Porque seria eterno. O que nunca é. O que eu sei. E o pior para mim é que não pode mesmo ser e eu insisto eu teimar que algures será. Eu e ela... Somos pessoas de prendas idiotas. Ela ofereceu-me Rennie por rivalidade clubística, eu ofereço Aspergic por ser uma dor de cabeça; ela procura livros velhos em alfarrabistas, eu compro cadernos nos países por onde passo e escrevo-lhe livros exclusivos à mão. É aquele tipo de mão dada sem a qual o mundo treme e soçobra de quando em vez; mas talvez eu esteja a precisar de um terramoto. Essa dúvida tem-me devassado como um lenho nas últimas semanas e este marcador de eternidade chegou até à China para poder cá ficar. Como se pudessemos eliminar alguém cuspindo os fragmentos que nos deixa na boca depois de um beijo. Sei bem que não. Mas na verdade, pouco sei e não sei melhor. Como tal, não tenho coragem de abandonar algo que tem viajado comigo para todo o lado. Ela e o porta-chaves. Pouso-o no mesmo local onde a foto do meu pai esteve e é como se esperasse que uma morte puxasse a outra. Mas percebo que não e que aquela fornalha montanhosa não se compara ao que em mim arde quando penso nela e na angústia de ser um farrapo quando ela me rasga. Arrumo novamente e atiro-me para aquela multidão que sobe as escadas para peregrinar na procissão do umbiguismo. Talvez os seus problemas saltem para os meus sonhos e impeçam que me assombre. A última imagem que guardo é a de uma jovem que se deixa fotografar atirando beijos à paisagem, como se esperançasse que eventualmente crescessem em árvores frondosas que mais tarde viessem consolá-la. Mas sei bem que beijos semeados não serão fruta em mim: quanto muito, caroços.


Regressados a Zhangye depois de uma tensa viagem, alguns decidem voltar para o hotel sem jantar. Já são quase nove da noite e o cansaço acumulado de toda a viagem começa a argumentar mais do que a lógica nas decisões. Alguns de nós, ainda assim, necessitam de algo no estômago. À noite, existe um mercado de rua aberto e visitamo-lo. É um labirinto ordenado de pequenas montras e espaços fechados reduzidos iluminados por laternins que se estendem pendurados em fios por todo o espaço. Imensos cheiros misturam-se no ar e confundem a escolha. Não existe nada em língua que percebamos. Caracteres de mandarim anunciam as opções, mas tudo isto se resume, basicamente, ao aspecto. Fio-me no meu julgamento de que estou a comprar uma espetada de carne e quando a levo à boca, descubro desolado que se trata de tofu condimentado com a força bruta de um martelo pilão, numa mistura de cominhos, açafrão, pimenta e mais uma série de substâncias que se encontravam num prato fundo que vi bem, mas sem identificar. Outros procuram em bancas diferentes e até se encontra marisco frito e peixe besuntado de óleo. Qual é o peixe? Desconhecemos, mas acabo por provar e é agradável, parecido nas textura com a dourada. Para matar aquele ratito, cravo pão, mais algum peixe, oferecido com simpatia por alguns dos meus companheiros de viagem, porventura para agradecer a importante lição aprendida comigo de que trazer latas de atum é algo incontornável quando se viaja. A movida é forte, com um barulho constante e tanta gente que me leva a crer que este é um ponto habitual de paragem nocturna para quem quer comer fora. De facto, a comida é barata e existe um lado de diversão e distracção necessária para quem tem dias de doze horas a trabalhar. Nem tudo na vida são geoparques, os pequenos momentos devaneio disperso são tão bem vindos quanto as longas viagens. Amanhã teremos duas ligações de transporte - comboio e camioneta - para entrar numa nova zona da China, esta mais conhecida dos ocidentais. O Tibete. A manhã será stressante, mas nenhum de nós sabe ainda. Por enquanto, o mundo é isto. Gente à volta de uma mesa rodeada de ainda mais gente em volta de mesas. No meio tudo tudo isto, não penso em calendários perpétuos ou de como amar alguém pode ser tão eterno e permanente quanto montanhas que mudam de cor quando o sol brilha. Eu também mudava de cor nos beijos daquela que me ofereceu perpetuidade, mas com tempo limite. De rosa passava a vermelho e da vermelhidão, desaparecia entre as partículas do tempo, criando montanhas em mim de tudo o que sou de bom e também colorido, arco-íris, engano de luz que passa pelos pingos de chuva e nas auto-estradas do tempo, acaba aqui, na última espinha de peixe que colo na borda do prato antes de voltar ao hotel.








Sem comentários: