domingo, fevereiro 27, 2011

Bola de cristal dourada


É já hoje a cerimónia dos Óscares. Anseio sempre esta noite com um misto de temor e excitaçao Este ano com mais pois temo uma limpeza por parte de um filme que nao a merece. Mas ja la vamos.
Em virtude do teclado coxo que já referi apontarei apenas as minhas previsoes e quem eu acho que mereceria ganhar dentro dos filmes que pude ver. Mais tarde já com a completa capacidade de expressao tecerei consideraçoes sobre aquele que considero ter sido o melhor ano em termos de filmes desta minha curta carreira de dez anos como vidente de Óscares. Vamos a elas!

Melhor curta-documental: "The warriors of Qiugang"
Melhor curta de animaçao: "Day & night"
Melhor curta-metragem: "The confession"
Melhor cançao: "I I rise"- "127 hours"
Melhor caracterizaçao: "The wolfman"
Melhores eeitos visuais: "Inception"
Melhor montagem de som: "Inception"
Melhor mistura sonora: "Inception"
Melhor banda sonora: "The king's speech" - Alexandre Desplat
Melhor direcçao artística: "Inception"
Melhor fotografia: "True rit" - Roger Deakins
Melhor montagem: "The social network"
Melhor argumento original: "The king's speech" - David Seidler
Melhor argumento adaptado: "The social network" - Aaron Sorkin
Melhor filme de animaçao: "Toy story 3"
Melhor documentário: "Exit through the gift shop" (complicada esta... "Inside job" tem iuais hipóteses)
Melhor filme estrangeiro: "In a better world"
Melhor actriz secundária: Hailee Steinfeld "True grit" (Melissa Leo era a minha favorita até há uns dias... Mas quanto mais penso mais acho provável que a miudita anhe o prémio à la "The piano")
Melhor actor secundário: Christian Bale "The fighter" (e merece completamente! Mas se "The king's speech" começar a limpar o Oscar vai para geoffrey Rush)
Melhor actriz: Natalie Portman "Black swan" (qualquer outra será vergonha para a Academia... e e ela já vai passar por algumas hoje)
Melhor actor: Colin firth "The king's speech" (basicamente porque é uma interpretaçao do caraças e toda a ente gosta dele)
Melhor realizador: David fincher (As probabilidades estao a favor de Tom Hooper depois de anhar o DgA mas eu vou ao fundo com este navio)
Melhor filme: "The kin's speech" (qualquer outro será uma surpresa de proporçoes inéditas na Academia)

Algumas das previsoes sao fluidas. Se "The king's speech" anhar os dois primeiros da noite que sao direcçao artistica e fotografia. entao limpa tudo e ninuém escapa vivo!
Quem me quiser fazer companhia a ver logo we will always have facebook.: the social network! :D

A lista muito pouco escura


10 - "The kids are all ri ht"
9 - "True rit"
8 - "Winter's bone"
7 - "The kin's speech"
6 - "The i hter"
5 - "Inception"
4 - "127 hours"
3 - "Toy story 3"
2 - "Black swan"
1 - "The social network"

Mais escreveria, se o meu teclado estivesse decente. Daqui a uns dias, quando resolver este problema, esticar-me-ei. Amanha, as previsoes.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Flash reviews


Já entrámos na semana que conduz aos prémios do careca dourado e embora o lema geral neste jogo (que não é outra coisa que não isso) seja "Ninguém sabe de nada", já se desconfia que "The king's speech" esteja a caminho da glória, naquele que, por muitos motivos estatísticos, poderá ser um ano incrivelmente atípico. Como é típico, este blog será o vosso guia nesta tempestade de previsões e filmes, na qual facilmente um espectador desatento se perde.

Para começar nesta semana, publicarei as reviews dos filmes nomeados para melhor filme. Relembro que dois deles ("Inception" e "The social network") já foram aqui analisados. Os interessados poderão procurar no blog or essas apreciações.


"Black swan"


Um filme sobre ballet não é coisa me atraia a atenção, por norma; mas um psico-drama interpretado por Natalie Portman e realizado por Darren Aronofsky é uma história completamente diferente. Aronofsky é habitualmente um cineasta visceral. Tirando "The fountain" (um objecto mais de esilo e graça), a sua filmografia é preenchida por filmes arrancados de umas quaisquer entranhas (negras, habitualmente). "Black swan" recupera esse lado retorcido de Aronofsky. Numa conversa, alguém comparava o cineasta norte-americano ao canadiano David Cronenberg, e apenas numa coisa tenho de concordar: ambos têm uma obsessão pelos limites do corpo e as suas mutações. Mas enfim, com este paleio, perdi 10 leitores potenciais.

A história gira em torno de Nina Sayers (Natalie Portman(, uma bailarina, controlada pela mãe, que tem como sonho tornar-se na prima-ballerina da Companhia de Bailado de Nova Iorque. O caminho para obter esse estatuto é conseguir o papel principal de uma nova produção de "O lago dos cisnes" que está a ser encenada por Thomas Leroy, um duro, pouco ortodoxo e intenso coréografo da companhia. Tudo isto coincide com a chegada de uma nova bailarina, Lily, que é tudo o que Nina não consegue ser: livre, desinibida e selvagem, o que a torna numa candidata ao papel duplo de Cisne Branco/Cisne Negro que encabeça o referido bailado.

A partir daqui, começam os jogos mentais, e fronteira entre o que é real e fictício esbate-se. Na verdade, qualquer um com tarimba de Lynch e afins estará mais ou menos preparado para o que se segue, mas centrar a avaliação deste filme na sua capacidade de surpreender é redutor perante o seu poder. No misto entre thriller de horror e ballett, o filme consegue nunca cair e juntar o melhor dos dois mundos. Por um lado, temos o pânico existente no rosto de Natalie Portman, seja pelo medo de não alcançar perfeição ou pela ideia de que possa estar a perder o juízo; pelo outro, o poder emotivo e a delicadeza da obra de Tcahikovsky dançada pela mesma Natalie Portman com absoluta intensidade e dedicação, e emoção suficiente para me seduzir a mim, que ligo tanto a bailado como aos actos de procriação dos varanos de Komodo. Por muito que me digam que o filme é o horror, não posso ddeixar de me sentir estranho, pois comigo efectuou um jogo de sedução até ao final. A história é forte, por vezes incomodativa na forma directa como nos coloca no turbilhão emocional de Nina, mas ao mesmo tempo, é impossível não querer ir atrás e assitir a um desastre prestes a acontecer. E quando acontece, e permite a Nina renascer em si mesma para a magnífica cena final, o impacto é imediato e profundo. Saímos da sala com uma sensação de levza que parece impossível vinda de uma obra tão pesada e forte. mas acontece. E essa coisa que não se consegue explicar, é, para mim, o melhor de "Black swan".

A segunda melhor é a melhor interpretação da carreira de Natalie Portman, sem a qual o filme não funcionaria. A actriz que habitualmente apelido de deusa tem de faezr das coisas de incrível dificuldade: ser uma bailarina credível e mergulhar num mundo de neurose e paranóia que não é facil de transmitir; e é absolutamente bem sucedida em ambos os objectivos. A câmara de Aranofsky assalta-a constantemente, de perto, nos momentos mais íntimos (uma cena de masturbação, em particular, ocorre-me) e Portman expõe-se uma maneira como nunca vi. É um trabalho físico notável, um mergulho no lado ngero (o trocadilho não é intencional) desprendido e absoluto. Se ela não ganhar o Oscar, alguma coisa estará errada. Vincent Cassel (um lobo, para recorrer a outra ópera russa) e Mila Kunis (a natureza desamarrada que Nina apenas consegue vislumbrar dentro de si no início do filme) são também destaques nas interpretações do filme. Darren Aronofsky conduz o filme como se espera: por um labirinto, habitualmente de espelhos, omnipresentes e a apontar a desfragmentação da personalidade de Nina. Usando a direcção de fotografia (excelente) de Matthew Libatique, Aronofsky nunca perde de vista o foco da história e não se deixa iludir por tramas paralelas, como a relação de Nina com a mãe, usando-as para realçar a tranformação do cisne branco em cisne negro, reflectindo o próprio bailado em que se inspira. Se há crítica que lhe podemos apontar, é a de se colar, por vezes em demasia, ao modelo que utilizou em "The wrestler", dando por vezes a ideia de estar a ir por caminhos já trilhados.

Mas fora isso, penso que Aronofsky consegue a proezade juntar as suas marcas pessoas e uma narrativa até convencional de uma maneira apelativa. "Black swan" é um filme forte, mas justificadamente. É convencionalmente não convencional, como quase todos o thrillers sobre personalidade, mas consegue juntar ballet e cinema num objecto que desperta paixões, positivas ou negativas; e Natalie Portman merece tudo o que lhe queiram dar.



sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Concurso "Quem é o maior calhau?"

Whoever wins, we lose!

Verso/Reverso

Como é que os dois tipos mais novos desta foto são também os que parecem mais sérios? E eu e pagaria para ver um buddy movie com Bardem, Bridges e Firth.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Odeio as luzes da ribalta

Nunca liguei muito ao meu aspecto. Um rápido olhar pela minha desconjuntada figura chegará para concluir que o tempo dedicado à minha aparência é inferior ao que um pervertido demora a perder a compostura num desfile da Victoria's Secret. Marimbo-me quase por completo para aquilo que visto, muito raramente compro roupa e o meu cabelo já não vê um pente há anos, e em toda a minha existência,viu gel de forma muito espaçada. Qual não foi o meu espanto então quando, há três anos, descubro uma auto-estrada a correr a minha cabeça de um lado ao outro.
A questão inicial nem foi a falta de cabelo. Foi não conseguir perceber o porquê. Que eu me lembrasse, ninguém da minha família tem este tipo de problemas; e honestamente, nunca maltratei o meu manto capilar ao ponto de sofrer uma vingança destas. Mas há coisas que, honestamente, não têm grande explicação. Eu, que sofro dos males do homem civilizado, devia estar à espera disto. Depois dos estados deprimidos ocasionais e da neurose, o princípio de calvície seria o passo mais lógico.
Este problema fez-me concluir outra coisa com que tenho dificuldade em lidar ainda hoje: existe vaidade em mim. Isto deixou-me surpreendido, talvez porque ainda manquejo a resqu+icios da minha pseudo-intelectualidade passada (um intelectual não liga ao aspecto), mas começar a ver a pele da minha careca fez-me concluir que adoro a minha cabeça pejada de tufos de cabelo e que farei tudo o que me for possível para manter esse status quo. Inclusivamente, utilizar produtos de uma marca com nom nome tão catita quanto "Aroma da Terra" (João Saro, a tua mãe deve-me 10 euros de publicidade). Tem-se tornado um ritual polvilhar a minha cabeça com um produto de cheiro estranho após o banho, mas penso que é em nome de um bem maior: o meu cabelo. Claro que pode ser encarado como a definição de vaidoso, mas eu prefiro chamar-lhe defender o meu próprio corpo. Hoje em dia está na moda renomear coisas óbvias.
Por enquanto, o percurso para a desertificação capilar está relativamente controlado. Mas chegará um dia em que perante o meu aspecto, apenas a minha personalidade mágica me salvará. Noutras palavras, just kill me now.

Na Marinha...

segunda-feira, janeiro 24, 2011

The nominees are...


Penso que já há algum tempo que não olhava para uma lista de nomeados para melhor filme que fosse tão incrivelmente consistente e excitante. É um facto que só vi três dos filmes nomeados, mas o mais fraquinho dentre eles, "The town", é um belo filme; logo o nível de qualidade é altíssimo. Este é um ano excitante para o cinema americano, na minha opinião. Tenho que acreditar nisso quando Christopher Nolan, David Fincher e Darren Aronofsky vão disputar o galardão de melhor realizador.
Para não maçar os leitores com um longo discurso introdutório, e uma lista interminável, deixarei apenas as minhas apostas para as principais categorias e estas breves palavras de contexto. Todos os anos há uma ou outra surpresa e tentei precaver isso, mas é sempre difícil acertar a 100%. "The king's speech", o filme britânico de Tom Hooper, deverá sair com mais nomeações, sendo um filme de época, mas atenção a "The social network". Um ano em que Trent Reznor pode disputar o Oscar de melhor banda sonora revela vitalidade e saúde cinematográfica. Esta poderá ser, a nível de envolvimento pessoal, a cerimónia que mais prazer me dará acompanhar desde que vejo religiosamente os Óscares; e nunca pensei ver um ano em que o meu Deus e aquela que foi durante anos a minha Deusa disputam carecas dourados no mesmo ano.

Melhor filme

"The social network"
"The king's speech"
"Inception"
"Toy story 3"
"Black swan"
"The fighter"
"The kids are all right"
"True grit"
"127 hours"
"The town"
Alternativa: "Winter's bone"

Melhor realizador

Davind Fincher, "The social network"
Christopher Nolan, "Inception"
Darren Aronofsky, "Black swan"
Tom Hooper, "The king's speech"
David O. Russel, "The fighter"
Alternativa: Joel e Ethan Coen, "True grit"

Melhor actor

Colin Firth, "The king's speech"
Jesse Eisenberg, "The social network"
James Franco, "127 hours"
Jeff Bridges, "True grit"
Ryan Gosling, "Blue valentine"
Alternativa: Javier Bardem, "Biutiful"

Melhor actriz

Natalie Portman, "Black swan"
Annette Benning, "The kids are all right"
Jennifer Lawrence, "Winter's bone"
Nicole Kidman, "Rabbit hole"
Julianne Moore, "The kids are all right"
Alternativa: Michelle Williams, "Blue valentine"

Melhor actor secundário

Christian Bale, "The fighter"
Geoffrey Rush, "The king's speech"
Mark Ruffalo, "The kids are all right"
Andrew Garfield, "The social network"
Jeremy Renner, "The town"
Alternativa: Pete Postlewhaite, "The town"

Melhor actriz secundária

Melissa Leo, "The fighter"
Amy Adams, "The fighter"
Helena Bonham-Carter, "The king's speech"
Jacki Weaver, "Animal kingdom"
Haille Steinfeld, "True grit"
Alternativa: Mila Kunis, "Black swan"

Melhor documentário

"Inside job"
"Waiting for superman"
"The Tillman story"
"Exit through the gift shop"
"Restrepo"
Alternativa: "Client 9"

Melhor filme estrangeiro

"Biutiful", Mexico
"Confessions", Japão
"In a better world", Dinamarca
"Incendies", Canada
"Tambien la lluvia", Espanha

Melhor filme de animação

"Toy story 3"
"How to train your dragon"
"The ilusionist"

My beautiful new babies


Eleições e funerais


Em primeiro lugar, gostava de felicitar esta transformação das urnas de voto em urnas funerárias dos cartões de cidadão.
Em segundo lugar, num país sujeito ao choque tecnológico, e que será presidido por um robô, a necessidade de algumas pessoas em terem o velho cartão de eleitor para poderem votar é irónica e, num certo ponto de vista, poética. Afinal, falamos do mesmo país que quer ter TGV e não consegue sequer armas linhas de comboio com menos de 100 quilómetros, nem estradas de alcatrão decentes.
Em terceiro lugar, posso sublinhar o facto de que o voto em branco é, afinal, inútil? Temos um problema grave de falta de alternativas, mas também é verdade que o voto em branco só funciona como grito se houver alguém em cujo efeito se verifique. Um ouvido que rebente quando o grito é alto. Mas a classe política portuguesa, parece-me, tem-nos como garantidos. O povo revolta-se, mas só berra. E enquanto assim for, é deixá-los andar, não é?
Em quarto, desde quando é que Cavaco ganhou o direito de se transformar em mártir político? Se há homem que tem feito dos portugueses mártires no últimos 25 anos, esse homem é Cavaco!
Em quinto, era previsível a quantidade de votos do Coelho originário do arquipélago que me acolhe este ano. Quando Portugal é um circo, os palhaços estão sempre em destaque; e toda a gente adora palhaços que colocam os dedos nos olhos de quem manda.
Em sexto, será que estamos condenados a décadas de política profissional?
Em sétimo e último, gostei da pose de estadista de Cavaco no seu discurso de vitória. Conciliador, apelando ao sonho. Retive particularmente o "Chupem, filhos da mãe! Ganhei"

segunda-feira, janeiro 17, 2011

No entretanto, a 50 metros da civilização...

Ideas are bulletproof


Aparentemente, estas serão as primeiras eleições em que não poderei votar desde que me recenseei. Uns dirão "Que interessa isso?". De facto, o que interessa, perante o estado do país e o sentimento generalizado de que a nossa vontade, assim como assim, não é traduzida correctamente pelas figuras saídas das urnas de voto. Preferia votar nos presidentes dos bancos. Assim como assim, são eles quem na realidade dirige o país.
Acho que vivemos numa era de profunda desilusão política. Noto isso nas aulas que dou ao nono ano. Quando falo dos grandes combates políticos do século XX, eles parecem incapazes de perceber porque é que as pessoas se davam ao trabalho de armar guerras e de fazer das coisas uma questão de vida e morte apenas porque derivava de uma ideia. No fundo, não percebem que numa altura da História humana, ideias e política eram sinónimos. Hoje, não há políticos idealistas: há políticos profissionais, que foram educados em ciência política e onde tudo é um jogo. Durante um tempo, Barack Obama gerou entusiasmo pela sua diferença em relação ao molde. Mas o seu choque frontal com o mundo da real politik foi brutal e desgastante, e o seu idealismo foi obrigado a dar lugar ao xadrez e à negociação, onde novas leis só serão aprovadas se convirem ao ego indivudal (de que outro modo explicar que a lei de ajudas médicas aos profissionais que contraíram doenças em virtude do seu trabalho nos destroços do WTC esteja para passar no Senado há quase dez anos?).
No seu último livro "Ill fares the land", Tony Judt, um intelectual historador de intelectuais, chama a atenção de que nós, como cidadãos, estamos a ser engolidos por princípios como a propriedade privada e a propseridade individual que ajudaram a arruinar um estado social que foi vigente durante quase 30 anos e ajudou uma Europa em ruínas a transformar-se num continente renascido e competitivo. Esse welfare state, uma das maiores proezas da história da civilização, surgiu de uma ideia de Milton Keynes e posta em práctica primeiramente por Roosevelt. Uma ideia. A política devia ser um teatri de ideias. No entanto, hoje em dia, é um jogo de autómatos. E eu evito uma piada óbvia acerca de Cavaco Silva.

Uma segunda opinião


As minhas aulas de CEF neste período (e CEF é Curso de Educação e Formação, só para o nosso leitor João Saro) têm sido sobre autoridade. E que melhor maneira do que leccionar este assunto através de filmes, misturando duas das minhas enormes paixões (que são o cinema e a preguiça)?
Foi este o pretexto que me levou a rever "The dark knight". Apesar de ter o filme em DVD, a nossa relação baseou-se na visão que tinha da caixa, pois durante este tempo todo não assisti à opus magna de Christopher, o Nolan. Depois de na última sexta ter partilhado esta potente obra com 90% dos alunos (os restantes dormiam), concluo contente que a minha primeira apreciação não estava errada: "The dark night" é uma das melhores misturas entre arte e espectáculo que o cinema criou, conseguindo ser ao mesmo tempo um muito bem montado filme de acção e um drama político e moral como poucos filmes arty conseguem ser. É eficaz nos propósitos e fá-lo com uma classe e um sentido de entretenimento (no caso, de emoção e também de adrenalina) que me faz comparar Nolan não a Kubrick, como muitas vezes acontece, mas a Spielberg.
Ah, e Ledger é muito, muito grande, mas só nesta segunda visita reparei no quanto Christian Bale e Aaron Eckhardt contribuem para que a mercurial interpretação do malogrado actor pareça ainda mais selvagem e descontrolada. O estoicismo de Batman e a mudança gradual de Dent/Two fae são o que tornam o Joker numa anarquia maior do que a vida; e Ledger entrega-se a esta anarquia e por ela é comido. Não é uma interpretação, é um jogo de faz de conta.
E posso-vos garantir que aqueles alunos acreditaram.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Código Morse

Há quem acredite que a vida é uma espécie de central de telecomunicações que nos envia sinais de ocasião. O objectivo simples é o de nos orientar nas nossas decisões de vida. A minha chegada à Madeira foi marcada por todo um conjunto de incidentes que seriam a minha desgraça se acreditasse nessas parvoíces. Teria, de momento, a certeza de que esta ilha não me quereria aqui, e que, se quisesse, podia enveredar pelo tipo de história que dá origem a 324 comédias românticas iguais.
Mesmo não ligando a sinais, sinto uma ponta de inveja das pessoas que se orientam e conseguem planear a vida com o mínimo de antecipação. Eu sou incapaz de saber o que farei daqui a uma semana, quanto mais colocar em pratos limpos perante mim mesmo onde vou estar daqui a um ano. Não sei, sinceramente, e talvez seja por medo ou por pura incapacidade de ser adulto, mas nunca me ocorre. É por isso que as resoluções de ano novo me fazem confusão. A vida, essa rádio emissora TSF, altera-nos tantas vezes as frequências de emissão que não gosto muito de me aventurar em futurologia.
Exhibit A: tinha planeado chegar à Madeira a uma hora, meter-me no Airbus, chegar a casa e arrumar confortavelmente as minhas coisas no meu quarto. Na realidade, cheguei duas horas depois do previsto, perdi o Airbus, partilhei o táxi com uma completa estranha até ao Funchal e estive a segundos de derrubar a porta do quarto aos pontapés. Há alguém que trabalhe em empresas de comunicações entre os leitores? Façam-me o favor de decifrar isto!

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Drama queen


Acho que não sou só eu que considero Julian Assange, um James Bond de secretária, um drama, ahm, queen (sim, sei que ele é um homem, e duas senhoras suecas poderão garantir que ele não terá grande coisa de "queen"). O indivíduo tem anunciado aos sete ventos que o perseguem, que é um megafone da liberdade e que a principal razão pela qual ele divulga documentos classificados (quão espectacular seria se ele tivesse decidido divulgar estes documentos não na Internet, mas nas próprios "Classificados"?) é pelo prazer que tem em esmagar os poderosos. Nobres motivos e designações, mas será que o que tem sido divulgado é assim tão secreto e bombástico?
A questão dos vôos da CIA é tão há dois anos que dei por mim a bocejar quando se confirmou que países como o nosso tinham dado luz verde aos senhores do outro lado do Atlântico (ou falcões da guerra, na terminologia bloquista). Não é segredo para ninguém que a Europa estendeu uma passadeira para Guantanamo. Quanto às opiniões e relatórios que os embaixadores e analistas fazem de determinadas figuras políticas (onde ouvimos novidades como o facto de o nosso primeiro-ministro ser muito telegénico e de o nosso Presidente da República servir muitas vezes de força de bloqueio ao Governo) parece a secção de fofocas e coscuvilhices de uma revista de sociedade. Na verdade, penso que é mais nesta lógica que se pode encarar a reacção dos governos mundiais: quando alguém descobre o que andamos a dizer nas costas dos outros, a reacção natural é zangarmos, amuarmos, acusarmos e cruzarmos os braços. Ou, como no caso de certo senador republicano, apelidar toda esta situação de "11 de Setembro diplomático".
Se no entretanto vier a público um documento onde se desvenda que Camarate foi orquestrada por sionistas em conluio com extraterrestres e Joaquim Letria, ou eventualmente a descoberta de que, oh céus, foi o capitão Nascimento a alvejar John F. Kennedy, não me parece que Assange se posso vangloriar de ser um mártir ou uma figura perigosa. Mas isso sou eu, que vivo numa ilha onde leaks e Alberto João Jardim têm muito pouco a ver com documentos classificados.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Funchal: uma perspectiva escrita


A cidade do Funchal obedece a um princípio que defendo há muitos: os nossos arquipélagos tinha, quando os Portugueses lá chegaram, gigantescos letreiros em néon que diziam "Território selvagem e impróprio para a a vida! Estais por vossa conta e risco!". Portugueses como somos, cagámos para um aviso claro e decidimos lá meter coisas e coisinhas e coisonas. Com os resultados que se vêem: desastres naturais, jigajogas várias para domar a natureza e também pedofilia em dose dupla. Isto não pode ser coincidência.
Para quem conhece Ceira, o Funchal é o Cabouco, mas maior e com mar ao pé. São ruelas e ruinhas, todas inclinadas, algumas deles meio saídas da selva, e há uma grande rua pelo meio, no caso a Avenida do Mar. Acrescentem uns túneis e umas estradinhas mais largas fora do centro, e têm o Funchal. Uma capital de distrito que faz Coimbra parecer Londres. Olhamos em volta e a nossa cabeça dá um salto geográfico. Vejo-me imediatamente em Bogotá ou Caracas, porque o capacete de nuvens que constantememte ofusca a cidade agarra-se os topos dos Picos madeirenses, verdes, luxuriantes, dando a ilusão que mudámos de continente. Em certa medida, é verdade, pois em proximidade, mais facilmente a Madeira se habilitaria a pertencer à União Africana do que à União Europeia.
Há, no entanto, coisas boas. O mar, para começar. Em dias de sol (que não são raros), pode passera junto à Avenida do Mar e olhar o oceano, com as Três Marias (as ilhas desertas) lá ao fundo ainda é algo de transcendente. Três meses passados. Esta cidade, com duas veias expostas e sempre dispostas a coagular e lançar a confusão, tem um efeito de repulsa sobre o meu instinto, mas ao mesmo tempo, acaba por me confortar ocasionalmente, com pequenos prazeres que eu já tinha esquecido que eram grandes para o meu próprio sentido de prazer. Isto pode ser a Latina América, mas não tem só favelas: há ocasionalmente um Pão de Açúcar para nos consolar a vista. E não, não há aqui um trocadilho maroto escondido. O porquê virá mais tarde.

Avaliações (ou "I believe the children are the future")


Antes de mais, peço reais desculpas por ter vindo a escrever tão pouco neste exílio madeirense. Aparentemente, trabalhar tem dois efeitos secundários: reduz a vontade para certas coisas e provoca cansaço. Por infeliz coincidência, ambos influenciam a produção deste blog. Vou tentar vencê-los e entregar.vis belos nacos de prosa. Ou então vou só tentar vencê-los. É melhor não ser demasiadamente exigente comigo mesmo.

Opinar faz parte do nosso DNA como seres humanos. É um desporto que praticamos com regularidade, e em que basta um pormenor para acontecer grande espectáculo. Avaliar alunos é obedecer ao nosso DNA, mas com a recompensa de um salário. No entanto, parece melhor do que é.
Não gosto muito de avaliar por diversos motivos, sendo que alguns deles são resquícios do meu tempo de aluno revoltado com a injustiça das notas. Atribuir um número ao esforço de um aluno é redutor, ainda mais quando o máximo é a nota cinco. Porque há quatros e quatros, e a distinção não aparece na pauta. Dá vontade de chegar junto de determinado aluno e quase pedir desculpa por lhe dar nota igual a outro que não lhe é igual, mas que, segundos os regulamentos da escola, se lhe equipara. Equilibrismo no seu melhor, e um desporto que acaba por ser radical para a nossa consciência.
No meio desta confusão, uma satisfação: duas notas 5 estão garantidas. Assim, de caras, num primeiro período, e dadas com aquela certeza que, em momentos raros, dá aos professores uma sensação de missão cumprida, por um lado, e por outro de "f***-se, não estragues essa m***a". A menina na foto acima não me tirou 100% nos dois testes por 2% e uma idiotice que me levou quase às lágrimas. Ter uma aluna com este potencial nas mãos assusta-me. Ter mais 5 ou 6 como ela dá-me a volta aos intestinos de uma maneira boa. Sempre disse, e defendo, que é muito mais fácil lidar com maus alunos do que com bons alunos. Ninguém espera nada dos bons alunos. Se eles de repente tirarem boas notas, é lucro para quem ensina. Pegar em bons alunos e levá-los a cumprir todo o potencial que têm... Esse é o desafio, principalmente quando lhes pegamos quando são mais novos (isto soou mais pedófilo do que é realmente). E já sei que comigo, os desafios têm aquela relação difícil. Para meu bem, e para bem do negócio funerário da Madeira, espero que este seja um caso diferente!

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Daqui a uma semana...

É como quem corta e vira... É que é mesmo já ali!

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Filme de fim de semana


Título: "The fall"

Realizador: Tarsem

Elenco: Lee Pace, Catinca Untaru, Justine Wandell

Sinopse: Los Angeles, 1915. Uma criança romena, Alexandria, recupera num hospital, de uma fractura no braço. Aí, conhece Roy, um duplo de cinema que perdeu o uso temporário das pernas. Sob o pretexto de que ela lhe roube morfina, Roy conta-lhe uma história, que a menina visualiza através das sua prodigiosa imaginação.

Review: A última vez que um estúdio deu rédea solta ao talento visual de Tarsem, que se tem exprimido nos últimos anos em vários anúncios e videoclips (como "Losing my religion"), ambos deram ao mundo "A cela", um filme cuja horripilância nem se pode descrever. O estilo barroco do realizador indiano tornou uma história já de si bizarra acerca de serial killers uma coisa horrível.
"The fall" é exactamente o oposto. Sendo um projecto pessoal e que Tarsem financiou com o próprio dinheiro, a obra segue o jeito pessoal que o indiano tem: quanto maior, melhor. No entanto, o contexto de fábula acaba por ser o mais indicado para Tarsem deixar expandir o inegável talento que tem para pintar quadros de imagens em movimentos. Dificilmente encontrarão um filme visualmente fabuloso do que este. Sem efeitos por computador, jura o realizador. E quando virem o filme, percebem que este facto torna tudo ainda mais espantoso. A colaboração do fotógrafo Colin Watkinson é fundamental, e o exagero natural de Tarsem tem o seguimento devido com o guarda-roupa da grande estilista japonesa Eiko Ihsioka, que já tinha dado ao Dracul de Gary Oldman, no filme de Coppola, um look absolutamente excessivo, mas inesquecível. "The fall" tem o tipo de imagens que nos fazem esquecer de respirar por segundos, como se o prazer dos nossos olhos provocasse um qualquer problema nos pulmões.
Esse é, aliás, o ponto forte do filme. É um murro estético poderosíssimo, um objecto rarísimo e que devemos apreciar, pois nos tempos que correm, nenhum estúdio em Hollywood iria financiar um filme deste género, sem actores conhecidos no elenco. É uma das grandes belezas do filme: a cada momento, estamos a apreciar algo de perfeitamente irrepetível. Enquanto assistia a "The fall", sentia-me especial por isso mesmo. Tanto mais que esta obra teve pouca divulgação, e assim, mais especial me sinto por poder desfrutar do poder visual deste filme. Claro que "The fall" nunca consegue caminhar equilibradamente entre olhos e cabeça. O argumento deste filme é desprovido de arcos narrativos de personagens e estrutura, e o balanço entre a fábula que se conta e a vida real está feito de forma atabalhoada. Mas já "Moulin rouge" era assim e não é por isso que o acho um filme menor.
"The fall" é um objecto bizarro, numa história construída a três, entre Alexandria, Roy e nós próprios. Mesmo os problemas de co,unicação entre a menina romana e o duplo norte-americano se reflectem nas nuances da história (por exemplo, entendimento diferente que ambos têm da palavra "indian"). Está cheio de pequenos pormenores fantásticos tiradas engenhosas, que nunca se perdem num todo incoerente. Não sei se isto se deve à habilidade de Tarsem ou à força esmagadora das imagens que cria, mas é um facto que este é dos filmes mais extraordinários feitos no século XXI. Não necessariamente dos melhores, mas aquelas obras que saem fora do normal e que nos sabem dar cinema em grande escala e poderoso sem se armar ao pingarelho.Excessivo, magnificamente belo, raro. É a imaginação de um artista ao serviço do nosso prazer.

P.S: A sequência de créditos de "The fall" é uma curta-metragem à parte, que tem das melhores utilização do Alegretto da 7ª sinfonia de Beethoven que já vi.

sexta-feira, dezembro 03, 2010