terça-feira, junho 19, 2018
Portalegre
A grande digressão do ensino que ocasionalmente vai garantindo que a minha conta bancária não se transforma numa cópia da vitrina de troféus do Benfica trouxe-me em Novembro a Portalegre. A voz grave e agressiva de uma senhora perguntou-me se aceitava deslocar-me ao Agrupamento de Escolas do Bonfim para partilhar o meu conhecimento a nordestinos do Alentejo e eu, que receberia principescamente por isso (ou não... se calhar não), lá fui em procissão até à capital do mais desertificado distrito de Portugal. Tanto amo os grandes espaços quando viajo que as Nornas escandinavas, três anciãs que em Asgard mexiam nos teares que desenham os destinos das pessoas, encaminham a lotaria do concurso nacional de professores para o meio de nenhures. Se Colos era a encarnação literal deste conceito - sempre paradoxal ao nível da Física porque se nenhures é nada não pode ter um meio - , Portalegre é a sua sofisticação cosmopolita.
A cidade atravessa-se a pé de uma ponta à outra numa meia hora e passear no seu centro histórico é uma experiência semelhante à descrita na canção "Sound of silence, de Simon and Garfunkel: rara gente se vê e a que aparece, amiudemente usa bengala. Portalegre é a excepção à ideia que temos acerca de um Interior que luta para não ser esquecido, que faz dos seus problemas um caminho em direcção ao triunfo: é uma cidade acomodada ao marasmo e não se nota um esforço substancial para mudar esse paradigma. Basta passear por qualquer uma das vilas que a rodeia para perceber um outro dinamismo, uma outra vontade. Em Portalegre, há um contentamento pela banalidade e nesse aspecto, não há como não me sentir em casa, pois lembra-me bem a minha Coimbra natal. A diferença é óbvia:pela sua posição e tradição histórica, a cidade funciona em piloto automático, sem que as exigências mínimas de decência sejam beliscadas. Aqui, onde a Beira encontra a planície, há uma tempestade perfeita de inércia que se estende como um bolor.
No entanto, apesar das queixas, há vantagens óbvias, a principal das quais ter reduzido a metade a distância para o que me é familiar. A Escola Mouzinho da Silveira, onde exibi a minha falta de habilidade para ensinar durante um ano lectivo quase inteiro é incomparavelmente maior e mais frenética que qualquer coisa em Colos. Demorei quase um período inteiro a decorar o nome dos meus alunos, o que é compreensível quando se têm oitenta e tal caramelos ao nosso encargo. Quatro turmas, três do Secundário - e uma com duas alunas surdas parciais, um regresso - e uma do sétimo ano para não perder a forma. Lidar com turmas de Secundário é uma experiência com os seus tons de diferente. Existem, como sempre existirão, aquilo que chamo alunos com olhos de tubarão - aquele olhar preto sem pupilas, de quem não tem nadinha na cabeça e nos permite ver a parte de trás do crânio; mas há pérolas, alguma luz nas sombras, cabeças que se erguem quando se fala de geo-política ou arte, quando se conta uma pequena história da História ou se associam conceitos simples que eles nunca sonharam. É o momento da faísca, quando de súbito alguém se apercebe que andar na escola não é totalmente inútil. Ainda que o Ensino não seja uma actividade que me preencha ou estimule por completo, ter a oportunidade de acordar algumas mentes, poucas que sejam, não é um mau serviço.
Não me vejo como um professor que traduz a matéria para a aula. Eu quero lançar barro à parede, abrir horizontes, ver o que cola, dar a conhecer coisas novas ainda que aparentemente nada tenham a ver com História. Todas as semanas, no Secundário, sugeri filmes e séries; preparei-lhes uma lista de Spotify actualizada todas as semanas; falei-lhes do mundo actual; desmontei mitos; usei coisas diferentes para acompanhar matérias, que vão desde Monty Python a Rage against the machine. A escola, para mim, devia ser isto, um local de descoberta. Claro que me obrigam a ser um pisteiro de conteúdos, há aulas que são simplesmente explicações e organização em esquemas daquilo que deve ser estudado. Constato que estes adolescentes estão formatados para isso,sabem que há testes e que haverá algures a obrigação de estudar. No entanto, haver quem me peça empréstimos de livros porque me viu na aula com eles, quem aceite ler Borges gostando, quem gosta de Elliot Smith e o passa na rádio da escola, todos me fazem crer que não é trabalho desperdiçado, que se semeia e se colhe alguma fruta, ainda que a maior parte do pomar permaneça estéril e inerte. Há sempre um outro garoto que nos enche de orgulho e se bem que nunca guardei amigos entre alunos, há sempre um punhado muito reduzido que me faz ter vontade de manter contacto, perceber que não se perdem, que cumprem o destino. É uma das razões pelas quais a minha vida de contratado me chateia tanto. Sinto sempre um dever moral em relação a alunos de qualidade.
Agora que o ano lectivo termina, admito-me que vou ter saudades de um ou outro magarefe. É inevitável. Fui chefe de escuteiros durante anos e aprendemos que as ligações humanas são importantes. Continuam a sê-lo, ainda que os números dominem o Ensino; mas nem tudo é redutível à Matemática: quando, no fim de um ano, há quem te abrace (e já tem nota garantida) e chore, não podem ser equações.
segunda-feira, junho 11, 2018
O dia em que fui à TV
Depois de "Não gosto de ti assim, mas sempre podemos ser amigos" e "O que tu precisas é de sair, apanhar sol. Já experimentaste não estar assim?", a frase que mais devo ter ouvido na vida é "Porque é que não vais àqueles concursos da TV com perguntas?". Anos disto, desde o "Quem quer ser milionário?" até aos de hoje e ainda existe quem me queira convencer a comparecer num determinado programa actual na TVI onde Cristina Ferreira se mostra disposta a colocar no desemprego a sirene dos estaleiros da Lisnave. A ideia é simples: se o rapaz sabe tanto, que ganhe dinheiro com isso e não é de todo descabida. Não sei assim tanto (reconheço que conheço algumas coisas de muita coisa, mas já me cruzei com tanta gente inteligente na vida que ganhei a perfeita noção do meu lugar no grande esquema do mundo), mas já assisti a alguns destes programas e há magarefes que lá põem os pés e a sua cultura geral nem sequer chega para lhes apertar os cordões das sapatilhas. O que vos vou contar é a história de como, um bocadinho aos trambolhões, alguns amigos e conhecidos deram com a minha serena e pouco estética cara nos ecrãs de televisão assim de surpresa.
Inscrevi-me algures em Fevereiro, talvez. É ligar, deixar umas informações e depois alguém da produtora telefona e faz perguntas. Tudo começa assim, simples; sucedem-se depois mais telefonemas e muitas perguntas de cultura geral, o que me fez pensar ainda mais em como vão parar certos indivíduos a este género de programas. A triagem deve ser feita na mesma tômbola em que a minha vida se decide, de certeza. Três semanas depois, marcaram um casting pessoal, mas visto que por estes dias habito em quase permanência a 30 kms da fronteira com Espanha, a SP Produções, que oferta o programa ao mundo, foi simpática o suficiente para marcar uma chamada por Skype. Enviaram antes um questionários de seis páginas, perguntando o meu filme preferido, as viagens que fiz e a celebridade que me faria companhia num interessante jantar (obviamente, escolhi Natalie Portman...). Um tempo passou e nova chamada a confirmar que me seleccionaram e que a emissão estava marcada para dia 29 de Março. Isto não aconteceu assim rápido, mas pareceu, um bocadinho porque me deixei levar pela curiosidade de ir à televisão, que é afinal um desígnio obrigatório de ser português, como por finalmente pode ganhar dinheiro com uma habilidade inútil que tenho desde pequeno - acumular informação espúria num sótão chamado cabeça e usá-la para nada que interesse particularmente ou seja importante. Estão lá, caixotes ocupando espaço e ocasionalmente, em quizzes ou com mulheres que fogem mesmo da norma e acabam por se atrair pelo que é diferente e estranho (this guy), tem algum efeito. Fora isso, serve zero. Até este ano.
Calhou que o dia da gravação aterrasse imediatamente a seguir ao fim do meu trabalho no segundo período. Passei por Lisboa a correr rumo Paço de Arcos, onde ficava o estúdio do programa. A viagem pela linha de Cascais recordou-me outros tempos onde me sentia em casa naquele cenário e apercebo-me que o meu cérebro que acumula conhecimentos também não consegue comprimir memórias ao ponto do sumiço. Enquanto fiz o caminho a pé até ao estúdio, fui ruminando e recordando, mas também limpando um pouco os canais da mente. No estúdio, o concorrente é recebido por uma simpática assistente e conduzido a um camarim apertado, onde dispõe de um sofá e espelho. À minha espera, estavam já uma garrafa de água e um contrato de cedência de imagem. A Filipa esclareceu-me as dúvidas e indicou-me o funcionamento do programa e suas regras. Estudou Comunicação Social, em Coimbra, e tem um fraco por cinema documental, tendo em casa o guião para o seu primeiro filme do género. É o que realmente quer fazer, ali apenas ganha dinheiro. Rimos ambos pela coincidência de eu ser de Coimbra, mas tanta gente estudou lá. Enquanto espero, tento descontrair, lendo "The devil's dictionary", onde Ambrose Bierce traça o retrato de uma certa sociedade americana do século XIX, e entre uma ou outra risada, sinto em mim uma inabalável carga de nervos que estará provavelmente até ao final da gravação. Entre telefonemas e sms das poucas pessoas que sabem, um carinho distante ajuda-me. Sou chamado à maquilhagem. Entre algumas piadas auto-depreciativas que divertem as maquilhadoras, passam-me uma camada de base leve e de seguida sou conduzido ao estúdio, onde me orientam nos pormenores: aqui é onde começa, tem de estar em cima destas marcas. Olha para a câmara, faça uma saudação... um grito de guerra, diga que vai esmagar o seu adversário, diga adeus, qualquer coisa. Mas faça. Lá em casa o público não gosta de ver estátuas. Depois ensinam-me como funcionar com o aparelho de jogo. Testo umas perguntas sobre castelos e praias fluviais e volto ao meu camarim.
Um quarto de hora depois, conduzem-me novamente ao estúdio. O apresentador já por lá está, quer conhecer-me e apesar de nunca ter ido à bola com ele, parece-me simpático, tenta fazer uma piada (algo em que o rapaz não é particularmente bom) e explica-me que vai meter conversa comigo, que tem as informações que enviei no inquérito e que se vai focar no meu amor por viagens, na minha vida profissional e no meu gosto por cinema. Antes que se possa ir embora, peço-lhe que refira a minha verdadeira origem: sou de Ceira, não Coimbra (algo que, como quem viu sabe, ele cumpriu). Chega entretanto o meu adversário, um homem de meia idade com óculos. Aperto-lhe a mão, trocamos uns comentários de circunstância e enquanto ele se instala no palanque, regressou eu à minha posição defronte da câmara. É pequena, não uma daquelas que vêem na televisão. Uma lâmpada vermelha indica quando está ligada ou não, parece um olho electrónico constantemente fixado em mim. Enquanto ali estou parado, tento lembrar-me de tudo o que sei, algo tão evidentemente impossível, mas cujo único motivo é apenas descansar a minha consciência. Penso no que quero fazer com o dinheiro, se ganhar, penso em toda a gente que me apoia, penso na minha família, em toda a estrada da vida, em todos os livros que li em criança, em como tudo aquilo é estranho. Só não penso nos nervos, nem os sinto. O apresentador entra, é aplaudido. Não ouço nada. Mas então a luz vermelha pisca. É a deixa, nem pensei no que devia fazer. Sai-me uma espécie de olá a todos, meio isabelino, e subindo uns pequenos degraus, brilha algo de quente sobre mim, holofotes e uma ovação circular recebe-me. O palanque está ali, a equipa de realização em frente, o apresentador dirige-se-me. Cumprimentamo-nos.
Pedro Fernandes manda uma má piada sobre a minha foto. Esforço que rio, mas sai-me tão pouco natural que é evidente na gravação. No entanto, tudo isto é também uma má piada e de certa forma, o homem acertou na maneira como decidiu começar a minha primeira experiência em TV. Se não pareço nervoso, é porque não estava mesmo. E quando tudo acaba e acumulo zero euros ("Foi quem esteve mais próximo de derrotar o nosso campeão", diz-me o Pedro, e tive pena, porque também sou fã da Natalie Portman e adorava fazer-lhe umas perguntas"), regresso ao camarim e nem penso em nada. Informo a minha claque que tudo correu ao contrário, ninguém acredita .- "Mas como? Tu sabes tanto" - e voltarei à minha vida real. Dois meses depois, o programa passa na televisão e chovem mensagens, telefonemas de pessoas com quem não falo há anos e sou parado nas ruas da minha terra por quem se viu representado por alguém ceirense, "Foste lá dar cara ao pessoal camarada" e sou famoso de curta duração. O ecrã é tão pequeno quanto o tempo da fama, mas em mim, um grande passo foi dado. Os meus alunos viram também e partilharam no Instagram, na primeira aula da semana seguinte fazem-me tantas perguntas sobre tudo e estão também contentes. Todos ganharam alguma coisa, menos eu. De certa forma, é assim que funciona a fama.
quarta-feira, maio 09, 2018
As Ilhas Far Away 18 - Fora das Faroe
Passei quase trinta anos a dormir. Um dia acordei e decidi que conhecer o mundo era mais importante do que deprimi-lo. Foi assim que contra mim elaborei o plano de viajar uma vez por ano. Se a possibilidade surgisse, um continente diferente à vez. Escrevo isto e de imediato me sinto estrangeiro, não no sentido de Camus, mas mais como quem olha para si mesmo e só se reconhece aos repelões. A tomada de decisão ponderada sai um pouco pela janela e isto de viajar sozinho com companhia, de não conhecer ninguém e ainda assim ir, não sou eu, mas passei a ser. Cada pessoa que conhecemos ao longo da vida não nos conhece, mas vêem que somos nessa altura. Os recém-chegados ligam-me ao cosmopolitismo, porque sabem que viajo e vou a locais de nome estranho, mas na verdade, este é apenas um eu actual. Não fui assim a vida toda, perdi muito por não ser assim a vida toda e só agora que acordei os olhos de outros abrem para mim.
Sento-me em Portalegre. A cidade é tão mortiça na animação quanto as Faroé que deixei em Setembro, mas menos verde, menos sozinha, menos convite. Pensei muito naquelas ilhas dinamarquesas cá em baixo, de como cada ponto do Alentejo é de certa forma uma ilha e de como ter visto o isolamento das aldeias e vilas faroesas me faz encarar a planície e a distância encolhendo ombros e percebendo que estar isolado e só é um conceito. Se no Quirguistão aprendi que posso ser várias pessoas numa, que cada um me vê como quer entender o mundo e as pessoas, nas Faroé escrevi em mim que o mundo podemos ser nós e ninguém tem nada a ver com isso. A vida de quem está longe e mesmo assim tem de existir fascinou-me lá no Norte, naquelas casas de silêncio, mas não de vazio. Gente que respira os dias e expira as noites. Para quem a solidão é apenas o que os dias trazem, ou seja, o momento enorme que intermedeia idas e vindas da cama. É estranho como tão longe e numa paisagem tão diferente esse pensamento acaba por me confortar, que as paredes da minha casa não me limitam, mas são simplesmente a fronteira entre o meu espaço e o o resto, de como encarar-me e só a mim na vida não tem de ser um pesadelo como tantos anos pensei. Pode ser só vento, que vai e vem, que ajuda e empurra, mas nunca se vê exactamente, só o resultado.
Não encontrei a famosa felicidade dinamarquesa, mas sim um pequeno consolo, até, e fotos bem catitas. A viagem de regresso não tem que contar, tirando uma nova passagem por uma cidade onde já fui tanto e reduzido a menos que pouco, mas que se cruza sempre, com a inevitabilidade da rotação da Terra, na minha vida. As viagens que fiz desde então trouxeram-me aqui e o que visito senta-se em mim e está lá para que possa abraçar. É um contente conforto do espírito, quando os dias que se encaminham para a ruína parecem ter conserto de súbito e aqueles que estragados se esbatem são apenas o que ficou ontem. Na minha cabeça, penso na próxima, antecipo e sonho com uma nova escapadela e o maior medo é o regresso. Mas o mais importante desde que comecei a viajar foi ter aprendido a voltar. É uma arte. Implica estar de novo na normalidade sem esquecer que fomos excepcionais durante uns dias, mais do que pensávamos, em locais ainda mais excepcionais do que nós. A convivência com esta realidade só se consegue quando percebemos que os locais não ficaram lá, mas voltam connosco. Ainda na semana passada, e juro que é verdade, visitei Gasadalur num intervalo para almoço. Os olhos fecharam-se e o mar juntou-se à terra numa cascata e tudo o mais do dia sumiu. Estava lá, estarei sempre que quiser e a memória é um chicote em nós, mas também constrói camas, como um carpinteiro atento e atencioso que zela pela nossa sanidade.
Nenhum homem é uma ilha, mas ocasionalmente, quando ninguém espreita, sou um arquipélago. Verde, espesso, silencioso, que parece vácuo, mas é núcleo de estrela. Está lá no Norte e orienta-me quando a vida me faz girar. De vez em quando; mas a vida é isso, muitos de vez em quando em roda de mão dada que só terminam quando a roda se desfaz. Mas até lá, a música toca e tenho de dançar. É melhor do que o pior que sempre pensei.
terça-feira, abril 17, 2018
Ilhas Far Away 17: The shape of water - baseado em factos verídicos
"The shape of water" foi o filme que tomou de assalto os Óscares deste ano. Para os mais desinformados, fala-nos da relação tórrida entre uma mulher e um peixe, que Guillermo del Toro embrulha em papel de fábula para que se torne mais facilmente digestível. Gostei muito do filme quando o vi, mas senti-me imediatamente roubado, sentindo que a ideia foi decalcada de uma experiência que tivera meses antes nas Faroe. Também eu fiz amor com um peixe, tórrido e intenso, lento e musical; ou melhor, o peixe é que fez amor comigo. Mais propriamente com a minha boca. Explicar é difícil, roça o complicado, pois apela a sensações que se vivem e se percepcionam com os limites do corpo.
Este romance começou no nosso penúltimo dia nas Faroe. Discutira-se na noite anterior uma noite na capital, dispensando o planeamento de uma refeição caseira na perda de amor a umas coroas dinamarquesas. Nada contra, as coisas são caras por aqui, mas porque não viver como um nórdico por um dia? O Paulo, que já conhecia as ilhas de outras andanças, lançou para a mesa hipóteses. Havia um restaurante de sushi que era muito bom. Os hipsters da gastronomia saltaram logo a terreiro, ansiosos por poder instagramar para a posteridade um um pedaço de nigirizushi. Eu no entanto, e apesar de já me ter aventurado na cozinha japonesa, herança de dois anos de Japonês na faculdade (para quê? Amigos, não se tem uma vida amorosa árida na adolescência só à conta da personalidade), não sinto que alimento nipónico me encha o estômago; para mais, penso, se estou no norte do mundo, que coma alguma coisa no norte do mundo. E o que se digere por aqui? Carne fumada, por exemplo, filhos da fermentação natural do ar salino destas ilhas. Muitos vegetais. Bebidas caseiras, acima de tudo cerveja; e claro, em arquipélagos há peixe com fartura. A segunda sugestão do Paulo ia nesta sentido. No ano anterior, um restaurante servira-lhe um divinal peixe. Carinho, óbvio, não estamos propriamente Caipira, mas valia a pena. Espaço agradável, junto ao porto, típica casa de pescador adaptada a repositório de manjares. Pareceu-me bem, e logo mais alguns também preferiram a aventura de encontrar o Nemo. Bem, não o Nemo, caramba, coitadinho do peixe-palhaço.
Na noite seguinte, vestimos o nosso melhor fato de treino e demos as caras nesse restaurante. Como se adequa a uma história de romance, tomou o nome de uma mulher: Barbara Fish House. Nada de carne, só pratinhos de criaturas marinhas. Desde o início que nos ficou marcado como uma boa escolha, pois fora difícil arranjar mesa. Fomos obrigados a marcar para as seis e meia da tarde, mas como o nosso almoço me fez lembrar aquilo que comia durante as caminhadas nos escuteiros, o meu estômago importou-se muito pouco e até agradeceu o regresso aos horários de refeições medievais. Para refúgio de comensais nórdicos, esta casa da Bárbara tem telhados estranhamente baixos. Eu, que para os padrões destes calmeirões louros estou ao nível do Fernando Mendes e de três quartos de "Os Trapalhões", roçava com a careca no tecto. O interior é de madeira, claro ainda assim, com as mesas que apertam quem passa. É um espaço pequeno, mas bem organizado e decorado, simples luzes colocadas nos pontos certos. Da porta de entrada, vemos a cozinha, tudo transparente para quem chega. Recebe-nos uma jovem loura, bem gira, e o Gil, um dos que nos acompanha, pisca-me o olho e diz: "Olha, mais uma. Elas seguem-te" e o problema é que elas só me seguem, mas nunca me apanham. Talvez tenha mais sorte com o peixe. Chama-se Agda, sorri sempre e conduz-nos a um andar de baixo, vazio. A mesa está encostada a janelas que dão para os barcos atracados e eu aproveito para me sentar num banco corrido almofadado. Ao meu lado, a Maria e a Manuela trocam impressões sobre o local. O menu chega-nos às mãos. Escolhemos entradas e uma sopa de peixe. Como prato principal, peixe, está claro. Todos optamos por algo que em inglês se chama "Marcelo's ocean perch", mas para nossa desilusão, o presidente de todos nós nunca surgiu para uma selfie.
A comida foi chegando. As entradas saíram num voo do prato para as nossas bocas e quando a sopa chegou, eu especulava o que conseguiriam estes ilhéus com coisinhas do mar. Maravilhas, aparentemente, e eu nem sou de comer sopa de peixe. O melhor, no entanto, estava guardado para a sessão de sexo que uma uma perca de amor me reservava. A atracção foi imediata: mal apareceu sobre a mesa, era óbvio que ia comê-la. A galdéria mal escamada também se pôs a jeito, surgindo aberta a meio, de pé para mim. Aqui em Portugal, os peixes são muitos mais conservadores: deitados na sua travessa, aguardam iniciativa, esperam que os viremos antes que a acção se inicie. Este não, vinha pronto e não me fiz rogado. Devorei pedaço a pedaço, faca e garfo como brinquedos sexuais, cada ida à boca um caminho para o orgasmo. Não fazem ideia dos espasmos que me provocou. Nem cheguei a perceber muito bem como foi preparado. Parecia frito, mas nem um pingo de óleo me tocou nos beiços, mesmo a aparência crocante nem era pão ralado, não sei mesmo. A acompanhar, umas batatas a murro pequenas mas substanciais no deleite, regadas com azeite em gel, salsa e algum alho, um pequeno molho adocicado que se aconchega nas bochechas e serve de lençol para o imbróglio sexual em que eu e o peixe nos envolvemos. É triste dizer isso, mas tive menos prazer noutras aventuras. A sociedade fixa-nos tanto no prazer sexual que nos esquecemos de que os nossos sentidos são, por si mesmos, uma fonte de prazer intenso e explosivo, um arrasador sismo de deleite. Pela boca morre o peixe? Mais pela boca o peixe me matou de exultação. Sobraram as espinhas ao vento da nossa saciedade satisfeita. Mas ainda havia a sobremesa, um quente frio de gelado e chocolate aquecido que deu o golpe de misericórdia na resistência de alguém que toda a vida se armou em esquisito com a comida. Séculos depois de terem terminado as suas viagens, os Vikings haviam conquistado uma das mais difíceis batalhas que pode haver no plano humano: a minha resistência à novidade.
Saí do restaurante não de papo cheio, mas de pulmões bem vazios de arfar. Todos vínhamos contentíssimos. A Teresa, esposa do Gil, comentava que não se lembrava de comer um peixe assim e eu não queria ter memória exacta do que acontecera, apenas aquela impressão de arrepio que só as grandes e fugazes paixões nos criam que um qualquer pormenor proustiano nos faz revivê-las. Depois disto, ainda acampámos numa cervejaria onde encontrámos o gang dos niponófilos. A meio da noite, um jovem faroês aborda-me e implora-me que peça a Cristiano Ronaldo que compre aquela ilha. Está bêbado, dá-me umas palmadinhas nas costas e tira um boné que usa (sim, num interior, à noite) e o nosso permanente herói nacional da bola também é de uma ilha, deve perceber que nos podemos apaixonar por um peixe que isso não é estranho. Na volta, aposto que também gostou do premiado filme de Guillermo del Toro que a minha noite de prazer inspirou.
terça-feira, abril 10, 2018
Ilhas Far Away 16: A morte do artista
A resposta mais simples é de que sou parvo. É clara e aceitável para quem me conhece. De uma complexidade maior é a hipótese de que ando mal habituado. Passo a explicar melhor. Paulo, nosso líder de expedição, sugerira no dia anterior uma visita fora do programa. Com tempo a mais e motivação extra, porque não dar uma saltada à ilha de Sandoy? Nunca lá pus os pés, disse ele, e gostava, mas só se concordarmos todos. O vosso Bruno, estando ali tão longe, pensa que está por tudo, embora se recorde vagamente de, quando criança, possuir um estômago mais sensível do que um fã de Tokyo Hotel no pico da puberdade. Pois volta e meia acompanhava o meu pai para o emprego e trabalhar nas Lages, perto de Coimbra, implicava uma deslocação com curvas de grau de dificuldade montanha-russa. Chegava do avesso ao batalhão da GNR e a saga repetia-se sempre que a estrada se torcia. Visitas de estudo eram épicas e cedo fui aprendendo truques para me distrair de tudo isto - fechar olhos, aspirar o ar da viagem até cantorilar qualquer coisa para me distrair da agrura. Certas viagens aterrorizavam-me ainda antes de o carro ter começado a rodar. Com o tempo, fui curtindo o enjôo a um ponto onde este, repassado, se foi tornando em algo de tão esporádico que o julguei desaparecido. Portanto, à sugestão de uma viagem de barco, que é só das situações mais sedutoras para um vómito mor, nem sequer me ocorreu pensar, apenas aceitar, nada ia correr mal.
E havia Sandoy. A viagem até lá foi calma e sem grandes sobressaltos. De entre nós, alguns tremeram, sim, mas uma senhora já com a sua idade e experiência, enfrentava tudo como se estivesse a ler o jornal da manhã num café à sua escolha. Fora capitão de navios nos seus tempos de maior juventude e o elemento marítimo era-lhe tão confortável quanto o chão que todos os dias pisamos. Se tivesse poderes crísticos, aposto até que faria paso doble ali mesmo no mar. E perguntam: valeu a pena a viagem? Bem, Sandoy é dos locais mais deprimentes que já estive. Não é que seja feio ou desagradável, sofre apenas uma elevada dose de inconsciência. Não sei sequer se alguma vez se apercebeu de que existe. Existe apenas uma vila, Sandur, e mais tarde apercebemo-nos que tem zero cafés. Zero. É o mesmo número que existe em toda a ilha. Quem ali vive apanha o barco, como em jovem eu apanhava o autocarro, para se vir divertir a Torshavn. Não há nada para fazer, só ir falecendo de quando em vez, a pouco e pouco, sem grande escolha. O nome significa "Ilha de Areia" e enquanto lá estou, sinto um pouco como se o meu espírito se afundasse nelas movediças, de uma maneira lenta e armadilhada. E o que mais me surpreende é que há gente a viver aqui desde o século XI. Que parvoeira. Houve malta que se meteu em embarcações de casca de noz propositadamente para chegar aqui e dizer "Olha, parece-me bem fixe, acho que fico por aqui". Há terrenos férteis, é certo, mas ainda assim só consigo entender que algo seja aqui cultivado apenas por desprezo.
Talvez a bílis não seja merecida, mas vamos regressar ao início deste relambório. Este vosso caríssimo instalado em pleno trono do Hades. A coisa descreve-se rapidamente: mal a viagem de regresso começou, estava eu na cabine de passageiros a tentar simplesmente colocar-me numa certa ambiência de abstracção total, quando a conhecida sensação de centrifugação abdominal meteu a sua cabecinha de fora... E depois o resto do corpo, pés e tudo. A animação da viagem, afinal, estava guardada para o meu estômago. Cerrei as pálpebras, mas só consegui ver rios de vómitos na minha cabeça e perante isso, cantei para mim vários êxitos de Dino Meira, mas mentira mentira, é gregório que se atira. Recorri ao último recurso, quiçá também por alguma vergonha. No exterior, instalei-me de peito ao vento, literal e aspirei golfadas cada vez maior do ar marítimo. Era capaz de jurar que nesse dia alguém ligou uma máquina de lavar roupa no fundo do oceano e cada onda era causada pelo próprio Hulk a pedir boleia. Não sei se o barco abanava ou se era eu e a certa altura confundi a minha má disposição com a de outras pessoas, como se mentalmente todos os indispostos da viagem, numa manobra de baixa estirpe, tivessem depositado em mim os seus acessos. Era como se todo o mundo estivesse numa viagem de foguetão e eu fosse o foguetão. Foi mais ou menos um bocadinho depois do meio da travessia que me passou pela cabeça que o melhor mesmo seria acabar com a coisa ali. Pensei em cabecear um extintor, mas não me pareceu definitivo o suficiente; vi cordas, mas o mais certo era ficar ainda mais agoniado por ver uma coisa que faz tanta curva defronte de mim; lembrei-me que trazia comigo uma lata de atum, mas era de muito mau tom manchar o navio com o meu sangue. Ainda por cima, de tão ácido que sou, corria o risco de tudo corroer e levar comigo mais umas dezenas de passageiros. Por isso, mesmo que me tenha recusado a engolir em seco, fixei-me e agarrei-me ao mastro. A decisão de me aguentar à bronca era a única que sobrava para manter algum orgulho.
Senti então outra mão na minha. Segurando com força, como que me fixou entre o mastro e eu mesmo. "É normal, mas já passa... Vai correr bem e com os pés no solo, sentes-te outro. Já vi homens que faziam dois de ti a viver isso e com vergonha." E reconheci a voz, era da capitã que, sentindo problemas na embarcação, veio meter mãos ao leme do meu desespero para me guiar a bom porto. O silêncio tomou conta de tudo e nem ouvi nada mais que não fosse o mar e o mundo. Com ritmo certo, a minha respiração tomou conta do corpo e o tempo passou numa corrida de proa. Quando o barco atracou, ainda revolvido por dentro, consegui pelo meu próprio pé voltar ao meu meio natural, o chão que está bem paradinho e não magoa ninguém. Vitória da Marinha Portuguesa. Mais tarde, vim a saber que está nos planos da Dinamarca abrir um túnel até Sandoy, passando por baixo do oceano que me transformou num Matutazo. Só estará pronto em 2021. Filhos da puta.
quarta-feira, março 21, 2018
Ilhas Far Away 15: Gasadalur
Quem me conhece há menos de 5 anos, tem de mim uma ideia meio enviesada e que não será partilhada por aqueles que têm o infortúnio de não se terem acautelado de mim enquanto cresceram. Se estas pessoas se encontrarem à mesa de um café ou no parque ou até num jantar (esta última teria de reunir condições muitos especiais e normalmente só acontece ou quando faço anos ou quando o restaurante é tão bom que toda a gente o conhece), trocando impressões e ideias sobre a experiência quase surreal que é conviver comigo, retratos conflituosos surgirão e alguém será, estou certo, chamado de mentiroso. Há vários aspectos dissonantes e poderia escrever um longuíssimo post acerca deste fantasy brunning, mas o que importa para esta crónica é a ideia que pode haver acerca do meu cosmopolitismo. Os neófitos assegurarão que sou um gajo extremamente viajado e curioso pelo mundo, que ano sim ano sim até me meto em aviões e aterro em locais esquisitos e depois trago fotos para toda a gente me perguntar onde é que é, mas ninguém quer ir na verdade porque são estranhos e longínquos. Ora, se embarco nestes aventuras, por certo serei um corajoso e expedito moço; no entanto, quem acumula mais tempo de serviço na Bruniversidade, desconhece este indivíduo e sempre me associará a 300 medos que me impediram de alargar os meus horizontes e vida na precisa altura onde tal é mais do que necessário. Para eles, imaginar-me no Quirguistão é tão fantasioso quanto pensar que Hogwarts é real, e talvez fossem esses que mais estariam boquiabertos se me vissem em Gasadalur, observando um cenário que deve ser único em todo o mundo.
É único, mas fácil de explicar: há um rochedo absolutamente descomunal, umbicalmente colado a outro rochedo que constitui afinal toda a ilha de Vagar e numa das bordas desse rochedo, talvez aquele que está mais a jeito, um ribeiro furioso decide levar a sua velocidade ao ponto da rebeldia e sem deter a sua marcha fluida, acelera num salto angular para se estatelar no oceano cinzento que lá em baixo clama pelo seu contacto. Gasadalur é apenas e só o palco de um namoro violento entre a água doce e a água salgada, num instante geológico rápido e que se repete de segundo a segundo. Os nossos olhos pensam que tudo é constante mas não: cada salto é seu e separado. A Natureza decidiu saltar em auxílio desta aldeia perdida, e reparem que vos tenho falado de lugares absolutamente entalados nos confins do demónio neste roteiro faroês. Se digo que está perdido, não falo de ânimo leve. Gasadalur deve corresponder à madeirense Curral das Freiras, uma povoação isolada de tudo o que é habitado pelas condições naturais e que se tornou sinónimo de desterro. Um papão habitacional. Rodeada por algumas das montanhas mais altas das Faroé (que ainda assim, relembro, nunca ultrapassam os 800 metros), aterrou num planalto sobre o mar e num arquipélago onde a Pesca é a principal actividade, viu assim condicionada a sua relação com o elemento marítimo. Os pescadores precisavam de trilhar quase quatro quilómetros até à aldeia próxima de Bour, atravessado um dos montes por um trilho que ainda hoje existe e que até 2004 foi a única maneira de sair daqui por via terrestre. 2004. Isto significa que enquanto em Portugal se construíam estádios simbolizando na perfeição a nossa relação com o pragmatismo do mundo real, algures, num ponto que pertencia à civilizada Dinamarca, uma povoação não tinha sequer estradas para automóveis ou veículos motorizados. Tal explica que em 2002, o registo tenha dado apenas 18 pessoas habitando em Gasadalur. Dois anos depois, por fim, algum Alberto João faroês rebentou com um túnel através da rocha e trouxe o alcatrão até este ponto. A ideia é que a população vá crescendo lentamente.
Tal não tem acontecido, mas ainda bem: é da maneira que ninguém estraga o que é bom. Gasadalur até é amigo de quem quer trabalhar: o verde fértil da terra convida ao cultivo, o abrigo natural protege as casas de alguns problemas naturais e deve ser de jóia pode assistir todos os dias ao espectáculo que vos descrevi no parágrafo anterior. Chamam-lhe Mulafossur e é, perdoem-me o vernáculo, uma paisagem filha da puta. No dia em que a visito, temos algum azar com o tempo. Chuva irritante insiste em convencer-nos a recuar, mas à saída dos veículos, quando paramos, as nuvens baixas fazem a barba ao monte imediatamente atrás da aldeia. É de fazer com que as patelas se chamem rótulas novamente à força do uso. Um pequeno trilho conduz a um ponto de observação perfeito e quando espreito no fim desse lamacento caminho, umas escadas de absoluta verticalidade conduzem ao mar lá em baixo. Soube mais tarde que foram construídas por ingleses na 2ª Guerra Mundial e inspiram tanta confiança como uma declaração de Francisco J. Marques numa rede social. Por momentos, aqueles em que esqueço que tenho família e até uma ou outra pessoa que se vai preocupando com o meu bem-estar físico, a ideia de descê-las assalta-me ao ponto de me roubar a carteira de mansinho. No entanto, perante a humidade do solo e o ângulo recto dos degraus, decido que se calhar é melhor ficar-me por aqui. Preparo a máquina e aproveitando tripés alheios, vou tirando fotografias como deve ser. É um deleite de vista, a sério, daquelas que renovam células de pessimismo mesmo que temporariamente. Há luxo que nada tem a ver com o conforto e quanto mais molhada sinto a roupa, mais feliz estou - sinal de que o tempo me pertence e posso gastá-lo a observar aquilo que aqui está desde o início de tudo. Não é cosmopolita nem corajoso: é apenas uma questão de lógica, de ver número digitais numa conta de banco e transformá-lo em palavras virtuais que tentam apanhar algo bem tangível e real.
Conta uma lenda que o nome da aldeia veio de uma mulher chamada Gaesa, que infringiu um jejum religioso e foi assim expulsa do local onde vivia. O desespero levou-a até este vale e aqui recomeçou a vida. Confesso que acho estranho que alguém tenha sido castigado e expulso para o paraíso, mas os mitos têm sempre algo de rocambolesco. Identifico-me com Gaesa. Também eu peco, menos do que devia, menos do que mereço, mas com a plena noção que posso vir a ser expulso do que me é pertença. Gasadalur é esse paradoxo de fazer o indevido e receber de vida muito mais do que pensamos. É um pouco como ir ao fundo e voltar à tona levado em braços pela Beleza. Chove e o cinzento do céu puxa-nos, mas na imagem da máquina, fixo a cascata em trezentos momentos diferentes mas colados num só. Sorrio, e isso é claro como a água.
sexta-feira, março 09, 2018
Os segredos que a Lousã "em serra" guardados
Gosto tanto da serra da Lousã que dou por mim em comichão sempre que vejo uma foto com aqueles baloiços e reclames em madeira que agora espalharam por aí porque ela é muito mais que aquilo. Mesmo não sendo lousanense ou de nunca ter morado colado a este mastronço alto de mil e duzentos metros, é-me essencial e faz parte de mim, do meu crescimento, do que me fiz.
Sei que para muitos, a maior parte, uma serra são pedras e árvores, estradas meio conservadas que a atravessam, alcatrão ou terra, bichos ocasionais, pausa de fim de semana, sombras e nevoeiro, qualquer coisa que inspira aquela foto bacana ou a tirada armada à poesia. Para mim, é lembrança e memória. O escutismo fez parte de mim durante vinte anos e mais de metade deles, tradição do meu agrupamento – 309 Ceira – subi a serra da Lousã a pé por todos os lados possíveis: a partir de Miranda, vindo pela Senhora da Piedade de Tábuas; dos lados do Coentral, seja pela estrada que já foi de alcatrão e hoje é de buracos, ou até por um caminho de terra que passa por um dos segredos mais bem guardados desta montanha, um motel abandonado; seja pela própria Lousã, quer corta-fogo acima e fogo à peça, quer pela Levada de Água apanhando depois via hoje aberta para o Candal (no meu tempo, bem mais fechada); ou pelo Terreiro as Bruxas; ou a clássica Rota do Talasnal.
As minhas pernas cansaram-se em todas elas. Vi veados e javalis, vi até humanos ainda morando nas Casas de Guardas Florestais, dormi nalgumas, acampei junto de outras. A neve envolveu-me, o sol queimou-me, a chuva deu-me vontade de desistir, mas a visão daquelas antenas lá em cima, o Trevim como objectivo, empurrava-me. Vinte anos é muito tempo para conhecer toda esta imensidão de pedra, que percorre seis concelhos entre os distritos de Coimbra e Leiria e parece ter tantas serras diferentes em si: quartzo e xisto, um pouco de calcário, castanheiros e cedros, carvalhos na mistura, Penedos de Góis e o Castelo de Arouce, a Pedra Ferida e as aldeias de xisto, a ribeira do Coentral e a água gelada da Senhora da Piedade, o Cabril do Ceira e o Observatório Astronómico, a Rota dos Moinhos de Água e a Rota dos Baldios… Até tenho de parar para me recuperar de todas estas visões na minha cabeça, do tempo geológico da serra que é tanto e do meu biológico tão curto em comparação. Sempre que aqui venho, aumento a minha vida em anos, sei-o.
Por que é que esta é a minha montanha preferida de todas em Portugal? Ainda que não seja tão alta como a Estrela. Ainda que, reconheça-se, o Gerês é mais largo e vasto e fica melhor em anúncios publicitários. Esta serra é para mim uma passadeira onde desfila uma parte do que fui sendo, e chega-me. É também o local onde regresso em primeiro quando passo muito tempo longe de onde cresci. Não é casa, mas é como se fosse. É colo, é afago, é abraço; e já me faz voar bem alto sem precisar de qualquer baloiço. Tão simples, assim.
quarta-feira, fevereiro 21, 2018
Ilhas Far Away 14: Mar em terra
A Oeste, chamam-lhe Sorvagsvatn; a Este, Leitisvatn. Ambos se referem à proximidade de aldeias, conforme o ponto cardeal que tomamos como referência, mas aos meus ouvidos soa tudo igual; e em vez de ouvir, o que importa é ver. No geral, os faroeses percebem isso e quando se lhe referem, usam simplesmente a palavra "Vatnio", que tem o significado singelo de "o lago". São práticos e percebem que é bem melhor calçar umas sapatilhas e dar uma voltinha nas suas margens do que perder a voz e a sanidade em torno de palavras. Num espaço de 3 quilómetros quadrados e meio, a massa de água deita-se sem qualquer intenção de acordar. As águas mal mexem, ainda que sopre um vento apreciável e conseguimos ver os seus limites. Um termina numa aldeia; o outro desaparece subitamente e funde-se com a linha do horizonte. O motivo simples: devido a uma ilusão de óptica incrível, dá mesmo a ideia que uma das margens do lago tem como parente o oceano. Parece elevar-se centenas de metros e cresce em nós a curiosidade de saber que se saltarmos com força o suficiente, este prato de água treme, inclinando-se para derrubar o seu conteúdo sobre o mar. É o que nos leva a fazer uma curta caminhada que na ida e volta não ultrapassa os oito quilómetros, feito por trilho bem definido e de gravilha, com terra lamacenta pelo meio. Não chove enquanto o fazemos, mas estou certo que aconteceu anteriormente na manhã. A lama está fresca, é recente. Começando em Midvagur, contornamos as ondas das margens com nuvens baixas e um verde luzidio. O silêncio é intenso e nem mesmo as várias ovelhas com que nos cruzamos o quebram. Pastam sem manifestar-se, olhando-nos com uma indiferença quase tão impassível quanto a do lago.
No final do trilho, a terra desce subitamente para o mar. À minha frente, ergue-se uma falésia descomunal, tão nórdica que dói, chamada "Pedra do Escravo". É um ângulo agudo de pedra negra com cabeleira verde que impõe respeito. Ali, ao lado, sou quase nada, uma insignificância. Já estive junto a montanhas bem maiores, mas a sua rudeza e brutidade, a falta de educação de quem se sabe forte e de presença simplesmente incontornável, fixa-me os pés no solo. Escuta-se um barulho seco de mar contra a rocha. Não é imponente, não são trovões: é o quotidiano banal da água que se castiga a si mesma. È negra, reflecte o céu e talvez seja uma profundeza virada ao contrário. O terreno inclina e convida a subir, mas tenho o foco no topo daquele arrogante mastodonte geológico à minha frente. A caminhada não é longa, mas exige esforço súbito pela inclinação do terreno. No topo, posso então ver a cascata que tomba sobre o mar, a Bosdalafossur, e tenho uma surpresa. A altura, afinal, é curta. O lago chega ali e simplesmente descai numa cascata curta. A terra e o mar estão muito mais próximos do que pensava, quase nem há balanço para que a água se lance. É um dos mergulhos mais curtos que já vi, e olhem que já presenciei muitas bombas em piscinas e rios! Ouço então um zumbido mecânico que me distrai e quando olho para trás de mim, vejo um casal que se entretém com um drone. Duas colegas de viagem conversam na outra ponta da falésia e reparo que o rapaz que controla o drone as ouve atentamente. C'os diabos, ele percebe-as. É português!
Precipitação: afinal é brasileiro. Chama-se Kléber (claro que é brasileiro e se chama Kléber) e mora em Miami. A mulher a seu lado é a esposa e estão a percorrer a Europa. As Faroé são a última paragem. E Portugal? Nunca lá esteve. Pensa um pouco e afinal, deve ser o único país europeu que nunca visitou. Colonialismo ressentido ou vingança por nos termos apropriado de Ediberto Lima? A discussão permanece. O almoço morde-me e sentando-me no chão de erva, tomo como companhia a minha fiel lata de atum, que vou tragando enquanto olho as vagas lá em baixo, negras de espuma pálida. O vento sopra, mas meigo e sinto-me confortável, integrado, sinto o mundo também, mas apenas num murmúrio baixo Venho de um país de longa linha de costa, com anzóis espalhados, anzóis que são também cabos e falésias, mas aqui sente-se tudo de maneira diferente: Os Portugueses são um povo de marinheiros, mas os Faroeses são gente que funde terra e mar. Uma espetada mista, vá, mas mais loura e menos queimada. A falésia onde me sento é um daqueles pontos raros onde um meio encontra o outro sem nunca se tornarem completos. Daqui a uns minutos, quando o grupo se tiver ido embora, descerei até ao limite. Estou em pé na linha do horizonte e o que aqui encontro é mais horizonte ainda. As pedras fazem-me balançar os pés no deslize e tomo todas as precauções para não depositar o meu corpo no breu marinho. Não sei que nome tem este lago, o que calha bem porque não consigo perceber onde começar e onde acaba, o que faz parte dele e o que é do mundo, e ali num local indefinido, eu próprio há tanto tempo procurando saber quem sou afinal, ajo como se fosse vapor: invisível, malhadiço. Um suspiro numa cascata que mal existe, o ponto final numa frase que duas aldeias escrevem de maneira diferente
quarta-feira, fevereiro 14, 2018
Ilhas Far Away 13: Tjornuvik
Há ainda assim o cuidado de tudo regular e controlar: os locais escolhidos para estes eventos são restritos e apenas caçadores certificados podem alinhar. Não se torna tudo num massacre indiscriminado e mesmo dentro da barbárie, há algum cuidado em pelo menos introduzir uma ordem. Claro que cada um julgará para si se é o suficiente, e apesar de tudo não me sinto nada confortável em imaginar-me aqui, num local onde acontece tanta morte, e a minha criança presente, que só cresceu em altura mais vive aqui em mim, calca Tjornuvik e não esquece. Mas esta aldeia tem os seus encantos, claro. Situa-se no extremo norte da ilha de Streymoy, aquela onde temos a nossa base de operações. Nesta que é uma das mais antigas povoações do arquipélago, moram 65 pessoas, o que para os padrões faroeses é uma multidão. Todos os dias acordam com uma vista incrível de mar calmo, falésias rodeando as casas e ao fundo, uma ponta da ilha que parece uma rampa de lançamento de parapente. No entanto, sofre dos problemas de isolamento da maior parte dos povoados aqui: Tjornuvik é o fim da estrada, e é bem longa esta. Na pesquisa que fiz antes de vir, cruzei-me com o relato de um casal que fez um trilho de Saksun até aqui, 11 kms debaixo de chuva cacimba, e com toda a esperança de aqui chegados encontrarem algo de semelhante a um táxi. Esperaram uma hora e nada. O desespero apoderou-se de ambos e começaram a tocar a todas as campainhas, para implorar que alguém lhes facultasse um telefone. Felizmente, uma simpática senhora ofereceu-se para levá-los, sem cobrar nada, de volta a Skasun. Um anjo.
Vale a pena vir aqui por duas razões. A primeira é o Stakkur, um brutal e longo promontório daqueles onde imaginamos o farol mais isolado do mundo. Está próximo da costa, lá ao longe, e quando iluminado pelo sol da manhã, envolvido pela neblina marinha das primeiras horas, jura-se mesmo que é um monstro acabadinho de acordar, despertando das águas. Eleva-se aos 166 metros de altura e todos os anos a malta daqui organiza expedições para subi-lo, só naquela. Só porque nada mais têm a fazer. Mais próximo da baía, encontramos "Rising og Kellingin", o que significa "O Gigante e a Bruxa". Refere-se a dois rochedos verticais de estranho formato, que devem o nome a uma lenda local. Falo dos epónimos personagens que vindos de uma grande ilha, tomaram para si a missão de raptar todas as ilhas do arquipélago das Faroé para levá-lo de regresso à sua casa. Com características de trolls, tiveram a sua missão encurtada pelo nascimento do sol enquanto carregavam os ilhéus para os seus sacos: transformaram-se em rocha e ali ficaram até hoje, para que eu, como turista, possa contemplá-los e perceber que se parecem zero com gigantes ou bruxas. Ao menos, o nosso Cabeço da Velha merece bem o nome que tem. Se as alcunhas destes fossem "O Alfa Pendular Lisboa-Porto e Careto de Podence", o efeito era o mesmo, mas a lenda podia ser muito mais brutal e David Lynch adaptá-la-ia ao cinema.
As nuvens estão tão baixas que quase tenho vontade de ser Son Gokou, colocar-me numa e fugir. Antes de nos virmos embora, um pequeno cão mete-se connosco. Parece maior do que é, pois tem camadas e camadas de pêlo. Está sozinho na aldeia, aliás como de costume, tudo está como se habitado por fantasmas. O bicho é extremamente simpático e traz na boca um pau que deixa aos nossos pés. Lançamo-lo, ele busca, devolve-nos. Tudo o que a minha cadela não faz. Um amor, este canídeo, sempre pulando e rebolando, irrequieto mas com graciosidade, desesperado por companhia e brincadeira, tem ar de quem não vê gente há muito tempo, mas está tão treinado que se torna impossível duvidar que algures existe um dono que dele cuida e trata. Não lhe vi nos dentes barbatanas. Talvez não o treinem para tudo, então.
quarta-feira, fevereiro 07, 2018
As Ilhas Far Away 12: Rose, a etíope
Quem me conhece sabe que gosto mais de paisagens do que de gente. Melhor: que aturo melhor cenários de estrondo do que pessoas que só apetece estourar. Por princípio, não tenho nada contra seres humanos; apenas tenho apetites, de quando em vez, de atirar alguns contra algumas superfícies duras. Nada pessoal. Cada um tem a sua forma de lidar com a vida. A minha, infelizmente, é excluída por qualquer código penal. É por isso que viver não é nada fácil. Ainda assim, tenho amigos. Acho, pelo menos. Eles dizem que sim, que são. Vou acreditando, ainda que acreditar, crer ou ter fé não sejam das minhas qualidades mais salientes (excepto para causas perdidas... aí sim, vou ao fundo com uma âncroa atada ao pescoço). Mas quando viajo, e isto nem me incomoda muito, a minha câmara raramente foca pessoas. Quanto muito, são o pormenor num enquadramento que lhes é bem maior, e até do que eu. Como não? Já têm visto algumas da estampas que aqui coloco. Sei que soa estranho, afinal a moldura humana é uma paisagem por si e também eu fico encimesmado quando me cruzo com aquilo que só uma pessoa pode dar. Já aqui mencionei a Sary Tash, a aldeia só de crianças, ou os nómadas de Song Kol ou a empregada de mesa que praticamente chorou por causa de uma gorjeta... Não é que não note ou que não me interessa: apenas o fascínio é diminuto. Mas este capítulo é dedicado aos faroeses, particularmente a uma mulher que nem é bem faroesa, mas que se tornou parte. É a ela que dedico, que me deixou a pensar bastante sobre a vida, e se bem que pensar é o meu pãozinho com sal, poucas vezes alguém específico me puxa isso.
A Rose nasceu na Etiópia há alguns anos, não disse quantos nem precisa. Trabalha num restaurante, mas tem um part-time de catering e está responsável pela casa onde ficámos nas Faroé. Não se dá muito por ela, mas sobressai ali naquele arquipélago distante porque encontramos pele bronzeada quando passamos o dia a ver a palidez cutânea. Antes de falarmos já a tinha visto duas ou três vezes, e o mais estranho é que sorri sempre. Mas não aquele arreganhar de lábios de absoluta falsidade que quer mostrar ao mundo o quanto a realidade nos força a sermos outro. É genuíno mesmo, descontrai-nos até e é doença que nos põe a sorrir também. Há pessoas que conhecem qualquer sobre a existência que nós nem sonhamos ou se sonhámos, não acordámos para ela. A Rose pareceu-me ser uma dessas pessoas. Calhou que, por sugestão desta empreendedora, tenhamos aceite a sua publicidade de lhe encomendar um jantar. Ela faz pizzas, e vocês sabem o quanto gosto de pizzas. No entanto, massa era também uma alternativa, e aí já não engelho. Em casa, todos têm fome, mas falar inglês é que já envolve diversos graus de apetite. Dois intérpretes foram escolhidos para avançar com o destemido líder até casa da Rose, a umas quatro da nossa. Escuro e vento não nos demovem, avançamos. O mar torna-se ainda mais escuro à noite, reparo, ou então sempre foi, se calhar: nós é que lhe encontramos a luz. A mão do Paulo comunica à porta que há visitas. Esperamos um minuto e pouco, escutando barulho vindo do interior. São arrumações, misturadas com o som de uma televisão. A porta afasta-se de nós devagarinho e é a Rose. Sorri, claro. "Come in", e o hall de entrada é a sala. O marido, mais faroês é impossível, senta-se na poltrona a ver o jornal. Não sei se dinamarquês, nós cá também temos a RTP Madeira. Não me consigo recordar do nome, mas a cara ficou-me estampada na memória.
Ela gaba-o: a família do marido é dona da casa há muitas gerações e os seus avós construíram a maior parte das casas da aldeia e também um porto de abrigo que fica mesmo em frente. São, verdadeiramente, os maiores da sua aldeia. Somos levados à cozinha, o seu domínio imperial. Nós queremos discutir ementas e encomendas e a Rose retira ao frigorífico os seus tesouros, ingredientes vegetais que não mais acabam, tem tanto orgulho neles como eu tenho do meu cérebro. Estas são as cenouras, estas as rúculas, aqui estão as alfaces e o mar, lá fora, bate e ondula e também o ouço, mas confundo-o sempre com a voz da Rose. Porque sou idiota, e também porque não tenho vergonha de fazer coisas ridículas apesar de me envergonhar com os passos importantes que devia dar e não dou, quero saber porque é ela gosta tanto de comida; e descobrimos ambos uma mulher que nasceu em África e porque escolheu esta ou aquela pessoa, já andou pelo Iemen e pelos Estados Unidos, com um desvio pelo Canadá. Já teve outra família, agora tem este marido, deixou os seus para trás e só os vê quando as ocasiões se aprontam. È o que a vida lhe deu e não pode fazer muito mais. Não conta tudo, mas pela spalavras que usa, pela maneira como conta, há recantos negros. Que, diga-se, não fazem grande mossa, fala de tudo como se fosse normal. Casou com o marido para poder ser faroesa; e às vezes sente falta do calor, o cinzento daquelas ilhas custou-lhe ao início, mas habituou-se, as pessoas são simpáticas com ela e que pode ela fazer? A vida é isto, e então diz-me algo em que nunca acreditei, nem acredito, mas dos seus lábios soou a versículo incontestável: "O que posso fazer é o Bem. É a única coisa que posso controlar; e se fizer o Bem, tenho a certeza que um Bem igual virá ao meu encontro. É o que a vida me ensina. Andei por muitos locais e sempre tentei ser o melhor que posso e a vida deu-me isto, esta casa quente, alguem que gosta de mim e conheço pessoas, como vocês, de vez em quando. Já viram quão bonito é o mar aqui?"
O pessimista dentro de mim quis rebolar-se a rir, mas foi tão autênctico e honesto,e de certa maneira transparente, que não conseguiu. Acho que fiquei uns segundos fora dali, rebuscando-me. Penso que o Paulo e o Joaquim foram pedindo as coisas e de quando em vez pediam-me uma ajuda com a língua inglesa e eu dava, mas na verdade pensava no que esta mulher tinha dito. Não somos iguais em quase nada e no entanto, na nossa humanidade, também enfrentámos problemas. Mas ela saiu deles como o ferro forjado, nova e mais resistente, e eu mergulho no tumulto apenas para me desenconchavar à vez até que um dia nada mais sobra para amolgar. Queria pedir-lhe os segredo, mas tive vergonha. Lá está, dessa vez tive vergonha, e acabámos por nos vir embora sem que eu soubesse o raio é isso do Bem a atrair o Bem, porque quando o faço, acabo sempre como otário. Quando nos despedimos, acenou jovialmente e fechou-nos a sua casa com calma, devagar, como se não sendo convidados, também não fôssemos estranhos. Enquanto caminhávamos, aquele breu da noite era eu, olho para mim e vejo tanta escuridão e quando passei a vida a procurar respostas na solidão do espaço aberto, no segredo que a montanha sussurra quando a calcamos, esbarrei num ser humano com a atitude mais descompromeitda que encontrei nos últimos anos. Já ouvi muita idiotice do género, acreditem, mas apenas na boca da Rose me soou real. Tão real quanto eu a escrever aqui agora ou vocês a ler ou o amanhã que vai nascer e a Rose acredita ser uma oportunidade e eu creio crescer apenas para mirrar, levando-me com ele. Nesse dia, juro-vos, quis realmente descobrir que botões em mim se carregaram para que me tornasse assim.
Ainda não descobri. Mas foi uma pessoa que me impeliu; e isto é raro. Talvez esteja a gostar mais de gente, talvez me esteja a tornar mais humano. Ou então, a massa que a Rose fez era bem saborosa. Pode ser disso: é pela boca que melhor se conquista alguém, e não tem de ser necessariamente com verdades assertivas.
terça-feira, janeiro 30, 2018
As ilhas Far Away: Saksun seguro
Se escolhesse um local para isso, podia ser este, Saksun. É uma daquelas aldeias sem saída: a estrada aqui acaba e quem quiser seguir só a pé. Ainda antes de chegarmos, tiro uma foto fetiche, estendido no alcatrão e apanhando os meus pés com a recta travessia rodoviária como um tapete. Chove, mas importo-me pouco, sou o único demente que o faz. Se seguirmos o caminho, ainda antes de estacionarmos, saúdam-nos ovelhas que, e juro que não brinco, vestem casacos. Os Faroeses tosquiam os bichos e depois, como quem rouba e tem pena, substituem-lhes a protecção natural contra o frio. Se isto parece surreal, combina bem com o cenário que nos espera. Uma baía seca está lá, no fundo de uns penhascos, apenas com uma amostra de mar. Saksun é um conjunto de casas que a rodeia, um braço de mar dependente dos caprichos das marés, que nega beijos aos pescadores exauridos enquanto não se decide a encher e a dar-lhes passagem segura até aos seus. Nem sempre foi assim: esta abertura é um excelente porto natural e até uma tempestade, em raiva irracional, bloquear a passagem com areia, tudo funcionava bem. Mas a Natureza é essa amante caprichosa. Talvez por redenção, decidiu rodear a baía de cascatas, que em dias de chuva como o de hoje transformam tudo isto num cenário de fábula. Surgem em todos os veios dos montes, caminhos na rocha que a água abriu na paciência dos tempos e caem assim sobre a baía quase seca, como pingos que molham mas não amontoam. A vontade é a de descer por um trilho improvisado e caminhar nas margens de areia, numa praia que só existe durante algumas horas por dia e sentir-me assim parte do fundo do mar, como um tritão. Não há tempo.
Enquadrado no cenário, um cemitério instala-se ao lado de um igreja. Depois da experiência em Vidareidi, os meus sentidos ainda estão despertos para a morte, mas não me sinto com estrutura suficiente para deduzir mais tragédias alheias. Dentro da igreja, funciona um museu, que está fechado e não percebemos muito bem qual é o tema. O edifício, no entanto, tem uma história curiosa. Originou noutra vila, Tjornuvik, mas em 1858, talvez porque Tjornuvik é uma daquelas vilas tão perto do mar que este a considera um quintal privado, foi considerado mais seguro desfazê-la e instalar o edifício noutro ponto, neste caso uma encosta remota e desabitada a mais de dez quilómetros em linha recta. Sem estradas, o material apenas aqui chegou pelo esforço de transporte no topo dos montes e em oblíquas encostas que devem ter desafiado a gravidade das pernas de quem se entregou a esse esforço. Não se percebe bem a razão, os Faroeses devem gostar do isolamento: habitam 14 pessoas em permanência. Mas imagino-me aqui no Inverno, o verde dando lugar ao branco da neve, esta vista incrível para um mar seco, uma baía com humores e os meus olhos cobiçam qualquer uma destas casas de telhado de erva, a madeira que as compõe, o isolamento para a minha lareira, uma estante de leitura à minha espera para deslizar no ócio dos olhos enquanto lá fora os flocos embaciam os vidros da janela e eu sei que o mar me espera e vagueia, que as mulheres aguardam os pescadores, que não estou neste século e no passado tudo era mais difícil, eu sei, mas eu que, tantas vezes temo a solidão, ganho apetite de aqui ficar e assim estar comigo. Os lugares que nunca foram nossos têm este estranho poder de nos tornarem em pessoas que nunca fomos.
Antes de sair de uma Saksun que está fora da realidade, cruzo-me com um oriental que debaixo de um chapéu de abas deixou crescer uma horta grisalha. Quase que vejo vegetais, mas quando os nossos olhos se confrontam, sorrimos por instinto e reparo então que ele é igualzinho ao físico teórico Michiu Kaku. Tira fotos a tudo, claro, e eu não consigo fotografar nada sem me tocar e sem verificar que isto é a minha realidade, que continuo no meu corpo e no meu espaço e que as cordas da minha teoria não me sentaram numa poltrona devorando páginas. A minha realidade é o regresso à nossa casa nas Faroé e já no carro, divago para outros calores e outras lareiras, dentro de mim, dentro de quem fui mais do que uma baía seca. Tambéms se arde bem assim.
terça-feira, janeiro 23, 2018
As ilhas Far Away 10: A morte em Vidareidi
Talvez porque o passado e o encadeamento de acontecimentos sempre me fascinaram, os cemitérios exercem sobre a minha infantil curiosidade e os meus olhos um fascínio e meios que estranho. Nas primeiras visitas ao meu pai depois de morto, dedicava sempre alguns minutos e cirandar pelas campas, imginando que entre as basilares datas de nascimento e morte, principalmente de indicassem um desaparecimento precoce, se esonceria uma história estranha, trágica, famílias deixadas para trás. O meu prazer em ter por fim encontrado a mais antiga morada defunta do cemitério de Ceira foi talvez exagerado para qualquer pessoa comum, mas não para mim, detectivesco na estupidez. No entanto, a necrópole de Ceira tem qualquer coisa de pouco poético e seco, sebes que rodeiam passagens de calçada e embora o enquadramento da paisagem seja até acolhedor, o meu mórbido coração sempre buscou qualquer estímulo mais para dar o passo seguinte na obsessão. Encontrei-o em Vidareidi, uma pequenina aldeia na ponta mais a norte do arquipélago faroês. Um conjunto de casas assoma num istmo rodeado de pequenas montanhas, o mar distende-se até um horizonte longínquo e ali está ela. Hoje temos sorte, as nuvens devem ter pedido uma folga, quiçá sem mais água para nos atirar, e o sol brilha entrecortado. Não está calor, ainda assim. Na paragem para almoçar, alguns incautos saem do carro para comer, mas rapidamente uma ventania capaz de fazer batidos melhor do que uma Bimby alerta que o dia não está para tal.
Vidareidi tem pouco de destaque aparte a sua posição geográfica. Existe, à entrada da povoação, uma divertida e estúpida gincana a fazer por entre canteiros de flores colocados no meio da estrada; mas a vista do promontório é incrível: a água, reflectindo o céu, carrega-se de uma cinza escura de agouro, como se monstros habitassem sem dificuldades os seus domínios numa respiração de noite e quando a luz solar dança no verde dos montes, a erva fustigada pelos sopros do céu, os humores do clima, é como se uma filme de animação acontecesse em tempo real e projecção inegável. Até onde vejo, possuo, e o que não é meu passou a ser neste momento em que, sentado na estrada de alcatrão, fotografo em redor. Nas minhas costas, uma pequena igreja, simples como todas as daqui, contempla a mesma vista que eu e não treme nem abana, pelo menos daquilo que vejo. As minhas pernas levantam-me, mais uns metros e entrei num pequeno cemitério. Está coladinho ao mar, uns vinte passos separam-me do muro que o limita e cai sobre o mar. O número de habitantes é baixo. No século XVII, uma tempestade engoliu o cemitério e levou a maior parte dos caixões consigo. Alguns foram recuperados nas praias das ilhas mais a sul e viajaram de regresso; no entanto, aqui o mais antigo morador data de 1789. Fazendo aqui o mesmo exercício que pratico na minha própria terra, encontro indícios de vidas desfeitas pela morte: os Jansen perdem três filhos em cinco anos, o mais velho com três de idade e uma pessoa só pode imaginar como naqueles tempos de escuridão e isolamento dignos da filmografia Bergmaniana os pais de podem ter sentido. As campas são simples, muito, o que existe de mais elaborado crava enferrujadas cruzes de ferro para se dar como presente. Não conheço estas pessoas, e muitos menos as suas dores, mas não tenho como não sentir qualquer coisa por quem morreu há mais de duzentos anos. Não sei se é pena, talvez nem seja empatia, mas em momentos breves sinto a morte de filhos meus que ainda não nasceram. Tem algo de desolador e de catártico e até de sentimental, mas pafraseando Saramago, de quem nem gosto por aí além, é intermitente quanto a morte.
Sinto alguma satisfação, no meio de tudo o mais e quando chega a altura de vir embora, já os meus colegas de viagem trataram das suas curiosidade, volto novamente o olhar para as ondas que nos têm acompanhado todos os dias, mas ali, batido por qualquer coisa de também violento, sinto que não estou de fora a espereitar, mas sou parte de tudo aquilo, mais um dos caixões que não foram recuperados e recordo o meu pai, recordo um pouco de morte, mas venho à tona puxado pela memória de pessoas que me tornam muito mais do que julgei sentir ou ser. Acho que é por isso que gosto de visitar cemitérios: por muito mais morte que contenham ou que a dor seja antecâmara de desolação, o momento em que atravessamos o portão para sair e a vitória da nossa existência enquanto a hora final também não toca para cada um de nós. È sinal de sair e viver, de abraçar e beijar, de afirmar que se as emoções nos fazem, a pele nos requinta e tudo o mais entre o útero e a cova é o que devemos a nós mesmos. Ou qualquer coisa do género. O que me lembro mesmo é de me ter metido num carro para visitar Saksun.
segunda-feira, janeiro 08, 2018
As ilhas Far Away 9: Kunoy
Há duas grandes certezas naturais no território Faroé: o mar nunca está muito longe de nós e no dia em que a dança das sementes polinizou todos os belos território deste mundo, as árvores chegaram a estas ilhas, suspiraram um "não" colectivo e ramificaram noutras freguesias. Não existe, em nenhuma ilha, qualquer floresta nativa. Quando os Vikings aqui se instalaram, dando-lhes o desejo de madeira, o melhor que tinham a fazer era trazê-la consigo da Escandinávia continental. Por isso, a única floresta da ilha foi plantada por um senhor que, fartinho do verde rasteiro, decidiu criar levar demasiado a sério aquela ideia de que plantar uma árvore faz de nós seres humanos mais completos. É um dos pontos de interesse da pequena vila de Kunoy, situada na ilha com o mesmo nome. Pequenina, com a já familiar arquitectura quintal de relvado, torna-se acolhedora com um passeio na rua. Kunoy é pequena, quase ridiculamente pequena mesmo para os padrões faroeses. É o principal centro habitacional da ilha, mas tem apenas 64 habitantes, naquilo que alguns designariam "paraíso na Terra", principalmente se forem seguidores de Sartre. Kunoy traduz-se por "ilha da mulher", nem sei bem porquê. Quero acreditar que tem a ver com uma história que li algures, de que em 1913 uma aldeia vizinha perdeu praticamente toda a sua população masculina quando sete homens morreram num acidente de pesca. Sobraram um velhote de 70 anos e uma criança de 14. O resto eram mulheres. Uma aldeia só de mulheres. O sonho de alguns movimentos feministas, certo? Pois as mulheres devem-se ter fartado umas das outras: passado seis anos, pegaram nas suas trouxas e mudaram de morada, para outro local ali perto. Os Faroeses devem habituar-se à solidão de séculos, mas há solidões e solidões, e quando o mar ruge e feroz bate nas rochas, nas ervas, na têmpora, há frios mais crus do que o gelo e a neve polares.
Um passatempo popular em Kunoy é o alpinismo: esta é a ilha de maior altitude do arquipélago, e estas impressionantes montanhas só espantam que acho que 800 e tal metros são coisa de estalo. No ano passado, descansei a coluna na base de um monstro de sete milenas. O que me impressiona não é altitude, mas a violência do recorte rochoso, a sedosa caminhada das nuvens que lambem os socalcos quase punhais destes montes; e a permanência sempre monótona até que nos encanta de um verde húmido, fresco. Hoje está vento, mas olho os montes a partir do centro da aldeia. Não são altos, mas encantam e sei que, inevitavelmente, me aproximarei. Mas por agora, sou coscuvilheiro, cada casa tem janelas do tamanho dos olhos de personagens de anime. É impossível desviar o olhar e vão ficando pormenores - bules azuis, flores crescendo dentro de sapatos, espanta-espíritos brancos, a possibilidade de ver o mar através do interior de uma casa, como se a realidade se multiplicasse e eu vivesse no interior e no exterior em simultâneo. Há habitações sólida,s outras parecem desfazer-se a qualquer altura quando o vento despeja mais forte. Existe uma só estrada a atravessar a aldeia e caminho-a, estando de for,a imaginando o interior de todas as casas. Existe um pequeno carreiro que vai dar ao mar. Avanço e passo por um casebre de madeira húmida. escura, onde estão pendurados pedaços de baleia a salgar. Lá dentro, instrumentos de pesca baralham-se e misturam-se. Mas sigo para o mar. A areia é cinzenta e negra muito fina. A água salgada envolve-me as mãos e não está frio, não me congela o sangue. É tépida e penso como o Pólo Norte está tão perto e já mergulhei em águas mais frias a norte do Douro. Deixei para trás a marca dos meus passos, mas já lá não estou. É como se um fantasma me acompanhasse e não penso que sejam de um morto. Na minha cabeça, alguém que vive noutro ponto está comigo e nem veio de viagem, mas é como se aqueles passos lhe pertencessem, que também tem os pés grandes. O mar marulha quando olho para trás e imagino quem não está mas permanece. Do outro lado, a ilha de Boroy testemunha e deve perguntar-se, porventura, se a minha sanidade mental alguma vez teve lugar no meu corpo.
Os montes que tanto me interessaram estão defronte de mim. Aquela neblina que cobre o granito quase lhes dá mais uns cem metros. Cinquenta, vá lá. Criam um anfiteatro natural onde as ovelhas actuam numa peça que repete sempre a qualquer hora nas Faroé. Chama-se "Lã e Ordem". Nem se prestam ao rebanho, anda um por ali e outra por acoli, coisas que eu vi. O grupo fica para trás, discute-se a qualidade da comida faroesa e também se o Porto será campeão nesta época. Salto um pequeno riacho, calmíssimo a murmurar ditongos, e vou fotografando até reparar num cavalo que enquanto pasta se espicha de quando em vez pela proximidade de uma malhadiça bovina. A minha memória reconhece no animal cornudo intenções que já encontrei em gado madeirense, nas vezes em que me perdi nas veredas daquele arquipélago. Não são particularmente subtis: se virem um bicho deste porte a olhar constantemente em redor, inquieto e se este acelerar o passo em investida, a melhor solução mesmo é desviarem-se da rota, procurarem um ponto alto e não perderem a alimária de vista. È simples descrito, mas quando a relva humedecida faz do chão um papel de alumínio besuntado margarida e temos uma centenas de euro agarrados ao pescoço por uma fita, já um equilíbrio a ser jogado; e a vaca lá corre, mas na direcção oposta à minha. Um magote de portugueses apercebe-se da situação um pouco tarde e do meu ponto privilegiad, tenho a oportunidade de assistir às festas de S. Fermin sem meter um pé em Pamplona. Há um pouco de rumba na maneira como o grupo se desmobiliza e cada um por si tenta escapar. Apenas o Joaquim a táctica de esperar para ver, confiante de que qual Alan Grant, a imobilidade o livre de um predador. Mas a vaca não é um T.Rex: a proximidade que estabelece com o Joaquim é de romance e vai cabeceando lentamente o assédio, enquanto o rapaz reza secretamente a uma divindade qualquer que o livre da ameaça. Nos segundos até desmobilizar, quase juro que a vaquinha troca um linguado com o moço, tal é a proximidade das cabeças, mas felizmente desmobiliza e vai à sua vida.
A prometida floresta é pequena, mas ilusória, a construção de um só homem. Não sei se a sonhou, ou se olhando para a bela paisagem tenha pensado "Posso ser um deus"e assim deu num, ofereceu aos faroeses algo que não encontram fora das cidade,s por muito estúpida e paradoxa que a afirmação pareça. Não existe a ilusão do mundo natural selvagem: há cercas de arame por todo o lado conduzindo o visitante, encaminhando-o para os locais que o dono deseja, mas apenas uma cancela limita a entrada no local e está sempre fechada, um respeito que os anteriores visitantes têm para com o espaço. Penso em como este povo de marinheiros nunca terá sentido a profunda solenidade de um grande espaço arbóreo, a sensação de estar sentado entre troncos centenários e frondoso verde a perder de vista, vermelho outonal quando a época chega, folhas amarelas no chão. Não me faz esquecer que é no mar, no cheiro salino que se escondem os tesouros maiores destas ilhas. Admiro esta pequena obra humana, o labor e a paciência, o planeamento, a convivência e aliança com o tempo contado em anos, mas nunca sai de mim a sensação de que só a Natureza esmaga, só ela consegue reduzir-nos, ainda que com montanhas pequenas, à nossa medida plena: uma insignificância que encerra em si um ego disposto a provar o contrário; e penso que sempre quem quem se atreve a ser arrogante perante uma árvore, merece cair na floresta e que sejamos surdos ao seu baque.
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