quarta-feira, junho 24, 2015

Presente envenenado



Sou  especialista em proclamar votos que nunca cumprirei. É isso que me torna num dos mais paradoxais críticos do político português. Quem me segue deve lembrar-se, ou então nem isso que não foi nada de assim tão importante, que há uns meses prometi a mim próprio, e aos próprios que a mim me lêem, que escreveria um livro no prazo de dois anos. Depois de algum tempo a marinar todo aquele caldinho de troviscal interior que gera os dramas que nos predispõem a carpir perante um vasto auditório de egocentrismo, gostava de anunciar que o processo começou e que por ora, a promessa será cumprida. A história está urdida, começa o processo de escrita. Gostava assim de partilhar convosco um pequeno excerto do que já está produzido. Mesmo que não comentem, mesmo que as vossas palavras não me cheguem, saber-vos aí foi uma das cordas que me levou a tratar a escrita como um amigo pessoal, um motivo para viver e uma maneira de me aperfeiçoar, desse por onde desse. Todos os dias em que escrevo são de desilusão pela imperfeição das imagens, o aquém das frases; mas são também um momento onde comungo do vosso apoio, do vosso gosto, do vosso entusiasmo. Considerem isto uma tentativa ténue de agradecer.

Lembrou-se de uma história que o pai lhe contara havia anos, era ele uma criança de olhos abertos, com uma lista de perguntas do tamanho do fémur de um mamute na ponta da língua. Não lhe era difícil recordá-la, pois fora um evento único este, não porque o pai fosse avesso a contar histórias, pois era alguém de quem as tretas brotavam da boca como o suor assoma à pele, mas sim porque fora uma das poucas que lhe contara, e afinal é difícil trocar palavras com o filho quando de repente se some e este, com oito anos e agora de olhos bem fechados, com forte possibilidade de aguaceiros, lança ciclones de dúvidas a uma mãe  presa para sempre numa frente fria. De qualquer forma, e onde ia, ia na história, era sobre Mitologia Grega, algo que Paulo aprendeu a adorar, e depois desaprendeu de todo: a mitologia organiza a vida numa estrutura bela e clara e linear, e Paulo chegara aos 30 anos com uma certeza assinada por baixo a sangue de que a caminhada respiratória do ponto A do paro ao ponto B do cadáver era tudo menos isso. O Pai contou-lhe que Cronos, deus do Tempo, era um filho da mãe paranóico, mesmo sendo o mais poderoso dos Titãs, cheio de força e poder. Mas Urano e Gaia, deuses do Céu e da Terra, revelaram-lhe que estava destinado a ser substituído pelos seus filhos. Cronos decidiu então enveredar pelo negócio do homicídio canibalista. De cada vez que sua mulher Rhea dava à luz um filho, Cronos devorava-o sem se deter: o tipo de divindade clássica a quem o clássico Hannibal Lecter dedicaria um altar feito de dedos. Todavia, Rhea fartou-se, e ao sexto filho, sabendo do apetite e loucura do marido, embrulhou uma pedra num cobertor e enganou-o, tendo o titã engolido a rochosa oferenda, e daí talvez fosse forte mas pouco inteligente, porque qual paladar confunde o sabor da carne com a rocha? Bem, mas este sexto filho seria Zeus, futuro deus dos deuses, que cresceu e passou anos a planear uma vingança daquelas contra o pai. Na altura certa, já adulto, Zeus tomou o assunto nas mãos, sob a forma de uma foice e abriu a barriga de Cronos como quem escancara as portas da prisão, fazendo sair de lá Demeter, Hestia, Hera, Poseidon e Hades, seus irmãos e futuros compinchas de Selecção Olímpica. Ficara sempre em Paulo a imagem irreal de homens e mulheres feitos saídos de um abdómen como árvores que rompem por necessidade tão essencial de viver que tudo o mais é paisagem. A vingativa prole armou então uma guerra contra o pai e seus companheiros, e acabou por matá-los ou bani-los ou prendê-los, e Cronos acabou os seus dias acorrentado numa gruta profunda, longe da luz do mundo e de tudo o mais. Com o tempo, percebeu que os Gregos davam voltas às rotundas da linguagem e da narrativa para dar lições de moral e descrever o mundo, e o que aquela historieta contava era que o Tempo, ou seja Cronos, é a força criadora e destruidora, que sem obstáculo devorará tudo aquilo que insufla de vida, Senhor Supremo, põe e dispõe e pega na nossas vidas num baralho para voltar a dar sem ordem, e só divindades conseguem domá-lo. Compreendeu que os Antigos veneravam os deuses gregos não por serem mais inteligentes, mais fortes, mais belos ou mais artilhados, mas porque num assomo tão humano como é a retribuição, conseguiram descerrar o antro que tudo sorve num redemoinho indiscriminado. Várias vezes, em noites como aquela, Paulo se vira como o Zeus que chega sorrateiramente, empunhando uma lâmina de agoiro, e que o Pai deixara de ser tempo comum por ter medo de si, de ser substituído e ultrapassado, sufocado de morte pela sua presença. Na sua mente, era um inimigo, uma nódoa, e por isso ele se fora embora da sua vida. Várias noites podem ser vários, e tudo isto uma vida inteira de uma terceira mão a misturar o caldeirão que dentro de nós remexe cordas para cima e para baixo no estômago.

sexta-feira, junho 19, 2015

Lírica



Se calhar fora tudo o produto de um livro de rimas do qual se tentam retirar poemas perfeitos à pressão. Sentado no banco de madeira, a noite a puxá-lo para espaços ainda mais desconfortáveis e a ideia de que, se virasse a esquina, encontraria apenas outra curvatura, ele acumulava estrofes sem destino e também um soneto que nunca sequer obedeceria a uma outra métrica que não a do caos e de uma ausência de tudo, simbolizada por uma pequena partícula com a forma dupla de alguém que não tem nome, mas na sua presença, concentra todas as razões pelas quais os pés se colocam à frente um do outro sem tossir ou arrastar.

Se calhar, nada rimava, e o que existia era simplesmente um jogo de engano, doce e divertido, onde todos contávamos a história de que éramos felizes, só porque o seu contrário significava o fim do mundo, ou pelo menos um mundo sem fins comuns. Escutava a noite, mas nem o dia lhe poderia sequer decifrar um código que todos viram, mas ninguém decifrara uma vez que fosse. Todas as desencriptações caíam pela base por se sentarem simplesmente num banco, e nem poesia ou filosofia traziam ordem a uma inquietação em moto perpétuo que pintava o seu sono de espertina e os acordares em tons de pontilhistas, pois cada dia era uma reticência.

Se calhar, respirar é uma figura de estilo: hipérbole de expectativas, pleonasmo de dores, a personificação do objecto que somos quando aceitamos as regras do jogo e na ausência de sentido, um oxímoro onde carpe diem e tempus fugit se abraçam, para se extinguirem em contradições.

Se calhar é tudo isto. Se calhar vale, ou não. Se calhar aguarda-se pelo que vem depois, ou antecipa-se aquilo de que se tem a certeza. Quando em dúvida, beija. Mesmo que não escrevas um poema, pelo menos cantaste um verso.

terça-feira, junho 16, 2015

Descobrindo as diferenças


Nas mãos, uma pedra, imperfeita e áspera, centeninhas de recantos não burilados, inacabados. A pele preenchia-os com a energia própria do calor do corpo, e num momento ele conseguia sentir tudo, até a ventania lenta que, uma vez por festa, faz festinhas no topo das árvores. Sentiu-se em contacto com tudo o resto, e num olhar, pensou encontrar o sentido não da vida, mas pelo menos de como a vida se desmonta, e baralhando volta a dar-se em peças inteiras bem diferentes. Na plenitude, pensou: porque nos escolhem e porque escolhemos? Porque é aquela mais do que a outra, e qual a diferença entre as mesmas dez pessoas que gostam do mesmo, que fazem o mesmo? O que nos leva a, sentados na vida, nos agarrarmos a uma e deixarmos as outras nove? Se os átomos são os mesmos, se a carne é igual em todos, se os beijos que guardamos no intervalo entre cada poro recebem o mesmo calor, a mesma intensidade, o mesmo resguardo, que impulso diabólico leva o pulsar de gigante vermelha a fixar-se em órbita daquele buraco negro especial que nos suga tudo, e não nos deixa nada a não ser a impressão de que somos maiores do que o Universo na pequenez do mundo frágil e indefeso que recebemos de herança? Aquela pedra, ali à sua mercê, era ele, nas digitais posses dos caprichos incompreensíveis do corpo e da mente, de tudo o que de misterioso há entre ambos, e ainda de outros primos afastados consanguíneos.

Nem todos são iguais, e se não era esperto para entendê-lo, algures em si um posto de decisão, pouco fiável mas tirânico, escolhia e sabia bem dos motivos. Há peles mais confortáveis do que outras, e lábios que são berços que embalam e não camas de pedras. Olhos feitos aparições que ordenam tudo, perfilam o mundo e trazem a uma cama as dimensões do planeta, aos cabelos o aspecto de um avião que percorre infinitas viagens enquanto as pupilas se colam na retina, e para lá disso, e abandonam os corpos que afinal são posse e consentimento, e prendem de tal forma que se pode viajar não parado como constrangido, e ser livre ainda assim. Para lá do que é comum, e das mesmas proteínas e substâncias que nos tornam filtros de um deus menor, há uma centelha minúscula que ardendo, é mais do que fogaréu. Na pedra, viu tudo isso, tentou entender o que existe, e não foi bem sucedido, mas algures em si, sentiu que se procurasse, encontraria então quem fizesse do andar um lençol de algodão, e dobrá-lo-ia para não se amarrotar. Talvez, num dia qualquer, numa altura das outras, e como se, por outro lado, conhecendo a vida lhe tirara não só matrícula como as matizes da íris, lançou a pedra para longe e fez dela um estafeta mensageiro, com esperança de que voltasse não na volúpia da brisa, mas talvez na constância dos regatos, e quis ter vontade de se sentar junto ao rio lá em baixo, esperando por boas novas, por camas e olhos e pele, por um riso que lhe atravessasse os ouvidos com a missão de lhe bater palmas por ter nascido, e dar-lhe finalmente uma razão para se levantar de manhã e poder olhar o mundo com a altivez do que se sentem desejados e com um propósito,

Não o fez. Ganhou na mesma. Duas semanas depois, encontrou uma outra pedra, mas festa estátua, insuflada de vida, espantosa como lhe criava múltiplos atalhos para ser ele, e ainda assim se reinventar sói pelo prazer de lhe dar 40 homens para amar encerrados num. Mas esse catavento é para ser virado numa outra nortada.

segunda-feira, maio 18, 2015

Inveja



Invejei o Tomás a minha vida inteira, e só o conheço há dois anos. Ele não é uma pessoa, mas uma aparição, pois não o conhecemos: ele surge, quase como se desse corpo aos nossos desejos e ânsias, e de súbito se tornasse indispensável apenas porque sentimos a sua falta desde o dia em que se toma a consciência de que a vida não é só acordar e dormir. Fui visitado pelo Tomás há três anos, pela primeira vez. Encontrei-o no topo do monte, a olhar para o topo de outro monte, ajoelhado e vergado. Sangue na pele, a roupa suja, estava ali há uns dias, de certeza. Quase que o mundo não era nada com ele, e mesmo assim, desde aquela primeira vez, que não consigo imaginar um planeta a rodar sem que o Tomás possa estar presente. Uns minutos depois, deu um salto e veio-me dar umas palmadinhas nas costas. "És tu", e pôs-se logo a falar de coisas quem nem percebi, de telurismo e da terra, de como as árvores são quem mais debita, e nem sequer cobram imposto. Falou-me de onde vinha, onde estava, e apenas não sabia para onde vai, porque "ninguém sabe, e quem diz o contrário anda a sonhar, e não o melhor tipo de sonho, aquele que nos puxa pelos cabelos num beijo", talvez, pensei eu, aquele que faz do monte o nosso quarto, e de cujo sono despertamos porque sim, porque apetece e nos pomos a desenrolar a nossa vida na cara de um estranho. O Tomás tinha esperado que surgisse um amigo, e depois de vários dias de desespero e pouca espera, uma voz tinha-lhe dito "Este, vai", e o Tomás estava decidido a fazer isso, porque não era de planos mas sim de repentes e vontades, usando mapas apenas para não se perder nas altitudes. Comecei a invejá-lo aí, quando pensei no quão livre era, e talvez triste, mas a boa tristeza que se melancolia em todo o corpo sem que deixe marca, apenas uma alucinação perfeita que faz adormecer sem medo. A minha tristeza carrancuda e lenta como uma corda de pedal guarda o sono numa caverna, e não me relaxa o corpo, contrai-me como um acordeon e nunca me solta. Ele deixara o peso muito para trás, e só subia montes porque por dentro, era penas, nas as que se carregam, mas as que permitem a levitação. Juro que, quando me apertou a mão, os seus pés ganharam algumas asas, asinhas, mas que carregam tudo consigo.

Desde então que invejo o Tomás. Eu vivo num mundo, ele já visitou uns sete, e não fica por aqui. Quero ir com ele, mas peso demasiado. Gostava de me sentar no topo de um monte, qualquer um, mas de preferência com o vento a servir-me de casaco, e ser apenas isso, moléculas que vibram com a passagem de outras moléculas, esquecer tudo, ser apenas eu, deixar-me de outros que invariavelmente aprendi a ser e voltar a mim, ao que sou ao que quero, ao que o Tomás me disse um dia "o olhar onde tudo faz sentido, e quando não te encontras em ti, mas sim num espaço sem palavras". Esse, onde te sentas e te transformas numa anomalia geológica: uma massa não inerte. Invejo o Tomás, mas não significa que não lhe possa gamar uma coisa ou outra.

quarta-feira, abril 15, 2015

Abraço de breu



Há quem não perceba a diferença entre estar triste e estar deprimido. É muito óbvia para quem sofre, mas pouco evidente para os que estando de fora, assistem a alguém que parece estar apenas ligeiramente indisposto. Não se está. Pesa por dentro, como a mó de um moinho, colada ao estômago. O esforço de quem se encontra mergulhado nessa dor de nada dar prazer, de tudo ter um sabor desfeito a cinzas, é precisamente não se tornar num vírus que contamina os outros que ainda se preocupam o suficiente para estender a mão e tentar ajudar, quando não o conseguem. Não porque não gostem ou porque não queiram: simplesmente porque não compreendem.

Tenho vivido em períodos de depressão desde os meus 15, 16 anos talvez. Na altura, começou por me parecer uma tendência para a tristeza ou um estado de menor alegria, mas à medida que esse estado se prolonga durante dias que são uma longa colecção de instantâneos perpétuos de se achar que não se tem nada, começa a surgir uma certeza meio vaga de que não é tristeza. Quando desaparece, a depressão é apenas a recordação de uma fase menos boa (outro nome que também lhe dão, quando querem fazer crer que é tudo parte da vida normal), mas o seu regresso, com uma força dupla e ainda maior, deixa a certeza de que não é normal, não é passageiro, não é leve: é a lei da gravidade da alma, fazendo-a cair em impacto no chão da nossa mente. É nesta porta giratória que tem circulado a minha vida. Quando digo às pessoas que já experimentei de tudo, e todas as sugestões que me deram, não minto. Estar com a mente ocupada, sair de casa, procurar estar com pessoas, tentar ser positivo, arriscar, fazer as coisas ao contrário do que faria normalmente... Tudo. Nada resolve. Os períodos podem durar semanas ou, como já me aconteceu, meses seguidos. Acontece aí que queres fugir da realidade, principalmente; e não é da realidade da dor, é da realidade total: não contactar ninguém, não ver mais nada do que as quatro paredes de uma divisão fechada. Aconteceu-me já simplesmente deitar-me na cama e passar o dia todo, porque o simples som de alguém a falar me faz chorar. Ser frágil assim, quase de forma irracional e inacreditável; ou simplesmente, não conseguir suportar a presença de alguém no trabalho. Dares por ti com dificuldade em respirar, sem qualquer motivo físico. Ou deixares-te só estar, desistir de quase tudo o que podes fazer, e sentires perder, no processo rápido, o gosto por tudo o que antes te fazia começar o dia. É pouco isto. A espaços, foi metade da minha vida.

Porque não procuro ajuda? Já o fiz. Não resultou. Podia tentar algo mais forte? Sim. Mas na mente de quem está deprimido, a pergunta é óbvia: porquê? E essa pergunta faz a diferença. Porque estar assim é confortável, de certa forma, mas também a garantia de que não piora. Não nos faz sentido erguer com a certeza de se cair, e saber que se cai ainda mais profundamente. Novamente, quando se explica isto, ninguém percebe; e não é mania de nos sentirmos especiais enquanto habitantes do negrume (eu não me sinto, pelo menos): é mesmo o que se explica e se tenta. De todas as vezes que voltou, foi mais longo, mais forte, mais intenso e mais desesperante. Não quero descrever aqui o tipo de ideias que já me passaram pela cabeça, ou até o que habita dentro de mim. Sinto, de certa forma, que ando a viver um período desolador há quase ano e meio, com pequenos espaços para respirar pelo meio, um período que me fez perguntar, várias vezes: de que vale a pena? Eu juro que tentei responder à pergunta de várias maneiras. Mas em todas as respostas, não consegui encontrar na vida um motivo sequer de prazer permanente que me faça querer estar vivo. De certa forma, mantenho-me por uma sensação de dever, um martírio não religioso de quem suporta dor mental impossível porque sabe que ceder ao que é fácil é destruidor para alguém específico e uma falta de respeito para com quem não está, e de bom grado eu daria neste momento os anos de vida que me sobram para ter essa pessoa de volta, porque não sei que mais farei com o tempo que tenho de percorrer de arrasto.

A diferença entre estar triste e deprimido é um pouco esta: quem está triste faz contas de somar com o amanhã; quem está deprimido quer simplesmente dividir subtracções de tempo, e arranjar um atalho para não estar consciente, ou sequer sensível.  Sentir é o que sabemos mais, e por mais alto ou largo que se seja, nunca se é suficiente para aguentar a dor. Vivo na vontade de rebentar e no esforço de não fazê-lo, de fazer dos meus dedos ganchos, quando aqui e ali me oferecem um ponto onde me agarre.

Mas já faltou mais para desaparecer no vácuo do espaço.

quinta-feira, abril 02, 2015

Mentiras



Abri a caixa de correio e no fundo, dois envelopes inclinavam-se. Num deles, a escrita apressada e empilhada de uma caneta azul atirara-me aos olhos o nome do meu pai. Não é uma novidade que ele espreite ocasionalmente para fora daquela caixa. Nos serviços públicos e privados, nomes são números, e como a Matemática do luto, os números são imortais: existem sempre, porque prestam um dever. Mas ver assim na caligrafia personalizada de alguém que, pegando num envelope, tomou o meu pai como vivo e se demorou a enviar uma mensagem, abanou-me um pouco. Por alguns segundos, deixei-me levar pela ilusão e tentei-me a regressar para o interior de casa, chamando o meu pai do seu silêncio habitual para lhe entregar a carta. Durante esse pequenino espaço de tempo, onde couberam vários desejos, ele estava vivo. Menti a mim mesmo no 1 de Abril, e foi a única mentira que poderia tolerar: a de que o mundo não é mundo, mas sim uma construção, e que de quando em vez, os blocos tombam para se reorganizarem e termos a ilusão de que o tecido da realidade se vira do avesso, e que Julho foi apenas uma saída que não se tomou, e afinal o caminho correcto é mais à frente.

Contei então outras mentiras que queria ouvir. A dor que se vem acumulando no último ano não é afinal dor, mas sucesso;  o afogamento de um adeus é afinal esbracejar livre em águas cristalinas; todos os choros de revolta são sorrisos de satisfação; a raiva permanente é comichão passageira; a derrota está rota e deixa passar todas as vitórias que mereço; cada dia ímpar encontra-se quando somos par um do outro; a minha boca na tua é a verdade que procuro, e tudo o resto leves rumores que me levantam a pele para soprarem tudo o que partilhamos num olhar. Deixo que a carta me minta, e crio também uma ilusão da realidade, porque sem ilusão e sem as mentiras que podemos contar, não existe sequer a esperança de que tudo não passou de uma possibilidade, e existem múltiplas possibilidades. Até conseguir sorrir é uma mentira, mas escolho, nesses segundos, não falar com a realidade, sermos mudos, cada um no seu canto.

Vítor Manuel Paiva Cristóvão Simões. Assim mesmo, no azul de uma BIC, cravado na carta entre o recorte do papel. Ali, na mão de alguém, o meu pai voltou a estar comigo, vivo; e por momentos, também eu voltei à vida, aquela que queria e não a que tenho. Uma mentira. No sopro dos teus lábios, mesmo que na minha mente, também não me importo de ser enganado; e voltar a abraçar o meu pai é real, e isso basta-me.

segunda-feira, março 30, 2015

Ramos



Abre os olhos e sente-se uma bola de canhão, lenta, os minutos são atrito e cada um deles pesa no peito. É virar as noites do avesso quando acordar se sente como um choque frontal. Há um disparo algures na barriga que coloca o corpo em prisão, sem grades, suspenso na pena que tem de si mesmo. Já lhe chamaram dor de pensar, mas aparecia-lhe sempre na ponta da língua a anestesia de viver. Ou de ir fazendo de conta que a vida existe para lá de um rectângulo. Silêncio sepulcral no quarto, batalha campal para ficar com os pés para fora da cova, e morre-se quando não se vê para lá do dia em que se existe. Dormir é sempre mais apetecível quando os momentos magoam os dentes: Regressar para um útero com duas pernas, mas sem nascer: apenas sentir calor, por uma vez que seja. O frio dos lençóis convida à ilusão e a simplesmente desligar, não aparecer, poupar o corpo a mais uma jornada; e aninhado, encolhido, ele sabia-o e queria evitar o inevitável.

O inevitável é a vida, que demora a adormecer e a dar-se por vencida, não a pulsação ou a faísca, mas sim a luz que desperta e lança para o mundo olhares cobiçosos, mesmo que a fuga seja a razão pela qual se respiram bofes, se rouba o fôlego que se deita fora e se constroem cabanas sobre areia, ainda que nos convidemos ao estertor e e seja o desejo mais vivaz aquele de sumir no colchão, de render a guarda e guardar a renda que pagamos por cada salto sem rede e cada arremesso de nós sobre alguém que rebate para bem longe, mesmo com lágrimas nos olhos, porque nos fôlegos só conta o cansaço e nunca o exercício. Era isso. Se assim não fosse, o pé não seria periscópio de carne fora da manta, e não se daria ao risco de calcar os destroços de suspiros anteriores, espalhados por todo o quarto como um nevoeiro tóxico de respirar, mas doce embalo da noite. Quando afastou a campa e se viu de pé num calvário, atirou-se mais fundo do que os seus pensamentos: agarrou em mais um dia e deixou que se acomodasse no seu bolso, junto aos outros.

Um dia pegaria neles todos, faria um calendário, paginado, que faria dos tempos de outros um adiantar da hora de Verão. Um dia, ou dois, ou três. Quando sair da cama é uma surpresa, o tempo torna-se presente de aniversário para o futuro.

sexta-feira, março 20, 2015

Um dia são dias



Para nós, os que perdemos um pai, o 19 de Março é um pouco como arrancar um dente: tem de se viver, sabemos que vai doer e já está. A questão é que nunca está, e que continua a doer mesmo depois de o sol se ter posto e reerguido no dia seguinte. É algo que continua, enquanto nos lembrarmos. Tem de ser assim, e se for de outra maneira, algo está errado. Só dói porque se sente a falta, e a ausência só marca quando a presença contou de alguma maneira. Vive-se assim: enquanto houver memória, não há corações adormecidos. É uma gradação, mas chega um ponto onde não baixa mais: estabiliza. Nunca me consigo habituar a ir ao cemitério, as poucas vezes que agora visito, e não sentir nada; e nem me custa o passado. Arrelia-me muito mais o futuro, e tudo o que o meu pai não pode viver, principalmente o que lhe podia proporcionar. Gostava que tivesse orgulho naquilo que faço, em ter um trabalho e em construir alguma coisa de base, de algures no mundo haver alguém que tem dias melhores só porque eu dediquei a isso o meu tempo. Gostava que pudesse um dia pegar num bébé a que chamasse de neto. Gostava de lhe dar a oportunidade de não adiar e viver o que um dia deu por garantido e que um atalho da vida lhe roubou. Tudo isso me dói, e se calhar é também egoísta porque o prazer que teria em vê-lo partilhar de tudo isso é mais meu que dele. Alguns meses depois, descubro que uma parte minha morreu com ele, e não teve enterro. Paira sobre mim.

Não vou falar mais desta dor. Não a vivo sempre, há dias em que consigo que me passe ao lado, principalmente dias em forma eLíptica e dias de amigos que estão quando até nem quero que pessoas invadam o meu espaço. Mas há quase sempre um momento em que não ignoro. Dias do Pai? São praticamente todos, devo-lhos e quero pagá-los. A minha prenda é cada momento em que respiro e sigo. Espero que seja o suficiente, pai.

segunda-feira, março 16, 2015

Um fragmento



O céu era o seu dono, mas o cardume de mar alugava-o em dias de tempestade: o farol, no topo da falésia, embalava o sono dos aldeões quando estavam acordados, e só os despertava no sono, quando se corre onde se quer porque se está seguro. Segundo se lê num livro quase carcomido na gaveta da casa paroquial, os Celtiberos mantinham uma fogueira naquele preciso local, quando se tornava obrigatório estender a mão a quem guardavam dentro dentro de si, mesmo que os braços fossem pequenos. A luz ajudava os barcos a contornar o perigoso promontório, e desde então que a falésia tomava para si os medos das pessoas, apenas para dissipá-los. O rei D. Sancho I ali mandara erguer uma pequenina torre, um ensaio do farol, e como os séculos nunca levam consigo os temores, deixando-os apenas mais reforçados para o tempo que se segue, cada pessoa que vivia na aldeia sentia o súbito apelo de ver a figura entrecortada de um pilar luminoso, quase em contacto com a esfera que servia de tecto às suas cabeças, como uma antena que reúne os desejos íntimos e os põe em contacto com o que de mais externo existe. O farol era uma necessidade, e de riste em riste, o século XIX cravou aquele empilhamento de tijolos ordenado que resistia a praticamente tudo, exceptuando uma tempestade em 1949, quando as lâmpadas estilhaçaram, vítimas da cirurgia brincalhona de um relâmpago. No entanto, a estrutura manteve-se com a seriedade devida aos garantes da estabilidade mental de toda uma aldeia, e se todos tremem, nunca o farol pode sequer abanar. Não abanou, não caiu e apenas se despenteou.

Tiago olhava-o todos os dias, antes de dar o mundo aos seus pés. O seu olhar, numa tentativa de fazer do mundo um esboço de casa, tentavam trazer a Tiago algum conforto que aquele assertivo pilar com alma parecia encerrar no seu silêncio. Há muito que na aldeia se perdera a mística dos tempos antigos, mas em Tiago, reverberava ainda um lampejo do que não se descreve porque não se sabe, mas que se sente, pois nunca se esquece. Já só aqueles que tratam o tempo como um expoente elevado ao cubo erguiam, pelo menos, um reflexo gesto de saudação a quem lhes protegera os sonhos de criança. Tiago imitava-os, já adulto, mas tudo tinha um sentido: afinal, ele guardava em si ainda o que sonhara em criança.




domingo, março 08, 2015

Bloco


Consegues senti-lo? O giroscópio da tempestade a abanar na tua barriga, chamando pelo movimento  penumbra de todas as cavernas que te deixam oco? O esmorecimento, o desânimo, o descalabro que martelam com mais fulgor do que qualquer outra música ou ruído? És capaz de inquietar a tua mão em ti, e perceber como um redemoinho te absorve afunilado para o teu interior, espirrando-te numa confusão de peças para que nem sequer tenhas veleidade de te reconstruir? Sentes, não sentes? Está lá, e depois de se dar aos ventos, é incapaz de parar. Roda sobre si mesmo, faz de ti rotação e às voltas tantas, percebes que nem sequer te mexes, e que nem pretendes fazê-lo. Por dentro, o bulício; por fora, a inércia. Colocar o teu peso sob as pernas custa quase tanto como dar pernas ao peso do tempo que te preenche. Sentes sim. Até demais. Quando estar junto a outros te transforma os olhos em lagos, quando simples palavras alheias são agressões ao teu bem-estar, quando cada palavra de incentivo é uma úlcera por dentro da carne. Tudo gira, nada te parece giro. Nada te parece sequer: apenas está ali, a boiar, a rotação desacelera a gravidade e flutuas sem atrito e realidade, todos os resultados possíveis e aleatórios te são indiferentes. Não alternativas, porque não as escolhes. Cada desvio e cada atalho têm o mesmo destino, e tu sabes qual é: o giroscópio é também bússola e o rumo encravou.

És curto demais, e encolhes-te na cama. Lençóis por cima, todo o mundo uma muralha que te recusas a ultrapassar, porque não há razões. É aí que finalmente sentes a falta de sentido.

terça-feira, março 03, 2015

MicroMacros



Sem ela, o tempo é uma colecção de estilhaços. Carlos, de pé no centro do seu próprio mundo, perguntava-se se um dia era dia sem que a voz dela fizesse nascer o sol, mas o mundo gira em redor dos astros mesmo que agora o tempo fosse menos particípio e mais passado. Carregava em si o peso das partículas, dos pós que se amontoam aos poucos nos tecidos e nas articulações e fazem os segundos em que que nos desintegramos, apodrecemos e, consequência final, carregamos o nosso próprio fim. Cada passo é mais um bocadinho de nada, e por isso estava parado. Se não se mexesse, talvez sossegasse, na ladina paz do respirar que parece prolongar a vida quando traz a pequena morte ao corpo, e um funeral florido ao espírito. Carlos carregava o seu próprio andor sob duas pernas, e no momento, a imobilidade pareceu mais amiga do que os gestos. Quando nos dói, a acção assume figura inimiga, e há sempre a ideia de que um passo equivale a peças partidas. A dor transforma a pele em porcelana, cada movimento uma fisga pronta a rachar o que aparenta estar inteiro, mas sabemos, numa pequena nuance do ar, que quebrámos sem apelo. Era isso, Carlos partiu-se, e o peso era tudo o que nele estava contido e agora perseguia o vazio com a mesma voracidade com que digeriu Carlos.

Como tudo o que se parte, Carlos foi ao chão. No pó acumulado, talvez um casulo, e mesmo na verdura que o tapa, uma caverna. Em tudo o mais, vassoura que acumula na caverna tudo o que escapou. Voltar a ser inteiro ou refazer-se com o que se tinha: tudo o que Carlos pode procurar é simplesmente saber se está a tempo de se desfazer do que não pode.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Conhece-te a mim mesmo



Nas cordilheiras de lençóis, surge a tua cabeça curiosa que faz deslizar "Sabes que és como este lençóis, sabes? Chegas sempre aqui cheio de pregas, mas mal te estico debaixo do meu corpo, pareces outro, mais uniforme e menos agressivo, que posso fazer festinhas em mim mesma com a tua tua pele e com esse não sei quê de não sei quando que vestes e só eu vejo aqui, quando nos dispomos sem roupa depois de despirmos a roupa cem vezes. Depois, tapas-me tu e não me sinto fria, nem quente, apenas confortável. Não me olhes assim... Já vi que não sabias o que és, que triste é isso, não se saber o que se é. Eu sei bem, que às voltas tantas dos lençóis, só sei quem sou quando fecho os olhos e te encontro para lá das pálpebras quando regresso ao mundos. Se um dia vivesses nos meus olhos, conhecerias o quão bom é, nem que seja nos segundos em que regressas a ti, saber quem és e o que queres. Invariavelmente, és tu quem eu quero e o que quero, embora não sejas uma coisa, e se calhar até és, porque a felicidade é uma coisa, não é? Não é uma pessoa. Quer dizer, pode ser, podes ser tu, e de cada vez que cubro a tua cara de beijinhos, encharco os meus lábios felizes, e eles estão mesmo felizes porque não param, não querem, nem vacilam, e a certa altura já beijam debaixo da felicidade, e pareço um peixe mergulhado em ti, a dar à boca, e nesses beijinhos sei mesmo quem sou. Sabes, sabes?"

Beijo-te, nesse momento, não como quem ama, mas não tem outra maneira de rezar. O teu altar em forma de boca recebe.me, ora por mim, ide em paz por aí baixo e que este senhor te acompanhe nas voltas dos lençóis. Nas voltas de mim, porque eu também sei quem sou quando te descobres. Porque me descobres também.

sábado, fevereiro 14, 2015

Deixar-se levar



No rio, as luzes são pregas de lençóis, espectros amareliços que da nossa rua se projectam algures num mundo onde nunca pertencerão: a água é demasiado densa para que as partículas luminosas aí montem morada, e eu e tu, casas um do outro, nem sequer conseguimos apanhar a luz. Mas no rio, forma-se a imagem do nosso beijo, quando o lençol aparentemente se alisa, com as curvas dos nossos lábios. Um longo fôlego. Depois, os meus olhos pescam nos teus com um anzol em forma de saudade. Todos os dias são nunca para os meus olhos, o teu rosto uma novidade e esse olhar um relógio sem ordem onde todos os tempos de misturam. Sei apenas que lá no fundo, fluido como a água do rio, estou eu, em trânsito para o teu coração. Consigo mesmo ver-me, depois de um beijo, a renascer algures onde guardas as luzes maiores do que as pregas do rio. Enquanto o rio passa, tu paras no meu abraço e deixas-me um pouco à deriva, apenas para me agarrares, a tua mão na minha, na noite fria. Mas o teu ar não tem vapor, não tem fumo, quando respiras é como se me acariciasses, com festinhas que tornam a minha pele uma montanha que no degelo do teu sorriso, se permite conquistar por quem arriscar.

Voltamo-nos para o rio e mergulhamos em nós. Num abraço, a noite é uma esfera, e fora dela estamos nós. Fora da noite, dentro de um outro rio, mais lento, mais escuro, mais tudo. Mais até do que nós. Um rio planeta, perdido nas estrelas que também morrem nas águas. Eu e tu, um planeta. Mãos que são placas tectónicas e novamente lábios em erupção. O resto da noite é um movimento de rotação e a manhã ocupará o seu trono. Dois rios correm: um para o mar, o outro para si mesmo. Eu e tu, um planeta.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

(Espuma)



Cai a neblina, que sabe a mudança, e na areia espessa, que se prende ao mundo, está um búzio. É o búzio das seis e meia da manhã, quando a noite ficou para trás e os olhos só se fecharam para esquecer. Quando o mar me calça os pés com espuma, o búzio é a minha única garantia que tudo isto é real, e que a neblina me veste no faz de conta do despertar. Pego-lhe então e a sua abertura lembra-me lábios que beijo nebulosamente todas as vezes que me solto em mim. Encosto-os ao meu ouvido e ouço a canção das esferas, o cosmos, as nebulosas e mesmo entre uma ou outras supernova, velhos destinos, sussurros e murmúrios. Há quem ouça o mar nessas aberturas: eu mergulho em ti, e naquela manhã, a primeira desde há muito em que o mundo me sabe a outra coisa que não a tua pele, regresso a outros tempos de mar revolto, e de barcos encontrados na tempestade, onde parecem encontrar a razão de navegar. Dou por mim a abraçar um búzio, como se me pudesse devolver tudo o que quero dar e não sou autorizado, e num momento entre minutos, o meu corpo está deitado na areia, mas nem se molha quando o mar se aproxima, o mar foge e nem lhe toca, e enquanto estou a assim, juro que o búzio também me beija, que as manchas madrepérola são os teus olhos castanhos e a praia tem as nossas paredes brancas. Não sabia que a saudade sabia a iodo, mas o teu corpo sempre aqueceu o mercúrio do meu sangue, e num beijo que não existe, o vestido de neblina puxa o sal como cobertor e sinto-me temperado pela tua memória.

É memória de quem não volta. Há mar e mar, e o teu ir implica não voltar, excepto lembrar-te quando ainda sorrias, ainda amavas e ainda respiravas. Tudo o mais são marés, que vêm e voltam, e estando eu na lua, a atracção é imediata. Às sete da manhã, ainda vives num búzio, que guardo no bolso. Ao fundo, a linha de horizonte confirma-se que não voltas, mas que eu tenho o eterno retorno aos teus lábios, no calor de um búzio. O limite chama-me, mas olhando à volta, o meu lugar é aqui, contigo, numa aparição marinha.

sexta-feira, janeiro 02, 2015

Hiato


Brava gente, durante um tempo (talvez meses), não escreverei nada aqui. Se o fizer, será muito esporadicamente e porque me apeteça de facto. Mas quase de certeza que não acontecerá. Não me sinto mentalmente capaz de escrever sobre o que seja, de momento, ou de tentar colocar aquilo algo que me satisfaça e orgulhe e sinta que vos possa dar prazer de alguma forma. Agradeço a todos os desde o início me têm seguido e acompanhado a evolução deste blog, e aos que, mais recentes, têm partilhado as minhas alergias e tristezas. Regressarei um dia, mas não vos posso dizer quando. Apenas que não será breve.

Obrigado e até ao meu regresso

quarta-feira, dezembro 31, 2014

Dois mil e quatorze


Um ano é um saco vazio, e os dias pequenas partículas que se vão acumulando. Quando o tempo passa em rápida corrida, sem deixar outra marca que não seja a saudade do que não se viveu, as partículas não pesam e sem estarem carregadas do que seja, apenas tornam o saco num pequeno pano cosido com sujidade. Duas palmadas e uma passagem, e o saco fica pronto para, noutra oportunidade, acumular a passagem de tudo o que pode pesar. No entanto, as maratonas deixam o corpo mais pesado, e o saco é não hotel de partículas, mas reactor nuclear onde as mesmas chocam umas contas nas outras, e produzem o tipo de energia que alimenta estrelas, ou pelo menos arrasa cidades ao ponto da poeira. Viver muito implica uma carga maior, e quando se vive demasiado, explode-se. É a lei da energia: quando o corpo é pequeno demais para aguentá-la, ela extravasa, solta-se e o que fica de nós são uns cacos maiores do que outros, com a possibilidade de se reorganizarem novamente para voltar a acumular.

É assim que sinto o meu 2014. O ano em que vivi demais. O ano em que me expandi para receber tudo aquilo de que fugi nos outros todos. A morada onde habitei no sótão da felicidade, mas também desci a profundezas onde nunca estive, onde não queria estar, mas que já sabia fazerem parte de toda esta casa. Tudo o que fez 2014 já sabe quem acompanhou o estudo da dor em palavras que coloquei neste espaço. Todos vocês que me acompanharam, mesmo não dando a mão; e aqueles que, mais próximos, colocaram a mão no ombro. As pessoas que vibraram com o meu voo livre na atmosfera e aqueles que sorriram quando, num espaço qualquer entre minutos, as horas eram os nossos dias, meus e dela. O ano de 2014 foi quem esteve, e quem não esteve, porque a ausência, mesmo não sendo, por vezes existe com uma força de terramoto. Também foi isso, este ano, mas para minha surpresa, estes quatro algarismo também perceberam que no fim, quem nos vale somos nós. A maior parte do resto é paisagem. Podia colocar nomes, mas quem se agigantou para me servir de parede terá o seu momento de gratidão.

Não foi só perder, também se ganhou, e no inesperado. Desccobri que o meu coração abarca planetas, e expande também. Descobri que quando se abre o coração, fechá-lo é impossível. Descobri que choro na mesma proporção que sou verdadeiro comigo mesmo, e que as lágrimas são simplesmente as palavras que não consigo alinhar aqui para levar aos outros o meu mar. Descobri que sou muito mais forte do que me dou crédito, muito melhor pessoa do que me pensam e alguém que merece, acima de tudo isto, o que é bom. Descobri que não sei se aguentarei, mas estou ansioso por resolver esse mistério. Descobri como é bom ser útil em projectos maiores do que nós, e de como se aprende mesmo quando não se espera, e a vontade de colocar o nosso melhor em pequenas coisas que nos satisfazem no fim de contas. Descobri que quero saber se consigo ser feliz; e quero descobrir se consigo ser o homem que o meu pai um dia esperançou, se há 32 anos, quando me segurou pela primeira vez e me imaginou já grande, homem feito e pronto, se poderia vir a ter orgulho na confusão em que me tornei, no labirinto que desenhei qual Dédalo da perdição, e se no meio disso tudo poderia anuir e sorrir de cada vez que saio à rua e afirmo que sim, que sou eu e mais ninguém, que é o que posso dar e quero e não gostava que sentisses algures que não mereço carregar a tua memória e deixar-te beijos sobre a campa.

Também quero descobrir-me novamente nas mãos de outra pessoa. Destapar-me nos seus olhos e reviver o pequeno jogo que existe antes de um beijo.

Quero certificar-me que existe 2015. Que 2014 foi apenas uma explosão atómica e que depois da morte, da erupção, há vida a crescer, a brotar e a aparecer, rebentando com os solos. No meu desejo, 2015 não podem ser dias: devem tornar-se sacos de partículas, daqueles que não pesam, mas também não voam. Daqueles que estão nas nossas mãos, mas nem nos pertencem. Daqueles que simplesmente sopram e não fogem. São meus, e deles disponho para renascer. Quero que 2015 seja sobretudo isso, e que de sobretudo vestido, 2014 hiberne, apenas para acordar em mim de vez em quando.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

11-12



Um bocadinho. Um ponto na estrada pelo qual se passa. Uma mancha que se limpa. Uma nódoa que surge e se faz desaparecer. Uma bolha de ar que se rebenta porque estorva a vista. Um montinho de terra que se varre para fora do jardim. Uma relva que cresceu mais do que as outras e atrapalha a simetria. Um livro a mais que não cabe na estante e se mete no caixote. A bolacha mole que não se escolhe e atira para o lixo. Os calções quando chega o Inverno. O cavaquinho numa orquestra de sopros. A ínfima parte do que já foi, e não é. A célula disfuncional que precisa de ser destruída. A traineira de madeira podre que será abatida. O pedaço de oceano onde o crude reclamou um reino. A casa onde as vigas estão tão podres que nem vale a pena pagar o restauro. A folha mal impressa que se arranca, e pela qual reclamamos um livro novo. A memória que some depois de uma noite de bebedeira. O presente que se ofereceu e foi para o lixo. O filme que se apaga do disco rígido. O bocadinho de árvore que o zoom faz sair da fotografia perfeita. A linha de palavras que se risca, ou se apaga com corrector com vergonha que alguém saiba que chegou a existir. A sms que não tem retorno. A cama que é pequena demais para nós, e vai para o sótão servir de pasto para térmitas. Os talheres de plástico que cumpriram a sua função e vão para o lixo.Os sapatos esburacados que não se guardam, porque os novos brilham mais e a ruína não guarda recordações se não nos sentarmos sobre ela. As folhas do caderno que se rasgaram e já não contam. O álbum de fotos que se queimou, porque não se quer na corda do coração. O sofá que um dia nos acolheu, e agora apodrece no depósito de monos. O carro que um dia foi a nossa fonte de aventuras, e agora está desfeito num ferro-velho. O beijo que se deu, e agora é nada. Tudo o que se é, e que nada parece valer. Ser o tudo de uma série de nadas pespegados que se esfumaram.

Pedirem para olhar em frente, e só ver o que não existe. Há noites assim.

sábado, novembro 22, 2014

O tom dos dias



Haverá gente que certamente está farta já de ler sobre dor e sobre não estar bem, sobre quem foi bem embora e quem não se pode ter. Eu entendo bem: aliás, garanto a todos esses que se pudesse até, nem escreveria nada sobre o que aqui dentro é um profundo poço de petróleo a que atearam fogo, e não tem parado de arder, entre golfadas de soluços, desde há quase dois anos. Estou tão farto da minha dor quanto alguns de vocês, acreditem. Gostava que passasse, de ter alguma paz interior, mas já entendi que não vou tê-la em 2014, pois há sempre um novo motivo para acreditar que se algures existe um Destino, este é o meu ano do yo-yo: puxa-me para as alturas e depois deixa-me tombar, passeando o cão, raspando o chão comigo até a pele não ser mais do que um tapete. Nem sequer posso sentar e esperar que passe, porque naquilo que muitos anos são vazios, este é uma cornucópia de emoções, novas sensações, desesperos e vitórias, de tudo o que constrói de facto a vida, e não são coisas de plástico ou de metal, mas que carbura em tons loucos o nosso motor sedento de justificar que vive, e que não está simplesmente aqui em missa de corpo presente, ide em paz e o tédio vos acompanhe.

Dentro dos novos limites da dor que descubro todo o amaldiçoado dia em mim, sinto que lido com isto sozinho, raras vezes com a companhia de alguém. Isto é perfeitamente normal, pois nós somos, em última instância, os responsáveis pela nossa sobrevivência. Se um dia morrer alguém que é próximo, deixem que vos explique como se desenrola o processo de apoio: nos primeiros dias, surgirá muita gente que vos diz "Estou aqui para o que precisares, não hesites"; passadas umas semanas, o discurso evolui para "Pois, é não deve estar a ser fácil..."; um mês depois, um ou outro ainda se lembra de perguntar "Então, estás bem?"; depois disso, a vida continua e o meu mundo é o único que conta, e sou como o Principezinho, só no seu planeta, olhando para o espaço a perguntar-se se andará por lá alguém. É do mais normal: afinal, cada um tem as suas coisas, e quando se vê alguém na contorção de uma dor que não cabe em nós, o mais normal é ter alguma compaixão e nos oferecermos na totalidade, desejosos de ajudar; mas depois voltamos ao que é nosso e passa. Já me aconteceu, e não se culpa ninguém, porque não há culpas para distribuir, A vida assim o pede, e estou mais habituado à ideia de que estou o tempo todo só, e que de quando em vez alguém me agarra pelo braço, só para garantir que estou ligado à corrente a um mundo que não se limita ao que os meus pés pisam. Valorizo muito essas mãos, talvez mais do que elas pensam, e compensam outras mãos que não se estendem porque talvez tenham passado a ser manetas.

Não deixo de me surpreender, ainda assim, quando choram por mim. Aconteceu-me recentemente, e a visão de alguém a sair de si pelos olhos através de lágrimas por sentir como seu aquilo que é tão meu toca-me mais do que aparenta. Não soube o que fazer, nunca se sabe. Aproveitou para elogiar o que aqui escrevo, e percebeu que quando exponho a minha dor neste blog é para compensar essa vida solitária que me coloca mano a mano numa luta a solo. "Li aquilo e foi como se vivesse em ti durante uns minutos, és tu a expor o que é comum a todos nós, a arrancar a verdade das coisas", e os olhos estavam desenhados a sal líquido. "E quando li aquele texto que começa assim... Puta que pariu! E ela não voltou? Ela não disse? Ela não fez?" E continuou perplexa: como é que conseguia caber tudo em mim, e como é que eu conseguia pegar naquilo e transformar em algo assim? Quando lhe confessei o que me consome, e o que me tem consumido depois daquilo que ela tinha lido, ela sossegou-me. "A dor escolhe-nos, tal como o amor, para no capacitar e dar ferramentas, que mais à frente havemos de necessitar", e talvez seja verdade, que há um propósito em tudo isto, até mesmo vir aqui em dias em que não suporto o peso e venho aqui largar um pouco, seja para me expôr em ferida, ou pelo contrário lembrar que há algo de bom em que cada dia em que se acorda e nos entregamos ao que sentimos e queremos, mesmo que não tenhamos o que desejamos, e passemos a vida colados a uma ou outra pequena grande luz que brilha a nossa vida, aquecendo-a, deixando-nos na sua órbita, mas, em última instância, nunca se dando totalmente às leis da gravidade,

Por isso escrevo sobre dor. Porque não é, de facto, dor, mas sim vontade de sair disto, vontade de querer mais, vontade de mudar, vontade de recordar e de honrar, e vontade de não desistir, e de querer o que não pode, de não deixar morrer esse poço de que falei, porque se existe significa que estou vivo, e mesmo só, mesmo à deriva, mesmo com mãos ocasionais que não só me agarram, mas me confrontam, e num braille da pulsação me dizem "Estou aqui, mesmo que o aqui seja o nosso algures", vivo, e sem me esconder, espero Não sei se por ti, mas espero por mim, de certeza. Espero chegar um dia e poder dizer: "Hoje não dói, mas até queria que doesse, só um bocadinho aqui na barriga", e ao mesmo tempo sorrir e descobrir debaixo dos meus pés um segredo que me cresça asas nos tornozelos.

terça-feira, novembro 18, 2014

Contra/A favor



"Conta-me a história", pedes-me, e não há história para contar. Há pequenas narrativas que se juntam, que nem chegam a formar um todo. Desconheço o que queres que te conte, e notas a minha indecisão. Por isso, reformulas: "Fala-me dela", e aí a minha hesitação é outra. Mencionar-lhe o nome é tê-la presente, e se quisesse isso não me teria afastado. Não falar é esquecê-la, e se desejasse tal infortúnio não me isolava dentro de mim desde que lhe disse que não conseguia viver comigo, e por isso escolhia estar sozinho na sala da minha pulsação. "Há alguma coisa que possas dizer então? Pareces fora de ti", e pela primeira vez algo acertado surge numa conversa que não quero ter, mas que forças uma e outra vez. Fazes demasiadas perguntas, mas esse é o imposto fixo de ser cientista. Aqui não há ciência, a não ser que se conte a improbabilidade como uma teoria que define o mundo.

No meu silêncio evito-me, e por isso não lhe falo de momentos que me acertaram o compasso da vida, todos com ela. A abertura em prestissimo de compatibilidades, passando a um primeiro movimento alegricissimo, a orquestra em estrondo empurrando-nos um para o outros só com sopros, e que se substanciou no segundo movimento, quando no topo de todo descemos ao que de mais íntimo existe em nós e encontrei molto vivace nos teus lábios, num beijo adagio. Não sei quem tinha a batuta do concerto, mas por mais que tentasse fugir cavalgando valquírias, não consegui fugir, Nem tu, acho. A maior luta que existe num orquestra é entre o músico e a música: o primeiro pode até negar-se a servir a segunda, mas esta é uma força muito maior, mais obrigatória e urgente, que se impõe e não deixa espaço para dúvidas. Por isso, que posso eu contra quem me guarda nos braços e insiste em dizer que está tudo bem, que o planeta é nosso e só nosso, que a galáxia e os cosmos não interessam, e que enquanto estivermos deitados na relva, o granizo nunca a queimará? Tocas a música do que não consigo cravar em palavras num compasso ternário: um beijo, um abraço e a curvatura do teu sorriso, numa arquivolta dos sentidos. Deixei de ser clássico: baralhas-me e transformas-me em imprevisível jazz.

Não quero contar tudo isto, mas penso. Evito o que se segue, e quero guardar o que de bom ofereces, mas como um eclipse, surge tudo o mais que não aguento, e sai-me "Como é que algo que nos torna mais do que somos, que mal caibo nesta altura toda, pode deixar em mim uma falha sísmica tão desoladora?", e tu, cientista, tu, para quem a matemática é a suprema viga mestra das voltas do planeta, tens resposta pronta: ""Porque deixas. Porque isso de sentir é para quem gosta de descer lentamente à sepultura. Amar alguém é entregar um botão a outro, e esse botão, uma vez pressionado, dá-lhe o direito de te explodir quantas vezes as necessárias para que nada sobre, e caias sob o peso da tua própria felicidade. É uma lei universal da energia: quanto mais dás, menos tens; uma vez sem nada, ficas isso mesmo: ficas nada." Mas eu não me sinto nada. Pelo contrário, desde que te te deixei ao largo que me sinto demasiado, seja em confusão ou sentido ou talvez demasiado cheio de estar vazio; e nem toda a ciência e lógica podem fazer sentido ao que me rói: como é que fazer algo que é bom para mim é também passo largo para me maltratar como se fosse o meu inimigo eterno. De certa maneira, sou.

Uma palmadinha nas costas, e sorris. "Pois, mas é assim o mundo", e este é o código de quem não percebe nada, e acha que no meio dessa selva aleatória do ecossistema humano as coisas podem fazer sentido só porque sim, e porque tudo tem uma maneira de se entender, mesmo que não haja explicação. Achar que se pode amar alguém com quem não se poderá ficar, e mesmo assim permanecer inteiro o suficiente para viver o mundo. Sou pedaços, partidos e espalhados, e como arames que se atraem por um pólo magnético, continuam a encaminhar-se para ela, que não é minha, nem pode, e continuará a sua vida, enquanto eu me sento com alguém que claramente a percebe, mas não a conhece. Quando me despeço do cientista, ele fica entregue a cálculos, mas eu permaneço o resultado de uma soma mal feita.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Movimento



Arranquei quando o sol chorava, pois estava de lua. Girar a chave para dar um giro apanhou-me de surpresa, mas de certa forma estava à espera que o carro me levasse para longe dali e para perto de mim. Não me lembro bem o que me incomodou dessa vez. Talvez a grande pilha de pequenas coisas, ou pequenas coisas empilhadas à grande. Caiu-me tudo em cima, e a solução foi saltar dali para fora. Uma estrada é uma via de comunicação, mas quando estou fechado no interior de um carro, corta o acesso ao mundo, enquanto me conduz a um universo que me espera num encontro ao qual insisto em chegar atrasado. Cansei-me disso, e hoje vou partir no alcance da hora marcada.

Lembro-me de quando parei, ás 4 da manhã, no topo da montanha, e aí fiquei, comendo amendoins, até ver o sol nascer, enquanto a solidão do mundo me acompanhou; recordo-me a viagem de 36 horas até ao centro do deserto, onde renasci, e morri, e ressuscitei e quando voltei já não era o mesmo; vagamente me surge defronte dos olhos um clarão de luz que era uma indistinta cidade, onde encontrei duas aventuras, uma delas com pernas. A outra, sem pernas, foi a presença caridosa da noite, dando-me colo e escrevendo segredos no meu cabelo. De manhã, nem me lembrava delas, mas lembrava-me das pernas e esse talvez fosse um dos mistérios da noite; há na minha cabeça a ténue miragem de calor que a praia me trouxe, há dois meses, quando dormi três noites seguidas na areia numa preia-mar da alma. O sal da água conservou-me fresco, e em cada mergulho, mesmo a 10 graus de temperatura, sentia-me primordial e único, um pequeno corpo num grande corpo sem fim visível, mas com ele assinalado, um pouco como o empurrão que me leva à água até os meus lábios ficarem roxos, e eu ser quase insensível ao tremor, e aquele prazer de me enrolar na toalha e ficar sentado numa conversa de pupilas sobre um púlpito de areia,l uma oração a Nossa Senhora do marulhar, murmúrio de avé maria das ondas, bendito sou eu entre os perdidos que se encontram fora do mapa. Cuspi todos os mafarricos numa pedra, e fi-la levitar várias vezes até entregar ao mar o que eu próprio não sei fazer desaparecer. Dizem que nada lá fica, e que o vasto espelho reflectirá tudo o que nele quisermos perder; e por isso, nunca mais fui ao mar.

Não sei para onde o hoje me puxa. Talvez para o amanhã, mas sempre preso a ontem. Estilhaço-me, e vou a dez mil sítios, rodo como uma ponte que deixou para trás os pilares, corroídos, e não sabe bem se caiu no fundo do rio ou se ela própria é o fundo de qualquer coisa. Quando me partir em tabuleiros, não serei passagem para ninguém, mas eu próprio pararei para tomar notas. Uma caneta e um bloco, um caderno de suspiros e tremores, alguns dos teus lábios, alguns dos meus, todos no chapéu do mundo. À pala de ti, dou por mim empalado. Em Guarda, ou noutro lado qualquer. O carro avança e eu já sei como começar o traço nas folhas. Era uma vez o que foi vez nenhuma, mas o que também aconteceu sempre que fomos. Talvez viaje para longe de ti, mas será isso possível quando és o meu meio de transporte para fora do estrondo do mundo em chamas?

O acelerador do carro não responde, nem me mete travão, mas não é motivo para marchar atrás do que não nos eleva.

terça-feira, novembro 04, 2014

Lisboa e a menina moça



Voltei onde já fui feliz. Onde, quero eu crer, ambos fomos. Desta vez, para evitar um deja vu em câmara lenta melancólica, evitei Sete Rios e desci no Oriente. Foi estranho, isto de pôr os pés numa cidade que nos diz tanto e ter de conjugar-me no singular. Senti a falta do monóxido de carbono do terminal, senti a falta de ver o teu carro e de entrar para um mundo de coisas boas numa viagem de dois dias, da casa carnuda em que recebias os meus lábios, dos teus olhos a saltar à corda com mil e uma coisas que faríamos, e até aquelas que sabíamos não caber no nosso tempo disponível, ainda me lembro muito bem da falsa espontaneidade do teu sorriso, quando querias convencer-me de que era daquele momento, mas eu sabia bem que era de sempre, de todos os dias da semana em que, não estando comigo, te imaginavas. Chegar a Lisboa era regressar, de facto, e a mim mesmo. Ao que queria ser, pelo menos, e quando estava contigo, senti-me muito próximo. Nunca pensei poder sentir-me em casa numa cidade onde raramente estivera; e no entanto, acontecia de todas as vezes que, em Lisboa, me acolhias.

Recordei tudo isto. Recordar é dar corda ao coração, que se for uma caixinha de música, com engrenagens bem colocadas, toca-te ainda canções que aleijam, mas também confortam. Voltei e não te encontrei, mas sem te procurar, reconheci-te. Sozinho, no meio de um nenhures contemporâneo, cheguei a fechar os olhos para te dar a mão, e até deste, ou eu quis, por momentos, voltar a ser quem já não sou, pelo menos enquanto me tenho, mas sei que nos horas livres do pensamento, ainda vamos aos locais onde fomos, em plural, passar os nossos momentos singulares. Cenas passam na tela, e na sala de cinema os beijos são pipocas, e tudo o mais luz que se desvanece na escuridão e projecta as imagens no ecrã. Já sei o final. Mas continuo a ver, porque as surpresas só me agarram quando não lhes pego. Ali, parado de pé, a nostalgia passa em IMAX, e percebo então que vives em mim como um copo que se bebe sem que moleste a garganta, uma bebida que preciso para enfrentar o resto, mas já deixando de ser alcoólico. Revestes-me num silêncio que partilho,sem que realmente o tenha contigo, e Lisboa volta a ser nossa, ainda que não seja realmente de ninguém, e eu juro que consigo ver ao longe a tua silhueta e sorrimos um ao outro, encolhendo os ombros, com a vida em ciclovia e nós sem bicicletas.

E sem medo, damos as mãos, já sentados, e permanecemos num caos silencioso e desordenado. Não sei se morrerei um bocadinho de cada vez que vivo esta cidade, digo-te, e talvez isso faça parte de me refazer, até porque és tijolos. Sobes para cima do meu muro, e sem teres intenção disso, desapareces felina, o sorriso o último vestígio de que estiveste não estando. Tranquilo, anoto algumas palavras. Farei delas isto que se lê, e algo mais que guardo em mim, um pequeno gira-discos onde o teu riso passa em stereo quando fecho os olhos e quero ser mais um a crescer em mim. Sem dor, sem mágoa, sem mais nada que não uma centena de peta-zetas na memória, cada uma um brilho na tua cara. Em Lisboa, lembro-te menina, lembro-te moça, e o melhor de tudo, lembro-me menino a teu lado, sem querer crescer à força.

Não me esqueço, mas paro de me lembrar. A melancolia tem o seu momento, e outros, aos seus ombros, se tornarão também um exercício de faz de conta; e quando me levanto, regressaste ao carro, a Sete Rios, e aos meus braços. Estás bem, estás comigo, embora eu também esteja noutro lado. Posso ser muitos, posso ser uma versão melhor do que sou, e uma pior, e esta que sou agora é talvez a mais conseguida da possíveis. Mas no carro, abraçados, ficas com a versão que me melhor te encaixa: a que ajudaste a fazer nascer; e aí, podemos mesmo voltar onde fomos felizes, e ficar assim para sempre.

terça-feira, outubro 28, 2014

(Uma gaiola de ideias)



As horas de mistério não se resolvem com os ponteiros. Escondem-se ainda mais nas engrenagens do relógio, e não saem de lá até que aceitemos o tempo como paciência que responde às nossas inquietações. Chego ao equinócio de estações baralhadas, procurando a lenta mudança com sofreguidão e fome, mas não existe neste tempo qualquer banquete: petiscam-se os dias, e espera-se que grão a grão se encha o papo de contentamento trocado. Há dias onde estou bem aqui, evitando-me um quarto nas maçãs de Julho, e esses são os melhores. Esquecer é a parte mais importante da memória, apagar é muito melhor do que guardar e despir as palavras dos seus casacos afiados deixa-nos protegidos contra a anemia da dor; e de todos as vezes que a cama é uma rampa de lançamento para a incógnita do que virá, sinto a vontade de procurar o que tenho e herdei, mas em tons de novidade. É estranho como habitam em nós tempos diferentes, enigmas irresolúveis e um odor a velocidade ilegal de todas as vezes que o vertiginoso poder de nos afundarmos em nós resulta na descoberta de um outro canto de paragem obrigatória. Somos cidades: cada memória, uma casa; cada hora dessa memória, um beco; cada minutos dessa memória, pedras de calçada; e o infinito da lembrança são todas as luzes que na noite do dia se acendem e tornam o alfabeto dos olhares caídos em poesia das cores e prosa da pele. Existir é um ponto de encruzilhadas e cada uma delas cobre-se de horror e espanto em quantidades que não cabem no corpo que se arquitecta em estruturas pós-modernas, sendo que o moderno é não querer lembrar, não querer sentir, e o corpo está bem para lá disso, estás em pós, sem fazer pó do que nos recusamos.

O relógio é o meu corpo, que tem para o tempo a dívida de ser o máximo. O que está dentro do meu corpo, e que o tempo não vai corroendo em pequenas mordidelas ferrugentas, pertence ao que não se pode sequer contar, e só de tentar descrever sem parecer ridículo; e nessa confusão de não saber estar sem conhecer, adivinha-se e erra-se, e volta-se a tentar, e enquanto não se perceber que viver é uma série de passos, e não um plano, a dor é uma poltrona com algemas. O tempo tem várias moradas na cidade. Procuro a minha, e aquela que não sendo minha será um dia.

As horas de mistério são por isso nómadas, e serão sempre de mistério porque não têm respostas: apenas adivinhas em formas de respostas. Por isso mesmo se agrupam maratonas de letras sem que se chegue realmente ao final. Corre-se, apenas; e as horas corridas são as únicas que se aproveitam, ainda que não se entendam.

sexta-feira, outubro 24, 2014

Num outro planeta



A casa na floresta criava raízes sem código postal, e durante todo o ano nem sequer desfolhava. Vivia apenas em dois dias anónimos do calendário, quando Ele chegava do Sul e Ela do Norte. Era como se a realidade abrisse um rasgão, e Eles sem pedir licença entrassem e se encontrassem na casa sem qualquer tipo de indicações. Não era combinado, não era falado, mas acontecia, simplesmente. Um pouco como a casa. Ele e Ela tinham-se conhecido quinze anos antes, num concerto. Ele ia sozinho, Ela com duas pessoas. Uma delas era o marido, que desfiara no novelo de tempo nós capazes de obstruir a maior das aberturas. Viviam há dois anos, e já pareciam trinta, mas volta e meia gostavam-se e sorriam-se e trocavam banalidades comuns, e isso chegava-lhe. Não lhe interessava que o marido não conseguisse distinguir Bela Bartok de Bela Lugosi. ela era a sua bela, e isso chegava-lhe. Pelo menos, até vê-lo. Demorou, estava três filas à frente. Muitos ali pareciam viver a música, mas apenas ele se sentia à vontade o suficiente para lhe chamar existência. O movimento do corpo era um avião para fora daquele espaço, e foi a primeira vez que se cruzou com ele, algures nos céus onde ambos repararam que a intensidade é uma apresentação melhor do que o olá. Olharam-se, ele não voltou a ver o palco, e estava sozinho e ela só acompanhada, e quando os lugares da sala desapareceram só ficaram eles e uma redoma de som bandido na transumância dos afectos. Findo o espectáculo, o pretexto foi simples: Ele percorreu todos os lugares só para chocar com ela. Disse a si mesmo que era simplesmente para tocá-la, mas mais tarde pensou que se não lhe chegasse a tocar, era como se Ela fosse tão vaporosa como as notas, e sobrasse apenas como o breve produto de um abdominal da memória. O marido falava baboseiras e mais interessado no palco do que no espectáculo, não reparou quando Ele deixou cair um cartão nas mãos dEla, e nem lhe disse nada, mas Ela soube logo, e roçou com o dedo na perna dEle porque queria agarrá-la e fazer dela um instrumento de percussão, e viver na sua intensidade, na esperança de que não houvesse maneira melhor de sentir a música do que interpretá-la no corpo de alguém que a vive.

Telefonou-lhe no dia seguinte. Ouviram as suas vozes, mas as palavras ultrapassaram-nos. Tudo era demasiado veloz, e dois dias depois encontravam-se, Ela descobriu que ele também era casado, com uma mulher que não dizia baboseiras, mas se babava por banalidades de vez em quando, o que o aborrecia banalmente. Não se conheciam, mas sabiam-se, desde o momento em que sorriram à mesa e sentaram as vidas num copo, e meia hora depois, confessavam intimidades depois de terem sido íntimos. Uma vez no carro; outra no parque. Ambas sem música, ambas sinfonias.  Bateram palmas um ao outro, beijaram as tábuas do palco, e nesses beijos encontraram mil e uma razões para mudarem tudo ficando na mesma. Os lábios ganham coragem, mas não a devolvem, e por isso nunca se atreveram a fazer par. Sabiam apenas que não conseguiam estar no leito do rio sem saberem que havia no meio aquela ilha; mas por outro lado, viver na ilha seria sempre curto pelas inundações que acontecem quando chove demasiado e a ilha é limitado espaço de protecção.
Há uma certa segurança na banalidade, disse ela. O medíocre é a nossa referência quando a vida nos entrega moedas de lata e queres comprar o que não podes. Compras o que vai chegando, e se tentares saltar demasiado, perdes-te e nem sequer cais no chão.
E Ele percebeu então que nunca seriam ambos. No entanto, podiam dar-se ao luxo de se enriquecerem uma vez por ano, pensou, e disse-lhe, e ela concordou. Mais  do que uma vez seria tortura, e menos era apagar esta batota, e há que trapacear de vez em quando, só para saber que os limites da vida foram feitos para se saltar à corda. Naquela noite, naquela altura, deitaram-se a perder sem que tivessem algo mais a ganhar que não fossem dois dias. Apenas  e só, e há quem não se perca por uma vida inteira. No meio da cobardia, dois dias era um grito de coragem, um incentivo a serem mais. Mas nunca foram mais, porque  a vida é muita vezes pensada por fases, quando se tratam de momentos. Eles preferiam momentos ocasionais a um nada possível. A certeza do pouco e a incerteza do muito são irmãos gémeos e vestem de igual. No entanto, um calça sapatilhas para correr, e outro escolhe sapatos na ilusão de que a boa aparência é um estado civil.

Descobriram que se faz muita coisa em dois dias, quando a afinidade das pupilas dispensa o tédio das palavras. Caminham descalços, e deitam-se no encalço das árvores, e das folhas. Não entram na casa antes de fazerem uma casa só para eles; e quando abrem a porta, é para se deixarem do lado contrário: Ele joga às escondidas com o lóbulo da sua orelha; Ela perde no macaquinho de chinês de cada vez que os seus lábios se põem a jeito no seu pescoço saliente. Emigram um para o outro, e um dentro do outro, e quando estão dentro é como se assistissem de fora ao mesmo tempo, e se percorressem como um carrossel de prazer, aos solavancos, mas cravado e veloz, onde se agarra com força e se grita como se o prazer fosse igual ao medo, e no final se respira de alívio e se repete em cada investida, e em cada vez que ela se aceita como a que gosta de ser fodida várias vezes, até sorrir muito para lá da casa e da floresta, e Ele ser aquela sinfonia intensa que a atraiu, e que de cada vez que ela o segura, todo ou às partes, treme nela uma febre mercurial que não tem cura, só cuidados paliativos,que vão segurando as suas pontas e não são nem banais nem medíocres: são a vida que ela gosta de experimentar sem viver. Aquela casa é redução da existência às unidades básicas: respira-se, come-se, fode-se, dorme-se e repete-se. Por vezes, come-se e fode-se em simultâneo, e nem isto é complicado. Lá fora, até ler ao final do dia é complicado; e de todas as vezes que Ele vai jantar a casa dos sogros, lembra-se sempre de uma feiticeira de joelhos a transformar todas as equações numa conta simples de somar. Ela guarda sempre para 365 dias um em que não tem outro remédio senão declamar poemas de gemido enquanto procura saber se se equilibra tão bem de gatas como em pé. A resposta é não, mas há beleza na queda, uma longa queda de dois dias que termina mal trancam a porta e escondem a chave no buraco da árvore até para o ano. Até se encontrarem num par que é ímpar, e voltarem a ser apenas átomos simples em choque incandescente, no universo daquela casa, deixando para trás poeira e faísca. Ali, durante dois dias, ardem, para que não se apaguem de todo durante os restantes.

São outros; e ser outro é, nos intervalos de se respirar, a reafirmação do que somos sem conhecer.


sexta-feira, outubro 17, 2014

Procissão dos passos



O luto tem cinco fases, segundo alguns entendidos, mas saltei algumas, acho que todas, e estou num local onde nenhuma se aplica. É estranho ser obrigado a viver duas perdas, mas se custa ao início, alturas chegam em que não se tornada complicado escolher. Ambas seguem em frente, mas uma delas é dever e a outra uma escolha ocasional, de entrega a uma dor voluntária que mantém feridas abertas, mas prontas a fechar, com vários pontos finais parágrafos. Faz-se do passado onde habitas um gerúndio, mas no interior, vais-te tornado pretérito perfeito quando um dias foste mais do que perfeito, mesmo depois de já te ter enunciado no condicional, que é a segunda das fases. Num ponto, tornar-te-ás indicativo de conjuntivos, e aí saberei que não és mais um verbo irregular, e que com regularidade te posso conjugar sem qualquer medo de errar no futuro. Não é uma fase do luto, mas também se vive, tem regras como a gramática e predicados que só eu, como sujeito da acção, posso determinar. Sinto de momento que posso pensar em mais do que és, e isso é bom. Certamente no teu canto, trabalhas noutras coisas, e eu também, pelo menos em quatro cidades que cabem num escritório. São passeios onde circulo sem medo, ajudam-me a evitar buracos, e acima de tudo a não cometer erros ortográficos. Sinto-me melhor do que pensaria. O bom nas situações limite está mais no limite do que nas situações; e esse limite é bem mais longínquo do que acreditávamos. A minha capacidade de aguentar dor é muito maior do que me dava crédito, embora haja momentos em que sinto que um metro e vinte de pernas é tão metafórico que vira figura de estilo. Esses momentos passam.

Textos outros há que já só contribuo presencialmente duas vezes por semana. Já nem vejo o local como cemitério, mas de cada vez que entro imagino um recreio escolar. Já fui professor, sei como é. Em vez de campas, vejo carteiras; os alunos têm o seu nome escrito e há faltas de material. Em vez de imaginar o meu pai deitado, está bem sentado, levantou-se da carteira e tem espaço, tempo e acima de tudo vigor para conversar com velhos amigos que não via há muito, inclusivé com o Nana aqui da frente, que, coincidência, está apenas ali a duas mesas, e são quase colegas de carteira. Sinto que em vez de esperarem pela eternidade, todos estão apenas a passar o tempo, e que a rebaldaria começa precisamente quando ninguém vê, nem arrasta a sua tristeza justificada pelo chão calcetado. Reúnem-se como noutros tempos, e voltam a ser, mesmo que não sejam de facto. A morte é pouco isso. Só se deixa de viver quando o nosso nome passa a valer tanto como o pó, e eu sei que o seu nome continuará a dourar durante muitos anos, pelo menos enquanto um de nós que o conheceu for vivo e puder falar de proezas, desgraças e até marretices. A soma do peso de um homem é isso, o que fica para trás e que se mantém à frente, Uma vida não se apaga com os músculos, mas é ligamento para o esqueleto da nossa memória, células nervosas que ultrapassam a bioquímica e numa outra realidade voltam a viver onde nunca puderam estar. Quando estou ali, à tua beira, é isso que imagino. Que de facto a história continua, e não acreditando em planos e cidades divinas e segundas oportunidades, os meus olhos, sinto-o. Quando fecho os meus olhos, vives uma Páscoa. Não tens qualquer cruz, e at+e sorris. De pé, volto a ouvir palavras da tua boca, para dizer que não me penteei. Perguntas se por acaso não perdi a chave do carro, e desta vez não o fiz porque guardei-a num sítio, como sempre me tinhas dito para fazer, e nem te conto de quando há uns dias fiquei trancado a partir de fora. Perguntas onde estacionei, e ele está mesmo ali, tens a certeza que consegues andar e tens bem, até procuras am redor uma barra para fazeres umas elevações, a marca de domínio másculo que Natal sim Natal não gostavas de nos oferecer. Caminhamos para o carro, e só paramos quando atravesso o portão e tens de ficar ali, só porque algém te pediu a ajuda e como sempre, não podes negar. Depois ligas-me, e venho buscar-te. Por certo, estarei aqui mal me digas algo. Nem dizes adeus, mas despedes-te com um ar certo de que compreendo, e voltas as costas, num passo calmo e forte, que põe qualquer alma penada em sentido. Eu peno e sinto-o. Quando chego ao carro, não estás lá.

É esta que me custa mais, tanto que não me custa porque me escondo quase sempre.Só aqui a dor regressa para me forçar as mãos, e para me colocar tudo em perspectiva, a perda e as perdas, o que se perde realmente e o que, no vórtice do ser, apenas já não se tem. Existir é fluxo, tudo a passar e só fica o que se vive. A passagem de uma fase para outra descobre cantos e recantos e aquela velha ideia de sermos realmente muitos é a nossa realidade. Perder é ganhar, de facto, nem que seja comichão. O limite da nossa expansão pode estar nas ilhas dos bem aventurados, e a boa aventura surge quando tudo o mais está perdido, e a única alternativa é deitar o barco ao mar e até aceitar que o proibido está implícito na fronteira do que aceitamos como capaz. Um passo em frente pode ser tropeçar num tesouro enterrado, inesperado e que vai dando ao luto cores alegres, festivas. Um não tem de se ver negro para fazer o funeral da dor. Basta apenas que aceitemos no palco as reviravoltas da pequenina faca que carva os nossos trilhos num mundo de madeira, um pouco como aqueles pequenos mundos guardados numa certa gaveta de uma mesa de carpinteiro onde aprendi a chorar sem uma lágrima.







segunda-feira, outubro 13, 2014

Votos públicos



Neste sábado que passou, tive o enorme prazer e honra de ver uma das minhas incontáveis bocarras a transformar-se num momento de potencial humilhação pública. À mera sugestão de que poderia ser colocado defronte de uma plateia a debitar coisas sobre um personagem histórico português, Viriato, sobre o qual apenas li umas coisas em livros diversos, um amigo que lançou um livro que envolve este poderoso símbolo da resistência, e tomou a deixa para me pedir se não podia, então, passar por expert noutra coisa que não seja fazer figuras de urso. Encurralado pelo pedido sincero e simples, não tive como dizer que não, e foi assim que dei por mim em Viseu a participar num evento que nada tem a ver comigo, e tudo tinha a ver com a figura principal do escritor, cujo entusiasmo era visível, o orgulho indisfarçável, e a ingenuidade da fé que eu poderia contribuir, de alguma forma, para elevar a fasquia do momento um dado adquirido de cada vez e que me olhava com aquele sorriso tonto de quem vai depositar no mundo um labor que sai de nós. De caderno à frente, com uns rabiscos e anotações, lá me pus a falar sobre pastores e guerreiros, sobre montanhas e montes, sobre rótulas para sempre perdidas e oportunidade que devem ser não só agarradas, como calcadas. Palmas choveram, certamente para me calar e interromper uma torrente quase metralhadora de factos, piadinhas e até a proeza de recorrer a "Breaking bad" a propósito da expansão romana na Península Ibérica. Em suma, não comprometi, que era sempre o meu objectivo. Sessão de autógrafos a correr, compra-se um exemplar para guardar numa lista de leitura que por agora deverá estender-se, pelo menos, até aos Cárpatos e num aperto de mão, o novo autor literário lança-me uma questão que tenho ouvido e lido de há alguns meses para cá com mais insistência, mas que está presente desde que uma professora de Português me convenceu de que tenho algum jeito para tecer tapetes de Arraiolos de letras: "Então, quando é que escreves um livro?"

A pressão existe, não é nova. Não posso precisar quantas vezes escutei este desafio, mas foram as suficientes não só para tremer perante o projecto, como também para me orgulhar desse encanto que a minha escrita pode causar no comum cidadão. Numa pausa, deixem que agradeça a toda a gente que me lê, aqui e noutros formatos. Sois todos gente que vive na pacatez da vida, e durante alguns minutos entregam-se aos meus delírios. É corajoso, mas não só: os comentários que me fazem a seguir, os likes no Facebook e o desejo ocasional de saber quando é que sai próximo encorajam-me. Confesso que não comecei a escrever para impressionar ninguém em particular, mas nos últimos meses, também porque comecei a sentir a minha escrita a evoluir para um nível cada vez maior de pureza, sensibilidade e transparência, passa-me pela ideia o que poderei provocar nos outros, nos seus sentimentos, até se aquilo que cravo numa página virtual se pode desfolhar em corações reais.Há qualquer coisa de muito reconfortante nas reacções dos outros, no seu gosto, no seu empenho em permanecer na órbita da leitura que proporciono, como se fossem pequenos planetas em forma humana que tomam as minhas linhas como asteróides potenciais. Saber que já provoquei lágrimas a alguém é embaraçoso, mas agradável em simultâneo; ler que as patetices que me ocorrem nos recantos da noite conseguem, de facto, ajudar alguém faz-me sentir menos pequenino.Quando toda esta curta multidão me tenta convencer a escrever um livro, não é que me abane, ou sequer me sinta obrigado a fazer disso uma missão. Deixo cair a sugestão para um canto qualquer da cabeça, e lá fica ela, a marinar. Eu respeito muito o acto de parir um livro, como objecto de eternidade e montra de mim mesmo.

No entanto, naquela apresentação, enquanto ouvia o meu amigo falar, começou a surgir aquela pequena inveja que só aqueles que sofrem de megalomania intelectual, sem no entanto o admitirem abertamente poderão perceber e aceitar como vulgar: a ideia de que alguém tinha lançado um livro e eu passara dez anos da minha vida com ideias vagas e preguiça tão latente que me colocaria num clube com João da Ega e Carlos da Maia. Pensei em várias coisas, muito na dor que permitia continuar aberta para me inspirar e de como um blog é um reservatório pequeno para acolhê-la, pensei no meu pai e de como seria triste e uma vitória em simultâneo poder deixá-lo viver uns anos mais entre nós através de páginas de papel. Numa neblina, num fogacho que pode até apagar-se, a ideia de arrancar de mim qualquer coisa de minimamente editável incomodou-se e não se deixou tapar. Manteve-se e mantém-se por aqui, e obrigou-me, mal cheguei a Coimbra, a recorrer ao caderno onde anoto todas as ideias, por mais incipientes e diáfanas que sejam. Surgiu ali a febril procura por uma desculpa não para fugir a algo que toda a vida me rodeou, como uma matilha de desejos, mas precisamente para finalmente me colocar numa rota de colisão com um dos meus maiores receios: o fracasso.

Faço aqui então, a todos vocês que me incentivam e que foram, lentamente, plantando a ideia, a promessa de que no espaço de dois anos tentarei escrever um livro. Não me quero comprometer a editá-lo, porque isso são outros quinhentos, mas pelo menos a colocar, de fio a pavio, um tapete para todos espezinharem ou limparem os pés com respeito, entre uma ou outra gralha que me escape como aqui sempre acontece.Nem sequer lanço a promessa de tê-lo escrito. Farei o que posso: tentar. Dentro das minhas possibilidades, e na moleza da minha vontade, é mesmo o que posso fazer. Quanto ao resto, depois saberão.

A má notícia é que terão de me aturar por aqui. Lamento, terão de sofrer tanto quando o público do evento de apresentação do livro que mencionei inicialmente.

quinta-feira, outubro 09, 2014

A sombra e a luz



A brisa vinha do sol, e as sombras talvez tivessem sido sopradas também; mas entre os ramos das árvores recortavam-se formas que montavam acampamento em torno da nossa toalha. A ideia do piquenique foi tua, mas a ideia de te evitar fora minha. No entanto, certas ideias não foram feitas para vingar, e a minha foi uma delas. Trouxeste o cesto, pediste-me apenas que levasse a toalha, e eu assim fiz. Querias que reparasse em ti. Há algumas semanas que nos tínhamos conhecido, e desde então que fizeras de mim a tua missão pessoal. Cada gesto meu encontrava um espelho na tua reacção, e se eu falava, tinhas logo qualquer opinião para lançar, ou uma simples piada que não me fazia rir, mas me dispunha a ser posto em sentido pelo teu sorriso. Nas poucas vezes que me convenceras a sair contigo, o teu pequeno espectáculo revelou-se, e o palco das ruas iluminava de cada vez que os teus olhos me tratavam como a única razão para se viver na cidade. Há duas noites, sentados no parque, ensinaste-me trezentos nomes de espécies de árvores, quem sabe pela pura vontade e nervosismo de criares raízes em mim. Criavas curvas com as frases, cada letra uma vertigem, cada ponto final uma corda suspensa convidando-me a agarrá-la. Em mim, habitava no solitário mundo das casas de árvore sem nome, e se reconhecia a floresta que plantavas em meu redor, na esperança que te desse a mão na clareira restante que com tanto cuidado criaras para mim, fingia que não estavas lá. Cada passo teu era um buraco que te criava, e nas tuas vontades, fazia-me de preguiça.

Nos teus cabelos existem segredos, mas não os meus. Esses estão dentro de mim, e não os conheces, nem à extensão da planície de vendavais que é o meu planalto emocional nas montanhas do que já passou. Não te vou dizer, porque quando solto a tempestade, envelheço mais depressa. Cada vez vez que amei sem retorno, esmoreceu e sumiu um pouco da minha alma, e o meu maior medo é que não sobre sequer o suficiente para me tornar fantasma depois de morto. Tu sorris um chamamento, eu pressinto uma armadilha; vestiste-te para me atrair só a mim, e eu vejo um problema geral; fazes-me rir, e eu quero chorar; cada vez que passas a mãos no meu cabelo, a tua pele é poeira, e o meu cabelo torna-se aço, e tu és a sombra do sepulcro de um túmulo onde já várias vezes fui cadáver, e retornei, e prometendo a mim mesmo que jamais voltaria a morrer, caí de novo em campas pouco sólidas. Aqui, no nosso lugar ao sol, sinto-me no lugar do morto quando tentas, pela força de seres a luz no meio deste parque onde a banalidade também corre e se senta em bancos, soltar-me do que não quero ser, e no entanto é assim que existo. Ainda me lembro do que fui, do que conseguia ser quando me tornavam na floresta dos seus passeios, mas é apenas um rumor que ecoa algures na minha cabeça, que sonha afundar-se, na água que a arraste e não acorde jamais, naquele marulhar do que entra e rodeia, num murmúrio dentro de mim que me afaste das mãos que me querem tirar do fundo, e eu pertenço ao fundo e aqui moro e tantas vezes aqui bati que acho ser esta a minha morada e tu vens não sei bem de onde, porque nos conhecemos através de alguém que desconhece alguém e mal tem conhecimento de mim, e engraçaste com o que disse, sem que tenha dito sequer algo de engraçado, e colocaste na tua cabeça que era eu, e não outro habitante da superfície, quem querias trazer para um piquenique, fazer feliz, talvez beijar, e sorrir ao ombro, descobrindo não uma floresta, mas um ecossistema total onde te tornes auto-sustentável.

É natural. Mas arrumado este lanche, passas para a sobremesa, e o teu sorriso dá lugar à alegrias entre dois lábios. Inclinas-te, eu tremo um pouco e desvio-me. Num segundo, sabes que não é de ti. E perguntas o que fiz eu. Porque é que não te consigo dar a mão, e quase sem lhe dar tempo para que se recomponha, dou-lhe a mão e digo que não é nada, que na palma da minha não há nada para ti. Não há nada que a faça crescer. Que mais tarde ou mais cedo, ela vai fazer como todas, e vai-me dizer que há vida para além do que se vive, e que se amou enquanto se esteve e isso é o mais importante. Mas o mais importante é mesmo estar,e quando ela não estiver, morrerá mais um pouco do que me dá vida, vai-se ela embora e eu fico em câmara ardente até só ficarem as cinzas. Desconfio quando me torno o desejo de alguém, e quando me oferecem abraços que se querem tornar cobertores. Tudo aquilo que representas é o que não acredito, e o que deixei de acreditar: que algures exista quem se dê ao trabalho de me fazer seu, ou se entregue ao ponto de se tornar minha de vontade própria e sem pensar que fica dividida ao meio. Quem, elevando-me, pode acompanhar-me no voo. Quem não é obstáculo, quem me traz para piqueniques e no meio da fúria e da dor, dá o beijo que me deste agora para me calar, porque estou a falar há tanto tempo que já nem me lembro, no meio do beijo, a razão por que te recusei, e quando as tuas mãos são veludo na minha cara, a tua boca como que apaga tudo o que queria dizer e se deixa estar, lendo o meu vazio, mas em verso, quando este era prosa.

Beijas e nem foi necessária qualquer pergunta. Estendes-te na toalha e deixas espaço para mim. Não há convite, e eu aceito-o. Dás-me o teu ombro e olhas o céu. Dizes-me "O agora é nosso. O amanhã será, mas ainda não veio. Como não vivemos lá, não conta. Este ombro existe, e a tua cabeça também." Agarras na minha mão, coloca-la sobre o teu decote, e lanças-me "Prever o futuro é muito bonito, mas o teu está aqui escrito e já assinei por baixo. Podes escolher o teu destino de cinzas ou estares destinado a queimar-me. Não te levo comigo, mas gostava me levasses contigo ao que não viveste e queres viver, ou então ao que sonhas repetidamente à noite, ou mesmo quando ouves da minha boca, e com paciência, trezentos nomes de árvores. Da minha boca, ouvirás o teu; e eu da tua, quando ouvir o meu, é como se tivesse sido novamente baptizada."

Não sei se leste isso algures. Quando acabaste. lembrei-me porque escolhi ser alguém amando. Porque o teu ombro é céu, e porque o teu beijo foi um foguetão.A minha mão pousa nas nuvens, e quando os nossos olhos se cruzam, dou por mim ansioso por descobrir onde se escondem as estrelas