sexta-feira, janeiro 25, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: cinco frases


A caneta percorre o papel como eu gostava que os meus dedos desenhassem suspiros na pele que te reveste o brilho. Fixo na folha pequenas taquicardias que nunca aparecerão nos exames. De vez em quando, paro e tento acertar-me, mas deixas-me sempre errado. O pior é que me convenço de que estou certo, e que erro quando guardo os papéis na gaveta. É a minha vida, num papel químico estragado.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: quatro fases


O relojoeiro deu-lhe corda e explicou que só começaria a trabalhar quando chegasse a hora. A hora de quê? De ele trabalhar. Saí da loja, e vi-te cinco minutos depois: o meu coração fez tique-taque.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Os "amigos" do amigo



A tolice pode originar fenómenos fascinantes. Nesta perspectiva, o princípio de "Vox Populi" é um dos fenómenos mais fascinantes de todos. Em grande ou pequena escala, a regra "a maioria decidiu, é o melhor" tem redundado em decisões incompreensíveis ou, a longo prazo idiotas. Podia citar um caso recente, que conduziu à confirmação daquele velho lema "BAS" (Vítor Hugo, onde quer que estejas... RTM), mas prefiro chamar a atenção um outro mais geral e que se senta agora nu cadeirão em S. Bento, a manipular os destinos do nosso país.

Nada contra a democracia, aliás. É o sistema de governação mais justo, se bem que pode ser dobrado, pois conta com a participação geral. No então, não se pode classificar a democracia de "inteligente", porque se baseia no nosso comportamento (e, em raros momentos, na nossa inteligência). Nem precisamos de ir às urnas para confirmar este facto: as redes sociais onde passamos uma boa parte do nosso tempo e gastamos bastante energia intelectual atestam-no. O caso particular que me tem despertado a atenção é o do Zico, um cão alentejano (que, pelo que leio, é mais simpático e imaculado do que a irmã Maria de "The sound of music"). Leio na diagonal textos de "amigos dos animais", gente que defende, no que escreve, que um animal pode ser equiparado a um ser humano, e que por isso Zico não deve ser abatido. Não está escrito, mas fica subentendido que Zico deve também receber miminhos e um prato com Pedigree Pal.

Esta gente é idiota que dói. Convém revelar, antes que estereótipos sejam brandidos, que fui o orgulhoso dono de um cão durante oito anos. Esse cão morreu há três meses e meio. Nesse espaço, não consegui pegar nas minhas mãos para escrever sobre ele ou sobre o facto. Gostava realmente dele, e lamento não ter feito suficientes coisas por ele e com ele.Ainda me dói lembrar-me da morte em forma canina nos meus braços, e vislumbrar-lhe nos olhos, momentos antes, essa certeza de que a vida tinha posto travão e nada mais havia a fazer. Partilhar esse momento esmurrou-me lágrimas dos olhos, mas fez-me entender melhor o que passa pelo ânimo de um cão. Logo, eu não odeio animais. Não posso. Adorava o meu cão, uma criatura idiota que lambia a sujidade e preferia a chuva à protecção de um telheiro. Uma coisa que tive sempre presente na minha relação com o bicho é que estávamos em patamares muito diferentes: ele é uma criatura pura de instintos, eu um ser que recebi uma educação que me permite dominar esses instintos quando estes representam um perigo para mim ou para os outros. Um animal não é uma propriedade ou um objecto; e por muito que nos apeteça, às vezes, não é um escape para as nossas frustrações emocionais. É imprevisível e pleno de natureza. Ter um animal é um risco, precisamente por isto: porque não somos iguais. Nós podemos ser responsabilizados, eles não. O meu cão mordeu-me, várias vezes, e arranhou-me. Ninguém cá em casa o treinou para ser feroz: é a sua natureza. Tolice é pensarmos que podemos contorná-la ou desligá-la apenas porque nos relacionamos com eles. A beleza de ter um animal é podermos ler nele e nas suas reacções o que quisermos. Pensarmos que sorriem e que se dispõem a amar-nos, quando o laço que nos une é um pouco mais complexo do que isso. Os animais estão connosco numa relação de dependência e confiança. Por um caso de extrema fidelidade canina, há noventa e nove de que ninguém fala de cães que foram à sua vida.

Não acho que o Zico mereça ser abatido. Mas daí a torná-lo um mártir ou fazer dele uma criatura inofensiva que nunca morderia ninguém é apenas uma ilusão em que vive uma série de gente que acha que humanos e animais são irmãos e vivem neste planeta em igualdade. Pensar isto não é ser amigos dos animais: é um exercício de animismo perigoso, falso e que quando repetido muitas vezes, se torna numa verdade que é difícil abanar. Os "amigos dos animais" têm razão, se calhar: animais e humanos estão em níveis diferentes; mas se calhar, não todos os humanos; e principalmente, não da maneira como estes "amigos" me querem pregar,

sábado, janeiro 05, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: três frases


A minha natureza é inerte. É por isso que amar-te me coloca em vias de extinção. Protege a minha espécie.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Uma moedinha no meio dos olhos




A cidade moderna como exemplo de decadência é um cliché deprimente da arte moderna. Seja em "Blade Runner" ou "Se7en", a visão das nossas urbes surge contaminada por um mal-estar semelhante ao provocado pela visita a um balneário masculino que não é lavado há uma semana. O motivo apresentado, por regra, é a desumanização que a vida nas cidades provoca no ser humano. Parvos intelectuais. A razão é muitíssimo mais simples e é simbolizada por uma criatura que vagueia entre nós, mais perigosa do que um terrorista muçulmano, mais irritante que a criança nascida da união entre o Quimbé e o Nuno Eiró, mais sebosa do Jorge "Jabba, the Hut" de Brito: o arrumador de carros.

Nuca escondi o meu ódio particular a esta espécie de criatura. A palavra "ódio" não é hipérbole, pois dentro das minhas entranhas, misturam-se sucos gástricos e mentais que produzem o arreganhar de dentes típico de quem não pode ver determinada pessoa, coisa ou ameba à frente. Conduzir é, por acaso, algo que me relaxa. Adoro meter-me num carro, colocar música a tocar e conduzir, nem que seja para aviar uns recadinhos aqui perto. No entanto, quando, preparando-me para atracar o veículo, me deparo com uma dessas criaturas, a onda zen esbate-se no areal e dá lugar a caranguejos que me apertam o cérebro. Podem dizer que tenho problemas com homens de aspecto oleoso, mas não acontece isso. De facto, se me aparecer à porta um desses indivíduos a representar uma associação de não sei quê que recupera toxicodependentes, lido com eles com calma e pose. Posso não lhes dar dinheiro algum (porque desconfio de quase toda a gente que, não me conhecendo, me bate ao portão e me quer falar sobre droga), mas permaneço a menos de um metro e dispenso atenção. Corrigindo, eles roubam-me a atenção. Mas é por uma boa causa: por dois minutos, pareço humano.

O meu problema com o arrumador é o mesmo que tenho com mafiosos: são criaturas que se movem em franjas da sociedade onde a lei existe, mas se finge que não. Quando paira sobre nós a ameaça de danos materiais no veículo que tanto estimamos, caso não paguemos a moedinha costumeia, isso tem um nome: extorsão. Aliás, estamos a pagar o quê? A minha mãe dotou-me de dois olhos para encontrar o lugar que essa criatura das trevas me aponta! A moeda premeia a familiaridade com que o arrumador me berra à distância "Hei" como se fôssemos amigos? Não percebo bem. Nem sei quem se lembrou de cobrar às pessoas por absolutamente nada, a não ser o não cumprimento de uma ameaça nunca exprimida, sempre subentendida. É o que esquema perfeito: não podemos ir à polícia queixar-nos, porque não há nada a queixar.

Se estes tipos, em vez de arrumar carros, estivessem nua juventude partidária, o país seria desmantelado a um ritmo impressionan

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Pedido pungente que não envolve crianças, animais ou doenças terminais


É muito difícil de explicar um acesso de inferioridade, mas como toda a gente (tirando Mourinho, os filhos de Tony Carreira e Madonna) teve pelo menos um, presumo que percebam um pouco do que me apoquenta. Talvez não totalmente, eu nunca percebi muito bem de onde me vem isto ou o que o causa. Mas existe e tenho de lidar com ele. Não me é difícil admitir que tenho este problema. Quem lida e lidou comigo sabe quantas vezes me queixo disso, ao ponto de me tornar numa companhia pouco agradável. No entanto, só me apercebi do quão incapacitante e profundo este estado se tornou neste ano. Não houve um momento específico, um lapso de tempo ou momento de claridade turva que me indicasse que estou perto do fundo. Mas olhei e vi a falta de prazer que tenho em actividades e gostos de que desfrutava com largueza e autoridade, considerando como certa a minha personalidade baseada nesses pilares. Mas hoje, duvido. Duvido de mim bem para lá da capacidade: duvido até mesmo na existência e naquilo que me constrói e me edifica. Pior ainda: aproxima-se a semana do ano que mais me custa. O que peço neste pequeno texto é que tenham paciência. Tentem compreender e mostrem mais humanidade do que aquela que vos demonstro. Um bocadinho, pelo menos. Ajudem-me a ultrapassar estes sete dias e chegar a 2 de Janeiro pelo menos na mesma condição em que me encontro nesta noite de 23 de Dezembro. Eu agradeço-vos, de uma maneira ou de outra. Talvez a escrever, que ainda é das poucas maneiras com que alegro a populaça desse lado. Um obrigado de antemão.

Não se preocupem demasiado. Amanhã, deixarei aqui um apontamento sobre arrumadores de carros e verão que continuo intratável como sempre.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

O amor perfeito é aquele que não existe: duas frases


Sento-me, olho-te, desvio-me e evito. Por fim, aceito e temo e entrego-me e fujo, para voltar só porque regressar é a melhor parte de gostar.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

O amor perfeito é aquele que não existe: uma frase


Pego nas tuas palavras, faço a minha cama e deito-me numa almofada em forma de faz de conta.

quinta-feira, novembro 29, 2012

Hipermetropia



Já não é de agora que considero a disciplina de voto algo que vai contra qualquer tipo de comportamento democrático básico. Não é mais do que um conjunto de pequenas ditaduras, politizadas, que controlam as acções dos seus membros através da chantagem. O que está em jogo, para estes deputados, é o seu futuro na próxima legislatura; e num país como o nosso, que cria colónias extensas de homens e mulheres com uma espinha dorsal mais maleável do que plasticina, não é admirar que prefiram garantir a sua sobrevivência a cumprir o dever para que foram eleitos pelas populações. Que diabo, muitos de nós reclamam, mas fariam o mesmo. Da maneira como este clima de medo pelo futuro está instalado, ter opções para o futuro é um luxo a que só não se agarra quem é burro, ou em princípios. Esta estratégia não é mito diferente do pendor corporativista não oficial do Estado Novo: garantem-se favores a pessoas que nos favoreçam a politica e economicamente e mantém-se o status quo desejado, por muito que prejudique a população em geral.

O Orçamento de Estado de 2013 marca um momento interessante na democracia portuguesa: ninguém, a não ser 10 marretas no Governo, parece concordar com ele. A Oposição manifesta-se ruidosamente, o PS transfigura-se para Oposição só para poder protestar com aparente legitimidade e os deputados do PSD E CDS-PP aparecem melindrados, dizendo que é necessários rever algumas medias. No entanto, o máximo que conseguem reunir na sua revolta é uma carta com uma dúzia de chavões inofensivos que soa aos gritos desesperados daquelas crianças que fazem birra, mas sabem que vão comer sopa na mesma. Passa peça cabeça de alguém que não se concorde com algo que se vai aprovar? Aparentemente sim, e considera-se normal. Pedro Passos Coelho negou enfaticamente, numa entrevista que houvesse cisões na coligação, assoberbando que se tal coisa existisse, o CDS-PP não teria votado afirmativamente na proposta orçamental. O cinismo arrepia, porque até o Zé Tolas que só cumpriu a 4ª classe e cujo único Marx que conhece tem como primeiro nome Richard, reconhece as movimentações que serpenteiam no lusitano directório. Se antes tudo passava despercebido, agora só quem é verdadeiramente sagaz consegue criar uma capa fina de distracções; e Passos Coelho é mais óbvio do que uma boa de macadame num campo de algodão.

Nada que importune o primeiro-ministro. Com um braço-direito que representa o papel de Tom Hagen na família Corleone, embora sem a pinta de Robert Duvall, trucida escândalos atrás de escândalo, asneira atrás de asneira, com a confiança que só pode ser devida a um ego inchado como um balão de ego. Auto-confiança e governação não se anulam numa boa governação. Alguns dos nossos reis mais proeminentes tinham um ego que reduziria qualquer elemento masculino da "Casa dos Segredos" a um elemento de decoração, mas temperavam isso com bons conselheiros e uma capacidade de compromisso. É verdade que D. Afonso Henriques correu a mourama à espadeirada, mas quando pôde, resolveu a conquista de cidades pela via diplomática, permitindo a coexistência entre muçulmanos e cristãos (e muitas vezes judeus) no espaço da mesma cidade, com regras exigentes, mas direitos para as várias religiões; D. Dinis permitiu a presença de proscritos religiosos no nosso país, através da formação de novas ordens, e muitas vezes contra a vontade de boa parte dos reis europeus, conseguindo com isso uma vantagem que se revelaria importante na época das Descobertas; D. João II era um homem implacável, mas sábio o suficiente para permitir a presença de ciências exteriores à Cristandade no seu seio, o que contribuiu para a nossa superioridade temporária na Europa. Estes três exemplos reconheceram o óbvio; há via para lá do seu umbigo e num mundo de bem, pretende-se que o bom senso seja um auxiliar importante de governação.  Passos Coelho que não acredita nessas coisas: usa Vítor Gaspar como o seu conselheiro e tudo aquilo que delineou em plano bem antes de ser eleito como primeiro-ministro é feito em seu nome, e de uma entidade obscura que nega num dia o que disse noutro.

Estamos bem arranjados. Até porque não acredito no governo do povo como o mais justo. Não acredito na capacidade de decisão de uma entidade múltipla que revelou ao longo da História o bom senso de eleger Hitler, de apoiar Pol Pot e de carregar aos ombros Tony Carreira ao pedestal do estrelato. Ficamos com quê? O vazio; mas mesmo esse, calculo, corre o risco de virar paraíso fiscal. 

quinta-feira, novembro 22, 2012

É por, ahm, ali


Nunca me deu para pensar nos trinta anos, e continuo a achar algo ridículo que se faça dessa idade um ponto de crise existencial profunda. No entanto, é um facto que foi poucos dias depois de ter ultrapassado essa marca de idade que se me aflorou a destruidora vontade de reflectir sobre o meu rumo. Foi um acto de idiotice superlativa, pois claro, pois quando se é neurótico na escala em que actuo, essa simples dúvida precipita semanas de sofrimento atroz apenas comparável ao dengue na Madeira. Para um neurótico, uma dúvida não é apenas uma lacuna de conhecimento: cria uma manada de gnus cegos a cavalgar pela nossa mente, em círculos, a pensar que um gato doméstico toma proporções de leão feroz.

Não é que a pergunta seja de pouca monta: qual o meu rumo? Neste momento, sou honesto e afirmo que desconheço por completo. Cheguei a um ponto de total desmotivação pela vida que orgulharia o Clube de Niilismo de Bremen, pois não lhe encontro qualquer sentido, nem qualquer objectivo. Acredito que somos nós que orientamos o nosso percurso de vivência, que críamos os objectivos e que as nossas lutas para cumpri-los, entretecidas, formam aquele tapete aladinesco a que vamos chamando vida. No entanto, os retalhos da minha vida não existem. Não consigo criá-los, porque simplesmente não me apetece. Tomara que fosse algo de pontual; infelizmente, espalhou-se para todos os campos da minha vida. Dou por mim a perder orgulho naquilo que fazia de mim Bruno, e a sentir a fuga dos talentos que me faziam pensar que não era vulgar. Ou seja, estou a perder-me, e àquilo que considerava eu.

Ora, a partir do momento em que nos perdemos, como é que nos julgamos capazes de encontrar o resto? É aqui que a minha reflexão pára. Por isso, estou disposto a voltar a mim, seja o que isso for. A reler-me, a descrever-me, a descobrir-me. Nada de reinvenções, que são uma treta. Apenas parar e olhar-me. Não será bonito, mas aplicando uma regressa básica do engate, às vezes, para se conseguir a miúda bonita, é preciso passar algum tempo com a amiga feia. Era nesta altura que pessoas com menos classe fariam um trocadilho com uma das minhas alcunhas de infância. No entanto, este é um recanto onde a classe é tão necessária quanto um esfregão de palha de aço nas virilhas.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Razões




Depois de tirar o veneno, é isto; e até mais. Mas o mais está distante. No entanto, foi para isso que nasci com pés.

Be drunken
Always. That's the point.
Nothing else matters; If you would not feel the horrible burden of Time weigh you down and crush you to the Earth,
Be drunken, continually.
Drunken with what?
With wine, with poetry, or with virtue as you please.
but Be drunken.
And if sometimes on the steps of a palace or on the green grass in a ditch or in the dreary solitude of your own room
You should awaken and find the drunkenness half or entirely gone
Ask of the wind ,of the wave, of the star of the bird, of the clock of all that flies, of all that sighs, of all that moves, of all that sings, of all that speaks, Ask what hour it is, and wind, wave, star, bird or clock will answer you,

"It is the hour to be drunken
Be drunken if you would not be the martyred slaves of Time.
Be drunken Continually, with wine, with poetry or with virtue, as you please."

Baudelaire

terça-feira, novembro 06, 2012

As cinzas da Angela



O meu pai tomou na sua vida, tenho a certeza, decisões questionáveis. Ter-me poderá ter sido uma delas, de acordo com um certo segmento de conhecidos e ex-amigos; mas comprar o Correio da Manhã aos domingos, de há uns anos para cá, é reveladora de um atroz mau gosto que nunca suspeitaria existir num homem que devota a uma Vespa azul clara clássica um amor terno e paternal, passeando-se por ela na ruas de Ceira como quem acha que é dono de um qualquer feudo.

Ao domingo, o jornal traz um suplemento revisteiro que, custa-me dizer, inclui por vezes artigos interessantes. Por muito sensacionalista que o diário jornalístico seja, o seu apêndice domingueiro tem o senso notável de chamar a si bons temas de reportagem e alguns cronistas que trazem qualidade ao jornal (João Pereira Coutinho, mesmo que seja um direitista reaccionário; Adolfo Luxúria Canibal, uma surpresa para quem pensa que os Mão Morta são os Cradle of Filth portugueses), embora haja nomes dispensáveis (Pacman já lá não está, mas ainda permitem a Joana Amaral Dias a triste ilusão de que percebe algo de cinema e pode escrever sobre o assunto). A edição desta semana trazia um curioso artigo onde se pedia a diversas figuras públicas (sim, porque sem as suas palavras sábias, a sociedade morreria... e a revista não venderia) para escrever o que diriam a Angela Merkel, que daqui por uma semana visitará este extremo da Europa. Pois claro que é um passe para gente que percebe bastante de barulho, e pouco de tudo o resto, dizer enormes barbaridades. São José Correia revela sapiência quando afirma que não quer dizer nada (quando não se sabe do que se fala, estar calado, o silêncio e o recolhimento são as maiores virtudes), Rui Reininho invectiva-a a ir a sítios sobre os quais ele próprio já escreveu musicalmente, e o asqueroso Mário Nogueira, um sindicalista em versão parasita, igual a muitos outros que a minha mãe descrevia à mesa quando era pequeno (e substituíram, no meu imaginário, o Papão) lembra a Merkel, com um gosto questionável, os juramentos de Nuremberga.

Bastam uns minutos de passeio pela avenida pública do Facebook para descobrir que nem Nogueira está sozinho na suas patetices  nem a articulação de três ideias diferentes parece estar na moda em Portugal desde, pelo menos, o início do século XX. A primeira-ministra alemã é comparada a Hitler e vestida de nazi variadas vezes, e as suas palavras e imagem distorcidas até um ponto que me parece ridículo, que é, aliás, uma palavra que vai descrevendo o nosso país em várias situações, à falta de uma mais meritória e agradável. Já várias vezes comentei a estupidez e perigo de se cruzarem situações actuais com os espectros do totalitarismo que têm muito pouco a ver com as mesmas. Em Portugal, não é novo. Salazar é tornado zombie quando convém, e o Estado Novo parece estar aí à esquina a cada medida impopular. Nos últimos anos, publicou-se também bastante literatura acerca do ditador de Santa Comba Dão, mas como o historiador António Araújo teve a oportunidade de comentar numa excelente entrevista que li há tempos, a maior parte é lixo e mostra-se incapaz de lidar correctamente com este período da nossa História. É, aliás, questionável que tenha ficado completamente no passado, mas porque, ao contrário do que pensamos, ele não desapareceu realmente. Merkel, como símbolo da nossas frustrações (cargo que vai passando de corpo em corpo conforme os boatos que circulam no Facebook) é vítima desta tendência, que ultrapassa o nosso país, e chegou até à Grécia, num conjunto de manifestações patetas e inquietantes no seu perigo.

Angela Merkel tem a culpa de duas coisas: ter eleições para o ano e ser alemã. Os alemães são, sem dúvida qualquer, o putativo vilão dos últimos cem anos europeus. A 1ª Grande Guerra foi-lhes imputada (falsamente) e na 2ª Guerra Mundial, vencem sem dificuldade o prémio estilo vilanesco e o de plano mais horrível para dominar o mundo. Desde 1945 que a Europa tem cobrado isso à Alemanha. Mesmo que, da França à Polónia, todos tenham dado uma mãozinha e ajudado o senhor Adolfo com gosto (principalmente quando se tratou de caçar e matar judeus), os alemães idealizaram o plano. Portanto, foram 60 anos a lembrar infâmias e a chantagear emocionalmente, e não só, um país a quem foi cortado tudo. Para a adesão à CEE, por exemplo, a França chegou a exigir que o seu vizinho germânico nunca deixasse o PIB interno superar o francês; e até muito recentemente, era expressamente proibido o rearmamento alemão. O país teve de pagar uma enorme dívida do primeiro grande conflito mundial, e ainda de reerguer-se dos escombros no segundo. Quando se fala que o plano Marshall a Alemanha e que ela deve a mesma benesse aos restantes países, é preciso não esquecer que esse mesmo plano ajudou todos os países europeus que o desejaram. A diferença é que num espaço muito curto, e partir de um quase zero, os alemães voltaram à sua posição natural de dominadores económicos da Europa e seu principal motor nesse campo. Eu não simpatizo particularmente com o carácter alemão, mas respeito-os muitíssimo. Eis uma nação que foi deitada completamente abaixo por duas vezes, passou crises económicas cataclísmicas, e regressou sempre. Quando voltou, e se notou que sem ela a Europa não passaria de uma miragem, abdicou da sua moeda (a mais poderosa do Continente) em prol de uma divisa única. A conjuntura do euro acabou por beneficiá-la de certas maneiras que prejudicam países mais pobres, mas se eu tivesse abdicado da minha estabilidade financeira, depois de décadas de trauma e trabalho duro, quereria ter alguma compensação que garantisse a durabilidade da minha economia. Mas lá está, não sou político em Portugal.

A Alemanha cometeu erros na sua gestão desta crise. Sim, porque ninguém se engana quanto a quem está realmente a dar ordens na UE. No entanto, foi ela quem, durante muitos anos, contribuiu para os cofres europeus com os fundos que se acabaram por desbaratar no sul da Europa e não só. Merkel sofre do problema de ter de ser, ao mesmo tempo, chanceler do seu próprio país e líder de um continente inteiro de maneira não oficial; e as posições são muitas vezes incompatíveis. Anda ela numa corda bamba, a tentar equilibrar ambos os interesses, sabendo que o seu próprio país está a entrar num endividamento preocupante (parte da culpa é das suas responsabilidades para com a UE) e que lhe querem passar a conta da crise na forma de Eurobonds, que dizem basicamente queum punhado cria dívida, mas ela é dividida por todos e não se fala mais nisso. A Alemanha precisa da Europa muito menos do que a Europa precisa da Alemanha.

Que me recorde, não foi Merkel quem criou, no pós 25 de Abril, as condições ideias para os monopólios visíveis e não visíveis que dominam e mirram a nossa economia; nem que desbaratou fundos comunitários como se não houvesse amanhã; nem que criou endividamento de forma preocupante; nem que falhou aposta atrás de aposta no nosso desenvolvimento económico; nem que culpa a Troika e elementos exteriores de medidas e politicas que destroem a nossa capacidade de desenvolvimento, e estão fora de qualquer memorando.

Quem quer lançar tomates a Merkel e a acusa de nazi e prepotente e arrogante está, de forma indirecta, a fazer uma certa desculpabilização da nossa portuguesa incompetente. Como noutras alturas da nossa História, a culpa é do outro: do mouro, de Castela, de Espanha, dos Franceses, dos Ingleses... Há sempre uma estátua gigante para onde podemos apontar e atirar os nossos demónios. Para que continuemos a ser os portugueses vítimas; e Merkel calha bem nesse papel: a sua cara até parece esculpida em granito.

terça-feira, outubro 30, 2012

Bobines e bobines e bobines



Ainda existe um estigma em ir ao cinema sozinho. Não conheço praticamente ninguém que não me revire os olhos quando afirmo, e sem qualquer tipo de constrangimento, de que gosto do acto de ir em solitário para o interior de uma sala de cinema. Penso que isso deve ao lado social do cinema, e à maneira como encaramos o mesmo mais como entretenimento do que como arte. Se afirmasse, por exemplo, que me queria sentar no Louve, a ver a Mona Lisa em total solidão ninguém estranharia. Afinal, é uma obra de arte. É pintura, certo? Se é pintura, é arte; o cinema é uma actividade que envolve pipocas e refrescos. O mais próximo que temos de comparação será um piquenique; e é sabido que a não ser que as mãos de Monet estejam envolvidas, um piquenique jamais será arte.

O solitário do cinema tem tudo contra si, a não ser que seja, de facto, um eremita cuja mente se formatou nos planaltos ermos da solidão. Ao cinema, vai-se em grupo. Pares de namorados, magotes de amigos, famílias.. A ida ao cinema é uma experiência comunal, e no entanto, lá vai ele, de certa maneira corajoso, sabendo que não vai simplesmente ver um filme: enfrentará, pois claro, os mesmos espectros que, de todas as maneiras, lhe escapam costumeiros.

Eu gosto de ir ao cinema só, honestamente. Na verdade, tenho descoberto que, tirando uma ou outra ocasião, até me permite analisar melhor o que estou a ver. Tenho uma tendência para me distrair que é lendária, no mesmo sentido em que o desequilíbrio de Alexandra Solnado é lendário, e ter alguém ao meu lado no cinema pode ser o começo de uma bela relação de amizade com a minha verborreia. Tenho gostosos mecanismos de raciocínio instalados na minha cabeça que me tornam um opinador razoavelmente bom; no entanto, também existem em mim outros mecanismos, de auto-sabotagem, que equilibram a balança e me impedem de ser o Kal-El de Ceira.

Reparem bem que comecei por falar em como se tornou infame ir ao cinema sozinho, e onde eu vim parar na torrente da conversa. O melhor é parar.

Ou daqui a pouco, ainda me ponho a discorrer sobre beterrabas.


segunda-feira, outubro 15, 2012

Cordeiros



Reli palavras que te escrevi há alguns meses, e não sei quando fui mais parvo: se na alturas em que as pus num papel, se no momento antes em devia ter sido concreto e achei que um caderno era a melhor forma de mostrar o fogo de artifício de chinês que me deixa a mente embicada quando te olho. Esperar é um trapézio, mas escrever é uma rede de segurança que torna longa a espera. Eterna, mesmo. As palavras não são um atalho, apenas uma longa rotunda que prolongam a circulação, com duas faixas, e cuja saída pode ser muito, muito perigosa pelo trânsito numeroso e persistente.
É mais confortável sentar-me e ler o que te queria dizer. O que pensei que te quis dizer, e o que guardei por adorar jogas às escondidas comigo mesmo. À espera que me marques.
Um dois três Bruno.
Mas continuo escondido. É da maneira que o jogo se prolonga.

sexta-feira, outubro 12, 2012

Acordo com o Diabo


Paulo Portas e a presença dos CDS-PP no Governo lembram-me a lenda sobre o acordo de Roger Bacon com o Diabo, onde em troca de vasto conhecimento científico, o segundo ficaria com a alma do primeiro, excepto se o corpo de Bacon não morresse nem no interior, nem no exterior de um mosteiro. Assim sendo, o monge e cientista inglês passou os últimos dias numa sala construída nas paredes do mosteiro onde professava. A esquizofrenia de Paul Portas é essa mesma sala da parede.

quinta-feira, setembro 27, 2012

"Breaking bad"



Até onde pode chegar um homem movido pelo desespero e pela frustração? A julgar por todo o arco narrativo de "Breaking bad", bem longe. Talvez até um ponto onde esse homem se descobre a si mesmo, na mais estranha das viagens de auto-iluminação que um professor de Química de uma pequena cidade norte-americana pode imaginar na sua vida banal, com uma família normalíssima e um quotidiano que é pouco mais do que trabalhar, ver televisão e beneficiar dos prazeres pequenos, que combatem as desilusões maiores que não se vêem. Como todas as iluminações de clarividência, há um momento charneira que tudo precipita, no caso deste homem a descoberta de um cancro potencialmente terminal. Ora, de modo a garantir a subsistência da família após a sua morte, um esquema surge: cozinhar anfetaminas, usando os seus conhecimentos de Química, e aliar-se a um ex-aluno que as trafica.

É este o mote para "Breaking bad", uma série sobre um caminho para o sonho americano traçado sem bússola, acima de tudo moral. É um percurso de um ponto A para outro ponto qualquer que não se sabe muito bem; e levando até ao limite a moralidade, permite descobrir de que matéria realmente são as pessoas feitas. Num jogo de escondidas consigo mesmo, Walter White, o professor de Química que se vê confrontado com uma escolha extrema, entra numa epopeia, à boa maneira dos herói antigos, em busca, acima de tudo, daquilo que acha que a vida lhe deve. A série, admirada acima de tudo como um thriller moral muito bem esgalhado e a coolness em pessoa, é acima de tudo sobre personagens que pensam que a vida lhes deveu algo durante anos. Seja a mulher de Walter, que por debaixo do seu disfarce de contente com pouco, anseia por outra realidade de conforto; o parceiro de Walter, Jesse Pinkman, deseja coisas que até agora não sabia que queria; e todos os restantes ou são meios ou obstáculos, nada mais.

Todo este percurso é traçado, narrativamente, desde a primeira temporada, com acontecimentos que ramificam uns dez ou vinte episódios mais à frente, sem esforço, mostrando o trabalho excelente efectuado pelos argumentistas da série, em particular Vince Gilligan. Gilligan ganhou proeminência com o seu prolífico trabalho em "The X-Files", tendo assinado alguns dos melhores episódios desta série, onde se podem reconhecer alguns temas e estilos de "Breaking Bad" ("Pusher"emula alguma da tensão cerrada presente no conflitos pessoais de "Breaking bad"; "Memento mori" traça a dor palpável que o cancro pode causar no mundo de alguém; "Monday" é um episódio rashomoniano, onde alguém ljuta uma e outra vez para impedir que a realidade tal como a conhece desabe) e embora as séries pareçam distantes, ambas partilham um gosto pelo imaginário de "americana". Por muito boa que seja a substância, tal como numa reacção química, ela só explode porque existe um catalisador. Se Aaron Paul, no papel de Pinkman, é excelente, e mesmo que mais à fente Giancarlo Esposito crie um memorável vilão em Gus Frings, esta série é do poderoso Bryan Cranston, um mosntro de representação que come a série toda, a digere e atira na nossa cara como uma bala poderosa: a maneira como compõe um Walter White monstruoso, mas terno; egocêntrico, mas dedicado à família; simples na sua ambição, mas complexo nos seus impulsos, é das melhores coisas que a televisão nos oferece. É um espectáculo à parte, e pouco mais há a dizer.

"Breaking bad" tem várias morais a retirar. A que deixo é: não deixem o desespero toldar a vossa vida. Principalmente quando o passado se quer alimentar do vosso futuro.

quinta-feira, setembro 20, 2012



Eu mereço mais do que me quero dar. Sou a pior pessoa a escolher prendas para mim mesmo. Devia haver um fim para os ciclos viciosos, que fazem do vício a única estrada para a felicidade que conhecemos.
Há mel nos favos; mas porque queremos ignorar os ferrões das abelhas, quando são mais do que a doçura que podemos obter?

Vou pensar nisto e já cá volto.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Poderes mágicos



Um sono eterno do Homem é tornar-se naquilo que impossivelmente será que se torne. É esse o apelo das histórias de heróis e de super-heróis, e uma distinção importante entre ambos. Enquanto que os primeiros são reconhecidamente normais, mas amplificados, os segundos são claramente anormais por possuir aquil que para nós reclamamos apenas em sonhos: voam, correm mais rápido do que a luz, são imortais, são indestrutíveis, têm uma força extraordinária. Na nossa visão, são mágicos. Isto porque dois séculos de cientismo nos colocaram na planície da normalidade e do nulo. Somos matéria, e a matéria, como é consabido, apenas é magica se estiver num reactor nuclear ou num bico de Bunsen.

Não podia discordar mais. Nós temos poderes mágicos, e não falo daquele que Paulo Coelho inventa para manter o cash flow constante. O maior deles é o de dar vida aos objectos. Não tento fazer entrar o animismo no mundo das coisas normais; apenas destaco que somos o único ser que consegue carregar os objectos que usa de personalidade. Se forem como eu, não-vivos que vos rodeiam têm a vossa memória, a vossa vida, os vossos pensamentos. De cada vez que os vêem ou tocam, sabem que pertencem claramente ao vosso mundinho que criaram dentro deste maior. Não consigo ser materialista nisto. Sou um verdadeiro sentimentalão, e guardo tralha, apenas porque foi importante para mim. Distingo-a e reconheço-a nas mínimas nódoas e amolgadelas, e lembro-me perfeitamente quando, onde e de que maneira causei o efeito dos seus defeitos.

Foi por isso que enfrentei com uma dor diferente da do meu pai, e da minha mãe, a notícia de que o meu irmão se espetara no Ford Escort Boston cá de casa.Este vetusto bólide, máquina de guerra que conduzo orgulhosamente por entre máquina de alta cilindrada se for preciso, foi o primeiro carro que conduzir. A sua aparente morte estragou-me o dia. Vivi aventuras com aquele carro que posso contar, e outras que nem por isso. Nos cinco anos que dei por mim a dirigir por entre o sítio mais perigoso do nosso país (a sua rede de estradas), foi este veículo a minha cara; o seu velho motor enrugou ainda mais com os meus maus-tratos, e outras rugas surgiram na sua carroçaria. Em cada uma delas, um erro, um pecado, um arrependimento, uma ruga em mim mesmo por pensar no que me aconteceria ao chegar a casa. Aquele carro é um verdadeiro sobrevivente, e um depósito de histórias, secretas ou não, que envolvem toda a gente cá de casa. Já todos bateram ou deram um toque com ele; e no entanto, qual imortal, lá regressa ele, pronto para mais um round, afastando com guinadas uma morte que se anuncia todos os anos, quando chega a data da inspecção. Ouve-se do juiz paterno "É desta que ele chumba", e nunca é.

Gosto de pensar que a máquina sabe que, por muitos outros carros que tenhamos comprado para substituí-lo, ele será a minha preferida, e o pronto-socorro quando as outras claudicam e falham. Aí, ele estará lá fora, estacionado. Foi lá que o encontrei, após ter escapado, garboso, a nova tentativa de assassinato. O motor ainda tosse de vez em quando, a embraiagem é o último nível do "Takeshi's castle", mas ele mexe, e avança. Sem a nossa vida, ele estava morto; mas se ele morresse, a nossa vida era menos vida e mais morte.  Parece estúpido, mas não consigo deixar de pensar nisto assim. É melhor do que julgar que qualquer coisa é facilmente descartável. Isso sim, é mais máquina do que gente.

segunda-feira, agosto 13, 2012

domingo, agosto 05, 2012

Produção Fictícia


Há uma ligação directa entre o teu sorriso e o meu coração a saltar batidas. O cardiograma não explica, mas a minha cabeça sabe bem do que se trata.