segunda-feira, junho 17, 2013
Decente docência
Não me considero professor. Dei aulas durante dois anos, e por uma razão cada vez mais nobre em tempos de vampirismo: precisava de dinheiro. A inutilidade do curso de História num país de pouca criatividade no uso de competências faz com que seja difícil haver saídas para quem encara a sua vida na perspectiva daquilo que gosta em vez do que me torna um ciborgue ao serviço do mercado de trabalho, e reconheço isso. Por isso, o Ensino foi uma das vias possíveis de aplicação dessa competência, como gostam de lhe chamar. Gostei de ambas as experiências, por razões diferentes. Numa, pude receber um salário pela primeira vez e ter uma experiência nova. Noutra, fui para um local distante e desconhecido, onde vivi uma realidade escolar diferente e fiz amigos que ainda mantenho. Ambas as experiências mostraram-me o que são os professores: há bons, maus e péssimos; preocupados e despreocupados ao ponto do estaladão; gente que se importa com os alunos até levarem as suas dores para casa, e aqueles que vão para a escola contar tempo até à saída para irem às compras; há professores que tentam fazer das tripas coração ara conciliar o seu trabalho com a família, e outros que sem família encontram na escola uma maneira de consumir o seu tempo para não andarem desocupados; há quem prepare aulas, quem improvise e quem repita as mesmas coisas todos os anos; quem exija dos alunos e quem não exija. Há de tudo. Dizer "Os professores são isto" é um erro. Assim como tento não julgar toda a classe médica pelos incompetentes que já apanhei por esses hospitais e centros de saúde, espero que haja a mesma atitude de bom senso em relação a outras profissões.
Se estivesse empregado, faria greve. Não faria, como alguns dizem, porque quero salvar a Escola Pública. Aliás, há uns tempos falei dessa imagem de anjo branco que foi veiculada na greve dos médicos, e considero-a falsa e uma forma quase egocêntrica de ver uma greve como o derradeiro local de batalha entre o Bem e o Mal. É uma greve; e a maior parte dos grevistas fazem-na por puro interesse pessoal, e não há nada de errado com isso. Não faria greve pelos sindicatos, um grupo de homens e mulheres que não sabe o que é pôr os pés numa sala de aula há anos, e tenta usar os professores que defendem como trampolim para outras aventuras políticas (e, de caminho, lixar jovens, como eu, que gostavam por uma vez de um concurso nacional de professores com regras que os favorecessem, em vez de ser todos os anos para os mesmos). Não faria por asco ao Governo, embora haja todos os motivos para combater o actual estado político das coisas com todas as armas ao dispor, mesmo que o primeiro-ministro ache que democracia é aquilo que lhe dá jeito. Faria greve por mim. Porque há, de facto, uma diferença necessária entre horários de professores e da restante função pública. São 35 horas que não incluem o tempo gasto em casa no seu trabalho de docência. De cabeça, e do que me lembro, eu até trabalhava mais de 40 horas semanais. Ninguém me pagou horas extraordinárias, porque as fazia em casa. Por isso, não invertam a lógica; porque, de facto, a forma como a vida de professor está idealizada, como operário ao serviço do Estado, é um desrespeito pela maneira como a relação professor-aluno deve funcionar, e destrói a célula familiar que a Direita tanto aprecia, fazendo um professor andar de Norte a Sul todos os anos; porque a ânsia de reduzir gastos do Estado está a subverter aquilo que deve ser o Estado: um órgão do qual todos abdicamos a nossa liberdade total de decidir pois confiamos que será feito o melhor a nossa favor para uma cabeça cibernética que vê número e não pessoas no espaço do País.
Não me incomoda que seja num dia de exames. O Governo teve a hipótese de mudar o dia dos exames, e não quis. Apresentou uma proposta em Maio e deixou duas hipóteses temporais: ou o mês seguinte, ou o próximo ano lectivo. Perante a impossibilidade da segunda, escolheu-se a primeira, e numa data com impacto, que é afinal o objectivo de uma greve. As pessoas fazem greve desde os tempos do Antigo Egipto, e acontecem habitualmente porque as relações entre trabalhadores e empregador chegaram a um ponto de ruptura. Pode-se questionar se é o que se passa aqui. O que não se pode questionar é que as coisas estão a decair na educação há alguns anos, e que a única altura em que os governantes se parecem preocupar com o futuro dos alunos é quando esta preocupação vai ao encontro dos seus interesses. Não tenho visto um cuidado tão grande com o futuro dos alunos no corte de avenidas de emprego causado pelas políticas económicas dos últimos anos; nem vi este extremo cuidado com os exames em alturas passadas de enunciados mal elaborados, ou corte dos tempos lectivos mantendo-se os mesmos programas, ou dando aos professores outras tarefas para além da docência (já fiz de advogado, psicólogo, assistente social e até cozinheiro numa escola... Agradeço a minha dificuldade de me envolver emocionalmente com outros, ou andava destruído),mas não a quem está no poder. A escola é transformada em duas coisas: um local onde os cidadãos deixam os filhos para não terem de aturá-los e educá-los, e um campo de treino para os robôs do futuro que devem obedecer ao que lhes dizem e submeter-se às necessidades da sociedade abandonando os seus sonhos.
Pois bem, a linha foi traçada hoje. O braço de ferro não tem sempre de cair para o mesmo lado, e uma greve pode não ser só uma comichão, mas sim uma hemorragia interna. Que isto inspire outras profissões a fazerem o mesmo. Como disse Miguel Esteves Cardoso, o português é muito pacífico, menos quando lhe pisam os calos. Somos o mais antigo país da Europa. Como nação, somos mais do que quem quer desmontar conquistas que damos como necessárias para a nossa existência democrática saudável. Dizerem que se faz isto por motivos de força maior não pega. Sabem porquê? Porque nós, as pessoas, os cidadãos, somos o mais válido motivo de força maior que existe.
terça-feira, junho 04, 2013
Parklife
Quatro acordes. Foi o que necessitei para explodir de vez e sair de mim mesmo durante dois minutos e pouco, comungando dessa demência colectiva com um grupo de gente que saltava como se tivesse molas em vez de carpos e falanges. Graham Coxon deu cora ao meu relógio, e de repente parecia um coelhinho da Duracell, abraçado a três espanholas, bradando uma só vogal que se espalhava pelo parque da cidade do Porto até aos ouvidos de quem trabalhava na refinaria àquela hora. Tinha sido já uma experiência catártica e transcendentes, a espaços celestes, que vivera na hora e meia anterior. Mas aqueles dois minutos, dois agitados, abençoados e libertadores minutos, alimentavam a fornalha da minha vontade há anos. A minha cabeça, eterna prisioneira, sempre encontrou em "Song 2" a solução para se desembrulhar, para fugir na fuga da fugida de dois minutos que concentram assim tudo aquilo pelo qual vale a pena pular e dar cabo do nosso bem estar físico em prol de um som que nos controla qual homem das marionetas.
Os Blur têm nessa canção um marco musical comparável à Nona de Beethoven, ao "Peer Gynt" de Grieg ou à "Yesterday" dos Beatles. Ficará para sempre como o nosso património musical e emocional. Não consigo explicar porque gosto de Blur. Sei a razão de viver fascinado pelo trio de Oakland que Billie Joe Armstrong lidera entre um e outro acesso etílico, mas os muchachos do Essex entraram pela minha vida sem eu dar licença, mantendo-se à força da sua música do caraças. Há um génio particular na criação bluriana, que mistura um estilo popular com o gosto pessoal de perseguir sonoridades diferentes, e inovar. Passada a fase Britpop (um céu e inferno particulares, condensados em dois anos), os álbuns dos Blur são sempre diferentes, e procurando novos planaltos musicais: no álbum homónimo, o rock indie norte-americano destilado pelo quarteto britânico; "13" é a experimentação com trezentos mil sons, num cut/paste que resulta no mais sensível e genuíno álbum da carreira; e em "Think tank" explora-se a world music, enquanto Albarn reflecte o seu próprio percurso pessoal, sem a oposição de um ausente Coxon, nos Gorillaz. Um percurso que me tornou não só fã, mas também uma pessoa com melhor gosto musical e a necessidade de um dia poder agradecer, em gritos e esperneios, o que aqueles quatro me tinham dado.
E foi assim que se uma andorinha não faz uma primavera, milhares de hipsters podem compor uma, e florir ali para os lados de Matosinhos em adoração àquelas bandas obscuras e artistas esquecidos que compõem a sua personalidade irónica e desgarrada. Eu mal queria saber disso: sabia ao que vinha. Fui sozinho, em peregrinação, de mochila às costas e pernas destreinadas. Mas fui; e esperei as horas que eram necessárias. Esperei para ver raparigas e rapazes entregues à cena pop, como se não houvesse outra alternativa. Depois de "Beetlebum", senti-me dessincronizado com o mundo, embora confiasse que as minhas não Adidas me fizessem chegar ao céu de caramelo onde me poderia acertar novamente. Não houve pausas para beber café ou ver televisão: a ternura entre o público e o quarteto, onde Alex James era epítome de coolness e Dave Rowntree o baterista com a fiabilidade do caseiro de uma casa de campo, nos fazia sonhar que naquele parque, podíamos passar toda a uma vida. Mas tudo tem um fim, até mesmo os séculos. Foi uma tristeza vê-lo desaparecer debaixo da passagem que se estendia por cima do palco, mas o seu regresso provou que haverá sempre um amanhã, universal, onde gritamos woo woo e voltamos onde comecei: quatro acordes. O mundo explode, dezasseis anos têm finalmente alguma justiça e eu sinto na boca algo de parecido com felicidade. Não é bem o mesmo, mas o borrão nos meus olhos é muito parecido com lágrimas. Obrigado Damon, Graham, Alex e Dave.
quarta-feira, maio 29, 2013
Sociopatia
A ala de oncologia de um hospital foi criada para ser a sala de aula do curso de sociopata. Quando entramos e olhamos a sala de espera, é obrigatório fazer crescer em nós uma distância emocional em relação à miséria. As cadeiras estão cheias de pessoas em diversas fases de tratamento, e vemos desde indivíduos com a saúde suficiente para se sentirem quase invencíveis e optimistas, até espécies de árvores encarquilhadas, ainda não velhas, mas conhecendo que a sua folha está caduca, e o Outono dará lugar a um Inverno de descontentamento de quem as amam. É como se uma súcubo cruel passeasse pela divisão, dando beijos de morte a toda a gente. Alguns, sortudos, levam apenas com chochos leves, deixando apenas um leve travo a acre e amoníaco. Um punhado tem o azar de ser vitima do linguado mais desagradável de todos, que revira não apenas a boca, mas todo o corpo numa convulsão que apaga o brilho que há nos olhos e a dignidade última que é podermos estar erguidos pelos nossos próprios meios.
Podia ser só isto. Mas no caso dos HUC, o edifício de oncologia tem dois andares adicionais.
A visita ao intermédio prolonga esse sentimento de biasma, onde já nem se consegue sentir medo, que é um primo muito afastado da esperança, em grau zero. Existe resignação, e espera, e ainda assim o espaço para a incerteza que as situações extremas ainda têm. Existe uma gigantesca clarabóia que dá a ilusão de não estarmos dentro do que seja, mas sim num elísio espaço, com uns toldos e cadeiras, como se fosse a esplanada onde alunos de um mesmo curso se reúne nos intervalos das aulas. As conversas parecem de adolescentes: fala-se de Radio, de como correm os testes de Quimio e das novas tecnologias da TAC, um novo Ipod que coloca o som realmente dentro do cérebro. No entanto, tal como a clarabóia, serve apenas para disfarçar o desconforto, um faz de conta requintado e misericordioso. É um acordo de cavalheiros entre colegas da mesma canalhice, ao compreender que não se pode estar ali a falar Daquilo a toda a hora e a todo dia, mesmo que seja Daquilo, a partir do momento em que o mundo lhes cai em cima, que todos os dias e todas as horas se vão preencher a partir de então. Tenta-se fugir Daquilo, mas dos outros que sabem Daquilo, porque só vão conseguir falar Daquilo e de nada mais, à tonelada.
Assisto a isso todos os dias; e assisto com a desconfortável sensação de saber mais sobre o real estado Daquilo do que quem tem de carregá-lo. Vejo sorrisos de abençoada ignorância, quando me apetece cair por dentro e desfazer-me. Felizmente, como disse ao início, a ala de oncologia cria sociopatas. Ou, no meu caso, reforça-os. Se nunca ninguém fez uma defesa da falta de empatia como uma dádiva social, serei eu o primeiro. É tão ou mais útil do que o seu oposto, quanto mais não seja porque nos permite ser nós mesmos, completos, em situações que claramente nos ultrapassam em curvas. Só podia, porque se a vida fosse uma recta, não chocávamos tantas vezes.
terça-feira, maio 28, 2013
O real escreve-se também com frases
sábado, maio 25, 2013
sábado, maio 04, 2013
O amor mais que perfeito é aquele que não existe: 8 frases
Sentada na rocha, pareces uma sereia com um o canto da perdição mudo nos teus cabelos. É apropriado que queira ser o marinheiro a viajar nessas ondas, mas tento não cair novamente em redemoinhos, ainda por cima no topo de um monte. Se te voltas e sorris, não estou mais perdido do que encontrado, mas ainda assim tens o bom senso de manter o olhar longe da minha fraqueza. É em piloto automático que me sento a ver até onde consigo estar longe, sem aproximar a minha distância da proximidade que quero ter da segurança do que está longe. São horas, digo. Horas de quê? De acertar o meu relógio. Levantas-te e o teu sorriso é o basta para me desacertar os lapsos de tempo num compasso cujo maestro é a arritmia.
Um pequeno apontamento acerca da estupidez
Tenho defendido nos últimos meses que uma guerra à inteligência tem existido de há uns anos para cá. Não apenas nas altas esferas, como se gosta de pensar quando dedos apontam a governantes e testas de ferro, mas no cidadão comum. Tudo aquilo que possa ser considerado um pensamento complexo é encarado como "teorias", dito desdenhosamente como se fosse sarna a coçar e desparasitar o mais rápido possível para não chatear. Alguém que gosta de ler é um parvalhão que merece ser insultado na rua, e qualquer coisa de semelhante a raciocínio articulado leva com bocejos e aquele ar de quem acabou de sair da cama pela manhã. Mas depois, chovem queixas acerca do estado das coisas, no molhado das redes sociais, das mesas de café e no tête à tête das ruas. Não queremos ser chateados pelo pensamento, mas depois, exigimo-lo naquele que elegemos, porque, claro está, nós temos: os outros não. Coitados deles. Se aparece alguém que se mostra capaz de falar um pouco mais a sério, e de forma capaz, o rótulo da arrogância aparece com rapidez. É verdade que entre um arrogante estulto e outro versado não há grande diferença de atitude; há no entanto na realidade, que costuma ter, espanto um preconceito contra a incompetência.
Nem me quero referir às grandes batalhas que se travam entre Iluminismo vs Obscurantismo, num cenário que retrocede até aos século XVIII nalguns aspectos. Nem quero, inclusive, defender um castelo científico ao qual já apontei defeitos por várias ocasiões. Dirijo-me apenas à inteligência pura de cada um de nós: acordai. Se querem um país melhor, aprendam a pensar. não desprezem livros e letras, tenham curiosidade. Falam crescer espírito crítico. Não aceitem aquilo que vos põe à frente, nem mesmo que venha com o rótulo do Facebook. Aceitem opiniões alheias, conversem argumentando e não insultando, deixem que outras ideias passem por vós, quanto mais não seja para reforçarem as vossas estruturadamente. Não se entreguem à estupidez, por favor. Porque o que é demais, farta.
domingo, abril 28, 2013
Frases inúteis: 1º versículo
Não há anjos a voar quando olhas o céu. Simplesmente desvanecem-se quando se apercebem que te amam mais do que a Deus.
segunda-feira, março 25, 2013
Dolce droga
A propósito da descoberta de "Una mattina", há quase sete anos e meios, escrevi o seguinte acerca desse álbum: "A música é leve, e Einaudi parece tocar piano com a mesma gentileza que eu gostava que me lavassem o cabelo". No espaço de tempo em que coloquei o ponto final deste post escrevi este, esse Einaudi, que é também Ludovico, tornou-se num dos maiores accionistas de tudo o que se passa na minha mente, e no que seja que congela as minhas emoções e as deixa expostas ao sol, de quando em vez, para me derreterem. No sobe e desce da minha cotação, do meu próprio índice, é ele o factor que evita crashes definitivos e me permite, uma e outra vez, voltar ao positivo, em vez de continuar no vermelho durante longos meses de uma economia de mercado em queda livre. Há uma relação de união siamesa entre a minha capacidade de renovar o meu humor e as cordas de piano que ele martela e estica ao ponto de me esticar também a mim até à varanda de uma qualquer paisagem que só existe no segredo que a sua musica partilha comigo.
A manhã transformou-se no amanhã, e num livro nocturno que num lapso de tempo lembrou uma onda, em dias de espuma, que rebenta num quarto fora deste mundo. As mãos de Einaudi deixam de tocar um piano, e passam a carregar nos meus botões. O pianista italiano é o meu quadro eléctrico: desliga os curto-circuitos dentro da minha cabeça, e carrega em alta voltagem aquilo que de criativo brota dela, permitindo-me equilibrar-me numa fina linha de desequilíbrio controlado. Não posso exagerar a importância de Ludovico para o meu bem-estar pessoal. Se uma pessoa pode ser uma pauta, ele desenha em mim boa parte das minhas notas, e em períodos muito negros foi mais do que um psicólogo. Bem sei que é costume retratar a importância da música em termos hiperbólicos, mas não aqui. Sem Ludovico, eu seria certamente um destroço humano mais acentuado; e por isso, vê-lo ao vivo era uma obrigação, em que falhei duas vezes, porque ainda que ele me torne um ser humano mais completo, não faz de mim uma pessoa mais corajosa para vencer os meus pequenos medos picuinhas, que me rebaixam e me aprisionam. Em 2013, venci-os, finalmente, e peregrinei, em direcção à cidade do Porto, para me sentar num auditório e deixar que o italiano fizesse de mim o que ele quisesse.
Ele fez. Tudo o que eu consenti, e mesmo aquilo que, em resistência, apenas cedi porque nunca deixaria de ser eu. Na música de Einaudi, descubro aquilo que escondo até de mim mesmo, e numa composição que voa, saltei para um pequeno lago de água salgada que produzi em golpes de vista catrapiscada. Foi uma experiência que a palavra "magnífica" apenas pode traduzir em sombras baças para os não-iniciados. Mas aqueles que, como eu, fazem de Einaudi um refúgio e uma fonte de prazer quase invisível, inefável, sabem do que falo. Em duas horas, saí deste mundo, e passei algum tempo (um lapso, até) fora daqui, num lugar onde viver é algo que pouco tem a ver com a sobrevivência, e a melhor das existências possíveis é uma só, sem qualquer vislumbre do que possa ser pior. Porque não existe. Pode conseguir-se isto com música e por num tempo em que nos querem reduzir a números, e a importância dos nossos gostos, escolhas e actos a aritmética económica, lembrarmos de que há momentos e actos que simbolizam a nossa divindade interior é mais importante do que nunca. Encontrar-me em Einaudi lembra-me disso, que ser agnóstico é precisamente o que me define como crente: o sentido é aquilo em que acreditamos, nada mais. Tudo o resto são ideias impostas; e nada disso está em Einaudi. Nele, encontramos o que quisermos, o que acreditamos e em pequeninos momentos, até aquilo que somos. Ludovico não é um génio musical, mas a sua música é uma lâmpada mágica onde cabem os desejos mais importantes do mundos: os nossos.
No final, os aplausos. Foi uma paga simbólica. Nunca na vida poderíamos devolver o que Ludovico Einaudi nos tinha dado, com a sua orquestra. Sorrimos todos uns para os outros, e nem nos conhecíamos. O pianista italiano sorriu-nos também. Agradeceu com uma timidez exuberante, e desapareceu do palco com os seus realizadores de sonhos. Naquele momento, estava eu, e não o outro eu. Podia ter dito tudo o que me ia na alma, se as pessoas certas ali estivessem. Em silêncio, fechei-me e guardei com aconchego as memórias daquele par de horas. Vão para aquele local especial onde guardo os sorrisos da minha avó, os jogos de futebol com molas aos 8 anos, o meu primeiro beijo dentro de um carro e uma pequena meia hora onde fiz um pão com alguém que podia caber na composição de Einaudi "Bye bye, mon amour". Há lá mais coisas. Mas as que disse, como a música de Einaudi, partilho-as com os meus amigos. As restantes, são minhas, e vão continuar a compor-me durante o resto da minha vida. Um pouco como os passeios no teclado de um certo italiano.
sábado, março 16, 2013
Período de reflexão
A pensar se vá ou não vá. Se for, já sei que vai ser aos trambolhões, e a tocar música saariana em xilofone ósseo com os queixos.
sexta-feira, março 15, 2013
Palermices em torno de infantilidades emocionais
Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?
Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.
Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,
Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.
Luís de Camões
Para um zarolho, a sua vista alcançava o que dez mil olhos não vêem toda uma vida. Os meus, pelo menos, só vêem isto de quando em vez, e fazem-se de cegos às visões claras da luz que, ironia, me cega. Jogar no escuro, e saltar à corda desfiada em traços brancos, jogando às escondidas a apanhar macaquinhos, chineses porque distantes. A distância é a da poesia que se aproxima do que sentimos e somos, para nos deixar entrever por debaixo da pala o que ignoramos.
Mas enquanto levarmos tudo na brincadeira, está visto que é da melhor criancice.
quinta-feira, março 14, 2013
O que é uma palavra
O novo século trouxe uma multiplicidade admirável de novos elementos que enriquecem as nossas vidas. No entanto, em companhia paralela, soltou igualmente na nossa existência mínimas alterações que, na sua pequenez, viram ao contrário algumas das nossas construções mentais. A bastardização de alguns termos é apenas uma releitura dessas mesmas alterações, dando de barato conceitos que já foram exclusivos ou pelo menos restritos, e agora se vêem invadidos por falsos ídolos e enganadores camaleões que se fazem passar por eles. Duas delas, que me irritam particularmente, são as palavras nerd e "génio".
A sério que me irrita o (ab)uso da primeira. Um qualquer indivíduo que viu todos os filmes da saga "Star wars" chama a si esse título, porque o paradigma dos últimos anos mudou: hoje, ser nerd é algo bem fixe, até porque a própria significação da palavra mudou. Basta alguém saber meia dúzia de tangas sobre um assunto mais obscuro e pimbas, é nerd. Ou geek, que é uma coisa diferente... É passar em lojas de informática ou telemóveis, e há lá um "Ponto Nerd" ou "Canto do Geek" ou algo semelhante. Há um aproveitamento comercial em redor do que é se "nerd", que apenas acontece porque se convencionou que nerd é cool. Não é. Por definição, não pode ser. Parte do encanto de ser nerd reside na falta de aptidões sociais e dificuldade de enturmar que apenas advém de muito tempo passado em casa a obcecar com objectos de pop culture ou erudição. Ser nerd é, por exemplo, não ir a um encontro com uma miúda porque na noite em que ela marcou isso contigo, dá um episódio de "The X-files" e por acaso, a Internet ainda é uma coisa da pré-história, e tu não tens video porque só apanhas a TVI na casa do forno da tua avó, e se perdes o episódio, corres o risco de nunca mais voltar a ver. Usando uma história que, obviamente nunca se passou comigo. Vocês sabem que não. Gostar de "The big bang theory" não faz de vocês nerds; mas ter lido livros de Carl Sagan ou Stephen Hawking sobre o assunto e com gosto, isso sim, já vos pode trazer algum bem. Como em tudo, para sê-lo, é preciso trabalho, dedicação e saber que a perda de virgindade não tem, de facto, um timing, e que andam miúdas lá fora, mas livros e filmes são objectos de devoção e dissecação que estragarão a vossa vida social, mas vos tornarão, a longo prazo, pessoas mais interessantes para quem realmente se deve interessar: vocês mesmos.
"Génio" atingiu também uma banalização que me aflige. Devia ser das palavras a ser usada com mais tempero, e no entanto, quão facilmente é brandida num jorro instantâneo de fascínio. Qualquer boa satisfação nos faz dizer de alguém que é um génio; uma simples piada que nos provoque uma risada faz-nos sair essa palavra; e surgem, assim em moldes de hipérbole, nomes que ganham contornos míticos e exagerados. Dei já como exemplo aqui, há uns anos, Quentin Tarantino e a sua mania de fazer mash-ups com filmes. A quantidade de vezes que lhe é colado o rótulo de genial é já o suficiente para se tornar num adjectivo automático quando se gosta de um filme do texano. Ora, para melhor se comparar e ter a distinção do que é ser genial, nada como numa semana nos embrenharmos na cabeça de um outro realizador cuja complexidade e valor da obra deita a de Tarantino por terra e cujo nome, colocada na mesma frase com este, só pode ter como motivo uma diferenciação cabal da habilidade de ambos: Stanley Kubrick. Ver "The shining", "Eyes wide shut", "Full Metal Jacket" e "2001 - a space odissey" na mesma semana é não só perceber a vastidão de inteligência e ideias que existe entre ambos (e outros supostos génios que todos os anos são brandidos nos escaparates), como pedir uma espécie de desintoxicação de cinema durante uns dias, pois ficamos tão habituados ao gosto de picanha argentina que mudar para bifes de pá só pode dar mau resultado no paladar e no sistema digestivo. Um Génio é alguém cuja obra permanece isolada, inalcançável, intemporal, que nos desafia completamente a pensar e a ver o mundo de uma maneira diferente, e desperta em nós 380 sóis a explodir, apenas para entendermos que fomos apanhados no respectivos buracos negros de fascínio no resquício da experiência.
Tarantino, não o nego, é bom, nerd. Mas comparado com Kubrick, como disse alguém, é um berlinde; e daqueles que nem têm muitas cores por dentro.
sexta-feira, março 01, 2013
Pipocas avinagradas
Para além de um tratado sobre o umbiguismo do mais alto calibre, onde as flutuações de humor entre deprimido e macambúzio desempenham papel que não é meramente decorativo, este blog tem revelado, ao caminhar em direcção ao seu oitavo ano de existência, a preferência por combater o falso moralismo e o politicamente correcto sempre que a oportunidade surge. Essa motivação já levou a que tudo levasse por tabela, desde sindicatos, protestantes, polícias, os Jogos Olímpicos de Pequim, supostos amigos dos animais, homens, mulheres, populistas e demagogos, entre outros. Muitos seres humanos, e até Miguel Sousa Tavares já por cá arroxou. Separados, são todos interessantes na sua matreirice, mas em conjunto, formam um grupo que em nada desmerece a Operação Gladio italiana no que toca a cinismo, se bem que fiquem a milhas na utilização ponderada da inteligência, nobre dádiva que nos dá tanto quanto exige.
"A pipoca mais doce", um blog que é o mais lido de Portugal (o que já de si diz bastante das prioridades e interesses daqueles que o criticaram há uns dias), tem vindo a ser sujeito a insultos inflamados, porque a senhora que o escreve, e comenta moda, fez, admiração, comentários de moda a uma menina, não sabendo na altura que esta era uma doente oncológica. Não tendo acompanho em tempo real o comentário da nossa menina de milho frito aos gostos fashion da noite, presumo que quando deitou abaixo a indumentária de Anne Hathaway (não sei se o fez, mas qualquer cidadão decente e com opinião devia tê-lo feito), ninguém se terá erguido com o vigor da fúria que só a indignação ferve nos nossos punhos. Aposto que riram, ou abanaram a cabeça em caso de discórdia; mas um par de comentários a uma rapariga doente chegam para começar nas estações de "Moda é fútil" e acabar nos apeadeiros de "Que falta de respeito pelo ser humano!". Ora, estas pessoas estão a ler um blog de moda, logo não me parece que a questão de superioridade moral se coloque; e mesmo que só tenham apanhado a notícia mais tarde no Facebook, passaram os olhos e começaram a chamar nomes, o que também é muito pouco fofo quando se quer ter razão e marcar uma posição moralista. Suponhamos que se descobre amanhã que Passos Coelho tem cancro: quem andou a chamar-lhe nome deve sentir-se culpado? Não. Porque estar doente não dá direito a um passe contra críticas. E julgar que dá é ser paternalista e condescendente e o raio que o parta. Uma blogger de moda fala sobre moda... Nada mais. Se é esse o seu gosto, e o que a move, seja. A miúda estava vestida pindericamente? Não sei; mas por estar doente, merece-nos mais respeito do que alguém com saúde? Na minha opinião, não, porque isso é começar a colocar humanos em escalas diferentes, e já se sabe que quase todas as ideologias estranhas começam assim: quem merece estar acima e abaixo da linha. O quê, é uma questão de bom senso? Ler coisas no Facebook e fazer delas um palanque para parecer melhor humano?
Há uns tempos, uma outra blogger de moda criou celeuma por afirmar querer muito uma mala Channel. Não interessava que ela reiterasse que o modo de atingir este objectivo era trabalhando e poupando (ou seja, como deve ser): interessa é atirar lama. Apontar o dedo, falar mal, rebaixar alguém e subir na nossa conta usando isso. Se é horrível criticar a roupa de uma adolescente com cancro, usar essa situação para falarmos num megafone e fingir que somos melhores do que outros é algo de baixo e mostra como o Facebook é realmente uma rede social: pega na experiência mais pura de bairro, a maledicência, e amplia-a a uma escala que jamais foi vista em toda a história da espécie humana. O pior disto tudo, e o mais irónico, é que cada vez mais é moda.
P.S: De muito mais pideriquices se poderia falar: da atenção que a imprensa está a dar um assunto que é fait-divers de Internet; do processo que Sofia Alves que mover à senhora da Pipoca, que levará à primeira discussão no campo de Direito sobre o que é ter estilo ou não; ou do que transforma a própria blogger em alguém cujo gosto em roupa é tão infalível que a torna numa personalidade nacional. Mas tudo isso são pormenores acessórios, que vão escapando pelas frestas do chão: o que interessa é o fogo de artifício, o folclore e a fachada. Afinal, aquilo que é a moda e o seu pequeno mundinho.
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
Ao gosto
A terceira faixa do novo "In a time lapse" de Ludovico, o Einaudi, leva o nome de "Life", mas assina-se como bem mais do que uma palavra. Arranca-me pela raiz desde os primeiros acordes e as suas notas carregam por mim acima como uma manada de elefantes que decidiu não deixar em pé qualquer embondeiro da savana. Tudo em quatro minutos e vinte e três, concentrados no portento que é querer chorar e não saber. Mesmo com o meu MP3 num cemitério onde já erigi demasiadas lápides em louvor da minha falta de jeito, a cavalgada musical não me saía da cabeça encostada no lugar do Expresso, cabeça essa que por acaso me pertence, a caminho de Braga. Porquê? Porque quando viajo, é normalmente isso que sinto. Não vivo de um síndrome de permanente insatisfação com o lugar em que me encontro; mas penso que a rotina pesada é inimiga do conhecimento, e mesmo dar saltos no escuro, e no longe, não corresponda à minha natureza, cumprimento-me de cada vez que saio do casulo e bato as asas um pouco mais longe. O ar é um dos meus melhores conselheiros quando diferente; e é sempre diferente, nas cambiantes da luz e da satisfação. Quando o acto necessário de respirar nos enche as medidas, algo de estranho, e bom se passa.
Descubro em Braga que as amizades nunca são o que parecem. Não são construções de tempo lineares, e aplicam-se-lhes as mesmas regras da teoria da Relatividade de Einstein: é possível voltar atrás e colocar o presente no passado para descobrir alguns trilhos em direcção ao futuro. É tão simples aquilo que a simpatia pode fazer crescer em alguém, e o quanto é preciso vermo-nos de fora através de desconhecidos para percebermos que raio de ferrugem encrava os mecanismos com que tentamos construir a simples e bela deriva de conhecer pessoas e esperar se feliz assim. Talvez seja uma ilusão pensá-lo, e sei que quando fujo a mim mesmo, ao meu instinto, e me iludo, a coisa nunca corre bem. Mas de vez em quando, é necessário arriscar um estalo sonante para perceber quando confiar em nós e evitar levar outro. Aprendi-o há uns meses, reforcei-o agora. No geral, o género humano é confuso, metido em si e amedrontado, para além de levar muitas vezes longe de mais o acto de não emitir emoções e sentimentos (sei bem, pertenço-lhe). Mas no particular, há casos onde a única dor que podemos arrancar é a de sentar e esperar que passe, em vez de calcar com os pés um chão onde não há areias movediças, apenas a solidez com que construímos alguma certeza, pouca que seja, para correr ao nosso lado. Ou subir escadas até ao Bom Jesus.
Tudo num lapso de tempo. É o que temos, é que se passeia, é que nos pousa sobre a cabeça e faz pesar os momentos; e também o que torna as viagens de Expresso a parte decididamente menos transcendente de uma viagem. Einaudi devia ter também uma composição sobre isso.
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
A expressão, antes da liberdade
Não consigo pôr de lado a minha opinião de que Miguel Relvas representa um tipo de decadência cínica. A culpa não é inteiramente dele: como país, ajudámos a construir e a aceitar, com a nossa passividade e o mau trato que damos à inteligência, estes ciborgues que se instalam no sistema nervoso central do sistema que nos governa. No entanto, o que direi a seguir é algo puramente de lógica e de raciocínio, baseado numa crença de que embora o mundo e os valores não sejam inteiramente subjectivos, como alguns relativistas algo idiotas querem fazer crer, há mesmo situações que são caleidoscópios à espera da perspectiva correcta.
Uma amiga minha defende que cantar durante o discurso de um político não lhe cerceia a liberdade de expressão, e está certa. Por natureza da profissão, um político terá sempre um exercício desse direito superior ao meu, por exemplo, que muito raramente na vida de tive um microfone à frente, e nunca para me dirigir a um potencial auditório de centenas de milhar para exprimir aquilo que realmente penso acerca do estado de país. Relvas e eu estamos no mesmo patamar no que toca a liberdade (embora isto seja discutível), mas no que toca à expressão, vai uma distância como daqui ao Brunei. É por isso que não consigo entender em que é que aqueles cidadãos que para lá foram usar "Grândoa, vila morena" com o uso que Zeca Afonso intentou afectaram a liberdade de Miguel Relvas. Este, no final, deve ter dobrado a folha de papel e regressou ao carro apenas melindrado por ter apanhado, surpresa, cidadãos descontentes com as suas argoladas constantes e reocupados com a situação de sobrevivência em que, na generalidade, se transformou a vida de quem continua a ser cidadão no próprio país. Se amanhã lhe abrirem o microfone nalguma reunião do PSD, ou conferência no Hotel Sheraton de cinco estrelas, ou numa comissão parlamentar, as palavras continuam lá, serão ditas e manter-se-ão iguais a tantas outras que ele já disse. Não é que eu seja muito mais original, mas tenho ao meu serviço apenas o Facebook e este canto onde só passo de vez em quando, e o meu público é muito restrito, na medida em que se quantifica nas poucas pessoas que me vão querendo ouvir. Na verdade, quem protestou fez um favor a todos: se há coisa que normalmente irrita, é a repetição, excepto quando usada por motivos artísticos, e se bem que Relvas seja um artista, não é um daqueles a que queiramos assistir.
Já que estou a falar sobre política, não posso deixar também de notar como a oposição é, de facto, das piores coisas da Democracia quando,como hoje, a política deixou de ter o monopólio da inteligência. É também por aqui, pela quantidade de labregos e energúmenos que ocupam cargos de relevo que a noção de Serviço Público se expõe a crítica facilitistas quando comparada com o Serviço Privado. A constante exigência de demissões, de forma a precipitar novo sufrágio, sem apresentar qualquer ideia ou conceito estruturado acerca da resolução da crise, e a falta de coragem de assumir ideias que fracturem realmente (quando já se viu que depois de Irlanda e Grécia, Portugal será nova vítima do fenómeno "Falhou nas outras, mas nesta tenho a certeza que fazemos o mesmo e dá!"), de ser criativo, cria em mim o tipo de dúvidas que até agora estavam reservadas às parvoíces internas da minha mente. Liberdade de expressão, dada a quem não tem grande coisa relevante a exprimir.
E depois, perguntam-me por que sou pessimista.
segunda-feira, fevereiro 11, 2013
O amor perfeito é aquele que não existe: sete frases
Regrido aos sete anos quando tenho de te falar. Ao longe, ao perto, é queima-roupa, mesmo que me faça sentir nu. Nem precisas de me olhar, pois eu próprio não sou cego ao que me trava. Sento-me e espero que passe, mas um pensamento de cordas feito amarra-me à cadeira, e eu deixo. É estranho como posso gostar de ti, e no entanto não gostar de gostar de ti enquanto desgosto de mim mesmo. Gostar (d)e ter medo. Preencho-me de sustos e torno-me num fantasma.
sexta-feira, fevereiro 08, 2013
(Delírios à noite)
Ora, quando estamos sossegadinhos no nosso canto, a existência, que assume as feições de um jocoso anão endiabrado, lança-nos de Ford Escort Boston por entre estradas e caminhos onde apenas os máximos conseguem enxergar alguma solução. Ainda por cima, o meu não tem os faróis em conformidade com as consistência do breu desde há muitos anos, e conduzir à noite acaba por se transformar num exercício com duas consequências: aumentar a minha hipermetropia e conseguir presenciar, por momentos, um best of dos melhores momentos que Stevie Wonder vê num palco, quando toca ao vivo.
Propuseram-me que escrevesse uma peça. Depois outra. Ficámo-nos por um test-drive de quinze minutos depois de conferenciar com as calendas de Roma, para ver no que dá. Se alguma vez escrevi peças de teatro? Claro, no 9º ano, quando adaptei o "Auto da Barca do Inferno" em verso livre(mente manhoso) para uma peça de zero espectadores. De nada vale dizer isto à remetente da encomenda, que diz ter grandes esperanças para a empreitada. As Calendas mostraram-se mais comedidas, mas igualmente dispostas a esbofetearem-me se não aproveitar a oportunidade. Interessa tentar, claro. Mesmo que me espalhe em grande... Viver é uma sugestão de espalhos até aprendermos a andar sem escorregar. Disse-me alguém, acho. Mas posso estar enganado. com tantos remetentes.
No entretanto, um outro projecto mantém um espaço da minha mente na peugada de José Cid, dez mil anos depois entre Vénus e Marte, e com direito a passagem na Dimensão Alternativa? Qual? Não sei, mas certamente uma onde uma obscura área que criei numa adolescência deprimente me possibilita ocupar algum tempo e alguma cabeça, se bem que ainda não a carteira. O Boss, figura das entrelinhas, diz-me que pode ir longe. Eu encolho os ombros e continuo a pesquisar e a escrever. Na televisão, figuras políticas incentivam ao empreendedorismo. O Boss empreende e eu prendo-me à ideia de que posso fazer disto algo de bom, de novo e de significativo. Um pouco como D. Miguel, rei abolutista, deve ter pensado quando lhe sugeriram armar as Guerras Liberais.
Como a minha cabeça adora puzzles em catadupa, achou que devia mudar a sua natureza. Parva. Até parece que não me conhece e não lidou com esta catadupa de reviengas durante a trintena de anos que demorei a construir quase nada. Insensato, estou a ponderar dar-lhe ouvidos. Criar e aceitar oportunidads. Pessoas de bem dizem que me querem ver feliz. Talvez seja mais fácil, assim sendo, a parte do ver do que a que me toca. Assim como assim, se tiver que tocar, que seja boa música. Ao menos, criam-se melodias que ficam, e que até aos surdos trazem prazer. Pelo menos, foi o que escutei algures, dentro da minha cabeça
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