terça-feira, janeiro 24, 2017

Passeios



Abri a porta e saí de casa para comprar leite. O céu cinzentão, metálico mas com a fluidez do vapor de nuvens tapava-me e num conselho sinalizado a todas as luzes que se sentem com o instinto, indicava-me que era má ideia; saí na mesma, farto de estar entre quatro paredes e de apenas encontrar como  réplica o silêncio sólido de um tecto. Não sei se acontece convosco, se o pensamento é como um cavalo dentro de um redil que, quando salta a borda, não se cansa tanto e consegue até esticar-se, alongar-se, perpetuar-se em movimento, mas há alturas em que sinto essa inclinação de libertar essas corridas infindáveis que a minha mente proclama em mim. Não há tempo mais nebuloso senão o do espírito revolto, nenhuma tempestade mais arrasadora do que a ruminação de uma suspeita, da certeza de um prognóstico que se senta no nosso colo sem nunca demover o seu peso. A passada larga debaixo da chuva miúda era uma fuga, mas também uma divagação maior: o meu corpo e a minha cabeça colavam-se num reflexo, e algures nas minhas pernas, prolongamentos de mim coladas ao solo, o que pensava movia-me.

A minha morada é numa cidade pequena, macilenta, construída de ocasião. Não tem mais de duzentos anos, acho, aqui há uns meses, quando aqui cheguei para trabalhar num banco, dirigi-me ao museu municipal, uma pobre desculpa para dar trabalho a uma tipografia local e a alguns amigos do presidente da câmara, embora alguns sejam de facto competentes e interessados e vejam no seu local, na sua cidade, uma razão para se excederem. Aí, aprendi que a cidade surgira porque o comboio precisava de uma estação a meio caminho entre duas maiores vizinhas e aquele era o meio caminho. A cidade não era ponto de chegada ou de partira e sinceramente, nem o sentia como ponto de passagem. Era apenas um ponto, mesmo e tantas vezes sentia-o final, reticente que estivesse em admiti-lo a quem me rodeava. Passear por entre prédios sem identidade apenas me fazia pensar no quanto queria ser como eles e apagar-me e quando virei a esquina para a praça principal, onde passei simplesmente para ver outra gente que não eu, quis encontrar-me, mas tive a certeza de me ter perdido alguns metros atrás, quando deixei de pensar em mim e passei simplesmente a não ser. Um obelisco no meio da praça dava datas e factos, letras que não fixei; num café com esplanada, um empregado de mesa fechava os grandes guarda-sol inadequados para a sua função: não chovia, mas molhava e em mim, uma torrente maior podia desabar, levar tudo. Estaquei e contei pela primeira vez tudo o que via: ao lado do café, uma loja de meias, de todas as cores e tamanhos, mas o feito invariável; uma caixa multibanco apagada e seca e velha; comércio antigo, chamam-lhe tradicional, mas pelas montras via gente de todo o tipo, velhos e novos, alguns com brio, outros simplesmente à espera do tempo que chega e nem se dá ao trabalho de saudar; e num canto, meio perdida no meio de tudo, uma pequena mercearia. A minha ideia era ir ao supermercado, mas estava ali, talvez porque o obelisco me obrigasse a render ao local, e porque não aviar-me num pequeno espaço onde me sentiria menos pequeno, menos multidão?

À entrada, caixotes de frutas e legumes apresentavam-se com preços em pedaços de caixotes de cartão, rabiscados a lápis de carvão, mas puxando em ânsia pela nossa atenção. As maçãs, vermelhas e brilhantes, chamaram-me a atenção, mas apenas queria leite. fui recebido por uma senhora quase tão velha quanto a preocupação dos Homens, desenvolta e cheia de genica, com uma cara que desfila o novelo das histórias sem precisar sequer de sorrir. Esteve a reparar a mim todo o tempo e segurava já uma saca de plástico para as maçãs. "Já não leva?" e só acenei que não, que não levava, não estava para isso, mas insistiu e disse "Muita vitamina, não se arrepende e são bem boas, daqui de perto, garanto-lhe que sem um químico ou bicho, comi uma ao lanche e veja se não estou de pé!", e pensei no quanto aquela velha sofrera ou penara na vida e ela notou o meu ar e riscou-me logo uma linha cá dentro, quando disse "Veja lá se precisa também de um copinho, que está com cara de quem se vai enfiar pela boca dentro e sumir!". Estaria eu a ser tão óbvio? Seria ela uma daquelas videntes de que falam os nossos próprios velhos quando nos queiram assustar em crianças. "Mas diga lá o que quer; não esteja mudo e quedo!". Pedi dois pacotes de leite e ela fez um compasso de espera de alguns segundos, insistente, com um anzol bem colocado e eu acrescentei mais meio quilo de maças, das vermelhas. "Sim senhora, o Inverno está aí e a maçãzinha tem muita vitamina, torna uma pessoa rija e saudável. Olhe bem para mim!" E se calhar era isso, comer uma maçã resolvia problemas, e nem tive a coragem de me armar em pretensioso e sacar de uma piada sobre Adão e Eva, até porque não me largava uma impressão marcada de que aquela velha era mais velho do que a própria velhice e podia mesmo apresentar-se como testemunha desses factos.

Saco na minha mão, dinheiro na palma dela e estava para sair quando ela me abordou num passo miudinho. "Tome lá, não anda com boa cara" e era um punhado de rebuçados do Dr. Bayard, "O doutor que mais cura pode ajudá-lo" e com um sorriso, enviou-me de regresso à chuva miudinha, àquela largo sem identidade, àquela cidade que me embalava na morrinha do torpor. Não me senti a pessoa mais solitária do mundo, no entanto; quando trinquei uma das maçãs, ácida e consistente, julguei ver em mim algo mais do que simplesmente pensamentos que correm como cavalos ou um céu cinzento que fustiga e se abate. Vi vermelho, cor de sangue, mas cor acima de tudo. Imaginei como aquela maçã desceria em mim, me alimentaria, enviaria tudo o mais às minhas células e que o espírito, acima da matéria, prende-se dentro de um corpo e com ele luta e que o meu espírito não devia estar fora da cidade, mas ali. Quando fiz voltá-lo, a maçã estava toda comida e a mensagem enviada. Já em casa, não olhei a parede: televisão ligada e o "Casablanca" estava a dar na televisão. O início de uma bela amizade comigo mesmo.

terça-feira, janeiro 10, 2017

Cronistão 21: O fim último das coisas


Aterrei em Agosto, mas escrevo em Janeiro. O tempo é igual à distância, aqui e daqui até um país sobre o qual leram durante meses, acerca de uma viagem que foi de semana e meia. É fazer contas simples, não é? Saí dia 19 e voltei a 31 e tudo somado, sem jet lags ou escalas da matemática, perfaz 11. Mas se o tempo é a medida derradeira da acção, há algo que nem o tempo dobra e isso é a emoção, a sensibilidade, aquela gancho que nos senta num mundo que desaba em nosso redor e nos prende ao que vivemos numa eternidade que pode ter demorado segundos. Não há muito que contar sobre o meu último dia no Quirguistão: dormi  uma hora e acordei de madrugada para sair de Bishkek às cinco e pouco. Longas rectas no escuro rumo ao aeroporto, um taxista bem desperto e que, por uma vez, conduzia com segurança, comentando connosco a economia do país. No aeroporto, a segurança expectável de um país que sofrera um atentado Antes que posa tirar a mochila para ser revistada, duas metralhadoras quase me fazem cócegas nas bochechas e isto acontece nuns dois ou três checkpoints diferentes. O aeroporto está à pinha, russos principalmente - é o fim do mês e os eslavos não devem diferir muito do Ocidente nos seus períodos de férias. O lounge parece o hall de entrada de um grande hotel, ou seja, anão no grande esquema dos aeroportos e enquanto esperamos e matamos tempo, entendo como os miúdos são irritantes por igual de uma ponta à outra da Eurásia. Há grupos numerosos de turistas germânicos, jovens, caminhantes e não existe assim a impressão de deslocamento que tive quando aqui aterrei pela primeira vez; ou então, a minha percepção já fez da Ásia Central uma espécie de sofá para o mundo Talvez. Sei que quando o avião levanta voo e vejo lá em baixo o planalto, a capital, a terra que os meus pés seguraram pelas pontas da pertença à maneira de passos, a saudade veste-me, e não é de t-shirt: é mesmo de pijama, pois apetece-me adormecer e acordar de novo lá em baixo.


Mas isso não acontece. Nem adormecer, sequer, tenho este problema de que já vos falei de não conseguir dormir sentado, nem em aviões ou comboios ou carros, mas para além disso, ganhei um cérebro extra, como um disco externo, que acumulou memórias e visões, recorda palavras escritas num língua que não compreendo, surge em rápidos trovões de cores e paisagens fixas numa tela que só pode ser a permanência das coisas - coisas que são mais do que a mera palavra "coisa", são mesmo tudo para o qual não há nome e transformou a palavra "coisa" na mais útil, e preguiçosa, do nosso idioma. O avião queima países e eu só consigo aquecer na ideia de estar parado e num mesmo local. No fundo de mim, a pergunta óbvia: será que o meu desejo é não regressar ou simplesmente não chegar? Porque são dois conceitos diferentes: não regressar é ficar; não chegar é não querer ser de novo. Gosto deste eu do Quirguistão, um "eu" fabricado por outras pessoas que só me conheceram durante oito dias, que riem do que digo e procuram saber mais do que penso, que me olham de baixo para cima e se comovem com coisas simples que faço, como aconteceu com alguém que descobriu algo que não conto a muita gente e posso partilhar convosco - nas viagens que faço ao estrangeiro levo sempre uma foto de paisagem com o meu pai de costas a ver o mar (devem reconhecê-la daqui) e aproveito para colocá-la em pontos de grande beleza e levar o meu pai a fazer aquilo que ele evitava: o desconforto da novidade. É simples na minha cabeça - geneticamente, sou o prolongamento do que ele foi, faz sentido que construa as memórias que a morte lhe roubou. Mas houve quem se comovesse, chorasse, brotasse lágrimas e eu tento ser humano e também apresentar à mesa comoção, mas não sou assim, entendo a dor dos outros, não a consigo partilhar do nada porque para mim, vivo e faço e as coisas são muitas vezes o que são. Mas esse é o Bruno para o qual estou a regressar. O do Quirguistão é uma alma sensível - e por partilhar isso com de Portugal, mas em níveis diferentes. As saudades, no fundo, não são do passado, mas de um futuro onde me encontrarei daqui a umas horas e onde voltarei a ser o que sempre foi: um tremor quase adulto, quase criança, quase adolescente, mas nunca completamente algo. Voltarei às dúvidas e aos assaltos, ou seja, aterro no aeroporto de mim.


Mas quando saio de Istambul, à medida que me sinto mais ocidental, já não tenho bem a certeza se esta viagem foi apenas fugir de mim. Uma pequena percentagem foi a oportunidade de brincar ao outro eu, de abandonar as minhas certezas do que me constrói para desaparecer na paisagem; mas uma grande parte, a maior e mais extensa planície de motivos, é mais prazer do que fuga e do que dúvida. É a simples ligação entre o desejo e a concretização numa possibilidade que surge e que ao invés de ser pensada e afastada, é colocada numa mesa de banquete onde me sentei e sorvi feito alarve. O Quirguistão era um conjunto de imagens e suspiros e boatos num desafio que tomei para mim e fiz real. Ainda hoje, meses depois da chegada, não consigo concretizar o que me levou a fazer algo tão contrário a mim, mas pode ter sido um motivo tão fino e ténue como o apetite. Sabem, o que nos leva a fazer tudo, a mover e a mexer, a amar e a remar pela vida, a não deitar quando a bomba cai, e não erguer quando o chão nos abraça, a pequenina partícula do bem querer e do mal fazer, o bosão de Higgs de todos os projectos, um foguetão rumo à Lua que aproveita e parando no espaço, passa também por Vénus só porque fica ali ao lado. Gostava de ser sempre assim nada vida, ou talvez seja e ande a fugir disso, talvez a fuga para o Quirguistão tenha sido apanhar-me por fim em flagrante delito de incumbência. Talvez não haja dois Brunos, mas apenas um que se estica entre duas dimensões: na primeira existe como um otário cheio de dúvidas e caruncho nas ideias; na segunda parte para o que cobiça e toma os castelos e as fortalezas.


Ou talvez nada. Talvez semana e meia no lá longe não seja uma luta existencial, como tudo o que me rodeia o é na minha mente. O Quirguistão é Bishkek, Karakol, Skazka e o Song KOl com neve e sem neve, é Naryn e Osh, com Kasarman pelo meio e é também o lago Tulpar e um mercaod tão grande quanto as possibilidades de culturas diferentes, são montanhas com mais de 3000 metros e bichos que não mais acabam, é respirar pesadamente mas ser mais leve do que o ar,  são pessoas genuínas e ogres tão verdadeiros quanto elas, é a hospitalidade e também coisas que levam ao hospital, são termas de brincadeira e brincar num tanque à essência do voo, é ouvir Einaudi num lago e também na presença de divinos montes. É assumir que tudo isto se vive e se tem e se traz e que passaremos quatro meses a contá-lo só para que outros se sintam connosco, mas sem nunca terem vindo de facto. É agarrar quem queremos pela mão e abraçar e dizer "Fui lá, voltei e não ficava lá porque te tenho" e repetir isso tantas vezes que quase é real, pelo menos tão verdadeiro quanto tudo o que escrevi e quanto letras alinhadas num ecrã de computador podem ser.


E quando acabam este ponto e o vosso coração sumir um bocadinho durante segundos, dão por vós com uma vontade de virem à Ásia Central e saberem se podem se outros. Claro que podem. Afinal, é a rota da Seda, produzida por lagartas que viram borboletas. Querem melhor sítio para uma metamorfose?

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Cronistão 20: Capital importância



Deixem-me avançar desde já que Bishkek é capaz de ser a capital menos interessante onde estive até hoje Não foram assim tantas, o que torna a afirmação bem menos destruidora, mas se um dia por lá passarem, assim como quem anda pela Ásia Central e tem tempo para tomar um café, dar-me-ão razão, ainda que tenham mais carimbos no passaporte do que o Bruno de Carvalho tem desculpas. É aquilo que imaginam que uma cidade soviética seja, em esplendor: edifícios presos na década de 70, uma praça central enorme, estátuas memoriais, um Lenine de bronze apontando o caminho para a revolução mais perto e, claro, confusão no trânsito, porque aparentemente é boa ideia ter no meio da cidade avenidas com 4 faixas. Há semáforos, sim, mas todo o trânsito é domado por polícias sinaleiros, imaginem, Um deles passou ao lado de uma carreira no Cirque du Soleil - apita com ritmo e melodia e os malabarismos a que dedica o cacetete impressionariam qualquer peão ou acelera. É um artista, está claro, e como em todas as cidades por onde passarem, metade da sua consistência vem da personalidade de quem nela habita. Em Bishkek, por exemplo, mora a justiça popular, que quase conheço de perto quando, depois de tirar fotos a uns cartazes numa escola, sou perseguido por uma furiosa mãe, a directora do estabelecimento e dois seguranças. Agora sou pedófilo, e lembrem-se, lidei e fotografei crianças durante semana e meia noutros pontos do país, coisa que nem sonham. A figura materna orgulharia Putin: não existem provas, mas ela quer-me preso, retido em calabouços e sem hipóteses de saída. Não sabe falar inglês, mas invade-a uma temeridade quase certeza de que a minha obrigação era falar Russo para me poder descompor. Felizmente, a directora da escola percebe a língua saxónica e muito calmamente, mostro-lhe que não carrego nas mãos uma edição especial Nikon assinada por Carlos Cruz. Apago as fotos dos cartazes e pronto. A mãe ursa ainda não está convencida e sinceramente, se ela me viesse às trombas, tenho a impressão de que não teria hipótese.


Depois de uma experiência que me fez sentir criminoso, um acaso faz-me regressar ao prestígio internacional, quando passamos à porta do único cinema da cidade. Uma fila de jovens de smoking orienta-se à entrada e sou curioso o suficiente para perguntar o motivo do aparato. Informam-me que o maior nome do cinema quirguiz cumpre 50 anos de carreira. Um Manuel de Oliveira por aqui? Que excitação! O Zé Luís apresenta-me como jornalista - sendo que só escrevo para uma webzine de cinema. De repente, as portas abrem-se: pedem-me que entre, fotografe, tire nota,s entreviste, informe. A minha imagem é a de um maltrapilho, com calças de fato de treino, barba por fazer, roupa perfeitamente informal, mas a palavra mágica torna-me numa espécie de enviado superior. As estrelas de cinema do Quirguistão, e dizem-me que vieram todas, são menos interessantes do que as pessoas da minha terra, mas bato umas chapas e meto conversa com algumas, sem nunca pedir autógrafos. Quando me cruzo com a eminência parda da 7ª arte, que dá pelo nome de Bolot Shamshiev, noto semelhanças com um tipo que vejo sempre na Baixa de Coimbra, rondando o café Montanha. Sei que não são a mesma pessoa, mas por momentos sinto-me tentado a oferecer-lhe uma ideia para um filme, sobre alguém que vive duas vidas. No entanto, contam-me que este Tarkovski de olhos em bico não fez filmes desde a queda da URSS. Coincidência, se calhar.


Por toda a cidade, o ambiente é de festa. No dia seguinte comemoram-se os 25 anos de independência do país e é mesmo bom saber isso, porque no grupo todos vimos o quanto o Quirguistão deixou a influência russa. Há uma grande azáfama na praça Ala-Too, central da capital, com enormes bandeiras vermelhas e amarelas, um palco a ser montado, militares vigiando: já não veremos o que se passará, mas será grande de certeza. No dia a seguir, e nesta altura ainda não sabemos, um terrorista achará por bem pegar num carro armadilhado e enfaixar-se contra a embaixada chinesa. Não é passatempo local, acho, e se for é menos popular do que os Jogos Nómadas, as Olímpiadas da Ásia Central anunciadas por toda a cidade. O destemido suicida é uigur, uma etnia meio mongol meio chinesa que tem um assunto mal tratado com a China a propósito de um pequeno território. Ninguém morre, dizem as notícias oficiais, mas as fotos mostrarão destruição capaz de ter ceifado duas ou três pessoas. Veremos na rua presença militar mais intensa, metralhadoras em punho, trânsito desviado; e tudo decorrerá como o normal. Mas hoje não, passeia-se na rua sorrindo, as pessoas são simpáticas, um velhote até conhece Renato Sanches! Visitamos a estação de caminho de ferro, soviética em decoração e na vigilância que fazem das nossas máquinas fotográficas, não porque roubem a alma às paredes, mas porque mostrarão lá fora o que está para lá da muralha.


Estou na cidade, mas nem estou mesmo. Já penso no regresso, em voltar ao que é meu e em mim cresce uma vontade de partir para longe da própria partida. Cheguei aqui com medo e agora o meu medo maior é ir embora sem ter visto tudo, uma impossibilidade certa, mas a voracidade de mais e do absoluto despertou em mim quando decidi dar este passo tão maior do que as minhas pernas. Esta cidade diz-me pouco e quero voltar aos grandes espaços, às montanhas, ao fim de tudo no princípio da minha natureza curiosa e lambona do olhar, do toque e dos contornos do mundo. A minha família existe em Portugal, tal como os poucos amigos que ainda me recebem no seu pequeno mundo, como um ser cheio de falhas, e a minha cabeça navega num mundo em forma de L e sei que me esperam e querem que conte de viva voz o que fui escrevendo, querem ver-me e rir com aquela maneira como conto as histórias como reparo nas pequeninas coisas, como sou um idiota aceitável e funcional e a mim só apetece ser egoísta ao ponto de ficar. Viajar é também regressar, e só nos lembramos disso quando mais custa, quando o nosso ser se habituou a um local estranho para retornar de novo à raiz de si próprio e estranhar.

Ir de viagem é muito mais complicado do que simplesmente partir, e começo a achar que este verbo é bem adequado: é como se vários pedacinhos de nós estivessem num saco com os contornos de corpo e, à vez, se mascarassem de todos os locais onde estivemos; e Bishkek é muito mais do que Bishkek: é tudo o que vivi aqui, e são tantos os pedaços que só me consigo comparar a um ferro-velho.

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Cronistão 19: A epifania


Não sei se alguma vez acordaram com a vaga sensação de que o anterior é uma névoa difusa, onde se reconhecem as formas mas não os conteúdos. Há uma memória esfarrapada de algo mas nem conseguimos localizar ou identificar bem o que é. Quando acordei no meu antepenúltimo dia por terras do Quirguistão, só me consegui colocar, de corpo, na capital do país. Regressáramos a Bishkek, lembro-me disso, apenas na capital poderia ter imagens do caos nocturnos do trânsito, faróis, farolins e letreiros luminosos, o alcatrão como arena de egos, o desenrascanço motor como forma de vida. O que acontecera até lá chegar era um vapor. A cama foi votada ao abandono, enquanto admirei o pequeno, mas moderno quarto que nos destinaram. Foi debaixo do chuveiro que, ao invés de descobrir a minha sexualidade, como num livro de erotismo barato acerca da adolescência de uma jovem e núbil loura de Frankfurt, me retornaram aos olhos as imagens do absolutamente desmiolado dia anterior.


Como uma máquina de slides, no brilho histérico da luz dos neurónios, entrevejo as imagens e os momentos, enquanto a carne do meu corpo adormece na lengalenga da água quente: o reencontro com o trio de americanas que conjurámos no Suleiman Too, em Osh, numa estranha coincidência e descobrir como à luz da manhã, cada uma delas fica ainda mais bonita, principalmente a Caroline, que parece querer defender Hillary Clinton até à morte; a saudável ignorância da Martine e do Umar, dois garotos que vivem junto ao lago Tulpar com a família e que nem nunca devem ter visto brinquedos ocidentais, nem o mar, nem a vergonha - enquanto tomo o meu pequeno almoço dentro de um contentor, Martine é uma anãzinha cor-de rosa agachada, urinando e destilando um sorriso inocente para mim; passar por várias tendas de refugiados da ONU à beira da estrada, na conclusão de que apesar de terem originado a milhares de quilómetros de distância, estão aqui a servir de armazéns de forragem para o gado, um Honda Civic à beira da estrada, onde duas ovelhas vivas e esperneantes são atada, balindo a sua revolta em vão; uma garagem artesanal montada em plano leito de um rio, sem estrada aparente, sem caminho evidente; regressar a Osh, depois de uma noite na cúpula do céu e sentir na pele uma dor física de quem regressa ao sururu da vida depois de ter dormido num colchão de ideal; enfrentar uma viagem de 14 horas de Osh aaté Bishkek como quem respira fundo e se entrega completamente a um dia torto num assento de carro; conhecer uma alemã chamada Franziska que desconhece por completo quem são Werner Herzog ou Wim Wenders, apesar de ter um curso universitário tirado há dois anos, mas que revela surpreendente sentido de humor no conhecimento de que a cadeira de rodas de Wolfgang Schauble lhe traria uma vida difícil na paisagem montanhosa quirguiz; um camião de combustível capotado numa estrada de montanha, com público fumando cigarro perante o inflamável líquido que verte e inunda a estrada e ao invés de ajudarem o condutor, a multidão plateia agacha-se sem nunca tocar com o rabo no chão; o espelho de céu que é o lago Toktogul, onde parecem existir duas abóbadas celestes e que se mergulhasse na água, se ao menos caísse nessa tentação, estou certo de que aterraria numa nuvel e podia respirar pó das estrelas sem medo de sufocar.


A água cessa sob meu comando, o que não impede um banho final de memórias. Enquanto a aspereza da toalha me enxuga a pele, a sensação de me levarem um pouco de mim retorna o momento em que estive mais próximo de morrer na minha estadia por estas bandas. Depois de passar um longo túnel de montanha em modo corrida, a descida de uma comprida e sinuosa estrada em noite cerrada, chuva que espalha secura na garganta e dois condutores de veículos numa louca competição acerca de qual deles poderá ganhar asas se sair dos limites do caminho num voo de centenas de metros a pique. São dezenas de carros uns ao lados dos outros, procurando orientar-se na noite mas por outro lado pisando o pedal também, é como perder os travões deixar-nos ir à confiança; eu, que sou ateu, confio pouco, mas não tenho muito a fazer senão sentar-me, confiar que o melhor acontece e abdicar de querer o controlo. É tudo o que mais detesto, tudo contrário à minha natureza e atitude. Eu, que creio sempre no pior dos cenários, eu que detesto, abomino ostensivamente condições de aleatório e de voraz vórtice que me arrasta para a insegurança das situações, estou trancado numa caixa de metal de origem japonesa, levado por um alucinado de origem quirguiz, com outros aterrorizados de origem portuguesa. Enquanto todos eles, lívidos, vociferam impropérios, empalidecem como serafins, eu acalmo-me e numa epifania concluo que esta é a minha vida, este delírio quase mortal é aquilo que tem sido tudo o que vivi nos últimos anos, a onda gigante que simplesmente me sufocou e arrastou centenas de metros por terra, atirando-me um destroço e outro na obrigação de carregá-los até nem me poder levantar.- Esta viagem é o meu tempo, sem relógio e minutos e ponteiros e quando acaba e ainda me apalpo intacto, percebo que há vida para além da morte que nos impomos, que se sobrevive às hipóteses e à estatística, que se sai inteiro do outro lado da escuridão.


Visto-me no tempo actual e ligando o telemóvel à wi-fi do hotel, o mundo volta a saudar-me. Estou de regresso e na página de Facebook, no canto direito, mais de 50 pessoas leram e gostaram do relato que acabei de aqui escrever. São palavras que condensam tudo o que é indizível, nenhuma destas pessoas esteve sentada naquele carro em permanente diálogo com a Ceifeira, mas gostaram, apreciaram que eu estivesse. O meu companheiro de quarto ocupa agora o seu turno de banho e sozinho no espaço, sem ninguém por quem me envergonhar, faço uma vénia bastante teatral a todo o público que ao longe, com curiosidade. se banha no meu chuveiro da memória. Espero que, no final, se sentiam tão revigorados como eu, agora que estou refrescado e vou comer panquecas com chocolate ao pequeno-almoço.

sábado, dezembro 31, 2016

Sitting at the dock of the bay


2016 cai na memória comum como uma espécie de peste negra enrolada em gonorreira, mas seria muito difícil, pessoalmente, que fosse mais devastador do que os dois anteriores. A estranheza de encarar a vida como uma sequência alinhada de ciclos solares é sempre bizarra, sendo os nossos dias tão aleatórios e desproporcionais no que nos devolvem que haver, de facto, uma ordem a domesticá-los é absurdo. Mas aqui sentado na porta de saída para o que vem daí, com o benefício de já ter vivido a incógnita, vejo uma ruptura. Pequena, mas existe, e 2016 foi de facto diferente do que vinha vivendo. Um pouco por acasos felizes, um pouco por opções tomadas tantas vezes sem o mínimo de plano firmado e racional (e que, neste sentido, são também acasos felizes), este ano trouxe-me várias pepitas de chocolate, com maior ou menor quilate,  e que se for frio e puser a minha tradicional visão de um mundo arder cuja única solução é regar com combustível de lado, não se passou assim tão mal quanto a isso.

O que se destaca? No primeiro dia ano, recuperei a minha melhor amiga, o que só podia ser prenúncio de que nem tudo seriam colheradas de óleo de fígado de bacalhau; e em grandes planos e objectivos, completei o trabalho para um dos locais mais emblemáticos da minha cidade e que deverá perdurar durante uns tempos na memória de quem o visita; inscrevi pela primeira vez o meu nome na autoria de um livro, escrito a meias com uma das pessoas de quem mais gosto e com uma talentosa jovem que conheço há anos e que volta e meia precisa de umas marretadas para entender o quão boa é. Fi-lo ao serviço de uma instituição onde passei mais de metade da minha vida e que me deu bastante. A divida foi um pouco paga, mas acima de tudo, escrever este livro foi um prazer, seja pelo trabalho com as minhas colegas, seja por me ter devolvido um gosto antigo pela memória, pelas histórias alheias num fascínio quase infantil pelas peripécias de um tempo que não o meu, na reconstrução passo a passo de uma narrativa da qual também fiz parte num impacto pequenino, mas que aparentemente houve quem não esquecesse. Participar neste livro foi também reconhecer, de uma maneira egocêntrica, o efeito borboleta da minha presença na vida, principalmente de outros. O que, depois de um ano em que saí basicamente convencido de que era uma silhueta só com formato atravessada por toda a gente e sem deixar marca, foi refrescante.

A decisão de viajar até ao lá longe da Ásia Central, a um local totalmente fora da minha zona de conforto, foi nova ocasião para me surpreender comigo e acima de tudo pensar que tenho um desejo de morte cada vez mais crescente; no entanto, depois de quase meio ano ainda a escrever pequenos relatos do que por lá vivi - e, lamento informar, ainda faltam alguns - e de publicar fotos que têm suscitado a admiração geral e a curiosidade por um país do qual boa parte dos meus conhecimentos nem sequer ouvira falar até Agosto, mostra o quanto esta viagem acabou por ser importante para mim. Tal não se deve apenas à semana e meia (e não, não foi ano e meio) de cirandas por aqui e por ali, mas acima de tudo pelo que vivi numa terra diferente e pelo que soube ser capaz de fazer. Avançar para um desconhecido, embora com rede, fez-me perceber que não estou completamente morto por dentro, que algo se mexe e encavalita, que a minha curiosidade pelo mundo permanece e me agita, que ainda pretendo espreitar o que existe do outro lado da cortina. Se nunca estiveram removidos a sério do vosso elemento, façam: conheçam gente diferente em locais que nunca pensaram, reorganizem a vossa visão do mundo, entendendo que o surreal existe, mas não é necessariamente mau: apenas uma ocasião para se voltarem a sentir bem com aquilo que possuem e tem, que boa parte dos vossos problemas são de primeiro mundo e se todas as dores têm validade, o prazo de umas é maior que de outras. Vim do Quirguistão com uma melhor noção do que sou, até para outros que não me conheciam e de quem ouvi coisas nas quais não me reconheci à primeira. Trago dessa terra, acima de tudo, imagens que recordo quase diariamente, de momento e paisagens, de pequenos instantes de humanidade e histórias de gente diferente, e também algumas das melhores fotografias que tirei porque há locais que se apresentam sozinhos em estrondo sem que precisemos de fazer muito.

Houve desilusões e micoses no escroto, mas a pedido de alguém, não me demorarei muito tempo nelas. Tudo o mais foram projectos pouco abjectos, amizades redescobertas ou feitas, riscos e medos vencidos, outros medos ganhos e escaldados, a ideia de poder ser útil e lampejos ocasionais de desejo e vontade pela minha pessoa, que incendeiam a barriga como um prato de chili, mas se espalham em labaredas linguarudas pelo resto do corpo no agradável torpor de um beijo granada, Também há disso na vida e que continue a haver para todos nós, que se tudo isto for uma guerra e as trincheiras são as horas de cada dia mau, que a paz se sele com um beijo selo, enviando-nos ao remetente do ano que se segue num postal ilustrado cujas cores somos todos nós. No caso deste blog, eu limito-me a traçar a moldura: quem pinta sois todos vós quem lê, quem gasta aqui tempo, quem fica a pensar quando se vai embora. Bom ano, amigos.

segunda-feira, dezembro 26, 2016

Cronistão 18: A casa da montanha


Não sei se alguma vez se viram aos pés de uma coisa com sete mil metros. Uso a palavra "coisa" porque pode ser tudo o que imaginam que se ache na disposição de ter de metros sete milhares, cabalísticos ou não. Se nunca usufruíram do prazer, posso dizer-vos que é uma enormidade e que nada na vossa vida em altura se pode sequer comparar ao espanto que é o sentimento de uma insignificância abençoada, a descoberta de que há limites a ultrapassar e que o topo do mundo será sempre ilusório. Penso que vos é conhecido o meu gosto por montanhas, trepá-las e conquistá-las, fotografar o seu relevo, recorte e poder, simplesmente ficar cativo de um hipnotismo de apneia, a falta de ar sempre que se contempla o topo, a fartura de vida quando olho em redor e há tantas elevações que o meu próprio coração é o retrato de uma taquicardia orográfica. O Quirguistão, para um guloso como eu, é basicamente um rodízio de rocha e os próprios Soviéticos reconheceram o fascínio quando escolheram baptizar a maior montanha do seu território com o nome do homem que fez mover a revolução soviética. Hoje tem o nome de Avicenna, no Tajiquistão, mas por aqui, não há quem não lhe chame Lenine, Lembram-se do fetiche que este país tem por estátuas do seu próprio santo e anjo vermelho? Pois claro que tinham de passar isso para outro plano, literalmente. Claro que, em 1993, um outro pico chamado Ismoil Somoni (para a Rússia, Pico Estaline) revelou ter mais 300 metros, mas isso são pormenores.


O Pico Lenine estende-se pela fronteira com o Tajiquistão  e é, descubro depois, uma dos mais fáceis picos do mundo para escalar acima dos sete mil metros. À medida que nos aproximamos, fica essa ideia e vê-se, ao longe, uma base de montanha para alpinistas. Ninguém quer subir pelo lado Tajique, país que sofreu recentemente uma violenta guerra civil e ainda tem má reputação. Vemos alguns alpinistas, mas nenhum em subida. Contemplam, como nós, a monstruosidade daquela montanha. É Verão, mas está ainda completamente coberta de branco, como se um lençol a tapasse num sono de hibernação permanente e a certa altura alguém (que não Lenine, que está em Moscovo à vista de todos) despertasse do topo. Encho os pulmões de oxigénio, puro mas denso, fazendo arrepiar o meu sangue e trazendo-me um tipo de cansaço que só em altitude se encontra.Há uns vinte minutos que saímos do local de dormida e a a marcha é lenta, pelas muitas fotos que há para tirar, mas também porque a marcha se faz por trilhos apagados, destruídos pelas águas do degelo e não planos. O céu nebulado ameaça uma chuva que nunca vem e inundo-me do aparato fulgente da Natureza, que vejo em caldeirões de montanha onde se cozinha neve, pequenos lagos que mais não são do que passos de gigante que deixaram para trás espaço para repouso das águas e também nos olhos de quem sabe que a máquina fotográfica é apenas uma testemunha silenciosa e imperfeita para o que assistimos. Deve ser esta a reacção mais repetida que encontram nos meus relatos, mas é impossível não senti-lo. Conseguem vê-lo nos olhos dos guias locais, que são amigos de bar destes montes e paisagens, que com eles partilham conversas no balcão do quotidiano e que não conseguem cansar-se de engolir com as pupilas este manjar visual.

Na base do Lenine, há um glaciar, de onde brotam águas que no Inverno abrem uma garganta. Esta, quando a visitamos, leva pouco volume aquático, mas dá à paisagem um tom irreal. A temperatura baixa enrola-nos como um yo-yo e caminhar é a única solução não apenas contra o mundo extraterrestre, mas também os tremores de frio patrocinados por uma orquestra de rumba hipotérmica. Há luvas, há barrete, há um grosso casaco e ainda assim, não conseguimos competir com a grossa pelugem dos vários iaques que encontramos em manadas. Dominam o planalto, que parece um plástico de bolhas com os seus altos e baixos e quando nos observam, trazem avisos mudos. O nossos respeito é imediato, aprendi a nunca questionar bichos territoriais cujos cornos são o dobro da minha cabeça e penso que o cliché da Ásia Central é isto: alta montanha, iaques, neve e assombro. Alguns clichés existem porque são de facto verdade, e na verdade, repetindo a palavra, o cliché de aqui escrever isto funciona porque qualquer assombro ao qual não queiramos encontrar a artificialidade do voo poético só pode mesmo ser despachado em frases que fazem parte do nosso código genético como viajantes, Quando o sol se põe, já estamos perto do acampamento e deito um último olhar ao gigante pico que não tossiu enquanto ali estivemos nem espirrará depois de irmos embora. Descansa plácido, imune aos nossos destinos, alheio às minhas preocupações e anseios e devaneios e nunca se importando com as dores que carrego e que na viagem me fazem, por vezes, dar solavancos na culpa do meu prazer. É como se me observasse sem julgar, mas também sem ajudar, e com isso me avisasse que a vida é isto, uma gigantesca montanha cheia de cortes e recortes, com avalanches ocasionais e topos desmedidos de conquista.


Ou talvez seja apenas rocha. Um dos princípios da montanha é que te dará apenas e só o que procuras e que és. Tudo o mais, fica para quem vem depois de ti.

terça-feira, dezembro 20, 2016

Crónicas 17: Uma habitação no fim do mundo


Não têm que querer saber isto, mas gramam com a informação na mesma: uma das minhas viagens de sonho é descer a Argentina pelo litoral de Buenos Aires até à Patagónia. Desde que vi um documentário no Odisseia há uns anos que a visão se formou na minha cabeça - um carro que desce um semi-plano, nem planalto nem planície, o mar sabendo-se ao longe, um céu azul mas nem tanto, com a cinza arrastada de vaporosos cúmulos, vento criando furacões dóceis entre as janelas do carro e aproxima-se a última cidade antes de tudo o mais, um ponto semi-civilizado que é o último bastião populado antes de entrarmos na vastidão da terra que se estica até beijar ao longe os dedinhos do pé das montanhas. Não faço ideia se a sensação é igual à real, mas assim o realizei; e quando, depois de um longa descida montanhosa, desfilei até à entrada de Sary Tash, foi exactamente o que vi. Sabia que o mar estava lá longe, bem longe, sem salitre no ar, mas aquelas elevações cobertas de neve, quase miragens, quase prova tangível da capacidade que o mundo tem em se superar, eram tão andinos que quase jurei estar na América do Sul como se levado por um ritual xamânico. De Sary Tash cheira-se o Tajiquistão, que não está a mais de 40 km de distância, e aspira-se o ar que se pode, tendo em conta que nos encontramos aos 3200 metros, algo que já vai sendo normal nesta invenção dos homens que chamamos de Ásia Central e me fui habituando a não ter nome, apenas um instinto, uma sensação baldeada nos pés quando a calco, nas mãos que pressiono a minha máquina fotográfica e com ela quero transportar coisas que nenhuma máquina está preparada para guardar.


Não sei o que é Sary Tash; é com certeza uma espécie de qualquer coisa, mas não estou certo de quê. Há um posto de gasolina abandonado, mas os barracos denunciam gente que não quis fazer do fim do mundo casa, apenas forte de resistência. O meu carro estaciona para podermos almoçar e logo vemos na rua crianças, nenhum adulto. É como se estes tivessem simplesmente desvanecido, deixando as infantis criaturas à solta e entregues aos seus próprios engenhos e passatempos. Numa mercearia ali colada, quatro garotas, a mais velha com uns dez anos, a mais nova não tem mais do que 4, gerem a loja sem falar um ponta de inglês e são uma pessoa com oito pequenos braços que trata de tudo: o dinheiro está numa caixa de ferro debaixo do balcão e quando os produtos se encontram nas prateleiras mais elevadas, cadeiras e o velho truque das cavalitas não têm segredos para as nossas merceeiras. Não compro nada e rebusco na mochila a minha velha amiga lata de atum, que me entretenho a comer com um garfo roubado num hotel em Naryn, bebendo a paisagem impressionante do Pamir ao longe e sabendo que é ali o destino. Sary Tash é um ponto fundamental na região, centro populacional único num raio de dezenas de quilómetros e embora o aspecto seja menos do que lisonjeiro, respeito isso. Significa "Pedra amarela" em turcomeno e se olhar em redor, orbitando sobre mim mesmo, vejo China, Tajiquistão e Uzbequistão. É terra de todos e sente-se qualquer coisa de surreal, aliás quando reparo num garoto que enfrenta o alcatrão em cima da sua bicicleta, pergunto-me de onde vem, para onde vai ou sequer se tem esses objectivos e se conhece que é cidadão de tudo e de qualquer lugar, que lá longe na capital nem se lembram dele nem de quem é, nem de Sary Tash e os seus casebres de zinco acossados pelo vento, como cães que te ladram se te perderes na neve, um garoto que só vê os pedais e o guiador, desconhecendo o ritmo giratório da corrente. Quando saímos de Sary Tash, penso nele e nas trabalhadoras meninas de balcão, no nada que rodeia Sary Tash, do tudo que pode ser acordar uma manhã, olhar a montanha e sentir que o mundo se restringe ao que a vista alcança e de como se poupam tantas chatices quando assim contemplamos o espaço.


Depois de apanharmos um guia, entramos nas já conhecidas estradas de terra batida e cascalho do Quirguistão. O objectivo, diz-me o Zé, é o lago Tulpar, onde dormiremos novamente numa base de montanha de yurts. Num poste de alta tensão, um puto montou um balancé de corda e diverte-se a abaná-lo com o movimento do corpo, sorrindo. Se eu tivesse esta vista todo o santo dia, sorria também, uma terra acastanhado clara com vegetação rasteira, os dentes da montanha fazendo-me sentir como se rolasse dentro da boca do mundo e pontas de neve confundindo-se com fiapos de nuvens. Os meus olhos consomem-se e nem reparam que a estrada vai acabando na sua serpente num repente, a vista abre-se e o poder do Pamir esmaga, com a ponta meio escondida dos descomunais sete mil metros do Pico Lenine a dobrar o dia como se a rocha bruta tivesse efeito sobre o tempo. A temperatura desce consideravelmente e subimos mais uns 500 metros, só para risadinhas. Há tempo para arrumar as coisas dentro de uns yurt já aquecidos previamente, gente simpática que faz disto vida a trabalhar e recebendo estrangeiros. O lago Tulpar nem é bem um lago, apenas o que sobra do degelo e a minha vontade comichosa e descobrir a montanha. Quero saber se a Patagónia mudou de lugar, se a Terra do Fogo incendeia os países da Ásia Central com o mesmo impacto com que esta terra me tem posto os olhos a arder, transformando todos os momentos em que penso em L num fogo posto permanente, de uma saudade que me rói a cabeça, abre o coração a todas estas experiências e congela todas as minhas lágrimas não vertidas nas imagens que levo daqui. Na base de um altar rochoso, rezo da única maneira que saio: amo, a L e a experiência do embasbacamento, que é exactamente igual, porque ambos me lembram que estar vivo é um direito, mas mesmo que me deixe torto, há-de sempre deixar o meu lado esquerdo em brasa,


terça-feira, dezembro 13, 2016

Cronistão 16: Paisagens


Osh fica para trás, depois de uma gincana por entre o caótico trânsito da cidade e o objectivo é deixar novamente a civilização para trás rumo ao sul do país. Passaremos a noite no lago Tulpar, uma pequena massa de água na base do pico Lenine, um mastodonte montanhoso que, diz-nos um mapa com informações topográficas, estica o pescoço acima dos 7000 metros. Depois de uma semana instalado nas quirguizes terras, a paisagem torna-se familiar e não falo apenas da orografia: a cadência incessante das montanhas que obriga a minha retina a fazer flexões; a tomada das estradas por manadas e rebanhos, tão merecedores do espaço como qualquer veículo; velhos e novos que vêm a vida numa pausa permanente, como se o tempo apenas se notasse nas rugas da pele, no enrijecer dos músculos, numa noção de que há mais segundos do que poeira e que só o sol muda numa terra em que tudo o mais se mantém no reconfortante sossego da permanência. No meu lugar instalado, tento encontrar os sonhos atrás dos olhos destes transeuntes quando nos cruzamos nos escassos segundos em que o carro rola. Nas ocasiões em que paramos, a sensação oprime-me.


Num conjunto de casebres à beira da estrada, que por conformidade devem chamar de aldeia, encontramos um grupo de garotos cujo mais velho não terá oito anos. Somos ocidentais, diferentes, logo ganhamos o direito a gente ficcional, personagens de histórias que lhes contam quando vão dormir, tão no mundo da fantasia quanto o Pai Natal. Uns brincam com pedras, outros levam recipientes na mão, têm tarefas a fazer, mas quando paramos, correm para nós. A tendência é tirar fotografias e pelo canto do olho, reparo numa criança que deve ter descoberto a utilidade total das pernas há uns meses apenas. Têm curiosidade a olhar-nos e vêem um grupo de estranhos com máquinas ainda mais estranhas, desconhecidas, apontando para os amigos. Num gesto automático e de pura imitação, coloca defronte do olho uma garrafa vazia que tem na mão e filma-nos também. Macaquinho vê, macaquinho faz. Primeiro de pé, depois de joelhos, aproxima-se e afasta-se, filma um e depois outro. Vê o mundo por uma garrafa e calculo que a ideia que tem da vastidão da experiência humana é semelhante, a cabecinha de uma criança a descobrir uma novidade que seria quase tão incompreensível para alguém dez anos mais velho. Quando os deixamos para trás, o mais velho corre ao lado da carrinha em passada larga, sorrindo, dizendo adeus. Fotografo-o, no momento em que não toca o chão, não voa mas está pelo menos fora do mundo e é assim que recordo esta garotada suja, mal vestida, descalça mas incrivelmente sorrindo, feliz na benção da sua própria ignorância do futuro. 


O ponto alto literal da viagem é a passagem pelo Pico Taldyk, uma elevação montanhosa que encontra aos 3615 metros razões para me deixar em estado orgásmico. Qualquer que seja a direcção que o nosso olhar consome, o prazer vem logo atrás, de mão dada com o espanto. Situado nas montanhas Alayn, o Taldyk é atravessado por uma anaconda de alcatrão chamada M41, mas que é conhecida no resto do mundo por uma nome bem mais assustador: a auto-estrada do Pamir. Vinda do do norte do Afeganistão, que fica a pouco mais de 100 km daqui, foi um daqueles projectos megalómanos construídos por um governo local, mas oferecido de bandeja a grupos de guerrilheiros que a patrulham e aí exercem o seu poder criminoso. Aqui, felizmente, estamos longe desse foco de violência, mas os perigos não acabam. Durante o Inverno, é muito comum esta estrada congelar e não são raras as derrocadas e as quedas de camiões centenas de metros em desfiladeiros, quando um veículo de várias toneladas vale tanto como nós quando se encontra com o gelo. Temos até a oportunidade de ver os restos de alguns, paz às suas válvulas. No cimo do Pico, um pequeno obelisco relembra Yuri Grushko, engenheiro que supervisionou a construção desta rota nas décadas de 20 e 30 do século passado. Mas à nossa chegada salta mais à vista um pequeno altar com velas, flores, objectos ofertados e alguns sinais cabalísticos que convidam a especulações sobre bruxaria e feitiçaria. A pouquíssima distância vemos três casinhas de pastores, cujas ovelhas se limitam à sua rotina de comer e ruminar num valezinho entre montanhas. Será este o ponto de encontro dos Illuminati da Quirguízia? Talvez; mas quando olho para a longa descida que nos espera, mais de 30 km inclinados negativamente até Sary Tash, lembro que em Portugal se comenta que todos os santos ajudam. Na Ásia Central, porventura, é mais seguro pedir auxílio às criaturas sobrenaturais da montanha. Assim como assim, estão bem mais à mão e aposto que nenhuma delas é gerida por um grupo mundial de pedófilos.



terça-feira, novembro 29, 2016

Cronistão 15: A benção do Lenine


O regresso a Osh fez-se a pé. Os 5 bravos que haviam ficado para o desafio do "trepomonte", carregadinhos da adrenalina da conquista até aos olhos e contactando em simultâneo com o seu macho primordial e  fêmea precavida e escaldada de várias viagens com condutores da Quirguízia, fizeram-se ao caminho caminhando. O toque para a penúltima oração do dia ressoava quando passei ao lado da maior mesquita do país e com o sol descendo lentamente no beijo do ocaso, senti-me exótico, mesmo vestindo t-shirt e fato de treino. O objectivo que traçáramos era exactamente o contrário do religioso: visitar a maior estátua de Lenine do mundo. Não há tramp stamp mais emblemático do domínio soviético do que a figura sólida do líder bolchevique original olhando as massas lá do lato, vigiando a revolução e talvez questionando porque raio é que estes países gostavam tanto de lembrar tempos de ditadura mantendo o maior símbolo da URSS em destaque nas suas cidades. Era a terceira estátua desta figura história que víamos e não seria a última; arriscava-me a dizer, aliás, que todas as cidades deste país adoptaram uma. Talvez cristalize a esperança da Revolução, um qualquer instinto que insufla a crença de que daquele bronze sairá o camarada Valdimir Illych Ulianov anunciando "Malta, foi só um ensaio. Agora é a sério e vamos cumprir tudo o que prometemos". Talvez o que conte não é o que há, mas o que pode, não o existiu mas que provirá, nunca a desilusão, mas sim uma antecipação total da segunda oportunidade. Como Portugal, também o Quirguistão que se falta cumprir a si mesmo.



De facto, estando na base, a coisa é bem imponente. Aponta o caminho de algures, talvez o rumo para Ekaterinburg ou simplesmente para longe da Geórgia. A estátua cruza-se com o sol e Lenine volta a brilhar por momentos. Ouvimos então acordeões e concertinas e a nossa atenção é puxada de imediato para um parque ali perto. O Zé comenta que deve ser festa, talvez casamentos, e não está errado. Três casais, dezenas de convivas, 4 músicos a animar tudo e uma procissão de limusinas Hummer: é o que temos. Parece ser tradição local combinar aquele parque como ponto de encontro e não entendo muito porquê, é discreto e banal, não se vêem flores e quase é um pedido de benção a Lenine: pai dos povos, por favor, que o casamento seja supimpa. Misturamo-nos  pelas caras mongóis, algumas maquilhadas, algumas já ébrias e afastado dos meus colegas, cada um com o seu foco, encolho-me receando as reacções à presença de um ocidental de câmara na mão. Venho vacinado das minhas experiências anteriores, mas o nó foi desatado pelo néctar de Baco e sou até puxado pelo braço: fotografa-me, devem dizer-me em russo, fotografa-nos a todos. Olha esta careta, topa esta palhaçada, agora dançamos todos, fazemos comboinho, anda, é festa. Há rodas da danças, rapazes novo com passes bailarinos armados aos cucos, palhaços da comédia, riam-se todos, vivam os noivos. Assim me atrevo e até filmo, as festas estão todas em caos atadas e passo de uma para a outra sem dificuldade. Fotografo gente, o que quase sempre me é alérgico e capto na cara de todas as noivas uma tristeza que não engana. Podia dizer que é um segredo feminino, mas também nos homens encontro um sabor melancólico, não sei se escravo, no olhar, na postura, na pose, uma pequena intuição de que ali não foi o amor quem assinou a vontade. Para quem se habituou ao cliché dos países muçulmanos do outro lado do planeta, o choque é grande: mulheres maquilhadas, vestidos levemente decotados, coloridos, sorrisos e alguns flirts e os homens sem barba, sem gravata, não antipatizam, chamam-te e tentam perceber-te até. Um tenta encetar em diálogo duplo linguístico uma troca de impressões sobre máquinas fotográficas: é o homem que cumpre essa função na festa e deve ter feito um esforço para não se rir com a simplicidade do meu canhão. Chega outra noiva, é a quinta pelas minhas contas e esta sim, de cabeça tapada, corresponde ao que pensávamos. É também a altura em que abandonamos aquele microcosmos e quando, mais tarde, vejo o resultado dos meus cliques, não só não fazem justiça ao pandemónio e ao surrealismo da experiência, como provam que eu estou bem a fotografar naturezas inamovíveis.


Enquanto tiramos as últimas fotos, salta-me à vista uma garotinha que não tem mais de 16 anos, contornando a praça em que nos encontramos agora, defronte do Lenine venerado. Joga à apanhada com o nosso olhar ou às escondidas com o meu estonteamento. O cabelo longo, louro, não se vê muito por aqui e denuncia a sua origem eslava. Osh, no sudoeste do país, é muito mongol, Ásia Central no esplendor dos olhos em bico e pele morena e beleza desta jovem destaca-se por um exotismo que no nosso Portugal seria mais banal do que exótico. É num relâmpago que nos entreolhamos, estamos a pensar no mesmo e a atentar no mesmo. Ela desaparece uns minutos e quando reaparece, vem na nossa direcção. Em Osh, somos bichos tão estranhos quanto ela e a bizarria atrai-se como velcros que se colam. Chama-se Katarina, é russo-cazaque e com a sua blusa branca e saia pelo joelho, é mais rara por aqui do que um Yeti. Em mim, a vergonha de achar esta pequenina mulher atraente instala-se e só o Zé, nosso guia e nosso homem com lata, se atreve a meter conversa e a pedir fotos. Tanto eu como o António e o Rogério deixamos levar-nos também. Torna-se impossível não querer levar uma recordação de uma pessoa que verdadeiramente se destaca e de alguém que porventura procurou num quarteto de ocidentais terreno comum, gente que a percebe. Conversamos uns minutos, trocamos e-mails. Na despedida, um adeus e na minha mente, penso em como os escrúpulos devem ser tudo nesta região e aquela bonitinha Katarina teve a sorte de apanhar quatro mosqueteiros da decência. Outras não terão tanta sorte e num dia onde andei fora de mim, desço um pouco à terra, aos problemas do mundo, ao que me está longe quando no meu sótão teclo ao computador, mas que aqui é tão possível quanto um casamento por encomenda.



Muito depois de ter regressado ao hotel, o travo de malícia curiosa e inocência de espanto da Katarina vai acompanhar-me e quando à noite espero o comboio do sono, olhando para o tecto, é impossível não ter presente o que lhe reserva o futuro, passado no Quirguistão.

quarta-feira, novembro 23, 2016

Um rastilho


Algo estranho se estabelece quando a tua figura sentada decide ficar a menos de meio metro de mim que, sentado também, estou mais aninhado do que outra coisa. Torna-se dificil comandar aos olhos que se orientem quando te estabeleces como terceiro pólo do planeta. As linhas do teu corpo são mais tortas do que direitos, no sentido em que me perco por atalhos se não agarro com força as minhas divagações. É às vezes um movimento do cabelo, noutras até um pequeno gesto com a mão, a estática do teu olhar ou simplesmente a cor que enche a sala quando te ris, pode mesmo dançar-se no acaso de um toque ou na palavra que dita com um sentido pode tão bem ter outro se me der à fantasia, entretenho-me mesmo com o modo tímido com quem o teu peito se preenche no teu vestido, com uma imaginação própria, autónoma, um trejeito casual de sedução, arrastando menos o meu olhar e mais a minha própria respiração num ritmo análogo e semelhante.

Pode ser tudo isto o que me transforma em mais do que um, nem sei se chega a dois, mas mais do que um de certeza: aquele que é e aquele que quase é, que quase revive se as tuas mãos alinhavassem a minha cara com um novelo de ballet de pontas, pontinhas sedosas de carícia, pequeninas margaridas que despontam vapor de Zéfiro dos meus poros, do pequeno lençol de células que me cobre e no qual te puxo na minha imaginação para que te enroles. Se a tua face descobrisse no meu ombro uma razão para se auto-justificar em esplendor, se o teu limite fictício em forma de mulher se aproximasse menos de meio metro e mais do que te permites, se reencontrasse na minha própria forma menos ficções e menos limites, se as tuas palavras enganchassem os meus ouvidos para atracar cá dentro, no pavilhão dos impulsos, se fossem convite de suspiros numa pequena torrente de saliva, se a minha língua fosse um barco, se a tua fosse uma onda e se as nossas bocas fossem tudo menos o Oceano Pacífico.

Mas estás sentada a menos de meio metro de mim; e embora esteja aninhado, na minha cabeça sou um gigante desperto. A maior pena que cumpro é a realidade do mundo.


segunda-feira, novembro 21, 2016

Cronistão 14: Tarde cultural


O Park Tata, junto ao rio Buura, é um dos pontos de encontro para quem caminha por Osh. Quando, depois de almoço, decidimos resmoer é para encontrar famílias e grupinhos caminhando, alguns aborrecidos, alguns simplesmente automáticos; a certo ponto, encontro umas banquinhas que quando reunidas tentam ser o prelúdio de um parque de diversões. Numa, um trintão tardio cruza os braços ressalvando a musculatura digna de uma cordilheira andina e olha-nos duro e desafiador. A seu lado, está montada uma barra horizontal, bem boa para puxar umas elevações em suplesse. Uma plaquinha em russo tenta descrever o que se oferece, caso paguemos o estipulado e julgamos que é um exibicionista. Fixe, penso, eu pagava 50 com só para te ver sofrer e quando me preparo para puxar as notas, alguém tem a mesma ideia. Ele lá gesticula que afinal não, é um desafio: homem contra homem e quem fizer 30 mais rápido, fica com o dinheiro. O riso que se segue tem tradução universal e está visto que não será ali que o iron man encontrará competição. Eu sou o mais novo do grupo e não sei se me conseguiria levantar duas vezes do chão sequer, pois os meus braços são a mais definitiva prova de uma herança somaliana nos meus genes. Deslocamo-nos então para a banca do lado, onde se apresenta um jogo mais lúdico e menos bárbaro: duas garotinhas convidam-nos a atirar setas a uma parede onde diversas caixinhas guardam balões prontos a rebentar mediante a nossa pontaria. O vosso amigo esfrega as mãos e embora lembrando-se que costuma ficar sempre em último em jogos de dardos, o que interessa é espalhar a boa vontade entre os povos. Portugal fica mal visto, pois em seis setas, metade acertam o alvo. Os meus colegas seguem-se, com resultados melhores; a minha actuação espalhafatosa deixou a multidão ansiosa de me ver segunda vez e a turba manifesta-se: quer ver Bruninho novamente a fazer palhaçadas, porque quem não quer? Todo o meu grupo de amigos portugueses, mas isso não interessa; e portanto, chamando a mim as pontiagudas ferramentas de espectáculo, abro o livro: cada tiro é antecedido de antecipação e frenesim, um pequeno gesto, uma pequena piada, gestos largos e excessivos que comunicam universalmente. Aplausos, risos e sorrisos, um pequenino orgulho preenche-me e sinto que vim para longe fazer algo, animar o pachorrento quotidiano desta gente. A última seta será à filme: viro-me de costa e com um cálculo rápido, sai rápida da minha mão. O estouro do balão dissolve-se nos aplausos da plateia e enquanto ergo os braços, todos riem, todos somos humanos, todos apreciamos um cromo. O Ocidente e o Oriente não se encontram apenas no Bósforo.


Apanhamos dois táxis para o Sulmain Too. É uma espécie de nave espacial que se estatelou num monte à saída de Osh e alguém do grupo acredita piamente que tal é mesmo um objecto fora deste mundo. Na base do monte, vejo a mesquita muçulmana e recordo o que li sobre este ser um local sagrado do Islão. A história é que o venerando e venerado Maomé descansou por aqui uns dias e achou, na sua finita paciência, tempo para regar umas rosas. Rosas do Islão, afinal os trvadores provençais chegaram bem mais longe do que pensava.  É impossível não me sentir estranho ao largo deste monstro de betão, soviético até aos alicerces mas cuja envolvência rochosa cria em mim uma dissociação estranha.  Mas o local não é uma instalação artística de Giger, é mesmo um museu. Quando entramos, entendo o snetimento de um ocidental por aqui: uma placa anunciando bilhetes a 25 com muda de imediato para 150 apenas e só com a nossa aparição; e lembrem-se que Portugal não deixou aqui herança. Não julguem. No interior, interessantes apontamentos sobre o zoroastrismo e a vida selvagem pré-histórica misturam-se com a celebração de uns importantes petróglifos numa verdadeira salada russa de História e Paleontologia. O ponto principal de atracção é uma enorme janela que dá para a cidade, com formato de antena parabólica. Projecta no interior do Sulmain Too a aura alienígena que esperamos de um bólide espacial e a decoração, usando desenhos estilizados dos famosos petróglifos, não diminui a sensação, pelo contrário. No exterior, a varanda permite uma vista onde Osh se apresenta como urbe de verdade, extensa, larga, barulhenta e confusa, e ao longe, fictícia, traçada apenas nos mapas, a fronteira com o Uzbequistão imagina-se e estamos a tão poucos quilómetros que se consegue sentir a Rota da Seda em movimento.


No regresso ao centro da cidade, instala-se um desafio masculino: em redor do Sulaiman erguem-se vários pequenos montes e nas nossas cabecinhas, desenham-se já brutais fotos a ser tiradas. Uma breve conversa leva 4 bravos a meter pés à ladeia de terra, em busca de aventura. Cada um escolhe o seu caminho, mas as macacadas estão garantidas e serpenteando por rocha e cascalhinho, os nossos pés encontram na ponta de um rochedo um motivo para que o corpo pague a viagem. Num acaso não planeado, a nossa chegada combina com a de um trio de americanas com quem nos cruzámos no museu. São três irmãs, a Marguerite, a Caroline e a Bonibelle e provam que alguns estereótipos de comédia romântica sobrevivem e estão bem de saúde: a primeira é nem é gira nem é feia, antes pelo contrário; a segunda dá a ideia de poder despoletar uma segunda guerra de Tróia; e a terceira, a mais nova, é gordinha, girinha e outros -inhas e -inhos variados. Se lá atrás ficara pouco impressionado pelo facto de 3 garotas de Seattle desconhecerem a existência dos Rage against the Machine, Marguerite salva a honra do convento quando revela que não está na Ásia Central de férias: pertence ao Peace Corps e é médica, trabalhando como voluntária em aldeias. As suas duas irmãs mostram-se envolvidas politicamente, Caroline até faz parte dos vários voluntários que trabalham para Hillary Clinton e quando o nome Trump é falado, entre risadas, apercebemo-nos de várias Américas. O trio é do estado de Washington, tipicamente democrata, e falam do mundo como se fosse algo familiar, destroçando alguns estereótipos sobre a insularidade norte-americana.

Quando nos despedimos, a coincidência surge e sabemos que estaremos no mesmo local no dia seguinte. Talvez nos encontremos, e eu penso que sim, um mundo tão grande e tão vasto e dois continentes encontram-se no cimo de um rochedo em Osh, apenas e só por maluquices e desafios. Numa outra altura, a Rota da Seda era uma auto-estrada do mundo, e ainda hoje, esses mesmos percursos históricos continuam a unir um planeta que das diferenças não consegue fazer unidade; excepto as tres irmãs Leeds e quatro portuguesinhos: o cansaço é universal, a coincidência é cola e quando decidimos todos descer, os trambolhões são um abraço neste ponto de encontro.


quinta-feira, novembro 03, 2016

Cronistão 13: Rock the casbah


A luz é branca, conheço-a mas num segundo estranho. A lentidão ergue-me em solavancos e difuso e baço, um lamento em árabe consegue sobrepor-se ao barulho do trânsito e ao zumbido entre os meus ouvidos. Chamam para oração e no quarto de hotel, a hora é de pensar na peregrinação por Osh, onde me encontro. Aqui estou num real hotel, dezenas de andares, corredores que lembram "The shining", elevadores apertados, funcionários que sorriem simpáticos impessoais. É a primeira cidade a sério que encontramos na nossa viagem e só a capital é maior. O seu domínio sobre o lado quirguiz do vale de Fergana, um dos locais mais venerados e disputados da Àsia Central, nem se questiona e 3000 anos de idade dão-lhe a honra de ser a mais velha cidade do pais. Quando caminhamos nas suas ruas largas, há dezenas de pessoas que avançam connosco e no nosso oposto, sinais de que nesta zona mais a sul abandonámos a maioria eslava e existe uma influência muçulmana vincada. Nada que oprima: mulheres de beleza impossível levitam e existem longe de nós, mas a poucos centímetros de um toque que confirme que não são aparições, lenços tapando as cabeças mas pouco defendendo os ocidentais de traços faciais que envergonhariam a mais bela caligrafia corânica e colocariam frases a arder apenas e só porque de outra maneira não se queima a atracção. Podíamos passear em Osh simplesmente para desfrutar disto mesmo, embora a cidade, em si,

O que existe também em abundância é um caos organizado em desorganização permanente, o que se espera depois de dias a conhecer os hábitos rodoviários das quirguízias terras. Cada um por si e vamos ver no que dá, semáforos em entroncamentos que acendem em simultâneo e oferecem uma visão semi-apocalítica que faz da Rotunda do Relógio um paradigma escandinavo de organização. É preciso ver como todos se escapam, como se mete o nariz para testar as águas e depois arrancar prego a fundo pelo buraco que se descobriu. O caminho que fazemos tem como objectivo um outro local onde a desorganização foi acordada com um aperto de mão seco e sincero e desde que ninguém se atrapalhe, todos podem simplesmente estar em reboliço: o mercado de Osh. É o maior bazar a céu aberto da Ásia Central e uma prova de como a vontade humana é, tantas vezes, uma lei eficaz quando existe bom senso e disponibilidade. Antes de descer as escadas, o meu olhar alcança tendas e panais, contentores e casamatas que se espalham por dois quilómetros e meio em ambas as margens de uma imitação de rio: são cinco quilómetros de barafuste, solicitações constantes aos transeuntes, apelos que sobrevivem e fazem girar todos os dias a vida de centenas de mercadores e vendilhões. Do meu lado direito, vende-se comida; do meu lado esquerdo, uma miscelânea de safanões e o que mais possa descobrir. Descendo umas escadas, estou no labirinto e o único minotauro que encontrarei será Vladimir Putin, estampado em t-shirts com a garantia de um posto que está cima dos czares: Mr. President. 

Há toda uma outra disposição social nesta cidade. As pessoas querem estar contigo, falar-te, impingir-te. Apontam para a tua câmara e puxam-te o braço, fotografa-me e leva-me contigo, vê bem o que aqui tenho, não queres umas tâmaras? Velhotas puxam para o seu lado garotas e não têm vergonha. Tudo é barato com despudor, mas não resisto a brincar ao regateio, apenas porque é um jogo com Liga dos Campeões nesta zona. As compras saem-me baratas: 350 coms por duas echarpes, um caderno por 5 e ainda trago alguns chapéus tradicionais locais por mais uma pechincha barata. Estou aviado de prendas, mas quase deixo caí-las com tanto movimento agitação, alucinação até. Cristiano Ronaldo é deus do negócio, cara e corpo estampados em mochilas e até tapetes, como se o sue nome pudesse oferecer a quem pisa uma fracção do talento dos seus pés. Descobrem-nos portugueses, "Ronaldo, Ronaldo, Europa" mais do que uma vez e repetindo, atravesso e fotografo, não consigo ser turista simples. Os recantos descobrem-se, um lado escondido do mercado revela-se e quando da sombra dos toldos vejo a luz do sol, a parte dos ferreiros revela barbas simpáticas, abertas, solícitas, convidativas. Todos são de todos, entendem-se e vivem, sou apenas mais um corpo que tão simples atravessa e existe com um tempo limite neste deserto de grãos de areia que são gente e cujo vento sopra em todas as direcções em afecto e resolução do mistério de choque de culturas, que não só não chocam como dão o agradável choque do clique.

Depois de comprar souvenirs gastronómicos (chás para a Raquel, especiarias para a Joana), cruzo-me com um vetusto e desenrascado senhor que carrega para um carro de mão dezenas de pães redondos. Entre a minha fotografia e um sorriso forçado que aprendi a armar para completo desarme de quem fotografo, sou surpreendido pela genuína simpatia deste quirguiz, que me estende um estupendo e apetecível pão. Quando procuro a carteira para pagar, nega, gesticula que não, ri-se e aponta para a minha barriga. "Está com fome", pensa e eu leio e estava mesmo. Entre mim e dois que me acompanham, vamos partindo pedaços e comendo, depois de profusamente agradecer a um santo vulgar. Nunca comi pão tão bom nem que me soubesse melhor. Tão sincera foi a oferta que senti na minha boca despertar toda a verdade, de falar sem medo, de simplesmente ser sem me mentir. O pão fez-me olhar para toda a experiência como aquilo que era: uma viagem, como a que fazia, como a que me carregou em ombros ao mercado. O mundo são pessoas em translação e eu apenas estou aqui para me deixar levar; e ainda com meio mercado para destapar, foi exactamente o que fiz.




terça-feira, outubro 25, 2016

Cronistão 12: Marks


O Marks é um tipo meio franzino, não muito diferente de muitos indivíduos bronzeados que durante o Verão são pescadores e o resto do ano fazem uns biscates: a pele engelhada, o passo gingão, os gestos feitos à laia de comunicação são tão portugueses quanto quirguizes e quando se apresenta vestido como um golfista escocês a pretexto de ser o nosso condutor de uma viagem longuíssima entre Naryn e Osh, nem acredito. Desenvolto, pega nas nossas mochilas e malas para arrumar no carro. São seis e meia da manhã e depois de um pequeno-almoço tomado, é hora de sair. Marks tem colegas, vamos em dois carros, mas é ele quem lidera a pandilha e gosta de enturmar. Quando paramos para apreciar a paisagem, quer tirar-nos fotos; ganha confiança suficiente para nos pedir para aparecer, e depois nem pede. Não é ostensivo, é apenas um tipo muito à vontade com as coisas e meio diferente de todos aqueles locais que não sendo rudes, são distantes. Marks gosta de amigos e sabe apreciar a viagem. Não faz má cara quando lhe dizemos que queremos fotografar e ainda recomenda dois ou três sítios bem catitas para captar as montanhas.


Na sua cabeça, não faz um trabalho: calhou ter um carro e malta estrangeira precisando de boleia. No entanto, fica claro que a viagem não é nossa, mas dele. Numa descida em gravilha, Marks vai com cuidado, mas ao aperceber-se de outra viatura em sentido contrário, parece dirigir-se ao seu encontro. inicialmente, achamos que se está a meter connosco, mas a trajectória não muda um nico, e o outro condutor apresenta a mesma atitude relaxada. Noto que estamos na beirinha da estrada e que mais dois centímetros e a beirinha é um à beira de cair umas boas dezenas de metros. Não falo a sua língua, mas digo o seu nome e Marks só sorri. A colisão é iminente e finalmente o segundo carro guina para a direita, deixando que o nosso passe. Marks trava de súbito. Entre nós, há olhares de terror partilhados, alguma perplexidade e quando o nosso amigo abe a porta com velocidade e sai disparado, preparo a máquina para o modo de movimento: vou assistir com certeza a pancadaria. Falso alarme: Marks abraça o outro condutor e afinal, são amigos. Era uma brincadeira, porque aqui a morte é um passatempo quando o tédio não pode ser opção. Insistem que lhes tiremos fotos, ambos nos dão endereços online e marram no envio das imagens, garantimos que sim, mas posso dizer que meses depois ainda não receberam nada. O amigo de Marks deixa-nos ver o seu Honda verde escuro e lá dentro, uma mulher toma conta de umas sete ou oito crianças, duas delas bebés de colo. Ela tem um ar meio desolado e a visão das máquinas fotográficas esbofeteia-lhe a cara.


Alguns quilómetros depois, após certas montanhas nos terem deixado abananados, Marks desce-nos à terra e envereda por um caminho que conduz a uma aldeia circunspecta. Paramos aqui? Sim, e se ao início a perplexidade nos invade, a constatação de que estamos no local de origem do nosso Marks deixa-nos sorridentes. Somos encaminhados até sua casa, conhecemos a mãe e uns familiares e convida-nos a partilhar mesa e comida. Eu conheço-me e evito um possível incidente diplomático recusando com simpatia a oferta. A maior parte do grupo comunga do momento e pão, queijo e leite fermentado trocam de mãos. Parece que nos conhecemos há algum tempo e no entanto faz seis horas que saímos de Naryn, e nem sabemos bem quanto falta para Osh. Haverá branca pelo meio, com uns carros, e um condutor idoso cuja adrenalina já não funciona enquanto se arma em Mad Max, mas naquele momento não sabemos e naquela casa de tijolo, que vai a maio de uma reconstrução, tudo é agradável e pacífico e nem uma insinuação para que deixemos uma moedinha estrada aquela aparência de comunhão mundial. Penso em como viajar é também isto, estar com quem não se conhece e fingir a plenitude da proximidade, falsa e oca, mas agradável. Cumprimentar velhos amigos de segundos e alapar nos azulejos de alguém com quem nem sequer conseguimos comunicar. Sairmos de nós, mais do que sairmos de algures: é assim que defino viajar.