sábado, maio 05, 2012
The beast killed the Beastie
Não é muito trendy e sensível dizer isto, mas dói-me bem mais a perda de Adam Yauch, o MCA dos Beastie Boys, do que Miguel Portas, que colocou o Facebook em polvorosa na semana passada. Portas era um político, por muito bem intencionado que fosse; os Beastie Boys são uma das bandas para quem olho quando procuro renovação, arrojo e, acima de tudo, qualidade. Ao contrário de qualquer político, os Beastie Boys nunca me desiludiram. Adam Yauch era também bom gajo, ao que parece, e dedicado a causas humanitáras. Portanto, junto as duas dimensões e não pareço tão superficial.
Foda-se, odeio o cancro. Para o caralho com ele.
terça-feira, abril 24, 2012
Molas a fazer de legos
Fez esta semana sete anos que ela morreu. Estranho... Só me lembrei quando me disseram. Como tenho a sua foto no meu quarto, parece-me sempre que ela estás mais viva do que me querem fazer crer. Tenho saudades tuas; e só tenho pena de não te poder criar mais orgulho do que aquele que tinhas em mim.
sábado, março 31, 2012
O segredo é a alma do negócio
terça-feira, março 27, 2012
Descarga

Existe em mim um esquerdista inconformado. Em jeito de piada (ou se calhar não), um amigo meu está constantemente a dizer que sou um radical de esquerda e não admito. Talvez até estivesse destinado desde pequeno a sê-lo, até porque a conformidade com o modelo de regras social nunca foi algo que seguisse; no entanto, quis o meu destino que nascesse de um pai polícia, e de uma mãe que cedo ganhou uma posição de chefia no seu emprego. Portanto, eu sei o que são regras, o que é cumpri-las e a sua importância. Acredito em regras, porque não acho que o simples bom senso pessoal sobre para nos guiar convenientemente neste mundo.
domingo, março 18, 2012
Os tribunais certos

Os anos passam, e apercebo-me finalmente o quão errado estava por me odiar a mim mesmo, ou questionar tudo o que fazia. Não interessa o que fazes agora, interessa o que já fizeste e os filtros dos outros. Contra isso, nada podes fazer. Já foste julgado, e isso é que conta. Segue em frente e aprende que no fim de contas, interessas tu e o julgamento que fazes de ti mesmo.
Ser homem

O dia da Mulher é sempre uma altura de lembrar os direitos das mulheres, e o tratamento que receberam durante séculos. Fala-se de direitos de mulheres, salários e greves; de opressão e exploração. Maldosamente, certos elementos do sexo feminino aproveitam para bradar o quão superficiais os homens são. É, portanto, uma altura para grandiloquência e cabotinismo. Não é diferente de qualquer outra efeméride ou data importante, então.
segunda-feira, março 12, 2012
sábado, março 10, 2012
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
A culpa é deles

Hoje é dia de festa na blogosfera benfiquista e dos benfiquistas. Aquele clube que todos acreditamos ser o melhor do mundo, independentemente de evidências racionais, comemora o seu aniversário 108. Percebo que confunda algumas pessoas que eu, que me pronuncio como agnóstico e sou desconfiado por natureza, seja do Benfica. Afinal, nenhum outro clube exige ao seu adepto uma devoção ilimitada e cega. Ser do Benfica implica também ser-se adepto porque se é do Benfica: não há ódios a outros clubes a alimentar a paixão. Os outros são os outros, estão no seu canto e cada benfiquista sabe que nunca serão melhores do que nós. Tudo porque, claro, não são o Benfica.
domingo, fevereiro 26, 2012
Aquelas previsões...

Como é costume todos os anos, deixo aqui os meus palpites para a noite de logo. São pessoas e transmissíveis via blog. Este ano, a escolha de filmes foi fraca... No conjunto, temos filmes quase todos medianos, e nem sequer pode haver comparação com o ano passado, por exemplo. No entanto, no ano da nostalgia de Nosso Senhor 2012, o menos mau parece ser o denominativo comum.
Melhor filme - "The artist"
Melhor realizador - Michael Hazanavicius, "The artist" (Dói-me quase tanto como ver Tom Hooper ganhar no ano passado)
Melhor actor - Jean Dujardin, "The artist" (até ontem, George Clooney teria sido a minha escolha. Mas a marcha do francês parece inevitável. Não sendo má, a prestação do fracn~es é a pior das cinco)
Melhor actriz - Meryl Streep, "The iron lady" (embora possa arder com esta escolha. Cuidado com Viola Davis)
Melhor actor secundário - Christopher Plummer, "Beginners"
Melhor actriz secundária - Octavia Spencer, "The help"
Melhor argumento original - "Woody Allen, "Midnight in Paris"
Melhor argumento adaptado - Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Stan Chervin, "Moneyball"
Melhor montagem - Thelma Schoonmaker, "Hugo"
Melhor fotografia - Emmanuel Lubezki, "Tree of life" (Tirando "The artist", quatro excelentes trabalhos de fotografia este ano, mas o de Lubezki é extraordinário)
Direcção artística - Dante Ferreti, "Hugo"
Os dois prémios de som vão para "Hugo"
Melhor guarda-roupa - "The artist"
Melhor banda sonora - John Williams, "War horse" (Ludovi Bource, por The artist" é o provável vencedor, mas recuso-me a escrever isso, com medo de vomitar)
Melhor filme estrangeiro - "A separation", Irão
Melhor documentário - "Paradise lost 3"
Melhor filme de animação - "Rango"
Melhor caracterização - "Harry Potter and the deathly hallows"
Melhor canção - "Man or muppet", Brett Mackenzie
sábado, fevereiro 25, 2012
Review rápida: "The artist"

"The artist", filme francês que tem muito pouco de temática francófona, tem-se tornado na história do ano. Vindo não se sabe bem de onde, tem conquistado prémios atrás de prémios, e neste momento, o seu caminho até à vitória final nos Óscares parece imparável. De facto, é estranho que assim seja, numa primeira olhada: é um filme mudo, estrangeiro, a preto e branco. No entanto, 2012 é o ano do saudosismo, se olharmos para os filmes mais nomeados nos prémios do cinema norte-americano, e esta é a obra que melhor resume isso.
Ajuda também que seja um trabalho de casa bem feito. Para começar, a história não é particularmente complexa: George Valentin, grande estrela do cinema mudo, é apanhado desprevenido na transição para o cinema sonoro. Recusando a aceitar esta nova introdução, perde o dinheiro numa super-produção que ele próprio financia e vê-se arredado das luzes da fama, enquanto Peppy Miller, uma estrela ascendente, toma o seu lugar. No final, é esta que, apaixonada desde sempre por Valentin, lhe salva a vida e faz regressar ao seu lugar por direito: a fama. Portanto, nada de novo nos enredos do cinema mudo. As personagens são bastante unidimensionais (Valentin: orgulhoso; Peppy Miller: bondosa que dói; o homem que dirige o estúdio: carrancudo de bom coração) e lembram o mediano cinema mudo escapista de que o início do cinema foi feito. Por isso, para além de um belo trabalho de promoção dos manos Weinstein, porque é que a obra é tão falada?
Primeiro, porque é um filme simples. Segundo, porque relembra o mais básico do nosso gosto, o de ver gente a representar, antes de o nosso cérebro ser obrigado a pensar muito sobre aquilo que vê. O segredo de "The artist", para mim, está nisto. É feito com simplicidade, e aparenta ser mais sofisticado do que aquilo que é. É portanto, um filme de que se pode gostar à vontade e ficar-se bem visto ainda por cima. Ninguém vai falar realmente mal de "The artist". No entanto, é um objecto bastante estranho: partindo de um pastiche (pronto, paleio intelectual) do cinema mudo, utiliza um estilo e movimentos de câmara bastante modernos. O espectador mais leigo não o notará, mas quem, como eu, conhece razoavelmente o cinema de Chaplin, Keaton, Lloyd entre outros, não deixará de sentir estranheza com algumas panorâmicas que têm muito pouco a ver com o cinema que "The artist" tenta emular. Compreendo que este é o trabalho de um autor próprio, mas este acaba por nunca se decidir se vai homenagear ou se envereda por algo pessoal, e a sua obra fica ali presa a meio, numa estranha metamorfose. De facto, "The artist" é muito mais interessante quando se descola do seu modelo básico, e encena algumas sequências mais surreais que se destacam sem dificuldade.
Tecnicamente, o filme não é nada de extraordinário. Há um sentimento de "Já vi isto em qualquer lado". Não serve como desculpa a fotografia a preto e branco, porque quem viu "Schindler's list" sabe muito bem que é bem possível ser original dentro deste formato. A banda sonora é um pouco confusa, algo de estranho num filme quase mudo, onde este pormenor é que guia a história. Certas deixas sonoras têm muito pouco a ver com os momentos em que entram e criam, novamente, uma estranheza desnecessária.
O filme ganha nas interpretações, e penso ser isso que me prendeu a conseguir achar interesse a tudo isto. Jean Dujardin tem um excelente domínio da linguagem corporal, desde a expressão facial, até à própria postura. Estudou os actores da década de 20, mas ainda assim, não imita ninguém realmente: George Valentin é seu, todo cheio de charme e energia e carregando cada nota de sentimento com convicção e clareza. Berenice Bejo, o seu interesse amoroso, não é tão bem sucedida, mas tem ainda assim bons momentos (fica na retina uma cena envolvendo-a mais um casaco e um cabide. É nestes pequenos momentos, fora da homenagem estilística, que o filme descansa e se torna realmente bom a espaços).
Temos, portanto, um filme perfeito para ganhar o Oscar: não maça ninguém, tem sentimento a rodos e presta uma homenagem a Hollywood. Haanavicius, o realizador, soube replicar o melhor do cinema mudo, e esta poderá ser a maior utilidade do filme: levar aqueles que gostaram de vê-lo a descobrir a obras-rimas originais que inspiraram "The artist". Aliás, em muitas delas, vão encontrar um cão tão fofinho, ou mais, do que aquele que acompanha Valentin todo o filme.
Reviews rápidas: "War horse"

Apesar do mito escrito e montado durante as últimas duas décadas, é uma mentira que o cinema de Steven Spielberg seja absolutamente sentimentalão. Não há dúvida que tem uma grande componente emocional, girando normalmente em volta dos mesmos temas (o sentimento de abandono, a fractura da família, a procura de um sonho), mas desde "E.T" que o realizador não faz uma obra que seja desavergonhadamente sincera nas suas intenções de colocar o mais duro dos homens a chorar. A espera acabou: chegou "War horse".
Tentativamente, conta-se a história de um cavalo e das suas aventuras entre humanos, do nascimento à morte. É estabelecida, desde a rimeira cena do filme, a sua ligação a Albert, o filho de uma família de agricultores do norte de Inglaterra, no início da segunda década do século XX. Tempos difíceis obrigam Albert e o cavalo (que é chamado de Joey) a formar uma ligação forte, na luta para ajudar a família composta por um pai alcoólico, coxo e demasiado orgulhoso, e uma mãe que independentemente disto, odeia o marido sem nunca deixar de amá-lo. Mas então, começa a 1ª Guerra Mundial e a família tem de vender o cavalo ao exército para ser usado no conflito. Albert fica inconsolável e promete resgatar Joey do meio do conflito.
Como se vê, a história é uma espécie de cana de açúcar, de onde se pode retirar sacarina à discrição; e é isso que Spielberg faz. Em cada momento que há hipótese de lágrima fácil, a virtuosidade do seu cinema une-se a uma excelente banda sonora de John Williams para nos fazer soluçar como crianças. Em certas alturas, resulta; noutras parece excessivo. A culpa é de um argumento desestruturado, que nos vende uma história entre Albert e Joey, para de súbito mudar tudo e transformar o filme numa sucessão de vinhetas ond o cavalo passa por várias mãos, e criando lições de moral sobre as várias desumanidades da guerra. Nada que Spielberg não tenha feito, com muito mais pinta, na abertura de "Saving private Ryan". O personagem de Albert parece também saído da década de 40 de Hollywood, sem uma única pulsão sexual que o movimente durante toda a trama. Só lhe interessa o cavalo. Mesmo para um realizador que nos deu alguns dos mais emblemáticos símbolos da ingenuidade cinematográfica, é uma pouco forçado. Nota-se que isto intencional, e que há piscares de olhos vários a cineastas dos tempos clássicos de Hollywood (David Lean, John Ford, Frank Capra), mas para um espectador leigo, compreende-se que soe a falso e forçado.
No entanto, o filme faz-nos esquecer isso durante as duas horas e vinte que dura. Como? Com algumas das cenas mais bem filmadas do ano. Steven Spielberg é dos maiores virtuosos da câmara que o cinema já viu, e este filme é, basicamente, money shot atrás de money shot: a entrada de um dos personagens refletida no olho do cavalo; uma transposição de cena encolvendo uma camisola de lã e um campo inglês; uma manada de cavalos num quieto sobressalto após um tiro decisivo. Estar nas mãos de um cineasta com esta imaginação visual é um luxo, para mais quando ele compõe também algumas das cenas do ano. A corrida desenfreada de Joey por entre as trincheiras, numa cena de batalha nocturna, é das melhores coisinhas que vi nos últimos anos.
Conscientemente, as cenas de guerra são filmada de maneira diferente de "Saving private Ryan"; mas como não? Estamos a falar de ua obra que reescreveu o modo de filmar e montar uma cena de guerra contemporânea. Ao invés de câmara de mão, Spielberg opta por planos largos e afastados, sobrevoando o campo de batalha, com uma montagem sóbria e discreta. Não é isso que tira a potência à carnificina, o que é a verdadeira moral do filme: a inutilidade da guerra e a forma como destrói as ligações humanas e o que temos de mais belo no mundo. Tudo visto pelos ohos de um cavalo que, estranhamente, é o nosso ponto de ligação a toda a história. Se antropomorfizar em demasia, o realizador cria uma empatia entre cavalo e espectador que dura todo o filme e nos faz temer por ele como uma personagem humana.
Amigos dos animais vão adorar isto, porque lhes faz esquecr de que cavalos e outros animais são seres irracionais; mas o tom do filme mistura realismo e fábula, nem sempre com equilíbrio, e é por aqui que o filme falha. Todo o virtuosismo técnica é deixado coxo por uma verdadeira dose cavalar sentimentalismo, que embora resulte a espaços, nunca é natural o suficiente para não pensarmos, depois de o filme que acabar, que andaram a brincar às marionetas connosco. Brincaram com muito nível, é certo. Mas ainda assim, brincaram.
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Epígrafe tumular

Talvez isto merecesse uma reflexão mais estruturada e profunda; mas não sou Eduardo Lourenço. No entanto, quando leio que ninguém reclamou o corpo do já infame triplo homicida de Beja, não consigo deixar de me lembrar dos sermões de Via Sacra, quando se elogia José de Arimateia por ter requisitado e dado sepultura ao corpo de Jesus. Os padres costumam apelar aos católicos que sejam superiores à indignidade e sigam este exemplo.
Mas lá está, Jesus era mais giro e inspirador do que um idoso macilento e com desequilíbrios psiquiátricos.
Cada sociedade tem o Jesus que merece, se calhar.
(E não, não estou a dizer que o senhor de Beja é Jesus. Malta católica sem senso, desamparem a loja)
domingo, fevereiro 12, 2012
Segredo de estado

sexta-feira, fevereiro 10, 2012
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
Piratas da Canavilhas

Penso que, mais do que a crise, a palavra chave deste ano civil será "saque". Isto deve-se ao facto de a máquina política estatal ter, aparentemente, desistido de aprender qualquer competência útil para mudar a situação económica do país. Assim sendo, apostam na tentativa mais básica e facilitista (ou seja, Portugal no seu melhor) de arranjar dinheiro: colocar impostos em tudo o que se mexa. Não interessa que não tenhas dinheiro para ti, pagas-nos e acabou.
segunda-feira, janeiro 23, 2012
Previsões que só lembram ao careca... dourado

Chega aquela altura do ano em que lanço por aqui, para curiosidade de uns e suspiro aborrecido de outros, as minhas previsões relativamente aos nomeados para os Óscares. Serão anunciados amanhã, mas se quiserem ganhar dinheiro nu site de apostas, não vejam estas, que não quero ser responsável por perderem dinheiro.
sábado, janeiro 21, 2012
"The girl with the dragon tattoo"

Fui ganhando fama, durante anos, de ter uma fé inabalável em David Fincher, e nos seus poderes cinematográficos. Ainda antes de ser moda, como o é agora, gostar-se do realizador norte-americano, eu proclama alto e bom som o quão ele era bom. Defendi "Fight club" quando não era popular fazê-lo (quando alguns amigos meus o viram, alguns anos depois da estreia, pareceram saídos de uma filme completamente diferente do que pensavam ter visto) e tem-me acontecido o mesmo com "Zodiac", que começa agora a ser classificado com a excelência que nele detectei. Eo conheço a obra de Fincher seja de que ângulo e direcção for. No entanto, as semanas que antecederam a estreia de "The girl with the dragon tattoo" abanaram um pouco a crença. Embora não o admitisse publicamente, temi esta estranha escolha de projecto. Achei "The social network" o melhor filme de 2011, e numa década em que Fincher começava finalmente a sair de um certo nicho onde queriam entalá-lo, voltar a esse mesmo nicho não me parecia a melhor opção. Seja dita a verdade: não conhecia minimamente esta obra, apenas pormenores superficiais que li por aí.
sábado, janeiro 14, 2012
sexta-feira, janeiro 13, 2012
terça-feira, janeiro 03, 2012
"Tinker tailor soldier spy"

Assistir a filmes com cinéfilos origina sempre piadas quase herméticas. A prova cabal deste facto é verificável quando se assiste ao trailer de "Tinker tailor soldier spy". Ouve-se, à medida que os nomes dos actores vão desfilando, a enumeração de anteriores encarnações: "Um filme com Dracula... Sherlock Holmes... Mr. Darcy... Julio César... Bane... Xerife de Nottingham... O tipo de quem o Alien sai da barriga...". Quando o riso se acaba, surge uma ideia quase adquirida. A de que o elenco deste filme é, assim de caras, a razão mais óbvia para ir vê-lo. O refugo da interpretação britânica não tem lugar aqui.
segunda-feira, janeiro 02, 2012
3 palavras para o meu 2011: Madeira

Quem me rodeia habituou-se a reconhecer palavras-chave que me identificam: cinema, Green Day, televisão, palhaço imenso. São como etiquetas que se colocam e que, num jogo de "seis graus de separação", ermitem que, por exemplo, eu e Natalie Portman estejamos à distância de uma alavra. Ah, Natalie Portman...
terça-feira, dezembro 27, 2011
O choque do futuro

Em 1970, o futurista (profissão interessante) Alvin Toffler escreveu um profético livro chamado "Future shock", onde descreve uma sociedade que, em virtude do excesso de informação e de mudança, está condenada a adoptar a transitoriedade e o descartável como regra geral, e perde assim uma sentimento de pertença e de posse que os seus antepassados tiveram por viverem num mundo que funcionava a uma velocidade bem mais modesta. Lembro-me de ter lido livro no meu 12º ano, algo que não estava totalmente preparado para fazer. Ainda assim, ficou-me na memória uma passagem sobre algo tão trivial quanto os pratos de papel, e maneira como, ao usá-los, parecemos acelerar o acto de comer, retirando-lhe o prazer. Toffler fazia crer com isso que o mundo estava a avançar para um estado de uso e abuso, em vez de se dar importância a momentos e objectos. Indirectamente, era a crítica a um lento e progressivo combate ao acto de memoriar.
domingo, dezembro 25, 2011
terça-feira, dezembro 20, 2011
"Drive"

Há uma cena que encapsula a dicotomia que está presente em "Drive" (prometo que esta é a única frase em que vou soar a João Lopes em toda esta crítica) e que é obviamente, para quem não viu o filme SPOILER: num elevador, The Driver (Ryan Gosling)e Irene (Carey Mulligan), par de almas que se tem vindo a encontrar no filme numa história de amor inocente e bem intencionada, beijam-se num elevador, em slo-mo elegante e baixa luz, numa séria candidata a cena mais sensual do ano. Imedidatamente de seguida, The Driver agarra num mafioso de arma escondida, lançando-o ao chão, para esmagar a sua cabeça ao pontapé num pleno de violência súbita e brutal que emudece o espectador. É como se um demónio acordasse de repente numa paz de alma.
"Drive" é isto: um extraordinário objecto de coolness visual e sonoro, com uma elegância notável, e que se balança entre mundos de ternura e espasmos de tempestade. The Driver, personagem principal magnificamente interpretado por um Ryan Gosling que parece nem fazer muito, mas que interpreta com o corpo aquilo que não exprime com a cara, é-nos apresentado como alguém com pleno domínio da sua habilidade especial, conduzir. Mas cedo desconfiamos que este homem, que nos é dito ter surgido do nada é mais do que aparenta. É um paralelo com outra figura da filmografia de Nicholas Windig Refn, o autor deste filme: o desconhecido que atravessa o anterior "Valhalla rising" como um cavaleiro do Apocalipse. O personagem de Gosling vive a vida sem se chatear, até conhecer a vizinha Irene, e o seu filho. Tornando-se mais um irmão mais velho do miúdo do que uma figura paternal, redescobre talvez qualquer centelha humana que estava adormecida e a sua vida parece compôr-se em normalidade. Isto até ao marido de Irene sair da prisão e trazer para a cena um grupo de mafiosos que pretende dar uma golpada envolvendo um milhão de dólares.
Há algo de Eastwoodiano no personagem de Gosling e em toda a intriga de um homem arrastado para um mundo de violência do qual quer sair. Excepto que aqui, temos de adivinhar exactamente de que mundo saiu esse alien de Gosling (que a certa altura auto-referencia essa sua ausência de definição pessoal quando enverga uma máscara). É difícil, inicialmente, entrar no mundo deste personagem sem nome; no entanto, com pequenos pormenores de estilo que o definem (desde o palito ao casaco escorpiónico), é impossível não nos envolvermos na sua complexidade.
O filme deve muito e o estilo retro dos anos 80, com uma banda sonora à la Moroder, com sintetizadores e vozes distorcidas a dar um tom muito cool a toda a trama, orquestrada por Winding Refn no seu estilo de planos de enquadramento disciplinado e mood ao máximo. Pelo meio da coolness, surge o personagem de Albert Brooks, um daqueles vilões que nos faz pensar "Mas ele até nem é mau... PORRA, O GAJO É DANADO!", inocente na sua vilania, um homem que encarna abrir a cabeça a um homem como mais um dia no escritório. No entanto, revela, ocasionalmente, traços de humanidade, que nos fazem acreditar que realmente é mesmo tudo uma questão de negócios. Mesmo que The Driver não tenha qualquer intuição para tal.
Recomenda-se "Drive" a quem gosta de ser seduzido. Porque com Gosling e Mulligan, é fácil sê-lo. No entanto, não aceitar o olhar de engate que Refn nos lança durante todo o filme pode ser o maior cockblock do ano. Aceitem-no e deixem-se levar. À confiança.
O repelente
segunda-feira, dezembro 05, 2011
Um pequenino ensaio sobre bater no fundo
É sempre marcante, embora nada aconselhável, abrir um texto, seja ele de que natureza for, com uma afirmação polémica. Subscrevendo esta teoria, que remonta ao período pós-era feudal, disparo de rajada: Portugal não bateu no fundo.
Choque e horror, diz quem lê! Acaso sofrerá esta formanda de miopia? Certamente que não. Se vamos afirmar em pranto algo tão grave quanto a falência de um país, é bom que deixemos os tiques da nossa nacionalidade durante alguns minutos e nos esqueçamos da nossa obsessão por belas frases e pequenos pormenores. Para proclamarmos que Portugal bateu no fundo, a macro-estrutura tem de indicá-lo; e essa macro-estrutura compõe-se de duas perguntas: haverá algum topo para que Portugal caia no fundo? E quanto a Portugal, entrou nalgum movimento descendente para que lá chegasse?
Em relação ao primeiro ponto, uma olhada não muito demorada em nosso redor leva-nos a concluir que este fundo é relativo. Já Dante Alighieri postulara, quando escreveu a sua “Divina comédia”, que o Inferno tem vários círculos. Analogicamente, o fundo organiza-se em vários níveis de degradação. O primeiro é o suposto topo. Chamar-lhe de topo, no entanto, é tão acertado como designar Muhammad Khadafi de homem razoável. Pensemos: quem compõe o topo? Uma série de países surgem logo à cabeça. A China? Sim, trata a riqueza por tu, mas também o conceito de direitos humanos por “Quem és tu?”; a Índia? Se considerarmos uma sociedade estratificada por castas impermeáveis e onde a pobreza abunda um topo, então temos de rever tudo o que damos como certo e errado; A Rússia? Apenas se a corrupção generalizada não for para o leitor uma fonte inesgotável de vergonha; o Brasil? Passando o problema óbvio que é um país ter o samba como passatempo nacional, a pobreza no interior brasileiro é mais do que suficiente para não encaramos seriamente esta ideia; e quanto à Europa, quase não sobra ninguém para contar uma história de sucesso, entre as trapalhadas de egocentrismo franco-italiano e a destruição do Welfare State britânico, sobram-nos a Alemanha para carregar o pálio europeu, com os seus acólitos escandinavos, mas sejamos sérios: quatro países não são o suficiente para formar um topo. Se Portugal bateu realmente num fundo, apenas se limitou a chegar a uma festa que se desenrola há muito tempo.
Quanto à ideia de movimento descendente, esta parece-me ferida de morte. Será que Portugal caiu? Será que estes vícios e defeitos são novos que a crise surgiu do nada, sem aviso e sem exemplo? A resposta clara é um não. É crença historiográfica que a crise em Portugal tem mais de 150 anos e se tem vindo a arrastar uniforme, apenas sendo acordada por um ou outro espasmo cadavérico. Desde a perda de independência para Espanha que o nosso país se tem profissionalizado na vivência crítica, e caramba, como nos tornámos bons! Até parece que gostamos! Este “fundo” sempre existiu no nosso percurso histórico, manifestando-se de diversas maneiras., sendo que o lodaçal mais denso não é o dos dias em que vivemos. Há séculos que olhamos para cima, não só em busca de salvação, mas também para contemplar o século e meio da nossa História em que estivemos realmente no cimo de algo que não fosse uma pilha de dívidas. Isto de “bater no fundo” é, claro está, um ponto de vista e acima de tudo, de relativismo.
Não nego que Portugal tem problemas, e nem é preciso entrar em questões de dinheiro: o compadrio e corrupção como modo de vida; o chico-espertismo; uma falta de identidade e direcção: sabemos o que não queremos, mas ninguém sabe explicar muito bem por onde quer ir; a ausência de figuras políticas credíveis; uma gritante falta de cuidado para com o nosso património, natural e arquitectónico; a consciência de que os portugueses bem sucedidos são aqueles que souberam escapar ao “portuguese way of life”, e não aqueles que permanecendo lusitanos, passaram ao lado do sucesso; o esquecimento de que as prioridades e a organização fazem parte do crescimento, não só do país, mas também das pessoas; a realidade que é a estupidez se ter tornado o nosso segundo idioma, sendo que o primeiro é a preguiça e apenas em terceiro lugar encontramos a Língua Portuguesa. Os problemas estão tão enraizados e presentes que devia deprimir ser português. Dá vontade de fechar a loja e ir para outro lado.
No entanto, não o fazemos, e essa é a maior prova de que Portugal não bateu no fundo. Organizamos concursos para eleger sete maravilhas nacionais de todo o tipo e orgulhamo-nos delas, e até protestamos na rua quando alguma coisa está errada. São protestos tímidos? Sim, são; mas existem. Se não nos importássemos com este pedaço de terra que aprendemos a respeitar e a considerar nosso, não nos irritávamos, nem dizíamos fatalidades como “Portugal bateu no fundo”. Alguns portugueses bateram no fundo; outros baterão futuramente; mas o país, como nação, como valor, continua a viver em nós e em qualquer coisa que não se define, e só chegará ao desespero quando nos esquecermos de lutar por ele.
domingo, dezembro 04, 2011
Erase/rewind
Ridícula, a destruição de um dos edifícios alemães fulcrais de todo o século XX. Eis o que temos: uma Europa com tão má consciência em relação ao passado e tão grande falta dela no que toca ao presente e ao futuro.






