quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Ao gosto


A terceira faixa do novo "In a time lapse" de Ludovico, o Einaudi, leva o nome de "Life", mas assina-se como bem mais do que uma palavra. Arranca-me pela raiz desde os primeiros acordes e as suas notas carregam por mim acima como uma manada de elefantes que decidiu não deixar em pé qualquer embondeiro da savana. Tudo em quatro minutos e vinte e três, concentrados no portento que é querer chorar e não saber. Mesmo com o meu MP3 num cemitério onde já erigi demasiadas lápides em louvor da minha falta de jeito, a cavalgada musical não me saía da cabeça encostada no lugar do Expresso, cabeça essa que por acaso me pertence, a caminho de Braga. Porquê? Porque quando viajo, é normalmente isso que sinto. Não vivo de um síndrome de permanente insatisfação com o lugar em que me encontro; mas penso que a rotina pesada é inimiga do conhecimento, e mesmo dar saltos no escuro, e no longe, não corresponda à minha natureza, cumprimento-me de cada vez que saio do casulo e bato as asas um pouco mais longe. O ar é um dos meus melhores conselheiros quando diferente; e é sempre diferente, nas cambiantes da luz e da satisfação. Quando o acto necessário de respirar nos enche as medidas, algo de estranho, e bom se passa.

Descubro em Braga que as amizades nunca são o que parecem. Não são construções de tempo lineares, e aplicam-se-lhes as mesmas regras da teoria da Relatividade de Einstein: é possível voltar atrás e colocar o presente no passado para descobrir alguns trilhos em direcção ao futuro. É tão simples aquilo que a simpatia pode fazer crescer em alguém, e o quanto é preciso vermo-nos de fora através de desconhecidos para percebermos que raio de ferrugem encrava os mecanismos com que tentamos construir a simples e bela deriva de conhecer pessoas e esperar se feliz assim. Talvez seja uma ilusão pensá-lo, e sei que quando fujo a mim mesmo, ao meu instinto, e me iludo, a coisa nunca corre bem. Mas de vez em quando, é necessário arriscar um estalo sonante para perceber quando confiar em nós e evitar levar outro. Aprendi-o há uns meses, reforcei-o agora. No geral, o género humano é confuso, metido em si e amedrontado, para além de levar muitas vezes longe de mais o acto de não emitir emoções e sentimentos (sei bem, pertenço-lhe). Mas no particular, há casos onde a única dor que podemos arrancar é a de sentar e esperar que passe, em vez de calcar com os pés um chão onde não há areias movediças, apenas a solidez com que construímos alguma certeza, pouca que seja, para correr ao nosso lado. Ou subir escadas até ao Bom Jesus.

Tudo num lapso de tempo. É o que temos, é que se passeia, é que nos pousa sobre a cabeça e faz pesar os momentos; e também o que torna as viagens de Expresso a parte decididamente menos transcendente de uma viagem. Einaudi devia ter também uma composição sobre isso.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

A expressão, antes da liberdade



Não consigo pôr de lado a minha opinião de que Miguel Relvas representa um tipo de decadência cínica. A culpa não é inteiramente dele: como país, ajudámos a construir e a aceitar, com a nossa passividade e o mau trato que damos à inteligência, estes ciborgues que se instalam no sistema nervoso central do sistema que nos governa. No entanto, o que direi a seguir é algo puramente de lógica e de raciocínio, baseado numa crença de que embora o mundo e os valores não sejam inteiramente subjectivos, como alguns relativistas algo idiotas querem fazer crer, há mesmo situações que são caleidoscópios à espera da perspectiva correcta.

Uma amiga minha defende que cantar durante o discurso de um político não lhe cerceia a liberdade de expressão, e está certa. Por natureza da profissão, um político terá sempre um exercício desse direito superior ao meu, por exemplo, que muito raramente na vida de tive um microfone à frente, e nunca para me dirigir a um potencial auditório de centenas de milhar para exprimir aquilo que realmente penso acerca do estado de país. Relvas e eu estamos no mesmo patamar no que toca a liberdade (embora isto seja discutível), mas no que toca à expressão, vai uma distância como daqui ao Brunei. É por isso que não consigo entender em que é que aqueles cidadãos que para lá foram usar "Grândoa, vila morena" com o uso que Zeca Afonso intentou afectaram a liberdade de Miguel Relvas. Este, no final, deve ter dobrado a folha de papel e regressou ao carro apenas melindrado por ter apanhado, surpresa, cidadãos descontentes com as suas argoladas constantes e reocupados com a situação de sobrevivência em que, na generalidade, se transformou a vida de quem continua a ser cidadão no próprio país. Se amanhã lhe abrirem o microfone nalguma reunião do PSD, ou conferência no Hotel Sheraton de cinco estrelas, ou numa comissão parlamentar, as palavras continuam lá, serão ditas e manter-se-ão iguais a tantas outras que ele já disse. Não é que eu seja muito mais original, mas tenho ao meu serviço apenas o Facebook e este canto onde só passo de vez em quando, e o meu público é muito restrito, na medida em que se quantifica nas poucas pessoas que me vão querendo ouvir. Na verdade, quem protestou fez um favor a todos: se há coisa que normalmente irrita, é a repetição, excepto quando usada por motivos artísticos, e se bem que Relvas seja um artista, não é um daqueles a que queiramos assistir.

Já que estou a falar sobre política, não posso deixar também de notar como a oposição é, de facto, das piores coisas da Democracia quando,como hoje, a política deixou de ter o monopólio da inteligência. É também por aqui, pela quantidade de labregos e energúmenos que ocupam cargos de relevo que a noção de Serviço Público se expõe a crítica facilitistas quando comparada com o Serviço Privado. A constante exigência de demissões, de forma a precipitar novo sufrágio, sem apresentar qualquer ideia ou conceito estruturado acerca da resolução da crise, e a falta de coragem de assumir ideias que fracturem realmente (quando já se viu que depois de Irlanda e Grécia, Portugal será nova vítima do fenómeno "Falhou nas outras, mas nesta tenho a certeza que fazemos o mesmo e dá!"), de ser criativo, cria em mim o tipo de dúvidas que até agora estavam reservadas às parvoíces internas da minha mente. Liberdade de expressão, dada a quem não tem grande coisa relevante a exprimir.

E depois, perguntam-me por que sou pessimista.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: sete frases


Regrido aos sete anos quando tenho de te falar. Ao longe, ao perto, é queima-roupa, mesmo que me faça sentir nu. Nem precisas de me olhar, pois eu próprio não sou cego ao que me trava. Sento-me e espero que passe, mas um pensamento de cordas feito amarra-me à cadeira, e eu deixo. É estranho como posso gostar de ti, e no entanto não gostar de gostar de ti enquanto desgosto de mim mesmo. Gostar (d)e ter medo. Preencho-me de sustos e torno-me num fantasma.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

(Delírios à noite)


Ora, quando estamos sossegadinhos no nosso canto, a existência, que assume as feições de um jocoso anão endiabrado, lança-nos de Ford Escort Boston por entre estradas e caminhos onde apenas os máximos conseguem enxergar alguma solução. Ainda por cima, o meu não tem os faróis em conformidade com as consistência do breu desde há muitos anos, e conduzir à noite acaba por se transformar num exercício com duas consequências: aumentar a minha hipermetropia e conseguir presenciar, por momentos, um best of dos melhores momentos que Stevie Wonder vê num palco, quando toca ao vivo.

Propuseram-me que escrevesse uma peça. Depois outra. Ficámo-nos por um test-drive de quinze minutos depois de conferenciar com as calendas de Roma, para ver no que dá. Se alguma vez escrevi peças de teatro? Claro, no 9º ano, quando adaptei o "Auto da Barca do Inferno" em verso livre(mente manhoso) para uma peça de zero espectadores. De nada vale dizer isto à remetente da encomenda, que diz ter grandes esperanças para a empreitada. As Calendas mostraram-se mais comedidas, mas igualmente dispostas a esbofetearem-me se não aproveitar a oportunidade. Interessa tentar, claro. Mesmo que me espalhe em grande... Viver é uma sugestão de espalhos até aprendermos a andar sem escorregar. Disse-me alguém, acho. Mas posso estar enganado. com tantos remetentes.

No entretanto, um outro projecto mantém um espaço da minha mente na peugada de José Cid, dez mil anos depois entre Vénus e Marte, e com direito a passagem na Dimensão Alternativa? Qual? Não sei, mas certamente uma onde uma obscura área que criei numa adolescência deprimente me possibilita ocupar algum tempo e alguma cabeça, se bem que ainda não a carteira. O Boss, figura das entrelinhas, diz-me que pode ir longe. Eu encolho os ombros e continuo a pesquisar e a escrever. Na televisão, figuras políticas incentivam ao empreendedorismo. O Boss empreende e eu prendo-me à ideia de que posso fazer disto algo de bom, de novo e de significativo. Um pouco como D. Miguel, rei abolutista, deve ter pensado quando lhe sugeriram armar as Guerras Liberais.

Como a minha cabeça adora puzzles em catadupa, achou que devia mudar a sua natureza. Parva. Até parece que não me conhece e não lidou com esta catadupa de reviengas durante a trintena de anos que demorei a construir quase nada. Insensato, estou a ponderar dar-lhe ouvidos. Criar e aceitar oportunidads. Pessoas de bem dizem que me querem ver feliz. Talvez seja mais fácil, assim sendo, a parte do ver do que a que me toca. Assim como assim, se tiver que tocar, que seja boa música. Ao menos, criam-se melodias que ficam, e que até aos surdos trazem prazer. Pelo menos, foi o que escutei algures, dentro da minha cabeça


terça-feira, fevereiro 05, 2013

Duas pequeninas linhas


Está na hora de fugir à própria fuga, e investir. Investir em acções de bolsa cheia de vontade. Quanto mais não seja, porque com mais dor, chega menos palha a este blog.

sábado, janeiro 26, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: seis frases


Descasca-me as camadas, corta-as e ignoras-as. No teu colo, deita a minha cabeça e barra-a com o calor das tuas mãos. Mergulha os teus dedos por entre o meu cabelo e sorri com o corpo. Separa os meus cambiantes, invisíveis mas ao teu alcance, e peneira as minhas inseguranças até restar apenas a minha certeza em ti. Mistura-te bem comigo, aquece-me com o o vapor que os teus lábios transformam em cola e transforma-me. Estou pronto a ser servido derretido.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: cinco frases


A caneta percorre o papel como eu gostava que os meus dedos desenhassem suspiros na pele que te reveste o brilho. Fixo na folha pequenas taquicardias que nunca aparecerão nos exames. De vez em quando, paro e tento acertar-me, mas deixas-me sempre errado. O pior é que me convenço de que estou certo, e que erro quando guardo os papéis na gaveta. É a minha vida, num papel químico estragado.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: quatro fases


O relojoeiro deu-lhe corda e explicou que só começaria a trabalhar quando chegasse a hora. A hora de quê? De ele trabalhar. Saí da loja, e vi-te cinco minutos depois: o meu coração fez tique-taque.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Os "amigos" do amigo



A tolice pode originar fenómenos fascinantes. Nesta perspectiva, o princípio de "Vox Populi" é um dos fenómenos mais fascinantes de todos. Em grande ou pequena escala, a regra "a maioria decidiu, é o melhor" tem redundado em decisões incompreensíveis ou, a longo prazo idiotas. Podia citar um caso recente, que conduziu à confirmação daquele velho lema "BAS" (Vítor Hugo, onde quer que estejas... RTM), mas prefiro chamar a atenção um outro mais geral e que se senta agora nu cadeirão em S. Bento, a manipular os destinos do nosso país.

Nada contra a democracia, aliás. É o sistema de governação mais justo, se bem que pode ser dobrado, pois conta com a participação geral. No então, não se pode classificar a democracia de "inteligente", porque se baseia no nosso comportamento (e, em raros momentos, na nossa inteligência). Nem precisamos de ir às urnas para confirmar este facto: as redes sociais onde passamos uma boa parte do nosso tempo e gastamos bastante energia intelectual atestam-no. O caso particular que me tem despertado a atenção é o do Zico, um cão alentejano (que, pelo que leio, é mais simpático e imaculado do que a irmã Maria de "The sound of music"). Leio na diagonal textos de "amigos dos animais", gente que defende, no que escreve, que um animal pode ser equiparado a um ser humano, e que por isso Zico não deve ser abatido. Não está escrito, mas fica subentendido que Zico deve também receber miminhos e um prato com Pedigree Pal.

Esta gente é idiota que dói. Convém revelar, antes que estereótipos sejam brandidos, que fui o orgulhoso dono de um cão durante oito anos. Esse cão morreu há três meses e meio. Nesse espaço, não consegui pegar nas minhas mãos para escrever sobre ele ou sobre o facto. Gostava realmente dele, e lamento não ter feito suficientes coisas por ele e com ele.Ainda me dói lembrar-me da morte em forma canina nos meus braços, e vislumbrar-lhe nos olhos, momentos antes, essa certeza de que a vida tinha posto travão e nada mais havia a fazer. Partilhar esse momento esmurrou-me lágrimas dos olhos, mas fez-me entender melhor o que passa pelo ânimo de um cão. Logo, eu não odeio animais. Não posso. Adorava o meu cão, uma criatura idiota que lambia a sujidade e preferia a chuva à protecção de um telheiro. Uma coisa que tive sempre presente na minha relação com o bicho é que estávamos em patamares muito diferentes: ele é uma criatura pura de instintos, eu um ser que recebi uma educação que me permite dominar esses instintos quando estes representam um perigo para mim ou para os outros. Um animal não é uma propriedade ou um objecto; e por muito que nos apeteça, às vezes, não é um escape para as nossas frustrações emocionais. É imprevisível e pleno de natureza. Ter um animal é um risco, precisamente por isto: porque não somos iguais. Nós podemos ser responsabilizados, eles não. O meu cão mordeu-me, várias vezes, e arranhou-me. Ninguém cá em casa o treinou para ser feroz: é a sua natureza. Tolice é pensarmos que podemos contorná-la ou desligá-la apenas porque nos relacionamos com eles. A beleza de ter um animal é podermos ler nele e nas suas reacções o que quisermos. Pensarmos que sorriem e que se dispõem a amar-nos, quando o laço que nos une é um pouco mais complexo do que isso. Os animais estão connosco numa relação de dependência e confiança. Por um caso de extrema fidelidade canina, há noventa e nove de que ninguém fala de cães que foram à sua vida.

Não acho que o Zico mereça ser abatido. Mas daí a torná-lo um mártir ou fazer dele uma criatura inofensiva que nunca morderia ninguém é apenas uma ilusão em que vive uma série de gente que acha que humanos e animais são irmãos e vivem neste planeta em igualdade. Pensar isto não é ser amigos dos animais: é um exercício de animismo perigoso, falso e que quando repetido muitas vezes, se torna numa verdade que é difícil abanar. Os "amigos dos animais" têm razão, se calhar: animais e humanos estão em níveis diferentes; mas se calhar, não todos os humanos; e principalmente, não da maneira como estes "amigos" me querem pregar,

sábado, janeiro 05, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: três frases


A minha natureza é inerte. É por isso que amar-te me coloca em vias de extinção. Protege a minha espécie.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Uma moedinha no meio dos olhos




A cidade moderna como exemplo de decadência é um cliché deprimente da arte moderna. Seja em "Blade Runner" ou "Se7en", a visão das nossas urbes surge contaminada por um mal-estar semelhante ao provocado pela visita a um balneário masculino que não é lavado há uma semana. O motivo apresentado, por regra, é a desumanização que a vida nas cidades provoca no ser humano. Parvos intelectuais. A razão é muitíssimo mais simples e é simbolizada por uma criatura que vagueia entre nós, mais perigosa do que um terrorista muçulmano, mais irritante que a criança nascida da união entre o Quimbé e o Nuno Eiró, mais sebosa do Jorge "Jabba, the Hut" de Brito: o arrumador de carros.

Nuca escondi o meu ódio particular a esta espécie de criatura. A palavra "ódio" não é hipérbole, pois dentro das minhas entranhas, misturam-se sucos gástricos e mentais que produzem o arreganhar de dentes típico de quem não pode ver determinada pessoa, coisa ou ameba à frente. Conduzir é, por acaso, algo que me relaxa. Adoro meter-me num carro, colocar música a tocar e conduzir, nem que seja para aviar uns recadinhos aqui perto. No entanto, quando, preparando-me para atracar o veículo, me deparo com uma dessas criaturas, a onda zen esbate-se no areal e dá lugar a caranguejos que me apertam o cérebro. Podem dizer que tenho problemas com homens de aspecto oleoso, mas não acontece isso. De facto, se me aparecer à porta um desses indivíduos a representar uma associação de não sei quê que recupera toxicodependentes, lido com eles com calma e pose. Posso não lhes dar dinheiro algum (porque desconfio de quase toda a gente que, não me conhecendo, me bate ao portão e me quer falar sobre droga), mas permaneço a menos de um metro e dispenso atenção. Corrigindo, eles roubam-me a atenção. Mas é por uma boa causa: por dois minutos, pareço humano.

O meu problema com o arrumador é o mesmo que tenho com mafiosos: são criaturas que se movem em franjas da sociedade onde a lei existe, mas se finge que não. Quando paira sobre nós a ameaça de danos materiais no veículo que tanto estimamos, caso não paguemos a moedinha costumeia, isso tem um nome: extorsão. Aliás, estamos a pagar o quê? A minha mãe dotou-me de dois olhos para encontrar o lugar que essa criatura das trevas me aponta! A moeda premeia a familiaridade com que o arrumador me berra à distância "Hei" como se fôssemos amigos? Não percebo bem. Nem sei quem se lembrou de cobrar às pessoas por absolutamente nada, a não ser o não cumprimento de uma ameaça nunca exprimida, sempre subentendida. É o que esquema perfeito: não podemos ir à polícia queixar-nos, porque não há nada a queixar.

Se estes tipos, em vez de arrumar carros, estivessem nua juventude partidária, o país seria desmantelado a um ritmo impressionan

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Pedido pungente que não envolve crianças, animais ou doenças terminais


É muito difícil de explicar um acesso de inferioridade, mas como toda a gente (tirando Mourinho, os filhos de Tony Carreira e Madonna) teve pelo menos um, presumo que percebam um pouco do que me apoquenta. Talvez não totalmente, eu nunca percebi muito bem de onde me vem isto ou o que o causa. Mas existe e tenho de lidar com ele. Não me é difícil admitir que tenho este problema. Quem lida e lidou comigo sabe quantas vezes me queixo disso, ao ponto de me tornar numa companhia pouco agradável. No entanto, só me apercebi do quão incapacitante e profundo este estado se tornou neste ano. Não houve um momento específico, um lapso de tempo ou momento de claridade turva que me indicasse que estou perto do fundo. Mas olhei e vi a falta de prazer que tenho em actividades e gostos de que desfrutava com largueza e autoridade, considerando como certa a minha personalidade baseada nesses pilares. Mas hoje, duvido. Duvido de mim bem para lá da capacidade: duvido até mesmo na existência e naquilo que me constrói e me edifica. Pior ainda: aproxima-se a semana do ano que mais me custa. O que peço neste pequeno texto é que tenham paciência. Tentem compreender e mostrem mais humanidade do que aquela que vos demonstro. Um bocadinho, pelo menos. Ajudem-me a ultrapassar estes sete dias e chegar a 2 de Janeiro pelo menos na mesma condição em que me encontro nesta noite de 23 de Dezembro. Eu agradeço-vos, de uma maneira ou de outra. Talvez a escrever, que ainda é das poucas maneiras com que alegro a populaça desse lado. Um obrigado de antemão.

Não se preocupem demasiado. Amanhã, deixarei aqui um apontamento sobre arrumadores de carros e verão que continuo intratável como sempre.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

O amor perfeito é aquele que não existe: duas frases


Sento-me, olho-te, desvio-me e evito. Por fim, aceito e temo e entrego-me e fujo, para voltar só porque regressar é a melhor parte de gostar.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

O amor perfeito é aquele que não existe: uma frase


Pego nas tuas palavras, faço a minha cama e deito-me numa almofada em forma de faz de conta.

quinta-feira, novembro 29, 2012

Hipermetropia



Já não é de agora que considero a disciplina de voto algo que vai contra qualquer tipo de comportamento democrático básico. Não é mais do que um conjunto de pequenas ditaduras, politizadas, que controlam as acções dos seus membros através da chantagem. O que está em jogo, para estes deputados, é o seu futuro na próxima legislatura; e num país como o nosso, que cria colónias extensas de homens e mulheres com uma espinha dorsal mais maleável do que plasticina, não é admirar que prefiram garantir a sua sobrevivência a cumprir o dever para que foram eleitos pelas populações. Que diabo, muitos de nós reclamam, mas fariam o mesmo. Da maneira como este clima de medo pelo futuro está instalado, ter opções para o futuro é um luxo a que só não se agarra quem é burro, ou em princípios. Esta estratégia não é mito diferente do pendor corporativista não oficial do Estado Novo: garantem-se favores a pessoas que nos favoreçam a politica e economicamente e mantém-se o status quo desejado, por muito que prejudique a população em geral.

O Orçamento de Estado de 2013 marca um momento interessante na democracia portuguesa: ninguém, a não ser 10 marretas no Governo, parece concordar com ele. A Oposição manifesta-se ruidosamente, o PS transfigura-se para Oposição só para poder protestar com aparente legitimidade e os deputados do PSD E CDS-PP aparecem melindrados, dizendo que é necessários rever algumas medias. No entanto, o máximo que conseguem reunir na sua revolta é uma carta com uma dúzia de chavões inofensivos que soa aos gritos desesperados daquelas crianças que fazem birra, mas sabem que vão comer sopa na mesma. Passa peça cabeça de alguém que não se concorde com algo que se vai aprovar? Aparentemente sim, e considera-se normal. Pedro Passos Coelho negou enfaticamente, numa entrevista que houvesse cisões na coligação, assoberbando que se tal coisa existisse, o CDS-PP não teria votado afirmativamente na proposta orçamental. O cinismo arrepia, porque até o Zé Tolas que só cumpriu a 4ª classe e cujo único Marx que conhece tem como primeiro nome Richard, reconhece as movimentações que serpenteiam no lusitano directório. Se antes tudo passava despercebido, agora só quem é verdadeiramente sagaz consegue criar uma capa fina de distracções; e Passos Coelho é mais óbvio do que uma boa de macadame num campo de algodão.

Nada que importune o primeiro-ministro. Com um braço-direito que representa o papel de Tom Hagen na família Corleone, embora sem a pinta de Robert Duvall, trucida escândalos atrás de escândalo, asneira atrás de asneira, com a confiança que só pode ser devida a um ego inchado como um balão de ego. Auto-confiança e governação não se anulam numa boa governação. Alguns dos nossos reis mais proeminentes tinham um ego que reduziria qualquer elemento masculino da "Casa dos Segredos" a um elemento de decoração, mas temperavam isso com bons conselheiros e uma capacidade de compromisso. É verdade que D. Afonso Henriques correu a mourama à espadeirada, mas quando pôde, resolveu a conquista de cidades pela via diplomática, permitindo a coexistência entre muçulmanos e cristãos (e muitas vezes judeus) no espaço da mesma cidade, com regras exigentes, mas direitos para as várias religiões; D. Dinis permitiu a presença de proscritos religiosos no nosso país, através da formação de novas ordens, e muitas vezes contra a vontade de boa parte dos reis europeus, conseguindo com isso uma vantagem que se revelaria importante na época das Descobertas; D. João II era um homem implacável, mas sábio o suficiente para permitir a presença de ciências exteriores à Cristandade no seu seio, o que contribuiu para a nossa superioridade temporária na Europa. Estes três exemplos reconheceram o óbvio; há via para lá do seu umbigo e num mundo de bem, pretende-se que o bom senso seja um auxiliar importante de governação.  Passos Coelho que não acredita nessas coisas: usa Vítor Gaspar como o seu conselheiro e tudo aquilo que delineou em plano bem antes de ser eleito como primeiro-ministro é feito em seu nome, e de uma entidade obscura que nega num dia o que disse noutro.

Estamos bem arranjados. Até porque não acredito no governo do povo como o mais justo. Não acredito na capacidade de decisão de uma entidade múltipla que revelou ao longo da História o bom senso de eleger Hitler, de apoiar Pol Pot e de carregar aos ombros Tony Carreira ao pedestal do estrelato. Ficamos com quê? O vazio; mas mesmo esse, calculo, corre o risco de virar paraíso fiscal. 

quinta-feira, novembro 22, 2012

É por, ahm, ali


Nunca me deu para pensar nos trinta anos, e continuo a achar algo ridículo que se faça dessa idade um ponto de crise existencial profunda. No entanto, é um facto que foi poucos dias depois de ter ultrapassado essa marca de idade que se me aflorou a destruidora vontade de reflectir sobre o meu rumo. Foi um acto de idiotice superlativa, pois claro, pois quando se é neurótico na escala em que actuo, essa simples dúvida precipita semanas de sofrimento atroz apenas comparável ao dengue na Madeira. Para um neurótico, uma dúvida não é apenas uma lacuna de conhecimento: cria uma manada de gnus cegos a cavalgar pela nossa mente, em círculos, a pensar que um gato doméstico toma proporções de leão feroz.

Não é que a pergunta seja de pouca monta: qual o meu rumo? Neste momento, sou honesto e afirmo que desconheço por completo. Cheguei a um ponto de total desmotivação pela vida que orgulharia o Clube de Niilismo de Bremen, pois não lhe encontro qualquer sentido, nem qualquer objectivo. Acredito que somos nós que orientamos o nosso percurso de vivência, que críamos os objectivos e que as nossas lutas para cumpri-los, entretecidas, formam aquele tapete aladinesco a que vamos chamando vida. No entanto, os retalhos da minha vida não existem. Não consigo criá-los, porque simplesmente não me apetece. Tomara que fosse algo de pontual; infelizmente, espalhou-se para todos os campos da minha vida. Dou por mim a perder orgulho naquilo que fazia de mim Bruno, e a sentir a fuga dos talentos que me faziam pensar que não era vulgar. Ou seja, estou a perder-me, e àquilo que considerava eu.

Ora, a partir do momento em que nos perdemos, como é que nos julgamos capazes de encontrar o resto? É aqui que a minha reflexão pára. Por isso, estou disposto a voltar a mim, seja o que isso for. A reler-me, a descrever-me, a descobrir-me. Nada de reinvenções, que são uma treta. Apenas parar e olhar-me. Não será bonito, mas aplicando uma regressa básica do engate, às vezes, para se conseguir a miúda bonita, é preciso passar algum tempo com a amiga feia. Era nesta altura que pessoas com menos classe fariam um trocadilho com uma das minhas alcunhas de infância. No entanto, este é um recanto onde a classe é tão necessária quanto um esfregão de palha de aço nas virilhas.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Razões




Depois de tirar o veneno, é isto; e até mais. Mas o mais está distante. No entanto, foi para isso que nasci com pés.

Be drunken
Always. That's the point.
Nothing else matters; If you would not feel the horrible burden of Time weigh you down and crush you to the Earth,
Be drunken, continually.
Drunken with what?
With wine, with poetry, or with virtue as you please.
but Be drunken.
And if sometimes on the steps of a palace or on the green grass in a ditch or in the dreary solitude of your own room
You should awaken and find the drunkenness half or entirely gone
Ask of the wind ,of the wave, of the star of the bird, of the clock of all that flies, of all that sighs, of all that moves, of all that sings, of all that speaks, Ask what hour it is, and wind, wave, star, bird or clock will answer you,

"It is the hour to be drunken
Be drunken if you would not be the martyred slaves of Time.
Be drunken Continually, with wine, with poetry or with virtue, as you please."

Baudelaire

terça-feira, novembro 06, 2012

As cinzas da Angela



O meu pai tomou na sua vida, tenho a certeza, decisões questionáveis. Ter-me poderá ter sido uma delas, de acordo com um certo segmento de conhecidos e ex-amigos; mas comprar o Correio da Manhã aos domingos, de há uns anos para cá, é reveladora de um atroz mau gosto que nunca suspeitaria existir num homem que devota a uma Vespa azul clara clássica um amor terno e paternal, passeando-se por ela na ruas de Ceira como quem acha que é dono de um qualquer feudo.

Ao domingo, o jornal traz um suplemento revisteiro que, custa-me dizer, inclui por vezes artigos interessantes. Por muito sensacionalista que o diário jornalístico seja, o seu apêndice domingueiro tem o senso notável de chamar a si bons temas de reportagem e alguns cronistas que trazem qualidade ao jornal (João Pereira Coutinho, mesmo que seja um direitista reaccionário; Adolfo Luxúria Canibal, uma surpresa para quem pensa que os Mão Morta são os Cradle of Filth portugueses), embora haja nomes dispensáveis (Pacman já lá não está, mas ainda permitem a Joana Amaral Dias a triste ilusão de que percebe algo de cinema e pode escrever sobre o assunto). A edição desta semana trazia um curioso artigo onde se pedia a diversas figuras públicas (sim, porque sem as suas palavras sábias, a sociedade morreria... e a revista não venderia) para escrever o que diriam a Angela Merkel, que daqui por uma semana visitará este extremo da Europa. Pois claro que é um passe para gente que percebe bastante de barulho, e pouco de tudo o resto, dizer enormes barbaridades. São José Correia revela sapiência quando afirma que não quer dizer nada (quando não se sabe do que se fala, estar calado, o silêncio e o recolhimento são as maiores virtudes), Rui Reininho invectiva-a a ir a sítios sobre os quais ele próprio já escreveu musicalmente, e o asqueroso Mário Nogueira, um sindicalista em versão parasita, igual a muitos outros que a minha mãe descrevia à mesa quando era pequeno (e substituíram, no meu imaginário, o Papão) lembra a Merkel, com um gosto questionável, os juramentos de Nuremberga.

Bastam uns minutos de passeio pela avenida pública do Facebook para descobrir que nem Nogueira está sozinho na suas patetices  nem a articulação de três ideias diferentes parece estar na moda em Portugal desde, pelo menos, o início do século XX. A primeira-ministra alemã é comparada a Hitler e vestida de nazi variadas vezes, e as suas palavras e imagem distorcidas até um ponto que me parece ridículo, que é, aliás, uma palavra que vai descrevendo o nosso país em várias situações, à falta de uma mais meritória e agradável. Já várias vezes comentei a estupidez e perigo de se cruzarem situações actuais com os espectros do totalitarismo que têm muito pouco a ver com as mesmas. Em Portugal, não é novo. Salazar é tornado zombie quando convém, e o Estado Novo parece estar aí à esquina a cada medida impopular. Nos últimos anos, publicou-se também bastante literatura acerca do ditador de Santa Comba Dão, mas como o historiador António Araújo teve a oportunidade de comentar numa excelente entrevista que li há tempos, a maior parte é lixo e mostra-se incapaz de lidar correctamente com este período da nossa História. É, aliás, questionável que tenha ficado completamente no passado, mas porque, ao contrário do que pensamos, ele não desapareceu realmente. Merkel, como símbolo da nossas frustrações (cargo que vai passando de corpo em corpo conforme os boatos que circulam no Facebook) é vítima desta tendência, que ultrapassa o nosso país, e chegou até à Grécia, num conjunto de manifestações patetas e inquietantes no seu perigo.

Angela Merkel tem a culpa de duas coisas: ter eleições para o ano e ser alemã. Os alemães são, sem dúvida qualquer, o putativo vilão dos últimos cem anos europeus. A 1ª Grande Guerra foi-lhes imputada (falsamente) e na 2ª Guerra Mundial, vencem sem dificuldade o prémio estilo vilanesco e o de plano mais horrível para dominar o mundo. Desde 1945 que a Europa tem cobrado isso à Alemanha. Mesmo que, da França à Polónia, todos tenham dado uma mãozinha e ajudado o senhor Adolfo com gosto (principalmente quando se tratou de caçar e matar judeus), os alemães idealizaram o plano. Portanto, foram 60 anos a lembrar infâmias e a chantagear emocionalmente, e não só, um país a quem foi cortado tudo. Para a adesão à CEE, por exemplo, a França chegou a exigir que o seu vizinho germânico nunca deixasse o PIB interno superar o francês; e até muito recentemente, era expressamente proibido o rearmamento alemão. O país teve de pagar uma enorme dívida do primeiro grande conflito mundial, e ainda de reerguer-se dos escombros no segundo. Quando se fala que o plano Marshall a Alemanha e que ela deve a mesma benesse aos restantes países, é preciso não esquecer que esse mesmo plano ajudou todos os países europeus que o desejaram. A diferença é que num espaço muito curto, e partir de um quase zero, os alemães voltaram à sua posição natural de dominadores económicos da Europa e seu principal motor nesse campo. Eu não simpatizo particularmente com o carácter alemão, mas respeito-os muitíssimo. Eis uma nação que foi deitada completamente abaixo por duas vezes, passou crises económicas cataclísmicas, e regressou sempre. Quando voltou, e se notou que sem ela a Europa não passaria de uma miragem, abdicou da sua moeda (a mais poderosa do Continente) em prol de uma divisa única. A conjuntura do euro acabou por beneficiá-la de certas maneiras que prejudicam países mais pobres, mas se eu tivesse abdicado da minha estabilidade financeira, depois de décadas de trauma e trabalho duro, quereria ter alguma compensação que garantisse a durabilidade da minha economia. Mas lá está, não sou político em Portugal.

A Alemanha cometeu erros na sua gestão desta crise. Sim, porque ninguém se engana quanto a quem está realmente a dar ordens na UE. No entanto, foi ela quem, durante muitos anos, contribuiu para os cofres europeus com os fundos que se acabaram por desbaratar no sul da Europa e não só. Merkel sofre do problema de ter de ser, ao mesmo tempo, chanceler do seu próprio país e líder de um continente inteiro de maneira não oficial; e as posições são muitas vezes incompatíveis. Anda ela numa corda bamba, a tentar equilibrar ambos os interesses, sabendo que o seu próprio país está a entrar num endividamento preocupante (parte da culpa é das suas responsabilidades para com a UE) e que lhe querem passar a conta da crise na forma de Eurobonds, que dizem basicamente queum punhado cria dívida, mas ela é dividida por todos e não se fala mais nisso. A Alemanha precisa da Europa muito menos do que a Europa precisa da Alemanha.

Que me recorde, não foi Merkel quem criou, no pós 25 de Abril, as condições ideias para os monopólios visíveis e não visíveis que dominam e mirram a nossa economia; nem que desbaratou fundos comunitários como se não houvesse amanhã; nem que criou endividamento de forma preocupante; nem que falhou aposta atrás de aposta no nosso desenvolvimento económico; nem que culpa a Troika e elementos exteriores de medidas e politicas que destroem a nossa capacidade de desenvolvimento, e estão fora de qualquer memorando.

Quem quer lançar tomates a Merkel e a acusa de nazi e prepotente e arrogante está, de forma indirecta, a fazer uma certa desculpabilização da nossa portuguesa incompetente. Como noutras alturas da nossa História, a culpa é do outro: do mouro, de Castela, de Espanha, dos Franceses, dos Ingleses... Há sempre uma estátua gigante para onde podemos apontar e atirar os nossos demónios. Para que continuemos a ser os portugueses vítimas; e Merkel calha bem nesse papel: a sua cara até parece esculpida em granito.

terça-feira, outubro 30, 2012

Bobines e bobines e bobines



Ainda existe um estigma em ir ao cinema sozinho. Não conheço praticamente ninguém que não me revire os olhos quando afirmo, e sem qualquer tipo de constrangimento, de que gosto do acto de ir em solitário para o interior de uma sala de cinema. Penso que isso deve ao lado social do cinema, e à maneira como encaramos o mesmo mais como entretenimento do que como arte. Se afirmasse, por exemplo, que me queria sentar no Louve, a ver a Mona Lisa em total solidão ninguém estranharia. Afinal, é uma obra de arte. É pintura, certo? Se é pintura, é arte; o cinema é uma actividade que envolve pipocas e refrescos. O mais próximo que temos de comparação será um piquenique; e é sabido que a não ser que as mãos de Monet estejam envolvidas, um piquenique jamais será arte.

O solitário do cinema tem tudo contra si, a não ser que seja, de facto, um eremita cuja mente se formatou nos planaltos ermos da solidão. Ao cinema, vai-se em grupo. Pares de namorados, magotes de amigos, famílias.. A ida ao cinema é uma experiência comunal, e no entanto, lá vai ele, de certa maneira corajoso, sabendo que não vai simplesmente ver um filme: enfrentará, pois claro, os mesmos espectros que, de todas as maneiras, lhe escapam costumeiros.

Eu gosto de ir ao cinema só, honestamente. Na verdade, tenho descoberto que, tirando uma ou outra ocasião, até me permite analisar melhor o que estou a ver. Tenho uma tendência para me distrair que é lendária, no mesmo sentido em que o desequilíbrio de Alexandra Solnado é lendário, e ter alguém ao meu lado no cinema pode ser o começo de uma bela relação de amizade com a minha verborreia. Tenho gostosos mecanismos de raciocínio instalados na minha cabeça que me tornam um opinador razoavelmente bom; no entanto, também existem em mim outros mecanismos, de auto-sabotagem, que equilibram a balança e me impedem de ser o Kal-El de Ceira.

Reparem bem que comecei por falar em como se tornou infame ir ao cinema sozinho, e onde eu vim parar na torrente da conversa. O melhor é parar.

Ou daqui a pouco, ainda me ponho a discorrer sobre beterrabas.


segunda-feira, outubro 15, 2012

Cordeiros



Reli palavras que te escrevi há alguns meses, e não sei quando fui mais parvo: se na alturas em que as pus num papel, se no momento antes em devia ter sido concreto e achei que um caderno era a melhor forma de mostrar o fogo de artifício de chinês que me deixa a mente embicada quando te olho. Esperar é um trapézio, mas escrever é uma rede de segurança que torna longa a espera. Eterna, mesmo. As palavras não são um atalho, apenas uma longa rotunda que prolongam a circulação, com duas faixas, e cuja saída pode ser muito, muito perigosa pelo trânsito numeroso e persistente.
É mais confortável sentar-me e ler o que te queria dizer. O que pensei que te quis dizer, e o que guardei por adorar jogas às escondidas comigo mesmo. À espera que me marques.
Um dois três Bruno.
Mas continuo escondido. É da maneira que o jogo se prolonga.

sexta-feira, outubro 12, 2012

Acordo com o Diabo


Paulo Portas e a presença dos CDS-PP no Governo lembram-me a lenda sobre o acordo de Roger Bacon com o Diabo, onde em troca de vasto conhecimento científico, o segundo ficaria com a alma do primeiro, excepto se o corpo de Bacon não morresse nem no interior, nem no exterior de um mosteiro. Assim sendo, o monge e cientista inglês passou os últimos dias numa sala construída nas paredes do mosteiro onde professava. A esquizofrenia de Paul Portas é essa mesma sala da parede.

quinta-feira, setembro 27, 2012

"Breaking bad"



Até onde pode chegar um homem movido pelo desespero e pela frustração? A julgar por todo o arco narrativo de "Breaking bad", bem longe. Talvez até um ponto onde esse homem se descobre a si mesmo, na mais estranha das viagens de auto-iluminação que um professor de Química de uma pequena cidade norte-americana pode imaginar na sua vida banal, com uma família normalíssima e um quotidiano que é pouco mais do que trabalhar, ver televisão e beneficiar dos prazeres pequenos, que combatem as desilusões maiores que não se vêem. Como todas as iluminações de clarividência, há um momento charneira que tudo precipita, no caso deste homem a descoberta de um cancro potencialmente terminal. Ora, de modo a garantir a subsistência da família após a sua morte, um esquema surge: cozinhar anfetaminas, usando os seus conhecimentos de Química, e aliar-se a um ex-aluno que as trafica.

É este o mote para "Breaking bad", uma série sobre um caminho para o sonho americano traçado sem bússola, acima de tudo moral. É um percurso de um ponto A para outro ponto qualquer que não se sabe muito bem; e levando até ao limite a moralidade, permite descobrir de que matéria realmente são as pessoas feitas. Num jogo de escondidas consigo mesmo, Walter White, o professor de Química que se vê confrontado com uma escolha extrema, entra numa epopeia, à boa maneira dos herói antigos, em busca, acima de tudo, daquilo que acha que a vida lhe deve. A série, admirada acima de tudo como um thriller moral muito bem esgalhado e a coolness em pessoa, é acima de tudo sobre personagens que pensam que a vida lhes deveu algo durante anos. Seja a mulher de Walter, que por debaixo do seu disfarce de contente com pouco, anseia por outra realidade de conforto; o parceiro de Walter, Jesse Pinkman, deseja coisas que até agora não sabia que queria; e todos os restantes ou são meios ou obstáculos, nada mais.

Todo este percurso é traçado, narrativamente, desde a primeira temporada, com acontecimentos que ramificam uns dez ou vinte episódios mais à frente, sem esforço, mostrando o trabalho excelente efectuado pelos argumentistas da série, em particular Vince Gilligan. Gilligan ganhou proeminência com o seu prolífico trabalho em "The X-Files", tendo assinado alguns dos melhores episódios desta série, onde se podem reconhecer alguns temas e estilos de "Breaking Bad" ("Pusher"emula alguma da tensão cerrada presente no conflitos pessoais de "Breaking bad"; "Memento mori" traça a dor palpável que o cancro pode causar no mundo de alguém; "Monday" é um episódio rashomoniano, onde alguém ljuta uma e outra vez para impedir que a realidade tal como a conhece desabe) e embora as séries pareçam distantes, ambas partilham um gosto pelo imaginário de "americana". Por muito boa que seja a substância, tal como numa reacção química, ela só explode porque existe um catalisador. Se Aaron Paul, no papel de Pinkman, é excelente, e mesmo que mais à fente Giancarlo Esposito crie um memorável vilão em Gus Frings, esta série é do poderoso Bryan Cranston, um mosntro de representação que come a série toda, a digere e atira na nossa cara como uma bala poderosa: a maneira como compõe um Walter White monstruoso, mas terno; egocêntrico, mas dedicado à família; simples na sua ambição, mas complexo nos seus impulsos, é das melhores coisas que a televisão nos oferece. É um espectáculo à parte, e pouco mais há a dizer.

"Breaking bad" tem várias morais a retirar. A que deixo é: não deixem o desespero toldar a vossa vida. Principalmente quando o passado se quer alimentar do vosso futuro.

quinta-feira, setembro 20, 2012



Eu mereço mais do que me quero dar. Sou a pior pessoa a escolher prendas para mim mesmo. Devia haver um fim para os ciclos viciosos, que fazem do vício a única estrada para a felicidade que conhecemos.
Há mel nos favos; mas porque queremos ignorar os ferrões das abelhas, quando são mais do que a doçura que podemos obter?

Vou pensar nisto e já cá volto.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Poderes mágicos



Um sono eterno do Homem é tornar-se naquilo que impossivelmente será que se torne. É esse o apelo das histórias de heróis e de super-heróis, e uma distinção importante entre ambos. Enquanto que os primeiros são reconhecidamente normais, mas amplificados, os segundos são claramente anormais por possuir aquil que para nós reclamamos apenas em sonhos: voam, correm mais rápido do que a luz, são imortais, são indestrutíveis, têm uma força extraordinária. Na nossa visão, são mágicos. Isto porque dois séculos de cientismo nos colocaram na planície da normalidade e do nulo. Somos matéria, e a matéria, como é consabido, apenas é magica se estiver num reactor nuclear ou num bico de Bunsen.

Não podia discordar mais. Nós temos poderes mágicos, e não falo daquele que Paulo Coelho inventa para manter o cash flow constante. O maior deles é o de dar vida aos objectos. Não tento fazer entrar o animismo no mundo das coisas normais; apenas destaco que somos o único ser que consegue carregar os objectos que usa de personalidade. Se forem como eu, não-vivos que vos rodeiam têm a vossa memória, a vossa vida, os vossos pensamentos. De cada vez que os vêem ou tocam, sabem que pertencem claramente ao vosso mundinho que criaram dentro deste maior. Não consigo ser materialista nisto. Sou um verdadeiro sentimentalão, e guardo tralha, apenas porque foi importante para mim. Distingo-a e reconheço-a nas mínimas nódoas e amolgadelas, e lembro-me perfeitamente quando, onde e de que maneira causei o efeito dos seus defeitos.

Foi por isso que enfrentei com uma dor diferente da do meu pai, e da minha mãe, a notícia de que o meu irmão se espetara no Ford Escort Boston cá de casa.Este vetusto bólide, máquina de guerra que conduzo orgulhosamente por entre máquina de alta cilindrada se for preciso, foi o primeiro carro que conduzir. A sua aparente morte estragou-me o dia. Vivi aventuras com aquele carro que posso contar, e outras que nem por isso. Nos cinco anos que dei por mim a dirigir por entre o sítio mais perigoso do nosso país (a sua rede de estradas), foi este veículo a minha cara; o seu velho motor enrugou ainda mais com os meus maus-tratos, e outras rugas surgiram na sua carroçaria. Em cada uma delas, um erro, um pecado, um arrependimento, uma ruga em mim mesmo por pensar no que me aconteceria ao chegar a casa. Aquele carro é um verdadeiro sobrevivente, e um depósito de histórias, secretas ou não, que envolvem toda a gente cá de casa. Já todos bateram ou deram um toque com ele; e no entanto, qual imortal, lá regressa ele, pronto para mais um round, afastando com guinadas uma morte que se anuncia todos os anos, quando chega a data da inspecção. Ouve-se do juiz paterno "É desta que ele chumba", e nunca é.

Gosto de pensar que a máquina sabe que, por muitos outros carros que tenhamos comprado para substituí-lo, ele será a minha preferida, e o pronto-socorro quando as outras claudicam e falham. Aí, ele estará lá fora, estacionado. Foi lá que o encontrei, após ter escapado, garboso, a nova tentativa de assassinato. O motor ainda tosse de vez em quando, a embraiagem é o último nível do "Takeshi's castle", mas ele mexe, e avança. Sem a nossa vida, ele estava morto; mas se ele morresse, a nossa vida era menos vida e mais morte.  Parece estúpido, mas não consigo deixar de pensar nisto assim. É melhor do que julgar que qualquer coisa é facilmente descartável. Isso sim, é mais máquina do que gente.

segunda-feira, agosto 13, 2012

domingo, agosto 05, 2012

Produção Fictícia


Há uma ligação directa entre o teu sorriso e o meu coração a saltar batidas. O cardiograma não explica, mas a minha cabeça sabe bem do que se trata.

sexta-feira, julho 27, 2012

A alma e a gente




Criou polémica, num tempo não muito distante distante, o momento de julgar Leni Riefenstahl na sua morte. A divisão foi notória, e notou-se um certo desnorte nas massas mediáticas, que se confrontavam na visão definitiva desta mulher. Por um lado, eis alguém que só terá tido Albert Speer como superior no esforço de construir uma visão do regime nazi espelhado na arte e na imagem, uma pessoa que contribuiu definitivamente para a eternidade do fascínio com o nazismo, e que, para além disso, tinha tido até uma amizade pessoal com várias figuras do regime alemão, Hitler incluído, nesse período; por outra, surgia uma artista fascinante, uma das cineastas tecnicamente mais dotadas da primeira metade do século XX, pioneira e quase criadora de regras elementares do cinema documental, e que na fase do pós-guerra, quando a associação com o nazismo arruinou uma possível carreira cinematográfica, forjou um interessante percurso fotográfico, na captação da vida marinha e do modo físico de várias tribos africanas. Como julgar uma personalidade com tal complexidade? Alguém cuja obra podemos louvar, admirar e até querer que permaneça escrita na eternidade do tempo que há-de vir, mas que no entanto, tem um passado político questionável, no mínimo? Por onde pegar? O que importa mais: o talento ou a consciência? E quem somos nós para julgar moralmente alguém tão completamente fora do nosso tempo? Somos humanos, pois claro; e fará sempre parte de nós o instinto da superioridade moral e do analfabetismo histórico e temporal. É isso que nos transforma na espécie mais arrogante que já existiu.

Portugal viu-se confrontado com este dilema na semana passada, quando correu pelo Facebook que José Hermano Saraiva, antigo ministro do Estado Novo, e que nunca escondeu não só uma forte simpatia por Salazar, mas também um certo saudosimo do tempo do Estado Novo, tinha falecido. O nosso moderno tribunal social moderno, essa rede social onde boato soa a verdade e qualquer grunho sem a habilidade de pensar complexamente pode ditar sentenças com a certeza própria dos levianos, rapidamente se pronunciou, e os veredictos de culpado e inocente desfilaram, paralelos e em guerra. Em breve, a polémica tornou-se séria, e mostrar pesar pela morte do historiador era passar por simpatizante do fascismo. No dia seguinte, só para reforçar o horror do professor Sarava, este já era comparado aos médicos nazis, sem qualquer tipo de piada. Eu acho fascinante esta aparente... purga que é feita dos homens que colaboraram no Estado Novo, por parte de indivíduos que têm, claramente, uma memória muito corta e vaga, o que é irónico pelo trato que dão a alguém que, num programa específico, visitavas os horizontes dessa mesma memória.

Não tento, sequer, analisar quem foi ou melhor, o que simboliza José Hermano Saraiva. Politicamente, é público para quem trabalhou e quais as suas posições. O espantoso é que nunca o tenha negado, nem sequer feito um mea culpa que muitos outros realizaram sem sinceridade. Pode-se dizer muita coisa dos homens saídos do período mais negro da nossa História do século passado; no entanto, alguns mostraram um carácter que já não existe na democracia, o que não deixa de ser, obviamente, irónico. É incrível também como Saraiva, que, repito, sempre assumiu publicamente as suas ideias e o seu passado, tenha navegado por entre as águas turvas do PREC e do 25 de Novembro, e de todas as intrigas de esquerda (gostoso, quando Cunhal nos quis transformar num estado de tipo estalinista... E viu-se algum desses moralistas a brandir tochas contra o santo comunista português? Claro que não: no imaginário popularucho, a esquerda é uma religião sem ópios, mas com muito povo), transformando-se numa incontornável figura dos nossos media. Um cientista incontornável? Longe disso, para quem faz da ciência histórica uma missão; mas poucos (ninguém, diria) divulgou tanto um gosto pela cultura, pelo saber e pela memória como ele o fez.

Não tenho vergonha de admitir que admiro José Hermano Saraiva, e não tenho qualquer problema com isso... Porque o teria? Tornar tudo o que é histórico num teste ideológico acabará simplesmente com vazio. Toda a gente, e sem exagero, tem um lado negro por onde pegar. Mandela era um terrorista, por exemplo; a Volkswagen, a Siemens e a Hugo Boss trabalharam para os nazis; Miguel Ângelo era um misantropo que odiava mulheres e as considerava seres inferiores; Byron dormiu com a meia-irmã; D. Dinis fornicava com tudo quanto mexia; a religião católica matou milhões de pessoas; o comunismo também; Sá Carneiro foi ministro de Marcelo Caetano; Picasso batia na suas mulheres; Wagner tinha um fascínio por governos ditatoriais, e Beethoven amava a figura de Napoleão; Saramago fez purgas no DN, em jornalistas que não eram comunistas. Quer-se dizer... A sério, podemos estar aqui dias a fio a citar nome, associações e eventos e de uma maneira ou de outra, há uma maldade latente ou uma grande mancha de pecado a cobrir a sua reputação.

Quem quiser julgar os homens moralmente, está no seu direito. No entanto, esse direito acaba quando se começam a julgar outras pessoas por admirarem esses mesmos homens pelas graças do seu trabalho. Eu sou humano.. Também julgo personalidades dessa maneira. Não sou nenhum sacrista ou santo. Mas quanto mais leio sobre homens e vilões, mais me sinto fascinado, e de compreensão aberta, aos pontos que formam uma opinião, e o momento onde um trabalho brilhante ou marcante é esquecido por um pecado, mesmo que grave. Nixon, um presidente profundamente competente na gestão de política interna e externa, deitou tudo isso a perder por causa de Watergate; e é disso de que nos lembramos hoje. Os homens constroem a vida em função da recordação e da memória do futuro. No caso de José Hermano Saraiva, abomino as suas falhas científicas e também o papel que teve durante o Estado Novo; mas acho admirável a maneira como se reinventou e teve a capacidade de renascer numa altura de morte de muitos que estiveram no seu papel, permanecendo no imaginário português como um excelente divulgador cultural que era, sem que o fantasma do "outro tempo" desaparecesse, transformando-o numa figura odiada e amada, em simultâneo, mas de inegável marca. Admiro-o, porque despertou um homem uma curiosidade pelos feitos dos homens e dos tempos, e porque inculcou em mim a mesma queda para o teatral que uso quando ensino História.

Conheço muita gente que passou pelo 25 de Abril como revolucionário, e que hoje se entretém a destruir o país, debicando-o, amolentando-o, acabando com ele. O muito citado presidente da AAC no tempo em que Saraiva era o vilipendiado Ministro da Educação das cargas presidenciais foi, e é, um homem de mão do PS, que passou de cargo em cargo, a construir reputação política, e contribuindo para a teia de interesses que nos destrói, fazendo o percurso contrário ao do comunicador; e para esse não há ameaças ou vaias, mas louvores quando a crise académica surge como motivo de celebração de uma resistência suposta ao regime, verdadeiramente propulsionado por motivos bem mais prosaicos. A História é uma verdade, mas para quem procura ler, e não mandar bitaites; e a memória é essa bruma definitiva, fixada por amnésicos. Coisa gira, esta.

P.S: É curioso que o próprio José Hermano Saraiva tivesse a própria noção das suas limitações e do seu papel, Numa entrevista ao sobrinho, José António Saraiva (um indivíduo asqueroso e chico esperto, esse sim), referiu que não era modéstia quando se referiu ao irmão António José Saraiva (uma das figuras intelectuais mais brilhantes do século passado) como o Sol, sendo ele a Lua. Diz ele: "Não é falsa modéstia dizer que o ele era muito melhor do que eu. Era mesmo assim. Ele tinha uma luz própria, intensa, que iluminava tudo. E eu limitava-me a reflectir a luz dele. Era assim que eu sentia..." Claramente, um homem sem qualquer noção de si próprio.

quarta-feira, julho 18, 2012

A culpa dos prazeres


Há dias em que gosto da dor de me lembrar de ti. Mas apenas porque tem um fim.

sábado, julho 14, 2012

Carris são mais a minha praia


Não sou Marcel Proust, e descobri isto aos 10 anos. Por isso, não uso madalenas para despoletar as minhas torrentes de recordações (também não tenho histórias assim tão interessantes que pensam encher milhares de páginas). Sou bem mais modesto, e nem sequer preciso de pastelaria. Como descobri na quinta-feira, apenas necessito de uma passagem de nível.
Foi numa fortuita passagem pelo Carriço, aldeia já no distrito de Leiria, que tal espécie de local me transportou de regresso à minha infância, habitando o interior de um Peugeot 306 dos antigos. Felizmente para a minha companhia, não se procedeu ao fenómeno físico do rejuvenescimento, pois o embaraço causado teria sido insuportável para mim, cuja barba já me aumenta uns anos precisamente, lá está, porque não sou Marcel Proust.

Uma passagem de nível em particular transportou-me para as minhas férias de crianças, onde a Praia do Pedrógão era o arquipélago das Seychelles da minha família. Consistentemente, durante dez anos ou mais, voltávamos na primeira quinzena de Agosto, período que será para sempre associado a férias no meu calendário biológico. Casa arrendada, meia casa às costas, e a ideia preferida do meu pai para relaxar: passar o dia inteiro na praia, a torrar. Lembro-me de um parque infantil colocado logo à entrada da praia, onde passava a manhã. Lembro-me do Nuno, um rapaz que conheci e com quem partilhei brevemente o entusiasmo pela colecção "Biblioteca do Escuteiro Mirim", e a inveja que senti quando ele me disse que tinha acabado a colecção, sem eu sequer ir a meio. Os vinte volumes que hoje possuo dão-me uma sensação de ter cumprido uma cruzada de infância. Lembro-me de ir ao banho às quatro da tarde, lanchar às quatro e meia, comer um gelado às cinco e picos, e mandar mais um mergulho antes de regressar a casa às sete. Lembro-me de broeiros no Verão, e de pevides daquelas salgadas e que não se encontram nos hiper-mercados hoje, e só podem ser adquiridas na praia. Lembro-me de jogar à bola com um malandro que hoje actua num clube da 1ª Divisão, e de uma sarrafada que lhe dei, e de ter ficado triste depois. Lembro-me da minha avó; e também me lembro do meu avô; e como eles hoje só habitam nestas memórias, é o único sítio onde não me importo de passar horas numa praia ao sol. Lembro-me do "passeio dos tristes", à noite. Lembro-me de uma cassete dos Diapasão, que passava todos os dias, durante um ano específica. Lembro-me de ficar em casa da dona Idalina a ver os Jogos sem Fronteiras, à segunda-feira, e de como ela não se importava. Lembro-me de, já crescido, ter ido ao banho nu no mar, longe de toda a gente. Pelo menos, era o que pensava, até gentes, que não eram de miragem, começarem a passar no areal. Lembro-me de almoçaradas na Mata do Urso, e do quanto odiava aquilo, e do quanto passei a gostar uns 20 anos depois, quando lá voltei mais uma vez, mas para fazer uma cache. Lembro-me de ficar em casa a ver a Volta a Portugal, na hora de calor, e de o Joaquim Gomes ser o meu ciclista preferido. Lembro-me de um futebol com postes feitos de montes de areia. Lembro-me de conseguir dar mais de 1000 toques com uma raquete, e pensar que era o maior da minha aldeia. Lembro-me de ir uma vez ao banho com bandeira vermelha, e ondas duas vezes a minha altura, e me ter sentido bem menos como o maior da minha aldeia.
Lembro-me, acima de tudo, quando não tinha as perturbações nervosas suficientes para alimentar um blog, quanto mais dois.

A maneira como boa parte da nossa infância se pode condensar num pedaço de carris com madeira em redor pode parecer triste e redutor; mas se tivermos em conta as vezes em que a recordação da infância transforma a nossa idade adulta em algo do género, talvez seja apropriado.

quarta-feira, julho 11, 2012

S(O)NS



No dia em que os nossos médicos vão receber um tratamento hagiográfico por parte da imprensa, permitam-me que deixe uma pequena história que se passou comigo este ano.

No início de Outubro, magoei o meu pé. Duas semanas depois, consultei um médico privado, que trabalhava num hospital público, e me reencaminhou para si mesmo. Passou-me uma ecografia para fazer no hospital três meses depois. Eu, convencido de que tinha feito um ligeiro entorse, não me importei.
Em Janeiro, lá estava no hospital e sem ter de esperar eternidades, fui atendido. A médica entrou, acompanhada de uma estagiária, que tirava notas e bebia da sabedoria da sua colega mais velha. Deitei-me na marquesa, e depois de me dizer um olá muito rápido e me perguntar zero acerca do meu problema, continuou a falar do médico X, que estava a faezr não sei o quê e era mau.
A ecografia decorreu como uma mini-aula, sendo o meu pé o acetato. A médica mais velha explicou 1001 maneiras de se desenvencilhar nos ligamentos e ossos do pé e depois deixou a petiz experimentar a diversão. Findada esta, desligou a máquina e comentou com a jovem uns sapatos lindíssimos que vira no dia anterior numa loja no Fórum
E mandou-me embora.
Dentro daquilo que pensei serem os meus direitos, perguntei se havia algum problema no meu pé.
Despreocupadamente, a senhora informou-me que tinha feito uma ruptura de ligamentos. Com o mesmo ar com que falara daqueles sapatos magníficos. Concluiu que quando voltasse ao hospital, me solucionariam o problema. Fisioterapia e assim. Um bom dia e passe bem.
Estou em Julho, e a ecografia que esta senhor fez não estava no sistema informático do hospital, e como o meu médico não pôde consultá-la, marcou-me nova consulta, para a semana. Uma consulta pela qual terei de pagar mais sete euros e meio. Melhor, teria, porque vou prescindir dela. Depois de mais de meio ano, o pé já nem me dói, e parece-me que não há muito que possam fazer por eles agora.
Da próxima vez que um médico se quiser fazer de anjo branco dos portugueses, uma paulada é pouco.

Porque esta pequenina história que contei também é o Serviço Nacional de Saúde.

Auto de fé


Com o passar dos anos, fui aceitando com mais naturalidade que há pessoas possuidoras de opiniões bem distantes das minhas. Não querendo fazer um falso retrato de mim, descrevendo-me como uma pessoa diplomática e cordata, tenho a noção de possuir hoje uma flexibilidade maior para aceitar pontos de vista diferentes dos meus. É algo que se vai conquistando com a idade, e, acima de tudo, conhecendo pessoas mais inteligentes e capazes do que nós em explicar aquilo em que acreditam de forma lógica e coerente. São raras de encontrar, estas pessoas, e sinto-me alguém melhor por ter encontrado até agora um número notável de indivíduos assim. Acredito que conhecer pessoas que são melhores do que nós (e existe sempre alguém melhor do que alguém) faz-nos crescer e evoluir.

Existem, assim, ideias que continuo a abominar, pois não penso haver razão lógica qualquer para que se sustentem. A existência de corridas de touros é uma delas. Outras luminárias tentaram já explicar o fascínio que espetar farpas no lombo de touros exerce sobre pessoas que, seja concedido isso, não se limitam apenas a um estrato social, como argumentam alguns amigos dos animais. Desde o camponês mais ignorante até ao CEO mais ignorante, todos gostam do espectáculo; e não podiam ter arranjado melhor paladino na defesa da causa do que Miguel Sousa Tavares, o indivíduo que negou corrupção no futebol português por parte do seu clube mesmo na cara das evidências, e se entreteve a roubar parágrafos inteiros da sua obra "Equador" ao livro de um par de escritores franceses. A minha antipatia por esta figura é por demais conhecida e a única coisa positiva na sua truculência e falta de senso, anulada a espaços, é a de fazer a sua mãe uma mulher ainda mais extraordinária. Penso que um dia alguém falará da relação que a minha própria mãe tem comigo em termos semelhantes, mas eu, ao menos, não tenho um mau gosto clubístico tão grande.

Como a falta de senso não só não inibe alguém de escrever em jornais, mas até aumenta as suas possibilidades no mundo da crónica jornalística, Tavares publica no Expresso uma crónica semanal, e há umas semanas, o tema foi a destruição do património público do país, na sua vertente animalesca. Touradas, caça, pesca e circos com animais vêem-se zurzidos e enjaulados por este Governo, como se fossem os próprios animais que degradam. Temerariamente, concedo ao homem de voz cava razão num ou noutro ponto menor, como seja o extremismo a que a caça e a pesca, que na sua maioria são feitas por gente que de facto dá uma utilidade às peças capturadas (come-as) sofre de Associações de Direitos de animais. No dia em que um tipo não puder usar uma cana de pesca, algo da nossa natureza morrerá. A Natureza é como é, e a solução para esta se manter é viver num equilíbrio com ela, não alterando a ordem natural das coisas tornando-nos menos capazes do que somos.

Mas depois, entram as restantes actividades, e Sousa Tavares utiliza para defendê-las a lógica economicista que critica nas medidas deste governo, por exemplo. Eu desconheço, de facto, a força económica dos circos, mas reconheço que a tourada é importante, turisticamente, para certas zonas do país. Agora pergunto: que terra de pessoas de bem quer ser conhecida por ter desenvolvido como máximo expoente cultural um espectáculo que degrada, maltrata e mata animais com o único intuito do espectáculo? OU de senhores e senhoras, que vestindo-se à boa maneira dos marialvas, pretendem atingir uma superioridade em relação a algo que nunca terão na vida? É isto uma actividade económica? Hoje em dia, tudo o que seja degradar é uma actividade económica, por isso não estranho que este nobre escriba não distinga as duas coisas; e o mesmo se aplica ao circo, esse espectáculo deprimente, onde os animais são chamados à arena para fazer umas habilidades patetas, e quando retirados dela, recolhem-se a uma jaula, acorrentados e vulgarizados. É incrível como Sousa Tavares gaba a nobreza dos animais, sem se aperceber precisamente de que faz parte dos montanheses de Danton.

A piéce de resistance vem no último parágrafo, onde é lançado o argumento mais comum para defender este género de espectáculos: a tradição. Em relação a isto, e para acabar, digo o costume: Portugal possuiu, ao longo da sua longa História, várias tradições que foram extintas por se considerarem datadas. Uma delas eram os autos de fé, onde pessoas consideradas hereges eram levadas para os largos centrais das cidades, julgadas e queimadas vivas, perante o júbilo da multidão e alegria da assistência. Havia grandes cortejos, e os elementos mais influentes da sociedade apareciam e gostavam. No entanto, algures no século XVIII, achou-se por bem acabar com isso, apesar da sua popularidade e tradições de mais de 300 anos, porque era desumano e idiota. Ficámos com o lamento de se acabar um costume tão bom e antigo, mas a vida é assim; e para além disso, ó Miguel, o Hemingway, que tanto gabou a tauromaquia, também achou que uma boa solução para resolver os problemas da vida era dar um tiro de caçadeira na cabeça. Tira daqui as conclusões que quiseres, pá.

sábado, junho 23, 2012

Ronaldo é a melhor coisa que aconteceu ao mundo desde a criação do mesmo


Vive-se por estes dias em Portugal uma guerra civil, que vai passando despercebida, mas que reflecte, mais do que qualquer grupo ou evento, a nação em que nos tornámos. Falo do confronto quase fratricida em redor da selecção nacional e do seu profeta, um burgesso extremamente talentoso com uma bola nos pés cujo nome é Cristiano Ronaldo. Esgrimem-se opinião contrárias, e quem as dá, não pode voltar atrás. O indivíduo que ouse criticar esse grupo de bravos, excelsos e perfeitos protótipos da perfeição será apedrejado na praça pública das palavras com a mesma força com que Bruno Alves varre as pernas dos adversários. Ou estás connosco, ou contra nós; e se estás contra nós, não podes gostar do teu país, nem orgulhares-te dele. Dizer que Ronaldo desperdiça golos fáceis é um crime; chamares a atenção para as desatenções habituais de João Pereira é mais infame do que o Holocausto; e no fim de contas, o Varela, mesmo sem jogar um rabicho nas partidas onde entrou, marcou um golo de sorte que te deve calar a boca e proibir-te de dizer o que seja dessa malta.

Ora, não é isto uma estupidez? Claro que é; mas é uma estupidez que pedimos e a que não podemos fugir! Afinal, quem é que aceitou este paradigma de ligar os humores e feitos de jogadores de futebol à alma de um país? Fomos nós, ajudados por campanhas publicitárias gigantes e a habitual dedicação da classe política em forjar uma ligação com o povo através do desporto, já que não consegue fazê-lo pela competência das suas decisões. Lentamente, caminhámos durante anos até chegar aqui, desde que o Benfica começou a ter sucesso internacional no tempo do senhor grisalho e moralista. Os feitos de atletas são celebrados ad nauseam pela máquina mediática, de uma forma que não se vê noutras áreas, salvo raras excepções.

Quis-me alguém convencer que não é muito diferente do que acontecia há muitos séculos, quando o país rejubilava com façanhas guerreiras, e batalhas épicas. Por muito que o argumento seja falacioso, não é real, e nunca se poderia chegar ao nível do que se vive agora. Custa-me imaginar Afonso Henriques, saído de zurzir violentamente alguns muçulmanos, ameaçando de porrada um alferes só porque este tinha dito que Gualdim Pais era um mete nojo. Provavelmente, o próprio Gualdim Pais tê-lo-ia feito. Mas se formos aler as crónicas da altura, Gualdim Pais era um Chuck Norris, e quem o insultasse... Bem, estava por verdadeira conta e risco. O que interessa é que já fomos portugueses diferentes na forma como convivemos com as críticas dos outros e a sua diferença. O referido Henriques, afinal, permitiu a coabitação entre cristão, muçulmanos e judeus nas suas cidades, dando direitos a todos (e mais deveres a alguns) e compreendendo assim que isto de sermos uma carneirada não beneficia ninguém. Reconhecendo que os judeus tinham o dinheiro e os muçulmanos um assombroso conhecimento tecnológico, criou as bases para um desenvolvimento, embora lento, de um país recém-criado. Algo que outros reis posteriores viriam a desprezar, para mal dos pecados lusos.

É assim tão necessário ligar a qualidade do nosso país à prestação de 23 atletas? Para um povo que presta atenção a poucas coisas extra futebol, talvez. Os golos de Ronaldo são o banho tónico de ego que alguns precisam, e malhar em pessoas que criticam esses emigrados na Polónia e na Ucrânia talvez seja a única oportunidade que alguns sentem de se sentirem superiores a alguém no seus dia a dia, e pôr em prática um dos desportos preferidos dos portugueses: o "fazer ver", também conhecido como o "eu bem te disse!". Se for este o motivo, estes novos hipsters da bola têm a minha simpatia. Mesmo que há um mês e picos, quando saíram convocatórias, tivessem criticado as mesmas lontras que louvam agora. Não considero nada, nem ninguém acima de qualquer crítica; e espanta-me como num país de classe política tão medíocre (e são eles, que nos representam ao máximo naquilo que interessa no exterior), a maior preocupação seja com uns tipos de que dão o couro pelo país, admita-se isso, mas só durante um mês; depois, voltam aos seus clubes para continuarem a ganhar balúrdios e continuar na crista da onda.

Critiquei e critico o que achar válido nesta selecção, e isso não faz de mim mau português. Um verdadeiro patriota questiona, não louca cegamente. Interroga-se e pensa, não se insere num rebanho. Tenho pena que isso sejam defeitos e não qualidades, neste nosso Portugal. E para mais, isto não é uma questão de vida ou de morte, ou um crime de lesa pátria: é futebol. Apenas e só.

E penso que só Jorge Valdano e Luís Freitas Lobo conseguem ver no futebol mais do que ele realmente é.

domingo, junho 17, 2012

Montejunto, 1982


Numa fase estranha da minha vida, estava determinado em perceber como é que a vida funciona, nos seus meandros e ligações; mas quanto mais respiro e sigo em frente, mais as coisas se me trocam e dão a volta. Planos desfazem-se e ultrapassagens por cima surgem súbitas, alterando tudo o que programo ou julgo acontecer.
É uma lotaria; principalmente quando a última coisa que esperaria me dá a possibilidade de um emprego.
É um fenómeno.

O olfacto da visão

Há qualquer coisa que me seduz em páginas velhas. Estou a falar de um tipo de papel, que hoje não se usa, a fazer lembrar mais a passagem do tempo do que a branquidão dos espaços nebulosos. Tem um cheiro particular, ao contrário da matéria-prima actual, onde as letras parecem mais inscritas do que impressas. A própria leitura possui um gosto místico, como se absorver fosse uma palavra mais apropriada do que ler quando pegamos em tais tomos.
E o melhor é que não perdem o cheiro; nem sequer o prazer do toque. É pequeno, mas se fosse grande, se calhar não era tão meu.

quinta-feira, junho 07, 2012

Grass roots movement


Já por várias vezes esparralhei nesta parede opiniões acerca da obsessão salazarista que nos percorre, como nação e população. A cada medida política que nos desagrada, brandimos memórias desses tempos e apodamos figuras e situações como perfeitamente naturais num período de Estado Novo permanente onde o 25 de Abril foi apenas um soluço. Penso que, de facto, uma passagem de 50 anos não será suficiente para acalmar este medo, ou arma demagógica, conforme o seu foco de contágio. Penso que o Estado Novo ainda se mantém ainda hoje, não o nego, mas de maneiras muito mais subtis, seja no aparelho económico, ou numa atitude esclerosada de maioria moral que nos afecta mais do que pensamos.
No entanto, ao desenrolar-se um dos mais graves incidentes do Portugal democrático, parece impossível não regressar a esses tempos, como inspiração. A história básica e oficial do "caso Relvas" é já conhecida de todos, e vários opinadores com uma superior capacidade de análise que eu não tenho foram divulgando o seu ponto de vista sobre o assunto, muitas vezes até ao ponto de exaustão. Tenho acompanhado a carreira de Miguel Relvas ao de leve, desde os tempos do Barrosismo, e sempre tive a ideia, penso que correcta, de ser um sabujo sem espinha, que sobrevive no mundo político. Graças à sua amizade de muitos anos com o actual Primeiro-Ministro, ocupa agora um dos cargos principais do aparelho de Estado, e de semana em semana, diz asneiras e contradiz-se. É isto, afinal, o ganha-pão de muitos políticos. Faz parte do seu métier. É por isso que cada vez mais os políticos são não o farol dos nossos problemas, mas sim o palhaço que nos entretém e distrai.

Por isso, o que me preocupa em todo este caso, e a sua verdadeira gravidade, não está no facto de poder ter existido uma promiscuidade e conluio entre indivíduos para favorecimento mútuo. É grave, sim; mas não é novidade; e ao contrário de países como Espanha ou Islândia, ou mesmo Itália, o lusitano povo vem apenas para a rua juntar-se e berrar um pouco. A situação não mudará assim. Onde a canalhice de tudo isto assume proporções épicas é na utilização de um sistema de serviços secretos como perdigueiro pessoal. Novamente, não é caso único numa democracia. No cliché mais democrático do mundo, os EUA, J. Edgar Hoover fez isto durante quase 40 anos; a isto mesmo se dedicaram algumas outras democracias ocidentais no período de Guerra Fria. à medida que a desclassificação de documentos secretos é uma realidade, descobrem-se podres que certamente fariam envergonhar gente moralmente elevada; mas a Guerra Fria é uma espécie de área cinzenta no Ocidente, e varre-se para debaixo do tapete. No entanto, ao explodir em pleno século XXI, num mundo aparentememte pacificado, este escândalo rebenta, e as suas implicações vão muito para além de quem jantou com quem, e quem foi investigado.

Em primeiro, até que ponto são permeáveis os nossos serviços de segurança? Se um simples telefonema de um antigo espião é o que basta para serem accionados mecanismos que deviam servir, puramente, a segurança nacional, como podemos confiar nesta salvaguarda tão importante quando a maior parte dos combates de hoje são contra forças clandestinas organizadas? Em segundo, que tipo de influência junto da nossa segurança podem ter indivíduos que não lhe pertenceram? Levam informações quando se instalam nos seus novos e lucrativos empregos? Usam-na para obter vantagens nos seus negócios? Sendo assim, teremos nós, portugueses, privacidade real? Em terceiro, espanta-me a facilidade com quem um membro do Governo, assim de repente, obtém informações sensíveis com o objectivo de condicionar um dos pilares de uma democracia, por muito doente que esteja nos dias de hoje; e também me espanta a cara de pau desse mesmo indivíduo, que contorce uma narrativa para se adaptar a novos acontecimentos descobertos, e lhe é permitido que continue a exercer um cargo que lhe dá poder de decisão sobre algumas das questões que mais dividem o país, como seja a extinção de freguesias. Os limites de confiança que nós temos nos aparelhos governativos forma esticados ao ponto da não existência, e ainda assim, essa linha que já não existe retesa-se, invisível

John Locke é um filósofo político que aprecio bastante. Sei que não está na moda ler filosofia política. É muito mais giro retirar as nossas posições políticas de comediantes e comentadores de sound-bites; no entanto, por muito que eu adore Jon Stewart, Stephen Colbert e, no caso nacional, Ricardo de Araújo Pereira, sei que os fundamentos daquilo que é a teoria do poder de estado vem de obras que radicam em ideias do século XVIII, como as elaboradas por Locke. Nos seus dois Treatises of Government, Locke expõe basicamente tudo aquilo que é contemporâneo, numa altura em que ainda chamaríamos de moderno. A constituição portuguesa é um índice daquilo que o filósofo inglês escreve, e que homens como Silva Carvalho e Miguel Relvas deviam temer. O princípio mais básico é, claro, o do contrato social, que muito sumariamente explica que a única razão pela qual um Governo tem poder se deve ao contrato estabelecido com as massas de que este só estará bem entregue nas mãos de homens capazes, que governam em função da felicidade e bem-estar dos demais. Defendendo que todos temos direito a Vida, Saúde, Liberdade e Posses, Locke seria um crítico deste estado de coisas se por acaso não tem nascido há 200 e tal anos; e no seu Segundo Tratado, deixa ainda claro, com uma lógica implacável, que quando o poder em questão não cumpre o contrato social, a população tem o direito de pegar em armas e deitá-lo abaixo. Também isso existe na constituição portuguesa.

Com tudo isto, ainda bem que Locke não tem telemóvel ou telefone; seria muito chato chamar um cadáver a depôr numa comissão parlamentar.

sexta-feira, junho 01, 2012

Grass roots movement: prólogo


Um dos maiores escândalos do Portugal democrático tem-se desenrolado em frente aos nossos olhos, e a única coisa que os Media nacionais têm feito é montar um circo, a ver quem se arroga em maior palhaço. Amanhã, dsenvolvimentos.