sexta-feira, abril 25, 2014

Espiritismo de Abril



Comento-o em conversas e posso escrevê-lo aqui: considero que dos três feriados civis comemorativos de eventos importantes da nossa História, o 25 de Abril é o menos significativo. Não quero dizer com isto que não o ache importante, ou que aquilo que representa seja menor, e seria de facto estúpido se, como alguns, tratasse os eventos desse dia há 40 anos como um solavanco no nosso percurso como país, ou quisesse retirar-lhe o poder radical através de branqueamentos ridículos que têm acontecido de há uns 15 anos para cá (quando quiseram alterar a "Revolução" para "Evolução", por exemplo). Simplesmente, quando tudo é analisado, a Revolução não causou uma fractura tão grande quanto o 5 de Outubro (que alterou basicamente toda a mentalidade e disposição política portuguesas... ou pelo menos, tentou) ou a Restauração da Independência (sem a qual não tínhamos sequer país... quanto mais chaimites a passear nas ruas de Lisboa). A (re)conquista dos direitos fundamentais foi uma vitória retumbante e, a esta distância, tão óbvia, lógica e necessária que parece fácil desvalorizar. No entanto, as estruturas principais que controlavam o país, fossem económicas, sociais e mesmo políticas, mantêm-se: o poder está nas mãos dos mesmos; a riqueza, após um período revolucionário que parecia poder mudar isso, mantém-se com quem sempre esteve; e as instituições importantes na altura são ainda hoje os pilares da sociedade. É fácil cerrar o punho e erguer no ar um brado pelas conquistas de Abril, mas isso transforma-se na amnésia de que se baralhou para voltar dar .

Nunca foi tão imediato ser cínico em relação a Abril como nestes 40 anos, com o país a ser alvo de várias ditaduras reais e a constante histeria popular e política em relação à perda do chamado "espírito de Abril" (esperam-se médiuns para invocá-lo) a transformar-se por fim na versão lusa da história russa "Pedro e o Lobo": durante tantos anos se clamou contra o regresso do fascismo e da opressão sem que tal fosse um facto real, e agora, numa situação onde estamos a ser espezinhados de uma maneira evidente, todas as invocações dos mártires do Largo do Carmo são desvalorizados como os medos infundados de sempre. Começo a pensar que o principal problema de Abril foi ter sido bem sucedido contra todas as probabilidades: sem um banho de sangue, com um plano feito em cima do joelho e toda a utopia humana na ponta de um cravo. Criou-se uma sensação de que todos os sonhos se podiam cumprir se viéssemos apenas para a rua. No entanto, uma democracia é mais do que pôr os pés na rua, e o queixume não é arma. Eu sou filho desta Revolução, mesmo que não fosse sequer quando ela o foi, e sinto tristeza por aquelas que a viveram de todo o coração e vêem a esperança dos sonhos a cobrir o chão do Tempo em forma de poeira. A esperança é algo de muito perigoso, principalmente para quem espera, e depois se torna desesperado. Todas as revoluções têm os seus mortos, e o primeiro é sempre o Futuro. Sem nunca alcançar as proporções do que se quer, fica-se com o que nos dão, e o que nos dão é sempre pouco. O que é bom nunca nos chega, e está sempre além. É a razão da revolução: provarem-nos que não temos razão nenhuma em reclamar, ou seja, clamar outra vez. Fomos bem sucedidos, mas nunca sabemos bem como.

E repare-se que posso estar aqui a escrever estas palavras, algo que nunca me seria possível há 41 anos. O facto de poder fazer isto é o suficiente para alguns optimistas, ou conformistas encapotados, me darem a palmadinha das costas que diz "Vês como isto mudou?". Claro que mudou? Mas é justo ter para o século XXI as mesmas expectativas de desenvolvimento da década de 70 do século passado? Só para quem é idiota. Assistir à destruição da noção de Estado e de Bem Público é a maior derrota do 25 de Abril. Argumentos e esgrimas económicas que querem provar que um Estado bom é um Estado morto ignoram o óbvio e parecem dar férias à inteligência básica: o mundo não tem as mesmas regras, e um país que abdica de si mesmo mostra a mesma subserviência lamacenta do mundo salazarista. Hoje é o dia de se celebrar as conquistas de Abril, mas devia ser também a rampa do nosso ariete de descontentamento e lembrar, ao contrário do que alguns apregoam, que esta revolução tem uma cor política e os objectivos da mesma estão inscritos no documento constitucional, e alterá-los é negar essa revolução, por muito que a retórica bafienta de quem passa pelos sucessivos Governos queira servir de canto de sereia. Quanto mais leio, quanto mais vejo do mundo, mais uma certeza tenho: as revoluções são pouco revolucionárias. Podem ser invertidas com palavras e letras, e acima de tudo homens. Se são precisas centenas de homens para construir uma revolução, bastam dez para destruí-la; e esses dez de hoje reúnem semanalmente em conselho de Ministros e seguem um trabalho metódico traçado há anos, paciente e vitorioso, pelos derrotados que neste 25 de Abril sentam na poltrona e observam os sorrisos na rua, sabendo que é apenas um intervalo.

Os 40 anos do 25 de Abril não merecem este texto. Merecem esperança, merecem alegria, merecem um optimismo em relação ao futuro que não consigo ter. Merecem Sophia de Mello Breyner, mas quando a realidade assenta, merecem Zeca Afonso, José Mário Branco e Sérgio Godinho. Nós merecemos um país melhor, por muitos pecados que cometamos. Merecemos um país onde Abril não seja um ideal, mas sim um mês como todos os outros; onde a Liberdade não é uma conquista, mas algo tão lógico quanto viver; onde eu não seja julgado pelos arguidos; onde não se tenha medo de querer a felicidade; onde não se sobreviva apenas porque parece mal querer viver ou sequer desejar mais do que se tem; onde nos dizem que não há dinheiro para levantar o país, mas existem auto-estradas a triplicar, poços sem fundo de dinheiros públicos e instituições privadas que o Estado preza mais do que o Bem Público. 40 ladrões não merecem estes 40 anos, nem sequer celebrá-los, nem apropriar-se deles como se fossem seus e mais ninguém tivesse o direito de sorrir para Abril sem que isso parecesse uma ofensa. Ninguém pode ter as chaves de uma casa da Liberdade, senão esta perde o seu sentido.

O problema talvez seja esse. Há quem se julgue acima do país, acima de nós e pense que Abril lhes deu isso. Abril não deu nada: aconteceu e ramificou-se. Abril não é um instrumento, é um imaginário e uma mitologia; e como todos os imaginários e mitologias, estão a remetê-lo para o canto das ficções. Se continuarmos à espera de coronéis, continuará lá. Salgueiro Maia não é o D. Sebastião do século XX, por muito que estejamos à espera dos chaimites em casa.

sexta-feira, abril 18, 2014

Perdido


Todos nascemos com prazo de validade, mas apenas uns escolhidos pelo acaso se vêem atracados a um tempo limite. Não há sentido ou causa: apenas acontece. Está-se muito bem a planear o resto da nossa vida no seu primeiro dia, e de súbito recebe-se a notícia de que afinal os planos foram adiados sine die, na sina dos dias que se anunciam também como finitos. Não se consegue arranjar explicação, ou sequer desígnio para o que acontece, e a conclusão desoladora de não ser algo que exista: apenas é, e como é, não pode sequer corporizar-se ou ser de facto. Apenas estar, e estar é o fantasma do que deve ser mas nunca se cumpre. Não se cumprindo, é promessa traída, e quebrando-se a promessa atraiçoa-se a morte.

Eu estou há mais de um ano a preparar-me para isto, mas concluo que não consigo, nem sei se quero. Paga-se por se querer viver e fazer da nossa presença a ausência de solidão, mas é sabido que se ignora o que é mais óbvio: vendi a minha sanidade e a emoção torna-se moeda corrente da falência arterial. Não consigo afastar-me, não consigo dizer que não e mesmo fechando-me, sinto que passeio com uma sombra num mundo sem luz, e essa sombra é, afinal, o que viverei sem que tal aconteça. Não sei bem como explicar esta dor manca que não se suporta já em livros, ou jogos no telemóvel, ou mesmo em piadas idiotas. Nasceu coxa e não se endireitou. Instala-se em nós de poltrona e enquadra os nossos dias em tela fosca. Nada parece valer a pena, excepto penar até ao fim do caminho. Nem isto que escrevo me parece ser útil, mas esta interposta pessoa que "luminaria" há tantos anos o canto que visitam sempre foi a minha voz em alturas de solidão, depressão ou a fuga do que me consome. Não há lições aqui, não há sequer beleza na queda: há a sensação de não haver, ponto.

Desconheço o que está no limite do tempo. Desconheço o próprio tempo, e apenas sei que foge e escapa e que como a dor faz de mim coxo, jogar à apanhada com ele é apenas passar o tempo a atrasar-me. Não te consigo adiar a infinita tristeza do inevitável, nem fugir ao presente que ela habita de cada vez que tento reconhecer na minha memória o que o Tempo e o Acaso fizeram de ti. Se tenho poder, é o de te ver como quero e não como estás. Fecho os olhos, tudo recordo e retorno eternamente ao que eras, onde tinhas um prazo de validade sem expiração impressa. Aí, tu és tu mesmo e não uma sombra. Desenhado com linhas cruas e fortes. Se dos olhos fechados brotam lágrimas, não sei, estou além. Quando voltar, logo decido qual a história que contarei a mim mesmo. Terei tempo para isso.

quinta-feira, abril 10, 2014

Viagens


A sensação mais agradável que existe em viajar é a de não sermos nós próprios durante uns dias. Não é que escapemos à nossa natureza própria, ao que nos empilha solidamente e é reforçado por cada rotineira acção e movimento que constrói aquilo que conhecemos como o nosso quotidiano. Apenas, como se fosse um poliedro cristalino, varia o ângulo e a refracção da luz e aparece assim, como se nunca lá tivesse estado, uma outra pessoa que vagamente reconhecemos mas sem certezas que alguma vez a tenhamos encontrado. É por isso que viajar é diferente de ir dar um giro, uma volta, de passear, de ver as vistas, espairecer a cabeça ou ir ali e já voltar. Tudo isto se faz até na nossa rua. Viajar é alguma de muito mais profundo e importante, porque retira-nos do ovo e espalha a casca por todo o lado. Em vez de supormos aquilo que pode haver, vamos de facto ao encontro daquilo que é; e a certeza é a de que nunca voltaremos iguais ao que partimos, como se os quilómetros fossem um cinzel que por nós passa e altera feições e formas, sem nunca nos deformar. As viagens mudaram o mundo, mas viajar raramente é mundano, e quando se o for, então é porque nunca se viajou de todo.

Possuo uma lista do tamanho do meu fémur com os países que gostava de visitar sem alguma vez ter tido a coragem, acima de tudo, de fazê-lo. Vai desde a Nova Zelândia até à Argentina, e pelo meio cabem habitats tão variados como a Escócia, o Chile, o Canada (com o apêndice Alasca), a Noruega e um lado simplesmente masoquista da minha parte adorava espreitar por detrás da cortina que nos mostra o Irão em tons foscos. Estende-se a lista, ficam os meus pés. Um mapa é um campo de sonhos, e a cada colheita novas raízes caem no chão para originar novas searas. Uma pescadinha de rabo da boca sai ao prato de cada vez que se cumpre uma tarefa de viajante: já se está a pensar na outra. Acredito que seja isto que sentem os verdadeiros viajantes que sabem de cor as companhias aéreas mais vantajosas, os spots de dormida onde há menos percevejos e cuja desenvoltura pessoal permite passear sem grande medo num mercado de armas em Cabul. Invejo-os, a todos, e apetece-me bater-lhes e louvá-los em doses muito semelhantes. O conhecimento que se traz de uma viagem reduz os dos livros a uma obsolescência ridícula, e de cada vez que converso com alguém que encheu a mochila de nada e a trouxe com valores maiores do que o NASDAQ só por ter conhecido a desconstrução da dúvida, sinto-me um berlinde. Um viajante guarda para si a vantagem do mundo, e eu só possuo o handicap do sedentarismo.

Tenho a minha dose de viagens, principalmente sozinhas, principalmente em torno do meu rectângulo que me serve de país. Guardo muito delas, mas o que não guardei, porque se tornava estéril, foi o quanto cresci com elas, o quanto descobri em mim e de forma egoísta, pouco procurei no mundo por estar demasiado concentrado em mim mesmo. No Renascimento, acreditava-se que o Homem era a medida de todas as coisas, mas o meu mundo é demasiado pequeno para engolir aquele maior onde há demasiado para ver e descobrir. No entanto, e no meio de todo o novelo de pensamentos, a galeria dos meus passos encontrados exibe em exposição quadros com o estranho efeito de cristal que falei ao início: vejo os Penedos de Góis, vejo a Fonte Fria, vejo o Cântaro Magro, a Costa Vicentina, a familiaridade da serra da Lousã, os monstros benévolos que habitam no final e aquele dia onde estive acima de tudo o que conhecia e viajei acima do que se conhece, até um ponto onde deixam de existir lugares e o destino é o local onde tudo se desaparece para ser, de facto, um todo. Mas reservo para mim esse sorriso, como quase todas as viagens que tenho a solo. Agora, numa outra sala, tenho o Castelo dos Mouros, as Portas de Montemuro, o Portinho da Arrábida, o Cabo da Roca e um pedacinho de terra que é meu património. Sei que também lhe vou juntar aquela lista do tamanho do meu fémur, mas as pernas serão nossas, não minhas. O sorriso, esse, para ti. Como sempre, aliás.

sábado, abril 05, 2014

A(mo)r



Um corpo de algodão mirra com a chuva, mas o teu cresce e esmaga-me. Não fico surpreendido, pois só tu conseguirias, ao mesmo tempo, saltar à corda com as leis da Física e jogar à macaca com a tabela periódica. Já encostaste a cabeça ao meu ombro, mas não deixou marca, o que ainda te entristece. Os três passos que ofereceste ao chão à nossa esquerda serviram para ganhares novo balanço. Estamos aqui há alguns minutos só para descobrires se é verdade o que leste, ontem, acerca da densidade do ar. O ar é denso. Riste e entregaste a essa afirmação o mesmo desprezo que se oferece a um bolo que não nos sacia a fome. Como pode o ar ser denso se quase te consegues vestir com ele? E é quando ficas mais bonita, respondo, quando mais nada para além do fino tecido do éter te cobre, te modela e me separa de ti sem que estejamos separados. Um pequeno sorriso corta a chuva, a leve risada que te provoquei é breve, mas embora esteja ensopado é quase como se tivesse ganho três quilos de tecido impermeável e pudesse agora receber o dilúvio bíblico na esperança de ser eu próprio uma arca. Talvez concordasses. Numa noite, pelo menos, admitiste que havia um animal dentro de mim.

Onde leste isso? Não me respondes, pois a tua pergunta foi bem mais longe do que o ar, e já  saltaste para as estrelas. Sem poderes vê-las, acreditas que lá estão, mas é tudo uma questão de fé, pois as estrelas, como se diz tantas vezes, podem não estar lá de facto, e nesse caso, se um nevoeiro aparecesse do chão, como se as ervas fumassem cigarrilhas de anti-matéria, e nos separasse e eu não te pudesse ver, será que estarias e eu também embora não nos pudéssemos ver. Talvez estivéssemos. Estar não é ver, e mesmo que não te ver seja estar uma coisa, que é triste, és e não estás. És em mim, desencarnada, e existes bastante nos meus dias. Existes quando me levanto de manhã e descubro que saíste para o trabalho. O teu calor ainda treme a cama, e é como se estivesses mesmo que tenhas desaparecido e num outro canto da cidade sejas estrela. 
Não, não sou estrela, sou mais asteróide. Apareço de fogacho, queimo, mas trago comigo uma cauda enorme de rochas e detritos, e se acelero demais e apanho algum planeta desavindo na minha órbita vou fazer mossa. Recordas-te daquele documentário sobre a cratera do Iucatão? É isso que posso deixar. 

O ar frio condensa-se em torno da tua boca enquanto te lanças nessa arenga sobre crateras e sobre seres uma arma de destruição maciça. Eu sorrio e no meio da tua insegurança, encontras uma espécie de porto de abrigo onde podes guardar o teu porta-aviões e tirares o dedo do botão vermelho. Esticas os braços e eu sou velcro. A chuva mantém o seu metrónomo e questionas a escolha de sair de casa, naquelas condições, sem qualquer chapéu. Não estamos assim tão longe da porta. Podemos voltar. E voltamos. Enquanto o teu corpo se reencontra em mim, decido decorar o teu pavilhão auditivo com palavras: se fosses um asteróide prestes a colidir com a Terra, o ar denso iria abrandar-te e talvez até desfazer os teus detritos. Eu sou o ar, eu sou o amor que tritura essa causa de devastação que preferes envergar como se fosse a tua farda, e não te lembras que a maior densidade é a dos corpos que atravessam o ar e que são atravessados pelo amor. Não consegues parar de rir. Eu também.
Gostaste? Sim, foi piroso, e tu és pirado. Combinam bem.
Beijamo-nos e regressamos para o interior de casa.

Já agora, ela comprovou que o ar era realmente denso. Uns anos mais tarde, numa viagem ao Planetário. Fico feliz por informar que o mesmo ficou de pé e que a cauda de detritos foi enterrada umas semanas antes quando ela deixou de ser ela e passou a ser nós a sério. Desde então que somos uma constelação, e quem olha para nós vê sempre uma figura. Ou duas, a fazer figurinhas à chuva.

terça-feira, abril 01, 2014

Carris


Alinham-se os carris a Norte, sem descarrilar, e bilhetes picados no apeadeiro de Santa Clara: muita a terra a percorrer até Carrazeda de Ansiães. O Expresso da meia-noite, e para lá disso, conduziu quatro por uma linha até às sete quintas junto ao Douro, de manhãzinha. Era a hora marcada, o ponto combinado. estação terminal de um traço contínuo que a ser transposto e a cuja única multa era a satisfação. Sem sono e directamente ao despertar, calcámos assim terras e carris do Tua, que é a nossa. Nossa porque desejámos, pensámos e em andas de curiosidade andámos de Brunheda até Fiolhal, inter-estações, interstícios, interessados: na luz da manhã, o marulhar do rio e da corrente fazia tambores das pedras seixos, como se o murmúrio da terra quente, ali ao frio do arrepio, ondulasse as curvas da derme até tremer a alma. Por isso vieramos, 300 quilómetros, 300 do raio que t'Esparta: fazer o caminho, prestar homenagem ao labor da Natureza que o betão vai aterrorizar e sumir e devorar sem digestivo. O Mundo dá, o Homem vende por um quinhão os tesouros ali tão perto do Pinhão: fraude a debalde, aldrabice pegada no desapego ao que temos de mais verdadeiro.

É com estas linhas que se cose o destino de quem decide aventurar-se pelo ventre de Trás-os-Montes. O tempo parou e nos vértices e segmentos de recta que arquitectam os montes é perene a emoção da viagem no tempo sem necessidade de qualquer máquina: basta sair do nosso epicentro e de pés bem assentes na pedra descobrir o que os socalcos recalcam e os ecos do socorro ígneo ressoam no chão, nas traves, nas ruínas. Mas nada posso salvar, não está nas minhas mãos e alguma desolação sustenta-me os músculos enquanto estou presente a caminhar num passado que não tem futuro. Apenas nos meus olhos, onde existem carris que embalam para a minha estação da Memória, existe eternidade até a centelha fundir, e memoriar é a única maneira de tornar infinito este património mais do que o mundo: o esforço de homens a trote num cavalo de fogo; a marcha irresistível do planeta que abre vales e esculpe matéria por acaso e acidente; o sopro do Tempo que por tudo passa e nada deixa sem roubar um pedaço, uma oportunidade, uma hipótese. No pouco tempo que usufruí, vi dentro de mim vivências que me sorveram aqui um decénio antes e como que guardei tudo num vaso o que cruza entre o passado e o presente. Afinal, é isso esta Linha, e o evento maior é o de segurar o Tempo, colocá-lo num caderno e fingir que se aprendeu a pôr-lhe travão. Mesmo que, chegados ao Fiolhal, aquele monte de cimento horrendo acelere sobre as recordações a uma velocidade vertiginosa.

sábado, março 15, 2014

O medo


Nunca consegui perceber se os Medos tinham medo. Duvido, e até de duvidar tenho medo porque não estava lá. Na Ásia Central daquele tempo, o caos e a confusão eram mais corajosos do que o medo dos Medos, mas ainda assim estes conseguiram ser de todos os mais organizados, e entre esses todos estavam os Assírios e os Persas, que durante vários séculos tiveram medo dos Medos e por isso lhes pagaram couro e cabelo, não sei se saídos por causa de tanto tremelique. Não sei se o medo veio dos Medos. Nem sei se aprendemos os medos, ou o corpo é que se organiza, tal como os Medos, para sentir o calafrio como única maneira de se manter em contacto com a sua própria fragilidade. O medo relembra-nos que somos frágeis, caso contrário não tínhamos medo. Por isso, talvez esteja a meio caminho entre o natural e o aprendido: a vida ensina-nos a dor, e nós temos um encontro imediato com o temor e o outro primo do medo, o comodismo. Se não nos mexermos, não temos medo; mas o problema é que se os Medos não se mexessem, não nos tínhamos. O medo é ao mesmo tempo bloqueio, e auto-estrada sem portagens. É caminho, mas também atalho para a desculpa.

Tenho medo da morte e da solidão, sozinhos e de mão dada. Medo da morte, porque não a entendo; medo da solidão, porque dela sou catedrático. Estar só é algo que percorre a minha vida, portanto sei o que é existir assustado. Não sei se já nasci assim, ou se também aprendi o medo pela dor de ficar e de fugir. Qualquer uma delas magoa, e em ambas há o medo de ficar só connosco ou no meio de muita gente. Algumas solidões são mortes, e é dessas que tenho medo, e são essas que me tremem e causam terramotos. Colocam-se os pés no chão e só se sente pavor de que este se abra e nos engula, e o buraco tantas vezes é a boca de alguém que nos traga seja a expelir palavras, ou a inspirar-nos num beijo que tem o simultâneo encanto da coragem nos cabelos, e do medo nas rótulas. Tremelica-se e abana-se porque um beijo pode ser um sismo onde a saliva forma tsunamis quando movida pela língua, em ondas que nos levantam o ser e nos destroem a razão, e deixam, quando tudo acaba e cada um recolhe às suas fendas, um rasto de medo de que o desastre seja natural. Mesmo quando não o é, aguardamo-lo, e o beijo, que é coragem, amedronta porque nos abrimos a um mundo desconhecido, supra normal. Por isso os fantasmas são medos, e nas dunas de um deserto que a garganta cria quando acaba o beijo, eles vagueiam e lamentam que o medo sopre o vento nas areias que se colam ao céu da boca e relembrem os mesmos desertos que os Medos atravessaram quando venceram o medo.

Perdem-se uns Medos e ganham-se outros. É a lei da vida, é a lei do mundo e quantos mais Medos desaparecem, mais o mundo parece preencher-se de outros povos, de outras coisas, de outros mundos. Quando o meu medo desapareceu, deixei que me preenchesses. Tenho medo disso, mas prefiro tremer no teu colo a estar seguro num buraco.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Divenire


Fiz meu o sonho de um amigo, o Cruz, e na verdade fui egoísta, porque também era amigo do sonho. A ideia era subir um rochedo, por nenhum outro motivo que ver acender o interruptor que se esconde debaixo do horizonte, lançando o beijo com que o Sol se volta a apaixonar pela Terra, reeditando um namoro eterno que se repete e nos apaixona também nesse tango que luz e sombra dançam. Onde muitos vêem direcções, eu prefiro ver sentidos, e o Cântaro Magro era o que me fazia sentido. Sentar-me no seu topo, como quem domina uma besta indomável; dormir no seu dorso debaixo de um cobertor de breu e estrelas, com a música das esferas em repeat e aguardar por esse momento que nos relembra porque é que acordar e ressuscitar são primos direitos, embora em graus diferentes. O sonho do amigo não era esse, mas o meu sim, e por isso digo que é egoísta esta intenção de tomar para mim as intenções de outros. Quando todos somos humanos, há sempre um chão comum, e todos pisamos esse chão do maravilhamento, de abrir a boca ao espectáculo do mundo.

Outros sonharam também, e todos partimos. Gordo era o sonho, mas o Cântaro que o guardava num cofre dizia-se Magro, o que me parece apropriado, visto que subi-lo é um bom programa de dieta. Mas chamava-nos um engodo curvilíneo e rochoso, nas bordas do Cântaro. Os primeiros homens construíram monumentos para honrar os deuses, e todos esses deuses eram preenchidos pelos elementos que os rodeavam: as montanhas, os astros, as paisagens que esmagam e abismam, e nos colocam a soberba no nosso devido lugar. Esta ideia de ser menos do que somos surgiu do bom senso: se este bisonte em forma de calhau é tão maior do que eu, como posso questioná-lo? E subir montanhas tornou-se na prova definitiva de que estávamos prontos para ser mais do que menos. Uma lenda diz que o verdadeiro espírito do Renascimento começou quando o italiano Petrarca alcançou o cume do Mont Ventoux só para saber o que estava do outro lado. Como se conquistar aquele macio rochoso e ermo marcasse a emancipação do Homem. As nossas intenções era bem mais prosaicas, mas revestidas daquele lirismo que enche quem se enamora das altitudes; e todos os que ali estávamos tínhamos uma relação platónica com o desafio de trepar e de subir. Podem dizer que os motivos são caches, mas é mentira, é sempre mentira. Sobem-se montes e penedos para regressarmos ao que já fomos, e mesmo que digam que o que foi não volta a ser, sabe-se bem que se pode ser, sempre.


Alcançado o topo, eis o esplendor no granito; e ao longe, o horizonte queimava em chamas que se desvanecem no turno da Noite. Outra coisa não há a fazer senão sentar e a única dúvida é se abrimos os olhos para tudo engolir, ou os fechamos para tudo absorver. Qualquer uma das opções é gourmet, mas nenhuma delas substitui duas latas de atum: a cabeça adora o Ideal, mas o estômago é bem mais amigo das proteínas do que dessas côdeas etéreas. Distraímos o vento cortante debaixo de um rebordo de calhau, entre cartas e paleio, e quando a hora do lobo chegou, cada um recolheu à sua toca e puxou o fecho éclair. A autoestrada celeste estava congestionada, mas entre tantos veículos parados, alguns aceleras cadentes brindavam quem contemplava com ultrapassagens à velocidade da luz, a mesma que marcava o compasso do meu coração. Tantas vezes sinto que o meu corpo é incapaz de conter a beleza do mundo, e nessa noite, enquanto puxava o sono com uma guita, era isso que berrava em mim. Olhos bem abertos, deixando entrar tudo, com Ludovico Einaudi nos ouvidos, num lapso de tempo onde se vê passar o infinito em segundos. As estrelas são tantas que parecem poeira, e a poeira que se desvanece devia sumir, mas não: fica em cada um de nós, nas frinchas das memórias, e só pode ser sacudida por um fenómeno tão poderoso quanto o Universo, o Tempo. No entanto, naquela noite, porque o Sonho era maior, tínhamos quase a certeza de vencer o Tempo.


Quando regressámos do outro lado do sono, as cinco e meia marcavam o compasso de espera. O Cruz abeirava-se do Cântaro como um esfaimado se acerca de uma mesa de banquete, e ao longe, os tons cada vez mais alaranjados do horizonte anunciavam o que pressentíamos: era o momento de começar o romance. Demora o seu tempo, mas vê-se um globo de luz a flutuar atrás daquela linha, como se tivesse sido largado de uma qualquer mão invisível. Vai subindo, e os recortes das montanhas gradualmente nítidos. Destapa-se um lençol, e muda-se a cama de rocha, onde as pregas e as engelhas são os montes e montanhas e cântaros e fragões. O frio que nos esboça a face em traços cortantes é apagado e nasce, num desenho aconchegado, o calor do entusiasmo que provoca o confronto com essa fonte de vida que renova a sua visita e o seu amor pela parceira onde temos os pés: um planeta que nos esmaga e no entanto torna a nossa existência leve, com mais sentido do que direcções. Ali, em pé, no topo do Cântaro, olhei o Sol e não tive medo da vida, naqueles minutos. Não senti que havia um depois, apenas que existia um agora, e que vivê-lo era a única coisa que interessava. Caches e eventos para segundo plano, agora existíamos eu e o Sol. Guardei várias fotos na máquina, e na minha cabeça um retrato impresso a fogo: eu, a Montanha e aquele que nos abençoou; e quando meti a mochila às costas e abandonei o topo, senti-me mais alto do que uma Lua em Quarto Crescente.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

2


Eu já entro no carro com o meu sorriso a sangrar, mas não mostro. A tua tristeza  preenche todos os espaços vazios no interior, e por isso, enquanto conduzo, é meu dever não te mostrar que estou como tu, desejoso de inverter a marcha, mas sabendo que o caminho é não dar voltas ao tempo. Passou em linha e chegou ali. Sabíamos que chegaria, e dois dias passam depressa, embora saibamos transformar minutos em meses através da alquimia dos abraços. Tem sido assim, quando nos encontramos, e a realidade da distância não esbate a ilusão de termos conhecido alguém que faz valer cinco dias de espera, e que os torna banais sem nunca nos banalizar.

Sou do contra, e quero que todos os dias sejam segunda., Quero que todos os dias comecem no sítio onde este acaba, e quero receber-te e recolher o meu prémio de segunda de manhã, e que segunda e terça sejam como a primeira. Quero que continues a esconder palavras no meu ouvido, e que me recolhas à procedência do teu coração balancé e que empurres até que eu perca a noção do salto de fé. Quando só temos dois dias, é um salto em comprimento contínuo. Mete-se um ponto final parágrafo que parecem dois pontos, e as interrogações culminam numa exclamação. A exclamação de ser do contra, e de ver a semana reduzida a ti.

Nos outros dias, volto a regular e a ser eu. Deixo de ser quem vês na segunda e na terça, e respondo à pergunta se alguém pode ser quem não é: não, não pode. Embora ande a brincar a ser Bruno durante 5 dias por semana, parece que só consigo sê-lo em dois dias, nas segundas e nas terças em que és a primeira, e me metes a quinta a fundo numa quarta no masculino. Sou eu, porque nos outros dias não sei sê-lo, e é estranho porque me sinto sempre eu. Apenas não quero existir como tal, e em dúvida, não sei nem respondo: invento-me outro, até que o comboio te traz e faz descarrilar os disfarces.

Estou atrás da linha amarela, enquanto saltamos à corda com as nossas línguas. Entras na carruagem 4 e a tua mão faz qualquer coisa que parece um aceno, mas que interpreto como "Estás na palma da minha mão". E estou. É a pura verdade, e tu também estás na minha. A diferença é que tu tens um berlinde na tua, e eu um mundo inteiro em expansão dentro de mim.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

20 acções que te desenham



Sentar numa cadeira de sete pernas que nunca encontrara. Ler "A Ilíada" em grego e sorrir a cada linha, mesmo que nunca se tenha aprendido grego na vida. Fazer um mapa do meu corpo, e mesmo assim perder-me em atalhos no teu. Pensar no amanhã, mas preferir viver hoje quando estás a pensar no anteontem. Ser atropelado e sofrer três fracturas expostas, todas elas nos ventrículos. Levantar a relva, e plantar os pés firmes com raízes no teu cabelo. Semear ventos e colher a tua tempestade. Não arriscar, mas andar em cima de uma corda bamba no teu umbigo. Saltar à corda, tropeçar no chão e estatelar-me em ti cheio de arranhões de delícia. Não raciocinar e afundar-me guloso, em vez disso. Enlamear-me de ti, e escolher estar sujo. Escutar-te e pensar que é Einaudi. Folhear dicionários e sentir-me com a primeira classe. Passear no campo, sentir a relva nas mãos, mas saber que és uma planície com Everestes. Degustar, mas num tasco. Jogar como o Aimar,  a abrir o livro, perfume divino a cada toque no esférico, magia a cada movimento, 3000 suspiros em cada remate, oferecer golos desprendidos,  numa relação embeiçada com o que se conduz. Mirar-te como se leiloa um Miró às escondidas. Atribuir um Óscar de melhor guarda-roupa por seres quem melhor ma guarda. Valer tudo, mas proibir-te um prazo de validade. Debitar palavras, e ter um crédito infinito de acções. Rebentar num beijo e apanhar os cacos num abraço que nos reúne.

Acabei o esboço, e engelhei o nariz: é a ponta do icebergue. Volto a guardar e espero-te, como quem não sabe cruzar as pernas quando a impaciência é um parente afastado do regozijo. Na árvore genealógica onde fazemos a nossa casa, a distância é a nossa madrasta malvada.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Um pequenino suspiro


Fico surpreendido na mudança quase nula que houve em mim agora que consegui encontrar finalmente alguém que me atura. Sempre me disseram que este seria o momento em que iria amolecer e alterar, e no entanto a pessoa que partilha comigo momentos que entre dois encaixotamos concordaria que continuo a ter o mesmo grau de acidez e desagradabilidade que me torna no maior sucesso em festas, eventos sociais e oportunidades de partilhar ideias com o público. Mais incrível ainda é que ela não se interessa, não se importa. Quando me vê e quando me ouve, ama mais do que teme, e isso faz-me surgir um temor de amor e de humor com primor, que é a única explicação para aquele alinhamento marcial de quase 30 dentes alinhados que lhe batem continência pela simples razão de que ela se materializa muda à minha frente. Nunca pensei que os meus braços pudessem ser ouro, mas tendo ela o toque de Midas nos lábios não me parece complicado. A gente troca palavras, e gasta palavras com a ideia de que não temos preço um para o outro. Falamos como milionários, beijamos como magnatas, olhamo-nos como quem é pobre de palavras e encontra um método de troca alternativa, em offshores acima de nós, nos nossos sonhos.

Uma coisa ela não alterou: continuo um analfabeto romântico, cujas palavras são como beijos peganhentos e mal dados quando toca a descrever o que é verdadeiro, autêntico, real. O teu próprio nome é uma miragem nos meus dedos e na minha boca. Como se, quando te tentasse descrever, corresses o risco de desaparecer só porque sou incompetente. És a nascente das coisas secretas: eu só agora cheguei aqui, um iniciado. Ensina-me. 

terça-feira, janeiro 28, 2014

Os meus ascos: a praxe



Tenho sido demasiado lírico nos meus últimos textos. Os mais recentes convertidos a este blog mostram júbilo e apreço, mas quem me acompanha quase desde o início sabe que este blog se fez com asco, sarcasmo e particular desprezo por quase tudo. Onde há uma opinião polémica a dar, as minhas palavras lá estão a criar inimigos e a aumentar esta aura arrogante que me rodeia quando decido dizer a alguém que a sua estupidez acabou de, mais uma vez, poluir o mundo num rasto viscoso. Nesta fase em que há co-adopções, praxes, congressos do PP, a habitual inércia de Cavaco, o Facebook em barda, Lars von Treier com novo filme nos cinemas, proto-feminismos e neo-machismos e mais algumas boas oportunidades para gerar a controvérsia, as minhas mais sinceras desculpas aos leitores fiéis e antigos que se habituaram a ler aqui o que é desviante e indiferente à dignidade humana. Podia-me desculpar atrás do cancro alheio, mas isso não é desculpa, pelo contrário: quando um familiar nosso carrega em si tal ignomínia, a raiva cresce ao invés de sumir. O sarcasmo é proporcionalmente crespo, e parece que tudo à nossa volta é motivo para cacetada certeira e cerrada. Prometo, desde já, estar mais atento à actualidade que desponta, e à laia de apetite, deixo algumas considerações sobre três temas que têm enchido murais de opiniões semi-idiotas (e algumas profissionalmente idiotas, pois os seus actores mostram-se useiros e vezeiros nesse tom que muito me anima e enfurece em simultâneo). Hoje, navegamos até ao Meco, à Alta de Coimbra, a um costume que funciona no mesmo princípio de existência das touradas: é antigo, tradicional e os visados não se queixam.

Falo, claro, das praxexs. Tenho lido tanta coisa acerca disso que a certa altura comecei a pensar que apenas se falava mal da praxe porque era moda, e não porque tal prática fosse errada. Hoje em dia, quando algo começa a reunir consenso, há sempre vozes que se levantam e existem em defender o contrário apenas porque a moda é algo que lhes comicha. Também é verdade que se lê muita coisa que arrepia na sua histeria, desconhecimento e até subserviência. Quando alguém venera as palavras do Dux Veteranorum de Coimbra (um indivíduo que, lembro, está desde 1988 no Ensino Superior, ainda não acabou o seu curso e todos os anos defende a tradição do seu cargo e a perseguição que o Governo faz a gente do seu calibre), pareceu-me que tinha de se pôr um travão na insanidade. Nunca houve dúvida na minha mente de que a praxe, no geral, é uma lepra social. Quem usa as versões mais soft (das quais fui vítima uma vez, e não são nada que envergonhe o estudante por aí além) ou obras de caridade motivadas por algumas praxantes mais santinhos para legitimar o acto praxante ou se está a esconder daquela que é a realidade generalizada ou então sobre de perturbações mentais capazes de fazer corar muita gente com meio cérebro. Estas brincadeiras no Meco transformaram aquilo que é um atraso mental num acto que de criminoso tem a completa abstracção do que há de valoroso na condição humana. Quem conhece, sabe que a fronteira entre certas praxes e a definição penal de crime salta à corda com a linha do Código da Praxe, uma fina tela que protege os seus perpetradores de acusações que, no mundo real, seriam quase imediatas. Olhando para o caso da minha cidade, a campanha de relações públicas do Conselho da Praxe é incrível e quem se queixa dessa tradição quase passa por careta. "Vejam bem como eles entram no jogo e gostam", querem-nos fazer crer. Quase nos sentimos culpados por estragar o divertimentos a toda esta pandilha de foliões. O pior da praxe, como em quase todo o tipo de festividades e costumes, é que dependem de pessoas; e no geral, rejubilem os meus leitores mais fiéis, as pessoas são horríveis e falíveis. Se puderem abusar, abusam; se só puderem pensar no seu divertimento e prazer, assim o fazem. Praxar não é muito diferente de sair à noite em Coimbra em época universitária: bebe-se até rebentar, e o que se passa a seguir não é culpa nossa. O excesso é justificado, porque acontece e nunca podia ser evitado. É Coimbra, dizem por aqui, mas acredito que seja Lisboa, Porto e outras cidades também.

O que fazemos não existe por si: é um reflexo do que somos, do que somos capazes de aceitar e até dos nossos próprios medos. Por isso, não se apressem a apedrejar Duces e afins como culpados únicos desta história: não conheço um único caso (embora admita que possam existir) de alguém obrigado à força a ser praxado. Quando estudante, recusei-me a ser praxado e nunca mais me chatearam. Conheço casos semelhantes, logo coço a cabeça e concluo que se alguém se vê exposto a comportamentos aberrantes é porque assim o deseja. Seja para enturmar (outra eterna legitimação da praxe: porque como os meus amigos sabem, as minhas amizades começam todas por sentar gente de quatro) ou simplesmente devido ao desejo de poder, no futuro, humilhar a fornada seguinte de caloiros iludidos, os praxados entram no jogo de livre vontade. Há algum medo envolvido: de não ser bem sucedido, de não ser integradi, de simplesmente não sermos adequados ao mundo novo a que chegámos. Não é muito diferente da vida em geral: há apenas uma amplificação natural numa idade de gente impressionável e onde a afirmação pessoal é uma demanda pessoal levada ao extremo. Prepara-se o futuro e o que aí vem: aceita o que te dão e se não aceitares... Já sabes. Quando não se sabe o que é melhor para si mesmo, espera-se que o bom senso dos outros impere. Ingenuidade ou ilusão? Ambas, e aquilo que faz de nós, tanto tempo depois, um pouco órfãos de figuras ditatoriais. Dá a ideia de quem ser alguém para nos dar ordens ou biqueiros, não conseguimos viver. Connosco, parece ser da praxe.

P.S: Por favor, não me venham com "Mas na minha praxe pintámos paredes de casas velhas para velhinhos habitarem", porque para além de mostrarem que a noção de "relações públicas" não consta da vossa vida, ainda estão a dizer que nunca fariam nada de bom se não fossem obrigados a isso. Nenhuma das duas vos fica bem

terça-feira, dezembro 31, 2013

Uma ficção de fixação


Já estive aqui um dia, e parti, e voltei porque a porta estava aberta. É o que basta para que regresse: se a porta estiver aberta, eu entro porque não tenho outro pretexto para me excluir. Quando entro, estás lá, e quando saio não ficas e se ficasses de certeza que me olhavas para a nuca e sabias: ele volta. Não sei porque é que falam tanto de hipnotismo, quando basta abrires a boca e eu até faço de galinhola se preciso for. Dentro deste quarto, sou outro, sou quem obedece a um poder superior, não porque sejas maior do que eu (porque não és), mas porque és mais do que eu (o que se, se me deixasses pensar, poderia até discordar... mas hoje não). Lá fora não sou assim. Lá fora, mando em mim e em quem mais for. Lá fora, não há feitiços que me derrubem. Mas aqui dentro, caio na caldeirão e sou mais um ingrediente da poção mágica. Outras bruxas tiram o quebranto: tu tiras-me do sério, tão facilmente que parece brincadeira.

O jogo começa: eu sou um berlinde, tu disparas-me e acabamos por começar pelo fim das coisas que nunca têm princípio quando começam, e quando acabam no ponto sem retorno, é para regressar ao que não começámos, e vestirmo-nos e sair do quarto. Como não vivemos os dois, habitamos nos intervalos que conseguimos, e sempre sem esperar que se saiba. Conversamos entre nós usando linguagem gestual: as nossas línguas e os nossos gestos são conversa suficiente. Batemos e debatemo-nos entre nós quando te trinco e quando me mordes, mas acima de tudo quando me apertas e és um redemoinho que me despedaça e só me deixas vir à tona por clemência. Navegar pelas tuas coxas é encontrar tesouros, mas também andar à deriva nos dias seguintes procurando o que se encontrou e desapareceu no espaço de três beijos, um afago e a cegueira de um orgasmo gradual que cresce em nós e em vez de envelhecer, rejuvenesce. Na tua carne assinam-se tratados de não agressão, mas rapidamente os quebramos com o mesmo prazer com que entramos neste quarto

Quando te vais embora, é como se nunca tivesses estado. Tudo existe enquanto é, e quando deixa de ser foi como se só  morresses. Eu demoro sempre mais a partir: sou o último a chegar, sou o último a partir, mas o primeiro a ficar não se sabe bem como. Até sei. Mas não to digo, porque cairia deste cais onde partimos para as navegações ondulatórias na superfície da pele. Por isso, quando visto o casaco, tenho também que calçar chinelos como se fosse outro personagem.

Só não deito as sapatilhas ao lixo porque são caras; e porque caminhar sozinho ainda é a única maneira que tenho de te levar comigo de mão dada.

sábado, dezembro 28, 2013

Retrovisor



13 apóstolos se sentaram à mesa quando Jesus morreu, e começou o zero de 2000 e tal anos, que culminariam neste. Assim como 13 esteve presente antes do calvário e paixão, também 2013 foi sinónimo de um percurso pessoal cujo Golgota se vai avistando, e se adia com cada dia em que ouço ressonar de um quarto no canto da casa. Mas disto já me leram todo o ano, e ao tentar hoje dar a mão a alguém que ao longe vive o meu futuro que está sempre próximo mas felizmente se afasta, agarrando nesse alguém, em pensamentos, antes que as pernas lhe traiam, não tenho nem coragem nem vontade de navegar no pântano novamente. Giro a quilha do barco para mares superiores e serenos, onde 2013 teve espaço também para caminhar sobre as águas ao invés de me afundar.

Todos os anos se aprende, e em 2013 aprendi a destruir parte da minha vida para reconstruí-la, pouco a pouco, numa obra que continua para o ano e ao bom estilo de Gaudi adia o seu fim. Melhor para mim, que vou sendo perdigueiro da minha própria curiosidade e transformando a escola de Sagres em algo de mais parecido com Ceira, faço o meu próprio Descobrimento. O que descubro é milagroso e explica porque é que consegui passar por 2013 como alguém, que calçando botins de aço, ainda assim aprende a fazer piruetas no gelo. Descubro que a mecânica do coração é mais complexa do que o pulsar de um ventrículo, e que continua a bater mesmo quando enfartes ténues e arritmias em forma de gente o forçam a desfibrilhar de quando em vez ao compasso do sorriso que é vida, e no posterior é morte um pouco todos os dias até que, como o Cristo anterior citado, se ressuscita para abraçar essa magia em que se escondem as cartas e se pede ao outro para escolher, e se reza, seja a Cristo seja a nós, que a carta escolhida seja aquela em que pensámos. É uma lição que só se aprende quando já não se é; mas parte de se ser outra vez está aqui, naquelas palavras escritas no quadro negro da existência, onde deus tem 10 000 nomes e um deles é o dela. Que ela? Não sei; mas terá o seu nome, e não terei que acreditar que é omnipotente. Porque isso não existe; ou então, se existe, o seu poder é tornar-se perfeito e redondo para mandá-lo para o caralho. 2013 também foi confirmar isto.

O bom de 2013 foi confirmar amigos, descobrir outros e regressar a paisagens humanas que desprezei e a quemagora, humildemente, peço que aceitem que tenho falhas como um vidro rachado, e apenas requisito que me dêem algum calor para que me regenere e reerguer para que nos possamos reconhecer. São amizades in media re(s). Vão desde ilhas até terras ainda mais distantes que não vêem o mar, e pelo meio há mais uns quantos habitantes deste cubo mágico que sou eu. Fizeram e fazem parte, e se alguns chegam ao final do ano e têm prendas de Natal, eu tenho prendas da vida toda. Comecei 2013 a olhar para o deserto, e chego aos termos findos vendo oásis por aqui e por além, e sentindo-me saciado, e até parvo por ter pensado, um dia, que eu era a fava de um bolo-rei que as pessoas escolhem comer. Estes comensais devoraram-me para o bem e para o mal: vão desde distantes ilhéus que me fazem sentir próximo sem que eu entenda bem o porquê da estima que me têm, até alguém que tem o tudo e o nada do meu querer, e nesse paradoxo se deriva. Existe também a acidez doce dos citrinos, e a ajuda de quem mal me conhece, mas já impera na minha gratidão. Há de tudo. Inclusive quem me deseja "Feliz Natal" pessoalmente, algo que nunca aconteceu naquela dimensão. Há isso.

Também houveste tu, oito anos depois. O capuchinho amarelo. Um silêncio confortável, uma alma perdida à procura de onde se encaixar, e viste o que vejo, com os teus olhos, com a tua lente e com a tua sensibilidade. Percebo como funcionas, sei que não tiveste culpa, mas gostava de te ter feito sorrir mais. Mesmo que tal fosse tão impossível como escapar ao que sou. És uma migalha de mim, mas agora, a digestão tornou-se mais fácil. Não é que tenhas menos condimentos: o meu estômago é que se tornou mais eficaz.

2013 foram os três de Oakland a acordar-me antes que chegasse Setembro, mas concretamente em Julho. Foi o dia em que dançámos, ao som de um amor brutal, que para mim foi coreografado pelo Acaso que me sorri de quando em vez, e que me enche de arroz doce quente tão poucas vezes na minha vida que quando o provo, deixo flutuar o sabor durante meses. Antes, já quatro moços da Britannia haviam celebrado a poder universal que a música exerce sobre quem a ouve, e sobre mim, que tive a coragem de enfrentar sozinho medos ridículos apenas porque vê-los era uma missão. Cumprida, agora que está. Mas antes de todos eles, o pianista italiano foi o primeiro a transtornar-me as certezas de mim, e provocou um terramoto de réplicas que duraram nove meses. Saber que o meu pai tinha entrado num TGV para a morte foi 1755/Lisboa vivido cá dentro. Ouvir Einaudi no Porto virou as placas tectónicas do avesso e sacudiu-me para o lado oposto, arrancando-me/desarranjando-me/desbaratando tudo onde me escondo. Não sabia que era possível alcançar a plenitude em cima de umas teclas, e pensei que um homem que concede vida a outros pertencia à divindade. Dois erros que não cometerei. Partilhar isso com quem se gosta foi atinar com a vibração do eu para os outros. Acima de tudo, quando descarrilei, Einaudi voltou a dar-me linha, não para me enforcar, mas sim para subir ao céu que é o lugar onde somos nós, e sentimos que as coisas podem, por fim, fazer sentido.

2013 foram muitas outras aventuras mais pequenas: a estreia no Algarve, dormir no cimo do Cântaro Magro e ver nascer o sol, percorrer sozinho o imenso vazio que espaça o Pico do Arieiro e o Pico Ruivo, foi descobrir a fotografia como uma outra extensão do que sinto e vejo e gosto, foi aquela aventura de subir a Garganta de Loriga com gelo e neve, foi voltar à pré-História no Fanal, foi ser abraçado pela simpatia de um casal anglo-luso, foi ver veados no Trevim, foi semear colheitas para 2014.

Foi um ano de tudo. De como erupções vulcânicas têm, de seguida, terreno fértil para fartas colheitas. 2014 tem promessas de uma odisseia com ciclopes e Calipsos. Vai ser outra vez um fartote. e se o acaso fatídico não me tocar também a mim, palavras rolarão e apregoarão os meus sermões. Não sou apóstolo, não sou Messias, mas também acredito; e a minha crença está enterrada no fundo de um poço de dúvidas, que é onde cresce com mais força.

segunda-feira, dezembro 09, 2013

O que eu vivo



Desde pequeno que me agarro às palavras quando quero fazer um iglo. Há quem prefira colocar pessoas em seu redor, mas quase sempre elas me foram falíveis, e talvez eu também já esteja meio que falhado; por isso, a imparcialidade das letras que se agregam para fazer sentido ao que queremos exprimir em tentativas falhadas até o alvo certeiro explodir cheio de sentido é o meu sextante, a minha capa, aquilo que uso para me orientar. Quando o cancro, em forma de filho da puta mercurial, entrou pela minha vida como se lhe devesse uma cobrança à colecta que esquecera, o meu primeiro instinto foi chorar; depois ler, e depois escrever. O meu segundo instinto foi ignorar quase tudo o que lera, descobrindo, desconsolado, que boa parte do que se escreve sobre a doença tem como objectivo fazer-nos sentir bem e dizer que tudo dará certo no final. Algo de imprevisível, que no fim acaba bem. Tirando Miguel Esteves Cardoso, que guarda a melhor porção do seu "Como é linda a puta da vida" para relatar, com doses iguais de fúria, impotência e um amor que não acaba nunca , a luta que a sua mulher trava contra o cancro, toda a gente faz da viagem a marcha a ré um passeio de pé descalço pela praia, onde se apanham umas conchas de vez em quando, e a quantidade de lugares comuns faz-me perceber, precisamente, aqueles que me atiram todos os dias, quando me perguntam acerca do combate em forma de tango condenado, onde Gardel é substituído por Death in Vegas.

Eu tento responder com o mínimo de palavras possível, não me atraiçoando, e não atraiçoando a situação. Aceito que me peçam para ter força, não quero que chamem "coitadinho" ao meu pai. Agradeço quando me informam que rezam por ele, nos seus momentos privados, apetece-me partir a cara com um pá a quem me pede para rezar, e que deus vai ajudar, e vai intervir. Entendo quem se preocupa, e até, no meio de tudo, não visita o meu pai por ter medo de descobrir em si a explosão que o coração sofre quando a impotência é o único sofá numa sala de azulejos frios; não entendo quem passa mais tempo com perguntas idiotas do que com silêncios solidários que confortam e aceitam que a vida tem tanto de milagroso como a morte tem de inevitável. No centro de mim, claro, a raiva fica contida, numa caixa. Sai quando usufruo de um teclado, ou simplesmente de um par de ouvidos capazes de aguentar com arestas pontiagudas. Não se torna fácil a descoberta destes portos de abrigo: de Vales a Hortas e Costas, Saro no espírito que em Cunha se espreme e me levanta. Leio Borges e troco Katalins por Catarinas, no meio da confusão, onde a Craveira que pensava ser de grande porte é afinal pequena. Felizmente, abrigo.me em locais que não são de Madeira,, mas sim de betão. É o que me protege. Porque esta doença não é uma passeio. É um Ultra Trail sem mochila e com sapatinhas de chumbo.

É apetecer destruir tudo em nosso redor. É querer regatear com o Diabo anos da nossa vida para dar a outra pessoa. É congelar o coração neste Inverno de um ano, para só descongelá-lo quando o Inverno for uma noite de mil horas. É ser funcional nas acções e disfuncional em quase tudo o resto. É envergar uma máscara, e mentir aos outros enquanto a temos. É sentir a solidão na companhia, e saber que nessa companhia estão aqueles que gostam mais do que nós próprios nos gostamos. É um samba protagonizado por tetraplégicos, aplaudidos por uma avenida inteira de manetas, coreografados pelo último dos homens que desconhece o que é o ritmo, a dança e tudo o que é bom na vida. É ser pai, mas sem ter filhos. É, mesmo com boa vontade, saber que há uma luta que é sempre nossa, sozinha, para onde temos de crescer ou simplesmente mirrar até sermos menos pessoas. É não ter ninguém que realmente nos compreenda. É desilusão com tudo, e ter pouca esperança na ilusão da magia do milagre. É quimio, rádio, Depakines e medicamentos que acabam em Zol e que se tomam uma vez por dia. É dar comida na boca, limpar ranho do nariz, mudar de fraldas, e no final receber de troco um "Não" que é como se nos dessem um clíster de ácido clorídrico. É correr para o hospital às seis da manhã, andar até lá às duas da tarde, secar numa estufa até às quatro e arrastarmo-nos quando acaba o tempo. Por hoje. Amanhã há mais. É acabar livros em catadupa, porque, lá está, sem as palavras não há protecção para mim. É ouvir Einaudi e aquecer um pouco, e quando quente, pôr os dedos a trabalhar como um motor de combustão espontânea.

É isto, e é mais, que cada um tem para si a dor na forma que mais lhe for familiar. No meio do que é comum, cada um procura para si o seu conforto e o seu desequilíbrio. Para todos, é horrível, horrendo, horripilante, horroroso, horrífico, a toda a hora. Por isso, quando lerem um texto inspirador ou sentimental sobre alguém que partilha esta luta com alguém, desconfiem. Quem não reconhece a sua incapacidade de ser ele mesmo enquanto enfrenta isto, não sabe onde está metido. Com o tempo, acostuma-se, mas não porque seja fácil. Apenas porque é mais útil; e quando se tem o tempo contado a cada minuto, a inutilidade é um lixo que não se recicla.

domingo, novembro 24, 2013

Diz o Borges de acordo com o Wikiquote:



  • Time is the substance from which I am made. Time is a river which carries me along, but I am the river; it is a tiger that devours me, but I am the tiger; it is a fire that consumes me, but I am the fire.

E o sacana está certo. Muito certo. Presente que não se importa com o Passado e está-se bem a cagar para o Futuro. Tudo o que se mistura, sem se tocar, num momento que dura dias e só pára para dormir. Percorre-se fio a pavio, sem dinamite mas com pequenas explosões que abanam o conceito de que o Tempo não volta para trás. Não há máquinas do tempo, mas existem as constantes que nos prendem ao chão e não nos deixam esquecer que apesar de o tempo não parar, encontra dentro de si pequenos quartos e salas onde o que foi não volta a ser, mas se pode transformar noutro tipo de serão. 

E onde posso aprender a ser melhor pessoa. Mesmo que seja para voltar, mais tarde, ao costume. No entanto, enquanto estás, eu estou também como agora. O que é o mesmo que dizer que existo um bocadinho mais.

domingo, novembro 17, 2013

Matriz de avaliação



Antes de começar a exposição, anuncio que acredito piamente na teoria das camadas da verdade do meu caro amigo Bruno de Figueiredo: as cabeças que vemos nas notícias têm cordelinhos agarrados, puxados por mãos que fazem parte de uma outra camada da verdade, e que por sua vez tem uma terceira a controlar tudo o que se passa. Por isso, perdoem-me a falta de ingenuidade, e não aprofundar a terceira camada, ou seja, o feiticeiro que por detrás de um biombo, tudo vê e controla. Annuit coeptis, o rei que tudo vê. Posto isto, comece a liça.

Já várias vezes exprimi por aqui a minha opinião sobre o estado da Educação em Portugal. Tenho uma posição mais privilegiada do que muitos (inclusive o próprio crasso que dirige a educação, e que chamando-se Crato, julga ser o Prior máximo de quem ensina). Chamar-lhe "Educação" é esticar a palavra até desaparecer, pois não é esse o objectivo das escolas em Portugal. O seu papel, na visão de anteriores governos, é ocupar o tempo das crianças enquanto os pais trabalham, com baixos salários e alimentando uma mecânica social e económica que usa as pessoas como instrumentos. A escola pública, acolhendo os filhos dessas pessoas de condição social mais baixa, tem o papel apenas e só ocupacional. É por isso que a escola privada tem sido mais protegida: é onde os filhos das pessoas com mais pessoas podem estudar confortavelmente longe do caos e do pânico. Por aqui se percebe que a falta de aposta no ensino público por parte da classe política não lhe causa problema: o plano é este, e quanto menos dinheiro se injectar mais se pode dar ao ensino privado, ou simplesmente guardar para outras acções. Não é que sirvam para equilibrar as contas: para isso, era necessário haver um plano orçamental e económico que justificasse cortes, e já se viu, em três anos de governação em PSD, que isso não existe. Há um guião, mas não reforma o Estado: serve de guia a um filme de terror sem fim, com facalhões a trabalhar. Corta-se nos gastos, e pelo meio uns membros em forma de pessoas. Para quem tem ilusões, é isto a Educação em Portugal.

Daí o meu espanto quando se sugeriu uma prova de avaliação de conhecimentos a ser realizada por professores; e não todos os professores: professores contratados. Há aqui um requinte que tem escapado a muita gente: esta prova não é dirigida a toda a classe docente, mas precisamente aos seus elementos mais novos, frágeis e que urge despachar. Nada que não mude, a política sindical dos últimos dez anos tem defendido aqueles que há mais tempo se encontram no ensino, a começar pelos moldes em que é realizado o Concurso Nacional de Professores. Por isso, quando me dizem que os professores são uma classe protegida, é preciso pôr travão no mito. "Alguns", não fazem todos, e colegas meus, da minha idade, que tiveram de cirandar de norte a sul nos últimos anos, a troco de um ordenado que servia para pagar alojamento, gastos mensais, viagens, e pouco mais, não são favorecidos por nada mais do que uma vontade de sofrer em prol de algo que gostam e, acredito, da única competência que aprenderam no seguimento da grande luta nacional do Ensino Superior. O saldo da luta é claro: derrota em toda a linha da esperança de emprego, e uma vitória retumbante da precariedade. Talvez o Ensino Superior se tenha tornando numa roleta Darwiniana onde os mais fortes sobrevivem, e os mais fracos se acumulam à entrada de Centros de Emprego. Tendo em conta a visão economicista dos nossos tempos, muitos considerarão isso a perfeita prova das teorias de Educação mais extremas. Batem palmas e parabenizam-se com o Estado do mundo. Logo, estende-se essa visão mais longe, e o passo mais lógico é escolher, de entre os mais fracos, aqueles que têm mais força de vontade e a coisa que mais se possa parecer com competência docente. Algo que, como disse, acredito ter muito pouco valor nos dias de hoje, naquilo que se pensa como "a Escola".

Depois de abrir a ferida, o ministério adiciona-lhe sal: professores que fazem a prova (e cuja realização determina se podem participar no concurso de professores seguinte) são obrigados a pagar. Todos. Quer estejam a trabalhar ou não. Tenham ou não fundos para isso. Quem não tem, pede emprestado, e não há de mal com isso, pois segundo Nuno Crato "Vinte euros não é nada". Parece-me adequado que para uma prova que vale tudo, vinte euros não sejam nada. Também me parece adequado que uma prova que torna em "nada" toda a formação de um professor (sejam três ou quatro ou cinco anos), seja nada o valor que se paga. Num país onde a política de Educação é irrisória, vinte euros são risíveis, não é? Nuno Crato, que muitas esperanças suscitou quando agarrou num ponteiro laser desse quadro interactivo que é o sistema educativo português, tem mostrado que não é incompetente, ao contrário do que se apregoa: é bastante sagaz, dividindo para conquistar, traçando a propaganda com mestria, e fazendo crer que não só os docentes são parasitas que nada fazem, mas que é justificável tirar a superioridade científica dos professores perante os alunos para que seja mais fácil despedir os docentes. Numa profissão onde essa superioridade é tudo o que pode eventualmente garantir que um aluno acredita naquilo que sai da boca de um professor, vê-se que o interesse não é a estabilização ou a valorização do ensino: como em tudo que tem sido feito nesta legislatura, o interesse é o de ver números a diminuir.

O Ensino português tem muitos problemas, e entre todos os que se relacionam com as escolas, o maior está fora delas: a falta de organização política, e também uma retirada total de escrúpulos e paixão pela arte de educar e aprender. Interessa menos a aprendizagem, e mais a avaliação. Como se as duas coisas tivessem muito pouca relação entre si. Avaliar mal e porcamente professores não é diferente de avaliar mal e porcamente alunos, com programas demasiados extensos para as aulas que se têm, sobrecarregar docentes com tarefas que lhe tiram tempo de preparar aulas e o constante favorecimento de docentes mais velhos, e desinteressados, que se tornam numa esclerose militante, prejudicando alunos e colegas mais novos com genuíno gosto e vontade de tornar o Ensino em algo de atraente e positivo. A prova que querem fazer não avalia nada disto. É um soundbite, um estandarte de batalha que serve para um lado e outro se distraírem do que realmente interessa e de um ataque que nem sequer é encapotado à capacidade da Escola Pública. Sou fruto dela, e não me dei mal. Uma fraca Escola Pública é reflexo de um fraco Governo; e um fraco Governo nunca poderá avaliar o que seja, porque não tem capacidades ou competências para ser respeitado. Não tem a superioridade científica inerente ao cargo de professor.

Uma nação decente faria a única coisa que pode ser feita: entraria nas salas de avaliação no dia 18 de Dezembro e rasgaria as provas. Sem medo. Desautorizava todo um ministério que só está nisto para estragar; e num só dia ensinava aos seus alunos uma lição muito mais importante do que as que poderiam aprender nas restantes aulas: o bom uso do nosso direito natural à libertinagem.

terça-feira, novembro 12, 2013

F.


Doeste-me duas vezes. Uma quando partiste, a outra quando ficaste. Na primeira, a dor foi acamada pela certeza de que a história continuava a ser escrita; na segunda, o desgosto levedou com o fermento da nossa quebra, e durou até ao ponto onde não te conseguia distinguir do que era certo. Certamente que te diluíste no rio do tempo, mas sem nunca saíres da superfície dos seixos. De vez em quando, regresso às margens do rio e faço os seixos dançar sobre a superfície da água. Saltam pingos, tornam-se estilhaços, e a ironia está saber o quanto me dóis.  É tudo truque de prestidigitação, pois cria uma ilusão: a de que conseguiremos transformar a dor em prazer, pela simples vontade e desejo de confiar no coração. Mas a cabeça sabe o que o coração não reconhece, que os barcos partem rio acima e não regressam. Por muitas pedras que lancemos, por muito que esfomeemos, por muito que tracemos mapas. São viagens de ida, que nunca têm volta.

Ou têm. Tu tens. Vais ter, pelo que me disseste. Eu nunca parti, de facto, da margem do rio, mesmo que tenha escrito a mim próprio uma longa missiva dizendo o contrário. Quando soube que regressarias, o fim transformou-se em entretanto, e o talvez num definitivamente perpétuo de viagens em torna da minha mente. O paradoxo é que me anulas a racionalidade. Se não confio no coração, nem posso seguir a cabeça, fico sem saber para onde me virar, ou se nasci torto sem hipótese de me endireitar. Não existe ter amado alguém: ama-se, e vai-se gerindo mesmo quando acaba a pulsão de revolver e correr e mudar tudo o que se move para mover quem amamos. Mesmo que não haja esperança ou solução, mesmo que não haja saída. Amar é saltar à corda com a realidade, e esperar não tropeçar, mesmo sabendo que as pernas se cansam e a corda passa debaixo de nós em modo perpétuo. Mas não nos cansamos de tropeçar, até que outro alguém pega na corda; e mesmo aí, o suor do outro continua lá, na ponta que apertou na mão.

Sei que quando te vir, vou sentir a energia de cem milhões de sóis. Sei que quando te abraçar, vou criar galáxias. Sei que quando começarmos a falar, ou haverá um Big Bang, ou uma Anã Vermelha. Sei que quando caminharmos lado a lado, terei sempre de me vigiar. Sei que me vou guardar, com a noção de que me arrobarás com um sorriso. Sei que me vou defender, porque, afinal, também contribuíste para que fosse assim. Sei que vou perceber o inglês que não sabes, mas nunca entenderei o que não falas quando olhas para o chão. Não sei se nos vamos reconhecer, porque oito anos são muito tempo. Temos ambos menos cabelo, talvez um pouco mais de sabedoria, mas acumulámos mais dor. Tu perdeste o teu pai, eu vejo o meu a trilhar um caminho numa floresta escura. A par e passo, as nossas vidas não andaram emparelhadas, mas houve sempre qualquer coisa que me fez voltar àquele momento em que chegaste e eu parti de mim em direcção ao que ainda não conhecia. Antes de me teres doído a primeira vez; e apesar da energia do reencontro, sei que me vais doer uma terceira vez, quando chegares. Um bocadinho, e uma boca de dor a engolir-me, e a cuspir-me. Mas contigo, a dor devora-me outra vez. Porque sempre me foste indigesta. É isso que acontece com refeições demasiado condimentadas e saborosas: custam a digerir.

sábado, novembro 09, 2013

O que está certo


A imagem que existe de mim é a de alguém meio desligado da realidade. Entendo como é que ela surge, e provavelmente está mais certa do que aquilo que gostaria de admitir. Defino-me sempre como um adulto não funcional, o que está dentro do limite da crença. Não estou bem equipado para lidar com as responsabilidades de ser crescido, mas já aprendi, pelo menos, que isto vai lá de tropeção em tropeção, construindo fisgas com erros para apedrejar os vidros que nos separam dos nossos objectivos. Os cortes ficam, mas cicatrizam e transformam-se em histórias para contar. Nunca é mau. Apenas quem não esteve na sala de espera de um centro de saúde não dá valor a ter-se memória e mundo interior. De preferência cheio de selvas para uma pessoa se perder e andar embrenhado para não ouvir problemas alheios.

Ora, tenho notado, neste último ano, que essa imagem tem mudado um pouco. Várias pessoas chegam à minha beira e cumprimentam-me com um certo esgar de orgulho. Há nos seus olhos um reconhecimento folclórico equivalente aos rituais de passagem e crescimento masai, na concordância de que estou numa nova etapa e de que agora posso ser olhado com respeito. Percebo com rapidez que tudo isto se deve a passar a ter sido babysitter e enfermeiro do meu pai, no seu caminho pedregoso de doença e frustração. Não quero que isto soe a queixa, porque a maior parte das pessoas que me interrogam sobre o estado do meu pai, e até sobre o meu próprio estado, são incrivelmente bem intencionadas. Posso não querer falar com boa parte delas, como já aqui escrevi, mas isso não significa que não reconheça o mínimo, e máximo, de preocupação nos seus rostos, e até mesmo aquele ligeiro ar de quem não sabe bem o que dizer. Eu reconheço-o tão bem, já dancei com esse ambiente sonoro, e é de um desconforto atroz, que partilha a mesma impotência de quem vê alguém a desintegrar-se atomicamente a cada pequena detonação tumoral. Ainda assim, não entendo esta congratulação e sentimento de que estou a fazer algo de louvável. Não vejo a coisa assim, nem poderia. O que estou a fazer é a única coisa possível.

Ele é meu pai. Quando eu não tinha sequer capacidade de juntar letras para escrever "Pai", vigiou-me e conduziu-me e levou-me a que estivesse aqui, sem saber o que quero fazer da vida, mas com a certeza de que a vida dele é algo de que vou fazer parte até que ele deixe de ser parte da Vida. É aquilo que tem de ser feito, é o que está certo e tanto como a memória, é a maneira que ele tem de se perpetuar e garantir que o construiu não foi apenas uma casa ou uma vida, mas sim pessoas que sabem o que deve ser feito, porque deve ser feito e acima de tudo, que o maior feito é ser pessoa completa e atenta, procurando estar lá com a simples intenção de se querer bem. Para mim, não é mais do que isto. É o meu dever, é aquilo que sinto e o que me dá alguma paz interior, no meio desta turbulência. Talvez ele não saiba, mas faz-me crescer: não funciono como adulto, mas vou-me sentindo, um bocadinho mais, como tal. Como sempre, o meu pai a conduzir-me.

quarta-feira, novembro 06, 2013

O primeiro em Novembro



O blog é meu, por isso permitam-me uma pequena aulinha de História: o 1 de Novembro foi instaurado no século VIII e celebrava, inicialmente todos os santos e mártires que tinham morrido em nome da Igreja. No entanto, o feriado em si é mais antigo e data do quarto centénio, quando por uma questão prática de juntou num só dia (por ocasião do 13 de Maio, curiosamente) todas as celebrações dos mártires da Cristandade, visto que o ano tinha 365 dias e os Romanos eram particularmente bons a matar cristãos, com uma eficácia superior à quantidades de números disponíveis no calendário. Podemos recuar ainda mais para encontrar o sagrado neste dia. O "Samhain" celta celebrava-se por esta altura (entre 31 de Outubro e 1 de Novembro) e embroa não tenhamos a certeza de que envolvia a crença de que os mortos regressariam a este mundo para se aquecer na lareira, é certa de que representava não só a questão prática da passagem do ano e mudança de colheitas, mas também o período em que Sidhe, divindade máxima dos Celtas, como que abria a cortina entre este mundo e o outro, permitindo que os humanos e os não-humanos (como os duendes ou os elfos) pudessem comunicar e observar mutuamente. Pode parecer algo muito distante, mas vem daqui, por exemplo, a tradição do Magusto, e na zona galaico-portuguesa, estas tradições têm sido recolhidas e consideradas parte fundamental do folclore local. Ainda hoje marca o Solstício de Inverno (nas marcações de certos monumentos megalíticos) e passagem do Verão para o Inverno.

Este feriado não é religioso: é anterior a nós todos, e aos que estão para trás, representando o que somos cá dentro, as nossas crenças extra racionalidade e a mundividência que o Ser Humano criou e herdou na passagem das gerações. É ontológico, e o que não é lógico é que se acabe em nome de uma coisa tão passageira quanto é o dinheiro. A nossa relação com o Passado e com os mortos, aquilo em que transformámos esta celebração de Vida, é importante. Mas uma sociedade sem Memória é uma sociedade de pessoas e não de gentes. A eliminação do primeiro de Novembro é culpa nossa também, que não sabemos respeitar a sua importante na ordem da existência.

sábado, novembro 02, 2013

O estado das coisas


HENRIQUE
 Quer saber o que é Portugal, realmente? Fora desses livros bonitos que andou a ler, de tudo o que há para trás e o orgulha tanto? Portugal não é muito diferente de Alcácer Quibir. Lembra-se de quando viu aqueles cadáveres, a confusão? Aquele silêncio que sucede aos grandes desastres? Esse silêncio é Portugal. No entanto, o grande desastre ainda não acabou, e o silêncio continua, rebentando-nos os ouvidos.

D. SEBASTIÃO
Alcácer-Quibir foi uma ruína particular…

HENRIQUE
 E hoje, Portugal é uma ruína geral. Ninguém sabe o que o aguarda. Não é que não queiram saber, mas como isto anda, até se tem medo de saber. Todos os dias, há uma nova má notícia para nos deixar em pânico. O dinheiro falta porque ninguém tem onde trabalhar. Quem trabalha, recebe uma miséria. Não somos pessoas deste país: somos coisas deste país, problemas para quem brinca à governação. Dessa maneira, cá andamos, devagar, devagarinho, também em guerra, mas connosco e com aquilo que éramos há dez anos e não pensávamos ser agora. Temos de conviver com um Alcácer-Quibir todos os dias. 

in "Uma merda qualquer que escrevi há uns tempos"

sábado, outubro 26, 2013

Pergunta, resposta; reformular


Pode um terramoto ter réplicas durante anos e anos? Sim, tiver epicentro em ti. Vale-me que os meus ossos são anti-sismo, ainda que os faças tocar rumbas cubanas

domingo, outubro 13, 2013

Inventar o que já é mentira por si mesmo



A minha máquina de viajar no tempo é a tua fotografia. É muito simples a mecânica quântica de quanto acelero em direcção ao passado quando a olho. Sem botões, mas desabotoando o stress, a memória pára e recua, atrás até ao momento onde o teu escorrega em forma de sorriso ficou parado num pequeno cartão de plástico, talvez a pairar até que este se decidisse que tinha pelo menos alguma capacidade de reter tudo o que teu sorriso pode conter. O que é muito para o pouco do cartão, mas talvez pouco para o muito que desejo vê-lo novamente, e de certeza demasiado para o que sou. Como é que dentes alinhados, como soldados que te guardam a boca onde quero inserir a minha língua até eu próprio viajar para outra dimensão, me tremem a certeza, e arrancam de mim coisas que não pensava sequer entender? São dentes, é marfim, nem sequer sente, e no entanto, arranca o que sinto em palavras de esplendor iluminado que ainda conseguem deixar na sombra que não esqueço o teu sorriso, e que não te esqueço, e que num qualquer canto do passado, onde o futuro ficou debaixo de uma pedra, estamos nós, talvez à espera de sermos presentes um do outro. Um dia destes. 

O tempo é contínuo, mas continuo a tempo de ti. Não sei, talvez. Tenho a certeza de duvidá-lo, e de que viajar no tempo é tão ficção quanto estas palavras são reais e verdadeiras. Porque a memória mente,e o engano é afinal tudo aquilo que temos quando a verdade da vida é pouco mais do que uma aula de física teórica dada por um disléxico.

sexta-feira, outubro 11, 2013

A idade da inocência



A propósito do frenesim em redor de Malala Yousafzai, uma daquelas criaturas que parecem saídas do mesmo reino de inverosimilhança das pessoas de bem que encontramos de vez em quando, uma equipa de reportagem dirigiu-se à sua aldeia para avaliar as reacções dos habitantes. Entre o orgulho natural da glória de uma filha da terra, um homem disse que era tudo muito bonito, mas desde que Malala tinha saído do país, os Talibans haviam destruído mais dez escolas e nenhuma tinha sido construída. O triste é que ele tem razão: o Nobel é o prémio do complexo de culpa do Ocidente, que se sente interventivo ao dar um prémio a uma adolescente pensando que vai alterar algo no terreno. Mas não: as negociatas do costume continuarão e a zona do Paquistão e do Afeganistão continuará dominada pelo mesmo grupo de irredutíveis extremistas que quase mataram Malala e que continuamente lutam pela instituição obscurantismo na zona. E o que fará o Ocidente que aplaude a jovem paquistanesa? Nada. Não move uma palha. Depois de erros de casting sucessivos nos últimos anos (e neste ainda podemos ter Putin a ganhá-lo...), o Nobel da Paz deste ano provará uma coisa: nós não merecemos Graça quando nos é apresentada tão inesperadamente, e talvez seja por isso que os suecos se sentirão compelidos a premiá-la. Nada contra Malala, cuja acção e rigidez de boas intenções deve reduzir uma boa parte de nós à imperfeição que passeamos pelo quaotidiano. Ela não tem culpa de sermos assim; e se calhar, na sua aldeia lá longe, na cordilheira do Pamir, não fazia sequer ideia de que estas pessoas que divulgam a sua história de coragem têm muito mais a ver com aqueles contra quem luta do que ela pensará


segunda-feira, outubro 07, 2013

O horror de não pensar



Há algo de estranho neste livro. Não o conteúdo, que é, como de costume quando Judt pega na palavra, vivaz, inteligente, erudito e lúcido em demasia, mas em saber que a lenta desagregação física do corpo do historiador inglês (que viria a morrer em 2010 de esclerose amiotrófica) é incapaz de deter um dos intelectos mais activos e ágeis do final de século passado e início deste, um homem para quem a intelectualidade era uma arma, uma obrigação e um dos pilares estruturantes de uma sociedade justa e funcional. Longe de ser um espectador, Judt, durante toda a sua carreira, fez viver a sua crença de que o intelectual é interventivo e lutador, e usa o seu ponto de vista como algo de atingível e real, por muito utópico que possa parecer. A sua defesa do Estado-Providência, o modelo de governo que preferia, devia ser a leitura de cabeceira de Pedro Passos Coelho. Judt soube ser sempre um desses, com toda a classe: polemista como poucos, sem medo de afirmar à boca grande o que se comentava à boca pequena, a sua crítica à política de Israel tornou-o num judeu muitas vezes apelidado de anti-semita, como se tivesse um ódio à sua própria origem. Ele, melhor do que ninguém, sabia do que falava: um sionista convicto, a sua vida num kibbutz durante a Guerra dos Seis Dias abriu-lhe a pestana para a realidade. Ao contrário de muitos intelectuais actuais, ele viveu o que pensava.

Na conversa que manteve durante vários dias com outro colega historiador, Timothy Snyder, Judt parte do seu percurso de vida para se lançar em reflexões sobre os temas que marcaram o seu percurso académico como historiador, e as suas lutas públicas como intelectual e pensador: o sionismo no pós 2ª Guerra Mundial; os fundamentos intelectuais do Marxismo; a memória do Holocausto; o estado-providência; a invalidade do estado de Israel como hoje existe; a Europa depois a 2ª Grande Guerra; o declínio do papel do intelectual, e da Esquerda, nas sociedades actuais. É inevitável que o "Thinking the 20th century não soe a epitáfio intelectual, e é-o de facto, quanto mais não seja pelas ideias que Judt deixa livros que, sabemos agora, nunca poderá acabar, e da chama e vontade que existe dentro de um cérebro ao qual a esclerose não chega e continua a articular, entre intervalos temporais, os caminhos que julga serem os necessários para o triunfo e felicidade do percurso humano. A sua defesa do historiador como um participante na actividade pública e política, sem nunca esquecer o seu papel como anotador (e não intérprete abusivo) dos factos, figuras e acontecimentos é constante, e esta discussão intelectual com Snyder serve não só como a prova cabal da perda precoce de um dos nossos grandes cérebros como colectivo humano, mas também é prova de que o raciocínio livre e informado, numa era obscurantista onde grassa a estupidez e meia dúzia de bitaites passam por opiniões com fundamento, é um bem tão precioso quanto um orçamento equilibrado. Para que se possa pensar, devidamente, o vigésimo primeiro século.

terça-feira, setembro 24, 2013

Viagem em torno de mim mesmo


Na graça deste ano sem grande piada, fiz-me à preia mar que me tem deixado em baixa, e numa viagem em torno de mim mesmo, de circum-navegação permanente e onde a cabotagem tem sido o capote deste cabotino ser, posso anotar no meu diário de bordo, vazio nesta quinzena em que vos deixei náufragos da deriva habitual das minhas emoções e capacidade maior de elevar a minha estupidez natural a objecto de interesse, saltei pontos de vista, e de gramática, e descobri sobre mim rotas que registei num mapa traçado sem linhas de crescimento.

Descobri que sou mais crescido que pensava, mas ainda assim pequeno quando se pede ser adulto, desmentindo verdades sobre ser criança e forçando-me a enfrentar dez anos da minha vida onde talvez me tenha recusado a ser eu como devia, e me tornei numa caricatura que apenas se transforma em traço objectivo e superlativo muito de vez em quando. A espaços, quando me devia espremer e apertar, para me fazer sair. Não sei se ainda vou a tempo, mas corro na mesma. No máximo, perco a corrida, mas ganho mais de mim.

Descobri que é possível ver um estranho em alguém que se conheceu durante 30 anos, mas que são precisamente esses anos que devolvem ao estranho a capacidade de ser ele mesmo.

Descobri que afinal não choro sempre, mas só de vez em quando; e que quando se semeiam lágrimas, colhem-se estátuas permanentes da nossa dor, mas também da resistência ao tempo que apenas se encontra na memória que guardamos e nunca abandonaremos à mercê de qualquer choro.

Descobri que quando quero, posso ser bom. O meu problema, de facto, é a falta de vontade.

Descobri que através dos meus olhos, posso ver outra dimensão, e captá-la, e outros gostam. Mesmo que nunca lá tenham estado e só exista o meu testemunho a comprová-lo.

Descobri quem são vocês, aqueles com quem me quero partilhar, e doer. Também me lêem. Obrigado. Aos outros, com quem não me quero partilhar mas por aqui passam, obrigado também. Mas desculpem-me apenas vos mostrar a ponta dos cabelos, quando aos outros exibo tudo aquilo que em mim fervilha e arde.

Descobri que escrever me é tão essencial quanto dispensável é esta dor que sinto nas mãos; e tento que uma não condicione a outra.

Descobri que as minhas baboseiras não são muito diferentes dos outros. A prova está em cima. Felizmente, estão cá vocês para ver na baba um resquício de água cristalina; e aí, a descoberta maior, e mais mágica, é a vossa. Obrigado, gente.

sábado, agosto 31, 2013

Contar o que se tem


Navega-se para a angústia ao engano. O amor é o carrossel de que todos falam, mas é na angústia que encontramos os carrinhos de choque menos parolos da nossa existência: a música é cacofónica e nem sempre dá para apanhar o ritmo, embora a orquestra continue a tocar impiedosamente até perdermos a completa noção do que se ouve, do que se vê mesmo de quem toca. Descompassadamente, angustiamo-nos e a única certeza é que de que há sempre mais uma voltinha e mais uma viagem. Recomeça-se a queda depois de nos levantarmos, e há sempre outro começo para o fim elo qual acabamos de estar. O desespero raramente se faz esperar, e com ele vem a dúvida do que somos, e a certeza definitiva de que aquilo que não somos, temos de construir. É tão simples quanto isso, e já nos complica demasiado.

Tenho sabido o que é isso. Esta semana, espreitei pelo caleidoscópio da angústia e via cristalizado o bom que tenho e que não o sei, e que espreitado por entre vidros, nunca me parece o suficiente para achar que faço o que devo ou posso, que estou à altura. Não há espaço em mim para sentir orgulho, para me sentir bem. A angústia não só reduz o mais capaz homem que conheço, como também aumenta a minha incapacidad ede me achar capaz e à altura do tamanho da dor que me rodeia e dos fiapos de sombra projectados nos passos inchados de quem precisa de ajuda. O amor faz de alguém o mais forte e o mais fraco, mas só a angústia consegue modular as nossas forças como se fosse um sintetizador clássico, teclando o tema de "The exorcist" em variações diabólicas, mas sempre agourentas. 

Felizmente, há quem dê outra música. Aí, pouso o caleidoscópio e vejo-me por outros, olhando para o que tenho e o que dou. Encontro a minha cura

Embora me escape sempre aquela que mais desejo.