quinta-feira, agosto 21, 2014

Bocadinhos


Eles não sabem, mas têm dois colegas de trabalho. Um escreve e faz figuras tristes; o outro senta-se ao ombro do primeiro e diz-lhe "Não percebes nada disto, e não sabes. Estas letras são todas uma merda, ninguém vai gostar, não tens outro remédio senão reescrever tudo". Mas o primeiro continua, e pesquisa. Escreve mais e mais, o trabalho acumula-se, uns pensam que ele é alucinado mas isso de que interessa se o trabalho aparece feito, e ali todos são alucinados de uma forma ou de outra, e assim anulam-se uns aos outros, ninguém estranha e vêem dois a trabalhar quando só um é que escreve, e o patrão não sabe que está a ter dois a trabalhar pelo preço de um, num código do trabalho à chinesa. Fora dali, o segundo vai à sua vida, e o primeiro fica, segue para casa e só por curiosidade, expõe ao mundo o que afinal lhe custa tanto a caber na cabeça que é de talento e não de tormento. Outros gostam. O primeiro é o último a sentir uma pequena vitória, mas sente-a

Já passou um mês, e continuo a disfarçar. Estás debaixo da terra, mas sou eu quem continua a sentir-se dentro de um buraco. Todos os dias, quando venho do que é dele por direito de pai, faço uma linha torta, e esboço-me com os pés num chão que é areia movediça, e envolve aquele número que sei de cor, com as flores que nem consigo cheirar e a vela que apaga e acende, e nunca se queima. Não consigo entender, mas também não há que entender. Há que seguir, e tu sempre foste mais de ir em frente do que parar para perceber. Tento que venhas comigo, levar-te de cada vez que dou um passo para fora de casa, e nos momentos em que não sou uma parte sequer do meu melhor, desculpo-te porque a culpa nem é tua, que para além de não estares cá estiveste quando eu devia ter sido mais do que há em mim de maravilhoso, que calhar não vias porque não te importavas, e se não fosse maravilhoso era teu na mesma e não fugias disso. Porque me tinhas feito, e porque nunca te passou pela cabeça que por muito descabelado, estranho ou irreverente que eu fosse, não seria aquele a quem chamavas "filho". É nessas alturas que sou só mesmo eu, sem ninguém ao ombro, e como não rezo para o vazio, nem oro ao que não faz sentido, levo um joelho ao abismo que te tem, deposito com a mão o beijo que nunca deixei de ter dar, e tenho-me noutro lado, onde não estás, mas por outro lado até estás, porque não vais embora enquanto eu disser o teu nome, ou me lembrar da tua cara. Enquanto eu for eu, e a minha memória for o jardim marinho onde podes nadar no conforto do teu mar. Sem mais ninguém, só contigo e sem vozes a moer.

Tu só podes ter o bocadinho mais curto. Alongar-me sobre ti em mim é dar-te espaço, que não é de fuga mas de apanhada. Agarraste-me. Tens-me em dias pares que são ímpares na quantidade de dor que me dão no beijo que não damos e naquela risota com que me fazias regredir aos tempos em que não conhecia outra coisa que não caramelo. Não falar sobre ti é fingir que não existes. A mudez é esquecer-te. Por isso escrevo textos tão longos sobre o que não articulo, e o que não posso sequer calcular noves fora quando estou feito num oito. Ainda me afogas em imagem fixa. O mergulho é a compulsão da dor, e esquece-se que o bom mesmo é não senti-la. Hoje banho-me nela. Amanhã, a toalha do futuro vai-me secar de ti, até à próxima vez em que fores a minha preia-mar. Semana após semana, cada vez menos. Mas cheia de todas as vezes que me cobre.

terça-feira, agosto 19, 2014

Ruído


Saiu da festa porque havia gente. Não era a mais, nem era a menos: era gente. Gente que respira e sorri, gente que é feliz; e gente que é feliz lembrava-o dela. Não se movia contra a felicidade dos outros, mas podia impedir, pelo menos, que esta se movesse contra si a toda a velocidade, estampido sónico na sua passagem, choque frontal com a realidade que ele queria virtual, bem longe num ecrã, longe do espaço da rua. A rua já fora sua, já fora a dela, já fora sua, não, dela e sua, nossa... Ainda era, mas na confusão, já fora também, e era agora uma outra coisa que não conseguia determinar. Sabia que tinha pedras e folhas e lixo, e tudo o mais que as ruas têm... Agora, por causa do barulho até ele era na rua, embora sem estar.

Estava algures longe dali. Por isso o barulho o incomodava tanto. Queria crer que no silêncio, ao menos, dava por si num qualquer outro local onde ela não aparecesse. Deixa-se alguém, mas é só na vida e na morte: nunca na ressurreição. Ressuscita por aí, nos nossos tempos mortos, e vem bem a tempo de nos matar em horas adiantadas, atrasando-nos o caminho e o tempo. Antes, quando a via, pensava numa pena; agora, era uma espada, que já nem fazia parte da sua luta. Imaginá-la com outro era ter vertigens debaixo de terra, ou ver-se em transe numa festa onde o barulho assalta os sentidos e furta os momentos, deixando-nos nus perante a vergonha da solidão. Ali, despido, com as colunas a estardalhar o que resta do espaço de sanidade onde ainda habitava, vi-te, na múltiplas valências do meu choro, onde encontrei outras lágrimas que desconhecia. Sem qualquer motivo, o barulho eras tu, em gritos por vezes, em gemidos noutras, e a confusão de tudo o que vivi em ti, e vivo ainda fora do que éramos. No barulho, eras surda ao que lamentava, e nem as minhas lágrimas, como decibéis salgados de punhal em riste, conseguiram retratar a fotografia que me tiraste naquela noite em que o teu peito foi a minha tela de lágrimas, quando me deste corda ao cabelo como quem acelera um relógio, e deixaste que te tocasse e beijasse porque nos beijos os abismos são de mergulho e não de queda; e eu, que sou ele, viveu aí momentos que nem o barulho podia roubar.

Mas antes que pudesse, saiu da festa. Porque havia gente, e não havia ela. Muitas elas havia, algumas que queriam ser ela no olhar, mas não as via. Estavam ali. Ele não as queria. Enquanto caminhava pela rua, não sentiu a mínima vontade de voltar, ou sequer de estar com outra ela.  Apenas de se sentar, reorientar a bússola e não se perder mais uma vez. Era impossível, mas sempre sem que fosse impassível ao desejo que rasteja e envolve. Ela é um abraço que fica e prende. Ele recebe, sem nunca cobrar, mas também sem pedir, ainda que no entanto não a negue. Sentado, longe do barulho, abraçado por quem não está, é pela primeira vez que se equilibra e não escuta nada, a não ser ele mesmo a traçar os seus próprios pensamento.

Finalmente sou eu, e ele. Talvez, por fim, queira deixar de ser Ela. Hoje sim.

Amanhã é sempre um não em potência. 

segunda-feira, agosto 11, 2014

A escada em caracol



Nunca me esqueci do dia em que a minha professora de Português do Secundário brindou um trabalho escrito com um 19, e anotou "Se o Bruno trabalhar, poderemos ter aqui um grande escritor intelectual". O pretensiosismo nasce cedo, e este tipo de observações, vindos de gente que admiramos, são solo fértil. Mas não vieram apenas coisas más ao mundo através da doutora Helena Castro: foi ela que me incentivou a gostar de escrever, descobrindo algures num rapaz confuso e meio perdido uma aptidão a alinhar palavras em carreira. Sem ela, provavelmente nunca me teria aventurado nessas vidas. Já antes gostava de construir histórias, mas nada de agradável: apenas amontoados de coisas que nem eram ideias. Foi essa professora que fez nascer tudo o que me brotou numa fonte da Língua que algumas vezes seca, nunca murcha: os "Óscares", o NLDR, este e outros blogs, guiões que estão arrumados e nunca sairão dos cantos escondidos, tudo o que ajudei a inspirar em gente conhecida e em jovens... Aquilo que por vezes chamam dom, e eu sempre classifico como a dor de me ver falhar em estrondo quanto tento ir além das minhas possibilidades.

Desde então que não me concebo, ou defino, sem o uso da palavra. Já passou de ser apenas útil: estendeu-se como um segundo cérebro com quem troco ideias e defino rumos; onde aprofundo o que penso e me aventuro em jogos de palavras conversando com a única entidade que me pode entender; quando estou em pleno conforto e descanso, sem medo do que eu próprio penso; como meio de me revelar sem me expor de facto, ou de abrir noutros o meu sentimento sem que deixe de ser, ainda assim, deles o que sentem. A escrita não é, na minha vida, apenas expressão: é um canal que me une ao mundo e uma bolsa de valores onde a minha cotação está em alta, e me impede de achar que sou, por completo um falhanço. Claro que nunca consigo ser exactamente o que a minha escrita merece, e por isso rastejo de quando em vez neste tapete em branco, atirando palavras a ver se colam, mas que apenas borram tudo. Sei que não parece a quem lê, dos elogios que leio,  mas várias vezes este acto é fisicamente doloroso. Uma dor parva de primeiro mundo, que não se compara ao Ébola, mas é a minha dor. Sinto-a e ela acaba por alimentar o que falta neste mundo de letras. Tudo o que me dói transforma-se em frases. Tudo o que me alegra conduz a textos; e se as palavras, ainda assim, são tantas vezes um arremedo do que se pode sentir (as minhas lágrimas retratam melhor a perda do meu pai do que 70 odes marítimas, e os beijos com que mergulhava a Daniela em mim são mais amorosos ao vivo do em Times New Roman), não posso negar que me completam e que transmitem mais do meu mundo do que eu próprio consigo.

Esta semana, comecei a ser pago pelo me trabalho em palavras. Pego em mundos e em informações, e pedem-me que transmita a desconhecidos o que neles existe de fascinante. Não é comum termos emprego a fazermos algo em que somos realmente bons, e onde estamos confortáveis, Sento-me e os meus dedos ligam a minha cabeça ao mundo, faço turismo numa página vazia e os pontos são, ao mesmo tempo, finais e de interesse. Na tarefa de descobrir o mundo, uso o que a ele me liga. Os meus colegas não sabem, nenhum deles, mas se lerem este texto poderão ter uma ideia.

Há quem faça retratos a carvão. Cada post, no meu caso, é um traço atómico, e revela as minhas explosões, cisões e multiplicações dos átomos que me formam.


segunda-feira, agosto 04, 2014

Não ser


Quase todos os textos que leio acerca de separações são pirosos que doem. Em primeiro, porque são mal escritos, e isso é compreensível: é difícil escrever bem quando o coração nos entope tudo porque cresceu demasiado. Nem é uma crítica, mas sim a empatia de quem já se viu tão assoberbado pelo que sente que apetece tantas vezes sumir, morrer um pouco, talvez uns dias, e voltar apenas quanto todos foram embora e podemos ficar ali com aquela dor cristalizada ainda ardente, num prazer perverso de nos encontrarmos na miséria, e mesmo assim sermos ricos em vida que flui e mesmo moendo, produz ouro.

Em segundo, porque revelam tantas vezes uma sentimentalidade piegas e superficial, atirando palavras para enterrar a tristeza passageira que se cura uns dias depois, quando se conhece X ou Y e o carrossel volta a girar, até virar novamente carros de choque. É como se quisessem rebentar de sentimento, e encontrassem apenas teias de aranha no sótão do ventrículo superior esquerdo. À falta de sangue fervente e vulcânico, inventa-se uma erupção, que soa a falsa por ser demasiado lúcida, que é aquilo que a dor não oferece nem é. Doer é tantas vezes não perceber sequer que temos algo que realmente não temos, mas vem aí. Apanha-nos por tabela e às três tabelas encesta-nos. Sem espinhas.

Em terceiro, porque não são verdadeiramente textos de separação. São de intervalo. Existe algures nas entrelinhas a esperança de regresso, e nenhum ponto é final: apenas parágrafo. Algures na dança das palavras, existe um compasso de espera, que disfarça o desespero, e caminha um trilho onde os sinais se confundem, mas se segue sempre em frente. Nem que seja até à falésia. Lá em baixo, um mar ruge e grunhe, mas é transparente, e por isso, à falta de chão, salta-se, e o mergulho desconhece-se. Nunca mais se ouve falar de quem tenta, excepto algum tempo depois, quando algo dá à costa e não se reconhece. Aparenta ser o que pensou que era. Mas já não é. Já foi com as marés e não volta.

Não irei por aqui, portanto. O que existe, guardo para quem de mim não se separa, e para o meu único amparo, que sou eu. Há tanta, tanta dor em mim, com tudo o que me cai e tudo o que me tiram, e que se calhar me tiro, que começo a perder o poder de transparecer para vós o quão vazio me sinto. Não quero escrever mal, não quero soar piegas e não tenho esperança. Está fora de mim conseguir dar-vos o que merecem, e o que vos conforta ou sobressalta. Não vos consigo dar isso, e por isso me desculpo. Desta vez, faltam-me palavras e faltam-me frases. Só existem sinais de pontuações, e todos eles mal aplicados. Sinto que fui mal redigido, e preciso de uma correcção.

Por isso, peço perdão. Farei uma revisão e quando acabar, prometo, pelo menos estrutura e texto. Prometo-me, para mal dos vossos pecados e das minhas virtudes.

sexta-feira, julho 25, 2014

Campas de desconcentração


Visitar a nova morada do meu pai devia ser uma experiência de devastação por encomenda. Aliás, qualquer ida ao cemitério não será agradável por vários motivos: a ideia permanente do fim da vida, o ambiente pesado do local, muitas vezes o frete da própria ida. Os portões do cemitério são os portões dos nossos medos e da dor contínua de ter perdido alguém. Logo, quando enfrentei o quente sol do fim de tarde para prestar a devida homenagem uma semana depois, qualquer pessoa não seria considerada doida se pensasse que a coisa me ia custar.

E custou. Durante os minutos em que lá estive, olhei para o chão, muitas vezes sem saber o que dizer a mim mesmo e no tipo de conversa que eu e o meu pai tínhamos como poucos: o silêncio. A minha cabeça tem a tendência para divagar e não é o luto que a pára. Distraio-me com a facilidade dos esquilos. O meu pai sabia disso, e irritava-o amiúde, principalmente quando as coisas ficavam foras do sítio ou me esquecia de ir aviar aquela tarefa que ele considerava mais importante do que o fim do mundo. No fundo, acredito que não levava a mal. A extrema responsabilidade que ele vestia como um casaco despia-a eu como se fossem uns chinelos a voar pela sala. Se a sua consciência sobreviveu de alguma maneira se pudesse aperceber que a minha cabecinha continua naquela velocidade cavalar que ele tanto abominava, ele não levaria a mal. Ou então, convenço-me eu disso, sei lá. De qualquer forma, um dos contras da morte é inibir quem dela usufrui de ter uma opinião nas discussões. Por isso, Vítor, esta ganho eu.

Um beijo é entregue à terra pela minha mão e depois daquele quarto de hora, alguém normal teria saído do cemitério, com um ar circunspecto que é devido a quem se rodeou de morte e sabe que tal se entranha bem mais na alma do que na roupa. Mas, como devem saber por me ler em demasia, eu não sou normal, nem creio que alguma vez o tenha sido. Por isso, entreguei-me a uma fascinação que me domina: campas de cemitério. Não é que queira levá-las para casa ou dormir sobre as mesmas, mas a minha curiosidade ganha vida na proximidade de campas. É paradoxal, mas existe. Penso que talvez se deva ao meu gosto pela escrita e por tudo o que é história. Através de fotos, datas e informações que recolho depois, construo uma narrativa das vidas que a pequena necrópole de Ceira guarda. Há histórias de dor, com pais a ver morrer dois ou três filhos; ou uma criança com oito anos que falece e mantém, na foto, o sorriso de quem não conhece o mistério da morte.  Há pessoas que nasceram ainda na monarquia e são enterradas antes da ditadura, outras durante a mesma, e algumas delas chegam ainda a conhecer o que é viver em democracia. Há a campa mais antiga do cemitério (que, pelo que vi até agora, é de 1901) e a mais recente (que era a do meu pai, mas no entretanto deixou de ser). Um dos vizinhos do Vitó, aliás, é alguém que também o era enquanto vivo, o que é uma simetria curiosa. Tudo o que de triste e macambúzio me nasce quando entre naquele local de morte entrega-se ao criador que dentro da minha cabeça sempre construiu histórias e me distraiu com elas. A mente que o meu pai, talvez sem compreender, nunca me tentou negar ou mudar, é a que me ajuda a suportar a sua perda, num local que tem tudo para me afundar.

Devia sentir-me esquisito, mas não sinto. Não sei se é fetiche, talvez não o seja, mas é algo que me ajuda a lidar com a dor. Sempre me apoiei em muletas bem estranhas quando coxeio, e esta é mais uma. Nem me importo. Ele também não. Aliás, com tudo o que de mim viu ou ouviu, até acharia algo bastante normal. Mesmo no meio do seu silêncio, ele nunca foi homem que se deixasse impressionar pelo que saía da minha cabeça. Apenas diria "filho da puta", mas com o tom de quem tinha visto um triplo mortal à rectaguarda feito por uma vespa.

quarta-feira, julho 16, 2014

Pai


A minha mãe não sabe, mas os meses que antecederam a morte do meu pai viram-me a tentar escrever um texto de elogio fúnebre a esse homem que, durante 31 anos, foi um estóico senhor que me teve como filho e mesmo assim, parecia ter orgulho nisso. A ideia não veio de um sentido de homenagem, mas sim de raiva. Quando um homem que é de facto bom morre, o mundo não devia encolher os ombros, e nós que nele vivemos temos a obrigação de subir a um ponto alto e berrar aos vales que a vida ficou mais pobre. Dos poucos funerais a que fui, ficou-me a secura das homilias sacerdotais tão cheias de palavras ocas e de floreados religiosos vazios que nunca conseguem descrever a dor real, e injustiçam quem, num caixão, foi uma vez um homem não só cheio de vida, mas que carregava em si, e sem se preocupar com qualquer tipo de moral bafienta, a noção do que é ser uma excelente pessoa hoje em dia.

Ao longo do tempo, no entanto, acabei por não cumprir essa vontade. Previa que, chegado o dia, eu não estivesse em grandes condições para anunciar como a perda do meu pai era mais do que a morte de alguém; para além disso, outras pessoas precisariam de mim numa capacidade menos oral. Verdade é que não me lembrei muito disto nos dois dias de maratona emocional que marcaram o ritual da ida do meu pai para algures que não o nosso convívio. Passou tudo numa espécie de zumbido estático, cumprimentos maquinais, alguns agradecimentos menos sentidos do que outros. Pessoas chegaram e partiram, algumas conhecidas e outras menos, e ainda um punhado delas cujo simples contacto físico e palavras me levantaram de um buraco menos irredutível do que aquele onde o meu pai se encontra agora. Apenas na manhã do funeral relembrei a urgência de recordar a todos a perda a que assistíamos, e curiosamente, tal aconteceu quando me apercebi de que não era necessário um carril de palavras nessa conclusão. Entrei numa igreja repleta de gente, ainda com mais algumas dezenas de pessoas no exterior. Era uma segunda-feira, dez e meia da manhã e espantei-me com tamanha moldura humana nesta homenagem surda ao Vitó. Isto diz muito sobre como o meu pai era visto e o que deixou por onde passou.

Não tentarei descrever aqui o que tornava o meu pai num homem com falhas, mas, acima de todas elas, num ser humano de coração excepcional. Nem sequer me alongo no tamanho dos seus paradoxos e contradições, que sempre fizeram dele um mistério para mim. Não me lembro de alguma vez tê-lo ouvido referir-se-me com orgulho, mas nunca me senti uma desilusão aos seus olhos: alimentei tal ideia porque jamais me senti à sua altura naquilo que os homens adultos chamam a si quando têm de assumir a responsabilidade de ser também pelo outros. Nenhuma vez falou comigo sobre os factos da vida, mas esteve, de facto, na minha vida. Sem ele, não teria tido uma infância normal e uma adolescência estruturada e só em adulto pude perceber o valor desta situação, quando, como professor, encontrei crianças com vidas destruídas porque os seus pais não tinham sequer um décimo da humanidade e da responsabilidade com que o meu me escudou. As nossas semelhanças não são muitas, e dizia várias vezes, à laia de piada, que em termos literários, não havia para o meu pai vida além do "Correio da Manhã". Ainda assim, tal como eu tentava percebê-lo e ao que o movia, também dei com ele numa noite a vasculhar livros sobre discos voadores que na altura devorava . Não que o meu pai fosse fã das letras, ou sequer da cultura: era alguém muito mais à vontade num mundo pessoal a construir coisas em vez de entendê-las. Mas era nesse mundo que se sentia ele e que sorria, e estranha ironia trágica que os primeiros sintomas da doença lhe tenham tirado precisamente as ferramentas com que construía esse mundo, e o instrumento que lhe permitia comunicar, mesmo que a espaços, o que pensava para além de si mesmo.

O que aprendi com o meu pai não me foi dito. Numa surda compreensão, entendi o que estava certo e errado, o que não deve ser feito e o exemplo de como uma infância difícil e pouco carinhosa não são desculpas para que os filhos sejam uma consequência de tal percalço. O meu pai amou-nos como entendia o que era o amor de um pai, e foi para lá das suas limitações na demanda de não nos ver a ansiar por algo que merecíamos e não tínhamos. Sinto sempre que podia ter vivido bem mais, mas se assim fosse não o teria feito nas suas próprias condições, termos e pormenores. Não teria sido nem o Vitó, nem o Simões, nem o Vitinho. Não teria tido aquela igreja cheia para se despedir, nem provocado choro a homens feitos a tal ponto que um confronto com o seu mortal invólucro fazia nascer a dor mais arrasadora e pungente que revolve vidas pacatas e que se vêem confrontadas com a nossa mortalidade e o absurdo inerente à vida desde que nascemos. Várias vezes ouvi a minha mãe gemer num choro que nada disto era justo. Que a vida não tinha sentido, e que não havia lógica.

A verdade é que não há lógica, e só algo deu sentido à passagem demasiado breve que o meu pai teve por este planeta: nós. O que ele construiu, o que ele deixou. Eu e o meu irmão como projectos de vida que se prolongam e perpetuam a sua memória; a dor da minha mãe como a prova visível do que o meu pai significava para todos; as condolências de uma multidão incapaz de fazer sentido de uma tragédia pessoal maior do que tudo e que ainda assim se juntam para celebrar não a morte de um corpo debilitado, mas sim a frondosidade perene de uma rija árvore que sobre todos nós ainda paira. Em criança, via o meu pai como uma floresta. Tudo o que presenciei nos últimos meses não me rouba isso. No cemitério, todos pensarão na morte. Mas na minha mente,onde o meu pai não morre e está sentado num banco, com os olhos no horizonte de um mar que sempre lhe foi uma cama balouçante onde o mundo parecia, por momentos, ganhar a poesia que não encontrava facilmente nos seus dias, ele continua a ser também uma floresta que paira sobre as ondas, onde posso correr e encontrar-me com ele, ouvindo nos suspiros das folhas tudo o que não me conseguia dizer, e no canto dos pássaros aqueles trejeitos de voz que o tornam no meu pai, e não no vosso.

A partilha do meu pai convosco acaba aqui. O meu egoísmo não deixa que se escape mais. É meu, não na sua morte, mas no que existe para lá da biologia. A da vida secreta das lágrimas. Onde a única coisa que morre é a dor e só para fazer nascer algo de muito mais belo: a vida eterna que o valor de um homem bom permite existir.

Ou seja, no que faz dele um pai, um marido e um amigo que não morre sem ressuscitar. Vence a morte, e ao mesmo tempo sublima a vida. O Vítor nunca se imaginou como alguém maior do que a vida. Mas é isso que o torna muito mais gigante do que a Morte nos pode roubar.

Choro.

domingo, julho 06, 2014

Reticências, dois pontos e ponto e vírgula



Há tempos em que nem sabemos muito bem que dor nos atinge, porque tantas caem sobre o nosso corpo e nem sequer são uma só, continuam a ser várias, e por isso doem cada uma por sua vez. Impossível é dizer muitas vezes qual a dor que nos dói. Podia não interessar, mas conta para, pelo menos e no meio da dormência que inevitável se segue a todo este grito de múltiplas agulhas que me atinge, eu ter alguma sanidade e sentir que o meu cérebro, e tudo o que seja que rege a minha paleta emocional, sabe onde está e o que faz. Enquanto assim não for, todo o dia é santo nas lágrimas e o diabo a sete em tudo o mais. Até me coser com qualquer linha que aperte o que me transborda, estou preso por arames e marioneta do que não domino, mas que, ó injustiça, faz dos meus olhos um domínio desolador. Em qualquer hora se chora, e se verte para fora o que me apodrece por dentro. Em nenhuma altura há esperança, mas ainda não se encontrou uma cavezinha onde more o desespero. Quanto mais se vive, mais se percebe que viver e suportar são mais sinónimos do que apêndices.

Não sou nenhum linguista da existência. Tantas vezes tento descrever o que me revolve, e em quase todas fico aquém de colocar num formato sólido o que não pode ser nem quantificado, nem sequer moldado. É constante o fluir, é impossível agarrar. Sempre pensei que escrever seria a única forma de me sossegar e de sentir que controlo aquilo que ninguém pode guiar. Por isso, os meus textos sempre me pareceram mais acidentes do que qualquer outra descrição. Talvez explique porque há sempre gente que goste de olhar para eles, por vezes até com admiração, mas sinto sempre que não tenho pernas para dançar com a dor. Ela vai sempre ultrapassar-me e crescer até uma altura desmesurada e caótica a perder de vista, fugindo sempre aos meus dedos e à minha imaginação.Fica um pequeno pó no chão, e com pó pouco se constrói e tudo se pode destruir e vergar. O pó dar dor não se aspira: só cresce, num bolor fecundo que come as nossas juntas, corrói o nosso tecido e por fim nos dá a escolher entre ser espectador da nossa destruição ou colaborador no mesmo espectáculo de marionetas onde ela me prende por arames. Nenhum é a escolha certa, mas enquanto o correcto está num local onde não olho, escondo-me atrás de dois errados, que não fazem um certo, mas não me deixam errar em vão.

Por isso me sento sozinho, a não acertar. O meu metro e oitenta seis é pequeno demais para tudo o que me acontece. Que um corpo de ossos e músculos tenha espaço para a existência é o milagre maior do nascimento. Talvez por isso cresçamos: quanto mais se vive, mais se dói. Por isso é que nesta altura, gostava de ter um siamês.

terça-feira, julho 01, 2014

Um dor imperfeita



Eu acordei mais tarde do que o rio, mas é ele quem tem sono. Parece que dorme, parado, estático, a servir-me de espelho. O que vejo não é grande coisa, e aí o sono do rio ganha a todos os meus despertares. É como se as águas se rissem na minha cara, e não precisam de dentes. Aposto que pudesse, o rio usava os peixes na mão e apontava-me um dedo na cara, alinhando as pedras numa dentição perfeita, reluzente e zombateira, como quem se ri das desgraças dos outros certos de que os outros nada mais podem fazer que não seja estar sentado e não ter sono. É cedo demais para estar aqui parado, mas não é como se tenha mais para fazer a não ser memoriar e morder-me os braços na procura de sentir alguma coisa mais que não a quente e cómica flutuação numa imensa piscina de alcatrão. Não sei se estaria melhor a flutuar no rio: o alcatrão sempre me prende a algures, e o meu problema maior é andar à deriva.

Agora que penso melhor, ter como companheira esta torrente de água que, indiferente aos impressionismos da minha cara. se desenrola e abre ao mundo não foi o que se pode chamar de ideia de jeito. A impassibilidade fluvial não se compadece da minha dor. O rio não sente, eu sinto demais, e tento não sentir demais apenas reconhecendo, tarde demais, que não querer sentir é o somatório de várias desistência numa operação cujo resultado é ficar aninhado a um canto a olhar as paredes como se fossem cordas de salvação. Agarrar para si a dor é pedir boleia ao desespero quando se quer apanhar a dormência. Não que o rio entenda isso: ele lá vai, indiferente, e nem sente as curvas, ou os declives, ou os rápidos, ou as barragens. Apenas vai. Gostava de ser assim, de ir, e nem me aperceber das barragens. Infelizmente, existe em mim uma barragem enorme, de reservatório cheio e que só sai de vez em quando. Não explode, mas jamais por falta de acumulação. A mágoa acaba por ser como o cimento, cuja densidade e compressão garante a sua sobrevivência. Nem este decurso aquoso a rebenta ou amacia. Por fora, sou pele; mas por dentro sinto-me esse cimento que me mantém em pé, e ao mesmo tempo faz de mim um tapete onde limpa os pés e continua sujo, podre.

Já vi que o rio não me leva a dor. No máximo transportar-se-á a si mesmo, e só isso é muito. A falta de vontade faz com que me mexa, e os meus pés saem da margem do rio e chegam ao carro. Quando me sento ao volante, penso por momentos precipitar-me sobre o rio, na esperança de me tornar na água que nem de si sabe, mas não quero levar a dor onde ela não é nem pedida, nem necessária. Vivo-a sem ser doença para os outros. Está comigo, na minha barragem, e todos os dias verto um bocadinho, para que não expluda. No carro, a primeira mudança é metida, e este parte rumo a onde quero. Ou seja, parte para onde me parto na esperança de voltar a ser um.


segunda-feira, junho 30, 2014

De Samotrácia


Desde que a ideia de "banalidade do Mal" foi lançada na arena das filosofias que aquilo que consideramos vilania e maldade tem mudado ao sabor das subjectividades e pós-modernismos. Quanto mais observo e penso na realidade actual, mais a objectividade parece ser um inimigo de quem se acha minimamente complexo. Diz-se que se devem ver todos os lados da questão e que há "diversos factores a ter em conta", ou que certos componentes tornam o caso complicado ou demasiado moroso. O que Hannah Arendt fez, basicamente, foi dar corda a uma cartilha que desculpa tudo o que possa parecer vilania, fazendo-a passar por traço de personalidade que urge explorar se quisermos perceber realmente o mundo. Na verdade, o Mal objectivo não existe, e aqui tenho de concordar com a alemã. No entanto, acho alguns tipos de Mal mais compreensíveis do que outros. O serial-killer ou o assassino em massa, no fundo, é apenas alguém com uma percepção da realidade que está para lá do que consideramos, vá lá, porreiro. Pronto: são gente que não bate bem nem de longe, nem de perto. No entanto, algures dentro daquela mente retorcida, a maldade não é maldade: é um alinhamento do mundo aos seus propósitos utópicos/cruéis (riscar aquilo em que o leitor não estiver interessado). Esse eu compreendo. Não o aceito nos meus amigos do Facebook, mas a sua existência é o que permite um certo balanço do mundo, e temporadas infindáveis de "CSI" e "Mentes criminosas". Há um tipo de facínora, no entanto, que tem arruinado o mundo desde que apareceu, e cujo desprezo pela qualidade da vida humana não entendo. Viverão na infâmia até ao fim dos tempos e os seus actos desprezíveis e indescritíveis são o tipo de coisa que faria Pol Pot bater palmas e fazer romarias à Senhora da Catana. Como alguns devem ter percebido, pela certeza da descrição, falo das companhias de seguros.

Se vos parece exagero, está claro que nunca tiveram de lidar com os labirínticos desígnios da activação de cláusulas de seguros de vida, e se não pestanejaram os olhos de sono enquanto liam este bocadinho de frase, muitos parabéns e beijinhos na bochecha. Para mim, ser o dignatário que trata pessoalmente das disposições de um seguro que o meu pai fez para o caso de acontecer o inominável que lhe sucedeu tem sido um confronto que sociopatas que pouco devem aos grandes ditadores do século passado: o interesse não está em ajudar as pessoas, mas sim protelar o mais possível as decisões na esperança de que o inevitável aconteça. Uma pequena historinha ilustra o que digo: há uns meses, desloquei-me pessoalmente a Lisboa para tratar de activar uma cláusula de invalidez que a VICTORIA tinha acordado com o meu pai (as maiúsculas exigem que não lidem com este cancro multinacional nos vossos seguros). Mesmo tendo ido a Lisboa, o funcionário informou-me que estas coisas não eram tratadas ali, mas sim numa outra sucursal que ele nem soube precisar qual. Instruiu-me a recolher os exames feitos pelo meu pai, e ficou com um atestado médio multi-usos que tinha o simpático grau de incapacidade de 95%. Seria de esperar que tal causasse alguma reacção, mas sigam as burocracias como de costume. Ora, voltei para as terras do Ceira com uma missão, e cumpri-a via e-mail, como me tinha sido sugerido. Passou-se um mês, e nada. Mês e meio, e um silêncio digno do exercício de yoga mais sério. Quase dois meses, e a minha paciência esgotou-se. Liguei para a VICTORIA. Uma voz feminina guiou-me pelas estradinhas da ignorância e afinal, o processo estava a avançar: ninguém se tinha era dado de me avisar, Certamente que nos próximos dias receberia em minha casa uma carta a informar do andamento da coisa. Nada a temer, estimado cliente: estamos no caso, e quando lá estamos é sempre a ripar.

Os próximos dias foram quase três semanas. A carta chegou, e oh maravilha, era pedido ao meu pai que se deslocasse até ao Porto, para ser visto por médicos da cuidadosa seguradora. A incapacidade de 95% devia dar alguma ideia à junta médica de, presumo, nobelizados a dobrar que trabalha para a VICTORIA acerca do estado do meu pai, mas foi demasiado subtil para a sua ciência precisa e conhecedora. Portanto, venha até à Invicta, senhor Vítor, que quero saber bem exactamente em que consistem esses 95%. Presumo que se as pernas não funciona, se possa arrastaram, e no caso de os braços darem de si, as pernas equilibram-se bem apenas com os abanos das orelhas. No caso de estar realmente incapaz, uma cadeira de rodas aerodinâmica dar-lhe-á a necessária sensação do vento a desviar a cara do atrito, e isto damos-lhe de borla e sem custo adicional. Claro que voltei a ligar para lá, explicando com mais pormenor o real estado do meu pai. Encolheram os ombros: envie um e-mail a explicar isso, com uma carta do hospital. A nossa junta médica analisará a situação e prometemos-lhe uma resposta breve. Terá mordido a língua, não acabando a frase, pois estou certo de que ainda estava para dizer "daqui a dois meses". No entanto, a vergonha ainda existe nos locais mais desesperantes.

Jogar com o tempo parece ser a especialidade destas seguradoras. Não me recordo de tamanho laxismo quando exigiram ao meu pai o pagamento das mensalidades, mas talvez me tenha passado ao lado... Entre a VICTORIA e o meu pai, estabelece-se um jogo de paciência, entre um grupo de sociopatas e um homem doente terminal. Têm tido algum azar, eles: o senhor Vítor leva quase meio ano de avanço aos prognósticos dos médicos e quando estava completamente saudável, a sua teimosia inspirava lendas e mitos. Já estive mais longe, ainda assim, de pegar num bidon de terebentina e dar a conhecer a Lisboa a maravilha pirotécnica dessa substância. Espero que a VICTORIA tenha seguro contra todos os riscos, porque nem os melhores advogados do mundo tiraram um curso lateral de protecção civil.

(E se transparece que estou completamente passado... Parabéns, mas não é necessária tanta perspicácia assim)

quarta-feira, junho 11, 2014

Magnífico



Como instituição de referência, a Universidade de Coimbra (UC) é uma fonte inesgotável de divertidas rábulas. Mais vezes do que as desejáveis, os protagonistas são os seus alunos, cabecilhas do gangue da cabeça no ar e das tristes figuras que nada têm de Cervantes. No entanto, é de concluir que o exemplo terá de vir algures acima da hierarquia, já que seria de enorme soberba atribuir aos jovens tão grande capacidade e inexcedível talento numa área onde a prática é uma componente fundamental.Quem foi aluno da UC sabe que existe nos seus quadros burocráticos e docentes essa torrente de estupidez, non-sense e incompetência só ao alcance da Secretaria Geral ou, patamar máximo, a Secretaria da FLUC. Esta semana marca mais um desses episódios em que fui co-protagonista inesperado.

Porquê inesperado? Porque envolve a recepção do meu diploma de curso, e com sinceridade digo que não mais esperava recebê-lo. De facto, entre a inutilidade do meu próprio grau universitário e os dez anos que medeiam este momento e o meu pedido ingénuo na Secretaria Geral da UC, tinha-me esquecido completamente de que a eventualidade de acontecer poderia descer sobre mim como um martelo vindo de nenhures. Lá caiu. O carteiro entregou-me o tubo e se inicialmente até pensei poder vir a ser uma daquelas prendas espontâneas que nos alegram o mundo durante uns minutos, cedo concluí que estava a acontecer algo tão bizarro que só poderia encontrar rival nas assombrações do parlamento dinamarquês. Com calma e sem excitação, a embalagem deu a tampa às minhas mãos e regurgitou um cilindro dourado, com o inconfundível emblema da UC. Ainda antes de abri-lo, a minha memória recuperou este lapso e anunciou o culpado: um diploma em Latim que sim, comprovava que tinha gasto quatro anos a vasculhar o passado com permissão e benevolência da UC e que me deu a conhecer a tradução latina dos nomes dos meus pais, algo que nenhum deles tinha particular curiosidade de saber. O papel do diploma é durinho, como quem pede moldura e a fórmula é a que muitos já viram nas suas mãos. Talvez não muitos, ainda, mas nada temam: certamente chegará a vossa vez.

No entanto, esta prenda trazia um bónus. O próprio reitor decidira escrever-me. A mim, um licenciado em História, cujo diploma até vem assinado por um dos seus antecessores? Por favor, senhor reitor, explique-me a honra; e o Magnífico lançou-se num arrastado gesto de desculpas pelo facto de este importante documento da minha vida (e acredito que da História da UC) chegar sem uma peçazinha em prata que bate fundo nos corações daqueles que vêem confirmados o seu saber pela sua existência ao pendurão numa folha. De facto, explica-me ele, o preço da prata está para lá de Alfa Centauro e os magros cofres universitários não conseguem contemplar a compra da argêntea preciosidade sem que isso cause o fim da civilização tal como a conhecemos. Pedem-me então que prescinda desta confirmação de valor e ajude assim a UC, que se apresenta quase como minha mãe, a resistir nestes tempos de vacas magras e professores gordos. Tenho toda a gratidão do Magnífico e a certeza que esta instituição tem os melhores antigos alunos do mundo. Implicitamente, penso que também se refere a mim, embora alguns professores discordassem  deste apodo.

Quem me conhece, sabe que ligo pouco a graus académicos e diplomas e afins. O doutor, ou professor doutor, ou capitão, ou "empregado do mês, João Gabriel Silva nunca me viu na vida e pensou que, tal como muitos que apenas usam os cursos universitários para se projectarem e ganharem um fictício estatuto, eu seria um desses casos. Fica descansado, caro compincha, não pedirei a prata.  Não quero ter nas minhas mãos o homicídio do baluarte da Cultura ocidental que é a UC. Gostava, no entanto, de poder mostrar este diploma ao meu pai, que foi afinal o principal responsável pela sua existência: pagou-me o curso, abdicando de outras coisas e sei que enchê-lo-ia de orgulho ter esse tubo dourado nas mãos e ver então essa confirmação, perante todo o mundo, de que o seu filho mais velho não só acabara um curso universitário, como cumprira, pelo menos em parte, a promessa que mostrara quando, em criança, mostrava tal memória que ganhou a alcunha de Enciclopédia. Seria magro consolo depois do tempo de desemprego que ele foi forçado a assistir, com uma mágoa disfarçada, mas ainda assim aposto que teria bem mais vontade de colocar o diploma na parede do que eu. Este senhor meu pai foi o mesmo a quem a Universidade pediu dinheiro durante anos, numa inflação de preço do meu curso (que é dado num edifício a cair aos pedaços e que não vê obras de fundo há décadas), e por quem não mostrou esta pequenina piedade que me pede quando o assunto é dinheiro. Tendo em conta o aumento do preço dos cursos universitários, e a sua utilidade no mundo real, nos últimos anos, a carta que recebi é quase um skecth de Monty Python ao qual só diálogos são necessários.

O meu pai nunca vai perceber que isto se deu. A minha mãe teve o diploma nas mãos, sorriu no paradoxo de que um documento tão inútil talvez seja a melhor coisa para se orgulhar depois de o seu filho mais velho ter passado ao lado de todas as tradições universitárias possíveis, mas tal como eu, tem coisas mais importantes com que se preocupar. O diploma é de prata, mas o tempo é de ouro. Ao contrário da prata, não se pode comprar nem recuperar com climas económicos mais favoráveis.

sábado, maio 17, 2014

Pequeníssimo texto sobre apoios


Tenho ideia que foi Oscar Wilde o autor de uma frase que define muito bem as relações entre as pessoas: é muito fácil ter pena por quem sofre, mas os verdadeiros amigos são os poucos que se alegram com os nossos sucessos. Talvez seja verdade. Mas quando os nossos amigos ignoram o nosso sofrimento, o que que dirá isso sobre sobre nós?

Dou por mim a pensar nisto de quando em vez, e muitas vezes sou injusto. Passo a mim mesmo e a quem me ouve a ideia de que não tenho quem se preocupe comigo. Tenho; e com probabilidades gargantuanas, mais do que mereço. Os últimos anos têm sido de descoberta, e convenci-me (não sem provas) de que habita em mim um eremita que acha necessitar de companhia. Estranho paradoxo e violenta contradição, mas para quem, como eu, passa o tempo a escrever ficção, seria lógico cultivar uma certa contradição em mim mesmo. É dessa contradição que nascem as personagens mais interessantes. Como não foi uma vez única que me chamaram de personagem, estou a presumir que não seja por acaso.

Não dou valor suficiente aos amigos que tenho. Não consigo pedir-lhes desculpas suficientes por esquecer-me muitas vezes do apoio que me dão, do amor que me devolvem, da estima que me têm. Nesta altura, mais ainda. Boa parte desses amigos são recentes. Oscar Wilde olharia com curiosidade o fenómeno do desaparecimento de uma fatia enorme dos meus conhecidos. Como, quando me sinto perdido num rodopio, parecem ter sumido num triângulo, não sei se vestindo bermudas. Já pensei mais nisso. Já me custou mais, já me doeu mais. Agora abraço o presente, aqueles que me dão a mão e choram por mim o tormento que me torce. Ou que me perguntam com oportunidade. Ou ainda que são parvas quando isso é chamado e rir é o melhor remédio contra os efeitos da Doença.

Obrigado a todos os nomes das minhas páginas, mesmo quando o meu sorriso é amarelo. Para vocês, como deve ser, há sempre espaço, existo sempre eu; e por isto também, as minhas enormes desculpas.

quarta-feira, maio 07, 2014

Ele, ela e eles


2014 ainda tem tudo para ser um ano de compacta devastação à espera de espaço para varrer a minha caixinha emocional dos cantos às paredes, mas inesperadamente, dois factores tornaram esta jornada anual em algo de agridoce. Um foi a aparição, directamente de nenhures, da Daniela e de toda a suspensão da realidade que acontece mal ela entra em cena. Seria um fenómeno que Max Planck estudaria, até porque envolve a teoria dos quanta. Mais especificamente, quanta devoção ela me tem e que parece não conhecer limites. Partilhar horas com ela e ser a esponja da sua infindável capacidade de entusiasmo não só me descongela um pouco, como cria um outro mundo, o terceiro aparte do real e daquele dentro da minha mente. O outro factor é a carreira épica que o Benfica tem feito esta época.

É mais universal de compreender o efeito do primeiro. Penso que qualquer pessoa que já se viu embalada num berço de paixão nascente entende porque é que uma explosão de vida consegue atenuar uma paisagem de morte. Mas um outro tipo de paixão, aquela que se pode nutrir por algo que não respira e anda é mais complicada de explicar. De facto, posso ir mais longe, dizendo que ao contrário da Daniela, o Benfica não me devolve o amor que lhe dou. Está ali há 110 anos, e já teve mais amantes do que um actor porno rotinado teve na sua carreira. Sou apenas mais um que por aqui passa, se perde por completo e se entrega a uma devoção que é irracional e que embora não correspondida, é generosa e recompensadora. O Benfica reduz-me a racionalidade, e lança-me em noventa minutos de impropérios, desgoverno e no caso deste ano, alegria constante e vontade de sorrir. Há também um sentido de camaradagem quando se ama um clube. O que descrevo não é específico do Benfica, e crentes noutras religiões da bola poderão identificar-se com este redemoinho de emoções dos quais não se sai. Uma velha máxima diz-nos que apenas não podemos trocar de duas coisas: a nossa mãe e o clube de futebol.

Vejo habitualmente sozinho os jogos da minha equipa, mas na última quinta-feira abri uma excepção e estando o Benfica tão perto de uma final europeia, decidi que iria espernear de alegria ou vociferar de tristeza com outros irmãos benfiquistas. A catarse de fazê-lo, seja no bom ou no mau, é uma experiência de vida que recomendo a todos os que queiram sair satisfeitos em pleno desta sua viagem no planeta e suas manhas. Seguiram-se noventa minutos de topografia humana completa: montanhas de tensão, planícies de adeptos e todo um planalto andino vestido de vermelho, tendo em conta a maioria sul-americana que milita agora no meu clube. Chamar nomes a italianos nunca me soube tão bem, e partilhar frases feitas e clichés com outros adeptos fez-me sentir, mesmo que por segundos, absolutamente normal e descomplicado. Estranho sempre quem menospreza o futebol, ou o desporto, por ser simples e estupidificante. Que mal existe em ter algo de estúpido na nossa vida? Nenhum, digo eu. Sem coisas estupidificantes, passaria os meus dias aninhado a um canto, em posição fetal. Se bem que aqueles dez minutos de desconto dados pelo árbitro quase me fizeram o mesmo. Quando soa o apito final, todos berraram, todos tinham razão: o Benfica tinha explodido dentro de nós e cada um reagia de acordo com a sua ocasião, que o clube é democrático. Vi homens feitos a chorar, e não tinham ganho nada com aquilo a não ser uma centelha de conhecimento dos limites da sua própria máquina de euforia. Abracei alguns, sem no entanto partilhar as suas lágrimas e juntos, todos gritámos ao Benfica, advogando a prática de sodomia entre os jogadores da Juventus e a bola de futebol. Ser humano também isto.

Chamam-nos loucos da cabeça, e mesmo que não sendo do Benfica, é uma certeza quando se vibra com futebol. A Daniela também já começa a sofrer com o Benfica e diz-me sempre que vai ficar sem dedos em breve, de tanto fazer figas. Pensei sempre que iria levar à loucura qualquer rapariga que decidisse embarcar numa relação comigo, mas nunca pensei que a arrastasse para algo ainda maior do que a minha própria loucura. No entanto, ela gosta, e como eu gosto do Benfica e da Daniela, biso na baliza adversária onde ultimamente as bolas só iam ao poste.

sexta-feira, abril 25, 2014

Espiritismo de Abril



Comento-o em conversas e posso escrevê-lo aqui: considero que dos três feriados civis comemorativos de eventos importantes da nossa História, o 25 de Abril é o menos significativo. Não quero dizer com isto que não o ache importante, ou que aquilo que representa seja menor, e seria de facto estúpido se, como alguns, tratasse os eventos desse dia há 40 anos como um solavanco no nosso percurso como país, ou quisesse retirar-lhe o poder radical através de branqueamentos ridículos que têm acontecido de há uns 15 anos para cá (quando quiseram alterar a "Revolução" para "Evolução", por exemplo). Simplesmente, quando tudo é analisado, a Revolução não causou uma fractura tão grande quanto o 5 de Outubro (que alterou basicamente toda a mentalidade e disposição política portuguesas... ou pelo menos, tentou) ou a Restauração da Independência (sem a qual não tínhamos sequer país... quanto mais chaimites a passear nas ruas de Lisboa). A (re)conquista dos direitos fundamentais foi uma vitória retumbante e, a esta distância, tão óbvia, lógica e necessária que parece fácil desvalorizar. No entanto, as estruturas principais que controlavam o país, fossem económicas, sociais e mesmo políticas, mantêm-se: o poder está nas mãos dos mesmos; a riqueza, após um período revolucionário que parecia poder mudar isso, mantém-se com quem sempre esteve; e as instituições importantes na altura são ainda hoje os pilares da sociedade. É fácil cerrar o punho e erguer no ar um brado pelas conquistas de Abril, mas isso transforma-se na amnésia de que se baralhou para voltar dar .

Nunca foi tão imediato ser cínico em relação a Abril como nestes 40 anos, com o país a ser alvo de várias ditaduras reais e a constante histeria popular e política em relação à perda do chamado "espírito de Abril" (esperam-se médiuns para invocá-lo) a transformar-se por fim na versão lusa da história russa "Pedro e o Lobo": durante tantos anos se clamou contra o regresso do fascismo e da opressão sem que tal fosse um facto real, e agora, numa situação onde estamos a ser espezinhados de uma maneira evidente, todas as invocações dos mártires do Largo do Carmo são desvalorizados como os medos infundados de sempre. Começo a pensar que o principal problema de Abril foi ter sido bem sucedido contra todas as probabilidades: sem um banho de sangue, com um plano feito em cima do joelho e toda a utopia humana na ponta de um cravo. Criou-se uma sensação de que todos os sonhos se podiam cumprir se viéssemos apenas para a rua. No entanto, uma democracia é mais do que pôr os pés na rua, e o queixume não é arma. Eu sou filho desta Revolução, mesmo que não fosse sequer quando ela o foi, e sinto tristeza por aquelas que a viveram de todo o coração e vêem a esperança dos sonhos a cobrir o chão do Tempo em forma de poeira. A esperança é algo de muito perigoso, principalmente para quem espera, e depois se torna desesperado. Todas as revoluções têm os seus mortos, e o primeiro é sempre o Futuro. Sem nunca alcançar as proporções do que se quer, fica-se com o que nos dão, e o que nos dão é sempre pouco. O que é bom nunca nos chega, e está sempre além. É a razão da revolução: provarem-nos que não temos razão nenhuma em reclamar, ou seja, clamar outra vez. Fomos bem sucedidos, mas nunca sabemos bem como.

E repare-se que posso estar aqui a escrever estas palavras, algo que nunca me seria possível há 41 anos. O facto de poder fazer isto é o suficiente para alguns optimistas, ou conformistas encapotados, me darem a palmadinha das costas que diz "Vês como isto mudou?". Claro que mudou? Mas é justo ter para o século XXI as mesmas expectativas de desenvolvimento da década de 70 do século passado? Só para quem é idiota. Assistir à destruição da noção de Estado e de Bem Público é a maior derrota do 25 de Abril. Argumentos e esgrimas económicas que querem provar que um Estado bom é um Estado morto ignoram o óbvio e parecem dar férias à inteligência básica: o mundo não tem as mesmas regras, e um país que abdica de si mesmo mostra a mesma subserviência lamacenta do mundo salazarista. Hoje é o dia de se celebrar as conquistas de Abril, mas devia ser também a rampa do nosso ariete de descontentamento e lembrar, ao contrário do que alguns apregoam, que esta revolução tem uma cor política e os objectivos da mesma estão inscritos no documento constitucional, e alterá-los é negar essa revolução, por muito que a retórica bafienta de quem passa pelos sucessivos Governos queira servir de canto de sereia. Quanto mais leio, quanto mais vejo do mundo, mais uma certeza tenho: as revoluções são pouco revolucionárias. Podem ser invertidas com palavras e letras, e acima de tudo homens. Se são precisas centenas de homens para construir uma revolução, bastam dez para destruí-la; e esses dez de hoje reúnem semanalmente em conselho de Ministros e seguem um trabalho metódico traçado há anos, paciente e vitorioso, pelos derrotados que neste 25 de Abril sentam na poltrona e observam os sorrisos na rua, sabendo que é apenas um intervalo.

Os 40 anos do 25 de Abril não merecem este texto. Merecem esperança, merecem alegria, merecem um optimismo em relação ao futuro que não consigo ter. Merecem Sophia de Mello Breyner, mas quando a realidade assenta, merecem Zeca Afonso, José Mário Branco e Sérgio Godinho. Nós merecemos um país melhor, por muitos pecados que cometamos. Merecemos um país onde Abril não seja um ideal, mas sim um mês como todos os outros; onde a Liberdade não é uma conquista, mas algo tão lógico quanto viver; onde eu não seja julgado pelos arguidos; onde não se tenha medo de querer a felicidade; onde não se sobreviva apenas porque parece mal querer viver ou sequer desejar mais do que se tem; onde nos dizem que não há dinheiro para levantar o país, mas existem auto-estradas a triplicar, poços sem fundo de dinheiros públicos e instituições privadas que o Estado preza mais do que o Bem Público. 40 ladrões não merecem estes 40 anos, nem sequer celebrá-los, nem apropriar-se deles como se fossem seus e mais ninguém tivesse o direito de sorrir para Abril sem que isso parecesse uma ofensa. Ninguém pode ter as chaves de uma casa da Liberdade, senão esta perde o seu sentido.

O problema talvez seja esse. Há quem se julgue acima do país, acima de nós e pense que Abril lhes deu isso. Abril não deu nada: aconteceu e ramificou-se. Abril não é um instrumento, é um imaginário e uma mitologia; e como todos os imaginários e mitologias, estão a remetê-lo para o canto das ficções. Se continuarmos à espera de coronéis, continuará lá. Salgueiro Maia não é o D. Sebastião do século XX, por muito que estejamos à espera dos chaimites em casa.

sexta-feira, abril 18, 2014

Perdido


Todos nascemos com prazo de validade, mas apenas uns escolhidos pelo acaso se vêem atracados a um tempo limite. Não há sentido ou causa: apenas acontece. Está-se muito bem a planear o resto da nossa vida no seu primeiro dia, e de súbito recebe-se a notícia de que afinal os planos foram adiados sine die, na sina dos dias que se anunciam também como finitos. Não se consegue arranjar explicação, ou sequer desígnio para o que acontece, e a conclusão desoladora de não ser algo que exista: apenas é, e como é, não pode sequer corporizar-se ou ser de facto. Apenas estar, e estar é o fantasma do que deve ser mas nunca se cumpre. Não se cumprindo, é promessa traída, e quebrando-se a promessa atraiçoa-se a morte.

Eu estou há mais de um ano a preparar-me para isto, mas concluo que não consigo, nem sei se quero. Paga-se por se querer viver e fazer da nossa presença a ausência de solidão, mas é sabido que se ignora o que é mais óbvio: vendi a minha sanidade e a emoção torna-se moeda corrente da falência arterial. Não consigo afastar-me, não consigo dizer que não e mesmo fechando-me, sinto que passeio com uma sombra num mundo sem luz, e essa sombra é, afinal, o que viverei sem que tal aconteça. Não sei bem como explicar esta dor manca que não se suporta já em livros, ou jogos no telemóvel, ou mesmo em piadas idiotas. Nasceu coxa e não se endireitou. Instala-se em nós de poltrona e enquadra os nossos dias em tela fosca. Nada parece valer a pena, excepto penar até ao fim do caminho. Nem isto que escrevo me parece ser útil, mas esta interposta pessoa que "luminaria" há tantos anos o canto que visitam sempre foi a minha voz em alturas de solidão, depressão ou a fuga do que me consome. Não há lições aqui, não há sequer beleza na queda: há a sensação de não haver, ponto.

Desconheço o que está no limite do tempo. Desconheço o próprio tempo, e apenas sei que foge e escapa e que como a dor faz de mim coxo, jogar à apanhada com ele é apenas passar o tempo a atrasar-me. Não te consigo adiar a infinita tristeza do inevitável, nem fugir ao presente que ela habita de cada vez que tento reconhecer na minha memória o que o Tempo e o Acaso fizeram de ti. Se tenho poder, é o de te ver como quero e não como estás. Fecho os olhos, tudo recordo e retorno eternamente ao que eras, onde tinhas um prazo de validade sem expiração impressa. Aí, tu és tu mesmo e não uma sombra. Desenhado com linhas cruas e fortes. Se dos olhos fechados brotam lágrimas, não sei, estou além. Quando voltar, logo decido qual a história que contarei a mim mesmo. Terei tempo para isso.

quinta-feira, abril 10, 2014

Viagens


A sensação mais agradável que existe em viajar é a de não sermos nós próprios durante uns dias. Não é que escapemos à nossa natureza própria, ao que nos empilha solidamente e é reforçado por cada rotineira acção e movimento que constrói aquilo que conhecemos como o nosso quotidiano. Apenas, como se fosse um poliedro cristalino, varia o ângulo e a refracção da luz e aparece assim, como se nunca lá tivesse estado, uma outra pessoa que vagamente reconhecemos mas sem certezas que alguma vez a tenhamos encontrado. É por isso que viajar é diferente de ir dar um giro, uma volta, de passear, de ver as vistas, espairecer a cabeça ou ir ali e já voltar. Tudo isto se faz até na nossa rua. Viajar é alguma de muito mais profundo e importante, porque retira-nos do ovo e espalha a casca por todo o lado. Em vez de supormos aquilo que pode haver, vamos de facto ao encontro daquilo que é; e a certeza é a de que nunca voltaremos iguais ao que partimos, como se os quilómetros fossem um cinzel que por nós passa e altera feições e formas, sem nunca nos deformar. As viagens mudaram o mundo, mas viajar raramente é mundano, e quando se o for, então é porque nunca se viajou de todo.

Possuo uma lista do tamanho do meu fémur com os países que gostava de visitar sem alguma vez ter tido a coragem, acima de tudo, de fazê-lo. Vai desde a Nova Zelândia até à Argentina, e pelo meio cabem habitats tão variados como a Escócia, o Chile, o Canada (com o apêndice Alasca), a Noruega e um lado simplesmente masoquista da minha parte adorava espreitar por detrás da cortina que nos mostra o Irão em tons foscos. Estende-se a lista, ficam os meus pés. Um mapa é um campo de sonhos, e a cada colheita novas raízes caem no chão para originar novas searas. Uma pescadinha de rabo da boca sai ao prato de cada vez que se cumpre uma tarefa de viajante: já se está a pensar na outra. Acredito que seja isto que sentem os verdadeiros viajantes que sabem de cor as companhias aéreas mais vantajosas, os spots de dormida onde há menos percevejos e cuja desenvoltura pessoal permite passear sem grande medo num mercado de armas em Cabul. Invejo-os, a todos, e apetece-me bater-lhes e louvá-los em doses muito semelhantes. O conhecimento que se traz de uma viagem reduz os dos livros a uma obsolescência ridícula, e de cada vez que converso com alguém que encheu a mochila de nada e a trouxe com valores maiores do que o NASDAQ só por ter conhecido a desconstrução da dúvida, sinto-me um berlinde. Um viajante guarda para si a vantagem do mundo, e eu só possuo o handicap do sedentarismo.

Tenho a minha dose de viagens, principalmente sozinhas, principalmente em torno do meu rectângulo que me serve de país. Guardo muito delas, mas o que não guardei, porque se tornava estéril, foi o quanto cresci com elas, o quanto descobri em mim e de forma egoísta, pouco procurei no mundo por estar demasiado concentrado em mim mesmo. No Renascimento, acreditava-se que o Homem era a medida de todas as coisas, mas o meu mundo é demasiado pequeno para engolir aquele maior onde há demasiado para ver e descobrir. No entanto, e no meio de todo o novelo de pensamentos, a galeria dos meus passos encontrados exibe em exposição quadros com o estranho efeito de cristal que falei ao início: vejo os Penedos de Góis, vejo a Fonte Fria, vejo o Cântaro Magro, a Costa Vicentina, a familiaridade da serra da Lousã, os monstros benévolos que habitam no final e aquele dia onde estive acima de tudo o que conhecia e viajei acima do que se conhece, até um ponto onde deixam de existir lugares e o destino é o local onde tudo se desaparece para ser, de facto, um todo. Mas reservo para mim esse sorriso, como quase todas as viagens que tenho a solo. Agora, numa outra sala, tenho o Castelo dos Mouros, as Portas de Montemuro, o Portinho da Arrábida, o Cabo da Roca e um pedacinho de terra que é meu património. Sei que também lhe vou juntar aquela lista do tamanho do meu fémur, mas as pernas serão nossas, não minhas. O sorriso, esse, para ti. Como sempre, aliás.

sábado, abril 05, 2014

A(mo)r



Um corpo de algodão mirra com a chuva, mas o teu cresce e esmaga-me. Não fico surpreendido, pois só tu conseguirias, ao mesmo tempo, saltar à corda com as leis da Física e jogar à macaca com a tabela periódica. Já encostaste a cabeça ao meu ombro, mas não deixou marca, o que ainda te entristece. Os três passos que ofereceste ao chão à nossa esquerda serviram para ganhares novo balanço. Estamos aqui há alguns minutos só para descobrires se é verdade o que leste, ontem, acerca da densidade do ar. O ar é denso. Riste e entregaste a essa afirmação o mesmo desprezo que se oferece a um bolo que não nos sacia a fome. Como pode o ar ser denso se quase te consegues vestir com ele? E é quando ficas mais bonita, respondo, quando mais nada para além do fino tecido do éter te cobre, te modela e me separa de ti sem que estejamos separados. Um pequeno sorriso corta a chuva, a leve risada que te provoquei é breve, mas embora esteja ensopado é quase como se tivesse ganho três quilos de tecido impermeável e pudesse agora receber o dilúvio bíblico na esperança de ser eu próprio uma arca. Talvez concordasses. Numa noite, pelo menos, admitiste que havia um animal dentro de mim.

Onde leste isso? Não me respondes, pois a tua pergunta foi bem mais longe do que o ar, e já  saltaste para as estrelas. Sem poderes vê-las, acreditas que lá estão, mas é tudo uma questão de fé, pois as estrelas, como se diz tantas vezes, podem não estar lá de facto, e nesse caso, se um nevoeiro aparecesse do chão, como se as ervas fumassem cigarrilhas de anti-matéria, e nos separasse e eu não te pudesse ver, será que estarias e eu também embora não nos pudéssemos ver. Talvez estivéssemos. Estar não é ver, e mesmo que não te ver seja estar uma coisa, que é triste, és e não estás. És em mim, desencarnada, e existes bastante nos meus dias. Existes quando me levanto de manhã e descubro que saíste para o trabalho. O teu calor ainda treme a cama, e é como se estivesses mesmo que tenhas desaparecido e num outro canto da cidade sejas estrela. 
Não, não sou estrela, sou mais asteróide. Apareço de fogacho, queimo, mas trago comigo uma cauda enorme de rochas e detritos, e se acelero demais e apanho algum planeta desavindo na minha órbita vou fazer mossa. Recordas-te daquele documentário sobre a cratera do Iucatão? É isso que posso deixar. 

O ar frio condensa-se em torno da tua boca enquanto te lanças nessa arenga sobre crateras e sobre seres uma arma de destruição maciça. Eu sorrio e no meio da tua insegurança, encontras uma espécie de porto de abrigo onde podes guardar o teu porta-aviões e tirares o dedo do botão vermelho. Esticas os braços e eu sou velcro. A chuva mantém o seu metrónomo e questionas a escolha de sair de casa, naquelas condições, sem qualquer chapéu. Não estamos assim tão longe da porta. Podemos voltar. E voltamos. Enquanto o teu corpo se reencontra em mim, decido decorar o teu pavilhão auditivo com palavras: se fosses um asteróide prestes a colidir com a Terra, o ar denso iria abrandar-te e talvez até desfazer os teus detritos. Eu sou o ar, eu sou o amor que tritura essa causa de devastação que preferes envergar como se fosse a tua farda, e não te lembras que a maior densidade é a dos corpos que atravessam o ar e que são atravessados pelo amor. Não consegues parar de rir. Eu também.
Gostaste? Sim, foi piroso, e tu és pirado. Combinam bem.
Beijamo-nos e regressamos para o interior de casa.

Já agora, ela comprovou que o ar era realmente denso. Uns anos mais tarde, numa viagem ao Planetário. Fico feliz por informar que o mesmo ficou de pé e que a cauda de detritos foi enterrada umas semanas antes quando ela deixou de ser ela e passou a ser nós a sério. Desde então que somos uma constelação, e quem olha para nós vê sempre uma figura. Ou duas, a fazer figurinhas à chuva.

terça-feira, abril 01, 2014

Carris


Alinham-se os carris a Norte, sem descarrilar, e bilhetes picados no apeadeiro de Santa Clara: muita a terra a percorrer até Carrazeda de Ansiães. O Expresso da meia-noite, e para lá disso, conduziu quatro por uma linha até às sete quintas junto ao Douro, de manhãzinha. Era a hora marcada, o ponto combinado. estação terminal de um traço contínuo que a ser transposto e a cuja única multa era a satisfação. Sem sono e directamente ao despertar, calcámos assim terras e carris do Tua, que é a nossa. Nossa porque desejámos, pensámos e em andas de curiosidade andámos de Brunheda até Fiolhal, inter-estações, interstícios, interessados: na luz da manhã, o marulhar do rio e da corrente fazia tambores das pedras seixos, como se o murmúrio da terra quente, ali ao frio do arrepio, ondulasse as curvas da derme até tremer a alma. Por isso vieramos, 300 quilómetros, 300 do raio que t'Esparta: fazer o caminho, prestar homenagem ao labor da Natureza que o betão vai aterrorizar e sumir e devorar sem digestivo. O Mundo dá, o Homem vende por um quinhão os tesouros ali tão perto do Pinhão: fraude a debalde, aldrabice pegada no desapego ao que temos de mais verdadeiro.

É com estas linhas que se cose o destino de quem decide aventurar-se pelo ventre de Trás-os-Montes. O tempo parou e nos vértices e segmentos de recta que arquitectam os montes é perene a emoção da viagem no tempo sem necessidade de qualquer máquina: basta sair do nosso epicentro e de pés bem assentes na pedra descobrir o que os socalcos recalcam e os ecos do socorro ígneo ressoam no chão, nas traves, nas ruínas. Mas nada posso salvar, não está nas minhas mãos e alguma desolação sustenta-me os músculos enquanto estou presente a caminhar num passado que não tem futuro. Apenas nos meus olhos, onde existem carris que embalam para a minha estação da Memória, existe eternidade até a centelha fundir, e memoriar é a única maneira de tornar infinito este património mais do que o mundo: o esforço de homens a trote num cavalo de fogo; a marcha irresistível do planeta que abre vales e esculpe matéria por acaso e acidente; o sopro do Tempo que por tudo passa e nada deixa sem roubar um pedaço, uma oportunidade, uma hipótese. No pouco tempo que usufruí, vi dentro de mim vivências que me sorveram aqui um decénio antes e como que guardei tudo num vaso o que cruza entre o passado e o presente. Afinal, é isso esta Linha, e o evento maior é o de segurar o Tempo, colocá-lo num caderno e fingir que se aprendeu a pôr-lhe travão. Mesmo que, chegados ao Fiolhal, aquele monte de cimento horrendo acelere sobre as recordações a uma velocidade vertiginosa.

sábado, março 15, 2014

O medo


Nunca consegui perceber se os Medos tinham medo. Duvido, e até de duvidar tenho medo porque não estava lá. Na Ásia Central daquele tempo, o caos e a confusão eram mais corajosos do que o medo dos Medos, mas ainda assim estes conseguiram ser de todos os mais organizados, e entre esses todos estavam os Assírios e os Persas, que durante vários séculos tiveram medo dos Medos e por isso lhes pagaram couro e cabelo, não sei se saídos por causa de tanto tremelique. Não sei se o medo veio dos Medos. Nem sei se aprendemos os medos, ou o corpo é que se organiza, tal como os Medos, para sentir o calafrio como única maneira de se manter em contacto com a sua própria fragilidade. O medo relembra-nos que somos frágeis, caso contrário não tínhamos medo. Por isso, talvez esteja a meio caminho entre o natural e o aprendido: a vida ensina-nos a dor, e nós temos um encontro imediato com o temor e o outro primo do medo, o comodismo. Se não nos mexermos, não temos medo; mas o problema é que se os Medos não se mexessem, não nos tínhamos. O medo é ao mesmo tempo bloqueio, e auto-estrada sem portagens. É caminho, mas também atalho para a desculpa.

Tenho medo da morte e da solidão, sozinhos e de mão dada. Medo da morte, porque não a entendo; medo da solidão, porque dela sou catedrático. Estar só é algo que percorre a minha vida, portanto sei o que é existir assustado. Não sei se já nasci assim, ou se também aprendi o medo pela dor de ficar e de fugir. Qualquer uma delas magoa, e em ambas há o medo de ficar só connosco ou no meio de muita gente. Algumas solidões são mortes, e é dessas que tenho medo, e são essas que me tremem e causam terramotos. Colocam-se os pés no chão e só se sente pavor de que este se abra e nos engula, e o buraco tantas vezes é a boca de alguém que nos traga seja a expelir palavras, ou a inspirar-nos num beijo que tem o simultâneo encanto da coragem nos cabelos, e do medo nas rótulas. Tremelica-se e abana-se porque um beijo pode ser um sismo onde a saliva forma tsunamis quando movida pela língua, em ondas que nos levantam o ser e nos destroem a razão, e deixam, quando tudo acaba e cada um recolhe às suas fendas, um rasto de medo de que o desastre seja natural. Mesmo quando não o é, aguardamo-lo, e o beijo, que é coragem, amedronta porque nos abrimos a um mundo desconhecido, supra normal. Por isso os fantasmas são medos, e nas dunas de um deserto que a garganta cria quando acaba o beijo, eles vagueiam e lamentam que o medo sopre o vento nas areias que se colam ao céu da boca e relembrem os mesmos desertos que os Medos atravessaram quando venceram o medo.

Perdem-se uns Medos e ganham-se outros. É a lei da vida, é a lei do mundo e quantos mais Medos desaparecem, mais o mundo parece preencher-se de outros povos, de outras coisas, de outros mundos. Quando o meu medo desapareceu, deixei que me preenchesses. Tenho medo disso, mas prefiro tremer no teu colo a estar seguro num buraco.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Divenire


Fiz meu o sonho de um amigo, o Cruz, e na verdade fui egoísta, porque também era amigo do sonho. A ideia era subir um rochedo, por nenhum outro motivo que ver acender o interruptor que se esconde debaixo do horizonte, lançando o beijo com que o Sol se volta a apaixonar pela Terra, reeditando um namoro eterno que se repete e nos apaixona também nesse tango que luz e sombra dançam. Onde muitos vêem direcções, eu prefiro ver sentidos, e o Cântaro Magro era o que me fazia sentido. Sentar-me no seu topo, como quem domina uma besta indomável; dormir no seu dorso debaixo de um cobertor de breu e estrelas, com a música das esferas em repeat e aguardar por esse momento que nos relembra porque é que acordar e ressuscitar são primos direitos, embora em graus diferentes. O sonho do amigo não era esse, mas o meu sim, e por isso digo que é egoísta esta intenção de tomar para mim as intenções de outros. Quando todos somos humanos, há sempre um chão comum, e todos pisamos esse chão do maravilhamento, de abrir a boca ao espectáculo do mundo.

Outros sonharam também, e todos partimos. Gordo era o sonho, mas o Cântaro que o guardava num cofre dizia-se Magro, o que me parece apropriado, visto que subi-lo é um bom programa de dieta. Mas chamava-nos um engodo curvilíneo e rochoso, nas bordas do Cântaro. Os primeiros homens construíram monumentos para honrar os deuses, e todos esses deuses eram preenchidos pelos elementos que os rodeavam: as montanhas, os astros, as paisagens que esmagam e abismam, e nos colocam a soberba no nosso devido lugar. Esta ideia de ser menos do que somos surgiu do bom senso: se este bisonte em forma de calhau é tão maior do que eu, como posso questioná-lo? E subir montanhas tornou-se na prova definitiva de que estávamos prontos para ser mais do que menos. Uma lenda diz que o verdadeiro espírito do Renascimento começou quando o italiano Petrarca alcançou o cume do Mont Ventoux só para saber o que estava do outro lado. Como se conquistar aquele macio rochoso e ermo marcasse a emancipação do Homem. As nossas intenções era bem mais prosaicas, mas revestidas daquele lirismo que enche quem se enamora das altitudes; e todos os que ali estávamos tínhamos uma relação platónica com o desafio de trepar e de subir. Podem dizer que os motivos são caches, mas é mentira, é sempre mentira. Sobem-se montes e penedos para regressarmos ao que já fomos, e mesmo que digam que o que foi não volta a ser, sabe-se bem que se pode ser, sempre.


Alcançado o topo, eis o esplendor no granito; e ao longe, o horizonte queimava em chamas que se desvanecem no turno da Noite. Outra coisa não há a fazer senão sentar e a única dúvida é se abrimos os olhos para tudo engolir, ou os fechamos para tudo absorver. Qualquer uma das opções é gourmet, mas nenhuma delas substitui duas latas de atum: a cabeça adora o Ideal, mas o estômago é bem mais amigo das proteínas do que dessas côdeas etéreas. Distraímos o vento cortante debaixo de um rebordo de calhau, entre cartas e paleio, e quando a hora do lobo chegou, cada um recolheu à sua toca e puxou o fecho éclair. A autoestrada celeste estava congestionada, mas entre tantos veículos parados, alguns aceleras cadentes brindavam quem contemplava com ultrapassagens à velocidade da luz, a mesma que marcava o compasso do meu coração. Tantas vezes sinto que o meu corpo é incapaz de conter a beleza do mundo, e nessa noite, enquanto puxava o sono com uma guita, era isso que berrava em mim. Olhos bem abertos, deixando entrar tudo, com Ludovico Einaudi nos ouvidos, num lapso de tempo onde se vê passar o infinito em segundos. As estrelas são tantas que parecem poeira, e a poeira que se desvanece devia sumir, mas não: fica em cada um de nós, nas frinchas das memórias, e só pode ser sacudida por um fenómeno tão poderoso quanto o Universo, o Tempo. No entanto, naquela noite, porque o Sonho era maior, tínhamos quase a certeza de vencer o Tempo.


Quando regressámos do outro lado do sono, as cinco e meia marcavam o compasso de espera. O Cruz abeirava-se do Cântaro como um esfaimado se acerca de uma mesa de banquete, e ao longe, os tons cada vez mais alaranjados do horizonte anunciavam o que pressentíamos: era o momento de começar o romance. Demora o seu tempo, mas vê-se um globo de luz a flutuar atrás daquela linha, como se tivesse sido largado de uma qualquer mão invisível. Vai subindo, e os recortes das montanhas gradualmente nítidos. Destapa-se um lençol, e muda-se a cama de rocha, onde as pregas e as engelhas são os montes e montanhas e cântaros e fragões. O frio que nos esboça a face em traços cortantes é apagado e nasce, num desenho aconchegado, o calor do entusiasmo que provoca o confronto com essa fonte de vida que renova a sua visita e o seu amor pela parceira onde temos os pés: um planeta que nos esmaga e no entanto torna a nossa existência leve, com mais sentido do que direcções. Ali, em pé, no topo do Cântaro, olhei o Sol e não tive medo da vida, naqueles minutos. Não senti que havia um depois, apenas que existia um agora, e que vivê-lo era a única coisa que interessava. Caches e eventos para segundo plano, agora existíamos eu e o Sol. Guardei várias fotos na máquina, e na minha cabeça um retrato impresso a fogo: eu, a Montanha e aquele que nos abençoou; e quando meti a mochila às costas e abandonei o topo, senti-me mais alto do que uma Lua em Quarto Crescente.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

2


Eu já entro no carro com o meu sorriso a sangrar, mas não mostro. A tua tristeza  preenche todos os espaços vazios no interior, e por isso, enquanto conduzo, é meu dever não te mostrar que estou como tu, desejoso de inverter a marcha, mas sabendo que o caminho é não dar voltas ao tempo. Passou em linha e chegou ali. Sabíamos que chegaria, e dois dias passam depressa, embora saibamos transformar minutos em meses através da alquimia dos abraços. Tem sido assim, quando nos encontramos, e a realidade da distância não esbate a ilusão de termos conhecido alguém que faz valer cinco dias de espera, e que os torna banais sem nunca nos banalizar.

Sou do contra, e quero que todos os dias sejam segunda., Quero que todos os dias comecem no sítio onde este acaba, e quero receber-te e recolher o meu prémio de segunda de manhã, e que segunda e terça sejam como a primeira. Quero que continues a esconder palavras no meu ouvido, e que me recolhas à procedência do teu coração balancé e que empurres até que eu perca a noção do salto de fé. Quando só temos dois dias, é um salto em comprimento contínuo. Mete-se um ponto final parágrafo que parecem dois pontos, e as interrogações culminam numa exclamação. A exclamação de ser do contra, e de ver a semana reduzida a ti.

Nos outros dias, volto a regular e a ser eu. Deixo de ser quem vês na segunda e na terça, e respondo à pergunta se alguém pode ser quem não é: não, não pode. Embora ande a brincar a ser Bruno durante 5 dias por semana, parece que só consigo sê-lo em dois dias, nas segundas e nas terças em que és a primeira, e me metes a quinta a fundo numa quarta no masculino. Sou eu, porque nos outros dias não sei sê-lo, e é estranho porque me sinto sempre eu. Apenas não quero existir como tal, e em dúvida, não sei nem respondo: invento-me outro, até que o comboio te traz e faz descarrilar os disfarces.

Estou atrás da linha amarela, enquanto saltamos à corda com as nossas línguas. Entras na carruagem 4 e a tua mão faz qualquer coisa que parece um aceno, mas que interpreto como "Estás na palma da minha mão". E estou. É a pura verdade, e tu também estás na minha. A diferença é que tu tens um berlinde na tua, e eu um mundo inteiro em expansão dentro de mim.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

20 acções que te desenham



Sentar numa cadeira de sete pernas que nunca encontrara. Ler "A Ilíada" em grego e sorrir a cada linha, mesmo que nunca se tenha aprendido grego na vida. Fazer um mapa do meu corpo, e mesmo assim perder-me em atalhos no teu. Pensar no amanhã, mas preferir viver hoje quando estás a pensar no anteontem. Ser atropelado e sofrer três fracturas expostas, todas elas nos ventrículos. Levantar a relva, e plantar os pés firmes com raízes no teu cabelo. Semear ventos e colher a tua tempestade. Não arriscar, mas andar em cima de uma corda bamba no teu umbigo. Saltar à corda, tropeçar no chão e estatelar-me em ti cheio de arranhões de delícia. Não raciocinar e afundar-me guloso, em vez disso. Enlamear-me de ti, e escolher estar sujo. Escutar-te e pensar que é Einaudi. Folhear dicionários e sentir-me com a primeira classe. Passear no campo, sentir a relva nas mãos, mas saber que és uma planície com Everestes. Degustar, mas num tasco. Jogar como o Aimar,  a abrir o livro, perfume divino a cada toque no esférico, magia a cada movimento, 3000 suspiros em cada remate, oferecer golos desprendidos,  numa relação embeiçada com o que se conduz. Mirar-te como se leiloa um Miró às escondidas. Atribuir um Óscar de melhor guarda-roupa por seres quem melhor ma guarda. Valer tudo, mas proibir-te um prazo de validade. Debitar palavras, e ter um crédito infinito de acções. Rebentar num beijo e apanhar os cacos num abraço que nos reúne.

Acabei o esboço, e engelhei o nariz: é a ponta do icebergue. Volto a guardar e espero-te, como quem não sabe cruzar as pernas quando a impaciência é um parente afastado do regozijo. Na árvore genealógica onde fazemos a nossa casa, a distância é a nossa madrasta malvada.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Um pequenino suspiro


Fico surpreendido na mudança quase nula que houve em mim agora que consegui encontrar finalmente alguém que me atura. Sempre me disseram que este seria o momento em que iria amolecer e alterar, e no entanto a pessoa que partilha comigo momentos que entre dois encaixotamos concordaria que continuo a ter o mesmo grau de acidez e desagradabilidade que me torna no maior sucesso em festas, eventos sociais e oportunidades de partilhar ideias com o público. Mais incrível ainda é que ela não se interessa, não se importa. Quando me vê e quando me ouve, ama mais do que teme, e isso faz-me surgir um temor de amor e de humor com primor, que é a única explicação para aquele alinhamento marcial de quase 30 dentes alinhados que lhe batem continência pela simples razão de que ela se materializa muda à minha frente. Nunca pensei que os meus braços pudessem ser ouro, mas tendo ela o toque de Midas nos lábios não me parece complicado. A gente troca palavras, e gasta palavras com a ideia de que não temos preço um para o outro. Falamos como milionários, beijamos como magnatas, olhamo-nos como quem é pobre de palavras e encontra um método de troca alternativa, em offshores acima de nós, nos nossos sonhos.

Uma coisa ela não alterou: continuo um analfabeto romântico, cujas palavras são como beijos peganhentos e mal dados quando toca a descrever o que é verdadeiro, autêntico, real. O teu próprio nome é uma miragem nos meus dedos e na minha boca. Como se, quando te tentasse descrever, corresses o risco de desaparecer só porque sou incompetente. És a nascente das coisas secretas: eu só agora cheguei aqui, um iniciado. Ensina-me. 

terça-feira, janeiro 28, 2014

Os meus ascos: a praxe



Tenho sido demasiado lírico nos meus últimos textos. Os mais recentes convertidos a este blog mostram júbilo e apreço, mas quem me acompanha quase desde o início sabe que este blog se fez com asco, sarcasmo e particular desprezo por quase tudo. Onde há uma opinião polémica a dar, as minhas palavras lá estão a criar inimigos e a aumentar esta aura arrogante que me rodeia quando decido dizer a alguém que a sua estupidez acabou de, mais uma vez, poluir o mundo num rasto viscoso. Nesta fase em que há co-adopções, praxes, congressos do PP, a habitual inércia de Cavaco, o Facebook em barda, Lars von Treier com novo filme nos cinemas, proto-feminismos e neo-machismos e mais algumas boas oportunidades para gerar a controvérsia, as minhas mais sinceras desculpas aos leitores fiéis e antigos que se habituaram a ler aqui o que é desviante e indiferente à dignidade humana. Podia-me desculpar atrás do cancro alheio, mas isso não é desculpa, pelo contrário: quando um familiar nosso carrega em si tal ignomínia, a raiva cresce ao invés de sumir. O sarcasmo é proporcionalmente crespo, e parece que tudo à nossa volta é motivo para cacetada certeira e cerrada. Prometo, desde já, estar mais atento à actualidade que desponta, e à laia de apetite, deixo algumas considerações sobre três temas que têm enchido murais de opiniões semi-idiotas (e algumas profissionalmente idiotas, pois os seus actores mostram-se useiros e vezeiros nesse tom que muito me anima e enfurece em simultâneo). Hoje, navegamos até ao Meco, à Alta de Coimbra, a um costume que funciona no mesmo princípio de existência das touradas: é antigo, tradicional e os visados não se queixam.

Falo, claro, das praxexs. Tenho lido tanta coisa acerca disso que a certa altura comecei a pensar que apenas se falava mal da praxe porque era moda, e não porque tal prática fosse errada. Hoje em dia, quando algo começa a reunir consenso, há sempre vozes que se levantam e existem em defender o contrário apenas porque a moda é algo que lhes comicha. Também é verdade que se lê muita coisa que arrepia na sua histeria, desconhecimento e até subserviência. Quando alguém venera as palavras do Dux Veteranorum de Coimbra (um indivíduo que, lembro, está desde 1988 no Ensino Superior, ainda não acabou o seu curso e todos os anos defende a tradição do seu cargo e a perseguição que o Governo faz a gente do seu calibre), pareceu-me que tinha de se pôr um travão na insanidade. Nunca houve dúvida na minha mente de que a praxe, no geral, é uma lepra social. Quem usa as versões mais soft (das quais fui vítima uma vez, e não são nada que envergonhe o estudante por aí além) ou obras de caridade motivadas por algumas praxantes mais santinhos para legitimar o acto praxante ou se está a esconder daquela que é a realidade generalizada ou então sobre de perturbações mentais capazes de fazer corar muita gente com meio cérebro. Estas brincadeiras no Meco transformaram aquilo que é um atraso mental num acto que de criminoso tem a completa abstracção do que há de valoroso na condição humana. Quem conhece, sabe que a fronteira entre certas praxes e a definição penal de crime salta à corda com a linha do Código da Praxe, uma fina tela que protege os seus perpetradores de acusações que, no mundo real, seriam quase imediatas. Olhando para o caso da minha cidade, a campanha de relações públicas do Conselho da Praxe é incrível e quem se queixa dessa tradição quase passa por careta. "Vejam bem como eles entram no jogo e gostam", querem-nos fazer crer. Quase nos sentimos culpados por estragar o divertimentos a toda esta pandilha de foliões. O pior da praxe, como em quase todo o tipo de festividades e costumes, é que dependem de pessoas; e no geral, rejubilem os meus leitores mais fiéis, as pessoas são horríveis e falíveis. Se puderem abusar, abusam; se só puderem pensar no seu divertimento e prazer, assim o fazem. Praxar não é muito diferente de sair à noite em Coimbra em época universitária: bebe-se até rebentar, e o que se passa a seguir não é culpa nossa. O excesso é justificado, porque acontece e nunca podia ser evitado. É Coimbra, dizem por aqui, mas acredito que seja Lisboa, Porto e outras cidades também.

O que fazemos não existe por si: é um reflexo do que somos, do que somos capazes de aceitar e até dos nossos próprios medos. Por isso, não se apressem a apedrejar Duces e afins como culpados únicos desta história: não conheço um único caso (embora admita que possam existir) de alguém obrigado à força a ser praxado. Quando estudante, recusei-me a ser praxado e nunca mais me chatearam. Conheço casos semelhantes, logo coço a cabeça e concluo que se alguém se vê exposto a comportamentos aberrantes é porque assim o deseja. Seja para enturmar (outra eterna legitimação da praxe: porque como os meus amigos sabem, as minhas amizades começam todas por sentar gente de quatro) ou simplesmente devido ao desejo de poder, no futuro, humilhar a fornada seguinte de caloiros iludidos, os praxados entram no jogo de livre vontade. Há algum medo envolvido: de não ser bem sucedido, de não ser integradi, de simplesmente não sermos adequados ao mundo novo a que chegámos. Não é muito diferente da vida em geral: há apenas uma amplificação natural numa idade de gente impressionável e onde a afirmação pessoal é uma demanda pessoal levada ao extremo. Prepara-se o futuro e o que aí vem: aceita o que te dão e se não aceitares... Já sabes. Quando não se sabe o que é melhor para si mesmo, espera-se que o bom senso dos outros impere. Ingenuidade ou ilusão? Ambas, e aquilo que faz de nós, tanto tempo depois, um pouco órfãos de figuras ditatoriais. Dá a ideia de quem ser alguém para nos dar ordens ou biqueiros, não conseguimos viver. Connosco, parece ser da praxe.

P.S: Por favor, não me venham com "Mas na minha praxe pintámos paredes de casas velhas para velhinhos habitarem", porque para além de mostrarem que a noção de "relações públicas" não consta da vossa vida, ainda estão a dizer que nunca fariam nada de bom se não fossem obrigados a isso. Nenhuma das duas vos fica bem