segunda-feira, julho 18, 2016

Linguagem



Encontrei-a na conferência, mas ela a mim uns dois meses depois, se a memória não foi atropelada pelo sangue. Sem palavras estava, com uma pequena comunicação sobre filosofias e linguagens, cuja origem nem me interessa gora, mas apenas que nas minhas mãos meio texto se alinhava enquanto que a restante metade esperava criação instantânea no momento em que após "Senhoras e senhores, o doutor Rodrigo Melo" fosse esperado da minha boca iluminar uma plateia inteira com ideias e conceitos, alguns prosápia, uma dose de verborreia, mas tu nem assististe. Soube eu depois, claro, tal como depois soube que ver-te naquele dia não foi tão inofensivo como pareceu. O nosso cumprimento, mãos uma na outra, fora um falso negativo e o cruzamento no coffee break mais grávido de oportunidade do que parecia. Claro que só o soube quando me conheceste então, dois meses depois, e no entretanto nem pensei mais em ti. Mas também não me lembrava de mais nada desse dia: conferências são todas iguais. A minha vida de académico é uma câmara lenta de deja vu, só mudam as estantes.

"Posso perguntar-lhe algo?", e voltei a reparar em ti. Uma lembrança finalmente colocada no lugar, no passado vestias azul, naquele momento qualquer coisa semelhante ao vermelho, e essa cor assentava-te muito melhor como descobri mais tarde, principalmente quando nada vestias para ocultá-la. "Claro", e nos teus olhos de pupilas perspicazes a pergunta que só não podia ser calada por quem ou é maldoso ou então acha uma piada tão grande à vida que lhe descobriu o sentido: que é escrita por um comediante: "Você inventou aquela conferência toda, não foi?". Tremi e entaramelei um pouco, meio chocado meio zangado, todo eu mais vermelho do que a tua roupa. "Só metade", e nem escondi o meu pequeno crime. "Até gostei, e digo-lhe que preferi assim: conferências costumam ser habitualmente instalações artísticas mal montadas, e eu gosto mesmo é de thrillers". Ela era da corrente comediante, portanto, e falámos logo dos nossos altos e baixos de conversas em público, de como imaginar a plateia nua nem acalma, só enerva, porque existe sempre alguém com ar de quem tomou banho pela última vez no século XIX e sem roupa, então, que pivete. Concordámos que a falta de desodorizante não combina com o excesso de sapiência, que a pluralidade dos mundos habitados de Giordano Bruno pode ser contraposta ao minimalismo das mentes ocupadas de tantas e tantas universidades, e que o truque infalível para o relaxamento antes de falar era uma ida prévia à casa de banho. Ela preferia kiwis, mas comigo geleia de morango quente nunca falhava. Hábitos nossos, que eram de cada um, mas na conversa se foram tornando num património que podíamos tornar comum e transformar em amizade. Trocámos cartões.

Nunca nos ligámos no entanto. Sei bem que esta história teria sido bem mais engraçada com posteriores encontros, a rapidez de um beijo escondido, depois de horas de rica conversa sobre o mundo, a vida, as correntes do conhecimentos e todos os demais termos que nós, professores, usamos para passarmos por gente esperta. Na verdade, passaram-se três anos até que nos voltássemos a reencontrar e apenas para dizer um rápido olá entre voos no aeroporto de São Petersburgo. Ela falara sobre Dostoievski e a cidade (a que eu assistira, apesar de nada ter a ver com a minha área) e eu fora apenas com a minha ex-mulher de dois anos como apoio moral. Ex-mulher, não ex-amiga (foi sempre, aliás, e mesmo quando morreu, vinte e três anos depois, continuava a ser talvez o mais feliz divórcio dissonante da lógica que encontrei). Mandámos umas piadas, recordámos aquela longa conversa uns tempos anteriores e seguimos cada um a sua vida. O cartão que me entregou ficou guardado, numa gavetinha, mas bem trancada, porque como na vida, e como nas comunicações de conferências, a minha especialidade era deixar a coisa a meio: abrir em grande de depois ir improvisando, e ela notara o meu improviso, desmontara-o e sempre pensei que, se um dia a convidasse para um bar, se nos escondêssemos num recanto mais afastado de todos, sorrindo, acariciando o tampo da mesa como metadona da pele, ela descobriria que Rodrigo Melo é um daqueles que aparece mas não fica, que surge mas nem urge e que se rasgar convicto um papel, é para mais tarde recolá-lo. Estava aqui alguém demasiado bom a ser mecânico da observação para que de repente lhe abrisse o meu capot. Preferia que o meu motor tossisse. O meu telemóvel nunca apitou o seu interesse, portanto deixei-me ficar estacionado.

Penso nisto enquanto espero falar sobre mecânica da pontuação e a filosofia de Popper. Bem chato para vós, bem interessante para um conjunto de ressequidos na plateia. Esta está toda escrita e revista, nem eu sonharia improvisar sobre Popper. Seria Impropper (desculpem a piada, garanto que costuma resultar em certas salas mais filosóficas). Faltam uns segundos para entrar. Então, um rapaz, cópia de imitação de classe, entrega-me um bilhete. "Vem da plateia", e espreito um pouco pela cortina vendo apenas sonolenta gente esperando soporífero. No papel, "Acabou a espera", e não entendo, nem a filosofia, nem a linguagem. Quando entro, ela sobe ao palco, agarra na comunicação, rasga-a e eu nem quero saber dos papéis, só consigo forçar uma miragem que me racionalize tudo aquilo, e quando ela, que nem o nome quero pronunciar com medo que suma em fanicos, cruza os braços, seio que quer que improvise. Que desta vez faça tudo por inteiro, mas da maneira mais difícil. Improppério (outra piada de salão), e o microfone ligado recebe-me: "Desconstrução para reerguer o mundo, e recuperar a linguagem", um silêncio absoluto, algumas palmas, estardalhaço receptivo, todos contentes por poderem« sair mais cedo, e tendo aprendido tanto sobre Popper como se me tivessem escutado por inteiro.

Ela devolveu-me o cartão. "Demorei, mas cheguei, e onde estava não digo; mas sempre vim a teu caminho" e perguntou-me logo se havia algum bar para onde nos pudessemos escapulir. Claro, disse, conheço um com recantos distantes. e onde as mesas são mágicas e seriam as únicas onde me atreveria a imaginar todo um mundo de palavras arfadas que faria brotar da sua pele.

sexta-feira, abril 01, 2016

O que fica e o que vai



Cá estou num barco, que mais parece um berço tal o embalo das ondas, e só consigo escutar a água no marulho do barulho. Nunca gostei de barcos, nem para pescar e amigos meus adoravam isso. Acordavam de madrugada, material arrumado em sacos e estojos, o alto mar como destino. Nunca me interessou. Fiz uns anos de corridas automóveis, era mais novo, e a sensação de ver o mundo a ficar para trás, da ausência de permanência e de multiplicar os tempos, quase como se pudesse viver o passado, presente e futuro nas voltas de uma pista, faziam-me sentir um tipo com poderes incríveis. Um barco está parado ou avança sem vertigem, mesmo quando abre as velas, como o meu, ou com um motor carcaça que mal o arrasta o suficiente para tornar o céu numa ilusão. Barcos são bons para quem gosta se parar e observar, e para mim isso sempre foi uma perda de tempo. O momento é o que é, e acabou. Foi-se: na velocidade, os momentos dividem-se e multiplicam-se e somam-se aliás a cada vez menos tédios. Um barco representava tudo aquilo que, para mim, a vida não deve ser: estática, paciente e frágil, submissa a outros elementos foram da minha própria vontade,

Mas a vida é quase toda ela submissão, aprendemos nós com os anéis nos ossos. Seja  ao panorama ou às suas pequenas partículas, e a Lia foi o meu bosão de Higgs. Apesar da falta de velocidade quando nos conhecemos (algumas palavras trocadas na festa de aniversário de alguém comum), também senti o mundo a ficar para trás, como se a mesma vertigem dos motores existisse nos olhos de uma outra pessoa (e existe). Nas nossas palavras, poucas, nasceu uma espécie de adrenalina que não se encontra nas pistas, e eu soube, desde logo, que o inquebrável que sempre conhecera como a minha pessoa estava destinado a ser vergado, de livre vontade. Aproximámo-nos, associámo-nos, juntámo-nos e durante anos, fomos cadeia, até que, há meio ano, ela se desprendeu de mim, e na verdade de tudo, pois pouca coisa que não a memória pode prender alguém que morre, e assim se extingue de forma deformada, cedo e sem que eu possa controlar. Algum tempo antes de ter chorado tudo aquilo que contive desde os dilúvios adiados da minha infância, convenceu-me a comprar um barco. O motivo era idiota, algo relacionado com nunca ter visto o pôr do sol num horizonte marinho, e quando lhe perguntei se não era para isso que serviam os cruzeiros, a Lia, que era bastante possessiva, desenrolou um imenso ensaio oral sobre a podridão do mundo e das pessoas e que nada disso lhe estragaria o desejo. Tínhamos o dinheiro e na altura, o fantasma do nada futuro assombrava-nos em fôlegos. Comprei-o e assim, o gentil movimento de uma bola de fogo que pica o ponto atrás de um limite fictício foi um ritual semanal. Nenhum de nós sabia manobrar o barco, mas felizmente conhecemos o Ti Rola, antigo pescador, homem que vivia na rua e que por um acaso, se é que foi acaso, surgiu e ouvindo comentários sobre o mar e sobre as suas incertezas, tirou do peito aventuras marinhas de outras idades suas, e bóia puxa rede, nos envolveu nesse pequenino sonho de pegar num barco para que eu e a Lia navegássemos num outro tipo de oceano, onde se encalha em recifes e não beijos e duas cadeiras de praia podem ser os lugares mais preciosos para se assistir ao espectáculo do fim do mundo, com a certeza de que nos dia seguinte este recomeça, de novo caminhando para o sue renascimento como cúpula da noite.

O que faço hoje, com o Ti Rola ao meu lado, é simplesmente forçar-me a deixá-la para trás: entregar ao profundo aquático estas cadeiras, mas estou aqui há umas três horas e não quero despedir-me. Nem é a primeira vez que paro e me recordo e sou acometido da única paralisia que é cura e não doença. O Ti Rola entende e vem, de todas as vezes. Gosta do mar, gosto do sal, gosta até dos limites fictícios. Eu também lido bem com o fictício e menos com o que é real. Por isso gosto mais da vapidez da velocidade do que do olhar permanente e fixo de embarcações que se sustentam sobre a densidade fluida das águas. Se tu fosses passageira, tudo era mais fácil; mas foste hóspede, e é muito mais complicado despachar uma casa do que um carro.

Mais difícil então é deixar para trás o que nos põe de pé de manhã e nos deita à noite.

sexta-feira, março 04, 2016

Escolhas



Lembro-me de ser mais novo, criança no recreio da escola entre toques de campainha, e em qualquer canto a hipótese de encontrar minúsculos dedos a tocar o acordeão de um "Quantos queres" cresciam à medida dos meus passos. Quem inventou esse jogo certamente se fartou de jogar à lotaria, entre tantos milhões de hipóteses e possibilidades, e numa qualquer inocência que já sabe muito bem do que a vida joga, reduziu tudo a oito, e sabendo também, que a vida não só é roleta, como também póquer de cartas escondidas e bluff, atribui um algarismo a cada escolha: escolhes o número, calha-te o desconhecido. pode ser maçã ou banana, pode ser vermelho ou amarelo (e só quer amarelo quem ainda não percebeu que na magia das cores, o amarelo é demasiado revelador e tem tanto mistério quando um banco de madeira acabadinho de pintar. Não um carcomido: os carcomidos já apalparam tantos rabos que imaginar um exército de pessoas sentadas é um pedido para nos sentarmos), pode ser carro ou foguetão. Quando te pedem, não sabes, e não saber faz parte do jogo e da piada, do riso que se segue ao aleatório, de uma certa roleta de amigos que gira e giros que são, só riem porque também eles já quiseram quantos, e quandos.

Cresce-se e de um jogo de oito hipóteses aprendi vários mais, com múltiplas escolhas de escolha múltipla. O meu preferido, no entanto, tem uma só: abro a porta do quarto e se estiveres lá dentro, um ponto apenas pode levar a vários caminhos, maiores até do que o quarto (e nalguns momentos, maiores até do que é maior, para ser sincero). Atravessar a fronteira entre o mundo e essas quatro paredes é tão arriscado quanto seguir para lá dos Urais, e tão perigoso. Adoro encontrar-te estendida na cama, a ler só. Esse caminho, por si, puxa perguntas sobre o livro e recriminações que não se falam e só se olham. Se não estás a ler, simplesmente olhas o tecto, e perguntas são também estorvos, pois estás a olhar bem para lá de tudo, desenhando um outro mundo onde te confortas de poltrona. Dizes-me várias vezes "Vou acolá, onde não me prendem, e não és tu quem me agarra, mas sim, este ar podre do quotidiano, onde se respira secura se queremos viver e passar de um dia para o outro sem medo do sacrifício", e esse olhar que me repreende é viagem e trilho. Enquanto olhas o tecto, mais vale a pena deitar-me no chão e nem sequer tocar na cama. Quando entro na casa de banho, não demora mais do que a passagem de um pente até que estejas também, olhando por cima do meu ombro. Perguntas-me o que faz um homem quando percebe que, no espelho, é outro que não aquele que viu pela última vez. O mesmo que a mulher, provoco eu: sobressalta-se, habitua-se, regozija-se e a melancolia do amanhã em que tudo se repete estende-se e eleva-se sobre nós. Uma vez, quando te respondi algo do género, simplesmente agarraste na minha cabeça como quem segura um ovo para parti-lo, e por momentos julguei mesmo que ias fazê-lo, mas só fechaste os olhos. Segundos que para mim foram fotografias tuas, e quando me largaste, um sorriso e um beijo na testa. Senti-me melhor.

São muitas as histórias deste quarto, impressas por nós, impressas em nós e sobre nós também. As tuas preferidas são aquelas que acabam num sumiço; as minhas, habitualmente, começam por uma brincadeira e terminam na mais séria das coisas, séria porque me muda e transforma, porque quando termina sou outro. Na verdade, são a mesma, e é um "Quantos queres?" diferente, entre risos, ou simplesmente sem barulho, simplesmente uma cadência de pingos de corpos, das quatro dimensões da língua (que, saibam vocês, só se podem ver com bocas a três dimensões: a que sobra, a quarta, ninguém sabe bem como apanhar, mas o certo é que todos a sentem e desejam), de elementos puros, do cheiro a tempestade que se define pelo movimento e também pela paz depois do movimento, de uma série de escolhas e de coisas que começaram bem antes de fazermos de um quarto algo de parecido com um quinto dos Infernos. 

As escolhas, os caminhos e tanto que pode acontecer ali pelo meio. Nós incluídos, e quanto termina, não é bem um fim, mas outro começo, outra história.Um sem número delas.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Quantos queres?



Se o fumo da memória se pudesse agarrar, de maneiras quem nem eu entendo nem a Física permite e nem a Química gera, as minhas mãos seriam uma caverna. Não sei se alguma vez observaram de perto uma pintura rupestre. Não é exactamente uma pintura: na verdade, é feita tão em braille, com entalhes e depressões, que se pensarem que os nossos antepassados eram cegos ou viam com as mãos não se tornaram alienados de repente. Figuras e desenhos são, na verdade, a expressão física de alguém que quer deixar marca, que se recusa a simplesmente vaguear no sopro de vida que lhe foi concedido e não se importa que o que tem à frente seja rocha, ou que esteja frio medonho e incapacitante e só exista, à entrada da caverna, uma pequena fogueira, ou que de repente um urso entre e o apanhe desprevenido. O importante é o prolongamento de si para o mundo que conheço, para o real que faz parte dos seus dias. Ele vai, mas ao mesmo tempo, há-de ficar.

As memórias são assim. A inevitabilidade do seu sumiço é certa em quase todos os casos, mas enquanto existem são marca do que já não é, e o que não é pode ser um momento fugaz, uma longa história que se estica ao ponto da transparência ou a pessoa que quando esteve era tudo, e mesmo não estando é um bocadinho mais do que devia ser. Não sei em qual destas categorias coloque a Olívia, que passou em mim como um pincel pré-histórico. Eu, superfície rugosa; ela uma palha de aço encarniçada. Juntos só podíamos criar faísca e daí ao fogo é uma baforada. Tudo o que me lembro é de ter desaparecido, porque eu caibo aqui e nesse passado fui tanto que a minha existência passou de certeza por um estado da matéria desconhecido, no meio ponto entre acontecer e simplesmente apagar-se, onde quando nos sentamos explodimos em trezentas e setenta mil partículas, cada uma delas um ponto que a Olívia beijou, e por isso não pode ter durado meses, nem sequer o meu tempo de vida.

Não me consigo lembrar, sabem, é o maior problema das memórias, é que nunca nos lembramos delas, nem quando as temos presentes. Por natureza, não se pode confiar na memória, nem para consolar. Nunca é bem o que se viveu, mas pode ser até bem mais do que houve. São tudo o que temos, mas são nada ao mesmo tempo. A Olívia simplesmente seguiu o seu trilho de amnésia, ou não, nem siei, nunca lhe perguntei nem posso e fiquei com este saco de memórias que é também um saco de nada, cheio de ar, que virado do avesso deixar cair precisamente o que já existe no chão. Criar este palácio de lembranças dói na destruição, porque até que ponto não ficámos só nós com a fotografia mental da sua construção? Quando se cria algo, quer-se ser lembrado, deseja-se que mesmo ao longe, mesmo quando um regressa ao estado binário, o palácio continue a existir de certa forma, de uma maneira que ambos partilham, que em noites quando sopra o vento e eu me aperto na dúvida de que o meu corpo ainda exista por completo quando sinto tanto a tua falta, desmembrado e espalhado pelos cantos da cama, também a Olívia, também tu te desfaças um pouco e nas fendas refulja um brilho de mim, que ainda me guardas e só na ruína da noite permitas que espreite e saia de ti e também me abraças na mágoa de que não me tens de facto nos teus braços. Revives, como eu, outros enlaces de sacos no chão e mãos livres para nos sustermos, mas não nos sustínhamos de todo pois a roupa caía mais rapidamente do que nós na realidade do reencontro. Minutos depois, a queda era uma falha tectónica, e tremo ainda hoje quando o revejo.

No entanto, pode apenas ser memória, ainda que a tua pele tenha existido na realidade das minhas cavernas com dedos; e agora, que relembro, sou os teus olhos. Vejo-me através deles e não sei se é a adoração do passado ou a ignorância do presente. Não sei se esse olhar chega ao futuro, se me vês também lá, e o truque derradeiro da memória é a viagem no tempo, de julgar que o futuro acontecerá exactamente da maneira como o vejo, e que é passado e que a Olívia foi-se e não volta sequer para me dizer que tudo estará como eu penso, que pelo menos me posso recrear novamente nos espaços em aberto de um sorriso genuíno que mentia aos recantos escuros da vida da mesma maneira que a memória me engana nas manhas do que me lembro, ou penso que lembro, pois recordar é o coração a fantasia e a realidade em negação.


Mas a Olívia é, em totalidade. É tudo isto, é tudo o que nela projecto; e é também o que sempre me deu e tirou. Ela é eu e é ela; e um dia, seremos ambos qualquer coisa, quanto mais não seja uma memória.

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Colectâneas 3


Quando acordo, duas marcas espalham-se pela minha cama: a minha e a do sonho que tenho contigo. À noite parece que ressonas, mas é apenas o meu coração a saltar batidas que devia fazer. Chamo-lhe a apneia do suspiro.

Dou-me liberdade para te amar, sempre, sem me prender ao que seja. De te ver sempre que quero, de te beijar quando o desejo, de te ouvir rir quando bebo a tua alegria como alguém que preciso para que o mundo faça sentido. Dentro de mim, pelo menos, és livre de ser quem és, de fazeres o que desejas, de me abraçares quando te queres atirar contra o meu peito. Neste momento, para mim, liberdade é ser teu. Não é uma prisão: é espaço amplo onde consigo finalmente ser eu todo.

O teu nome percorre as minhas veias em maglev e agarra-se a todas as minhas células sanguíneas, ao ponto de sangrar ser o maior pecado que posso cometer.

Se a relva dos campos crescesse com os meus suspiros, o mundo era todo ele um pulmão de clorofila.

Vive em mim um ectoplasma bem definido, toma a tua forma quando, sem esforço, me recordo do ar em suspensão à tua passagem. As partículas assentam e fazem fila pelo rasto que deixas, desintegram-se por não terem a energia que sustenta o que deixas para trás, as sementes, a luz. O ectoplasma tenta ser tu, mas é apenas uma imagem. O ectoplasma quer ser tu. Deixas?

Quero dar-te todos os meus amanhãs, para que não acorde uma única vez na blasfémia de não te pertencer e ao teu mundinho. Para isso, gostava de embrulhá-los, com laçarote, e deixá-los à tua porta. Numa manhã fria, mas de calor tendencial, sais à rua, e antes de tudo o mais tens a caixa. A tua curiosidade desembrulha-a e o apartamento onde vives é de repente um canto, algures no mar do Tempo, e dás por ti no melhor dos mundo possíveis. Escolhes. Gostava de aparecer. Mas só se me invocares, pensando que mais do que tudo, gostavas de ouvir um "psiu". É a fórmula mágica do meu encantamento, está escrita na parte inferior da caixa. Os amanhãs são nossos, de uma maneira ou de outra, enquanto não desaprender a respirar.

Ela deixa-se levar, ele, levado da breca, deixa-se ser tótó, no cimo de uma torre. Felizmente, salvas-me, Rapunzel, e fica selado um conto de fadas onde vivem felizes para sempre, porque não interessa a duração do momento, mas a sua intensidade: aqui, está a eternidade.


Quando a cama é pormenor, tudo o mais biologia  do destino, e nos teus olhos encontro finalmente o que procurava desde que me ensinei a deprimir: o sentido de tudo, o caos organizado, a vida finalmente dar uma resposta ao porquê. É isto, és tu.


terça-feira, janeiro 12, 2016

Truques



Aconteceu uma noite que assim, parado no caminho, assentei mesmo a meio da migração de pirilampos. Passaram por mim, rodearam-me e no calor de Verão, estival e seco, que preenchia pontilhado os espaços onde não conseguia encontrar-me, nem no destino nem na presença, a luz era fugaz, corrida. Nem me lembro agora porque parara, pois não fora cansaço, nem urgência, nem esquecimento, nem sequer nenhum interruptor que impedira o meu corpo, frágil e entroncado, de exercer acção. Se me tentar recordar, só me ocorre o vento, soprando as searas dos campos, os mesmos de onde os pirilampos, em consonância, decidiram que era a hora. Desconheço as minutas dos minutos, mas sei que era a hora. Pequenos luzeiros, vagantes sinais no peito da noite, oferecendo-se às minhas dores, aos meus vagares vagalumes.

Parei por ti, acho. Quanto mais me recordo, mais sinto que era tudo sobre ti, sobre mim, sobre quem era antes de te conhecer, quem deixei de ser depois de, devagar, deixares tudo o resto vago, vagamente.

Sem me mexer muito, sentei-me na estrada de terra. Grãos de poeira tomaram morada na minha roupa e os pirilampos, sem avançar, haviam descoberto nas partículas e moléculas que formavam o meu casulo invisível. uma razão mais para aprender ballet, instintivo. Devia ter sorrido, mas não o fiz. nem me zangue~i, nem me aborreci. Apenas estive, e em meu redor, com o vento, as luzes, o lençol desfraldado dos campos, até mesmo a temperatura, tudo variava e flutuava, mexia, vivia. Eu estava parado, estático. Um travão na minha vontade, e tanto brilho em meu redor, acredito até que pousaria em mim se ao menos conseguisse parar o meu próprio trovão e simplesmente respirasse, sem sobressalto, apresentando um sinal de era porto seguro. Mas não, o exacto oposto.

Os pirilampos contornaram-me durante algum tempo e num golpe de súbito, apagaram-se. Reagi, como não? De olhos abertos, vi-te então, uma imagem pálida, um simples susto da noite, e beijámo-nos e então sumiste, e veio outra além de ti, que eu desconhecia, e ela sorriu e contou-me uma piada, que esqueci, mas era mesmo engraçada e tinha nas mãos coisas que nunca tinha visto, mas eram um quarto daqueles onde dormimos sem sobressalto. Não sei quem era, mas nos dedos trazia várias respostas, pois quando se sentou, os pirilampos, ponto por ponto, trouxeram o céu à Terra, encostadinho a mim, bem próximo de tudo o que está preso ao que se move sem se mexer.

Ficámos ali, sem nada mais que não o maior jantar à luz das velas sem comida que podia ser concebido. Se era ilusão, não me importava: quando lhe chamam magia, ninguém se chateia.

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Cabimento



Já é costume chegar ao final do ano, desta volta que a terra efectua em torno do Sol, como se lhe prestasse vassalagem para continuar a funcionar, e esparramar em palavras fartas aquilo que pensei do meu ano. O que senti, o que fiz, o que atingi, o que ficou muito aquém do além imaginado. Isso tudo. São vários parágrafos, muita carga emocional, um armazém vasto de memórias e recordações. Para conseguir fazer justiça a tudo o que se sente em 365 dias, à matéria da alma que afinal transforma o Tempo em Vida, ao que preenche os espaços vazios da espera com flores e árvores e montanhas, O meu coração num braseiro é o que permite pintar telas, sem nunca esquecer paisagens. Este ano vai ser muito mais curto. Prometi viver 2015, mas parece que morri mais do que outra coisa. Se o ano anterior foi o atropelo de um camião desgovernado e sem aviso, este foi a tentativa de me levantar na estrada apenas para atravessar, por vontade e decisão próprias, uma passagem de nível com guarda, no voluntário desejo de ser trucidado e arrastado linha fora. 2014 foi o ano do acaso; em 2015, escrevi o meu próprio guião, numa daquelas obras que se arrastam até um ponto intolerável, e estão apenas no início. Falhei como ser humano, principalmente para comigo, acima de tudo. Abdiquei de uma das minhas maiores qualidades, a razão, e deixei-me levar pelo mais secreto dos meus trunfos, uma habilidade quase sobrenatural de transformar a minha emoção em dois universos em expansão contínua que inevitavelmente colapsam e deixam atrás de si uma cadeia de buracos negros, Guardo coisas boas de 2015, e mais do que se calhar vejo agora. Pequeno e grandes momentos, a certeza de amar e ser amado, mais do que uma vez, a certeza de escolher o que é certo no que mais magoa, a definitiva confirmação de que em forma humana, sou apenas uma pilha de feridas. Há demasiado nestes 365 dias, literal demasiado, tanta coisinha que neste metro e oitenta e seis só cabem as lascas do que sobra. Não falo mais, porque não quero e não deixo, porque não tenho mais que partilhar, porque vivi segredos transparentes, águas que passam e regressam no seu ciclo. Foi isto, fui eu, muita coisa, e o relato disso farei a quem tiver a coragem de segurar a minha cabeça no seu colo, fazendo dela uma almofada dos meus pensamentos de tortura.

Tudo o resto já leram. Meu ou das ficções pequeninas que aqui vos deixei. Se quiserem descobrir, releiam, e imaginem, e suspirem e partilhem. Se eu merecer. O meu 2015 foi a substância dos vossos momentos aqui. Se valeu de alguma coisa, não foram dias perdidos.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Barro à parede



Noites há em que acordo assim, e desconfio que nem dormia, e me lembro se alguma vez te conheci, ou simplesmente foste um dado adquirido. Deu-me sempre a ideia de que eras menos uma pessoa e mais uma entidade, daquelas que pairam sobre o mundo, semi-divinas ou mesmo divinas de todo, e que a certa altura se fartam dos cosmos e do etéreo, mergulhando na sujidade da condição humana para experimentar o que doer sem sangrar. De lá de cima, chamem-lhe o que quiserem, os olhos sem corpo observam-nos e pressentindo uma nova aventura com a qual podem sacudir o tédio, surgem então, escolhem e incorporam, e penso que foi assim que apareceste na minha vida. Nessas noites de meio caminho, onde nem fecho os olhos e nem os abro, apenas pressentindo as paredes do quarto como uma realidade, é assim que te interpreto. Como quem pousou os pés na minha vida, mas sempre voando, planando e só aterrando o suficiente para que sentisse na pele que foste real. Sei que o foste, ou desconfio, mas mesmo a minha memória se confunde quando te tento posicionar nos meus dias, nos que passaram, e com ironias de paradoxo, só tem a certeza de ter ver num futuro próximo.

Depois levanto-me da cama e não tenho outro remédio senão convencer-me que estou desperto. A varanda é uma caixa-forte de solidão, e quando o vento sopra, a esperança é de que te desempoeire das avenidas do meu cérebro, e a desesperança é que realmente o faça, e tenha de reviver a realidade de nós, do que podia ter sido e do ligeiro cheiro a alfazema que deixavas nos meus lençóis. Seria de olhos bem abertos, perder-me em sonhos das tuas palavras, em conversas longas e cheias de curvas, rectas mas retorcidas nas intenções, de um sumo chamado abraço, de uma pausa entre o teu joelho e a tua cintura, de um número inconcebível de algoritmos e variáveis que ocorrem nos segredos de duas bocas. Quando me tento forçar a retratar o que era, como eras, quem eras, só me ocorre o abstracto, e era mesmo isso, uma força sem presença, uma tempestade de destruição maciça, uma contradição de benesse, de paz, de realização, de esperança, que deixa no rasto todo o entulho e leva consigo as almas dos corpos, como se não quisesse saber da carne ou da matéria, e ambos sabemos que isso é mentira, que noutras alturas fomos essa carne, essa matéria, e matéria mais do que suficiente para conceber num mundo real encarnações de nós mesmos em plenipotência feliz.

Olho o horizonte e não sopra uma aragem. Hoje, vais continuar um pouco enterrada e posso estar na varanda, ver os pináculos breus ao longe, montanhas da nossa memória e guardar-me para sofrer contigo mais tarde. Sei que voltas, regressas sempre e eu aqui estou, sem esperar, mas desesperando por estar à tua espera. Por querer articular um mundo de teias que me envolvem e produzir apenas farrapos.

Rasgos sem rasgo.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Perguntas e respostas



Era eu criança e ia com o meu avô salpicar-me de verde. Quem nasce na aldeia, não foge ao tractor e quase todos os dias, pelo menos aqueles em que não tinha trabalho em casa, era pegado por cabelos brancos que me depositavam numa caixa aberta e ouvia "Os trabalhos são para mais tarde", e lá íamos. Lembro-me das várias camisas de fazenda que usava, longe da moda, perto do pragmatismo, como eram todas diferentes à ida e irmanadas no mesmo castanho quando regressávamos. Os meus braços, que nessa altura eram apenas arrancas, pouco faziam. O avô levava-me porque gostava da companhia, porque sempre quisera ser professor e nunca tivera alunos, e a sorte, ou os genes, se forem científicos, deram-lhe um neto com línguas de perguntador. Eu queria saber tudo, e cruzava-me por vezes com a ideia de que os meus pais não me deixavam passar tempos com os meus avós: apenas faziam uma pausa da minha incessante metralhadora com dois lábios. Ao início, o meu pai achava mais piada do que a minha mãe, mas rapidamente ambos se uniram na sua macambúzia vontade de me ver calado e em silêncio. A televisão não me calava, nem sequer a comida, e lembro-me de ter ficado de castigo por falar enquanto comia. O castigo fora o silêncio, a que me obrigaram jurando que enviariam a comida para o lixo e que os meninos de África, que tantas vezes via cobertos de moscas no jornal, chorariam muito e a culpa era minha. Aí calava-me.

O meu avô nunca me calou. Era o que ele mais adorava, ouvir-me, e até evitava tantas vezes usar a moto-serra para cortar lenha só pelo barulho. Abria todos com o machado, balançando um corpo maciço, um carvalho perene e velho, mas resistente, e escutava todas as questões. Porquê disto e daquilo, o que é aquela fruta, esta folha, a árvore que vimos no caminho, e também porque é que a avó ri tão pouco, e essa resposta tive de esperar ainda uns anos, pois não é aos oito anos que nos contam histórias de desastres de automóvel, e percebi porque é que tinha tão poucos tios na família. Mas tudo o que era o mundo, ele respondia. Pinheiros ciprestes, plátanos; pêssegos, laranjas, nêsperas; é granito, é xisto, pode ser calcita. O mundo era para ele um desfile, só de modelos, e era como se, qual estilista, ele conhecesse de cor as forras dos vestidos. Um dia, saímos mais cedo e fomos de carro, não de tractor, e o avô levou-me ao topo de um monte. "Chama-se Trono do Mundo", disse-me", e contou-me o meu pai, e até o pai do meu pai, que aqui se sentavam os reis quando visitavam a zona. Vinham a pé, nunca de cavalo, e apenas com quem mais confiavam, sentavam-se e contemplavam. Ficavam como nós, sabes, à mercê do esplendor, à mercê da beleza, com o peito e o coração arrancados pelo que vês daqui, e não é especial por ser de um só homem, mas único porque pertence a todos". Olhei e senti-me rei, não daquele pedaço de terreno, mas de qualquer outra coisa superior. Disse "É granito", e sentei-me, e aquele professor que sempre trabalhou sem salário no corpo do meu avô ficou satisfeito e puxou-lhe os cantos da boca num sorriso que valia mais do que qualquer "Excelente" a vermelho". Gostávamos os dois daquilo.

Quando o avô morreu, felizmente ainda anos suficientes depois para te ter conhecido, prometi-lhe que te levaria numa aula permanente pelos cantos do Reino. Morrendo aos poucos, mas vivendo mais do que muitos, o avô deixara-me um documento mais importante do que qualquer testamento, e também a última fotografia que conhecemos da avó, e ela está a sorrir, acho que o fez só para mim que era o neto de quem ela mais gostava, por ter sido o primeiro. Com a fotografia, a folha trazia um retrato ainda maior do futuro que ele me pedia. Chamava-se "Nós e as serras". Desatei-me a rir, e depois a chorar. Os nós apertados podíamos ser eu e ele, ou nós, lado a lado, na reinação do solo. A lista era enorme, todas as serras que ele visitara em vida, comigo ou ainda antes de eu ser um montinho no mundo, e pedia-me agora que como ele me dera tudo, eu não podia ser menos. Escolhera-te, e a escolha era tudo o que podíamos ser, uma escolha somos nós e o que desejamos e podemos ser e projectamos, e em ti eu via-me na perfeição, muito mais distintamente do que alguma vez me vira ao espelho. Perguntei-te se querias ir, e tu pensaste, nem respondeste e só na recolha de um abraço a resposta surgiu, e eu sabia qual era. O avô continuaria a viver e a ensinar-me, mas agora numa outra sala de aula, com outra professora. Éramos os dois alunos, a bem dizer. Eu fora do avô, tu contavas-me histórias sobre a tua irmã mais nova, e do quanto aprendias com ela, e das férias com o teu pai perdidas na montanha, e invejava-te. Com o desafio do avô, a inveja acabara e íamos partilhar um reino. Não era herança, era projecto, e nas tuas mãos, como várias vezes nas do avô, encontrei todas as respostas que alguma vez desejei.

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Não ser eu



Era como se o mundo fosse a redoma dos dias, ali, visto daquele ponto. Lá em baixo, crespo e agressivo, o mar percussão pontilhava os rochedos no sopé do cabo, e eu acabara ali três dias de caminhada, e para quê? Para andar, só. Partir de um ponto, não ter sequer um fim e simplesmente despir-me de ideias e de consciência, abandonando o meu corpo aos solavancos do acaso. Nunca fora assim, nunca mesmo: era, sou, serei até quando os meus pés se cansarem de fincar a rocha, o homem do plano e do objectivo. Se saio de casa, é porque existe onde estar; se levanto, não é só para esticar a coluna; se me deito, estou cansado; e se falo, nunca é para outra coisa que não exprimir o inevitável. Tudo em mim tem um motivo e um esquema onde juntas se ligam a culatras, onde as vírgulas são apenas pequeninas pausas para grandíssimas respirações de movimentos longos e efectivos. Há quem viva: eu funciono, e um dia, concluí-me disfuncional.

Nem foi por qualquer choque ou súbito horror, mas num simples esgar pela janela do autocarro, que nem costumo apanhar, vi um homem aninhado no passeio, e estava a chover, e o autocarro parou, ali, trânsito diabólico antes da grande rotunda. Vi o homem primeiro sozinho, depois com público e queriam arrancá-lo, mas ele nada,. ali estático, e vestido de cinzento, parecia até fundir-se com as pedras do passeio. Um pateta, pensei para mim, e conclui que estávamos apenas a assistir a um espectáculo grátis de mais um maluco. Mas nem se mexia, nem falava, nem gritava, nem endoidecia. Estava, apenas, como se o corpo tivesse ficado e tudo o mais que anima o que é humano fosse uma lenda, um mito, uma história que se conta à noite. Não era doença, não era nada, ou era tudo: alguém imóvel num simples acto de incapacidade, de nem se consegur mexer, e aquela contorção dos membros junto ao tronco, a cabeça que quase desaparecia para dentro da camisola amarrotada. O mundo esmagara-o, assim. Num golpe de rasgo, paralisara-o, sem soluções, sem nada que não fosse entregar-se à infância do movimento, ao feto que não vivera ainda e assim parado, assim a pedir talvez a misericórdia da inconsciência, ficara no passeio.

Pensei que também ele um dia funcionara e e olhara para agendas e tabelas e fora de X a Z porque Y ficava no meio, e que talvez num destes dias, também eu, um indivíduo completo de corpo, ficasse assim sem mente e sem futuro nos olhos, e abandonando tudo o que fazia de mim funcional, simplesmente me desligasse e deixasse que o meu contorno no passeio fosse a minha herança para a paisagem dos dias. Fiz por mim o que se deve fazer: dar-me oportunidades, porque só em mim existe esse poder. Escolhi tudo invertido, e ao contrário então, deixei-me estar numa aldeia, nas linhas de um mapa, na borda de um espaço imaginado que de real tinha apenas aquilo que lhe desconhecia. Comecei junto de uma árvore, acabei numa falésia e na ironia das escolhas que se fazem às escondidas do hábito, parei numa falésia que não queria abandonar. Cobrindo o céu cinzento e arejados por ventos poentes, por recados do verde que cobria as minhas sapatilhas molhadas, projectados sobre mim como um impermeável que molha, mas protege e seca lágrimas que ainda nem tinha chorado, quis desistir de funcionar e entregar-me simplesmente à existência. Quis esquecer a minha vida, o que fiz, o que sonhei e perdi, e simplesmente desaparecer naquele pequenino espaço das coisas imensamente pequenas na sua simples grandeza. Quis ali também chorar o vento e as bátegas do mar projectadas, e quis se fosse possível, só existir naquela redoma, esquecer o passado, ignorar até que o tive e simplesmente ser, sem mais nada, sem peso, sem passado, só transmutar-me no que não tem tem memória e não recorda.

Se hoje lá voltarem, que isto foi há dez anos, encontram-me lá. Algo de parecido comigo, pelo menos. Já fui outra substância, já carreguei outra bola de negrume. Hoje, a única coisa que carrego é a leveza dos suspiros.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Fachada



Há muito tempo atrás éramos quatro garotos, e depois virámos quatro gandulos, cheios de si, cheios de tudo, vazios de juízo, e quando crescemos, fomos durante alguns anos quatro gajos a fingir que sabiam o que fazer, quando no mais básico que a vida tem iam inventando trezentos esquemas, a maior parte para poderem dizer que sim, que sabiam o que era ser adulto, quando na verdade ainda estavam bem na infância da maturidade. Hoje, somos só três, e ainda não consegui bem olhar para o meu carro a pensar que vai estar um lugar vazio. Nunca desconfiei que o Tiago cumprisse o que sempre prometeu. Achámos sempre que no seu estilo habitual, eram papéis para a rua, confettis de uma festa deprimente que ele montara, entrada exclusiva para os que tinham o azar de orbitarem em torno daquele carisma que o levou a chumbar três anos seguidos, e mesmo assim não ficar retido nenhum ano. Aldrabices, petas, mas acima de tudo uma capacidade quase sobrenatural de transformar um evento comum num desígnio divino e endovélico, num obstáculo que nenhum ser humano conseguiria ultrapassar e justificava assim clemência das altas autoridades. É estranho como, sentado aqui com um caixão aberto e o Tiago saído daquela que, desejava eu, fosse a mentira mais evidente, a única clemência que ele nunca alcançou foi a sua própria.

Tiago, o super homem, o devorador de noites, o criador de dias que pareciam saídos de filmes e invenções, daquelas histórias que se contam em bares e são incríveis, inacreditáveis, e os homens de mulheres de bom senso seriam acusados de estupidez caso acreditassem, mas também de idiotas se não acreditassem, porque pelas mesas, pelas paredes, sobre canecas de cerveja e copos de whisky, bastava que o nome "Tiago Ferraz" se propagasse num sopro e num bafo etílico e de súbito, o mundo virava ao contrário e sim, contar que se vira um indivíduo meio baixote, mas encorpado, a usar os cornos de um touro para dar piruetas já não parecia tão bizarro assim. "Tiago Ferraz" era a senha do enigma, a solução da pergunta da esfinge, e ao mesmo, em si mesmo, um mistério de supimpa enormidão. Se calhar, a ilusão era nossa, que o Tiago nunca quis iludir alguém ou esconder-se do mundo: de duas em duas semanas, dizia "Um dia destes, faço-o" e depois de lhe darmos palmadas nos ombros, sorríamos e pensávamos que este homem estava a ser doido. Porque uma coisa é vermos alguém macambúzio pelos cantos, a apagar-se, a entregar-se ao ar para que o sorvesse de uma vez e assim pudesse inventar-se como sombra branca. Mas nunca, ele era a alma da festa, era a corda que puxa o motor de arranque e se possível fosse, o carro vassoura que, estando os outros queimar os últimos vapores de combustível, ainda seguia em rally com a multidão. Há pessoas que são a alma da festa: na sua ânsia gulosa de tratar a vida como um banquete de rodízio, o Tiago era a alma do mundo, e como podemos acreditar quando a alma do mundo nos diz "Um dia destes, acontece, vão ver"? Não podemos, mas ali, à minha frente, à nossa frente, tornámo-nos três em vez de quatro.

Eu era um, os restantes nem interessam porque íamos a reboque. Eu conhecia-o há mais tempo, porque crescemos na mesma rua, e só quando acordei para as coisas importantes da vida, como as pessoas, é que percebi que o Tiago tinha uma vida paralela, num túnel que se afastava da superfície, algures longe de toda esta azáfama de homem de todos. Uma vez, levou-me ao cabo da Roca. O vento cuspia-nos, e nem assim ele se demovia, bem apertava o casaco e eu, encolhafado, apenas o olhava, perguntando-me o que raio via ele naquele promontório ocidental, a cauda ou o nariz da Europa, e num repente o Tiago abriu os braços, e pensei que ia mesmo voar, mas não voou. Inspirou fundo e foi como se uma epifania lhe empurrasse o sangue para os orifícios, e ele se pudesse desfazer ali em hemoglobina, mas não. Puxou a minha mão e apertou-ma. Durante uns segundos, deixou-se estar, assim imóvel, assim a sentir-me, e disse "Ela é a tua. Não a deixes, e nem te enganes", e percebi que estava a falar de ti, sabes, mesmo que nessa altura eu não soubesse o quanto queria ficar contigo, e o quanto o cabo da Roca, esse promontório do Ocidente, seria o local onde encontraria o meu absoluto Norte, segurando a tua mão com aquela que o Tiago apertava. "Sabes, continuou, eu não pertenço aqui, e daqui a cinco anos sumo, e não me vês. Não te estragarei o Cabo da Roca, não te preocupes, vou para outro lado", e lá estava ele novamente com aquela conversa em que nunca acreditámos. Na nossa cabeça,, só existia o Tiago das polkas em cima da mesa, das cantigas em plena explosão da voz, das ruas estreitas que se tornavam praças de fandangos e arenas do riso. Se o Tiago não era feliz, quem podia ser?

Mas ele sempre nos avisou, sempre. Que a vida era uma festa, mas num canto, bebendo um absinto negro, havia alguém que se sumia a cada grito, a cada passo, a cada instância em que crescíamos e nos tornávamos mais leves, abandonando tudo. O Tiago era um mártir, e a verdade é que cedo deve ter entendido isso, que por mais que lutasse, nunca conseguiria deixar o seu outro para trás, e que aquelas festas foram simplesmente a sua tentativa de nos dar a vida onde só existia, lenta e imparável, como ponteiros de um relógio que vai sumindo os seus minutos, a morte se assumiu corpórea à nossa frente. Aquele não foi o verdadeiro fim do Tiago: durante os anos seguintes, viemos a descobrir mais façanhas, mais aventuras e vários Tiagos, até: um de 15 dias na Tailândia, outro de dois meses na Islândia e até um que, fugindo de tudo, plantou um pinhal numa área de três hectares na zona de Almeida. Quando chegar a altura, montaremos lá um piquenique, com tudo a que o Tiago tivera direito. Excepto um cabo. Aquele cabo. De qualquer forma, ele já levantou voo, não sei para onde penso sempre, quando um vento mais forte me leva o guarda-chuva em dias de Inverno, que é apenas ele a ser o Tiago, e que toda a rua é uma imensa área onde me puxa para mais uma partida, mais uma brincadeira, mais uma voltinha.

Mas eu nunca acreditei nele, por isso que sei eu de ventanias?

sexta-feira, novembro 27, 2015

Colectâneas 2



Explica-me porque é que a tua cara é a razão pela qual eu desejo que o mundo continue a rodar em torno do seu eixo.

Já alguma vez reparaste como o sol tem vergonha de não providenciar tanta vida quanto tu?


Quando penso em ti, sabe-lo? Sente-lo? Criam-se tempestades eléctricas dentro do teu cérebro? Gostava de saber se o caminho que vai do meu coração ao teu te é perceptível, se quando a tua falta me faz pesar três toneladas mais, também te pesa e te dói, se nos teus dias olhas para a parte inferior do Facebook e choras um bocadinho sem deitar lágrimas porque o nome não está, tal como eu, se também te custa o final da tarde quando a minha voz não te chega e todos os outros dias em que eu me aninhava na tua mão e na tua bochecha e agora imagino-te assim encaixada em mim como quem sonha e vê tudo. Gostava, Mas ter o que se gosta é uma aventura bem diferente.


Vale o que vale. Sem ti, vale menos. Não vale de muito. Montes e vales entre a minha vontade e o teu céu da boca. Vale tudo, até, mas sem valer grande coisa. Não valeu, e mandamos isto tudo abaixo. Que dizes? Não me vale de muito o pedido, mas lá está: vale o que vale. Ainda assim, vales-me mesmo quando não vale, e quebro as regras, e na tua imagem, imagino o que a vida pode ser, quando a minha vale, mas sem valer-me de muito.

Há quanto tempo não digo que te quero, valentemente?


A tua voz escapa-se da prisão da almofada pelo meu ouvido encostado, desbrava o meio caminho entre o sonho e a vigília, cruza-se com tudo o resto que me aflige e antes de se esgueirar pela clarabóia em forma de orelha, deixa um recado: estou mas não estou. Não posso, mas quero. Não devo, mas é como se fizesse. Não esqueças; ou não, mente-te uma e outra vez até que soe a verdade. A sério. Voas e novamente, a tua voz escapa-se da prisão da almofada...


Ontem flutuámos de mão dada na parte de trás do Sol. Não sei o que vimos, porque só fechei os olhos para sentir o teu sangue por debaixo da minha pele. Nem sei se lá estavas. Para mim, sim, e o que sonho e penso, normalmente, é aquilo que existe no momento. Se todos os momentos fossem tu, fossem a tua mão na minha, fossem o que existe para lá do sol, então abriria os olhos e e abraçava-te assim, sem te tocar. Não precisava de mais, nem sequer de flutuar. Podíamos estar simplesmente de pés bem assentes na terra, mas a mente fica bem para lá das estrelas.

terça-feira, novembro 17, 2015

O que é verdade



Lá porque vos vos conto isto, não pensem que é verdade. Melhor, assumam que é, mas não assumam que eu assumo, porque senão sumo da vossa presença e nada conto. Aconteceu, mas quem teceu, não conto. Porque não sei. Quando os pés escorregam para as sapatilhas de caminhada, em volta higiénica por outro lugar que não eu, as estradas tornam-se borracha de apagar, mas nunca até agora se haviam tornado num livro que escrevo enquanto caminho. Desta vez deu-se, e o pior é que não dá para devolver. Caminhar tem destes perigos: uma vez saídos do conforto e do conhecido, entramos numa zona onde tudo pode acontecer, por muito a banalidade dos dias seja certa, e a previsibilidade da vida nos seja uma garantia de 2 anos, com a eternidade da certeza. Quando as pernas se decidem a contar uma história, o corpo segue, a cabeça simplesmente pára, porque não é com ela a narrativa.

Ora, tanta volta, e mesmo que o percurso seja circular, pelo curso desta história ainda não vos levei e agora é que vai ser. Não sei se conhecem o Vale de Embolo. É uma pequenina povoação que se sente orgulhosa pelo facto de lhe chamar povoação. Quando montes de pedras formam rectângulos, a convenção exige que lhes chamemos casas, e eu não sou a convenção, mas a minha mãe ensinou-me a, pelo menos, respeitar o mundo e as pessoas e as coisas, e a minha mãe não está aqui, por respeito à morte e ao seu poder infinito, mas se em espírito já me olhar com carinho, e reprovação, decerto ficará satisfeita, em parte, por vos apresentar de embalo Vale de Embolo como um fantástico e típico local, daqueles onde se está e se convive, e até nem apetece sair. Imaginem Vale de Embolo assim, porque, vá lá, de que serve a realidade? È um estorvo, e se vos conto isto, se o podem imaginar e não ver, mais vale que imaginem em estilo. Vale de Embolo, património da Humanidade, igreja de magnífica e onerosa ruína, ruas escavacadas em homenagem aos Antigos. Era assim, e fora neste pedaço esplendoroso da nossa História civilizacional que decidi parar para beber uns goles de água. Passeio-me sozinho, habitualmente, e a companhia da música é suficiente, por hábito, mas desidratante por esforço. Engatei-me numa laje de pedra, que fazia as vezes de banco junto à igreja. Vale de Embolo, no coração do Caramulo, fora ideia de um grupo de camponeses e pastores, fartos de viajar, e que se decidiram por armar um povoado pela simples razão de estarem cansados. Naquele momento, consegui ter empatia por aquelas simples gentes, embora me tenha perguntado se, nos horrores do Inverno beirão, pelo menos três ou quatro gerações não tenham questionado a localização.

Como turista, estava aprovadíssimo: a laje de pedra servia ao mesmo tempo de miradouro, e lá ao fundo, numa linha do horizonte desenhada por uma mão tremelicante, a neblina formava um lençol, enrugado e enxovalhado, e por isso mesmo natural como o mundo, e todas as manhãs que dele sopram. As minhas costas tomaram a parede da igreja como suas, e pude, por fim, respirar em pausas, massajar as pernas, sentir os pés levitar. Vi então, a surgir por detrás de uma casa, um braço peludo. Hirsuto e musculado, apertava a pedra como se disso dependesse o sangue que lhe corria nas veias. Durante alguns segundos, arrancou pedaços de granito, e neste ritmo caíram também pêlos do braço, e diminuíram músculos, e o braço, que antes parecera uma coluna de templo romano, era agora como que uma lança de um soldado romano, fino e frágil e branco, um pouco como me sentia naquele momento. Não se avistava vivalma na rua, eu era a única testemunha e lembrei-me, dois quilómetros antes de me ter cruzado com uma palavra que indicava uma direcção, e essa direcção, na altura cómica, enfeitara-se festivamente de horror: a cova do Lobo. Eu sou da aldeia, sim, mas de uma aldeia que cheiro bem a monóxido de carbono da cidade, e já os meus avós me contavam histórias daquelas, mas era só um braço, e que estava a ver eu, pensei, senão uma alucinação da hipoxia? Mil metros de altitude, a respiração torna-se turva, mas não o suficiente para confundir o que seja com um par de mandíbulas que espreitaram por detrás da parede, pontiagudas e assertivas, mas em simultâneo a minguar e assumindo camaleónicas a forma humana dos lábios.

Preparei-me para tudo, fosse o que fosse tudo, ali em ermos solitários. Com lentidão e calma, arrumei a água e preparava-me para assumir a minha masculinidade vertical e partir para expô-la ao resto da montanha, quando a lincatropa visão se apresentou total, ou melhor, não se apresentou de todo: por detrás da casa, surgiu uma adolescente com os seus 14 anos, nua como só a montanha se costuma apresentar, e olhando para mim como quem se assusta com as frinchas do vento à noite. Aqueles olhos negros que me fitavam, meio incomodados e meio incómodos, foram o que me convenceu de tudo. Podia explicar-me os braços e os dentes e as lupinas feições, mas aquele olhar é de quem guarda segredos de betume em cofres de betão. Mesmo na fragilidade de um corpo, as pupilas podem ser como socos, e de momento, estava a ser esmurrado sem piedade. No entanto, tomei conta de mim, num pigarreio, e olhando em redor, vi um lençol estendido numa casa vizinha. Quando ela o tomou da minha mão, respirou um pouco melhor e eu observei então nódoas negras que podiam ser de várias origens, mas eram todas nas virilhas, três ou quatro, com a forma de mãos, e percebi que por muito que te transformes e mudes, certas coisas permanecem. Ela percebeu, e mesmo que não se tentando justificar, agarrou-me com força o pulso e puxou-me a mão para o cabelo. Farrapos colados, peganhentos, vermelhos de óxido: era sangue. "Nunca mais", aliviou então a alma, e não era um motivo, mas aquela solidão de monte era outra realidade afastada, sem protecção, sem ninguém a quem prestar contas, e quando tudo aperta, sermos outros é a sobrevivência possível.

Não me quis esforçar para perceber o que para mim seria ininteligível, mas afaguei-lhe cara. e mesmo humana, encolheu-se canina e pela primeira vez nalgum tempo, sentiu algo mais do que a selva e a floresta e o distante. Vim-me embora, preso por uma trela aos seus olhos até que me afastei da aldeia e pensei no que vira, no que sentira e no que pode ser verdade ou mentira. Mas a realidade, quando estás longe do topo do nenhures, é sempre uma percepção.


sexta-feira, novembro 13, 2015

Presença



É tão certo como um metrónomo: ao dia 5 de cada mês, entro neste restaurante, arrastando chuva ou fazendo sombra à luz do sol, e numa floresta de odores, caris e especiarias de ementa indiana, procuro a mesma cadeira que já me conhece. Sento-me e guardo para mim uma hora de tempo que não existe no relógio. Eu sei que os minutos se apagam, mas não estou no presente, apenas algures para trás da cadeira e da porta e até da própria cidade. Volto a ti. Não me lembro de agora de nos termos conhecido, e isso significa que talvez tenhamos sabido um do outro durante toda a vida, que uma vez postos no mundo, o ar foi a primeira memória que inspirámos, e algures entre as moléculas, como espaços onde se habita sem corpo, estava eu e estavas tu. Recordo-me, e recordar é dar movimento ao coração, segundo os gregos, de me sorrires pela primeira vez, e de tudo o que desfilou desde então, de como pode ser mais perigosa uma fila de dentes que convida a mãos agarradas do que um pelotão de fuzilamento alinhado, com a nossa cabeça na mira das armas. A tua imagem consegue, na simples virtude de ser indelével, tornar-te presente passado todo este tempo, e ver à minha frente, e não dentro da minha mente, um momento há quinze anos, uma simples troca de opiniões sobre um livro de Borges entre dois estranhos num banco de jardim. Era de filme, nas cenas seguintes, a cadência certa do hábito fez-nos trocar muito mais opiniões, voltando ao banco como  se de um duche quente se tratasse, nas folhas e nas árvores, no vento e no sol. Eu e tu como constante do solo, pés que afagam a terra e avivam o inanimado, transformam lugares em confortáveis corpos onde conversas se espraiam e olhares são  feitos ganchos.

Um dia disseste "jà alguma vez experimentaste indiano e livros", e nunca combinara nada de tão exótico, aliás eu era um daqueles homens maçã, que na dúvida entre que fruta comer escolhe a mais banal e nem nunca pensar comer diospiros ou romãs ou fisális, é sempre mação ou pêra. Tu, a evidência de uma fisális mulher, puxavas-me a ser outro, e aceitei o convite porque me podias levar até às selvas indonésias. Ouvira falar de gente que hipnotiza com os olhos, mas quando abrias a boca, não tinha outra hipótese senão ser vidro entre as tuas palavras, não que estilhaçasse, mas sim transparente, pois nessa altura podias ver exactamente quem era¨. A tua pergunta amarrou-me e almoçámos nesse dia, rindo bastante, reparámos pela primeira vez que nos tínhamos tocado, e que as palavras podem arrepiar-te a epiderme mesmo que sejam mera invocação do desconhecido em sons perceptíveis; e foi nesse momento que se constatou o medo que existia nessa simples iniciativa, como se fôssemos diáfanos, talvez até imagens e hologramas, projecções de vontades e anseios, da ideia de gente que não pode existir. Mas o mundo é tão grande que se quisermos desenhar alguém no quadro negro da hipótese, é bem provável que algures um giz lhe tenha dado pó e traço. Decidi não te tocar, e tu na mesma, sem dizermos um ao outro, e a partir desse 5 de Janeiro, cada dia 5 cinco era de almoçar no restaurante. Começou com palavras, mas à sexta ou sétima refeição, o silêncio era um embalo e já nem sabia o que comia, pedia sempre o número 1 da carta, e ficava uma hora apenas a olhar-te e a existir na tua cara. Sabia o teu nome, mas eras tão mais do que letras e ordem. Nos meus dias, tornaras-te na razão pela qual, de manhã, te convences de que a verticalidade do teu corpo não é uma dor, e que os zumbidos eléctricos que te alimentam o pensamento são não um enxame, mas a luz da respiração.

Parou tudo um dia, e porque não apareceste. Não o entendi, mas se surgiras sem explicação mal te apresentando, existindo apenas num banco de jardim como se na minha vida não tivesse um único motivo para justificar pegadas e o meu tempo neste planeta e agora pudesse fazê-lo. Nunca me refiz de que prescindisses de mim como razão, e era isso que mais me matava, não me sentir em ti. Era como se eu estivesse a viver numa dimensão paralela, onde desejava com braseiro nos lábios, e me podia até desfazer só para te ter à minha frente. Sem qualquer outro rumo, não consegui impedir-me de ser como Vasco da Gama e aportar nas Índias, de nos trazer, a mim em corpo e a ti em ilusão, de me sentar à mesa e lendo sempre um livro diferente, memoriar apenas. Pergunto sempre se já chegou alguém, e há dois anos que a resposta é não, mas guardam-me sempre este luar, nunca se deve desperdiçar um cliente fixo e os indianos percebem bastante de Matemática normalmente, disseste-me tu uma vez. Hoje leio Wodehouse porque não quero que a minha cara seja fronha de almofada, e pedi desta vez o número 3, nem sei o que é, mas assim como assim, davas sabor a tudo e agora tudo me sabe ao mesmo.

O ar muda atrás de mim, ouçou-o e deve ser a jovem de nalini na testa, que acho nem ser dela, que me veio servir há pouco. Desvio-me para o lado, dando-lhe paisagem, mas um pano tapa-me a visão e deixo cair o livro, páginas que em bloco se protegem, e alguém o apanha e me recoloca no colo.  O pano desliza e desaparece, e a minha cara pressente pele e calor, algum suor, tremores e espasmos nos músculos, uma ansiedade, medo. Toco nas mãos e mais pele, uma face, inclina-se e cola-se à minha. Uma voz que me cresce no coração anuncia "São páginas, mas podes ler sem luz, aliás até é melhor", e quero perguntar-lhe tanta coisa, e no sofrimento encontro o valor da ignorância, ou pelo menos de adiar a iluminação, e se calhar é isso que ela me está a pedir, escuridão, e nem quero ver quem conheço de cor, apenas ser um prolongamento do seu mundo, e o valor seguro das terminações nervosas. Por mim, ficava ali até todos os relógios terem passado de validade, tornando-se obsoletos.

Mas estou a enganar-vos, pois quero beijá-la desde o nosso primeiro livro.


quinta-feira, novembro 05, 2015

Oniris



Há muitas noites que não sonhava, como se divagar nas imaginações do que não se conhece em nós fosse morte, ou pelo menos coma. Sonhar é perguntar a nós mesmos as respostas que não ouvimos, mas reverberam em corpos com a forma de sino, badalando a meia-noite como se a vida se escondesse em órbitas simples, e não no eixo de cada esfera. Por isso andava perdido, sem respostas ou sequer sem pontos de interrogação suficientes para encerrar a dúvida se movimento perpétuo que gira de todas as vezes que penso na fraqueza que me forma, me molda, me identifica. Mas ontem, entre um voo e uma aterragem, um sonho fez check-in. Picou bilhete, recolheu bagagem e algures na cortina do palco das minhas noites, projectou-se e qual truque de magia, revelou-se em mistério, pairou à procura que lhe desse interpretação.

Sonhei ontem que era um balde de legos com olhos. A mão desencarnada do que não agarro exigiu-me os cabelos e despejou-me numa carpete: espalhei-me ao comprido e ao largo, em várias peças e dramas, actos e arcos, e por ali fiquei sem que a mão me juntasse de novo. No espaço entre tudo, um uivo gelou o ar e de repente, fiquei ainda mais afastado do que sou. Uma névoa verde é fumaça e as peças eram bocadinhos de ti, e quando as chamaste, foram comer à tua mão, em monte e magote, e quiseram sair de mim para se instalarem simplesmente nos teus dedos, no teu calor e na tua essência. Não me zanguei. Estar em ti é uma maneira mais próxima de me juntar a mim próprio. Por isso foi um sonho.

Acordei e os meus contornos crepitavam quase audíveis. A cama era a tua palma, e sentia no colhcão sangue nas veias, calor de coração, batida que se força a si própria. Os rumores da tua pele são factos nos meus lábios

terça-feira, outubro 27, 2015

A caixa



Era o tipo da caixa, nem sequer lhe chamávamos homem, porque a caixa nem parecia séria e ser homem é diferente de ser tipo, tipo é mais galhofeiro, informal e mais macho do que homem. Ele gostava de ser macho, e quando lhe chamávamos "o tipo", até gingava as ancas, mesmo que não trouxesse a caixa. Quando a trazia, não se falava de outro assunto, pois o assunto era mesmo ele nunca querer falar do que ela continha. Apertávamos, insistíamos, mas apesar de termos desfiado vinte anos juntos, em novelos vários de peripécias e  recuos avançando no tempo, jamais a caixa se abriu. O respeito de não ceder ao roubo existia, mas de qualquer forma, o Carlos era uma dessas aberrações da sociedade, daqueles que conhecem o universo inteiro da saga "Star wars", mas aprendendo-o nos intervalos dos jogos de rugby da equipa universitária. Cabeça de nerd em corpo de segurança; imaginam então porque é que a única maneira de lhe vermos a caixa era mesmo convencendo-o com palavrinhas melosas, ou piadinhas merdosas. Não dava, nem bêbado, que o Carlos nunca se embebedava, bebia na proporção das marés, e ainda assim sempre em preia-mar. Com caixa ou sem caixa, encaixava as investidas, bloqueava todos aqueles que, passando os dias a pensar fora da caixa, no fundo só queriam saber o que se encontrava dentro da mesma.

Éramos crianças, algures pela quarta classe, e conheci-o no recreio, cada um fingia que era um Transformer. Todos queriam ser o Optimus Prime, mas eu e ele jogámos par ou ímpar pela posse do Moscardo. Ganhou ele, e também ganhei eu. Nem sei se alguma vez nos tratámos por amigos, era algo tão natural quanto indizível, apenas existia e era. Morávamos em cantos diferentes da aldeia, mas à vez, semana minha ou semana
dele, acompanhávamos o outro em caminhada e regressávamos pelo mesmo trajecto, de vez em quando não era bem porque pela Primavera os pomares eram demasiado tentadores. No final desse ano, o Carlos falou-me pela primeira vez da caixa, e pode-se pensar que não me esqueci disso, mas acabei por apenas lembrá-lo no ano passado, porque tal aconteceu enquanto comíamos laranjas, no pomar da dona Adelaide, uma senhora já velha, mas não era nem vesga, nem avessa a usar armas de fogo, uma combinação que junta com a tendência para carregar caçadeiras com cartuchos de sal, pode ser abrasador de várias maneiras, e eu estava precisamente a preparar um sumo de laranja, e o olfacto, num arremesso proustiano, devolveu-me a magia do momento em que o meu amigo me revelou um nariz do seu mundo, uma caixa de madeira construída por um avô carpinteiro. Não era muito grande, pelos gestos não seria maior do que um microondas, mas jurava-me o Carlos que o avô arranjara forma de não lhe dar fundo, e ainda assim, nada caía da mesma. Era impossível, e se eu achava isso no vôo imaginário da infância, em adulto muito menos. Mas esta revelação no meio de uma séria laranja foi tão vincada que os anos seguintes levaram-se pela curiosidade em brasa que me afogueava quando pensava naquela espécie de El Dorado: uma simples caixa, ou então a maior invenção desde a mentira.

Ontem, recebi uma encomenda que não pedi. O remetente era o irmão do Carlos, e explicava, num papelinho colado à tampa, que o irmão decidira procurar algo mais, cansara-se da vida, mas sem pressa das intermitências da morte, pegou em si e arrumou-se na distância entre o conforto e o risco. Por outras palavras, decidiu alistar-se numa tripulação de pesca do bacalhau e aprender um ofício novo. Não estranhei: o Carlos descontava a satisfação e era o presidente do clube de fãs do inesperado (era mesmo, fez uns cartões e tudo, e eu era o sócio número 2, até deixar de pagar as quotas, não por falta de dinheiro, mas sim de imaginação. Fora mais ou menos por aí que deixáramos de falar tantas vezes). Conhecia bem o Carlos, ainda assim: na prática, se ele se queria perder pelos mares da Terra Nova, era como se tivesse morrido. Ainda que o seu corpo se voltasse a materializar no meu olhar, o homem seria outro, e o outro é quase sempre desconhecido. Isso alegrava-me: ia adorar reconhecê-lo, reaprofundá-lo, se ele ainda quisesse aceitar no seu barco um peixe de águas superficiais como eu. No pacote então, desfeito o cartão, socou-me um objecto: era uma caixa de madeira. Estava riscada e amassada, andara aos rebolões e tombos algures, mas inteira, resistente, olhava-me sem olhos. O irmão explicou na carta que passando a ser alguém que não Carlos, as suas posses passavam a ser passas para uns e para outros. A mim, calhara-me a caixa. tanto perguntara e insistira no mistério que agora fazia parte dele. Nos meus dedos, após uma hesitação, a caixa parecia poder de facto conter tudo lá dentro. Deixei que o momento se instalasse e quando quis abri-la, hesitei. Porquê? Num mundo onde tudo se conhece, ou dizem, eu pelo menos sei tão pouco, à minha frente aparecera um imponderável. As perguntas valem mais do que as respostas, que são como um vento que desfaz torres de sal que abrilhantam o horizonte, lhe dão brilho e os tons irreais do fenómeno. Depois de tantos anos a imaginar vários cenários de descoberta e de resolução, parecia-me demasiado prosaico acabar assim com um encanto que me prendera quando tudo o mais da vida se banaliza, uma simples caixa, um complexo planeta de obscuridades luzidias. Onde sempre houve curiosidade, perguntava agora um medo informações de renda e morada.

O pequeno dilema dramático foi interrompido pelo meu filho de cinco anos. O Tiago, vendo-me com a caixa na mão e uma indecisão franzida, apontou para caixa. "O que é?", e era uma caixa, não estava ele a ver bem? "Papá, sim, uma caixa, mas o que faz? O que tem?", e apanhei-me em flagrante delito carlista, fechando as trancas ao meu próprio segredo, e tornando-me mais mágico do que aqueles olhinhos curiosos, coloquei a caixa na mesma, por detrás de mim, e disse que lá estavam o mundo e as estrelas, e que se arrumássemos tudo como deve ser, talvez coubesse o resto do Universo, mas apenas empilhado. Desconfiou primeiro, riu no gesto seguinte e com o dedinho indicador, deu a sua opinião sobre a minha sanidade mental. Coçando a cabecinha, encolheu os ombros. "Já sei, é o nosso jogo. Se eu ganhar, abres a caixa. Se eu perder, a caixa é tua, mas eu gosto mais de ti." Saiu então a correr, e eu apertei a caixa contra o meu peito, como se aquele momento com uma pequena versão de mim pudesse entrar na caixa sem eu quebrar um projecto do meu grande amigo. Um trabalho de uma vida inteira, feito por alguém com mais vidas dentro de si. Mas os seus mundos cabiam todos nas seis paredes de um cubo de madeira.

Quantas não caberão então numa esfera tão gigante de gás e solo.

sábado, outubro 24, 2015

Viagens



Havia uma vida sem ti, antes de tomares nas mãos as minhas arestas para uma vida inteira a poli-las, mas quando surgiste, meio baça, meio apelo irresistível, trazias contigo um sabor a eternidade, que não só se enrolou na ponta da minha língua, mas tomou conta de toda a minha boca ainda antes de nos beijarmos. Gostar de ti tornou-se culinário, festim onde me multipliquei em vários para não te dissipar no mundo. A refeição entrou na sua fase digestiva quando nos contaram que tinhas prazo de validade, eram seis meses, um pouco mais se te condimentasses devidamente, e nem arrefecemos esses meses. apenas deixámos ao lume, sem queimar, sem agarrar ao tacho, mas com as nossas mãos presas a cada um dos teus esgares, quando agulhas se tornaram de súbito uma pele que se enxerta, e as tuas células conheceram a morte, destruidora de mundos, na promessa de que te recriaria para este. Uma segunda vida para mim não era opção, e mesmo com a saudável certeza de não estar sequer nesse buraco, adoeci contigo, porque não tinha sequer outra maneira de me sentar, ou de te tocar, sem que de alguma forma o meu corpo não dançasse na lógica da tua presença. Não te vi morrer, mas sim evaporar-te, e os meus olhos prenderam esse vapor nas noites e nas manhãs em que também morri, na antecâmara lenta do inevitável. Dez anos foram o melhor dos mundos possíveis, mas em menos de um, o impossível chegou. Acordei segundos antes de os teus músculos se apertarem por fim no volante, e antes disso dormia sobre ti, e sonhava com comboios e apeadeiros e linhas férreas, e em ti a galgar tudo isso sem bitola marcada. Quando chegámos, partiste. Foi a única ocasião, desde que me disseste olá pela primeira vez, que te quis agarrar e não pude de facto.

A dor não é um segundo tu, porque assim, serias uma legião. Virias em multidão quando ardeste  num forno, surgirias como um exército justificado no cabo da Roca, quando voaste em muitos menos pedaços do que metros quadrados que em mim habitavas e engolirias todos os dias os meus passos, as minhas deambulações, os momentos em que o meu contorno se sentava à secretária, mas o lampejo  que é eu de facto , e não o desenho de uma caixa com duas pernas, escapava pelas frinchas do visível. Eras toda a gente, até porque eu falava com ninguém e eu não me importava. De certa forma, tornei-me radioactivo, num dia quase literalmente, quando liguei para um daqueles programas de rádio nocturnos, anunciando-me Jorge, quando me chamo Paulo, e num momento de fraqueza embaraçosa, passei um programa curto de discos pedidos sob a égide do luto. Disse tudo aquilo com que gozámos, os lugares comuns, os clichés: que não sabia viver sem ti, que levaste uma parte de mim, que quando morreste morri também, e tudo era verdade, mas mentiras, porque um pecado de ocasião é não querer ser a multidão. A minha dor era única, e é sempre, tu eras diferente de todas, nós éramos o mundo, e como podia haver comparação, páreo de tudo aquilo que fomos e que nos fizemos, de todas as camas e bancos de jardim. todas as árvores e praias, todos os olhares e barulhos, da esplêndida oitava maravilha do mundo moderno que eram as nossas mãos dadas, e chão para percorrer. Talvez tenha chorado, estou mais certo agora, porque quando terminei este monólogo eterno, o locutor eternizou-o ainda mais com o silêncio de quem se procura para encontrar o outro numa frase certeira. Falhou em miséria. "Sabe, a vida é feita disso, de perder e de ganhar", e se eu recebesse dinheiro por cada vez que ouvi uma banalidade depois não te ter conseguido agarrar quando mais importava, poderia forrar a tua campa a ouro.

Seis frases feitas depois, desliguei. Pedi que te dedicassem a faixa um daquele álbum dos Radiohead com miúdo no título, ou algo do género, só para disfarçar, e depois de uma deriva de quase um ano, encalhei no ilhéu de mim. Estendido no sofá, revi-me e de como estavas mais viva do que eu, o que era ridículo e verdadeiro, cada um à sua vez, dependendo do lado para o qual me virava no sofá. Gostava de dizer que a casa cheirava a ti, sempre, mas eu estava tão imerso na dor que já nem te lembrava ao certo, apenas uma pequena fumaça, uma comichão tua no meu peito, amplificada e crescida, maior do que eu, do que a jaula das minhas costelas, até do que o meu coração, julgado elefantino, Na verdade, apesar de eu estar, tudo o mais tinha tirado longas férias da minha presença. Era a minha presença, não havia mais, e depois de ter chorado a tua essência a um parolo da rádio, a um labrego que nem conhecia, um tal que quando pedi Radiohead me sugeriu que te passasse antes Enya, a sentimentalona irlandesa, é que descobri finalmente o rumo: precisava de me reapaixonar , para depois acabar contigo da forma mais desastrosa possível. Era obrigatório conhecer quem me completava, para nos destruir e reconstruir com toda a vontade de não ser um túmulo. A certeza era esta: no dia em que te enterrei, fui contigo, dentro daquele caixão, e estava na altura de reocupar o meu lugar, e o teu deixado vazio, para que não morresses por fim completamente. Pensei que se vivesse, que se te revivesse, te perderia para entender como o mundo fica melhor pela presença de quem, não estando, faz parte da arquitectura táctil do nosso coração, e seria eu de novo, e um eu capaz de dar várias oportunidades a uma vida além da morte, túneis de luz, o Paraíso. A tua memória seria então mais luz do que túnel, mas guardando-te, libertava-me.

Apareceu então na minha mente a nossa primeira viagem, uma travessia alpina a pé, em dez dias. Peguei num caderno e anotei todos os lugares que fizemos nossos e arrumámos em mochilas, um tabuleiro terreno de onde trouxemos pedras para criar um pequeno mundo só nosso, não esférico, mas sim um paralelepípedo. Foram algumas horas a escrever nomes numa lengalenga de persistência da recordação. Lista finda, nova parte do plano: começar um projecto, nessa mesma noite, sem voltar atrás. O destino era Barcelona, onde arquitectámos toda a uma cidade para nosso Gaudio. Roubei a mim mesmo uma foto tua, coloquei-a num envelope e fiz uma promessa, escrita e assinada com o que sobrava do teu perfume, de que te revisitaria, e levava na mochila a caixa que continha o nosso mundo, e devolveria à proveniência todas essas rochas que eram mais tu do que aquela casa, pois foram escolhidas pela evidência do teu entusiasmo. Fotografia, caixa e comigo, uma máquina fotográfica. Quero fixar-me novamente nos cenários e nas paisagens, fazer de conta que volto a existir.

Dois anos depois disso, estou sozinho, mas não só. Ainda tenho umas dez pedras, e as que deixei para trás foram sementes, e deram-me sabores que se enrolaram na ponta da minha língua, nos anéis dos meus cabelos. Protegem-me, cobrem-me, e são tu, embora sejam mais eu. Com o tempo, serei meu, e tu uma propriedade comutativa dos afectos.

Amanhã, vou deixar-te num glaciar islandês. Só amanhã. Hoje, dormes comigo, outra vez.

terça-feira, outubro 20, 2015

A casa da árvore



Voltei à casa da árvore quase trinta anos depois. No cimo do carvalho, a 100 passos do regato onde eu e os meus irmãos descobrimos o vigor da pele depois de um banho frio, um amontoado de tábuas, ainda reconhecíveis como paredes e telhado. Nem sei bem como é possível, a casa sustentava-se mais em pregos do que ambição. Nós os três, sem nada para fazer e demasiado bicho carpinteiro a roer-nos, demos por nós num Verão sem nada mais do que tempo livre. O pai decidira fazer férias um mês mais tarde nesse ano, para dar tempo a que a minha mãe regressasse a si depois de alguns meses no sanatório, e então, numa conversa ao jantar, alimentou-nos essa ideia. Um projecto nosso, uma marca dos Coutinhos no espaço. Éramos gabarolas, e entre os nossos olhares passaram momentos de peito feito, de chegarmos no ano seguinte à escola e contarmos como, com aquelas mãos minúsculas e aqueles braços que mal passavam por ramos de pinheiro manso, ergueramos algo que se visse. Na manhã seguinte, o pai comprou-nos pregos, nós mandámos umas árvores mais pequenas abaixo e conseguimos que um tio nosso, que vivia numa quinta próxima, desencanasse umas tábuas, depois de ter mandado uma cerca abaixo. Em troca, ficámos de lhe fazer a vindima seguinte; o míldio ajudou-nos, mas por outro lado não, já que as vinhas eram tudo o que ele possuía. Quando se tentou matar uns meses depois, deu-me pena, e o meu irmão mais novo, só porque sim e porque de nós era aquele que mais jeito tinha para ser humano, voltou a plantar o vinhedo. Seguimo-lo, e depois também mais gente, e sempre pensei como um caminho quase directo para a morte pode voltar a gerar vida, ali, quando um homem fracassa até na vontade de morrer, quando volta a encontrar exactamente aquilo que perdeu, só porque o ponto do fundo pode ser a maior bóia para voltar à tona.

Três semanas passaram, e quase fechámos o tecto. Em todo esse tempo, o meu pai serviu de mesinha de cabeceira à sofreguidão da minha mãe. Todas as noites nos perguntava como ia o "Taj Mahal de Macedros", e eu nem sabia o que era o Taj Mahal, mas o meu irmão mais velho, que de vez em quando lia as Selecções do Reader's Digest, ria e sabia que o meu pai, meio a brincar, nos dava o seu orgulho como uma sobremesa que satisfaz mais do que tudo o resto. Contávamos-lhe as histórias, os dedos martelados, as esquadrias mal tiradas (quando nem sabíamos o que era), o cheiro das folhas de carvalho, os pequenos pormenores que só quem sobe uma árvore consegue trazer a tiracolo. Só depois dessas três semanas o meu pai decidiu ver como a casa se levantava pelos nossos braços. Esperava sorrisos e piadas, mas ele apenas mostrou preocupação. Suspirou seriamente "Não sabia que era esta árvore", e contou então que a floresta era assombrada, que durante a noite se ouviam gemidos e o seu pai contara-lhe que aquela árvore atraía imagens e espectros, luzes e sombras, todo o tipo de malapatas que não devem visitar os garotos. Era ele ainda mais menino do que nós quando quatro pessoas deram por si penduradas pelo pescoço no mesmo ramo onde a nossa habitação se erguia. Na verdade, fora eu quem escolher a localização, era a minha responsabilidade no projecto, e senti-me culpado, sem que o meu pai soubesse. Os meus irmãos notaram-nos, e aproximaram-se, como se por acaso a maldição subisse pelas raízes daquela esplêndida planta, seria para todos nós, não para mim, e o meu pai continuou a contar que ninguém sabia quem eram, dois deles tinham até aspecto de estrangeiros, louros e russos, talvez de Leste, e um mais aportuguesado, mas se calhar também estrangeiro, estava marcado de cruzes no peito. Ele não vira, mas o seu pai sim, e o pai de seu pai, e desde então que aquelas matas navegavam durante as noites, o vendo empurrando ramos e folhas, mas colando em figuras invisíveis que se apresentavam aos sentidos. Ele nunca vira, mas quando à noite ficava com o pai a vigiar, nas épocas em que os lobos desciam  aos vales, cobria-o um frio que não soprava dos termómetros e era outra bolina qualquer.

Mas os tempos passavam, e se calhar, disse-nos, o Passado é como as linhas de lápis que trazíamos da escola, em contas mal multiplicadas: usando a borracha, desaparece, e ele via na nossa vontade de fazer de uma árvore um cadafalso da preguiça o estertor final de quem não alcançara descanso de forma natural. Nas tardes seguintes, veio ajudar-nos a acabar a obra. A mãe estava um pouco melhor, e à medida que precisou menos da botija, sem que a arrastasse entre solavancos de um mundo desnivelado, ele certificou-se que nem os lobos, nem qualquer outro sinal do mundo que nos cobre vinha para nos buscar. Eu preguei no último prego, e mesmo no dia em que a mãe finalmente conseguiu sentar-se de novo na terra em que chegámos a temer vê-la como decoração de pedra. Com tábuas, fizemos uma escada, e ela pintou os primeiros degraus, ao contrário do que o meu pai queria, temendo que o cheiro a tinta fosse demasiado para os seus mirrados pulmões. Sempre pensei que eu e os meus irmãos éramos uma pequena reserva de oxigénio, e que se ela melhorara fora para nos beijar a testa uma e outra vez, como quem procura na pele de quem mais ama a fotossíntese do corpo. Ela chegou a dormir várias noites naquele chão torto, tão torto quanto o seu sorriso. Não sei se espantámos os fantasmas, mas hoje, olhando para a casa que se sustém, conto para mim a história de quem se aguenta em pé e em pé sustém almas penadas e caídas. Quando subi, tantos anos depois, à casa, aguentava-se, e eu até tinha mais uns quarenta ou cinquenta quilos. As madeiras estalaram, mas nem temi cair. Sentei-me e na palma da mão, um frio agudo encharcou-me os ossos, como se um regato que me banhou em criança jorrasse a partir da madeira em adulto. Sem saber porquê, fechei os olhos, e vi a minha mãe em filme nas minhas pálpebras, e o que fizéramos naquelas férias depois da casa, de como ela e o meu pai, numa floresta amaldiçoada, tinham o condão de tornar três garotos em cavaleiros e feiticeiros, e de como uma casa da árvore pode ser feita de mãos, e de sangue em corrente. Cada canto tinha as nossas assinaturas,e talvez por isso a casa nunca se corrompera. Porque se dos destroços não pudesse sair uma vitória, a matéria era um contínuo desperdício; e nas minhas contas, quatro dependurados perdem para cinco perfeitos sempre em pé.

Ainda que um deles tivesse que passar o Verão a comer com a mão esquerda à conta de três ossos tortos nos dedos da mão direita. Mas isso seria contar a desastrosa relação que um martelo tem com a minha anatomia, e seria uma história bem maior do que esta.

domingo, outubro 18, 2015

Colectâneas I



Da lista de coisas que se escrevem quando não somos nós, ou o somos em excesso:

O meu contorno levita sobre ti, como se o desejo de ser em ti me desse poderes de me desencarnar e surgir em teu redor, como uma lua em órbita num delicioso planeta em com a tua forma. Pouso na tua boca, e faço-me um verbo: ser. Nesse momento, deixo de existir, mas vivo finalmente em ti.

Sonhei ontem que na floresta, nos rumores dos ramos, sopravam palavras que te tentavam apanhar, mas sem nunca sequer criar raízes em ti. Estavas muito acima delas, e eu muito abaixo das raízes, e só te entrevia em frases curtas e sem sentido, e na tua mão, seguravas um livro onde o teu corpo desaparecia, um livro verde e castanho que luzia quando aberto, menos que o teu sorriso, muito menos que os teus olhos, mas mais do que os teus cabelos, que se confundiam com o vento e com a terra. Desapareceste para dentro do livro, e perdi a capacidade de falar. Os ramos calaram-se então, e pediram desculpa deixando cair as folhas sobre mim como se aconchega uma criança que perdeu a inocência. Sem cair, o livro levita e tu voas bem acima do mundo, pois pertences a um espaço do universo onde moram as respostas.

Na bolsa a tiracolo, as palavras vagueiam como medusas. Cada uma delas se prende aos meus dedos, queimando, cheias de veneno, mas também de promessas: juramentos tóxicos. A rubra pele endurecida de tantas frases juntar tira mais um vocábulo, cola com outro, marca o compasso de uma marcha de soldados vagos e inglórios. Batem continência à tua porta, esperam ordens, prontos a ir para a guerra. Quando as bombas caem e se vaporizam, o veneno é para mim, a bolsa um dano colateral. No meu peito, combato uma guerra de trincheiras.

Ontem, perguntaram-me por ti. Não tive resposta, porque desde que te foste que és uma questão. Não lhe satisfiz a sua curiosidade; e assim, o meu coração voltou para debaixo do cobertor, que ainda não era hora de acordar.

Explica-me porque é que a tua cara é a razão pela qual eu desejo que o mundo continue a rodar em torno do seu eixo.


sexta-feira, outubro 09, 2015

A noite



Da teia da memória, pinga a noite na estrada de Unhais. A escuridão chove a partir do olhar, e detrás de um volante, mãos manápulas fixas, o alcatrão é uma cobra traiçoeira. Lembro-me do carro como um mundo, de ti no assento do passageiro a fazer as vezes de Tectónicas de Placas. na verdade, mais de aplacar, o meu coração em destaque. Dormes, e eu, de esperto, faço-me desperto, porque quando deslizas a mecânica do mundo entre curvas, os tremores abanam e estalam. Não quero pensar em mais que não seja ser mais do que o perigo, mas nem consigo alturas há em que quero travar o mundo, e simplesmente deixar que gires assim parada, de me fazer sol em torno de ti e poder encontrar nos teus cabelos a órbita que me traga a Primavera. Não posso parar, é tarde, e quando olho em frente, quando no breu os limites quase fictícios da viagem não surgem, mas evaporam-se mesmo a tempo de reconhecê-los, agarro ainda assim a tua mão. Um certo vento sopra, e na pele desviam-se pálidas imagens do que pode ser. Vão por atalhos, de becos sem saída, e auto-estradas sem fim. Quando param, não têm regresso: o redor sem entrada e sem saída é a única recompensa que conhecem. Como se fosses tão infinita quanto a paisagem, esbatida na ausência de luz.

É como se dormisse e sonhasse, embora não possa sequer fechar os olhos, mas se a tua pele me fizesse sonhar, ali, enquanto divago no que existe e é como se fosse um pensamento que não sonhei, apenas agarrei sem sequer prender, finjo que ontem sonhei. Na floresta, nos rumores dos ramos, sopravam palavras que tentavam apanhar-te, mas sem nunca sequer criar raízes. Estavas muito acima delas, e eu muito abaixo das raízes, e só te entrevia em frases curtas e sem sentido, e na tua mão, seguravas um livro onde o teu corpo desaparecia, um livro verde e castanho que luzia quando aberto, menos que o teu sorriso, muito menos que os teus olhos, mas mais do que os teus cabelos, que se confundiam com o vento e com a terra. Desapareceste para dentro do livro, e perdi a capacidade de falar. Os ramos calaram-se então, e pediram desculpa deixando cair as folhas sobre mim como se aconchega uma criança que perdeu a inocência. Sem cair, o livro levita e tu voas bem acima do mundo, pois pertences a um espaço do universo onde moram as respostas. É impossível prender-nos numa jaula de palavras.

Cheguei a ter medo, de que nem ali estivesses, fosses tão esquiva como aquela noite, e imaginei estar sem ti. Cada dia que passa sem que a tua voz me desfolhe é mais um em que permaneço ilegível, para mim e para as voltas em torno do sol. Não existem palavras, nem sons, nem gramática. Só um borrão em tons de mundo que não posso chamar de dia. Não há tempo, nem razões, nem despertares e muito menos caminhos. Não há desprendimento, nem ressurreição e a existência de outra é miragem numa selva que faz as vezes de deserto. Tudo subtraído, uma constante: só existes tu. O resto é um bocado nem mais, nem menos. Sinto-me um vaso de mal estar, e vem aí a Primavera.

Mas ali, naquela estrada, estamos ambos. Vêem-nos lado a lado, mas de verdade que estamos um no outro. Tu dormes, eu desperto para um mundo onde o teu sono é o meu sonho, e curva e contra-curva, escapo-nos rumo a qualquer lugar menos aquele, de Unhais. Não digas a ninguém, mas ali, estamos além; e mais do que a noite, é na Lua que habitamos.

sexta-feira, outubro 02, 2015

Curto apelo



Não percebo porque é que as pessoas não votam, a sério que não. Aqui há uns tempos, até inventaram que votar dava dinheiro aos partidos, e como tal, chulos da merda, mais valia nem ir. Desconheço até ponto as pessoas sabem que esta é uma pura corrente de manipulação, que a abstenção voluntária favorece os partidos cuja máquina partidária está mais oleada através de caciques e galopins que arregimentam militantes com o único objectivo de colocarem uma cruz num papelinho sem pensarem muito, apenas porque lhe ditam a vontade. O acto de votar é transgressão e um risco, e como risco é bem mais consequente do que fazer surf ou andar de skate. Honestamente, e não o digo de ânimo leve, sinto-me entusiasmado de cada vez que voto, e a perspectiva eventual de não poder fazê-lo por qualquer razão transtorna-me de sobremaneira. È das poucas expressões cívicas que se cumprem, já que existe uma aversão cutânea em muitos a manifestar-se na rua. Vivemos também em tempos onde a simples expressão de uma opinião, se polarizada ou impopular, é vista de lado. Avisam-nos que nos calemos, que nem falemos; votar é um refúgio até desses que teme levantar a voz, pois é dentrod e uma caixa que fica presa essa vontade, trancada e protegida, anónima, mas com a certeza de levar a identidade e expressão de cada um ao mais alto local de poder da Nação.

Por isso, meus leitores e amigos, votem. A sério, votem. Não estejam com tretas ou desculpas, não sejam marrões nem se armem em objectores de consciência. Não se transformem naqueles que fazem do não voto uma justificação para mais tarde proclamarem que nada do que se passa é sua responsabilidade, que não participaram no plebiscito por saberem que não ia dar em nada e tudo ficaria na mesma. É por eles, que não votam, que tudo fica na mesma. Portugal não precisa de vontades caladas: precisa de ti, de mim, de todos os que conhecemos para um simples acto, um mero movimento. Já que estás na cabine de voto, outro pedido: tem imaginação, usa da memória. Lembra-te do que foram estes últimos largos anos, não apenas a legislatura que passou, mm tudo o que te têm tirado e condicionado; e recorda-te principalmente de quatro anos onde usaram e abusaram da desgraça do país para te poderem rebaixar e espezinhar, para colocar taipais na tua vida. Lembra-te dos que emigraram, dos transportes que perdeste, do dinheiro que não mais viste, dos amgos que perderam o emprego, dos teus filhos e sobrinhos que viram a sua escola transformada num laboratório. Se tens memória para as mínimas truculências que levantas com os teus amigos familiares, de certo te recordarás do que suportaste. Pensa fora da caixa, age dentro da caixa.

É só isto.