sexta-feira, outubro 14, 2016

Cronistão 10: Banquetes


Fiz 20 anos de escutismo, grosso modo, e já dormi em várias modalidades de barbárie controlada. Tendas pequeninas e grandes, igloos e canadianas, o relento verdadeiro com cúpula pintada pela noite e casinhas grandes e pequenas onde só dormem os bichos, e até tenho para contar coretos e bancas do peixe. Já dormi em quase todo o género de locais que possam pensar, até camas. No entanto, foi a primeira vez que chamei refúgio a um Yurt, circular e branco, uma fortaleza de lona que parece querer sumir ao primeiro sopro ventoso, mas resiste sólido e protector, prometeu a quem o ergueu que não me ia deixar mal e assim é. Por fora impera o pálido monocromático, mas desvenda-se o panal que tapa a entrada e há um festival de cores, espalhadas em múltiplos tons, retalhos irmãos que formam cobertores por debaixo de mim, posteriormente por cima de mim e até em meu redor. A tenda é para 5 e mais tarde dormiremos encostadinhos, principalmente quando chegarmos de uma sessão de fotografia nocturna às estrelas que nos deixará cones de gelado. Mas agora o sol acabou de se pôr e estou no umbigo deste pequeno mundo interior, com toda a gente arrumando e desarrumando e eu simplesmente abstraio-me. Apenas regresso a mim quando chamam para jantar, e o o restaurante é igualzinho, branco por fora e espirro colorido por dentro. Variedades de comida espalham-se por uma mesa horizontal e corrida, frutos secos, pão compotas, biscoitos, rebuçados, salgados e carne seca, até que chega o prato principal que é um peixe enigma, pergunto-lhe como foi preparado e não me sabe responder. Na minha boca, segreda-me água doce e sei desde logo que veio do mesmo lago que fotografei anteriormente, O que deliciou os meus olhos consola agora o meu estômago e confunde-me a boca. O pão é também grande amigos para alguém como eu que sempre viu na comida um alçapão de incómodo.


A noite de sono que se segue é interrompida por um metrónomo sonoro, batuques de dedos no tecto do Yurt. No meu estremunho, identifico chuva e o meu corpo simplesmente se estira, relaxa, goza o prazer de estar tão longe de tudo com um prazer que me faz regressar a casa. Sinto isto sem pensar, e virando-me para outro lado como que apago e quando regresso a mim consciente, já são seis e meia da manhã. Sou chamado pelo despertador do telemóvel para fotografar. Vestido a rigor para um baile de baixa temperatura, sinto que o Yurt foi afinal nave voadora e aterrei noutro lugar. O cenário rochoso que me rodeava no dia anterior está agora aconchegado por um grosso lençol de neve, como se o meu sono fosse de hibernação e despertasse num Inverno permanente. Receio até caminhar, com medo de que esta viagem esteja ainda a decorrer, mas uso a máquina para fixar isto, ninguém acreditaria se contasse a diferença que seis ou sete horas podem fazer num local. As nuvens cinzentas quase me despenteiam com dedos e o lago reflecte a sua cor e murcha o verde dos pastos. Cavalos aproximam-se da água e param, ruminando a verdura, dispondo-se em contas geométricas, cada um a sua própria manada. São arcos defronte da escuridão das águas, contra-luz da brancura das neves e funcionam como uma demarcação entre terra, lago e céu, garantindo que são reais, mas em simultâneo aumentando a irrealidade desta visão. Enquanto caminho fotografo e vejo, ao longe, a luz solar furando de quando em vez, procurando aquecer-nos. O frio é uma capa que me desconforta, mas afirma vida em mim. Clico tantas vezes que a máquina corre o risco de se partir e quando sou insignificante aos olhos de uma montanha tão invencível que esmaga sem tocar, sento-me na terra aveludada, acolhedora e choro sem ninguém ver, porque não consigo suportar tanta beleza sem ter uma reacção física que me trema de alicerce a telhado, o mundo como uma casa tão inatingível que só consigo lá viver abdicando da minha armadura. Cada lágrima é uma benção e um agradecimento, uma alegria por estar vivo neste momento, longe de tudo o que não vale a pena e ser prisioneiro voluntário de um carcereiro chamado mundo. São coisas do mundo, que não se podem ver ao longe, como dizia a canção... e com a voz que me resta, não vou saber contar. Restam-me imagens, fotos e este sal que salta de mim porque sou demasiado imperfeito. Corre para o esplendor que o arrancou e é seu.


Subitamente, levo dezenas de calduços em simultâneo, pequeninos, Bolas de gelo brancas caem sobre mim e estou debaixo de uma tempestade de granizo em Agosto. O Yurt é a salvação e protegendo a máquina debaixo do meu blusão, com pouca dedicação ao meu próprio bem-estar, enceto rápido sprint para me proteger. O abrigo afasta-se a 300 metros e a minha corrida interrompe-se aos 50 quando me apercebo de que o ar se tornou mais denso e respirar um acto de coragem quando feita em esforço. Aos 3000 metros, viver custa um pouco mais, diz o teu corpo, como se lamentasse que para seres verdadeiramente feliz e mereceres o sorriso que tens estampado na cara tivesses de sofrer. Dar valor ao que consegues através de uma dor que é travão. Em passo acelerado, acabo por chegar à tenda. A mochila recebe a máquina, limpa e intacta, e nos cobertores, recubro-me ainda a sorrir. A dor passou e ser feliz é também deixar que o que dói corra para longe de nós, para uma altitude onde não tem outro remédio senão estacar e morrer à fome. O resto são montes nevados soprando feitiços que nos aumentam 100 vezes mais do que somos, sem que seja preciso entoá-los. Basta pensar neles e agora mesmo, enquanto escrevo isto, as nuvens rodeiam minha cabeça e estou certo que aquelas luzes que se dirigem para mim são de um avião. Daqueles que voa bem alto.

sexta-feira, outubro 07, 2016

Cronistão 9: Não ter palavras



Quero que façam um exercício e que na vossa biblioteca de memória encontrem o local mais belo que deram a provar aos vossos olhos.Não se apressem e instalem-se confortavelmente, percorrendo com delícia todo o mundo visual com que foram privilegiados na vida. Escolham devagar, com critério, com gosto. Quando se decidirem, recordem-se de como o vosso corpo se alterou nessa presença, como a respiração simplesmente se transforma, de como a vossa existência, nuns segundos, entrou num local onde a vossa mente jamais pensara subir. Enquanto se entregarem a estas linhas, mantenham no vosso centro essa trepidação do ser e tornem-se em mim no momento em que um Honda preto desceu uma ligeira colina para contemplar uma larga planície à beira de um lago onde pasta gado, principalmente cavalos. Estou a 3000 metros de altitude, a erva de um verde suave e cândido, atravessada por veias de terra onde os veículos podem entregar-se ao masoquismo mecânico. À minha frente, uma boca bem aberta, defronte de montanhas, enche-se de água e recusa-se a engoli-la. Chamam-lhe lago Song-Kol e o seu tamanho é modesto porque antes vimos uma mastondôntica massa aquática sem aparente fim. Saio do carro, tendas brancas chamadas yurts formando a espinha dorsal da vida da comunidade nómada que aqui habita, uma procissão de panos coloridos estendidos em cordas de roupa na pauta musical do vento, lançando-nos melodias que nem se escutam nem são visíveis, mas passam-nos pelas mãos.


Esqueço-os e às pessoas e fico estacado, assim como quem atrai não raios mas o etéreo, e concentro-me em como vou conseguir traduzir mais tarde o indizível. É o centro do meu mundo hoje, sinto-me tão anão  que me entrego ao cenário como um megafone que grita o esplendor. O lago e as montanhas esmagam, mas também são uma casa onde me considero sempre convidado. Tenho medo de chorar porque naquela mistura de cores e de desconhecido, de um domínio do mundo tão extenso e tão inconcebível que sou uma peçazinha sem importância num quadro perfeito, sinto-me fraco demais para suportar algo tão belo e excelso, tão único e especial, tão fora do meu entendimento como pessoa que as juntas que me suportam tremem e quase soçobram, mas agarro-me à máquina, aproveitando um sol que me acaricia com a ponta da língua e passo para o clic os clacs que me abalam. Aguento estóico, finjo apenas maravilhamento comum, mas na verdade tapo-me com um largo cobertor de espanto. Mais tarde, quando tenho alguns minutos estendido e posso percorrer tudo isto por extenso, corro todos os locais que dei a mim mesmo como provas e desafios. Apareço, feito espectro, no Cântaro Magro e atravesso a Nave da Mestra como se nada me importasse; a serra da Lousã abraça-me e nela reencontro tudo que nela me molda em plasticina do mundo e atira-me enrolado para os altos picos da Madeira, as levadas suas, a velha floresta do Fanal em nevoeiro, rolo como um tonto até aos Picos da Europa, a Ruta del Cares, rocha bruta, e noutros locais onde fui tantas vezes mais eu do que me cabia ser. Este local, entalado entre o lago e picos de oxigénio denso, é talvez o mais belo onde estive até hoje e sei de imediato que falharei na altura de transmitir a realidade do que me parece irreal e surreal.


A delícia é muito visual, mas rodeia-me uma cultura nómada que se instalou no espanto como quem já não se admira. Na Ásia Central, este é um modo de vida desde os primórdios e embora veja artefactos menos milenares como jipes, ainda há aqui muito de genuíno. As tendas pálidas, a ordenha das vacas, buscar água ao lago montando num burro, ver crianças com uns dez anos dominando o dorso de cavalos como se tivessem visto na vida selas antes de fraldas... A sensação é a de que esta gente, vivendo em altitude e distante de um traço de civilização a sério, segue o ritmo do sol, seja na duração dos dias ou dos ciclos. Chega uma altura em que recolhem lonas e animais para descer aos vales onde o Inverno não chega em brancura nevada. É um modo de estar e ser mais dependente dos caprichos naturais, mas onde o relógio interior badala com mais vontade; e quando fotografo quatro garotos de idades diferentes que brincam e se metem connosco, alinhando em "macaquinhos do chinês" sem tradução, vejo sorrisos que me lembram, vagamente, a criança que já fui. Não sou um deles, mas de máquina em punho, finjo ser. Aqui, no meio de um ponto que não existe para todos os efeitos da credibilidade, cada um pode ser o que quiser e sem memória.

segunda-feira, outubro 03, 2016

Cronistão 8: o trânsito da paisagem


Em Balkychy, chegamos ao ponto intermédio da ligação entre Karakol e o lago Song-Kol. Como outras cidades quirguizes, o império russo fez surgir no meio de nenhures um entreposto que se tornou cidade, assumindo importância estratégica nos tempos soviéticos. Mas com a queda da URSS, veio uma travessia no deserto que é quase literal, porque em redor é o que praticamente existe. É aqui que mudamos de motoristas e até que cheguem, almoçamos numa coisa que nem tasco é: tem quatro paredes, um tecto e um balcão, mas parece ter sido um improviso repentista de alguém que encontrou um espaço fechado e se apercebeu de que havendo uma estrada ao lado, não se perdia nada em montar um comes e bebes. Não consigo perceber muito bem o que há disponível para comer, entre a ausência de menu, a falta de alguém que fale inglês (tradição local) e o aspecto daquilo que aparenta ser comestível. Assertivo, regresso ao carro e puxo de uma lata de atum e quem chama ao bacalhau fiel amigo, claramente nunca se viu por terras de exotismo para a boca. Sentamo-nos os nove numa mesa redonda, o centro de uma sala perdida nas traseiras e a decoração é tão kitsch que me fere os olhos - fotos panorâmicas das montanhas saídas dos anos 80 e sobre a mesa, duas fitas peganhentas, barradas de mel, servindo de pega-moscas e resultam, pois estão carregadinhas de insectos capturados, à vista próxima de todos. Qualquer coisa neste espaço dá fome.


O Talgat chega e vai conduzir-nos, com o primo, ao destino. Numa refrescante mudança, exprime-se em língua britânica de forma competente e é alguém com quem se consegue ter uma conversa que vá para além dos dedos e dos grunhos. Fala-nos da Turquia, onde estudou e se formou em Relações Internacionais. No entanto, a sua ambição é criar uma empresa de transportes com o primo, para levar turistas a todos os cantos do país. Acredita que o futuro está nesta área. É um rapaz motivado e ambicioso, mas percebe pouco de portugalidade: o seu jogador preferido é o grande maestro Rui Costa, mas apoia o Futebol Clube do Porto, naquilo que é uma heresia que quase consegue separar famílias em Portugal. No entretanto, os quilómetros deslizam o cenário e as areias barrentas dão lugar a paisagens de verdadeira montanha, com pedra sólida e bruta, o cinzento espaçado de verdes rasteiros e altitudes que travam na garganta com o freio do espanto: várias vezes chegamos aos 3000 metros e ao longe, os picos nevados do Tien Shan, a cordilheira mágica que da China entra no Quirguistão sem bater à porta ou pedir licença, alerta-nos que da terra partimos para o céu, terreno proibido. A estrada de alcatrão dá lugar à gravilha, algo que enfrentaremos durante 50 km de um caminho que noutros países seria apenas para jipes, mas que aqui, em espantosa inversão de valores e regras, é perfeitamente aceitável para qualquer veículo ligeiro, no caso um Honda. O carro queixa-se e tosse a certa altura, gemendo o furo no pneu direito traseiro. Felizmente foi num raro pedaço plano. Talgat e o primo procedem à reparação e nós, como bons turistas ocidentais, fartamo-nos de fotografar enquanto eles trabalham. O dia pede-nos isso, oferecendo uma luz solar cujo cortejo de ocasionais nuvens transforma o planalto no couro malhado de uma das muitas vacas que vamos vendo incrustadas na paisagem. Quando a viagem prossegue, sabemos que há tanto para registar, mas não podemos parar a cada motivo. É o grande drama de fazer turismo neste canto do mundo: aqui a Física inverte-se e o espaço é muito maior do que o tempo - Einstein encontra, aqui, a morada da sua loucura.


No topo de uma das montanhas, consigo afastar-me e simplesmente ser absorvido por tudo. Nunca por completo, sou demasiado sujo e complicado para pertencer a esta pureza simples de ser, mas o suficiente para me apagar uns momentos na busca da minha respiração mais cadente, num momento de altitude que me assenta bem. Vejo quilómetros de um vale se abre por entre montanhas, a luz do sol servindo de tapete, cristas rochosas que não ameaçam mas acolhem o olhar para poder ser iludido pela felicidade fugidia do sorriso automático da beleza. Penso que é isto, que tantas vezes é vida completa num pequeno momento estático em que nos deixamos fazer parte do que nos é superior, sem fés ou crenças, superior apenas porque sobreviveu e conseguiu, ainda assim, dominar. É a beleza da montanha e julgo não haver algo de mais belo para ver. A questão é que ainda não chegara ao lago Song-Kol, estando muito longe de imaginar que por uma vez o meu cérebro se iria apagar e as palavras se perderiam entre as estrelas.

sexta-feira, setembro 30, 2016

Cronistão 7: Fadado para morrer



Desde o primeiro dia que nesta terra distante a morte me tem passado pelos olhos. Não vestida de negro, foice a tiracolo, mas a maneira que nós, humanos por natureza e inclinação, arranjámos para mantê-la presente como fantasma: campas alinhadas em cemitério, últimas moradas de gente no momento em que expira ficou mais sem-abrigo do que abrigada. Se por cá reina a opressão do branco, campas como filas de almas penadas a ocupar os cemitérios, aqui as necrópoles são quase literais cidades de morte. A semelhança de alguns túmulos com casinhas de brincar é por demais evidente e as lápides fazem-se acompanhar de zero representação. Há diferenças substanciais em relação ao Ocidente e a primeira é a localização. Habitualmente, estão fora das povoações, e por fora quero dizer uns dois ou três quilómetros, pelo menos. Encontramo-las à beira das estradas, raras vezes delimitadas, apenas ajuntamentos de memória. As cores da paisagem dominam e aqui, nesta ligação que fazemos entre Karakol e a nossa próxima dormida, são de vermelho arenito. Por fim, não se usam fotos: há retratos esboçados do ente falecido, tentando talvez apanhar-lhe mais o espírito do que a forma. Quando olhamos fixamente, as faces esfumam-se um pouco, tremem e as pessoas voltam à vida em arremedos. É irresistível parar e tirar fotos. Do nosso lado direito, a margem sul do Issyk-Kul contrasta com a oposição de brutais montanhas, guardiãs dos mortos, respirando a paz da última morada. Noto que todos têm aqui lugar: há campas muçulmanas, ortodoxas e até comunistas, presumindo eu que o ateísmo também alapa morada. Muito ecuménico, este espaço, e quanto mais o fotografo, mais em paz me sinto entre pilares de pedra que se erguem dos restos mortais de alguém. Inunda-me uma ideia em expansão, nesta cultura diferente, de que faço parte da algo maior, seja isso o que for, sem símbolos ou marcas.


O encantamento continua uns quilómetros mais à frente, quando sinto a carrinha virar para uma estrada de terra batida. Uma placa indica "Skazka" e não entendo Quirguiz, como sabem. Pergunto o que quer dizer e respondem-me que vamos entrar no desfiladeiro das fadas. Não estou na Irlanda, mas aceito que existirão também tais criaturas na terra dos cavalos, porventura unicórnios. Cinco quilómetros depois, lidamos com dois garotos que são reis de uma cancela. Se queremos passar, cada um paga 50 som. Baratinho, por isso sacam-nos o dinheiro e avançamos então até um estacionamento improvisado na base de um barreiro. Mal saio, o sol oprime-me de imediato contra o solo e quando os meus olhos se ajustam ao enigma, contemplo obras de arte esculpidas por mitos com duas mãos. Numa larga extensão de forte vermelho acre, onde consigo escutar o tinir de milhões de anos de planeta, ergue-se uma cidade que não existe porque não é cidade. Seguem-se casebres, avistam-se pináculos de palácios que jamais existirão. O vale é um desfile de ilusões de óptica oferecidas com desprezo pela água da chuva e um vento caprichoso, mas sensível. Um torreão anilhado, assente no dorso esburacado e arenoso de um lobo de rocha, é o panóptico que a todos controla, invasores de um espaço privado desse senhor feudal inclemente que é a Natureza. Fotografar tudo isto é mais missão do que desejo. O meu dedo anseia por ganhar calos e tendinite, capturando esta aldeia das fadas onde a luz do sol é uma dança sem fim. Quirguistão e Magonia não rimam sequer na magia da presença, mas os seus domínios, onde elfos e duendes e gnomos têm também o seu bairro próprio, estão agora no digital de um cartão de plástico, mera sombra do que vimos, mas uma poderosa alegoria da caverna dos nosso olhares.


Subo até à base do torreão e sento o rabo em pó de fadas, desiludido por não ser LSD. Recolho areia, atiro-a e estupidamente, mas de propósito, tomo um banho, mas sinto--me outro, telúrico, pronto para me embrenhar no labirinto das fadas. Saio não pelo fio de Ariadne, mas puxado pelo mistério e pela vontade de descobrir mais. Sem querer, sinto-me preso numa teia de memória, o calor que me banha é superior ao do sol e penso em alguém que faz da magia das fadas a banalidade de um sorriso e num beijo , prende-me a um encanto onde sou simplesmente mosquinha, nem morta nem viva, só presa e encantada nesta polis de faz de conta, vermelha, mágica e ilusória.


segunda-feira, setembro 26, 2016

Cronistão 6: Relaxamento termal



A quarta maior cidade do Quirguistão foi fundada no século XIX, porque no meio de nenhures dava jeito haver um entreposto militar russo. Logo aqui se misturaram  os Dungans, chineses de origem muçulmana, com eslavos, tudo para manter um foco de guerra permanente contra a China. Chamaram-lhe Karakol. Apesar de pertencer hoje a outro país, a cidade ainda hoje alberga uma base militar russa, junto ao lago Issyk-Kul, onde se fazem testes com submarinos, diz-se.


A terra merece o nome, pelo menos em português, pois é uma violenta pasmaceira. Vale pelo kitsch de se encontrar um cinema que passa filmes de Bollywood em 3D e pelas mal-disfarçadas influências soviéticas, dominantes 25 anos depois da independência nacional e visíveis nos edifícios civis. Num deles, que desconfio ser a Câmara Municipal, encontramos expostos retratos de dignatários locais, que pelo aspecto são frutos de um gigantesco bacanal providenciado pelo ET do famoso filme de Steven Spielberg, uma mistura de traços asiáticos e andinos, num estilo gráfico reminiscente dos anos 80. A cidade divide-se entre muçulmanos e ortodoxos e cada um tem os seus locais de culto. A igreja é tão igual como qualquer outra do género, mas ao entrarmos no espaço da mesquita, por um corredor ladeado de hortas após passar um portal de madeira, a curiosidade é mais evidente: é quase como se Miró e Chagall se tivessem convertido ao Islão para destilar, numa obra de arquitectura, a sua religiosidade através de uma explosão de cor. O edifício faz lembrar os templos budistas e não se vêem sequer quartos crescentes ou escrita árabe no exterior. O minarete é uma discreta torre azul de madeira. Como em tudo aqui, o essencial não sobressai e fica ao nosso encargo adivinhar o que se faz, o que se move e o que se pensa. Há cidades sem personalidade, mas Karakol parece ser o tipo de local puramente serviçal, onde até os cidadãos só lá estão porque existem habitações e era chato ficarem vazias.


À tarde, foi-nos prometido que descansaríamos nas termas de Altyn-Arashan. Portugueses que somos, começamos logo a pensar em estruturas de pura dedicação ao relaxamento, com piscinas, fontes e, atreve-te libido, massagistas. Depois de almoço, preparo-me a rigor com calções, toalha e chinelos na mochila, o equipamento oficial do turista luso. Mesmo que não haja praia, o que conta é o estado mental e a época balnear não ocupa peso na bagagem de porão. Porém, leves sinais indicam que se está a pôr algo mais do que um simples passeio. Os veículos alugados são jipes, mas as termas são no cimo da montanha e a coisa até pode ser para o charme. Um deles atrai de imediato a atenção, por parecer mais velho do que eu. No interior, todos os fios estão espalhados, as portas presas por guitas à laia de fechadura e o aspecto convida à pura experiência da Ásia Central. Quando alapo o meu rabo, imagino que sou mesmo um aventureiro: na estepe, sê um dos duros, mas na verdade, e tivesse eu feito a pesquisa em casa, o que me esperava era uma valente estopada. É que, e deve-se dizer, o troço de 12 km que separa Karakol de Altyn Arashan tem uma certa reputação entre as estradas asiáticas, nomeadamente a de serem necessárias uma duas horas e meia para fazê-lo. Desconhecia este pequeno facto e seus motivos, mas nunca mais o esquecerei.


O curto caminho vai subindo a montanha até uns aceitáveis 2600 metros de altitude, um pouco como subir ao Pico, tudo isto num piso que transforma veículos todo o terreno numa orquestra de rumba onde os passageiros são congas. Quando, a certo ponto, se apanham calhaus de dimensão bem considerável, o corpo está tão moído que encolhe os nossos próprios ombros e aceita o que vier, e o que chega são noites em Havana, mojitos de vértebras deslocadas. Sentado no banco traseiro, recebo no colo passageiros à vez e lamento imenso não ter trazido capacete. O movimento é tão intenso que pouco antes da primeira paragem, só mesmo para garantir que os meus dentes não estavam, por essa altura, dentro do meu cérebro, julgo mesmo que ganhei o Euromilhões, pois sinto-me como uma bola na tômbola. Enquanto estamos parados, passa um camião todo o terreno, a mazurchka, que trata as pedras com a mesma condescendência com que Ricardinho olha os adversários no futsal. Vai carregadinha de turistas japoneses, que nos fazem sentir como extraterrestres na Casa dos Segredos. O condutor chama-nos então à segunda vaga de merengue. É um senhor já com uns sessenta anos que, sinto-me com sorte em apostar, deve ter combatido no Afeganistão e por isso, para ele, o passeio é de domingo. Mais do que uma vez a chave salta da ignição, obrigando a paragens a meio caminho entre o calhau e a terra firme, dando-nos a mesma emoção que é provocada por um tobogan. Entre uma avaria e outra, e alguém que quase salta do jipe em andamento para tocar xilofone de queixos estrada abaixo, lá chegamos às termas.


Meto os pés no chão e estou desfocado, tanto que julgo alucinar. Vejo apenas três casebres à beira do rio, mais uma hospedaria na outra margem com uma orgulhosa bandeira vermelha com um sol no meio. Preparo-me para uma caminhada de alguns quilómetros para chegar de facto às termas, vai-me fazer mesmo bem descomprimir, mas chamam-me à atenção: não, caro amigo, é mesmo ali, são aquelas casas, onde encontrarei uns tanques de dois metros por dois metros e meio, com água quentinha ao nível da cintura. Deve ser disto que falam quando empregam a expressão "choque de culturas" entre Ocidente e Oriente. Apenas o António Gil molha os pés, não se atrevendo a encharcar mais. A paisagem, no entanto, é uma massagem melhor que a estrada repleta de calhaus: no vale que o gelado rio atravessa, um verde que me recicla de alto a baixo, vê-se ao longe um brutal pico nevado, a cordilheira de Tien Shan exibindo-se gulosamente e confortando os portugueses burlados. O sol ainda brilha por sobre as montanhas, projectando com as nuvens sombras turvas e curvas, e a floresta reminiscente da Europa Central é um bálsamo. A pequena caminhada por trilhos improvisados leva a fotos tipo droga embriagante, e à descoberta de que todos pensam que somos israelitas, porque de facto é a nacionalidade que mais se encontra no espaço. Uma rápida vistoria de um mapa desenhado à mão (literalmente, creiam) indica a presença de uma nascente selvagem não muito longe das termas. Está claro que tenho de lá ir.


Acede-se por um trilho de terra que atravessa as árvores e acompanha o rio murmurante, a água empurrando rochas em ritmo de milhares de anos. As nuvens, no entretanto, roubaram muita da luz que nos acompanhava e as frondosas copas arbóreas criam um ambiente gótico, quebrado apenas por gente que de toalha às costas, se dirige para um algures que viu num croqui. A lógica é seguir caminho aberto e uns dez minutos depois encontramos um cantinho fantástico junto à água. Não existem escadas ou sinalização e do nosso lado direito, elevado a uns metros, apenas um tanque circular claramente feito por alguém, com cimento a assinar mão humana, nos indica que chegámos onde é suposto. Não está calor, o tempo põe-se feio e os meus companheiros entreolham-se, num desafio mudo e surdo, uma resposta que se torna cega à coragem. Ninguém se quer molhar. A excepção, claro, é este vosso amigo, que nem quer pensar que serviu de bateria de escola de samba durante doze quilómetros apenas para voltar mais à seca do que um abstémio no Carnaval do Rio. Vou eu, proclamo, e ao início pensa-se que estou a brincar e só quando me ponho de calções é que se percebe que este tipo é da aldeia e que ser da aldeia é não jogar com o baralho todo. O meu cuidado é todo para não escorregar. O meu corpo cansado desliza apenas  para dentro do tanque, a água quente puxa-me com visíveis dedos, unhas cravando-me de prazer em cada pedaço de pele e carne martirizados por horas de viagem de carro e quando me deixo amparar pelas palmas das mãos aquosas, solto um sonoro suspiro de prazer passível de ser confundido com algo mais.


Sou alvo de fotos, todos se sentem atraídos por alucinados e alienados, mas num repouso que nem é sólido, num calor que me envolve como, imagino, uma vez fui acolhido no ventre materno, tenho paz verdadeira pela primeira vez desde que aqui chego. A minha companhia retira-se, eu digo que já lá vou ter, mas o "já" é relativo. Descomprimo na totalidade, tanto que julgo até que o meu corpo perdeu forma e é plasticina, átomos que se misturam com as moléculas daquela água a quem já os Antigos reconheciam saúde. A minha paisagem é a de branco azulado e verde, um branco azulado que desliza por um leito e um verde permanente de exército de madeira e clorofila que guarda o meu descanso. Por fim chove a sério, e eu, cozinhando em banho macia o meu próprio sabor, assisto a tudo como um afortunado idiota, alguém que conseguiu estar num momento certo, no local perfeito e tão longe de tudo o que é seu. A casa é onde o coração está e penso em quem me dá tecto, enquanto as minhas pernas são serpentes debaixo da superfície do espelho onde reflicto o meu prazer. Por um instante, entre todas as voltas que estes últimos anos me deram num fandango de dor e da maior alegria que me atinge o coração, o ruído confuso desaparece e numa caverna, vejo luz entre pingos de chuva. Brilha muito, sim, mas apenas porque sai dos meus olhos.

sexta-feira, setembro 23, 2016

Cronistão 5: O mundo animal



O aspecto é de salão paroquial em Medellín, ainda para mais quando nos deparamos com um jardineiro caprino de quatro patas, mas o Park Hotel revelou-se um local agradável para repousar a nossa coluna nos dias que passámos em Karakol. A dona, uma senhora com os seus sessenta anos cujo nome a minha memória deixou fugir, não fala inglês, mas revela-se prolixa em russo, como qualquer bom quirguiz. Sabe que Portugal é na Europa, mas perde-se um pouco nos pormenores e também não é importante. Traça o limite, no entanto, na presença de calçado no interior do seu espaço: o hóspede ou entra de chinelos ou descalço e nem há contra-argumento! Existe um pequeno móvel com prateleiras para sapatilhas e sapatos e botas. Pisem as carpetes da simpática senhora com algo mais do que uma tira de plástico a proteger-vos as palmas dos pés e serão brindados com um olhar mais fulminante do que uma pistola. E por falar nisto: lembram-se dos Clint Eastwoods de que vos falei na crónica anterior? São tipos que por acaso têm uma arma em casa e, em ocasiões especiais (como, por exemplo, quando um grupo de ocidentais chega de malas aviadas a uma hospedaria de Karakol) surgem com a intenção de garantir que tudo está bem, que estamos em segurança.Talvez lhes escape a noção de que observarmos, assim do nada, uma arma de fogo nos deixe poucos seguros, mas tirando isso... bom trabalho! Ocasionalmente vemo-los na "lounge" do hotel, sempre a relaxar na Internet, porque, afinal, existe um código internacional de laxismo, acima de qualquer cultura, entre seguranças do Ocidente e do Oriente.



A tarde desse primeiro dia em Karakol fez-nos rumar aos Sete Bois de Vermelho, rochedos enormes em manada a poucos quilómetros da cidade. À noite, saimos para jantar e foi logo na primeira casa que nos pareceu aceitável. O nome está em cirílico e soa a algo como Micmasa, e infelizmente, quando abrimos os menus, apercebemo-nos de duas coisas: que tudo está em grafia russa e também que a dona do Park Hotel não é a única pessoa do Quirguistão ligada ao sector de hotelaria e restauração que desconhece uma língua que é falada por mais de metade do mundo conhecido. Somos convidados por uma prestável, e muito aflita, empregada de mesa, mais nova que eu e até do que o meu irmão, vestida de seda azul, lenço amarelo na cabeça e o sorriso de um veado que ficou encadeado pelos faróis de um jipe. Em atrapalhação, leva-nos a observar no exterior um painel publicitário de lona, onde figuram imagens bem convidativas dos principais petiscos da casa. A olho, e sem saber bem ao que vamos, escolhemos. Eu arrisco cobleti, que é algo parecido com panado de vaca. Come-se, embora não fique com vontade de abusar. No final, deixamos uma gorjeta de 100 som à simpática garota. Ela julga que é erro, tenta devolver e gentilmente fazemo-nos entender que é uma dádiva que lhe damos pela atenção e esforço que nos deu. Ri primeiro, quase chora depois, segurando a nota como se capturara o mais importante bicho do Pokemon Go. Para ela, é talvez uma fortuna; para nós, portugueses que se começam a sentir alemães nesta terra de moeda desvalorizada, é simplesmente euro e meio. Que no outro lado do mundo, longe dos nossos problemas e da nossa classe média de 500 mil euros, são o suficiente para colocar luzes de Natal em pleno Agosto no dia de uma miúda. Há maneiras piores de me sentir turista.



Caio na cama às dez da noite e apago-me de imediato. Finalmente convenço-me de que tudo é real e o meu cérebro bebe todas as horas de sono que consegue, porque na manhã seguinte temos alvorada às sete. Nem me custa acordar. Desço descalço e tomo o pequeno-almoço de duas opções: omelete de queijo ou crepes. Sejam crepes então e conversamos o que nos espera como programa da manhã: uma visita ao mercado de gado local. Uma coisa é falar; outra coisa é dar por mim numa coisa que faz a Ovibeja parecer a Expo 98. O chão mais limpo é de terra, porque no momento em que entramos num espaço com o tamanho do Queimódromo de Coimbra, lavrado de gente com os seus animais, rapidamente o gesto reflexo de não pisar bosta se digere: tudo acaba por ser bosta. Cheiro mais com os olhos do que com o nariz, pois tantos estímulos transformam o meu corpo numa sinestesia permanente e mal consigo apreender tudo o que me cerca. Vacas, cabras, ovelhas, cavalos, bichos humanos, todos em caminhos que nem se marcam mas se sabem, os de quatro patas puxados pelos de duas patas em cordas ou guitas, olhares perdidos, ignorantes e por várias vezes, pessoas que engelham pânico na presença de uma máquina fotográfica, como se um "clic" fosse possessão, alguns fazem sinal da cruz na minha direcção e sinto-me um exorcismo forma humana, o que se acentua mais quando cabras se acariciam nas minhas calças para abrir caminho.


Há gente que vende ferraduras, que soam forte mesmo sem fazer barulho, principalmente nas mãos de uma menina que domina o ferro e ainda olha para mim com vista dura, prática, esperando a foto mas prosseguindo. Um tipo empina o cavalo à minha frente e sinto-me num western asiático, ilusão quebrada quando puxa do telemóvel e conversa assim montado, porque quando se dirige um equídeo não se paga multa. O barulho é galopante, uma mistura de sirenes, bramidos, o reino animal manifestando-se sem grande desespero, mas exasperando-se. É a missa de Karakol, toda a gente vem, mesmo sem nada para vender, porque pouco mais há que passe por entretenimento nesta terra. Conversa-se no meio dos bichos, alegremente, livremente, mesmo que a Polícia passe de vez em quando, talvez também porque neste fim de mundo, onde um homem é segurança só porque possui uma arma em casa, não tem nada para fazer. Cumprimentos e abraços, um fã de Cristiano Ronaldo sabe que sou português e insiste que lhe tire uma foto, e depois aos amigos, e depois à família e acabo por traçar um retrato oficial com bichos e tudo. Sinto o que nunca senti na vida: o homem civilizado no meio da aldeia, uma aldeia que já só me lembro de quando mal tinha pernas para trepar limoeiros e laranjeiras; quando o mugir das vacas e o relinchar dos cavalos dança no meu pavilhão auditivo, obliterando tudo o mais, sou recordado que venho de algo um pouco mais moderno do que aquele recinto, mas pouco, que vi e ajudei na matança do porco e na vindima, que não tratei de amimais mas vi tratar e ajudei a minha avó a matar cobras à pedrada. Eu não sou dali, mas parte daquele pequeno circo ressoa em mim e leva-me a outras memórias. Enquanto fixo tudo em fotos, e vejo um cavaleiro que foge para longe quando me vê apontar a máquina, sei que apesar de dar gorjetas, não sou muito mais do que aquela gente simples e não simplória, que teme que a sua alma fique presa dentro de uma caixa negra, que se mistura com a bicharada porque lhe está ligada.



No final, arruma-se o que não se vendeu, e alguns homens têm de puxar bodes e cabras à viva força. Em contentores que parecem saídos da Lisnave, há lojinhas que vendem tudo ao copo, água inclusive, e outras coisas. Quando se viaja, não se deve procurar o que se tem, ou então acha-se o repetido; no entanto, por mais longe que caminhemos e voemos, haverá sempre um ponto em que nos encontramos, seja nas ramagens das florestas, no murmúrio das ondas, nas curvas empedernidas das ruas fechadas de velhas urbes; ou então simplesmente num tempo que foi meu, em que todos os sentidos se misturam para me devolver o que sou de verdade e não muda com as minhas rugas, os meus erros, as minhas intensidades da idade. Num mercado de gado, reencontrei-me pessoa; e isso, amigos, é o fungaga da bicharada.


terça-feira, setembro 20, 2016

Cronistão 4: Dar de beber aos cavalos



Nunca vira um lago com linha do horizonte, mas é primeira vez de muitas primeiras desta viagem. A estrada que liga Bishkek a Karakol estende-se pela margem norte do Issyk-Kul, um mastodonte aquático que impressiona pelo tamanho e também por ser a referência mais próxima que este país trancado na Ásia Central possui como mar. Cheguei a perguntar, posteriormente, a quirguizes se alguma vez os seus olhos lhes tinham revelado a benesse do oceano. Não, disseram-me todos, mas temos o grande Issyk-Kul; e lá enorme é ele: 182 km de comprimento, 60 km de lago, o segundo maior lago em altitude do mundo (a seguir ao Titicaca) e também vice-campeão em lagos salinos em volume (apenas ultrapassado pelo Cáspio, esse intrujão que se faz passar por mar, mas que, por ser uma massa de água sem qualquer contacto com outras, é de verdade um lago). Situado aos 1500 metros de altitude e rodeado pelas montanhas da cordilheira mágica do Tien-Shan, que me fará companhia nos próximos dias, nunca congela. Desde os tempos soviéticos que se estabeleceu como um dos destinos balneares de eleição do grande império russo imaginário e pelo caminho, vemos algumas datchas e bungalows para turista frequentar. O que muitos desconhecem é que terá sido aqui, pelo papel fulcral no percurso da Rota da Seda, que surgiu a Peste Negra, levada pelos mercadores orientais até à Europa, para espalhar mortandade.

Hoje em dia, o maior perigo de morte que se reflecte nas águas azuis, profundas e aparentemente frias do lago não é a hipotermia (algo que parece não afectar os Quirguizes, que se banham aqui como quem está em Aljezur): é a peste motora. A rede viária do país foi desenhada a régua e esquadro, com rectas intermináveis e curvas bastante subtis. Quase todas as estradas contornam as montanhas, e as modalidades de piso são três: alcatrão nas vias que ligam cidades importantes; macadame e pedra em estradas secundárias; e nos caminhos do fim do mundo, existe gravilha, terra batida e qualquer tipo de pedra que caia das montanhas que habitualmente são atravessadas por estes caminhos de cabras, pois a elas pertencem, mas também de vacas e cavalos. Ocasionalmente, encontramos pedaços de caminho "em obras", que significam simplesmente que nos espera um lençol de flanela onde um grupo de traças decidiu fazer uma despedida de solteiro. 

O condutor da nossa Sprinter  desvia-se dos obstáculos ocasionais como quem faz uma gincana e cedo nos apercebemos que as regras da ultrapassagem são bem diferentes: a carrinha mete o nariz, enche-se o peito, passa-se à rasa. Três veículos ultrapassando-se em simultâneo rumando em sentidos opostos é um costume e cinco serão record olímpico e algo a que assistirei ainda por estas terras. A existência de uma mente comum quirguiz é postulada, até porque nunca se vêem choques frontais onde as leis da Física tornam obrigatório que existam. Acontece um desvio de última hora e o trânsito desenrola-se como se nada fosse. Todos brincam a isto, camiões incluídos, grandes inimigos da velocidade, e ao fim de quatro dias, apercebo-me que ainda não vi uma única mota a circular. Sabem que mais? Verei zero em toda a minha estadia. A Polícia vigia tudo isto com o mesmo ar plácido das águas do lago. De vez em quando manda parar algum veículo: se tiveres sorte, és um amigo de longa data; se não tiveres, é provável que fiques sem algum dinheiro para poderes seguir viagem. Ninguém se queixa ou desentende, é a lei aplicada à escala local e afinal estás a centenas de quilómetros de qualquer civilização, que não podes chamar a aldeias de madeira e zinco espraiando-se ao logo de uma rota essa palavra tão cara a um europeu.

Até Karakol, vamos recolhendo também outros passageiros. Isto é, afinal, a RBL cá do sítio. Basta estar à beira da estrada, esticares o dedinho e o condutor pára. Dizes ao que vais e ele dir-te-á como é. Se todos se encolherem, cabem mais; e assim apertados, vemos desfilar numa passerelle de quatro paredes crianças, senhoras idosas e um ou outro pintas que só quer visitar alguns amigos no café da localidade seguinte. A viagem comprida prolonga-se ainda mais e as minhas costas não estão apenas quadradas: já são um cubo onde mal consigo encontrar posição. As poucas paragens que fazemos são para comer e seguir, naquilo que se pode Não durmo há mais de 24 horas, mas as guinadas e quase colisões que se seguem com a regularidade de um metrónomo não me deixam dormir. Consigo manter a sanidade e alguma certeza de que sou eu, e que tudo é real. A imensa extensão do Issyk-Kul coloca em tudo um ar de miragem mirabolante, como se as estradas com bichos e bichos na estrada rugindo com pedais e rodas nem ali estivessem,. As altas montanhas, a terra vermelha e amarela que rodeia as margens, uma estrada que só parece existir na mente descabelada de um autor russo miserabilista conjuram-se na minha cabeça para nem ter a certeza de estar ou existir e quando, onze horas depois de abandonar o aeroporto, damos por nós no nosso objectivo, desço e pergunto-me se é agora que encontro repouso para os restos mortais do meu corpo. 

Não, ainda há aventuras para viver; e julgo de imediato que uma delas será fugir com os meus pertences. Mal a Sprinter estaciona junto ao nosso hotel, o portão de entrada está ocupado por dois homens, jovens, óculos escuros nas trombas num dia em que nuvens cinzentas dão o tom, que cavaqueiam. Podia ser uma cena normal, mas um deles, entre as costas e as calças, mostra uma pistola Colt, que calculo não esteja lá para um disfarce de Walker, o ranger do Texas. Bem vindos a Karakol, cidade entre os mundos russo e chinês, mas que pertence em toda a totalidade à Quinta Dimensão.

sexta-feira, setembro 16, 2016

Cronistão 3: A Oriente, tudo de novo



A Kati é uma amiga húngara que conheço há muitos anos. Para lá de tudo, sempre ocupou um lugar exótico na minha existência: veio do Leste e ficara minha amiga. Ainda hoje, quando falo dela, ser húngara destaca-a de outros que me são conhecidos ou amigos, morando num país lá longe que quase ninguém visitara. Sempre achámos isto curioso entre nós e decidimos uma vez, nuns dias que passámos juntos, fotografar os nossos pés virados de frente, como se acabassem de se conhecer. Era o Ocidente conhecendo o Oriente, se bem que fôssemos ambos europeus. No entanto, historicamente, Viena era a fronteira mental de uma Europa que se pensava civilizada. Tudo o que fosse para lá da capital austríaca era barbárie e desconhecido. Na cabeça de meio continente, quase até ao final do século passado, a Kati, nascida e criada em Budapeste, era tão estrangeira e oriental quanto as especiarias e o chá. Pensei várias vezes naquelas fotos quando aterrei no aeroporto Ataturk, em Istambul, e na minha chegada às portas da Ásia pela primeira vez.

Aeroportos são aeroportos, todos no mesmo esquema; mas basta sair do avião e parar na lounge do Ataturk para perceber que assim não é. O outrora vincado laicismo turco tem-se mostrado permeável à influência religiosa e política de grupos estranhos aos valores da República e pelos corredores desta gigantesca cidade internacional montada no lado europeu de Istambul, vêem-se vestimentas árabes que só estava habituado a olhar nos ecrãs próximos dos olhos, mas longe da acção. A burka é mais comum do que esperava aqui, na verdadeira fronteira entre Oriente e Ocidente, e vê-se nos olhos de muitas das mulheres que se cobrem de cima a baixo uma submissão passiva, não necessariamente exercida por violência, mas por hábito. Em muitos casos, não há silêncio e observam-se casais em amena cavaqueira, se bem que o homem tenha a posição dominante. Ao contrário que imaginava, como ocidental doutrinado na visão do árabe mal parecido e ogre, os homens, na generalidade, são cabeças de família como aqui; nota-se, no entanto, algo diferente. Não sei bem se é religioso ou costumeiro, mas um facilita o outro. A enormidade do aeroporto, no entanto, dilui esta diferença Vê-se tanta cabeço com pés que apesar do choque, tudo é esquecido. Há duas horas para matar antes de apanhar o voo de ligação para Bishkek e o Zé Luís, o guia da expedição e meu amigo, sugere uma volta pelo Ataturk. Certificamo-nos da porta do nosso avião e sei que estou num outro tipo de metrópole quando chego a contar mais de setecentas, uma enormidade. Setecentas descolagens possíveis, todas diferentes, num só espaço. A posição de Istambul na arquitectura geográfica do mundo tem aqui outra prova. Estamos noutro mundo. Para celebrar este exotismo muito próprio, comemos um Big Whopper ao jantar e pagamos em euros.

Depois de quase meia hora de caminho, chegamos à nossa porta. Quando, alguns minutos depois, o nosso avião estiver a fugir do Ataturk, suavemente e sem pressa, darei por mim a espreitar o Bósforo de cima. É uma enormidade, um enxame de pirilampos sem ordem, uma procissão de candeias que se espalha por dois continentes cumprimentando-se através de uma ponte, e fazem parte de um mesmo país, de uma mesma cultura, de um cosmopolitismo que não conheço na minha ponta da Europa e que só observei, muito brevemente, como turista de permeio. Na distância de segurança da altitude, tudo me parece fascinante, mas inerte, e quando vejo com distinção dois continentes separados e unidos, a minha percepção mudou. Não consigo dormir, uma noite branca e em branco, os assentos desconfortáveis ou o meu formigueiro e a mudança de cenário não me deixam sossegar e pregar olho. No ecrã de bordo, as milhas vão queimando, uma atrás da outra. Do topo, passo por Arménia, Geórgia e atravessando o Cáspio, a maior massa de água interior do mundo, entro então nos "-istão", dos Cazaques e dos Uzbeques. "-istão" significa "terra de" e acolhe as etnias originais e povos que aqui habitavam  e sobreviveram à passagem de Genghis Khan, dos Otomanos e dos Soviéticos. Lembro de cabeça o mapa da região e à noite, reconheço todas as principais cidades, faróis urbanos que se destacam na escuridão dos espaços desérticos e mal habitados que dominam as estepes imensas da Ásia Central. É então fácil descobrir Bishkek, já com o sol a avisar o horizonte que chegou o seu turno, e o avião vira para a direita. Não demora até aterrar e naquele baque das rodas, onde o avião parece um nadinha rápido demais mas se estaca com assertividade, estou no "istão" dos Quirguizes.

O aeroporto de Manas (um dos três deste país, pasmem-se) tem o nome de um herói nacional, guerreiro pois está claro. Faz o de Lisboa parecer o de Istambul. Os guardas alfandegários, com os seus chapéus verdes medindo o dobro das suas cabeças, pedem-me o passaporte. É o necessário aqui, não se paga visto e olhando em volta, não somos os únicos ocidentais a chegar, embora a população seja maioritariamente asiática. Quase ninguém fala inglês e o guarda comunica comigo por grunhos e gestos bruscos. Quando abre a boca para falar, é em russo e os olhos amendoados confundem-me, porque a minha mente está condicionada a esperar chilrear oriental. Não sei como disfarço a confusão, mas lá me deixam entrar no país. Presumo que aqui os terroristas não tenham barba, ou então estejam já habituados à presença de hipsters. O Quirguistão ainda não é, de facto, um país mainstream, logo é bem possível.

No aeroporto tratamos logo de uma série de coisas: cartões de telemóvel (as chamadas para o estrangeiro são bem mais baratas por cá) e levantamento de dinheiro. Nenhuma das máquinas multibanco funciona, são quatro e todas em cirílico. Quase tudo o é e a coisa só se leva direita porque o Rogério, um portuense, teve umas aulas de russo há uns anos só por diversão. É ele que ajuda o Zé a explicar a um velhote que parece o actor brasileiro Elias Glazer (ou para os menos familiarizados com novelas brasileiras, o pai do Jeff Goldblum no "Independence day") que somos nove e queremos alugar uma carrinha para nos deslocarmos a Karakol, a quarta maior cidade do país, numa viagem de 400 km sobre quatro rodas.  Não entende e um neto que até se safa em inglês serve de intermediário. A coisa fica combinada: 1500 som à cabeça (o que dá, grosso modo, vinte euros... a CP rouba de catano). Com as bagagens todas reunidas, descobrimos que o nosso transporte é uma Mercedes Sprinter branca. Às sete horas da manhã, Bishkek é já uma cidade feita bafo de calor e mesmo sem entrarmos no centro parece-nos confusa, desorganizada, onde tudo se resolve com buzinadelas, gestos bruscos e vozes que se levantam. É o meu primeiro contacto com o Quirguistão

Não tenho presença de espírito ainda para absorver tudo e quando este cai em mim, com a noção quase surreal e irreverente de que não estou no meio, e nem sequer no meu fim, a carrinha arranca, o aeroporto é reduzido pela distância a uma miragem e durante onze dias, estou aqui eu, mas sendo outro, porque como posso eu viver aqui sendo o mesmo que era além? Ficaria bem aquém do que quero viver. Deixo que o choque me apanhe e quando, nos primeiros cinco minutos, a Mercedes tem quase três encontros frontais não planeados, desconfio que este choque pode muito bem ser literal e mais vespertino do que espero.

quarta-feira, setembro 14, 2016

Cronistão 2: Um estado em espírito



Dizes às pessoas que vais ao Quirguistão e parece que voltam a ser crianças. As perguntas atropelam-se na boca, a língua não se liberta rápido o suficiente para deixar passar as dúvidas que me apontarão num raio, e a primeira não tem sequer seguimento: "O quê?", como se o nome de um país pudesse despertar em alguém tanta incredulidade que faz até duvidar da sua existência. Tal confirma-se pela questão que se costuma seguir: "Isso existe?". Existe pois; "Fica onde?", e num exercício de memória, consigo explicar que assentou acampamento algures na Ásia Central, acho que junto da China, talvez perto da Rússia, pois até pertenceu à União Soviética;

"É perigoso?", desconheço, sabes, mas acho que não. Percebo o teu medo, acaba em "-istão", e nesses países rebenta muita coisa. Este é dos mais calmos, mas não admito assim à cara podre que temo. Pesquisei sobre o mistério deste ponto Q e ouvi falar que se raptam noivas (sorte a minha que tenho pila), há estradas muito manhosas (e sei que numas delas passo de certeza) e em 2013 se registou um caso de peste bubónica. Claro que me apavoro, mas se fugisse de tudo o que pavor me sopra, não me teria partilhado com a D., nem girado em redor de um mundo em forma de L. O medo está lá, mas nós também e muito antes que o temor tomasse tomos de forma; " E porque vais?", ora, porque é bonito. Um amigo meu mostrou-me fotos e eu adoro montanha, encontram-se paisagens daquelas que toma o oxigénio como refém. Para mais, fartei-me de ser conas, e isto não digo alto nem por estas palavras. O código que uso é o de fazer algo que me deixe desconfortável em bom, mas na verdade, há um cansaço do normal, do aceite, do conhecido, do confortável. Quero sofrer a atracção pelo imprevisto e pela pele que não é nossa mas aos poucos, com engelho, vestimos e não se mostra tão estranha e estrangeira assim; "Mas isso tem praia?", Não e qual é o problema?; "Estavas melhor no Algarve", o que interpreto como um auto-recado que o interlocutor dá a si mesmo, assustado com alguém que toma nas mãos decisões incomuns. Seguem-se mais vinte perguntas sobre comidas e bebidas, sobre as pessoas e a religião, sobre o acto de alienação que é pôr os pés no outro lado do mundo quando existe outro tanto de permeio.

Não revelo, claro, mas há uma pontinha de irreverência, uma arrogância aveludado de poder dizer que se esteve em locais em que ninguém conhecido ousa sequer pensar ou sonhar, de trazer até ao amigo e conhecido um pedaço daquilo que se entrevê e se ouve falar. Enquanto arrumava as mochilas, roupa para um lado e escolhia livros para a viagem, pegar na máquina fotográfica conduzia-me a essa ideia de postar fotos do catano, receber elogios, gabarem-me a coragem quando estava a ser egocêntrico nas horas, pelo menos de início. Queria ler e ouvir pessoas gabando o quão diferente era, como sempre quis desde criança, de me tornar menos igual e menos comum. Queria ser especial e na noite antes de partir, entre pernas a tremer e saudades tidas como certas, vi-me aquele intratável adolescente que queria ser diferente a todo o custo só para não ser como os outros. No entanto, sem sabê-lo, o amigo que me deu dormida nessa noite tornou tudo muito mais simples. O Google Maps levou-me ao Quirguistão ainda antes de encontrá-lo, e vimos por alto o que me esperava. Recolhemos informações, gabámos as conquistas de Genghis Khan e o J.P, que me conhece de tempos em que ainda não era tão idiota, sabia que a comida é sempre aquele problema que me torna mais picuinhas do que um recém-nascido e também quis saber o que se comia e, sendo ele quem é, o que se bebia. Na conversa, reconciliei-me com a noção de que sou afinal tantos outros que transformam a curiosidade num desafio e a descoberta do mundo numa pausa da vida, de sair para ali porque o aqui está visto e é casa. Ninguém quer ficar para sempre e é por isso também que saímos do ventre materno: cansamo-nos do mesmo e o ar limpo do exterior arranca-nos com mais força do que o obstetra. Percebi naquela conversa o meu universal dom de ser intrometido na simpatia do alheiro que me é externo.

Acordei bem cedo na manhã seguinte, inspirei mais fundo do que o Poço Negro e sabia que me esperava uma longa viagem, uma noite mais branca que as de Doistoievski e só para dar o tom, encontrámos um par de cuecas no pátio exterior, como se algo me impelisse a preparar para tudo. Quando saí do apartamento, quando entrei no Metro, quando cheguei ao aeroporto e conheci os meus colegas de viagem, apenas o meu corpo ia passar no check-in: o meu espírito pairava a uma altitude superior a qualquer avião e estava já no Quirguistão inquirindo, procurando e na preparação da chegada do que não pode violar as Leis da Física. Não fez sequer escala, voou directo. Estava com energia mais do que suficiente para nem sequer dizer adeus aos pássaros e quando, por volta das onze da manhã, senti aquela transição nos ouvidos, a palmadinha interna que anuncia que passámos a ser aéreos, um pequeno formigueiro eléctrico era mais do que medo ou curiosidade ou mania de ser bom: era uma esperança muito secreta, muito escondida e só minha, de que algures no lá longe encontraria outras versões de mim e que num diálogo entre nós, sairia uma versão muito melhor do Bruno que de Portugal brotava.

quinta-feira, setembro 08, 2016

Cronistão 1: a desistência da memória



Regressar de uma viagem é trazer um mundo escrito em braille. Não chegam os olhos, é preciso mesmo tocar-lhe e o pior é traduzi-lo. Um cartão de fotos, um caderninho de notas ou até palavras com que se tenta reconstruir um edifício de dias feito, ancorado apenas em trapos que deles ficaram num mar em permanente movimento algures na nossa cabeça, são apenas uma cadência ferrugenta e opaca de toda a vertigem do que deixámos lá longe, mas que se faz perto apenas no exercício da memória. Viajar é recordar e recordar é apenas falsear o que de autêntico nos tomou e surge, qual filme, nos vidros da janela, quando olhamos ao longe uma fuga ao tédio e pedimos ajuda a nós mesmos, acumuladores de factos e feitos, fabricantes dos modos de fuga. Foge-se e finge-se, e aos outros arma-se algo de parecido com a realidade, mas que são apenas traços de um quadro maior que se viveu. É o drama maior do viajante magnânimo, querer levar outros connosco e saber que se chegou já atrasado, e que chegar é antónimo de partir: quem nos escuta, quem queremos connosco na aventura ficou em terra e nós ainda no ar desejamos apenas ser o veículo certo das experiências que ficam. Mas é apenas o que lhes sucede, ficar, pois de nós não saem.

O que trago do Quirguistão é apenas pálido manto, um teatro de marionetas em forma de pessoas, simples vultos em pano de fundo de paisagem, e nunca encerrarão momentos despojados que contados surgem anémicos, mas que num tempo presente, foram tudo. Estar parado, sentado, rodeado, e mesmo assim correr livre todos os cantos do pensamento e do registo, fotografar montanhas mas nelas ver muito mais do que um registo de milhões de anos remexidos. Em pequenas notas, tentando concentrar largos traços, pretendo deixar-vos as cenas dessa peça que foi uma viagem de semana e meia a terras com séculos de História e uma realidade que apenas se observa sem se explicar bem o que se viu, e é o que vos dou por adquirido: a minha total inabilidade de vos colocar nas estepes da Ásia Central e uma certeza inabalável de vos deixar uma porta aberta para a futilidade destas pequeninas crónicas. Convençam-se de que não vão viajar: são apenas turistas na realidade do acto, no lugar do pendura e vendo a minha realidade em vidros foscos. Entre as sombras e as formas, está um país chamado Quirguistão.

E é isto que tenho para oferecer

quinta-feira, agosto 18, 2016

Quirguistão


Escolhes. O corpo é de desconforto, mas marinando algures numa gruta por debaixo de todos os teus conscientes, sentes um apelo a tão só seres outro, de modo a finalmente te encontrares. É estranho, mas antecipas que, no final, te fará sentido. Já algures, em página ou ecrã, que ser humano é angariar uma colecção de desafios, inesperados ou auto-impostos, que nos expandam como o Universo. Cada apelo a superares-te, ou a estar numa situação diferente, num lugar alheio, ensacado por cheiros, sons, vistas e também superfícies que não encontras em redor dos teus quartos, soa a destino, como se tudo se marcasse previamente e a gerência não tivesse responsabilidade por qualquer imprevisto. São hipóteses que se tomam, ficar quieto ou partir, deixar-se estar ou dar a deixa a que o calafrio da novidade e do medo dêem lugar à maravilha. Há alturas disso, de simplesmente fazer uma coisa que não condiz contigo, de te surpreenderes, tu que até nem és dado a muitas surpresas e que tens um metrónomo em ti tão rígido que nem a dissonância consegue rachá-lo. Quebrar com a rotina, de quebra-costas mas num quebra-mar, rompendo até as fronteiras fictícias daquilo que te julgas capaz.

É tudo um pouco isto, quando tomas a decisão de viajar para o meio de algum nenhures e a decisão é irreversível. Partes, um pouco manco, um pouco ansioso e com medo, leste o pior e viste o melhor e não sabes qual te sairá na lotaria. Sabes que és xoninhas, mas escolhes aquilo que só pertence a quem se atreve e a quem faz do mundo a sala de estar de casa, quando tu vês o mundo como a boca de uma piranha. Aguentas-te à bronca e partes, esperas poder voltar para contar e mostrar, mas não tens a certeza, pois estarás tão longe que te isolas do mundo. É altura de respirar bem fundo, duplicar a capacidade pulmonar e deixar assentar em ti um mantra futebolístico: QSF.

Assim como assim, a escolha fez-se para marcar golo, não é? Penso em rematar em vez de passar. Um ponta de lança na Ásia, e até ao meu regresso.  

segunda-feira, julho 18, 2016

Linguagem



Encontrei-a na conferência, mas ela a mim uns dois meses depois, se a memória não foi atropelada pelo sangue. Sem palavras estava, com uma pequena comunicação sobre filosofias e linguagens, cuja origem nem me interessa gora, mas apenas que nas minhas mãos meio texto se alinhava enquanto que a restante metade esperava criação instantânea no momento em que após "Senhoras e senhores, o doutor Rodrigo Melo" fosse esperado da minha boca iluminar uma plateia inteira com ideias e conceitos, alguns prosápia, uma dose de verborreia, mas tu nem assististe. Soube eu depois, claro, tal como depois soube que ver-te naquele dia não foi tão inofensivo como pareceu. O nosso cumprimento, mãos uma na outra, fora um falso negativo e o cruzamento no coffee break mais grávido de oportunidade do que parecia. Claro que só o soube quando me conheceste então, dois meses depois, e no entretanto nem pensei mais em ti. Mas também não me lembrava de mais nada desse dia: conferências são todas iguais. A minha vida de académico é uma câmara lenta de deja vu, só mudam as estantes.

"Posso perguntar-lhe algo?", e voltei a reparar em ti. Uma lembrança finalmente colocada no lugar, no passado vestias azul, naquele momento qualquer coisa semelhante ao vermelho, e essa cor assentava-te muito melhor como descobri mais tarde, principalmente quando nada vestias para ocultá-la. "Claro", e nos teus olhos de pupilas perspicazes a pergunta que só não podia ser calada por quem ou é maldoso ou então acha uma piada tão grande à vida que lhe descobriu o sentido: que é escrita por um comediante: "Você inventou aquela conferência toda, não foi?". Tremi e entaramelei um pouco, meio chocado meio zangado, todo eu mais vermelho do que a tua roupa. "Só metade", e nem escondi o meu pequeno crime. "Até gostei, e digo-lhe que preferi assim: conferências costumam ser habitualmente instalações artísticas mal montadas, e eu gosto mesmo é de thrillers". Ela era da corrente comediante, portanto, e falámos logo dos nossos altos e baixos de conversas em público, de como imaginar a plateia nua nem acalma, só enerva, porque existe sempre alguém com ar de quem tomou banho pela última vez no século XIX e sem roupa, então, que pivete. Concordámos que a falta de desodorizante não combina com o excesso de sapiência, que a pluralidade dos mundos habitados de Giordano Bruno pode ser contraposta ao minimalismo das mentes ocupadas de tantas e tantas universidades, e que o truque infalível para o relaxamento antes de falar era uma ida prévia à casa de banho. Ela preferia kiwis, mas comigo geleia de morango quente nunca falhava. Hábitos nossos, que eram de cada um, mas na conversa se foram tornando num património que podíamos tornar comum e transformar em amizade. Trocámos cartões.

Nunca nos ligámos no entanto. Sei bem que esta história teria sido bem mais engraçada com posteriores encontros, a rapidez de um beijo escondido, depois de horas de rica conversa sobre o mundo, a vida, as correntes do conhecimentos e todos os demais termos que nós, professores, usamos para passarmos por gente esperta. Na verdade, passaram-se três anos até que nos voltássemos a reencontrar e apenas para dizer um rápido olá entre voos no aeroporto de São Petersburgo. Ela falara sobre Dostoievski e a cidade (a que eu assistira, apesar de nada ter a ver com a minha área) e eu fora apenas com a minha ex-mulher de dois anos como apoio moral. Ex-mulher, não ex-amiga (foi sempre, aliás, e mesmo quando morreu, vinte e três anos depois, continuava a ser talvez o mais feliz divórcio dissonante da lógica que encontrei). Mandámos umas piadas, recordámos aquela longa conversa uns tempos anteriores e seguimos cada um a sua vida. O cartão que me entregou ficou guardado, numa gavetinha, mas bem trancada, porque como na vida, e como nas comunicações de conferências, a minha especialidade era deixar a coisa a meio: abrir em grande de depois ir improvisando, e ela notara o meu improviso, desmontara-o e sempre pensei que, se um dia a convidasse para um bar, se nos escondêssemos num recanto mais afastado de todos, sorrindo, acariciando o tampo da mesa como metadona da pele, ela descobriria que Rodrigo Melo é um daqueles que aparece mas não fica, que surge mas nem urge e que se rasgar convicto um papel, é para mais tarde recolá-lo. Estava aqui alguém demasiado bom a ser mecânico da observação para que de repente lhe abrisse o meu capot. Preferia que o meu motor tossisse. O meu telemóvel nunca apitou o seu interesse, portanto deixei-me ficar estacionado.

Penso nisto enquanto espero falar sobre mecânica da pontuação e a filosofia de Popper. Bem chato para vós, bem interessante para um conjunto de ressequidos na plateia. Esta está toda escrita e revista, nem eu sonharia improvisar sobre Popper. Seria Impropper (desculpem a piada, garanto que costuma resultar em certas salas mais filosóficas). Faltam uns segundos para entrar. Então, um rapaz, cópia de imitação de classe, entrega-me um bilhete. "Vem da plateia", e espreito um pouco pela cortina vendo apenas sonolenta gente esperando soporífero. No papel, "Acabou a espera", e não entendo, nem a filosofia, nem a linguagem. Quando entro, ela sobe ao palco, agarra na comunicação, rasga-a e eu nem quero saber dos papéis, só consigo forçar uma miragem que me racionalize tudo aquilo, e quando ela, que nem o nome quero pronunciar com medo que suma em fanicos, cruza os braços, seio que quer que improvise. Que desta vez faça tudo por inteiro, mas da maneira mais difícil. Improppério (outra piada de salão), e o microfone ligado recebe-me: "Desconstrução para reerguer o mundo, e recuperar a linguagem", um silêncio absoluto, algumas palmas, estardalhaço receptivo, todos contentes por poderem« sair mais cedo, e tendo aprendido tanto sobre Popper como se me tivessem escutado por inteiro.

Ela devolveu-me o cartão. "Demorei, mas cheguei, e onde estava não digo; mas sempre vim a teu caminho" e perguntou-me logo se havia algum bar para onde nos pudessemos escapulir. Claro, disse, conheço um com recantos distantes. e onde as mesas são mágicas e seriam as únicas onde me atreveria a imaginar todo um mundo de palavras arfadas que faria brotar da sua pele.

sexta-feira, abril 01, 2016

O que fica e o que vai



Cá estou num barco, que mais parece um berço tal o embalo das ondas, e só consigo escutar a água no marulho do barulho. Nunca gostei de barcos, nem para pescar e amigos meus adoravam isso. Acordavam de madrugada, material arrumado em sacos e estojos, o alto mar como destino. Nunca me interessou. Fiz uns anos de corridas automóveis, era mais novo, e a sensação de ver o mundo a ficar para trás, da ausência de permanência e de multiplicar os tempos, quase como se pudesse viver o passado, presente e futuro nas voltas de uma pista, faziam-me sentir um tipo com poderes incríveis. Um barco está parado ou avança sem vertigem, mesmo quando abre as velas, como o meu, ou com um motor carcaça que mal o arrasta o suficiente para tornar o céu numa ilusão. Barcos são bons para quem gosta se parar e observar, e para mim isso sempre foi uma perda de tempo. O momento é o que é, e acabou. Foi-se: na velocidade, os momentos dividem-se e multiplicam-se e somam-se aliás a cada vez menos tédios. Um barco representava tudo aquilo que, para mim, a vida não deve ser: estática, paciente e frágil, submissa a outros elementos foram da minha própria vontade,

Mas a vida é quase toda ela submissão, aprendemos nós com os anéis nos ossos. Seja  ao panorama ou às suas pequenas partículas, e a Lia foi o meu bosão de Higgs. Apesar da falta de velocidade quando nos conhecemos (algumas palavras trocadas na festa de aniversário de alguém comum), também senti o mundo a ficar para trás, como se a mesma vertigem dos motores existisse nos olhos de uma outra pessoa (e existe). Nas nossas palavras, poucas, nasceu uma espécie de adrenalina que não se encontra nas pistas, e eu soube, desde logo, que o inquebrável que sempre conhecera como a minha pessoa estava destinado a ser vergado, de livre vontade. Aproximámo-nos, associámo-nos, juntámo-nos e durante anos, fomos cadeia, até que, há meio ano, ela se desprendeu de mim, e na verdade de tudo, pois pouca coisa que não a memória pode prender alguém que morre, e assim se extingue de forma deformada, cedo e sem que eu possa controlar. Algum tempo antes de ter chorado tudo aquilo que contive desde os dilúvios adiados da minha infância, convenceu-me a comprar um barco. O motivo era idiota, algo relacionado com nunca ter visto o pôr do sol num horizonte marinho, e quando lhe perguntei se não era para isso que serviam os cruzeiros, a Lia, que era bastante possessiva, desenrolou um imenso ensaio oral sobre a podridão do mundo e das pessoas e que nada disso lhe estragaria o desejo. Tínhamos o dinheiro e na altura, o fantasma do nada futuro assombrava-nos em fôlegos. Comprei-o e assim, o gentil movimento de uma bola de fogo que pica o ponto atrás de um limite fictício foi um ritual semanal. Nenhum de nós sabia manobrar o barco, mas felizmente conhecemos o Ti Rola, antigo pescador, homem que vivia na rua e que por um acaso, se é que foi acaso, surgiu e ouvindo comentários sobre o mar e sobre as suas incertezas, tirou do peito aventuras marinhas de outras idades suas, e bóia puxa rede, nos envolveu nesse pequenino sonho de pegar num barco para que eu e a Lia navegássemos num outro tipo de oceano, onde se encalha em recifes e não beijos e duas cadeiras de praia podem ser os lugares mais preciosos para se assistir ao espectáculo do fim do mundo, com a certeza de que nos dia seguinte este recomeça, de novo caminhando para o sue renascimento como cúpula da noite.

O que faço hoje, com o Ti Rola ao meu lado, é simplesmente forçar-me a deixá-la para trás: entregar ao profundo aquático estas cadeiras, mas estou aqui há umas três horas e não quero despedir-me. Nem é a primeira vez que paro e me recordo e sou acometido da única paralisia que é cura e não doença. O Ti Rola entende e vem, de todas as vezes. Gosta do mar, gosto do sal, gosta até dos limites fictícios. Eu também lido bem com o fictício e menos com o que é real. Por isso gosto mais da vapidez da velocidade do que do olhar permanente e fixo de embarcações que se sustentam sobre a densidade fluida das águas. Se tu fosses passageira, tudo era mais fácil; mas foste hóspede, e é muito mais complicado despachar uma casa do que um carro.

Mais difícil então é deixar para trás o que nos põe de pé de manhã e nos deita à noite.

sexta-feira, março 04, 2016

Escolhas



Lembro-me de ser mais novo, criança no recreio da escola entre toques de campainha, e em qualquer canto a hipótese de encontrar minúsculos dedos a tocar o acordeão de um "Quantos queres" cresciam à medida dos meus passos. Quem inventou esse jogo certamente se fartou de jogar à lotaria, entre tantos milhões de hipóteses e possibilidades, e numa qualquer inocência que já sabe muito bem do que a vida joga, reduziu tudo a oito, e sabendo também, que a vida não só é roleta, como também póquer de cartas escondidas e bluff, atribui um algarismo a cada escolha: escolhes o número, calha-te o desconhecido. pode ser maçã ou banana, pode ser vermelho ou amarelo (e só quer amarelo quem ainda não percebeu que na magia das cores, o amarelo é demasiado revelador e tem tanto mistério quando um banco de madeira acabadinho de pintar. Não um carcomido: os carcomidos já apalparam tantos rabos que imaginar um exército de pessoas sentadas é um pedido para nos sentarmos), pode ser carro ou foguetão. Quando te pedem, não sabes, e não saber faz parte do jogo e da piada, do riso que se segue ao aleatório, de uma certa roleta de amigos que gira e giros que são, só riem porque também eles já quiseram quantos, e quandos.

Cresce-se e de um jogo de oito hipóteses aprendi vários mais, com múltiplas escolhas de escolha múltipla. O meu preferido, no entanto, tem uma só: abro a porta do quarto e se estiveres lá dentro, um ponto apenas pode levar a vários caminhos, maiores até do que o quarto (e nalguns momentos, maiores até do que é maior, para ser sincero). Atravessar a fronteira entre o mundo e essas quatro paredes é tão arriscado quanto seguir para lá dos Urais, e tão perigoso. Adoro encontrar-te estendida na cama, a ler só. Esse caminho, por si, puxa perguntas sobre o livro e recriminações que não se falam e só se olham. Se não estás a ler, simplesmente olhas o tecto, e perguntas são também estorvos, pois estás a olhar bem para lá de tudo, desenhando um outro mundo onde te confortas de poltrona. Dizes-me várias vezes "Vou acolá, onde não me prendem, e não és tu quem me agarra, mas sim, este ar podre do quotidiano, onde se respira secura se queremos viver e passar de um dia para o outro sem medo do sacrifício", e esse olhar que me repreende é viagem e trilho. Enquanto olhas o tecto, mais vale a pena deitar-me no chão e nem sequer tocar na cama. Quando entro na casa de banho, não demora mais do que a passagem de um pente até que estejas também, olhando por cima do meu ombro. Perguntas-me o que faz um homem quando percebe que, no espelho, é outro que não aquele que viu pela última vez. O mesmo que a mulher, provoco eu: sobressalta-se, habitua-se, regozija-se e a melancolia do amanhã em que tudo se repete estende-se e eleva-se sobre nós. Uma vez, quando te respondi algo do género, simplesmente agarraste na minha cabeça como quem segura um ovo para parti-lo, e por momentos julguei mesmo que ias fazê-lo, mas só fechaste os olhos. Segundos que para mim foram fotografias tuas, e quando me largaste, um sorriso e um beijo na testa. Senti-me melhor.

São muitas as histórias deste quarto, impressas por nós, impressas em nós e sobre nós também. As tuas preferidas são aquelas que acabam num sumiço; as minhas, habitualmente, começam por uma brincadeira e terminam na mais séria das coisas, séria porque me muda e transforma, porque quando termina sou outro. Na verdade, são a mesma, e é um "Quantos queres?" diferente, entre risos, ou simplesmente sem barulho, simplesmente uma cadência de pingos de corpos, das quatro dimensões da língua (que, saibam vocês, só se podem ver com bocas a três dimensões: a que sobra, a quarta, ninguém sabe bem como apanhar, mas o certo é que todos a sentem e desejam), de elementos puros, do cheiro a tempestade que se define pelo movimento e também pela paz depois do movimento, de uma série de escolhas e de coisas que começaram bem antes de fazermos de um quarto algo de parecido com um quinto dos Infernos. 

As escolhas, os caminhos e tanto que pode acontecer ali pelo meio. Nós incluídos, e quanto termina, não é bem um fim, mas outro começo, outra história.Um sem número delas.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Quantos queres?



Se o fumo da memória se pudesse agarrar, de maneiras quem nem eu entendo nem a Física permite e nem a Química gera, as minhas mãos seriam uma caverna. Não sei se alguma vez observaram de perto uma pintura rupestre. Não é exactamente uma pintura: na verdade, é feita tão em braille, com entalhes e depressões, que se pensarem que os nossos antepassados eram cegos ou viam com as mãos não se tornaram alienados de repente. Figuras e desenhos são, na verdade, a expressão física de alguém que quer deixar marca, que se recusa a simplesmente vaguear no sopro de vida que lhe foi concedido e não se importa que o que tem à frente seja rocha, ou que esteja frio medonho e incapacitante e só exista, à entrada da caverna, uma pequena fogueira, ou que de repente um urso entre e o apanhe desprevenido. O importante é o prolongamento de si para o mundo que conheço, para o real que faz parte dos seus dias. Ele vai, mas ao mesmo tempo, há-de ficar.

As memórias são assim. A inevitabilidade do seu sumiço é certa em quase todos os casos, mas enquanto existem são marca do que já não é, e o que não é pode ser um momento fugaz, uma longa história que se estica ao ponto da transparência ou a pessoa que quando esteve era tudo, e mesmo não estando é um bocadinho mais do que devia ser. Não sei em qual destas categorias coloque a Olívia, que passou em mim como um pincel pré-histórico. Eu, superfície rugosa; ela uma palha de aço encarniçada. Juntos só podíamos criar faísca e daí ao fogo é uma baforada. Tudo o que me lembro é de ter desaparecido, porque eu caibo aqui e nesse passado fui tanto que a minha existência passou de certeza por um estado da matéria desconhecido, no meio ponto entre acontecer e simplesmente apagar-se, onde quando nos sentamos explodimos em trezentas e setenta mil partículas, cada uma delas um ponto que a Olívia beijou, e por isso não pode ter durado meses, nem sequer o meu tempo de vida.

Não me consigo lembrar, sabem, é o maior problema das memórias, é que nunca nos lembramos delas, nem quando as temos presentes. Por natureza, não se pode confiar na memória, nem para consolar. Nunca é bem o que se viveu, mas pode ser até bem mais do que houve. São tudo o que temos, mas são nada ao mesmo tempo. A Olívia simplesmente seguiu o seu trilho de amnésia, ou não, nem siei, nunca lhe perguntei nem posso e fiquei com este saco de memórias que é também um saco de nada, cheio de ar, que virado do avesso deixar cair precisamente o que já existe no chão. Criar este palácio de lembranças dói na destruição, porque até que ponto não ficámos só nós com a fotografia mental da sua construção? Quando se cria algo, quer-se ser lembrado, deseja-se que mesmo ao longe, mesmo quando um regressa ao estado binário, o palácio continue a existir de certa forma, de uma maneira que ambos partilham, que em noites quando sopra o vento e eu me aperto na dúvida de que o meu corpo ainda exista por completo quando sinto tanto a tua falta, desmembrado e espalhado pelos cantos da cama, também a Olívia, também tu te desfaças um pouco e nas fendas refulja um brilho de mim, que ainda me guardas e só na ruína da noite permitas que espreite e saia de ti e também me abraças na mágoa de que não me tens de facto nos teus braços. Revives, como eu, outros enlaces de sacos no chão e mãos livres para nos sustermos, mas não nos sustínhamos de todo pois a roupa caía mais rapidamente do que nós na realidade do reencontro. Minutos depois, a queda era uma falha tectónica, e tremo ainda hoje quando o revejo.

No entanto, pode apenas ser memória, ainda que a tua pele tenha existido na realidade das minhas cavernas com dedos; e agora, que relembro, sou os teus olhos. Vejo-me através deles e não sei se é a adoração do passado ou a ignorância do presente. Não sei se esse olhar chega ao futuro, se me vês também lá, e o truque derradeiro da memória é a viagem no tempo, de julgar que o futuro acontecerá exactamente da maneira como o vejo, e que é passado e que a Olívia foi-se e não volta sequer para me dizer que tudo estará como eu penso, que pelo menos me posso recrear novamente nos espaços em aberto de um sorriso genuíno que mentia aos recantos escuros da vida da mesma maneira que a memória me engana nas manhas do que me lembro, ou penso que lembro, pois recordar é o coração a fantasia e a realidade em negação.


Mas a Olívia é, em totalidade. É tudo isto, é tudo o que nela projecto; e é também o que sempre me deu e tirou. Ela é eu e é ela; e um dia, seremos ambos qualquer coisa, quanto mais não seja uma memória.

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Colectâneas 3


Quando acordo, duas marcas espalham-se pela minha cama: a minha e a do sonho que tenho contigo. À noite parece que ressonas, mas é apenas o meu coração a saltar batidas que devia fazer. Chamo-lhe a apneia do suspiro.

Dou-me liberdade para te amar, sempre, sem me prender ao que seja. De te ver sempre que quero, de te beijar quando o desejo, de te ouvir rir quando bebo a tua alegria como alguém que preciso para que o mundo faça sentido. Dentro de mim, pelo menos, és livre de ser quem és, de fazeres o que desejas, de me abraçares quando te queres atirar contra o meu peito. Neste momento, para mim, liberdade é ser teu. Não é uma prisão: é espaço amplo onde consigo finalmente ser eu todo.

O teu nome percorre as minhas veias em maglev e agarra-se a todas as minhas células sanguíneas, ao ponto de sangrar ser o maior pecado que posso cometer.

Se a relva dos campos crescesse com os meus suspiros, o mundo era todo ele um pulmão de clorofila.

Vive em mim um ectoplasma bem definido, toma a tua forma quando, sem esforço, me recordo do ar em suspensão à tua passagem. As partículas assentam e fazem fila pelo rasto que deixas, desintegram-se por não terem a energia que sustenta o que deixas para trás, as sementes, a luz. O ectoplasma tenta ser tu, mas é apenas uma imagem. O ectoplasma quer ser tu. Deixas?

Quero dar-te todos os meus amanhãs, para que não acorde uma única vez na blasfémia de não te pertencer e ao teu mundinho. Para isso, gostava de embrulhá-los, com laçarote, e deixá-los à tua porta. Numa manhã fria, mas de calor tendencial, sais à rua, e antes de tudo o mais tens a caixa. A tua curiosidade desembrulha-a e o apartamento onde vives é de repente um canto, algures no mar do Tempo, e dás por ti no melhor dos mundo possíveis. Escolhes. Gostava de aparecer. Mas só se me invocares, pensando que mais do que tudo, gostavas de ouvir um "psiu". É a fórmula mágica do meu encantamento, está escrita na parte inferior da caixa. Os amanhãs são nossos, de uma maneira ou de outra, enquanto não desaprender a respirar.

Ela deixa-se levar, ele, levado da breca, deixa-se ser tótó, no cimo de uma torre. Felizmente, salvas-me, Rapunzel, e fica selado um conto de fadas onde vivem felizes para sempre, porque não interessa a duração do momento, mas a sua intensidade: aqui, está a eternidade.


Quando a cama é pormenor, tudo o mais biologia  do destino, e nos teus olhos encontro finalmente o que procurava desde que me ensinei a deprimir: o sentido de tudo, o caos organizado, a vida finalmente dar uma resposta ao porquê. É isto, és tu.