segunda-feira, novembro 21, 2016

Cronistão 14: Tarde cultural


O Park Tata, junto ao rio Buura, é um dos pontos de encontro para quem caminha por Osh. Quando, depois de almoço, decidimos resmoer é para encontrar famílias e grupinhos caminhando, alguns aborrecidos, alguns simplesmente automáticos; a certo ponto, encontro umas banquinhas que quando reunidas tentam ser o prelúdio de um parque de diversões. Numa, um trintão tardio cruza os braços ressalvando a musculatura digna de uma cordilheira andina e olha-nos duro e desafiador. A seu lado, está montada uma barra horizontal, bem boa para puxar umas elevações em suplesse. Uma plaquinha em russo tenta descrever o que se oferece, caso paguemos o estipulado e julgamos que é um exibicionista. Fixe, penso, eu pagava 50 com só para te ver sofrer e quando me preparo para puxar as notas, alguém tem a mesma ideia. Ele lá gesticula que afinal não, é um desafio: homem contra homem e quem fizer 30 mais rápido, fica com o dinheiro. O riso que se segue tem tradução universal e está visto que não será ali que o iron man encontrará competição. Eu sou o mais novo do grupo e não sei se me conseguiria levantar duas vezes do chão sequer, pois os meus braços são a mais definitiva prova de uma herança somaliana nos meus genes. Deslocamo-nos então para a banca do lado, onde se apresenta um jogo mais lúdico e menos bárbaro: duas garotinhas convidam-nos a atirar setas a uma parede onde diversas caixinhas guardam balões prontos a rebentar mediante a nossa pontaria. O vosso amigo esfrega as mãos e embora lembrando-se que costuma ficar sempre em último em jogos de dardos, o que interessa é espalhar a boa vontade entre os povos. Portugal fica mal visto, pois em seis setas, metade acertam o alvo. Os meus colegas seguem-se, com resultados melhores; a minha actuação espalhafatosa deixou a multidão ansiosa de me ver segunda vez e a turba manifesta-se: quer ver Bruninho novamente a fazer palhaçadas, porque quem não quer? Todo o meu grupo de amigos portugueses, mas isso não interessa; e portanto, chamando a mim as pontiagudas ferramentas de espectáculo, abro o livro: cada tiro é antecedido de antecipação e frenesim, um pequeno gesto, uma pequena piada, gestos largos e excessivos que comunicam universalmente. Aplausos, risos e sorrisos, um pequenino orgulho preenche-me e sinto que vim para longe fazer algo, animar o pachorrento quotidiano desta gente. A última seta será à filme: viro-me de costa e com um cálculo rápido, sai rápida da minha mão. O estouro do balão dissolve-se nos aplausos da plateia e enquanto ergo os braços, todos riem, todos somos humanos, todos apreciamos um cromo. O Ocidente e o Oriente não se encontram apenas no Bósforo.


Apanhamos dois táxis para o Sulmain Too. É uma espécie de nave espacial que se estatelou num monte à saída de Osh e alguém do grupo acredita piamente que tal é mesmo um objecto fora deste mundo. Na base do monte, vejo a mesquita muçulmana e recordo o que li sobre este ser um local sagrado do Islão. A história é que o venerando e venerado Maomé descansou por aqui uns dias e achou, na sua finita paciência, tempo para regar umas rosas. Rosas do Islão, afinal os trvadores provençais chegaram bem mais longe do que pensava.  É impossível não me sentir estranho ao largo deste monstro de betão, soviético até aos alicerces mas cuja envolvência rochosa cria em mim uma dissociação estranha.  Mas o local não é uma instalação artística de Giger, é mesmo um museu. Quando entramos, entendo o snetimento de um ocidental por aqui: uma placa anunciando bilhetes a 25 com muda de imediato para 150 apenas e só com a nossa aparição; e lembrem-se que Portugal não deixou aqui herança. Não julguem. No interior, interessantes apontamentos sobre o zoroastrismo e a vida selvagem pré-histórica misturam-se com a celebração de uns importantes petróglifos numa verdadeira salada russa de História e Paleontologia. O ponto principal de atracção é uma enorme janela que dá para a cidade, com formato de antena parabólica. Projecta no interior do Sulmain Too a aura alienígena que esperamos de um bólide espacial e a decoração, usando desenhos estilizados dos famosos petróglifos, não diminui a sensação, pelo contrário. No exterior, a varanda permite uma vista onde Osh se apresenta como urbe de verdade, extensa, larga, barulhenta e confusa, e ao longe, fictícia, traçada apenas nos mapas, a fronteira com o Uzbequistão imagina-se e estamos a tão poucos quilómetros que se consegue sentir a Rota da Seda em movimento.


No regresso ao centro da cidade, instala-se um desafio masculino: em redor do Sulaiman erguem-se vários pequenos montes e nas nossas cabecinhas, desenham-se já brutais fotos a ser tiradas. Uma breve conversa leva 4 bravos a meter pés à ladeia de terra, em busca de aventura. Cada um escolhe o seu caminho, mas as macacadas estão garantidas e serpenteando por rocha e cascalhinho, os nossos pés encontram na ponta de um rochedo um motivo para que o corpo pague a viagem. Num acaso não planeado, a nossa chegada combina com a de um trio de americanas com quem nos cruzámos no museu. São três irmãs, a Marguerite, a Caroline e a Bonibelle e provam que alguns estereótipos de comédia romântica sobrevivem e estão bem de saúde: a primeira é nem é gira nem é feia, antes pelo contrário; a segunda dá a ideia de poder despoletar uma segunda guerra de Tróia; e a terceira, a mais nova, é gordinha, girinha e outros -inhas e -inhos variados. Se lá atrás ficara pouco impressionado pelo facto de 3 garotas de Seattle desconhecerem a existência dos Rage against the Machine, Marguerite salva a honra do convento quando revela que não está na Ásia Central de férias: pertence ao Peace Corps e é médica, trabalhando como voluntária em aldeias. As suas duas irmãs mostram-se envolvidas politicamente, Caroline até faz parte dos vários voluntários que trabalham para Hillary Clinton e quando o nome Trump é falado, entre risadas, apercebemo-nos de várias Américas. O trio é do estado de Washington, tipicamente democrata, e falam do mundo como se fosse algo familiar, destroçando alguns estereótipos sobre a insularidade norte-americana.

Quando nos despedimos, a coincidência surge e sabemos que estaremos no mesmo local no dia seguinte. Talvez nos encontremos, e eu penso que sim, um mundo tão grande e tão vasto e dois continentes encontram-se no cimo de um rochedo em Osh, apenas e só por maluquices e desafios. Numa outra altura, a Rota da Seda era uma auto-estrada do mundo, e ainda hoje, esses mesmos percursos históricos continuam a unir um planeta que das diferenças não consegue fazer unidade; excepto as tres irmãs Leeds e quatro portuguesinhos: o cansaço é universal, a coincidência é cola e quando decidimos todos descer, os trambolhões são um abraço neste ponto de encontro.


quinta-feira, novembro 03, 2016

Cronistão 13: Rock the casbah


A luz é branca, conheço-a mas num segundo estranho. A lentidão ergue-me em solavancos e difuso e baço, um lamento em árabe consegue sobrepor-se ao barulho do trânsito e ao zumbido entre os meus ouvidos. Chamam para oração e no quarto de hotel, a hora é de pensar na peregrinação por Osh, onde me encontro. Aqui estou num real hotel, dezenas de andares, corredores que lembram "The shining", elevadores apertados, funcionários que sorriem simpáticos impessoais. É a primeira cidade a sério que encontramos na nossa viagem e só a capital é maior. O seu domínio sobre o lado quirguiz do vale de Fergana, um dos locais mais venerados e disputados da Àsia Central, nem se questiona e 3000 anos de idade dão-lhe a honra de ser a mais velha cidade do pais. Quando caminhamos nas suas ruas largas, há dezenas de pessoas que avançam connosco e no nosso oposto, sinais de que nesta zona mais a sul abandonámos a maioria eslava e existe uma influência muçulmana vincada. Nada que oprima: mulheres de beleza impossível levitam e existem longe de nós, mas a poucos centímetros de um toque que confirme que não são aparições, lenços tapando as cabeças mas pouco defendendo os ocidentais de traços faciais que envergonhariam a mais bela caligrafia corânica e colocariam frases a arder apenas e só porque de outra maneira não se queima a atracção. Podíamos passear em Osh simplesmente para desfrutar disto mesmo, embora a cidade, em si,

O que existe também em abundância é um caos organizado em desorganização permanente, o que se espera depois de dias a conhecer os hábitos rodoviários das quirguízias terras. Cada um por si e vamos ver no que dá, semáforos em entroncamentos que acendem em simultâneo e oferecem uma visão semi-apocalítica que faz da Rotunda do Relógio um paradigma escandinavo de organização. É preciso ver como todos se escapam, como se mete o nariz para testar as águas e depois arrancar prego a fundo pelo buraco que se descobriu. O caminho que fazemos tem como objectivo um outro local onde a desorganização foi acordada com um aperto de mão seco e sincero e desde que ninguém se atrapalhe, todos podem simplesmente estar em reboliço: o mercado de Osh. É o maior bazar a céu aberto da Ásia Central e uma prova de como a vontade humana é, tantas vezes, uma lei eficaz quando existe bom senso e disponibilidade. Antes de descer as escadas, o meu olhar alcança tendas e panais, contentores e casamatas que se espalham por dois quilómetros e meio em ambas as margens de uma imitação de rio: são cinco quilómetros de barafuste, solicitações constantes aos transeuntes, apelos que sobrevivem e fazem girar todos os dias a vida de centenas de mercadores e vendilhões. Do meu lado direito, vende-se comida; do meu lado esquerdo, uma miscelânea de safanões e o que mais possa descobrir. Descendo umas escadas, estou no labirinto e o único minotauro que encontrarei será Vladimir Putin, estampado em t-shirts com a garantia de um posto que está cima dos czares: Mr. President. 

Há toda uma outra disposição social nesta cidade. As pessoas querem estar contigo, falar-te, impingir-te. Apontam para a tua câmara e puxam-te o braço, fotografa-me e leva-me contigo, vê bem o que aqui tenho, não queres umas tâmaras? Velhotas puxam para o seu lado garotas e não têm vergonha. Tudo é barato com despudor, mas não resisto a brincar ao regateio, apenas porque é um jogo com Liga dos Campeões nesta zona. As compras saem-me baratas: 350 coms por duas echarpes, um caderno por 5 e ainda trago alguns chapéus tradicionais locais por mais uma pechincha barata. Estou aviado de prendas, mas quase deixo caí-las com tanto movimento agitação, alucinação até. Cristiano Ronaldo é deus do negócio, cara e corpo estampados em mochilas e até tapetes, como se o sue nome pudesse oferecer a quem pisa uma fracção do talento dos seus pés. Descobrem-nos portugueses, "Ronaldo, Ronaldo, Europa" mais do que uma vez e repetindo, atravesso e fotografo, não consigo ser turista simples. Os recantos descobrem-se, um lado escondido do mercado revela-se e quando da sombra dos toldos vejo a luz do sol, a parte dos ferreiros revela barbas simpáticas, abertas, solícitas, convidativas. Todos são de todos, entendem-se e vivem, sou apenas mais um corpo que tão simples atravessa e existe com um tempo limite neste deserto de grãos de areia que são gente e cujo vento sopra em todas as direcções em afecto e resolução do mistério de choque de culturas, que não só não chocam como dão o agradável choque do clique.

Depois de comprar souvenirs gastronómicos (chás para a Raquel, especiarias para a Joana), cruzo-me com um vetusto e desenrascado senhor que carrega para um carro de mão dezenas de pães redondos. Entre a minha fotografia e um sorriso forçado que aprendi a armar para completo desarme de quem fotografo, sou surpreendido pela genuína simpatia deste quirguiz, que me estende um estupendo e apetecível pão. Quando procuro a carteira para pagar, nega, gesticula que não, ri-se e aponta para a minha barriga. "Está com fome", pensa e eu leio e estava mesmo. Entre mim e dois que me acompanham, vamos partindo pedaços e comendo, depois de profusamente agradecer a um santo vulgar. Nunca comi pão tão bom nem que me soubesse melhor. Tão sincera foi a oferta que senti na minha boca despertar toda a verdade, de falar sem medo, de simplesmente ser sem me mentir. O pão fez-me olhar para toda a experiência como aquilo que era: uma viagem, como a que fazia, como a que me carregou em ombros ao mercado. O mundo são pessoas em translação e eu apenas estou aqui para me deixar levar; e ainda com meio mercado para destapar, foi exactamente o que fiz.




terça-feira, outubro 25, 2016

Cronistão 12: Marks


O Marks é um tipo meio franzino, não muito diferente de muitos indivíduos bronzeados que durante o Verão são pescadores e o resto do ano fazem uns biscates: a pele engelhada, o passo gingão, os gestos feitos à laia de comunicação são tão portugueses quanto quirguizes e quando se apresenta vestido como um golfista escocês a pretexto de ser o nosso condutor de uma viagem longuíssima entre Naryn e Osh, nem acredito. Desenvolto, pega nas nossas mochilas e malas para arrumar no carro. São seis e meia da manhã e depois de um pequeno-almoço tomado, é hora de sair. Marks tem colegas, vamos em dois carros, mas é ele quem lidera a pandilha e gosta de enturmar. Quando paramos para apreciar a paisagem, quer tirar-nos fotos; ganha confiança suficiente para nos pedir para aparecer, e depois nem pede. Não é ostensivo, é apenas um tipo muito à vontade com as coisas e meio diferente de todos aqueles locais que não sendo rudes, são distantes. Marks gosta de amigos e sabe apreciar a viagem. Não faz má cara quando lhe dizemos que queremos fotografar e ainda recomenda dois ou três sítios bem catitas para captar as montanhas.


Na sua cabeça, não faz um trabalho: calhou ter um carro e malta estrangeira precisando de boleia. No entanto, fica claro que a viagem não é nossa, mas dele. Numa descida em gravilha, Marks vai com cuidado, mas ao aperceber-se de outra viatura em sentido contrário, parece dirigir-se ao seu encontro. inicialmente, achamos que se está a meter connosco, mas a trajectória não muda um nico, e o outro condutor apresenta a mesma atitude relaxada. Noto que estamos na beirinha da estrada e que mais dois centímetros e a beirinha é um à beira de cair umas boas dezenas de metros. Não falo a sua língua, mas digo o seu nome e Marks só sorri. A colisão é iminente e finalmente o segundo carro guina para a direita, deixando que o nosso passe. Marks trava de súbito. Entre nós, há olhares de terror partilhados, alguma perplexidade e quando o nosso amigo abe a porta com velocidade e sai disparado, preparo a máquina para o modo de movimento: vou assistir com certeza a pancadaria. Falso alarme: Marks abraça o outro condutor e afinal, são amigos. Era uma brincadeira, porque aqui a morte é um passatempo quando o tédio não pode ser opção. Insistem que lhes tiremos fotos, ambos nos dão endereços online e marram no envio das imagens, garantimos que sim, mas posso dizer que meses depois ainda não receberam nada. O amigo de Marks deixa-nos ver o seu Honda verde escuro e lá dentro, uma mulher toma conta de umas sete ou oito crianças, duas delas bebés de colo. Ela tem um ar meio desolado e a visão das máquinas fotográficas esbofeteia-lhe a cara.


Alguns quilómetros depois, após certas montanhas nos terem deixado abananados, Marks desce-nos à terra e envereda por um caminho que conduz a uma aldeia circunspecta. Paramos aqui? Sim, e se ao início a perplexidade nos invade, a constatação de que estamos no local de origem do nosso Marks deixa-nos sorridentes. Somos encaminhados até sua casa, conhecemos a mãe e uns familiares e convida-nos a partilhar mesa e comida. Eu conheço-me e evito um possível incidente diplomático recusando com simpatia a oferta. A maior parte do grupo comunga do momento e pão, queijo e leite fermentado trocam de mãos. Parece que nos conhecemos há algum tempo e no entanto faz seis horas que saímos de Naryn, e nem sabemos bem quanto falta para Osh. Haverá branca pelo meio, com uns carros, e um condutor idoso cuja adrenalina já não funciona enquanto se arma em Mad Max, mas naquele momento não sabemos e naquela casa de tijolo, que vai a maio de uma reconstrução, tudo é agradável e pacífico e nem uma insinuação para que deixemos uma moedinha estrada aquela aparência de comunhão mundial. Penso em como viajar é também isto, estar com quem não se conhece e fingir a plenitude da proximidade, falsa e oca, mas agradável. Cumprimentar velhos amigos de segundos e alapar nos azulejos de alguém com quem nem sequer conseguimos comunicar. Sairmos de nós, mais do que sairmos de algures: é assim que defino viajar.


quinta-feira, outubro 20, 2016

Cronistão 11: Que força é essa?


Os processos biológicos do ser humano funcionam sempre fora do nosso relógio e quando te vês obrigado a parar uma viagem de carro no meio dos montes, sem qualquer cidade por perto, apenas e só porque os teus intestinos tocaram a sirene e precisam mesmo de ser salvos, és lembrado que por muito livre arbítrio que deus nosso senhor tenha dado ao ser humano, és em última instância escravo do teu corpo. A carne não só se diverte como ordena e pede e obedeces e pronto. Durante vários anos, a minha relação com o meu tracto intestinal, se me permitem esta divagação depois de duas crónicas tentando descrever beleza que não pode ser colocada em letras, foi sempre de enorme entendimento. Se eu não queria, ele não puxava, e na quase totalidade das ocasiões em que me via obrigado a permanecer fora de casa, longe do assento pálido de cerâmica a que me habituei a chamar de "trono real", o meu abdómen dormia sem ressonar. Quando resfolegava, uns breves momentos de meditação ajudavam a controlar; e só mesmo no limite dos prazos é que a evacuação se dava. Nos últimos anos, porém, o diálogo tem acabado e este processo de paz é mais parecido com a situação do Médio Oriente. Ora, portanto, estou eu a quase 3000 metros de altitude, frio a picar, um ventinho que trabalha como uma navalha, horas contadas para chegar a Naryn, com muito do caminho numa estrada de calhau e eis que sinto o apelo que temo. Tento gerir, mas logo noto que é impossível: os espasmos multiplicam-se, o desconforto aumenta. A caravana pára e depois de encontrar um rolo de papel higiénico, disparo pela porta procurando um abrigo. Sem sucesso, é uma planície e eu penso que porra, tanta puta de tanta montanha alta como tudo e não há um único montinho onde me posso esconder. A solução apresenta-se como a traseira do veículo, e aí aninho e sou servo do meu sistema digestivo. Uns minutos chegam para me reduzir à minha insignificância celular e quando regresso ao calor de um carro, deixo o meu vestígio mesmo no meio da estrada, ali no ermo, ali no nada. Rei por um dia, tonto na estepe. Acho que é qualquer coisa deste género.


Reencontraremos o alcatrão uns bons quilómetros à frente, mas só depois de entrar na montanha russa: sobe-se e desce-se, enormes rectas debaixo do sol, 14 cotovelos em curva sob granizo inclemente em Agosto, a luz dançando nas frinchas das montanhas, tapa e descobre das nuvens, fileiras de montes alinhadas geometricamente como pedaços de um lego que ninguém montou e parece ter brotado do chão. A viagem demora umas oito horas e quando damos com as vermelhas elevações que rodeiam Naryn, passando um túnel que as atravessa, sabemos que estamos perto. Esta cidade foi outrora vital na Rota da Seda - estamos a menos de 100 km da China e a maior parte dos turistas que se aventuram por esta região juntam todos estes "istões" num pacote. Naryn é ponto de passagem obrigatório para quem chega e vai, por uma questão prática. Deve o nome a um rio que a atravessa e é atravessada por uma longa avenida chamada Lenin, através da qual descobrimos que o grande papá comunista deixou uma grande impressão neste local: simbologia da época, bustos e estátuas... A Avenida é larga e limpa e apenas quando perdemos algum tempo a percorrê-la a pé nos apercebemos de que a cidade esconde perpendiculares onde domina o entulho. No entanto, vemos crianças a brincar felizes, pessoas vendendo fruta e legumes num mercado espontâneo, mulheres que à janela estendem roupa e nos acenam, um velhote bêbado metendo conversa em russo com gente que só fala a língua de Camões e Chagas Freitas. Acho sempre incrível como estas pessoas passam por cima de dificuldades e obstáculos que me fariam queixar durante minutos a fio e simplesmente vivem e fazem o melhor que podem com isso.


Quando regresso ao hotel, aproveito para visitar a sala de estar, que a há. Uma jovem vê um reality show local com o namorado e não querendo perturbar, sento-me numa poltrona fora da sala, onde converso com quem cá está. Vejo passar várias pessoas, de várias cores e vestimentas e penso como mesmo numa cidade de passagem, sem grandes pontos de aparente interesse, se encontram mundos e imagino as histórias que cada um ofereceria se nos sentássemos a conversar. Penso em como as viagens são mais do que o chão que se pisa e as paisagens que se colam à retina, de como deixamos outro tipo de vestígios que não biológicos e que as pessoas e os olhares também ficam connosco e se explicam ainda menos do que as emoções. Esteve-se e observou-se, contactou mesmo sem falar e quando no fim de um dia o cansaço se esbate e o nosso corpo se entrega à cama, parece que no quarto pairam também essas vozes e experiências e que só dormimos mesmo sozinhos se não pensarmos em outrem, ou não nos recordarmos que nos milhares de distância que nos separam de quem conhecemos, existe uma viagem constante de afectos. Desligo o telemóvel pouco depois de ler o teu beijo e quando adormeço, tenho a certeza prática de tê-lo sentido nos lábios.

sexta-feira, outubro 14, 2016

Cronistão 10: Banquetes


Fiz 20 anos de escutismo, grosso modo, e já dormi em várias modalidades de barbárie controlada. Tendas pequeninas e grandes, igloos e canadianas, o relento verdadeiro com cúpula pintada pela noite e casinhas grandes e pequenas onde só dormem os bichos, e até tenho para contar coretos e bancas do peixe. Já dormi em quase todo o género de locais que possam pensar, até camas. No entanto, foi a primeira vez que chamei refúgio a um Yurt, circular e branco, uma fortaleza de lona que parece querer sumir ao primeiro sopro ventoso, mas resiste sólido e protector, prometeu a quem o ergueu que não me ia deixar mal e assim é. Por fora impera o pálido monocromático, mas desvenda-se o panal que tapa a entrada e há um festival de cores, espalhadas em múltiplos tons, retalhos irmãos que formam cobertores por debaixo de mim, posteriormente por cima de mim e até em meu redor. A tenda é para 5 e mais tarde dormiremos encostadinhos, principalmente quando chegarmos de uma sessão de fotografia nocturna às estrelas que nos deixará cones de gelado. Mas agora o sol acabou de se pôr e estou no umbigo deste pequeno mundo interior, com toda a gente arrumando e desarrumando e eu simplesmente abstraio-me. Apenas regresso a mim quando chamam para jantar, e o o restaurante é igualzinho, branco por fora e espirro colorido por dentro. Variedades de comida espalham-se por uma mesa horizontal e corrida, frutos secos, pão compotas, biscoitos, rebuçados, salgados e carne seca, até que chega o prato principal que é um peixe enigma, pergunto-lhe como foi preparado e não me sabe responder. Na minha boca, segreda-me água doce e sei desde logo que veio do mesmo lago que fotografei anteriormente, O que deliciou os meus olhos consola agora o meu estômago e confunde-me a boca. O pão é também grande amigos para alguém como eu que sempre viu na comida um alçapão de incómodo.


A noite de sono que se segue é interrompida por um metrónomo sonoro, batuques de dedos no tecto do Yurt. No meu estremunho, identifico chuva e o meu corpo simplesmente se estira, relaxa, goza o prazer de estar tão longe de tudo com um prazer que me faz regressar a casa. Sinto isto sem pensar, e virando-me para outro lado como que apago e quando regresso a mim consciente, já são seis e meia da manhã. Sou chamado pelo despertador do telemóvel para fotografar. Vestido a rigor para um baile de baixa temperatura, sinto que o Yurt foi afinal nave voadora e aterrei noutro lugar. O cenário rochoso que me rodeava no dia anterior está agora aconchegado por um grosso lençol de neve, como se o meu sono fosse de hibernação e despertasse num Inverno permanente. Receio até caminhar, com medo de que esta viagem esteja ainda a decorrer, mas uso a máquina para fixar isto, ninguém acreditaria se contasse a diferença que seis ou sete horas podem fazer num local. As nuvens cinzentas quase me despenteiam com dedos e o lago reflecte a sua cor e murcha o verde dos pastos. Cavalos aproximam-se da água e param, ruminando a verdura, dispondo-se em contas geométricas, cada um a sua própria manada. São arcos defronte da escuridão das águas, contra-luz da brancura das neves e funcionam como uma demarcação entre terra, lago e céu, garantindo que são reais, mas em simultâneo aumentando a irrealidade desta visão. Enquanto caminho fotografo e vejo, ao longe, a luz solar furando de quando em vez, procurando aquecer-nos. O frio é uma capa que me desconforta, mas afirma vida em mim. Clico tantas vezes que a máquina corre o risco de se partir e quando sou insignificante aos olhos de uma montanha tão invencível que esmaga sem tocar, sento-me na terra aveludada, acolhedora e choro sem ninguém ver, porque não consigo suportar tanta beleza sem ter uma reacção física que me trema de alicerce a telhado, o mundo como uma casa tão inatingível que só consigo lá viver abdicando da minha armadura. Cada lágrima é uma benção e um agradecimento, uma alegria por estar vivo neste momento, longe de tudo o que não vale a pena e ser prisioneiro voluntário de um carcereiro chamado mundo. São coisas do mundo, que não se podem ver ao longe, como dizia a canção... e com a voz que me resta, não vou saber contar. Restam-me imagens, fotos e este sal que salta de mim porque sou demasiado imperfeito. Corre para o esplendor que o arrancou e é seu.


Subitamente, levo dezenas de calduços em simultâneo, pequeninos, Bolas de gelo brancas caem sobre mim e estou debaixo de uma tempestade de granizo em Agosto. O Yurt é a salvação e protegendo a máquina debaixo do meu blusão, com pouca dedicação ao meu próprio bem-estar, enceto rápido sprint para me proteger. O abrigo afasta-se a 300 metros e a minha corrida interrompe-se aos 50 quando me apercebo de que o ar se tornou mais denso e respirar um acto de coragem quando feita em esforço. Aos 3000 metros, viver custa um pouco mais, diz o teu corpo, como se lamentasse que para seres verdadeiramente feliz e mereceres o sorriso que tens estampado na cara tivesses de sofrer. Dar valor ao que consegues através de uma dor que é travão. Em passo acelerado, acabo por chegar à tenda. A mochila recebe a máquina, limpa e intacta, e nos cobertores, recubro-me ainda a sorrir. A dor passou e ser feliz é também deixar que o que dói corra para longe de nós, para uma altitude onde não tem outro remédio senão estacar e morrer à fome. O resto são montes nevados soprando feitiços que nos aumentam 100 vezes mais do que somos, sem que seja preciso entoá-los. Basta pensar neles e agora mesmo, enquanto escrevo isto, as nuvens rodeiam minha cabeça e estou certo que aquelas luzes que se dirigem para mim são de um avião. Daqueles que voa bem alto.

sexta-feira, outubro 07, 2016

Cronistão 9: Não ter palavras



Quero que façam um exercício e que na vossa biblioteca de memória encontrem o local mais belo que deram a provar aos vossos olhos.Não se apressem e instalem-se confortavelmente, percorrendo com delícia todo o mundo visual com que foram privilegiados na vida. Escolham devagar, com critério, com gosto. Quando se decidirem, recordem-se de como o vosso corpo se alterou nessa presença, como a respiração simplesmente se transforma, de como a vossa existência, nuns segundos, entrou num local onde a vossa mente jamais pensara subir. Enquanto se entregarem a estas linhas, mantenham no vosso centro essa trepidação do ser e tornem-se em mim no momento em que um Honda preto desceu uma ligeira colina para contemplar uma larga planície à beira de um lago onde pasta gado, principalmente cavalos. Estou a 3000 metros de altitude, a erva de um verde suave e cândido, atravessada por veias de terra onde os veículos podem entregar-se ao masoquismo mecânico. À minha frente, uma boca bem aberta, defronte de montanhas, enche-se de água e recusa-se a engoli-la. Chamam-lhe lago Song-Kol e o seu tamanho é modesto porque antes vimos uma mastondôntica massa aquática sem aparente fim. Saio do carro, tendas brancas chamadas yurts formando a espinha dorsal da vida da comunidade nómada que aqui habita, uma procissão de panos coloridos estendidos em cordas de roupa na pauta musical do vento, lançando-nos melodias que nem se escutam nem são visíveis, mas passam-nos pelas mãos.


Esqueço-os e às pessoas e fico estacado, assim como quem atrai não raios mas o etéreo, e concentro-me em como vou conseguir traduzir mais tarde o indizível. É o centro do meu mundo hoje, sinto-me tão anão  que me entrego ao cenário como um megafone que grita o esplendor. O lago e as montanhas esmagam, mas também são uma casa onde me considero sempre convidado. Tenho medo de chorar porque naquela mistura de cores e de desconhecido, de um domínio do mundo tão extenso e tão inconcebível que sou uma peçazinha sem importância num quadro perfeito, sinto-me fraco demais para suportar algo tão belo e excelso, tão único e especial, tão fora do meu entendimento como pessoa que as juntas que me suportam tremem e quase soçobram, mas agarro-me à máquina, aproveitando um sol que me acaricia com a ponta da língua e passo para o clic os clacs que me abalam. Aguento estóico, finjo apenas maravilhamento comum, mas na verdade tapo-me com um largo cobertor de espanto. Mais tarde, quando tenho alguns minutos estendido e posso percorrer tudo isto por extenso, corro todos os locais que dei a mim mesmo como provas e desafios. Apareço, feito espectro, no Cântaro Magro e atravesso a Nave da Mestra como se nada me importasse; a serra da Lousã abraça-me e nela reencontro tudo que nela me molda em plasticina do mundo e atira-me enrolado para os altos picos da Madeira, as levadas suas, a velha floresta do Fanal em nevoeiro, rolo como um tonto até aos Picos da Europa, a Ruta del Cares, rocha bruta, e noutros locais onde fui tantas vezes mais eu do que me cabia ser. Este local, entalado entre o lago e picos de oxigénio denso, é talvez o mais belo onde estive até hoje e sei de imediato que falharei na altura de transmitir a realidade do que me parece irreal e surreal.


A delícia é muito visual, mas rodeia-me uma cultura nómada que se instalou no espanto como quem já não se admira. Na Ásia Central, este é um modo de vida desde os primórdios e embora veja artefactos menos milenares como jipes, ainda há aqui muito de genuíno. As tendas pálidas, a ordenha das vacas, buscar água ao lago montando num burro, ver crianças com uns dez anos dominando o dorso de cavalos como se tivessem visto na vida selas antes de fraldas... A sensação é a de que esta gente, vivendo em altitude e distante de um traço de civilização a sério, segue o ritmo do sol, seja na duração dos dias ou dos ciclos. Chega uma altura em que recolhem lonas e animais para descer aos vales onde o Inverno não chega em brancura nevada. É um modo de estar e ser mais dependente dos caprichos naturais, mas onde o relógio interior badala com mais vontade; e quando fotografo quatro garotos de idades diferentes que brincam e se metem connosco, alinhando em "macaquinhos do chinês" sem tradução, vejo sorrisos que me lembram, vagamente, a criança que já fui. Não sou um deles, mas de máquina em punho, finjo ser. Aqui, no meio de um ponto que não existe para todos os efeitos da credibilidade, cada um pode ser o que quiser e sem memória.

segunda-feira, outubro 03, 2016

Cronistão 8: o trânsito da paisagem


Em Balkychy, chegamos ao ponto intermédio da ligação entre Karakol e o lago Song-Kol. Como outras cidades quirguizes, o império russo fez surgir no meio de nenhures um entreposto que se tornou cidade, assumindo importância estratégica nos tempos soviéticos. Mas com a queda da URSS, veio uma travessia no deserto que é quase literal, porque em redor é o que praticamente existe. É aqui que mudamos de motoristas e até que cheguem, almoçamos numa coisa que nem tasco é: tem quatro paredes, um tecto e um balcão, mas parece ter sido um improviso repentista de alguém que encontrou um espaço fechado e se apercebeu de que havendo uma estrada ao lado, não se perdia nada em montar um comes e bebes. Não consigo perceber muito bem o que há disponível para comer, entre a ausência de menu, a falta de alguém que fale inglês (tradição local) e o aspecto daquilo que aparenta ser comestível. Assertivo, regresso ao carro e puxo de uma lata de atum e quem chama ao bacalhau fiel amigo, claramente nunca se viu por terras de exotismo para a boca. Sentamo-nos os nove numa mesa redonda, o centro de uma sala perdida nas traseiras e a decoração é tão kitsch que me fere os olhos - fotos panorâmicas das montanhas saídas dos anos 80 e sobre a mesa, duas fitas peganhentas, barradas de mel, servindo de pega-moscas e resultam, pois estão carregadinhas de insectos capturados, à vista próxima de todos. Qualquer coisa neste espaço dá fome.


O Talgat chega e vai conduzir-nos, com o primo, ao destino. Numa refrescante mudança, exprime-se em língua britânica de forma competente e é alguém com quem se consegue ter uma conversa que vá para além dos dedos e dos grunhos. Fala-nos da Turquia, onde estudou e se formou em Relações Internacionais. No entanto, a sua ambição é criar uma empresa de transportes com o primo, para levar turistas a todos os cantos do país. Acredita que o futuro está nesta área. É um rapaz motivado e ambicioso, mas percebe pouco de portugalidade: o seu jogador preferido é o grande maestro Rui Costa, mas apoia o Futebol Clube do Porto, naquilo que é uma heresia que quase consegue separar famílias em Portugal. No entretanto, os quilómetros deslizam o cenário e as areias barrentas dão lugar a paisagens de verdadeira montanha, com pedra sólida e bruta, o cinzento espaçado de verdes rasteiros e altitudes que travam na garganta com o freio do espanto: várias vezes chegamos aos 3000 metros e ao longe, os picos nevados do Tien Shan, a cordilheira mágica que da China entra no Quirguistão sem bater à porta ou pedir licença, alerta-nos que da terra partimos para o céu, terreno proibido. A estrada de alcatrão dá lugar à gravilha, algo que enfrentaremos durante 50 km de um caminho que noutros países seria apenas para jipes, mas que aqui, em espantosa inversão de valores e regras, é perfeitamente aceitável para qualquer veículo ligeiro, no caso um Honda. O carro queixa-se e tosse a certa altura, gemendo o furo no pneu direito traseiro. Felizmente foi num raro pedaço plano. Talgat e o primo procedem à reparação e nós, como bons turistas ocidentais, fartamo-nos de fotografar enquanto eles trabalham. O dia pede-nos isso, oferecendo uma luz solar cujo cortejo de ocasionais nuvens transforma o planalto no couro malhado de uma das muitas vacas que vamos vendo incrustadas na paisagem. Quando a viagem prossegue, sabemos que há tanto para registar, mas não podemos parar a cada motivo. É o grande drama de fazer turismo neste canto do mundo: aqui a Física inverte-se e o espaço é muito maior do que o tempo - Einstein encontra, aqui, a morada da sua loucura.


No topo de uma das montanhas, consigo afastar-me e simplesmente ser absorvido por tudo. Nunca por completo, sou demasiado sujo e complicado para pertencer a esta pureza simples de ser, mas o suficiente para me apagar uns momentos na busca da minha respiração mais cadente, num momento de altitude que me assenta bem. Vejo quilómetros de um vale se abre por entre montanhas, a luz do sol servindo de tapete, cristas rochosas que não ameaçam mas acolhem o olhar para poder ser iludido pela felicidade fugidia do sorriso automático da beleza. Penso que é isto, que tantas vezes é vida completa num pequeno momento estático em que nos deixamos fazer parte do que nos é superior, sem fés ou crenças, superior apenas porque sobreviveu e conseguiu, ainda assim, dominar. É a beleza da montanha e julgo não haver algo de mais belo para ver. A questão é que ainda não chegara ao lago Song-Kol, estando muito longe de imaginar que por uma vez o meu cérebro se iria apagar e as palavras se perderiam entre as estrelas.

sexta-feira, setembro 30, 2016

Cronistão 7: Fadado para morrer



Desde o primeiro dia que nesta terra distante a morte me tem passado pelos olhos. Não vestida de negro, foice a tiracolo, mas a maneira que nós, humanos por natureza e inclinação, arranjámos para mantê-la presente como fantasma: campas alinhadas em cemitério, últimas moradas de gente no momento em que expira ficou mais sem-abrigo do que abrigada. Se por cá reina a opressão do branco, campas como filas de almas penadas a ocupar os cemitérios, aqui as necrópoles são quase literais cidades de morte. A semelhança de alguns túmulos com casinhas de brincar é por demais evidente e as lápides fazem-se acompanhar de zero representação. Há diferenças substanciais em relação ao Ocidente e a primeira é a localização. Habitualmente, estão fora das povoações, e por fora quero dizer uns dois ou três quilómetros, pelo menos. Encontramo-las à beira das estradas, raras vezes delimitadas, apenas ajuntamentos de memória. As cores da paisagem dominam e aqui, nesta ligação que fazemos entre Karakol e a nossa próxima dormida, são de vermelho arenito. Por fim, não se usam fotos: há retratos esboçados do ente falecido, tentando talvez apanhar-lhe mais o espírito do que a forma. Quando olhamos fixamente, as faces esfumam-se um pouco, tremem e as pessoas voltam à vida em arremedos. É irresistível parar e tirar fotos. Do nosso lado direito, a margem sul do Issyk-Kul contrasta com a oposição de brutais montanhas, guardiãs dos mortos, respirando a paz da última morada. Noto que todos têm aqui lugar: há campas muçulmanas, ortodoxas e até comunistas, presumindo eu que o ateísmo também alapa morada. Muito ecuménico, este espaço, e quanto mais o fotografo, mais em paz me sinto entre pilares de pedra que se erguem dos restos mortais de alguém. Inunda-me uma ideia em expansão, nesta cultura diferente, de que faço parte da algo maior, seja isso o que for, sem símbolos ou marcas.


O encantamento continua uns quilómetros mais à frente, quando sinto a carrinha virar para uma estrada de terra batida. Uma placa indica "Skazka" e não entendo Quirguiz, como sabem. Pergunto o que quer dizer e respondem-me que vamos entrar no desfiladeiro das fadas. Não estou na Irlanda, mas aceito que existirão também tais criaturas na terra dos cavalos, porventura unicórnios. Cinco quilómetros depois, lidamos com dois garotos que são reis de uma cancela. Se queremos passar, cada um paga 50 som. Baratinho, por isso sacam-nos o dinheiro e avançamos então até um estacionamento improvisado na base de um barreiro. Mal saio, o sol oprime-me de imediato contra o solo e quando os meus olhos se ajustam ao enigma, contemplo obras de arte esculpidas por mitos com duas mãos. Numa larga extensão de forte vermelho acre, onde consigo escutar o tinir de milhões de anos de planeta, ergue-se uma cidade que não existe porque não é cidade. Seguem-se casebres, avistam-se pináculos de palácios que jamais existirão. O vale é um desfile de ilusões de óptica oferecidas com desprezo pela água da chuva e um vento caprichoso, mas sensível. Um torreão anilhado, assente no dorso esburacado e arenoso de um lobo de rocha, é o panóptico que a todos controla, invasores de um espaço privado desse senhor feudal inclemente que é a Natureza. Fotografar tudo isto é mais missão do que desejo. O meu dedo anseia por ganhar calos e tendinite, capturando esta aldeia das fadas onde a luz do sol é uma dança sem fim. Quirguistão e Magonia não rimam sequer na magia da presença, mas os seus domínios, onde elfos e duendes e gnomos têm também o seu bairro próprio, estão agora no digital de um cartão de plástico, mera sombra do que vimos, mas uma poderosa alegoria da caverna dos nosso olhares.


Subo até à base do torreão e sento o rabo em pó de fadas, desiludido por não ser LSD. Recolho areia, atiro-a e estupidamente, mas de propósito, tomo um banho, mas sinto--me outro, telúrico, pronto para me embrenhar no labirinto das fadas. Saio não pelo fio de Ariadne, mas puxado pelo mistério e pela vontade de descobrir mais. Sem querer, sinto-me preso numa teia de memória, o calor que me banha é superior ao do sol e penso em alguém que faz da magia das fadas a banalidade de um sorriso e num beijo , prende-me a um encanto onde sou simplesmente mosquinha, nem morta nem viva, só presa e encantada nesta polis de faz de conta, vermelha, mágica e ilusória.


segunda-feira, setembro 26, 2016

Cronistão 6: Relaxamento termal



A quarta maior cidade do Quirguistão foi fundada no século XIX, porque no meio de nenhures dava jeito haver um entreposto militar russo. Logo aqui se misturaram  os Dungans, chineses de origem muçulmana, com eslavos, tudo para manter um foco de guerra permanente contra a China. Chamaram-lhe Karakol. Apesar de pertencer hoje a outro país, a cidade ainda hoje alberga uma base militar russa, junto ao lago Issyk-Kul, onde se fazem testes com submarinos, diz-se.


A terra merece o nome, pelo menos em português, pois é uma violenta pasmaceira. Vale pelo kitsch de se encontrar um cinema que passa filmes de Bollywood em 3D e pelas mal-disfarçadas influências soviéticas, dominantes 25 anos depois da independência nacional e visíveis nos edifícios civis. Num deles, que desconfio ser a Câmara Municipal, encontramos expostos retratos de dignatários locais, que pelo aspecto são frutos de um gigantesco bacanal providenciado pelo ET do famoso filme de Steven Spielberg, uma mistura de traços asiáticos e andinos, num estilo gráfico reminiscente dos anos 80. A cidade divide-se entre muçulmanos e ortodoxos e cada um tem os seus locais de culto. A igreja é tão igual como qualquer outra do género, mas ao entrarmos no espaço da mesquita, por um corredor ladeado de hortas após passar um portal de madeira, a curiosidade é mais evidente: é quase como se Miró e Chagall se tivessem convertido ao Islão para destilar, numa obra de arquitectura, a sua religiosidade através de uma explosão de cor. O edifício faz lembrar os templos budistas e não se vêem sequer quartos crescentes ou escrita árabe no exterior. O minarete é uma discreta torre azul de madeira. Como em tudo aqui, o essencial não sobressai e fica ao nosso encargo adivinhar o que se faz, o que se move e o que se pensa. Há cidades sem personalidade, mas Karakol parece ser o tipo de local puramente serviçal, onde até os cidadãos só lá estão porque existem habitações e era chato ficarem vazias.


À tarde, foi-nos prometido que descansaríamos nas termas de Altyn-Arashan. Portugueses que somos, começamos logo a pensar em estruturas de pura dedicação ao relaxamento, com piscinas, fontes e, atreve-te libido, massagistas. Depois de almoço, preparo-me a rigor com calções, toalha e chinelos na mochila, o equipamento oficial do turista luso. Mesmo que não haja praia, o que conta é o estado mental e a época balnear não ocupa peso na bagagem de porão. Porém, leves sinais indicam que se está a pôr algo mais do que um simples passeio. Os veículos alugados são jipes, mas as termas são no cimo da montanha e a coisa até pode ser para o charme. Um deles atrai de imediato a atenção, por parecer mais velho do que eu. No interior, todos os fios estão espalhados, as portas presas por guitas à laia de fechadura e o aspecto convida à pura experiência da Ásia Central. Quando alapo o meu rabo, imagino que sou mesmo um aventureiro: na estepe, sê um dos duros, mas na verdade, e tivesse eu feito a pesquisa em casa, o que me esperava era uma valente estopada. É que, e deve-se dizer, o troço de 12 km que separa Karakol de Altyn Arashan tem uma certa reputação entre as estradas asiáticas, nomeadamente a de serem necessárias uma duas horas e meia para fazê-lo. Desconhecia este pequeno facto e seus motivos, mas nunca mais o esquecerei.


O curto caminho vai subindo a montanha até uns aceitáveis 2600 metros de altitude, um pouco como subir ao Pico, tudo isto num piso que transforma veículos todo o terreno numa orquestra de rumba onde os passageiros são congas. Quando, a certo ponto, se apanham calhaus de dimensão bem considerável, o corpo está tão moído que encolhe os nossos próprios ombros e aceita o que vier, e o que chega são noites em Havana, mojitos de vértebras deslocadas. Sentado no banco traseiro, recebo no colo passageiros à vez e lamento imenso não ter trazido capacete. O movimento é tão intenso que pouco antes da primeira paragem, só mesmo para garantir que os meus dentes não estavam, por essa altura, dentro do meu cérebro, julgo mesmo que ganhei o Euromilhões, pois sinto-me como uma bola na tômbola. Enquanto estamos parados, passa um camião todo o terreno, a mazurchka, que trata as pedras com a mesma condescendência com que Ricardinho olha os adversários no futsal. Vai carregadinha de turistas japoneses, que nos fazem sentir como extraterrestres na Casa dos Segredos. O condutor chama-nos então à segunda vaga de merengue. É um senhor já com uns sessenta anos que, sinto-me com sorte em apostar, deve ter combatido no Afeganistão e por isso, para ele, o passeio é de domingo. Mais do que uma vez a chave salta da ignição, obrigando a paragens a meio caminho entre o calhau e a terra firme, dando-nos a mesma emoção que é provocada por um tobogan. Entre uma avaria e outra, e alguém que quase salta do jipe em andamento para tocar xilofone de queixos estrada abaixo, lá chegamos às termas.


Meto os pés no chão e estou desfocado, tanto que julgo alucinar. Vejo apenas três casebres à beira do rio, mais uma hospedaria na outra margem com uma orgulhosa bandeira vermelha com um sol no meio. Preparo-me para uma caminhada de alguns quilómetros para chegar de facto às termas, vai-me fazer mesmo bem descomprimir, mas chamam-me à atenção: não, caro amigo, é mesmo ali, são aquelas casas, onde encontrarei uns tanques de dois metros por dois metros e meio, com água quentinha ao nível da cintura. Deve ser disto que falam quando empregam a expressão "choque de culturas" entre Ocidente e Oriente. Apenas o António Gil molha os pés, não se atrevendo a encharcar mais. A paisagem, no entanto, é uma massagem melhor que a estrada repleta de calhaus: no vale que o gelado rio atravessa, um verde que me recicla de alto a baixo, vê-se ao longe um brutal pico nevado, a cordilheira de Tien Shan exibindo-se gulosamente e confortando os portugueses burlados. O sol ainda brilha por sobre as montanhas, projectando com as nuvens sombras turvas e curvas, e a floresta reminiscente da Europa Central é um bálsamo. A pequena caminhada por trilhos improvisados leva a fotos tipo droga embriagante, e à descoberta de que todos pensam que somos israelitas, porque de facto é a nacionalidade que mais se encontra no espaço. Uma rápida vistoria de um mapa desenhado à mão (literalmente, creiam) indica a presença de uma nascente selvagem não muito longe das termas. Está claro que tenho de lá ir.


Acede-se por um trilho de terra que atravessa as árvores e acompanha o rio murmurante, a água empurrando rochas em ritmo de milhares de anos. As nuvens, no entretanto, roubaram muita da luz que nos acompanhava e as frondosas copas arbóreas criam um ambiente gótico, quebrado apenas por gente que de toalha às costas, se dirige para um algures que viu num croqui. A lógica é seguir caminho aberto e uns dez minutos depois encontramos um cantinho fantástico junto à água. Não existem escadas ou sinalização e do nosso lado direito, elevado a uns metros, apenas um tanque circular claramente feito por alguém, com cimento a assinar mão humana, nos indica que chegámos onde é suposto. Não está calor, o tempo põe-se feio e os meus companheiros entreolham-se, num desafio mudo e surdo, uma resposta que se torna cega à coragem. Ninguém se quer molhar. A excepção, claro, é este vosso amigo, que nem quer pensar que serviu de bateria de escola de samba durante doze quilómetros apenas para voltar mais à seca do que um abstémio no Carnaval do Rio. Vou eu, proclamo, e ao início pensa-se que estou a brincar e só quando me ponho de calções é que se percebe que este tipo é da aldeia e que ser da aldeia é não jogar com o baralho todo. O meu cuidado é todo para não escorregar. O meu corpo cansado desliza apenas  para dentro do tanque, a água quente puxa-me com visíveis dedos, unhas cravando-me de prazer em cada pedaço de pele e carne martirizados por horas de viagem de carro e quando me deixo amparar pelas palmas das mãos aquosas, solto um sonoro suspiro de prazer passível de ser confundido com algo mais.


Sou alvo de fotos, todos se sentem atraídos por alucinados e alienados, mas num repouso que nem é sólido, num calor que me envolve como, imagino, uma vez fui acolhido no ventre materno, tenho paz verdadeira pela primeira vez desde que aqui chego. A minha companhia retira-se, eu digo que já lá vou ter, mas o "já" é relativo. Descomprimo na totalidade, tanto que julgo até que o meu corpo perdeu forma e é plasticina, átomos que se misturam com as moléculas daquela água a quem já os Antigos reconheciam saúde. A minha paisagem é a de branco azulado e verde, um branco azulado que desliza por um leito e um verde permanente de exército de madeira e clorofila que guarda o meu descanso. Por fim chove a sério, e eu, cozinhando em banho macia o meu próprio sabor, assisto a tudo como um afortunado idiota, alguém que conseguiu estar num momento certo, no local perfeito e tão longe de tudo o que é seu. A casa é onde o coração está e penso em quem me dá tecto, enquanto as minhas pernas são serpentes debaixo da superfície do espelho onde reflicto o meu prazer. Por um instante, entre todas as voltas que estes últimos anos me deram num fandango de dor e da maior alegria que me atinge o coração, o ruído confuso desaparece e numa caverna, vejo luz entre pingos de chuva. Brilha muito, sim, mas apenas porque sai dos meus olhos.

sexta-feira, setembro 23, 2016

Cronistão 5: O mundo animal



O aspecto é de salão paroquial em Medellín, ainda para mais quando nos deparamos com um jardineiro caprino de quatro patas, mas o Park Hotel revelou-se um local agradável para repousar a nossa coluna nos dias que passámos em Karakol. A dona, uma senhora com os seus sessenta anos cujo nome a minha memória deixou fugir, não fala inglês, mas revela-se prolixa em russo, como qualquer bom quirguiz. Sabe que Portugal é na Europa, mas perde-se um pouco nos pormenores e também não é importante. Traça o limite, no entanto, na presença de calçado no interior do seu espaço: o hóspede ou entra de chinelos ou descalço e nem há contra-argumento! Existe um pequeno móvel com prateleiras para sapatilhas e sapatos e botas. Pisem as carpetes da simpática senhora com algo mais do que uma tira de plástico a proteger-vos as palmas dos pés e serão brindados com um olhar mais fulminante do que uma pistola. E por falar nisto: lembram-se dos Clint Eastwoods de que vos falei na crónica anterior? São tipos que por acaso têm uma arma em casa e, em ocasiões especiais (como, por exemplo, quando um grupo de ocidentais chega de malas aviadas a uma hospedaria de Karakol) surgem com a intenção de garantir que tudo está bem, que estamos em segurança.Talvez lhes escape a noção de que observarmos, assim do nada, uma arma de fogo nos deixe poucos seguros, mas tirando isso... bom trabalho! Ocasionalmente vemo-los na "lounge" do hotel, sempre a relaxar na Internet, porque, afinal, existe um código internacional de laxismo, acima de qualquer cultura, entre seguranças do Ocidente e do Oriente.



A tarde desse primeiro dia em Karakol fez-nos rumar aos Sete Bois de Vermelho, rochedos enormes em manada a poucos quilómetros da cidade. À noite, saimos para jantar e foi logo na primeira casa que nos pareceu aceitável. O nome está em cirílico e soa a algo como Micmasa, e infelizmente, quando abrimos os menus, apercebemo-nos de duas coisas: que tudo está em grafia russa e também que a dona do Park Hotel não é a única pessoa do Quirguistão ligada ao sector de hotelaria e restauração que desconhece uma língua que é falada por mais de metade do mundo conhecido. Somos convidados por uma prestável, e muito aflita, empregada de mesa, mais nova que eu e até do que o meu irmão, vestida de seda azul, lenço amarelo na cabeça e o sorriso de um veado que ficou encadeado pelos faróis de um jipe. Em atrapalhação, leva-nos a observar no exterior um painel publicitário de lona, onde figuram imagens bem convidativas dos principais petiscos da casa. A olho, e sem saber bem ao que vamos, escolhemos. Eu arrisco cobleti, que é algo parecido com panado de vaca. Come-se, embora não fique com vontade de abusar. No final, deixamos uma gorjeta de 100 som à simpática garota. Ela julga que é erro, tenta devolver e gentilmente fazemo-nos entender que é uma dádiva que lhe damos pela atenção e esforço que nos deu. Ri primeiro, quase chora depois, segurando a nota como se capturara o mais importante bicho do Pokemon Go. Para ela, é talvez uma fortuna; para nós, portugueses que se começam a sentir alemães nesta terra de moeda desvalorizada, é simplesmente euro e meio. Que no outro lado do mundo, longe dos nossos problemas e da nossa classe média de 500 mil euros, são o suficiente para colocar luzes de Natal em pleno Agosto no dia de uma miúda. Há maneiras piores de me sentir turista.



Caio na cama às dez da noite e apago-me de imediato. Finalmente convenço-me de que tudo é real e o meu cérebro bebe todas as horas de sono que consegue, porque na manhã seguinte temos alvorada às sete. Nem me custa acordar. Desço descalço e tomo o pequeno-almoço de duas opções: omelete de queijo ou crepes. Sejam crepes então e conversamos o que nos espera como programa da manhã: uma visita ao mercado de gado local. Uma coisa é falar; outra coisa é dar por mim numa coisa que faz a Ovibeja parecer a Expo 98. O chão mais limpo é de terra, porque no momento em que entramos num espaço com o tamanho do Queimódromo de Coimbra, lavrado de gente com os seus animais, rapidamente o gesto reflexo de não pisar bosta se digere: tudo acaba por ser bosta. Cheiro mais com os olhos do que com o nariz, pois tantos estímulos transformam o meu corpo numa sinestesia permanente e mal consigo apreender tudo o que me cerca. Vacas, cabras, ovelhas, cavalos, bichos humanos, todos em caminhos que nem se marcam mas se sabem, os de quatro patas puxados pelos de duas patas em cordas ou guitas, olhares perdidos, ignorantes e por várias vezes, pessoas que engelham pânico na presença de uma máquina fotográfica, como se um "clic" fosse possessão, alguns fazem sinal da cruz na minha direcção e sinto-me um exorcismo forma humana, o que se acentua mais quando cabras se acariciam nas minhas calças para abrir caminho.


Há gente que vende ferraduras, que soam forte mesmo sem fazer barulho, principalmente nas mãos de uma menina que domina o ferro e ainda olha para mim com vista dura, prática, esperando a foto mas prosseguindo. Um tipo empina o cavalo à minha frente e sinto-me num western asiático, ilusão quebrada quando puxa do telemóvel e conversa assim montado, porque quando se dirige um equídeo não se paga multa. O barulho é galopante, uma mistura de sirenes, bramidos, o reino animal manifestando-se sem grande desespero, mas exasperando-se. É a missa de Karakol, toda a gente vem, mesmo sem nada para vender, porque pouco mais há que passe por entretenimento nesta terra. Conversa-se no meio dos bichos, alegremente, livremente, mesmo que a Polícia passe de vez em quando, talvez também porque neste fim de mundo, onde um homem é segurança só porque possui uma arma em casa, não tem nada para fazer. Cumprimentos e abraços, um fã de Cristiano Ronaldo sabe que sou português e insiste que lhe tire uma foto, e depois aos amigos, e depois à família e acabo por traçar um retrato oficial com bichos e tudo. Sinto o que nunca senti na vida: o homem civilizado no meio da aldeia, uma aldeia que já só me lembro de quando mal tinha pernas para trepar limoeiros e laranjeiras; quando o mugir das vacas e o relinchar dos cavalos dança no meu pavilhão auditivo, obliterando tudo o mais, sou recordado que venho de algo um pouco mais moderno do que aquele recinto, mas pouco, que vi e ajudei na matança do porco e na vindima, que não tratei de amimais mas vi tratar e ajudei a minha avó a matar cobras à pedrada. Eu não sou dali, mas parte daquele pequeno circo ressoa em mim e leva-me a outras memórias. Enquanto fixo tudo em fotos, e vejo um cavaleiro que foge para longe quando me vê apontar a máquina, sei que apesar de dar gorjetas, não sou muito mais do que aquela gente simples e não simplória, que teme que a sua alma fique presa dentro de uma caixa negra, que se mistura com a bicharada porque lhe está ligada.



No final, arruma-se o que não se vendeu, e alguns homens têm de puxar bodes e cabras à viva força. Em contentores que parecem saídos da Lisnave, há lojinhas que vendem tudo ao copo, água inclusive, e outras coisas. Quando se viaja, não se deve procurar o que se tem, ou então acha-se o repetido; no entanto, por mais longe que caminhemos e voemos, haverá sempre um ponto em que nos encontramos, seja nas ramagens das florestas, no murmúrio das ondas, nas curvas empedernidas das ruas fechadas de velhas urbes; ou então simplesmente num tempo que foi meu, em que todos os sentidos se misturam para me devolver o que sou de verdade e não muda com as minhas rugas, os meus erros, as minhas intensidades da idade. Num mercado de gado, reencontrei-me pessoa; e isso, amigos, é o fungaga da bicharada.


terça-feira, setembro 20, 2016

Cronistão 4: Dar de beber aos cavalos



Nunca vira um lago com linha do horizonte, mas é primeira vez de muitas primeiras desta viagem. A estrada que liga Bishkek a Karakol estende-se pela margem norte do Issyk-Kul, um mastodonte aquático que impressiona pelo tamanho e também por ser a referência mais próxima que este país trancado na Ásia Central possui como mar. Cheguei a perguntar, posteriormente, a quirguizes se alguma vez os seus olhos lhes tinham revelado a benesse do oceano. Não, disseram-me todos, mas temos o grande Issyk-Kul; e lá enorme é ele: 182 km de comprimento, 60 km de lago, o segundo maior lago em altitude do mundo (a seguir ao Titicaca) e também vice-campeão em lagos salinos em volume (apenas ultrapassado pelo Cáspio, esse intrujão que se faz passar por mar, mas que, por ser uma massa de água sem qualquer contacto com outras, é de verdade um lago). Situado aos 1500 metros de altitude e rodeado pelas montanhas da cordilheira mágica do Tien-Shan, que me fará companhia nos próximos dias, nunca congela. Desde os tempos soviéticos que se estabeleceu como um dos destinos balneares de eleição do grande império russo imaginário e pelo caminho, vemos algumas datchas e bungalows para turista frequentar. O que muitos desconhecem é que terá sido aqui, pelo papel fulcral no percurso da Rota da Seda, que surgiu a Peste Negra, levada pelos mercadores orientais até à Europa, para espalhar mortandade.

Hoje em dia, o maior perigo de morte que se reflecte nas águas azuis, profundas e aparentemente frias do lago não é a hipotermia (algo que parece não afectar os Quirguizes, que se banham aqui como quem está em Aljezur): é a peste motora. A rede viária do país foi desenhada a régua e esquadro, com rectas intermináveis e curvas bastante subtis. Quase todas as estradas contornam as montanhas, e as modalidades de piso são três: alcatrão nas vias que ligam cidades importantes; macadame e pedra em estradas secundárias; e nos caminhos do fim do mundo, existe gravilha, terra batida e qualquer tipo de pedra que caia das montanhas que habitualmente são atravessadas por estes caminhos de cabras, pois a elas pertencem, mas também de vacas e cavalos. Ocasionalmente, encontramos pedaços de caminho "em obras", que significam simplesmente que nos espera um lençol de flanela onde um grupo de traças decidiu fazer uma despedida de solteiro. 

O condutor da nossa Sprinter  desvia-se dos obstáculos ocasionais como quem faz uma gincana e cedo nos apercebemos que as regras da ultrapassagem são bem diferentes: a carrinha mete o nariz, enche-se o peito, passa-se à rasa. Três veículos ultrapassando-se em simultâneo rumando em sentidos opostos é um costume e cinco serão record olímpico e algo a que assistirei ainda por estas terras. A existência de uma mente comum quirguiz é postulada, até porque nunca se vêem choques frontais onde as leis da Física tornam obrigatório que existam. Acontece um desvio de última hora e o trânsito desenrola-se como se nada fosse. Todos brincam a isto, camiões incluídos, grandes inimigos da velocidade, e ao fim de quatro dias, apercebo-me que ainda não vi uma única mota a circular. Sabem que mais? Verei zero em toda a minha estadia. A Polícia vigia tudo isto com o mesmo ar plácido das águas do lago. De vez em quando manda parar algum veículo: se tiveres sorte, és um amigo de longa data; se não tiveres, é provável que fiques sem algum dinheiro para poderes seguir viagem. Ninguém se queixa ou desentende, é a lei aplicada à escala local e afinal estás a centenas de quilómetros de qualquer civilização, que não podes chamar a aldeias de madeira e zinco espraiando-se ao logo de uma rota essa palavra tão cara a um europeu.

Até Karakol, vamos recolhendo também outros passageiros. Isto é, afinal, a RBL cá do sítio. Basta estar à beira da estrada, esticares o dedinho e o condutor pára. Dizes ao que vais e ele dir-te-á como é. Se todos se encolherem, cabem mais; e assim apertados, vemos desfilar numa passerelle de quatro paredes crianças, senhoras idosas e um ou outro pintas que só quer visitar alguns amigos no café da localidade seguinte. A viagem comprida prolonga-se ainda mais e as minhas costas não estão apenas quadradas: já são um cubo onde mal consigo encontrar posição. As poucas paragens que fazemos são para comer e seguir, naquilo que se pode Não durmo há mais de 24 horas, mas as guinadas e quase colisões que se seguem com a regularidade de um metrónomo não me deixam dormir. Consigo manter a sanidade e alguma certeza de que sou eu, e que tudo é real. A imensa extensão do Issyk-Kul coloca em tudo um ar de miragem mirabolante, como se as estradas com bichos e bichos na estrada rugindo com pedais e rodas nem ali estivessem,. As altas montanhas, a terra vermelha e amarela que rodeia as margens, uma estrada que só parece existir na mente descabelada de um autor russo miserabilista conjuram-se na minha cabeça para nem ter a certeza de estar ou existir e quando, onze horas depois de abandonar o aeroporto, damos por nós no nosso objectivo, desço e pergunto-me se é agora que encontro repouso para os restos mortais do meu corpo. 

Não, ainda há aventuras para viver; e julgo de imediato que uma delas será fugir com os meus pertences. Mal a Sprinter estaciona junto ao nosso hotel, o portão de entrada está ocupado por dois homens, jovens, óculos escuros nas trombas num dia em que nuvens cinzentas dão o tom, que cavaqueiam. Podia ser uma cena normal, mas um deles, entre as costas e as calças, mostra uma pistola Colt, que calculo não esteja lá para um disfarce de Walker, o ranger do Texas. Bem vindos a Karakol, cidade entre os mundos russo e chinês, mas que pertence em toda a totalidade à Quinta Dimensão.

sexta-feira, setembro 16, 2016

Cronistão 3: A Oriente, tudo de novo



A Kati é uma amiga húngara que conheço há muitos anos. Para lá de tudo, sempre ocupou um lugar exótico na minha existência: veio do Leste e ficara minha amiga. Ainda hoje, quando falo dela, ser húngara destaca-a de outros que me são conhecidos ou amigos, morando num país lá longe que quase ninguém visitara. Sempre achámos isto curioso entre nós e decidimos uma vez, nuns dias que passámos juntos, fotografar os nossos pés virados de frente, como se acabassem de se conhecer. Era o Ocidente conhecendo o Oriente, se bem que fôssemos ambos europeus. No entanto, historicamente, Viena era a fronteira mental de uma Europa que se pensava civilizada. Tudo o que fosse para lá da capital austríaca era barbárie e desconhecido. Na cabeça de meio continente, quase até ao final do século passado, a Kati, nascida e criada em Budapeste, era tão estrangeira e oriental quanto as especiarias e o chá. Pensei várias vezes naquelas fotos quando aterrei no aeroporto Ataturk, em Istambul, e na minha chegada às portas da Ásia pela primeira vez.

Aeroportos são aeroportos, todos no mesmo esquema; mas basta sair do avião e parar na lounge do Ataturk para perceber que assim não é. O outrora vincado laicismo turco tem-se mostrado permeável à influência religiosa e política de grupos estranhos aos valores da República e pelos corredores desta gigantesca cidade internacional montada no lado europeu de Istambul, vêem-se vestimentas árabes que só estava habituado a olhar nos ecrãs próximos dos olhos, mas longe da acção. A burka é mais comum do que esperava aqui, na verdadeira fronteira entre Oriente e Ocidente, e vê-se nos olhos de muitas das mulheres que se cobrem de cima a baixo uma submissão passiva, não necessariamente exercida por violência, mas por hábito. Em muitos casos, não há silêncio e observam-se casais em amena cavaqueira, se bem que o homem tenha a posição dominante. Ao contrário que imaginava, como ocidental doutrinado na visão do árabe mal parecido e ogre, os homens, na generalidade, são cabeças de família como aqui; nota-se, no entanto, algo diferente. Não sei bem se é religioso ou costumeiro, mas um facilita o outro. A enormidade do aeroporto, no entanto, dilui esta diferença Vê-se tanta cabeço com pés que apesar do choque, tudo é esquecido. Há duas horas para matar antes de apanhar o voo de ligação para Bishkek e o Zé Luís, o guia da expedição e meu amigo, sugere uma volta pelo Ataturk. Certificamo-nos da porta do nosso avião e sei que estou num outro tipo de metrópole quando chego a contar mais de setecentas, uma enormidade. Setecentas descolagens possíveis, todas diferentes, num só espaço. A posição de Istambul na arquitectura geográfica do mundo tem aqui outra prova. Estamos noutro mundo. Para celebrar este exotismo muito próprio, comemos um Big Whopper ao jantar e pagamos em euros.

Depois de quase meia hora de caminho, chegamos à nossa porta. Quando, alguns minutos depois, o nosso avião estiver a fugir do Ataturk, suavemente e sem pressa, darei por mim a espreitar o Bósforo de cima. É uma enormidade, um enxame de pirilampos sem ordem, uma procissão de candeias que se espalha por dois continentes cumprimentando-se através de uma ponte, e fazem parte de um mesmo país, de uma mesma cultura, de um cosmopolitismo que não conheço na minha ponta da Europa e que só observei, muito brevemente, como turista de permeio. Na distância de segurança da altitude, tudo me parece fascinante, mas inerte, e quando vejo com distinção dois continentes separados e unidos, a minha percepção mudou. Não consigo dormir, uma noite branca e em branco, os assentos desconfortáveis ou o meu formigueiro e a mudança de cenário não me deixam sossegar e pregar olho. No ecrã de bordo, as milhas vão queimando, uma atrás da outra. Do topo, passo por Arménia, Geórgia e atravessando o Cáspio, a maior massa de água interior do mundo, entro então nos "-istão", dos Cazaques e dos Uzbeques. "-istão" significa "terra de" e acolhe as etnias originais e povos que aqui habitavam  e sobreviveram à passagem de Genghis Khan, dos Otomanos e dos Soviéticos. Lembro de cabeça o mapa da região e à noite, reconheço todas as principais cidades, faróis urbanos que se destacam na escuridão dos espaços desérticos e mal habitados que dominam as estepes imensas da Ásia Central. É então fácil descobrir Bishkek, já com o sol a avisar o horizonte que chegou o seu turno, e o avião vira para a direita. Não demora até aterrar e naquele baque das rodas, onde o avião parece um nadinha rápido demais mas se estaca com assertividade, estou no "istão" dos Quirguizes.

O aeroporto de Manas (um dos três deste país, pasmem-se) tem o nome de um herói nacional, guerreiro pois está claro. Faz o de Lisboa parecer o de Istambul. Os guardas alfandegários, com os seus chapéus verdes medindo o dobro das suas cabeças, pedem-me o passaporte. É o necessário aqui, não se paga visto e olhando em volta, não somos os únicos ocidentais a chegar, embora a população seja maioritariamente asiática. Quase ninguém fala inglês e o guarda comunica comigo por grunhos e gestos bruscos. Quando abre a boca para falar, é em russo e os olhos amendoados confundem-me, porque a minha mente está condicionada a esperar chilrear oriental. Não sei como disfarço a confusão, mas lá me deixam entrar no país. Presumo que aqui os terroristas não tenham barba, ou então estejam já habituados à presença de hipsters. O Quirguistão ainda não é, de facto, um país mainstream, logo é bem possível.

No aeroporto tratamos logo de uma série de coisas: cartões de telemóvel (as chamadas para o estrangeiro são bem mais baratas por cá) e levantamento de dinheiro. Nenhuma das máquinas multibanco funciona, são quatro e todas em cirílico. Quase tudo o é e a coisa só se leva direita porque o Rogério, um portuense, teve umas aulas de russo há uns anos só por diversão. É ele que ajuda o Zé a explicar a um velhote que parece o actor brasileiro Elias Glazer (ou para os menos familiarizados com novelas brasileiras, o pai do Jeff Goldblum no "Independence day") que somos nove e queremos alugar uma carrinha para nos deslocarmos a Karakol, a quarta maior cidade do país, numa viagem de 400 km sobre quatro rodas.  Não entende e um neto que até se safa em inglês serve de intermediário. A coisa fica combinada: 1500 som à cabeça (o que dá, grosso modo, vinte euros... a CP rouba de catano). Com as bagagens todas reunidas, descobrimos que o nosso transporte é uma Mercedes Sprinter branca. Às sete horas da manhã, Bishkek é já uma cidade feita bafo de calor e mesmo sem entrarmos no centro parece-nos confusa, desorganizada, onde tudo se resolve com buzinadelas, gestos bruscos e vozes que se levantam. É o meu primeiro contacto com o Quirguistão

Não tenho presença de espírito ainda para absorver tudo e quando este cai em mim, com a noção quase surreal e irreverente de que não estou no meio, e nem sequer no meu fim, a carrinha arranca, o aeroporto é reduzido pela distância a uma miragem e durante onze dias, estou aqui eu, mas sendo outro, porque como posso eu viver aqui sendo o mesmo que era além? Ficaria bem aquém do que quero viver. Deixo que o choque me apanhe e quando, nos primeiros cinco minutos, a Mercedes tem quase três encontros frontais não planeados, desconfio que este choque pode muito bem ser literal e mais vespertino do que espero.

quarta-feira, setembro 14, 2016

Cronistão 2: Um estado em espírito



Dizes às pessoas que vais ao Quirguistão e parece que voltam a ser crianças. As perguntas atropelam-se na boca, a língua não se liberta rápido o suficiente para deixar passar as dúvidas que me apontarão num raio, e a primeira não tem sequer seguimento: "O quê?", como se o nome de um país pudesse despertar em alguém tanta incredulidade que faz até duvidar da sua existência. Tal confirma-se pela questão que se costuma seguir: "Isso existe?". Existe pois; "Fica onde?", e num exercício de memória, consigo explicar que assentou acampamento algures na Ásia Central, acho que junto da China, talvez perto da Rússia, pois até pertenceu à União Soviética;

"É perigoso?", desconheço, sabes, mas acho que não. Percebo o teu medo, acaba em "-istão", e nesses países rebenta muita coisa. Este é dos mais calmos, mas não admito assim à cara podre que temo. Pesquisei sobre o mistério deste ponto Q e ouvi falar que se raptam noivas (sorte a minha que tenho pila), há estradas muito manhosas (e sei que numas delas passo de certeza) e em 2013 se registou um caso de peste bubónica. Claro que me apavoro, mas se fugisse de tudo o que pavor me sopra, não me teria partilhado com a D., nem girado em redor de um mundo em forma de L. O medo está lá, mas nós também e muito antes que o temor tomasse tomos de forma; " E porque vais?", ora, porque é bonito. Um amigo meu mostrou-me fotos e eu adoro montanha, encontram-se paisagens daquelas que toma o oxigénio como refém. Para mais, fartei-me de ser conas, e isto não digo alto nem por estas palavras. O código que uso é o de fazer algo que me deixe desconfortável em bom, mas na verdade, há um cansaço do normal, do aceite, do conhecido, do confortável. Quero sofrer a atracção pelo imprevisto e pela pele que não é nossa mas aos poucos, com engelho, vestimos e não se mostra tão estranha e estrangeira assim; "Mas isso tem praia?", Não e qual é o problema?; "Estavas melhor no Algarve", o que interpreto como um auto-recado que o interlocutor dá a si mesmo, assustado com alguém que toma nas mãos decisões incomuns. Seguem-se mais vinte perguntas sobre comidas e bebidas, sobre as pessoas e a religião, sobre o acto de alienação que é pôr os pés no outro lado do mundo quando existe outro tanto de permeio.

Não revelo, claro, mas há uma pontinha de irreverência, uma arrogância aveludado de poder dizer que se esteve em locais em que ninguém conhecido ousa sequer pensar ou sonhar, de trazer até ao amigo e conhecido um pedaço daquilo que se entrevê e se ouve falar. Enquanto arrumava as mochilas, roupa para um lado e escolhia livros para a viagem, pegar na máquina fotográfica conduzia-me a essa ideia de postar fotos do catano, receber elogios, gabarem-me a coragem quando estava a ser egocêntrico nas horas, pelo menos de início. Queria ler e ouvir pessoas gabando o quão diferente era, como sempre quis desde criança, de me tornar menos igual e menos comum. Queria ser especial e na noite antes de partir, entre pernas a tremer e saudades tidas como certas, vi-me aquele intratável adolescente que queria ser diferente a todo o custo só para não ser como os outros. No entanto, sem sabê-lo, o amigo que me deu dormida nessa noite tornou tudo muito mais simples. O Google Maps levou-me ao Quirguistão ainda antes de encontrá-lo, e vimos por alto o que me esperava. Recolhemos informações, gabámos as conquistas de Genghis Khan e o J.P, que me conhece de tempos em que ainda não era tão idiota, sabia que a comida é sempre aquele problema que me torna mais picuinhas do que um recém-nascido e também quis saber o que se comia e, sendo ele quem é, o que se bebia. Na conversa, reconciliei-me com a noção de que sou afinal tantos outros que transformam a curiosidade num desafio e a descoberta do mundo numa pausa da vida, de sair para ali porque o aqui está visto e é casa. Ninguém quer ficar para sempre e é por isso também que saímos do ventre materno: cansamo-nos do mesmo e o ar limpo do exterior arranca-nos com mais força do que o obstetra. Percebi naquela conversa o meu universal dom de ser intrometido na simpatia do alheiro que me é externo.

Acordei bem cedo na manhã seguinte, inspirei mais fundo do que o Poço Negro e sabia que me esperava uma longa viagem, uma noite mais branca que as de Doistoievski e só para dar o tom, encontrámos um par de cuecas no pátio exterior, como se algo me impelisse a preparar para tudo. Quando saí do apartamento, quando entrei no Metro, quando cheguei ao aeroporto e conheci os meus colegas de viagem, apenas o meu corpo ia passar no check-in: o meu espírito pairava a uma altitude superior a qualquer avião e estava já no Quirguistão inquirindo, procurando e na preparação da chegada do que não pode violar as Leis da Física. Não fez sequer escala, voou directo. Estava com energia mais do que suficiente para nem sequer dizer adeus aos pássaros e quando, por volta das onze da manhã, senti aquela transição nos ouvidos, a palmadinha interna que anuncia que passámos a ser aéreos, um pequeno formigueiro eléctrico era mais do que medo ou curiosidade ou mania de ser bom: era uma esperança muito secreta, muito escondida e só minha, de que algures no lá longe encontraria outras versões de mim e que num diálogo entre nós, sairia uma versão muito melhor do Bruno que de Portugal brotava.

quinta-feira, setembro 08, 2016

Cronistão 1: a desistência da memória



Regressar de uma viagem é trazer um mundo escrito em braille. Não chegam os olhos, é preciso mesmo tocar-lhe e o pior é traduzi-lo. Um cartão de fotos, um caderninho de notas ou até palavras com que se tenta reconstruir um edifício de dias feito, ancorado apenas em trapos que deles ficaram num mar em permanente movimento algures na nossa cabeça, são apenas uma cadência ferrugenta e opaca de toda a vertigem do que deixámos lá longe, mas que se faz perto apenas no exercício da memória. Viajar é recordar e recordar é apenas falsear o que de autêntico nos tomou e surge, qual filme, nos vidros da janela, quando olhamos ao longe uma fuga ao tédio e pedimos ajuda a nós mesmos, acumuladores de factos e feitos, fabricantes dos modos de fuga. Foge-se e finge-se, e aos outros arma-se algo de parecido com a realidade, mas que são apenas traços de um quadro maior que se viveu. É o drama maior do viajante magnânimo, querer levar outros connosco e saber que se chegou já atrasado, e que chegar é antónimo de partir: quem nos escuta, quem queremos connosco na aventura ficou em terra e nós ainda no ar desejamos apenas ser o veículo certo das experiências que ficam. Mas é apenas o que lhes sucede, ficar, pois de nós não saem.

O que trago do Quirguistão é apenas pálido manto, um teatro de marionetas em forma de pessoas, simples vultos em pano de fundo de paisagem, e nunca encerrarão momentos despojados que contados surgem anémicos, mas que num tempo presente, foram tudo. Estar parado, sentado, rodeado, e mesmo assim correr livre todos os cantos do pensamento e do registo, fotografar montanhas mas nelas ver muito mais do que um registo de milhões de anos remexidos. Em pequenas notas, tentando concentrar largos traços, pretendo deixar-vos as cenas dessa peça que foi uma viagem de semana e meia a terras com séculos de História e uma realidade que apenas se observa sem se explicar bem o que se viu, e é o que vos dou por adquirido: a minha total inabilidade de vos colocar nas estepes da Ásia Central e uma certeza inabalável de vos deixar uma porta aberta para a futilidade destas pequeninas crónicas. Convençam-se de que não vão viajar: são apenas turistas na realidade do acto, no lugar do pendura e vendo a minha realidade em vidros foscos. Entre as sombras e as formas, está um país chamado Quirguistão.

E é isto que tenho para oferecer