terça-feira, maio 09, 2017

Um dia de passeio


A minha paisagem preferida é a emocional e a memória, em alto e baixo relevo, é uma topografia perfeita desse recorte que nos encolhe e aumenta na proporção da medida de dor. Muito antes de estar em permanência temporária nesta vila com forma de aldeia, o Alentejo já me dizia algo em sussurros, só de vez em quando, espaçada e lentamente, em histórias de farrapos e piar de fim de tarde, de sol em queda e abraços que se apertam ao ponto da libertação. Em Sines se passou e é por isso que a considero um dos meus locais preferidos do Sul do país. Não vivi lá muito em tempo, mas qualquer coisa de intensidade factual, da refracção das intenções e do que se quer, a inconsequência do futuro, mas com um presente, não só temporal, mas em maneira de pessoa. Sempre me surpreendi com o meu estranho paradoxo: não me apego a qualquer desenho exterior de emoções e necessidade humana, mas no meu âmago, aquela alma que dentro da alma almeja, há uma sensibilidade que voa nas palavras, mas incomoda nas horas que se prende aos pequenos gestos que são agora fumo, às sensações que não se repetem, às pessoas que agora são outras, apesar de um dia terem sido mais tudo do que uma parte. Tenho uma dificuldade considerável em me libertar de quem me prende, principalmente de que é feito das correntes que não largam as cordas da emoção, e Sines representou um pouco isso durante uns tempos. Outros locais tomaram a sua posição, feitos de aço mais denso, mas nunca me esqueci onde tudo começou.




Regressei lá há dois fins de semana. A logística da região leva a que uma ida ao cinema se torne num plano a médio prazo. As salas de exibição têm uma sessão, e com filmes atrasados, e foi com surpresa que descobri haver em Sines uma que iria estrear, a tempo e horas, a sequela de "Guardians of the Galaxy", em várias sessões, durante uma semana. No entanto, fazer 50 km apenas para ver um filme vai totalmente contra a minha natureza somítica, enraízada até à medula dos ossos, e uma rápida pesquisa levou-me a encontrar um evento na cidade precisamente no sábado que pretendia: uma parada de veleiros. Talvez não seja a coisa mais excitante do mundo, mas o certo é que nunca pus os pés num veleiro. Uma pessoa não põe morrer idiota em tudo, certo? Tentei combinar isso com, afinal, a razão pela qual Sines se tornou num local do meu próprio país emocional, mas a P. (chamemos-lhe assim) não podia. Quando Sines se mexe, também ela balança e adiar a nostalgia foi a solução encontrada. No entanto, estava articulada uma tarde que já justificava os quilómetros e adoro fazer a estrada que de Milfontes conduz a Sines pela costa. É um dos meus pequenos prazeres aqui em baixo e um sorvedouro do orçamento mensal que de bom grado me submeto à extravagância. Para além disso, a minha saúde mental pede que, ao fim de semana, saia daqui. Colos não é um Sobral Cid, mas a minha mente tem algo de lobo solitário e não de  eremita pungente. Preciso de respirar e ver outro ar, de me sentir a mexer, de não mirrar e esmifrar. Como um dia ganhei vida em Sines, a mesma vila iria, pelo menos, carregar-me em ombros numa necessidade permanente.


O estacionamento na vila foi mais fácil do que esperava em semana de evento. Ainda procurei pela sala de cinema e esfregando a cabeça, fiz uma sessão de power walking inesperada. O motivo, claro, tem a ver com particularidades da província: o local encontra-se instalado no hall de um prédio de habitação, em que o único sinal que revela a localização está mesmo no interior, um poster colorido que passaria despercebido à pessoa menos informada. É estranho dirigir-me ao Cinema como quem vai ao  cabeleireiro. A mesma pessoa que vende os bilhetes trata da projecção do filme e da condução do espectador ao seu lugar. É como no "Cinema Paraíso", mas a mulher que faz tudo isto apresenta-se mal encarada e duvido sequer que tenha uma bobine de beijos à minha espera quando for mais velho. O filme diverte, o que se pede, numa sala de cento e poucos lugares e que pelos quatro euros e meio do bilhete, é bastante aceitável. Mas o que me agrada mais em SInes, sempre que cá venho, é a sensação de que há uma autarquia que quer, pelo menos, dinamizar a cidade onde interessa: no Centro. Tantas vezes na Coimbra onde cresci existe uma sensação opressiva de abandono na Baixa e na parte histórica, como se o que interessasse fosse abandonar o que é antigo à bicharada (e estes bichos incluem estudantes académicos). Aqui não: aquilo que interessa está concentrado na zona central, desde um centro de artes até agradáveis esplanadas viradas para a Baía, e é possível descer comodamente a pé, sempre com motivos de interesse e uma luz receptiva, até à Marginal. Apenas opto por ir de carro pelo simples motivos de ter mais coisas a fazer.


Na exposição de Veleiros, a maior parte só pode ser visível do exterior. O navio-escola Sagres é uma excepção e a fila para visitar faz-me questionar se, por acaso, não vamos afundar afinal um dos maiores símbolos da Marinha Portuguesa. As camaratas e corredores estão vedados, mas o festival de cordames e velas, os mastros que anunciam viagem e aventura, a seriedade alegre dos marinheiros e oficiais (com a distinta sensação de existir uma zona VIP que ignora por completo o visitante regular...), o sol que joga connosco às sombras tornam o final de tarde muito agradável. Há chico-espertos que pensam perceber tudo sobre o Mar e a navegação (ter de envergonhar um tipo que se armava ao pingarelho por achar que entendia de nós foi um ponto alto - e só atinou quando lhe expliquei que fui vinte anos escuteiro e lhe mostrei aquilo que era óbvio a que percebesse da coisa), há curioso profissionais e de olhar arguto - outros de olhar langão e distraído que vagueiam e vagueiam - famílias com cumplicidade e outras onde as ligações se forçam, crianças vagabundas que se agarram às minhas calças por engano quando se perdem dos pais, selfies e foodies, uma amostra de mar humano no oceano. Admiro e fotografo, mas acima tudo absorvo, observo, estudo, retenho. É do que mais gosto de fazer quando, sozinho, faço dos distantes e transeuntes uma companhia de distracção. A madeira que piso retém passos, mas também guarda gritos, com certeza, e penso em como estes sorrisos e tiradas alegres equilibram a embarcação e levam a bom porto a moral dos tripulantes. Desperta um orgulho ver nos outros a admiração que por vezes perdemos pela magia que se torna quotidiana.


Acabei o dia a ver o pôr do sol na praia do Norte, ventosa e inclemente. No rádio do carro, Jonas acaba de marcar o seu segundo golo pelo Benfica, mas a única papoila saltitante que vejo desce lentamente para saltar à corda com o horizonte. Pescadores aproveitam os últimos instantes de luz, mas sopra uma força que não é fria, mas congela passado algum tempo. Com a máquina, guardo alguns instantes, preciosos, levo comigo um dia de passeio e de alívio, em que a minha mente divagou para onde deve: o presente. Demasiado tempo de futuro só pode levar ao passado e tento evitar como pessoa. Sines, no regresso, é muito diferente de quando a visitei: o castelo mantém-se, o mar também, mas já não me assombra. Os fantasmas estão comigo e o dia não os leva com o seu final. Mas em Sines, evito-me e só isso já a torna num marco geodésico no meu mapa de emoções, daqueles seguros pontos de orientação onde nunca me perco.

segunda-feira, maio 01, 2017

Explicações


A função principal de um professor nem é pegar num programa elaborado por nem sabemos quem (e que tantas vezes está incompleto e desinformado, naquilo que à História diz respeito), nem meter garotos na ordem. Se eu fizesse da minha vida debitar factos e lições a pessoas à minha frente, ficava-me por Coimbra e continuava assim na minha saga de perder amigos a cada revelação de uma trivialidade aborrecida. Numa sala de aula, está sentado um punhado de jovens alienados, que hoje em dia, e cada vez mais, parecem prescindir do bom senso. Vocês notam isso também, principalmente em adultos: a estupidez desloca-se galopante e parece não haver solução para resolver este problema. Podem falar de doenças, fome, do aquecimento global, das claques de futebol, da maneira como as pessoas hoje em dia se tratam umas às outras como rodapés e objectos (e na verdade, esta última parte será intemporal e não me parece que mudará, porque enquanto existirem humanos, a crueldade sentimental ainda que inconsciente, será uma presença... chamem-me pessimista, mas é o que é), mas tudo tem origem na grande semente da estupidez. Dois cientistas norte-americanos publicaram um estudo, na passagem de século, que quase inaugurou uma nova ciência, a "estupidologia", defendendo que não só estamos a ficar mais estúpidos como também tal fenómeno nos impede de ver o quão estúpidos estamos a ficar.

Entre jogos de Baleia Azul (mas que nome idiota para um desafio suicida, hein?) e gente que acha que as vacinas não resultam - ou que são prejudiciais - , passando por um mundo em que narcisistas chegam a presidente, o racismo é aceite como normal e a incompetência um requisito necessário para se ser bem sucedido, principalmente de mão dada com a obediência cega, ser professor, para mim, passa também por aplicar aquilo a que chamo chapadões noticiosos. A miudagem é nova e a inconsciência quase faz parte dos pré-requisitos para se sobreviver ao 3º ciclo, mas não é estúpida. Pode ter a densidade de sofá-cama, mas se puxarem pelas suas cabecinhas, certas coisas percebem-se. Há que confrontá-los com a realidade e não mascará-la e o que vejo em todos estes problemas é que os papás não se dão ao trabalho de parar cinco minutos e explicar o que está certo ou errado. Pelo menos o que é importante. No meu primeiro encontro com os pais, fiquei surpreendido por ninguém ter pestanejado quando se depararam com um semi-homem responsável pelos seus filhos. Sou o professor mais novo da escola e ainda tenho uma diferença de dez anos para o seguinte. No entanto, à medida que ia entregando notas e tentando fazer alguns perceber os motivos das mesmas, deparei-me com dois tipos de educação: o cobertor e a janela aberta. Na educação de cobertor, os papás, tomam conta de tudo na vida dos filhos e querem saber à minúcia a totalidade do que se passa: perguntam não só sobre as nota,s mas sobre as aulas, os métodos, o papel da directora da escola, se eu respeito os penteados das crianças, porque é que a Xana Tok Tok não pode vir das umas aulas de vez em quando, se não tenho um cinto melhor para prender as calças e que ainda posso ficar sem ver televisão uma semana se não me portar bem. Uma das mães, juro, quis saber, passo a passo, o que faço na aula com um dos filhos (tenho ambos os tesouros na minha direcção de turma...) em todos os pormenores, desde a maneira como falo e explico até ao controlo que tenho sobre a sua atenção e trabalho. Para equilibrar a balança, a educação de janela aberta é aquela em que um pai não aparece porque não lhe apetece ou quando aparece, nos diz "Eu nem quero saber das notas" e lemos-lhes nos olhos que a escola é um local para passar o tempo e impedir que os moços e moças chateiam as suas cabecinhas. O professor é uma espécie de polícia e no fundo, se algo acontecer, a culpa é sempre nossa. "Mas porque não lhe deu uma lambada?", ouvi eu numa experiência anterior noutra escola e que posso eu responder a isto sem perder as estribeiras?

Não está nos meus planos ser professor para sempre, mas é também por estas coisas que levo muito a sério o meu papel de abrir mentes. Pelo menos esses. Há certos princípios de que não abdico: o fascismo é mau, não utilizarão palavras racistas na minha sala de aula ou teremos problema, a vacinação é essencial e nem venham cá questionar isso, a vida é um valor universal (duas aulas que dei recentemente sobre o Holocausto foram de tal forma esclarecedoras que no final, alguns alunos estavam com cara de quem me queria vir pedir desculpa pelo evento, e nem tinham estado envolvidos) e apesar de alguns maus da História serem de facto maus, os "bons" não o são tanto quanto isso e aquilo que se varre para debaixo no tapete e não aparece em manuais de História é posto à luz do dia por minha indicação. Para além disso, neste terceiro período, uma turma minha começou a ter aulas de cinema na aula de direcção de turma que têm comigo todas as semanas. Aprenderão conceitos técnicos e narrativos básicos e ainda verão um filme a preto e branco (a saber, "Casablanca"). Eu recuso-me a acreditar que é impossível parar a vaga de estupidez que varre o mundo de uma ponta à outra, que jovens não entendem certas noções da vida quando lhes são explicadas, que é normal amar a mediocridade e conformarmo-nos com isso. Penso em mim mesmo, em como fui incapaz de melhorar-me durante anos, caindo em padrões que me magoaram, repetindo e mantendo pessoas que por muito bem que saibam e que aqueçam e que brilhem, são apenas dor e entulho nos meus dias e se não me consigo aperfeiçoar ao ritmo que quero, ao menos que possa intervir em vidas alheias e deixá-las, pelo menos, um bocadinho mais conhecedoras. Não quero que a estupidez vença, nem a de pais e muito menos a de filhos que aqui em baixo, mais a sul do que qualquer norte nacional, se parece saber tão pouco acerca de certas coisas boas da vida.

Na semana passada, numa aula, mostrei-lhes o duelo a três do filme "The good, the bad and the ugly", logo depois a explicar-lhes o brilhantismo do famoso corte de edição do osso do filme "2001". A aula tinha acabado e ninguém reparou (e estes miúdos estão sempre a olhar para o relógio). Estavam presos a um filme de 1966, um western sem particular acção ou frenesim, queriam saber o que se ia passar. Vi-me obrigado a quebrar o encanto e fazê-los sair da sala. Na verdade, a estupidez só prolifera e se espalha porque não a paramos. As pessoas querem saber e conhecer, mas se não forem orientadas e aconselhadas, é normal que acabem nos locais errados. No meu pequeno quintal de 60 alunos, uma parcela minúscula na imensidão do mudo, isso não acontecerá. Porque não deixo, porque não quero; e quando uma pessoa não se controla a si mesmo, que pelo menos controle os outros. É um dos poucos benefícios de sermos imperfeitos por natureza.



segunda-feira, abril 24, 2017

A vida normal


Quando cheguei a casa na última terça-feira, aí pelas oito da noite, limitei-me a arrastar malas e sacos e tralhas, basicamente, mais leves do que as que habitualmente recheiam o meu sótão em forma de cabeça. A viagem de carro durara três horas e pela proporção de insectos esmagados no meu pára-choques, a velocidade média fora a suficiente para abrir o contínuo espaço-tempo entre Grândola e Alcácer do Sal. A lentidão estava guardada a memória das férias, escoando como uma ampulheta de pedras de xisto: a parte das férias nem é a pior de deixar para trás, trabalho é cíclico e regressa, de certa forma até aceito-o como quem está manco e pede uma embalagem de Voltaren só para aliviar e sim, sei que revela muito do estado mental de alguém quando o trabalho ocupa um lugar na vida correspondente aos analgésicos, mas a verdade é que aqui por baixo, no debate dos dilemas que trago num saco pelos ombros, daqueles que fazem inveja ao Pai Natal, ocupar a cabeça tornar-se primordial. Nessa noite, aqueci jardineira no micro-ondas e enquanto comia ao sofá (sim, mesas são para quem tem classe e já sabemos que o meu reservatório disso acabou algures quando Donald Trump era apenas uma anedota em vez de pesadelo), caí num marasmo cerebal apenas comparável a cair de bicicleta, dar com as trombas num pinheiro e ficar meio azamboado durante uns momentos, suficientes para julgar que estou no Sri Lanka discutindo termo-dinâmica com Sandokan e Margaret Thatcher. É igualmente deprimente. O mal-estar cai como um metrónomo e no meio de tudo isto, perco a fé em todas as minhas capacidades e julgo que na primeira aula do dia seguinte, me dará uma branca tal que os alunos darão eles próprios a aula, só para humilhar. O susto agitou-me da nuca ao tornozelo e dei a mim próprio um trabalho de casa - resmunguei e maldisse-me, claro, os trabalhos de casa são chagas pútridas que os professores entregam aos seus discentes porque os odeiam, odeiam, odeiam - que não se podia contornar: descobrir a pequena beleza na minha rotina. Cheguei aqui há mês e meio e se não consigo fazer isso, é melhor que me encomende à imaturidade com faixas de campeão crónico levado ao colinho. Ou de Colos, pelo menos.

Mas então, que dias são estes que tomo como meus e ofereço aqui aos outros por escrito? Por norma, acordo às 7.40 ao som do tema de John Reese (não sabem quem é, googlem e envergonhem-se de nunca ter visto a série), que injecta adrenalina nas minhas veias e me convence que consigo dobrar aquele aluno que não sabia até ontem quem era D. Afonso Henriques, mas sairá da minha aula capaz de explicar, em detalhe, o que é o mercantilismo. Tomo o pequeno-almoço enquanto escuto música - recentemente, Caravan Palace e não, não tenho vizinhos do lado, nem por cima, nem por baixo, nem emparedados - e depois de levar aos meus den tes a dose de frescura necessária para não me entaramelar com bafo de sacristia, pego na sacola, tranco a porta e de phones nos ouvidos, percorro o caminho para a escola passo a passo, cinco minutos em que não quero saber de ninguém. O momento é meu e às 8.15 da manhã, Colos é ainda mais um deserto, uma estrada nacional que rasga por entre as casas, brancas e mortiças, dormentes,, ainda mal se apercebendo que lá mora alguém. Contorno o campo de jogos e desço pela ladeia que conduz à entrada da escola. Nalguns dias atravesso o magote de alunos que chega de camioneta, noutros não. Quase sempre encontro as mesmas caras na sala de professores e nos corredores da escola o impossível é não me cruzar com algum aluno meu - ensino seis turmas, todas elas de irrequietos imberbes que vão despertando para as reais coisas da vida, namoros e amizades, alguma palhaçada, perguntas ao professor e comentários, "o professor tem Instagram?", "Professor, não se sente doente, não quer ir para casa?", "Oh professor, como se chamava aquela banda que nos mostrou no outro dia na aula?", e dizem mais coisas sem que eu ouça, de certeza, que nas aulas há espaço para rabecadas e entradas a pés juntos, mas no geral transmito conhecimento (ou tento) a miudagem que não se expande para lá dos limites do aceitável e até ri de histórias e piadas, as palavras assentam-lhes na cabeça como post-its de conhecimento e mais tarde repetem verbatim em testes e começo a questionar tudo, se tenho uma voz radiofónica ou simplesmente os esquemas que lhes dou são banais e fumo que se esbate na memória.


Ser professor não é um sonho meu e ainda que trabalhe muito em piloto automático (o meu modus operandi desde que sou aluno, cortesia de um cérebro ágil para as coisas supérfluas e perro para as que mais interessam), sei que não sou mau, pelo menos, que em alturas fascino a audiência, presa pelo encantamento de uma narrativa, que gera perguntas e dedos no ar que não têm a ver com a matéria, mas a vida não é um conteúdo programático, é mais do que isso, é a curiosidade selvagem e a transmissão de valores: eu ensino, mas tento separar o errado do certo - não como professor, mas como alguém que vê o mundo como a acção do amanhã que foi futuro ontem. Fascismo é algo errado e mau; o colonialismo foi prejudicial, mas o tempo não volta atrás e cada um se torna responsável pelas suas falhas, a Ciência é um auxílio e não uma crença; a História não é a preto e branco, mas certos conceitos são-no de imediato. Estive fora da docência durante seis anos e por isso vou atirando aqui e ali, pedindo ajuda, encontrando-a nos meus colegas que felizmente têm pouco de filhos da mãe e sabem que quanto menos asneiras der, menos lhes sobra. Se isto não é espírito comunitário.

Saio da escola e regresso a pé para casa. Saio sempre a meio da tarde e tenho demasiado tempo livre. Ponho-me a par do mundo, leio, escrevo, percorro os meus canais de vídeo habituais. As pessoas ajudam sempre ao engano de que, em quatro paredes sou só um e por vezes o engano leva-me tão longe quanto o esgar de um sorriso. Banho tomado, jantar feito e comido e a noite é preenchida por filmes, séries e uma pequena revisão da aula do dia seguinte. Ciclo que se repete e quando a semana termina, o fim de semana é de pegar no carro e ter liberdade condicional, sendo que à condição pego na máquina e vou descobrir os limites da prisão, em passeio. É assim. Por vezes, permito-me a algo de diferente. Neste sábado, fui até ao café local ver o derby de Lisboa. Uma sala cheia de benfiquistas, mais velhos do que novos, e vejo, pela primeira vez, gente que tem mais de 18 e menos de 35 por estas dunas. Ederson enterra num lance, penalty para o Sporting. Ninguém reclama, apenas com um pobre brasileiro que se estivesse por cá, sambava no desespero de ver garrafas a voar na sua direcção. O jogo passa, o Benfica controla, o golo não aparece. No intervalo, reparo que o estabelecimento é um altar benfiquista com cachecóis, cartazes e posters, e a sala vai resmungando. Na segunda parte, no entanto, um deus nórdico Lindo em on e em Of, envia, à cobrança, um livre directo para a caixa postal de Rui Patrício e o grito colectivo de golo escuta-se por toda a planície e creio ter feito cair duas tíbias na Capela dos Ossos. Salto com quem lá está dentro, chamamos nomes a toda a gente e segundos depois, caindo em mim, lembro-me de que me esqueci que não estava em casa ou no que é familiar, que vibrei e senti uma alegria arrasadora num local que só me tem trazido a corda bamba do humor, que nalguns dias me levo com suavidade e noutros me arrasto de tal forma que só Einaudi e algum totens pessoais me salvam. Aquele grito de "Golo!" foi do Benfica, sim, mas também o encarnado do meu sangue a rugir e rebentar, a encher-me de uma certa certeza de certeira possibilidade de conseguir ser eu mesmo quando o local tem o menos possível de mim. De que posso ser em muitos lados.

Nessa noite, quando cheguei a casa, dormi, pela primeira vez desde que cheguei sem acordar às cinco e meia da manhã - não justifico esta hora, não consigo -  e não sei se foi do festejo, da água a 55 cêntimos ou da luz trémula amarelenta na rua da noite anterior, registei no meu bloco de notas os pequenos prazeres do meu eremitério: à cabeça, a redescoberta do que não sou, mas que existe bem em mim; e não precisei da ajuda do Sandokan.

terça-feira, abril 18, 2017

Pausa lectiva


Posso viver num lugar e mesmo assim voltar a casa noutro. O sentimento manteve-me acordado durante estes dias em que, por virtudes das férias da Páscoa da garotada, voltei a Ceira para uns dias que, à falta de uma definição melhor, foram um pouco como quem calça sapatilhas depois de ter feito o caminho de Santiago em chinelos de lona: é possível e uma aventura interessante, no entanto não será a mais desejável das formas de empreender uma longa caminhada. O Alentejo, esse misto de ganha-pão e pão nosso de cada dia, é-me estranho e acho que sempre será. Podem tirar-me do que sempre foi meu, mas a pertença não morre e não foge. O lá em baixo é apenas um estado passageiro e gasoso, pois é como de um vapor que me vejo nas longas horas só numa casa vazia, onde me entretenho a criar condições mínimas para alguma sanidade. Este quarto onde escrevo é onde sou mais eu, para infelicidade da Humanidade, e amanhã, quando as voltas do volante me fizerem regressar ao teatro de operações, a maneira cirúrgica de me remover do que me preenche, estarei de novo na terra quente, na planície que não termina, nos papéis e manuais e apresentações em computador, cálculos de como entreter gandins. As férias, mesmo quando aluno, sempre me pareceram um faz de conta, um pouco como quando Alice se esgueira por um buraco e dá por si do outro lado da realidade. Colos é a  realidade, Ceira a ilusão e estranho como há menos de um ano, lá longe da Ásia Central, esta vila onde cresci era a dureza do mundo e agora me soa a um colchão de penas. Platão tinha razão: a realidade é uma percepção, tantas vezes falhada, nunca fora da influência de drogas várias.

Vale-me redescobrir Coimbra mais a sério, o valor do Choupal e de uma caminhada ao sol, por entre o malhadiço da folhagem num dia de Verão entre insectos irritantes e folhas que tombam, pétalas que preenchem o chão debaixo dos meus pés, enquanto escuto entrevistas em rádio acerca de temas cujo bom senso me impede de mencioná-los em abordagens a quem não me conhece, sob pena de aparecer como uma curvatura distorcida da realidade. Pegar no carro e percorrer locais mais santos do que Jerusalém, entre a serra da Lousã e uns penedos em Góis que me viram os pulmões do avesso e do avesso me iluminam o interior. Reencontro amigos e há abraços, conversas de situação e sobre situações, combinar cenas e takes, rir à volta de uma mesa de café, saber o que é companhia e calor humano, a vontade que outros têm de disfrutar da companhia de alguém que tem as paredes de casa por companhia e a uma opinião de si mesmo ao nível das galerias mais baixas das minhas de S. Domingos. Sentir-me no meu quarto, sentar-me na minha cama, sem ter-me por adquirido, coisas banais e pequenas, quotidianas, ver filmes antigos com amigos, rir deles, comentar e achar que é tudo bom, tudo normal, que quando amanhã, por esta hora, já estiver a dormir, será numa casa onde só me tenho por companhia e numa tarefa de redescobrir o equilíbrio do exército funâmbulo de um só homem. As férias da Páscoa são um exercício de alta finança, uma reavaliação da minha bolsa de valores, a ideia de que todos os grandes planos e desejos e ansiedades são um engodo e que nos anões da minúcia diária existe algo de mágico lá dentro, intrínseco e tão complicado de descodificar como um cubo de Rubik, mas simples de gozar, de apreciar, de se tornar importante.

Levo para baixo tudo isso, um bocadinho mais seguro e protegido, como se o que é familiar e quem nos vêm como um bocadinho de família e de mobília nos fizesse sentar na mais segura das cadeiras.Vai também comigo uma semente de novidade, o inesperado em tons de amarelo, a possibilidade de novos capítulos, um pouco mais de coragem para encaixar o desconhecido e desembrulhá-lo, ou até debulhá-lo, à boa maneira do campo. No meio, tento não perder-me de mim próprio, mas perder o que a mim próprio me tenta, Não é tarefa fácil, mas grandes obras humanas vieram de períodos de exílio. De uma certa maneira, o Alentejo acentua o que há em mim de megalómano. A sorte de todos é que, apesar da queda de cabelo, ainda não uso uma peruca dourada. Mas há raposas nos campos do Alentejo. Não tarda, coloco uma em cima da minha cabeça.

segunda-feira, abril 10, 2017

O eterno porquê dos meus sentidos e sentimentos


Onze dias em Coimbra para descansar a cabecinha, respirar um pouco de outros ares, recordar um sítio mais que não seja o deserto. Esta semana não se fala sobre o Alentejo ou sobre a minha vida nova, nem acerca do pitoresco e do engraçado, do curioso e das miscelâneas a Sul que tornaram alguns dos meus dias na habitação de um mundo novo e diferente. O que lerão falará de demónios antigos, do maior deles aliás, de um monstro que domina a minha existência há muitos anos, um ponto fraco que é o mais forte, a verdadeira razão pela qual escrevo este blogue há doze anos e nunca deixei de ter assunto, palavras, frases e gramáticas, caligrafias emocionais de exclamação e interrogação, uma cornucópia invertida de tema que se dilui nuns pontos, se reforça noutros e aparece encapotado nos restantes, estando sempre no centro de tudo o que escrevo, crio e penso: o amor. Também lhe chamo a doença psiquiátrica não diagnosticada, ou o camelo do deserto que te leva a um oásis de areia ou também a ladeira de empedrado à qual chegaste com um arado de madeira, ou uma insónia permanente que me rouba anos de vida em segundos de desespero. É pouco simpático, bem sei, retribui-se aquilo que se recebe.

Torna-se complicado escrever sobre isto sem soar repetitivo. Leitores mais recentes não terão essa sensação, habituados a crónicas de viagem e de emigração, de um olhar sobre o exterior, mas é do interior que os mais fiéis e duradouros frequentadores da ilha deste gajo complexo se recordam e até se fartaram. O que é normal, concedo: eu tenho um hábito, péssimo como muitos, de me queixar e queixar e queixar sobre os meus problemas pessoais, ao ponto de fazer com que o Calimero pareça o Clint Eastwood. É legítima a queixa, mas quem gosta das divagações curiosas deve perceber que sem esta eterna interrogação da minha vida, nada mais existiria. O que escrevo sempre foi a tentativa de responder ao que me atormenta e a minha máxima dor reside não no lado esquerdo do peito (amigos, o coração bombeia sangue, não amor) mas aquela área atrás do estômago e abaixo do cérebro que rebola quando a paixão é alimento. Sou um corpo de 34 anos com muito pouco de adulto no espírito, mais preocupado com a ausência de uma outra pessoa do que com o desemprego longo ou ainda morar com a minha mãe. Sim, esse tipo de indivíduo que parece recusar-se a crescer e transportar durante toda uma vida uma adolescência perpétua. Poderia justificar-me (porque existem justificações, quer percebam ou não), mas nem tento fazê-lo. Sou assim e tento aceitar, se é que isto se torna aceitável com o tempo - que não torna, continuo a sentir-me tão infantil que ainda me olho como incapaz de ser responsável o suficiente para fazer vida comigo, quanto mais com outro alguém - mas acima de tudo compreender a razão e o motivo, se está em mim (que está, só pode) e qual é.

A bem dizer, teoria não faltam. Decerto alguns se reconhecerão como interlocutores neste longo diálogo que mantenho com outros acerca deste assunto. Uns até mais, porque têm sido permanentes ao longo dos anos na pergunta que não quer calar e na resposta que muda e é muda. A minha própria reflexão já passou por várias fases: primeiro quis acreditar que simplesmente não merecia; depois, a tese central defendeu que sou, na verdade, um misto de vómito e caganeira. Quando, algures no meu caminho, algumas coisas começaram a acontecer, claramente essa justificação se esvaziou como um balão colorido a quem desatam o cordel no final da festa e vi-me perdido, pois assentara toda a minha personalidade na verdade insofismável de que era o condensador de estrume de toda a Terra. O passo lógico seguinte era, claro, a ideia de quem ninguém me compreende, de que sou um ser único e especial e fantástico, difícil de contentar, a total inversão dos valores anteriores. A seguir, disse a mim mesmo que não conseguia amar, que era um bloco de basalto arrefecido pelas águas do tempo e pelo sal do pessimismo, um sódio que corrói agreste, mas surgiu, totalmente fora de rota, um asteróide chamado D. para desmentir isso e novamente fiquei baralhado: como é que alguém deixava, sem medo, que me encolhesse na palma da sua mão e assim me tornasse maior do que alguma vez me senti? Como é que uma criatura de aparente amor infindável me aceitava e desejava e puxava para a sua vida com a força de quem morde a terra quando não estamos presentes? Fiquei baralhado, sim, por ela, por ser feliz com ela e por ser feliz de todo. Quando a aventura chegou ao fim, reforcei tudo o que de pior pensava e tal durou apenas o tempo de outro mundo se abater sobre mim e questionar praticamente todas as teorias que defendi a mim e a outros ao longo dos anos, desde a adolescência, desde que a minha personalidade é um cimento por dentro. Também essa aventura acabou e depois de um ou outro desvio mais importante ou não, alguns negros e outros cinzentos e um bem violeta, continuei a perguntar: porquê? E porque é que todas as alegrias da minha vida, porque é que um novo emprego, porque é que regressar a casa de férias, porque é que a oferta da amizade sincera em risos e gestos e convites, porque é que graça de outras pessoas, não me coloca na cara um sorriso, não é uma felicidade tal que me faça esquecer o resto?

Sim, é possível que haja em mim um crónico insatisfeito. Ser infeliz não é, para mim, um gosto ou um objectivo, mas quando me sento e penso, não ter essa pessoa especial para partilhar a vida e as minhas coisas, alguém com quem construir outro mundo, que me tire de uma solidão que ergui quase à medida e com quem aprenda a ser mais do que sou, é demolidor. Opiniões alheias já avançaram que o meu problema é centrar-me demasiado nisto, e é verdade, que devia relaxar, o que não é falso, que acabará por aparecer e neste ponto duvido sempre, lanço uma frase derrotista que quase acaba a conversa, sou contraposto com uma máxima que quer resumir todo o esforço e luta da vida a um conjunto de palavras, um conselho que procure outro tipo de ajuda mais clínica (o que já fiz), que ninguém deve viver sem ter os lábios como uma persiana aberta para o sol e têm razão, ninguém merece, mas eu vivo para perceber a causa das coisas e não só a raiz dos problemas como também o caule, as folhas e os frutos; a falta de confiança não tem charme e o aspecto descuidado não ajuda, também já as ouvi, e devias "dar mais para trás, porque elas gostam de luta", o que me parece logo um motivo para nem me interessar por alguém assim, porque para jogos já basta o Benfica. Tudo é sempre uma lotaria, é o que sinto, que há ondas de sorte e de azar, que o imprevisto reina e nós apenas balizamos o seu efeito, mas ainda nem entendi o meu. Nem o que posso fazer, nem como ser menos um ser deformado aos trambolhões na vida, muito menos impedir-me de tornar numa espécie de estrela morta que se contrai ao ponto de implodir e consigo arrastar toda a luz.

E não é a última vez que me debruçarei nesta varanda, decerto. Gostava de poder descansar-vos e dizer que sim, que não mais vos perturbarei com estas preocupações pueris, mas sei que quando desligar este computador e a minha cabeça pousar sobre a almofada, uns minutos serão gastos a questionar: Bruno, porque é que estás só? Ou melhor, porque é estás só dessa maneira? A resposta não surgirá racional, mas sim na forma de uma gigantesca agressão mental que me tira um pouco do sabor de tudo o resto. É um problema sério, tratado com seriedade, mas do qual me rio de vez em quando e o qual transformo em livros séries, e em doze anos de um blog, e vejam bem como não consegui responder-lhe. Da próxima vez que me perguntarem porque é que não durmo bem e eu der como resposta "Insónias", saibam que o problema não é falta de sono: é excesso de batida, e quem passa a semana da Queima das Fitas perto do recinto sabe bem que com excesso de batida não há sono que resista: olhos bem abertos, o mundo abre e fecha e no dia seguinte, a angústia continua. Talvez esta última comparação seja demasiado dramática, mas lembrem-se que não estão a ler "A Pipoca Mais Doce".

segunda-feira, abril 03, 2017

Fixar-me


Viver no nenhures do Alentejo exige uma certa disciplina de espírito: estar solitário é um dado adquirido e nos tempos livres, torna-se essencial dominar duas artes quase milenares: a vivência connosco mesmos e saber preencher o tempo de forma a não criar raízes no tédio. Ao longo da minha vida, sou mais artista de uma do que de outra, mas nunca mestre absoluto em qualquer uma delas. Sabermos estar com a nossa companhia é um exercício complicado quando o “eu” tem a inquietude mental de um esquilo rodeado de avelãs e, como é meu apanágio, um dom fulminante de dar ao chicote sobre o meu próprio lombo mental. Ao contrário de certos mitos que se espalharam entres os meus conhecimentos, a minha convivência comigo,nunca pacífica, pauta-se por um respeito pessoal e uma incapacidade de me aborrecer quando estou sozinho. As minhas ideias são por norma tão idiotas e descabidas que passo metade do tempo a matutar sobre elas e a outra metade interrogando-me sobre onde a sua origem. Assim se passam horas que de engraçado têm pouco, mas de fascinante são camiões TIR em tamanho. A guerra que ocorre de mim para comigo nunca me impede de reconhecer que o meu cérebro é das melhores coisinhas que tenho e colocá-lo a trabalhar é ao mesmo tempo perigoso e de enorme gulodice. Sobrou-me assim cá em baixo arranjar um hobbie para me entreter. A escrita estava fora de questão, pois é demasiado importante e medular, demasiado essencial e sanguínea para encará-la de ânimo tão leve. Ainda assim, surgiu há uns anos na minha vida algo que se desenvolveu e entranhou e tem funcionado melhor do que qualquer meditação transcendente ou yoga.


Ora, não me recordo quando comecei a levar a Fotografia mais a sério. Terá sido antes de adquirir a minha actual máquina, uma Nikon D3200 que embora modesta nas suas ambições, já permite umas brincadeiras. O prazer que retiro na construção de uma imagem podia perfeitamente ser imputado à minha paixão pela 7ª Arte, mas reconheço lá na profundidade dos motivos, quase numa vergonha pública, que o principal motivo se deve ao facto de ter como mãos um par de tamancos de madeira e não poder, assim, desenhar ou fazer qualquer coisa de criativo com as mãos. Como tal, virei-me para a outra forma que conhecia de criar desenhos, mas da vida real. De pequenas máquinas digitais passou-se a algo mais sério, tentando convencer-me de que sabia fazer alguma coisa com aquilo e a pouco e pouco, sem estudar técnica fotográfica ou regras de composição, fotografar passou a ser algo tão natural e presente que o meu estojo fotográfico vai sempre comigo em viagem, não vá eu cruzar-me com um daqueles cenários únicos e fascinantes que ficam bem imóveis num formato digital para dezenas de likes no Facebook. É certo que elogios nas redes sociais também contribuem para que me convença a continuar, mas acima de tudo há dois motivos pelos quais fotografar se tornou numa recorrência regular.


O primeiro é a abstracção que me causa quando me encontro apenas eu com a paisagem. Invariavelmente é a paisagens que me dedico: a minha falta de jeito para lidar com pessoas transferiu-se também para a sua captura no jogo de espelhos da máquina. É aí que a luz penettra e fixa as imagens e está visto que eu de luz tenho pouco, sou mais negrume e breu e na verdade a minha fé nas pessoas tem diminuído recentemente, o que também não ajuda. No entanto, e como na vida, quero muito acreditar que consigo também apanhar a essência de alguém numa imagem e não desisto.  Olhar o mundo como ele é, no entanto, é o meu ponto forte: o enquadramento, a composição, jogar à apanhada com a luz apenas para vê-la esvair-se por entre as minhas mãos transforma o simples acto de ver a paisagem por um quadradinho pequenino e tolo numa meditação sobre a vida e num ponto de fuga a mim mesmo. Calculo números, testo luminosidade e sombra , em pé ou de joelho à profissional, agora a verticalidade e depois a horizontalidade, tudo isto que se segue à atenção que os meus olhos dedicam a um pequeno instante do mundo que passou e fica firme, esperando que na minha paciência me dedique a jogar xadrez com o mundo. Toda a vida me programei para uma relação visual com montanhas e altitude e tal é algo de pouco abundante na paisagem alentejana. Sair em safari fotográfico aqui pelo sul é desprogramar-me e aprender a gozar a planície, apreciar uma luz diferente e a redescoberta do gozo que a profundidade pode trazer a uma fotografia. Vai-se do mar ao campo e há razões em todo o lado para dar dedo, pede-se apenas atenção e uma oportunidade de experienciar novos cenários e belezas. Não é fácil, mas se me quero distrair aqui por baixo, insisto e já levo que mostrar.



O segundo é o meu apego ao espaços abertos e livres, ao convite da estrada à frente de um volante, à acção de duas pernas que abrem a boca para engolir a terra. A máquina fotográfica é a maneira de contar a história sem impedimento de gramáticas e pontuações e embora seja mais fácil trazer o fascínio em frases encadeadas ao ritmo de quilómetros, uma imagem vale não só mais do que mil palavras, mas também cem espantos. Soltar um suspiro fotográfico é devolver ao mundo um obrigado egoísta e se fotografar é, acima de tudo, negociar com a luz, lidar com ela, domá-la para que nos oferte a imagem que queremos, é acima de tudo uma homenagem ao mundo, a vénia de reconhecimento que algo é tão esplendoroso e dominador, tão rei de nós e tudo o mais que queremos levá-lo connosco sem poder. Nas paisagens do Alentejo, perco a minha mente e vou aprendendo a construir uma ligação a este novo canto do país onde sou, e serei sempre, um estrangeiro. Sento-me às vezes no Nada dos chaparros e dos montados, escutando os pássaros e o silêncio, olhando sem obstáculos uma distância sem fim, sentindo-me regurgitado por um ambiente que não é meu, mas que pedi emprestado. Quando o fotografo, roubo-o. Sempre gostei de me sentir transgressor e em calhando, é com a máquina que, feito rebelde, irei desaparecendo no calor das cores do Alentejo, na clareza do céu, nas filas de sobreiros que tombam e murcham na sua copa, em protesto contra o esquecimento que a esta zona foi votada. O meu único trabalho e ajuda é guardá-los numa câmara escura, para que todos saibam que existem e que também eu vou vivendo, ocasionalmente, abaixo da linha do Tejo.

segunda-feira, março 27, 2017

O Alentejo que vos deixo 1


Cinco dos quinze maiores concelhos de Portugal, em área, situam-se no distrito de Beja, e um deles é o meu adoptivo, Odemira. Como devem calcular, nenhum deles está sequer perto do mesmo top em população. Nem se dobrarem ou sequer triplicarem e podem avançar até aos quintuplos que precisam de chegar à posição oitenta para encontrar Beja como o mais populoso. Odemira ainda aparece nos 100 primeiros, mas com um rácio de 15 habitantes por quilómetro quadrado. Só surpreende quem passa cá o Verão. Viver nesta região do Alentejo é ter por companhia a própria solidão e encolher os ombros. Ou se tem um mundo interior ou então é o apocalipse: se gostar de correria e animação, apareça por cá nos fins de semana de festa. Caso contrário, aprenda a gostar de ler e do silêncio. Em alternativa, o meu conselho é que aprenda a gostar de fotografia, arranje um carrinho poupado e parta em busca de recantos alentejanos. Para um beirão como eu, para quem a montanha é um património dado e um recreio, o Alentejo pode oferecer dificuldades no que toca ao lazer predilecto. No entanto, não só porque sou amigo mas também porque vos quero ver cá por baixo (para me continuarem a dizer "Bruno, estás em Odemira, essa zona é tão fixe, vais todos os dias à praia" quando, na verdade, estou a 35 km da costa mais próxima e o calor está com aspecto de só vir lá pela altura em que José Sócrates recuperar a sua alma, negociada com o Diabo por intermédio de Jorge Mendes) deixo aqui algumas pequenas anotações turísticas sobre os passeios que já fiz aqui na zona. Antes de mais, um conselho: não se aleijem a sério - fracturas exigem raio X e de Colos à máquina mais próxima vão 100 km. Não se andam uma semana com um mindinho inchado depois de um espalho em calhaus só porque se quer a fama de duro.


Colos - Também conhecida como a Veneza do Alentejo (só por mim e quando uso um tom tão sarcástico até o ar fica ácido), é a terra preferida de monges tibetanos, São Bento de Múrcia e daquelas pessoas que não estão mesmo para aturar outras pessoas. Prolonga-se ao longo de uma faixa de estrada, tem uma escola e uma igreja com o mais aborrecido e irritante sacristão da raia alentejana, que faz suspirar pelo regresso das rotas de contrabando, mas para vê-lo daqui para fora. O destaque vai todinho para a mercearia Paga Pouco, talvez o estabelecimento com mais classe da vila e porventura a única coisa que faz com que Colos mereça o título de vila mesmo. Outra coisa positiva é a presença de 100% de benfiquistas nas transmissões de futebol dentro do café "O piriquito" (assim mesmo). Ainda dizem que só o ar da montanha é puro e limpo.


Ourique - Também conhecido como "Aquela terra onde há o Pingo Doce". 50 km ida e volta, levop eu lista de compras para me aviar um mês inteiro, que a gasolina está cara. Um belo miradouro encima esta sede de conselho, inspiração árabe e RDP.  No topo de uma antena, existe um terraço para estender a roupa, mas nem se estende, é mesmo o patamar superior do miradouro. Uma estátua de D. Afonso Henriques marca o orgulho do local e abstenho-me de explicar a qualquer nativo que a batalha de Ourique nunca se podia ter realizado ali... Ou então não foi uma batalha. Os restaurantes são calmos e pacíficos, mas também o são as suas cozinhas e se esperarem 45 minutos para manjar, não se admirem. Interiorizem que é o "Alentejo way of life" enquanto disfarçam a fome e se imaginam numa aula de zen New Age. Ourique é a coisa que encontrarão por aqui mais parecia com o labirinto do Minotauro, com ruas de sentido único que vos obrigam a conhecer a vila e culminam, inevitavelmente na Avenida as Laranjeiras, onde podem provar citrinos que foram aprovados pela própria GALP. Ourique denomina-se a terra do porco preto. Preto ou sujo: perguntem a um turista inglês que, estando à beira da estrada fotografando estes suínos pastando, comentava com a melhor: "These animals are muddy, they really like to bathe in mud".


Mértola - Também conhecida como "Aquela foto do Guadiana e do Castelo". Mértola tem a menor densidade populacional de Beja, que é um bocado como dizer que a Khloe é a Kardashian com menos plásticas. No entanto, compensa-o com um excelente aproveitamento do património arquitectónico que lhe calhou em sorte: a zona histórica é agradável, com uma vista excelente sobre o rio e vestígios romanos e árabes em redor de um castelo dos tempos da Reconquista que observa a paisagem. Podem atravessar o rio de barco e pagar, se desconhecerem por completo o conceito de pontes. existe um núcleo sportinguista cujo tamanho da sede o torna no segundo concelho com mais densidade populacional do distrito de Beja. O castelo é ideal para tirar fotos ou escutar idiotas que têm a mania de que são arqueólogos amadores e tentam impressionar os amigos confundindo o poço de água que abastecia o castelo com masmorrras onde "eh pá, os gajos queimavam-nos com azeite a arder e depois cortavam-lhes as pernas e os braços, era tudo aqui". Quando se fartarem destes energúmenos, têm duas hipóteses: ou escavam em direcção às Minas de S. Domingos ou dão um salto ao Pulo do Lobo. As Minas guardei para outras calendas (talvez quando lá passar com hobbits), mas a lupina referência é um interessantíssimo fenómeno geológico que, entre outros, impressionou José Saramago; no entanto, este também se impressionou por Pilar, logo... que sabe ele da vida? Confiem mais em mim: a cascata ruge e perde-se na rocha negra, revolve-se em ondas como se fosse um mar que brota da terra violento e agreste, impetuoso e em bofetadas e quando dão por vocês a tirar fotos fascinados caem e esbardalham-se todos nos calhaus à margem e se calhar até partiram um dedo, mas nem interessa. Ponto alto: as rectas de Mértola oferecem excelentes fotos de ocasos solares que vos darão a fama de saber fotografar.

Folheto 2 chegará brevemente...

segunda-feira, março 20, 2017

O decente docente


Às vezes temos jeito para umas coisas que não gostamos muito de fazer e é essa a minha relação com a carreira de professor. Soa gabarolas, mas não é: das poucas coisas que consigo gabar em mim sem ter um ataque de eczema agudo é a minha capacidade de entreter um auditório com três ou quatro histórias. Ser professor é muito isto e se pensarmos que é mais e mais é porque vimos demasiados filmes e séries. Sim, podemos inspirar os alunos e preocuparmo-nos e conduzi-los e essas coisas, mas o importante mesmo é dispô-los na sala de aula e convencê-los de que na próxima hora e meia ouvirão informações não apenas incríveis, mas indispensáveis em absoluto para o seu bem-estar e saúde. No fundo, ensinar é uma long con em que ninguém fica prejudicado: o aluno aprende até mesmo o que não quer e dá por si curioso em relação ao mundo e a assuntos em que nunca pensara; o professor engana-se e acha que é muito mais importante no grande esquema das coisas do que realmente é. A docência é o seu super poder, a sala de aula o trono, aqueles jovens súbditos e enquanto se discerne acerca da matéria ou manda aquela piada que acende a sala em júbilo. é grande por uns momentos. Finda a hora e meia, volta a ser uma roda de engrenagem e regressa ao mundo real.

A escola onde me encontro a trabalhar anuncia-se como agrupamento vertical, uma designação do Ministério da Educação que evoca sempre em mim jogos de Tetris. Existe numa vila com menos de 2000 habitantes e deve a sua existência à inclemência do deserto populacional alentejano: tudo é afastado de tudo e certas referências devem permanecer para servir as populações; é assim que existem seis turmas de 3º ciclo e eu sou o único docente de História da escola. Torna-se complicado passar despercebido por aqui, pois em todo o lado há um aluno, em cada canto um chico esperto que quer dizer bom dia ao professor e sair com vida. Quando aqui cheguei, faz hoje um mês, pouco faltou para me estenderem uma carpete vermelha e lançarem balões jubilantes. Colos estivera sem professor de História durante dois meses e meio e ali aparecia eu, o Desejado. Não me recordava da última vez em que estive nessa posição e por momentos apreciei a sensação; foram segundos de luz que se apagaram quando me recordei de que estive seis anos sem leccionar. Depois chorei por dentro, mas ninguém reparou. Ainda sou "o professor de História", porque antes, cinco mânfios recusaram e este cargo foi um "passa a morte" que chegou até mim. O desprezo de outros torna-me especial e isso é também uma inversão da ordem das coisas.

Esta sensação de que a escola de Colos é uma dimensão à parte de todas influencia o comportamento de todo o pessoal docente: rapidamente orientaram o caçula e fizeram essa coisa linda e que fica sempre bem em avaliações que é "Integrar". Na verdade, sente-se um espírito relaxado na escola. Não de incúria, mas de calma mesmo e a noção de que o nosso trabalho decorre e ninguém morre se houver um ou outro atraso. É preciso cumprir os horários semanais, estar nas reuniões e dar as aulas. Ajuda se, pelo meio, expandirmos os pequenos mundos que estas crianças receberam de herança ao nascerem no interior do concelho de Odemira. Não é obrigação, mas apela a um sentido de caridade e empatia inato, que rasa um pouco aquela sobranceria de gente branca que vai passar um mês num projecto de voluntariado e acha que não só mudou o mundo como sabe o segredo da vida. No dia a seguir, é egoísta como dantes, mas nem interessa. No entanto, agrada-me isto de divulgar e levar coisas novas, logo eu que espalhei a santa palavra de Einaudi como um fogacho em folhas de eucalipto secas por todos os meus amigos. Aulas há em que a divulgação do saber adquire estranhos contornos: quando derem por vós a ter de explicar conceitos religiosos a turmas inteiras que nunca tiveram catequese, perceberão. Diziam os outros que o Alentejo seria novamente seu e pela irreligiosidade dos meus alunos, nunca deixou de sê-lo.

Há certos pormenores neste retiro em Colos que me aborrecem, mas a escolha que me calhou em sorteio de tômbola não é um deles: as turmas são pequenas, o que é sempre bom; os meus colegas não fogem da simpatia e tiveram piedade de um maçarico; as aulas decorrem até às 16.30; e no geral, a pequenada não abusa e o seu conceito de mau comportamento estende-se até ao limite máximo de falar quando não deve. A ausência de toque de entrada e saída ainda me causa confusão, mas é tudo uma questão de decorar as horas e ter um papelinho com o meu horário sempre à mão. Até agora vou conseguindo enganar toda a gente e parece que sou um docente à séria: os alunos vão aprendendo sem grande tédio, as reuniões são feitas e dirigidas e apareço sempre a tempo e horas. Dou mesmo ar de profissional, mas respiro com o coração na ansiedade e só com o tempo, acho, recuperarei o fôlego. Até lá, a vossa presença desse lado é um balão de oxigénio.

terça-feira, março 14, 2017

Alentejo sem rumo



Sou um beirão, nascido e criado. Cresci rodeado de florestas e montes, habituado a olhar em redor e ver a linha do horizonte entrecortada por outros limites e nunca tão longe que não sentisse a distância a puxá-la para bem longe de mim. Ao contrário do que se possa pensar, é libertador viver assim, absorver o mundo pelas suas formas e muralhas, saber que estão lá sem nos fechar, que são apenas a prova física de que sou humano, de que tenho limitações, mas que de nenhuma forma elas devem limitar-me: vejo a montanha para subi-la, escalá-la, domá-la. O meu mundo sempre foi esse; e dou nestes dias por mim noutro planeta, noutra Terra até, uma onde os montes são meros soluços do solo, quase fictícios, uma miragem ao longo de compridas planícies, tapetes verdes onde se erguem, a espaços, pequenas árvores que tornam o chão num tabuleiro de xadrez onde a estratégia é clara e é baralhar-me à minha mente. O Alentejo é de uma estranheza hipnótica que confunde quem sempre viveu no costume das alturas e a longitude total dos meridianos do tapete alentejano causa sempre a sensação de que o mundo pode não ter fim, ou início sequer. É um mundo em repetição permanente que continua e continua e continua e continua.

As rectas intermináveis que ligam os pontos deste extraterrestre planeta alentejano são monótonas, mas convidam-me a pegar no carro e deixar-me ir. O ocaso do sol é sempre uma boa oportunidade para apanhar as labaredas do céu e ver cegonhas a contra-luz. Sinto sempre que é uma pequena piada de ironia que alguém com tanto medo de ficar só, com tantos problemas em lidar com a solidão e consigo, cuja mudança de condições causa sempre um sobressalto eléctrico que comprime a minha coluna como um acórdeão, tenha sido despachado para o eremitismo do isolamento numa área assim, de nada permanente e renovável, de conhecidas aves migratórias que optam por ir e vir para proteger a família, construindo uma vida que se escapa pelos meus dedos, que procuro e não encontro, em virtude da qual me gasto sem esperar outra recompensa que não seja ser recompensado e poder sentir-me feliz. A partir do meu terraço, contemplo a permanência do espaço sem ponta por onde pegar. A rotina que para mim criei nesta nova vida que tenho é apenas a reflexão dessa permanência morosa: acordar, comer, higiene, caminhar, escola, aulas, colegas, regresso a casa, deitado no sofá ao computador, lanche, algum trabalho, banho, jantar, relaxar e entregar-me em esqueleto na cam(p)a. Chamam-lhe vida e no entanto, porque pareço esmorecer nela? Mirrar como uma cebola presa num armário húmido, com o mofo a morder? Porque levo isto como uma pena de prisão e não uma benção? Porque penso em insistência na vida que não tenho, que procuro e que desejo e não neste milagre de estar empregado, de conseguir ser útil a alguém que seja, porque não acordo com toda a experiência, porque recusa a minha mente abraçá-la e lhe ergue barreiras, porque caminho para a escola como um condenado ao desterro ao invés de aceitar-me como esta figura que de barba entra na sala, fala forte, cativa atenção, aborrece quando força a trabalhar, exulta quando vê nos olhos alheios a curiosidade arrancada por uma pequena história, um pormenor esquivo?

Não sei que feitiço tem o Alentejo, que me relaxa quando me movo e me petrifica quando estando parado, deixo a cabeça voar por sobre o mais alto dos picos, procurando qualquer coisa de familiar, uma semelhança de conforto, a ideia que lá longe podem sentir a minha falta, que também lhes morre um bocadinho quando aqui caio à noite e que a minha alegria pode ser também a sua, quando surge, que a felicidade não é como a planície alentejana ou como a montanha beirã, mas sim um terreno sem definição ou relevo, sem passos trocados ou estradas infinitas, apenas é e vagueia à nossa vontade. Há dias em que para mim olho e pergunto se é meu objectivo ser assim, triste e macambúzio, se não sei ser de outra maneira, se a felicidade me assusta e noutras quero-a e desejo-a, sei bem o que pretendo e o que me elevaria à transcendência da respiração e que se não alcanço é porque algo há de errado, que os sonhos não se cumprem sem que para eles trabalhemos; e juro que estou a escrever isto num caderno, deitado no terraço, que o sol se está a pôr, a luz é outra, laranja e vermelha, que no céu nem há nuvens a reflecti-la e que em mim, esse ocaso é um acaso para despejar num papel a insegurança que não tem geografia nem nome, apenas treme a realidade como o calor torna difusas as rectas do Alentejo em dia de Verão e que se no sul me tento nortear, é apenas porque tento responder a uma pergunta que desde criança me troca os pontos cardeais: quem sou eu e o quero fazer?

É tudo uma açorda, como às vezes aqui ouço; mas no meu caso, sinto-me mais migado do que ensopado e vai daí, talvez me misture em ambas.

segunda-feira, março 06, 2017

Poder local


Curioso que, poucos dias depois de ter aqui escrito uma ode à casa onde passei quase todos os 34 anos desfiados na vida que me vai cabendo, me apanhe na incidência de habitar num local tão completamente diferente, longe do meu habitat, longe dessas quatro paredes que tanto gabei e cuja relação emocional não consigo esconder. Mudar de casa é também alterar o nosso código postal e só quando o fazemos se descobre que o nosso sangue e a nossa vida é muito também o que nos rodeia de mais próximo. A arquitectura de uma casa, a sua geografia condicionam as nossas rotinas, claro, mas também as nossas reacções e a nossa personalidade, o nosso humor e as histórias que temos para contar. A escolha de morar em Colos e neste número 6 específico fez-se sem grande orientação prévia, mas um olhar bastou para escolhê-la entre várias que vi, porque me conheço e sei como funciono, porque em nenhuma outra me revi. Esta não é, de todo a minha casa; mas habito nela como quem passa por aqui e não se quer deixar também na planície.

Ora, existem 3 quartos (um deles meu, outros dois vagantes para quem quiser visitar) e uma cozinha laterais ao único corredor do espaço, que da porta da entrada conduz a uma sala. Num canto, à esquerda, uma casa de banho; no canto seguinte uma despensa e se continuarmos no sentido dos ponteiros do relógio apanha-se uma salamandra, mais quente do que anfíbia e ideal para invernos alentejanos que já passaram. Nota-se que a casa é fria, mais do que esperava, estar de cobertor tapado não é apenas um gesto de conforto, mas uma necessidade.  Abrindo uma porta de metal ao fundo da sala, dá-se para um quintal onde uma laranjeira já deu os seus frutos e o ar enche-se de cacarejar das galinhas que passeiam nos terrenos contíguos de duas vizinhas. Não é o som mais agradável de ouvir, mas torna-se ruído de fundo quando subo para o meu pequeno terraço de onde consigo ver todo o casario de Colos, branco e empilhado, a torre da igreja destacando-se no topo e em contra-luz da planície verde, chaparros ocasionais, o cliché visual repetitivo da aldeia alentejana. É aqui que como fruta depois do almoço, quando sol me espreita e quando as nuvens ameaçam sem chover, onde gosto de estar comigo e de observar visões apocalípticas, como quando as ditas galinhas decidem empoleirar-se no ramo destacado de uma árvore, em fila, como se o Hitchcock português tivesse deitado para longe cabos de electricidade e pombos. Imagino que no Verão, as noites aqui passadas sejam agradáveis, mas ainda faltam uns meses para descobrir. Regressando ao interior, o branco das paredes cegava-me um pouco ao início, mas já me habituei. Recordo que da segunda vez que quis entrar neste número 6, dei por mim perdido na rua, uma marcha de habitações pálidas com a mesma risca amarela passada como se fosse igual a cada alentejano que a sua casa tenha personalidade ou não. Hoje já sei distinguir, tiro a pinta pelas orelhas envidraçadas da casa e se quiser fazer figurinhas de urso, devo recorrer a outro esquema.

Certas coisas são aqui comichosas: em primeiro, a rede de telemóvel é uma mentira – na sala rasa o aceitável, no quarto onde durmo nem existe; o sinal de internet assume-se uma utopia que só se atinge em períodos de gozo. A decoração é kitsch em esplendor com calendários chineses, um símbolo budista pintado a dourado na barra da minha cama (conflito diplomático à espreita), vários pechisbeques judaicos como se estivesse em Belmonte e um gosto estético na escolha dos têxteis apenas ultrapassada pelo bom gosto de humor de Badaró e do Agildo. A pressão do chuveiro quando se liga a água quente é tal que faço festinhas a mim mesmo com o objecto (não, meninas: não vibra, lamento a desilusão) e volto aos tempos em que uso botijas de gás butano pequenas, que servem o fogão também, controlando-me.

No choque da mudança, ainda não me habituei a ter de ser outro, em parte. Tento refugiar-me em objectos sagrados pessoais para fazer de um lugar estranho uma forma de vida pouco estranha: livros empilhados em cantos e cartas escritas em amor e afecto guardadas na gaveta e em modo SOS quando me sentir mesmo em baixo foram obrigatórios de trazer e numa das divisões, um postal com um Darth Vader desenhado é menos negro do que a sensação de eremita perdido a Sul. O silêncio da casa não me incomoda e apenas torna mais sacra a companhia de imagens que trouxe, como ícones, emoldurados sobre os móveis. São faces que me trazem o sossego devido, amigos que são mais casa do que as paredes, como se em Colos pudesse ter o meu mundo, são outras pessoas especiais cuja presença seria capaz de transformar as minhas pequenas divisões num universo de brilho constante, cheio de galáxias em mim, como se uma casa pudesse ser eu em plenitude, em permanência, como se ao mudarmos de poiso e lugar não me sentisse tão deslocado e fora de tudo, como se a simples recordação de uma pessoa habitasse de finca pé, como se a menção de certos nomes me trouxesse de volta a Ceira, como se a arquitectura de certas faces fosse um local onde, precisamente, nunca deixo de me sentir confortável e eu mesmo e qualquer divisão deste número 6 nunca tivesse deixado de ser casa e minha desde que me conheço.


E sim, há alturas em que desespero por não me sentir em casa, encasinado, por ter saudades e por ser fraco e pouco adulto, por não me assumir na minha vida; é aí que paro e penso em pessoas e locais, em longitudes e latitudes do coração, nos meridianos de lágrimas, nos trópicos dos sorrisos verdadeiros e tento interiorizar que uma casa sou eu, que dou vida e isso é um poder, um super poder aliás, que posso ser um herói e que em quaisquer quatro paredes nunca serei estrangeiro se me abraçar a mim mesmo e me der uma oportunidade. Deitado num sofá, na sala que não é minha mas agora me pertence, escrevo-o e faço muita força para me convencer de que isto é verdade e que posso acreditar e que na morada de agora, namoro esta ideia de estar e ser de outra maneira. De mudar, mas no mesmo local. Na mesma casa.

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

Levado ao Colo




Há pessoas que adoram a mudança.Quanto a mim, resisto-lhe como se eu fosse um denso e polido rochedo granítico há muito cravado nos rápidos de um rio, recusando mover-se na sua luta contra as leis da Física por nenhuma outra razão inútil que não a própria luta, a própria resistência. É bom de ver então que ser avisado, sem alerta, de que fui colocado numa escola a 350 km de casa, um facto cuja probabilidade só se pode equiparar à revelação de que Bruno de Carvalho é um líder sério e ponderado, disparou no ringue da minha cabeça remates contraditórios. Por um lado, a surpresa de que o inesperado ainda me pode bafejar, que a engrenagem da minha vida não é tão pré-definida como sempre julgo, que por uma vez, de maneira positiva, os factos jogam a meu favor - um emprego, hoje em dia, acaba por ser um golpe do baú. Por outro lado, remover-me do que é familiar, , ser eremita num local isolado, tudo isto exponencia a solidão interior que por norma me consome e enche na combustão de um fogo negro cuja brisa mais macia pode logo explodir a aspereza e agressão da minha própria personalidade pacman. Aceitei, no entanto, porque por uma vez devo ser prático; porque me convenci de que, tendo estado na Madeira um ano, cinco meses no litoral alentejano são brinquedo; porque o dinheiro pode ser importante nalgumas partículas da vida; porque tornar a minha vida desconfortável é algo que faço desde a minha adolescência e que por uma vez o seja no bom sentido; porque me tem custado, cada vez mais, viver na vergonha de ser e estar desempregado enquanto toda a gente em meu redor tem um emprego e uma vida feita, filhos e companhia, uma ideia definida daquilo que faz e quer enquanto eu morrinho dentro de mim.

Tudo isto pesou e me contrariou o instinto, levando-me a abdicar de pequenas vitórias que vinha conseguindo. Não tenho espírito de emigrante, sou demasiado acomodado , inflexível e falta-me a agilidade e estoicismo que tanto nos caracterizam como Portugueses, um povo de emigrantes. Ainda assim, tenho feito um trabalho de sapa nos últimos anos para me demolir indo contra mim e como tal, aqui vos escrevo de Colos, pequena vila alentejana (pequena é uma palavra mais operativa do que alentejana), onde a pasmaceira é não só um lema como um desígnio municipal a ser inscrito no brasão. Como descrever? Bem, imaginem a longa recta de alcatrão com duas curvas no final e casas brancas baixas, atarracadas, apertadas numa guarda de honra de tijolo e adobe: é isto. As mercearias chamam-se drogarias, o campo de jogos está invariavelmente vazio, as ruas de empedrado, as cegonhas são drones que patrulham em voo rasante e longos bicos a planície antes de pousar nos ninhos. Acessos entediantes, por entre montes alentejanos e no mapa, Colos fica equidistante de Odemira e Milfontes e antes que pensem que sim, que finalmente há animação e civilização, o meu conselho é que coloquem tudo em perspectiva: qualquer uma delas faz Coimbra parecer Nova Iorque e Tóquio em fusão; e já agora, a rede de telemóvel é tão estável quanto a saúde mental de Madonna e o sinal de Internet tem a força de um jogador de futebol quando sente um leve toque nas costas. Viver por aqui é um exercício de ascetismo e isolamento, como se me entregasse a um retiro espiritual de reavaliação da minha vida e talvez precise disso, de cortar com algumas árvores que se enraízaram em mim, podar outras, ignorar umas quantas e reposicionar-me. Esquecer pessoas, dar a outras o espaço que merecem e decidir como organizar as restantes,

Aqui também encontrei uma rotina boa e uma função, o prazer de, quando em vez, espantar os alunos com conhecimento, colegas disponíveis e relaxados, boa gente que quer receber e fazer-nos sentir bem e também o prazer do quotidiano, guiar em rectas intermináveis com boa música e o meio de nenhures abraçando-me e dizendo que se calhar vai tudo correr bem, que de duas semanas virei a casa e estarei com os meus, que lá por baixo também há vida, que se calhar viver a novidade é tão parte da vida como as cabeçadas. Quero acreditar em tudo isto; mas também gostava de não confundir a minha casa com as restantes 5 iguais que estão ao lado. Por isso, um passo de cada vez.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

As linhas que o destino me escreve


Lembro-me que tinha uns 13 anos, talvez, e tudo começou com blocos de folhas de linha. Na escola, a professora de Língua Portuguesa decretara que todos os períodos devíamos escrever um texto subordinado a qualquer tema que quiséssemos. Porque os números nunca quiseram nada comigo, virei-me então para as letras, uma vingança sanguínea escarlate e começou aí então uma saga que duraria toda a minha vida: o Bruno agarrado a cadernos e papéis, de caneta em punho, traduzindo para o plasma branco mundos e palavras e aspirações e desejos e ocasionalmente tornando real, em frases, o que não conseguia iludir-se de julgar possível na própria realidade. Aquilo que se iniciou por um garoto, no seu quarto, colando as influências do que via e lia, gamando a séries e filmes conceitos apenas para refundi-los noutro enquadramento (aquilo que Tarantino faz e o eleva a demiurgo para alguns) chegou hoje a um homem adulto - em idade - destilando para o mesmo vazio todas as ervas daninhas que lhe trepam os muros da cabeça, as sebes do coração, a abertura da boca que deve explodir na ideia e acaba sempre por canalizar o estalo para o meu amigo mais fiel: a Escrita. Assim, com maiúscula.

É irónico que alguém como eu, que granjeou entre os seus mais próximos a fama de artífice das palavras, sinta a dificuldade de expressar o quão fundamental escrever é para mim. É no geral desconhecido que eu sou, na minha raiz, uma pessoa tímida e adversa a revelações e aproximações e a minha existência define-se basicamente como uma pessoa que vai caindo aos trambolhões por uma escada abaixo enquanto respira, enquanto procura qualquer tipo de corrimão para se deter e nem sequer sabe onde encontrá-lo. Escrever foi, desde muito cedo, a minha maneira de contactar a realidade e defini-la, o meu canal para os outros, a expressão do que sou e sinto quando a única coisa que consigo fazer com a boca é desesperar e por resultado agredir outros. As fantasias são o primeiro patrão da criatividade e alimentei-me sempre das minhas, a principal a de que conseguia admiração alheia através da minha caneta, fazendo rir outros com trocadilhos de filmes, levá-los a redescobrir-se em reflexões lidas à fogueira de um acampamento, trocar ideias sobre o mundo em suportes digitais ou tão simplesmente atalhar através da minha timidez em conversas ao longe com objectos de desejo e pulsão feitos femininos. Palavras, para mim, sempre significaram estar mais próximo, até de mim mesmo. As folhas e os ecrãs solitários são o meu mais longo e original psicólogo, teias de mim e das ideias em análise e levando-me a uma loucura aceitável e perigosa, mas também a elogios alheios e lágrimas de outros quando consigo cristalizar isso num raro texto quase perfeito. Quando penso em mim estendido na cama, com uma caneta azul, roubada ao meu pai, em punho, levando por vezes a minha mãe a questionar-se sobre o seu filho mais velho e o que raio a cabeça lhe ditava e tornava, vejo como esta minha relação com as ideias em frases atravessa todos os grandes momentos da minha vida, de como só consigo que o mundo seja mundo quando o puxo para a intimidade de um ponto final. De como muitas das pessoas que me preenchem foram puxadas por esta minha habilidade, de como criei nelas uma ideia de mim através desta projecção hipnótica que é a navalha gramatical que entra fundo na pele e causa as feridas mais lentas.

Por isso, enquanto os meus conhecidos e amigos me viram apenas desfilar uma caneta algures, na verdade estendia-me e mostrava-me, e acreditem que já escrevi em todo o tipo de locais, desde paragens de camioneta em Espanha até yurts no Quirguistão, desde falésias Algarvias até rochedos beirões, na privacidade do meu quarto e no espaço público de todo um grupo rindo e vivendo enquanto que eu, num canto, só pareço conseguir disfrutar da realidade em colocação distante da mesma. A ironia daquilo que me faz viver duplamente, que me esguicha alegria quando é tudo, também me torne um bocadinho de nada por me confortar na falsidade da ilusão. Se escrevo, vivo, mas também não vivo. Paradoxo das letras. Já fui muita coisa como escritor, ganhei dinheiro através disso, já me enganei também e enganei outros, já conquistei e fui arrasado pelo que coloquei em palavras, até escrevi um livro partilhado, já fiz delas quase tudo. Para além dos números, a sua escrita foi uma forma de contornar também as duas mãos tamancos que possuo e me tornam imprestável nos trabalhos manuais. Mas hoje, de máquina em punho, também isso foi corrigido e fico apenas com um único motivo para escrever.

Dois, se quero ser justo, Um deles sou eu, realizando-me por intermédio desta expressão, procurando respostas e indagando, chegando até a amar com palavras, se tal é possível, fazer delas carícias à distâncias, beijos gráficos e explícitos, a declaração máxima e transparente de um vulcão que treme na sua insegurança; a outra é quem lê e quem procura, quem espera por mais de mim, quem pára porque tem uns minutos, quem se mostra curioso e num exercício de voeyeurismo, espreita as minhas cortinas e tosse com o pó. É para esses que, de quando em vez, decido não lidar com a realidade de frente e opto por uma rotunda em forma de teclado. Escrever é muito isto também: inventar qualquer coisa pela qual vale a pena acordar no dia seguinte e simplesmente tornar-me numa espécie de alquimista das minhas imperfeições. O que lêem aqui é sempre a minha versão da pedra filosofal: bruta como só as pedras, mas com aquele bocadinho de esperança de quem transforma o seu chumbo em ouro e julga que está para durar.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

A minha casa


Sou o produto de dois pais que se esfalfaram a trabalhar desde cedo, acabando eu por provar que as maçãs podem cair bem longe da árvore, e por isso cresci mimado por algo que o meu colega de escola da cidade nunca soube o que era: uma casa com vários andares, ou como o planeamento urbano gosta de chamar, uma vivenda. Rés-de-chão, primeiro andar e sótão, assim ordenados. O meu pai demorou três anos a construí-la, com a ajuda de amigos e alguns profissionais, mas sempre ouvi histórias das obras e do esforço que ele fez para conseguir um dia estar defronte dela, inteira, com a sensação de projecto cumprido. Por isso, desde que não me lembro que vivo aqui. Nunca fui uma criança que saísse muito de casa, mesmo vivendo na aldeia. Os meus amigos de infância contavam histórias de assaltos a pomares e corridas na linha de comboio, espalhos de bicicleta e saltos destemidos no poço do Almegue, mas sempre me agarrei a livros e brinquedos, a olhar para o tecto do meu quarto, a explorar a minha casa em recantos e pormenores. Lembro-me bem dela antes de ser do que é, azulejos que já não moram, alcatifas que deram em tacos, o meu quarto como já não existe, paredes azul-claras, mobiliário de placas de madeira, os meus brinquedos alinhados como se fossem soldados na defesa da minha criancice. A memória de tudo isto é também uma casa, tem a sua morada na minha cabeça.

Uma casa tem o seu ritmo e a sua respiração, a sua vida. Desde a adolescência que mantenho uma lista das pequenas derivas que fazem destas paredes e betão uma pessoa, os pormenores e os sons que funcionam em mim e são hábito. A gravidade profunda dos pés que sobem os degraus de mármore da minha escada exterior, o fogo mantido do velho esquentador na cozinha, a sofreguidão das torneiras exteriores - velhas e soltas, qualquer toque um pretexto para soltar um rio - a impossibilidade progressiva que tem sido fechar uma porta pelos constantes defeitos das mesmas, abrir a porta exterior da cozinha com tosse engasgada, um sótão cheio de tralha que durante tanto tempo pareceu assombrado a uma criança, a banheira antiga com a sua ferrugem visível, as manchas de humidade irrevogáveis, as estatuetas de Guardas Fiscais na sala do andar de cima, a porta do meio do armário do meu segundo quarto que só fecha com chave girada, o reboliço na loja quando mais do que uma pessoa caminha, a minha cama que range ainda que ninguém se deite em cima, o reflexo da luz quando penetra nas frinchas do meu estore e reflecte numa cómoda com espelho oposta criando a sensação de não ter paredes, o tilintar dos talheres na cozinha do rés-do-chão anunciando que a comida está quase pronta... É um álbum completo, com lados A e B, e em 34 anos que puxo, pensei que não havia segredos entre nós, entre dois produtos dos meus pais, entre mim e o meu irmão mais velho de cimento e tijolo.

No entanto, a surpresa não pede licença, nem se anuncia com antecedência. Enquanto tomava um duche, há uns dias, sentindo a água quente amolecer-me a carne ao ponto do filet mignon, os meus olhos cruzam-se com a janela da minha casa de banho, um rectângulo pequeno que dá para a casa do meu vizinho e, obliquamente, me permite observar a linha do horizonte. Passava das seis da tarde, não sei precisar melhor, e porque os hábitos são tiques da teimosia, a música disfarçava-se por entre a água, porque desde há vinte anos, é-me impensável fazer a minha higiene sem acompanhamento sonoro. É a minha maneira de ser adulto. Einaudi tocava "Primavera" e enquanto penso em fantasmas e assombrações que sempre me agarram nesses momentos, e nessa semana com a força do que crava unhas, sou cegado por uma luz. Enquanto os meus olhos se habituam, o meu cérebro rapidamente sabe que é o sol e abrindo a janela, vejo a estrela que nos acompanha a submergir no mar fictício lá longe. As nuvens ocultam-no, mas o hidrogénio queima mais forte, mostra-se e marca presença e de repente as pedras da muralha caem, o pouco que há de adulto soçobra e a mesma criança que cresceu fascinada com um imenso mundo de três andares exclama: consigo ver o pôr do sol enquanto tomo banho. É algo de praia, mesmo, como se Ceira fossem as Caraíbas. Ceiraíbas, portanto. Com Einaudi, a hidromassagem garantida, a minha mente perdida em divagações, a leve vertigem da vida que se questiona, um corpo que se entrega ao acaso, é mágico, inesperado e consigo ver no que é familiar a pequena surpresa do encanto mágico da descoberta. Recordo outros pormenores da casa, transitórios, pormenores de amores e beijos na intimidade do meu quarto, tão bálsamo quanto a água tépida, tão quentes quanto o sol, tão enfeitiçados quanto os meus olhos. Fazem também parte de uma casa, como se o amor pudesse ser uma outra camada de realidade, de existência, uma casa dentro de uma casa, e aquele pôr-do-sol me lembrasse que nada está escrito e fechado, que há mais por descobrir até naquilo que se pensa repassado.

Seco-me com a toalha, já o sol sumiu, mas não todas estas memórias. Memórias da D e da L e de outras letras, memórias de sorrir em criança e chorar em adulto, de ver nascer o meu irmão e morrer o meu pai, de sentir que tudo passa como água por um ralo, que pelos canos é colocada algures num reservatório, daí para um rio e se renova num ciclo aquático. Como se a minha casa fosse corpo presente, espírito ausente, mas ambos em permanência; e perto do dia dos Namorados, enamoro-me da minha morada e para mim está tudo bem: o amor é, para mim, o tempo que se aplica naquilo que se gosta e a minha casa está comigo desde que eu era apenas amor em células. Um beijo em cada parede é pouco.

terça-feira, janeiro 24, 2017

Passeios



Abri a porta e saí de casa para comprar leite. O céu cinzentão, metálico mas com a fluidez do vapor de nuvens tapava-me e num conselho sinalizado a todas as luzes que se sentem com o instinto, indicava-me que era má ideia; saí na mesma, farto de estar entre quatro paredes e de apenas encontrar como  réplica o silêncio sólido de um tecto. Não sei se acontece convosco, se o pensamento é como um cavalo dentro de um redil que, quando salta a borda, não se cansa tanto e consegue até esticar-se, alongar-se, perpetuar-se em movimento, mas há alturas em que sinto essa inclinação de libertar essas corridas infindáveis que a minha mente proclama em mim. Não há tempo mais nebuloso senão o do espírito revolto, nenhuma tempestade mais arrasadora do que a ruminação de uma suspeita, da certeza de um prognóstico que se senta no nosso colo sem nunca demover o seu peso. A passada larga debaixo da chuva miúda era uma fuga, mas também uma divagação maior: o meu corpo e a minha cabeça colavam-se num reflexo, e algures nas minhas pernas, prolongamentos de mim coladas ao solo, o que pensava movia-me.

A minha morada é numa cidade pequena, macilenta, construída de ocasião. Não tem mais de duzentos anos, acho, aqui há uns meses, quando aqui cheguei para trabalhar num banco, dirigi-me ao museu municipal, uma pobre desculpa para dar trabalho a uma tipografia local e a alguns amigos do presidente da câmara, embora alguns sejam de facto competentes e interessados e vejam no seu local, na sua cidade, uma razão para se excederem. Aí, aprendi que a cidade surgira porque o comboio precisava de uma estação a meio caminho entre duas maiores vizinhas e aquele era o meio caminho. A cidade não era ponto de chegada ou de partira e sinceramente, nem o sentia como ponto de passagem. Era apenas um ponto, mesmo e tantas vezes sentia-o final, reticente que estivesse em admiti-lo a quem me rodeava. Passear por entre prédios sem identidade apenas me fazia pensar no quanto queria ser como eles e apagar-me e quando virei a esquina para a praça principal, onde passei simplesmente para ver outra gente que não eu, quis encontrar-me, mas tive a certeza de me ter perdido alguns metros atrás, quando deixei de pensar em mim e passei simplesmente a não ser. Um obelisco no meio da praça dava datas e factos, letras que não fixei; num café com esplanada, um empregado de mesa fechava os grandes guarda-sol inadequados para a sua função: não chovia, mas molhava e em mim, uma torrente maior podia desabar, levar tudo. Estaquei e contei pela primeira vez tudo o que via: ao lado do café, uma loja de meias, de todas as cores e tamanhos, mas o feito invariável; uma caixa multibanco apagada e seca e velha; comércio antigo, chamam-lhe tradicional, mas pelas montras via gente de todo o tipo, velhos e novos, alguns com brio, outros simplesmente à espera do tempo que chega e nem se dá ao trabalho de saudar; e num canto, meio perdida no meio de tudo, uma pequena mercearia. A minha ideia era ir ao supermercado, mas estava ali, talvez porque o obelisco me obrigasse a render ao local, e porque não aviar-me num pequeno espaço onde me sentiria menos pequeno, menos multidão?

À entrada, caixotes de frutas e legumes apresentavam-se com preços em pedaços de caixotes de cartão, rabiscados a lápis de carvão, mas puxando em ânsia pela nossa atenção. As maçãs, vermelhas e brilhantes, chamaram-me a atenção, mas apenas queria leite. fui recebido por uma senhora quase tão velha quanto a preocupação dos Homens, desenvolta e cheia de genica, com uma cara que desfila o novelo das histórias sem precisar sequer de sorrir. Esteve a reparar a mim todo o tempo e segurava já uma saca de plástico para as maçãs. "Já não leva?" e só acenei que não, que não levava, não estava para isso, mas insistiu e disse "Muita vitamina, não se arrepende e são bem boas, daqui de perto, garanto-lhe que sem um químico ou bicho, comi uma ao lanche e veja se não estou de pé!", e pensei no quanto aquela velha sofrera ou penara na vida e ela notou o meu ar e riscou-me logo uma linha cá dentro, quando disse "Veja lá se precisa também de um copinho, que está com cara de quem se vai enfiar pela boca dentro e sumir!". Estaria eu a ser tão óbvio? Seria ela uma daquelas videntes de que falam os nossos próprios velhos quando nos queiram assustar em crianças. "Mas diga lá o que quer; não esteja mudo e quedo!". Pedi dois pacotes de leite e ela fez um compasso de espera de alguns segundos, insistente, com um anzol bem colocado e eu acrescentei mais meio quilo de maças, das vermelhas. "Sim senhora, o Inverno está aí e a maçãzinha tem muita vitamina, torna uma pessoa rija e saudável. Olhe bem para mim!" E se calhar era isso, comer uma maçã resolvia problemas, e nem tive a coragem de me armar em pretensioso e sacar de uma piada sobre Adão e Eva, até porque não me largava uma impressão marcada de que aquela velha era mais velho do que a própria velhice e podia mesmo apresentar-se como testemunha desses factos.

Saco na minha mão, dinheiro na palma dela e estava para sair quando ela me abordou num passo miudinho. "Tome lá, não anda com boa cara" e era um punhado de rebuçados do Dr. Bayard, "O doutor que mais cura pode ajudá-lo" e com um sorriso, enviou-me de regresso à chuva miudinha, àquela largo sem identidade, àquela cidade que me embalava na morrinha do torpor. Não me senti a pessoa mais solitária do mundo, no entanto; quando trinquei uma das maçãs, ácida e consistente, julguei ver em mim algo mais do que simplesmente pensamentos que correm como cavalos ou um céu cinzento que fustiga e se abate. Vi vermelho, cor de sangue, mas cor acima de tudo. Imaginei como aquela maçã desceria em mim, me alimentaria, enviaria tudo o mais às minhas células e que o espírito, acima da matéria, prende-se dentro de um corpo e com ele luta e que o meu espírito não devia estar fora da cidade, mas ali. Quando fiz voltá-lo, a maçã estava toda comida e a mensagem enviada. Já em casa, não olhei a parede: televisão ligada e o "Casablanca" estava a dar na televisão. O início de uma bela amizade comigo mesmo.