terça-feira, junho 04, 2013

Parklife


Quatro acordes. Foi o que necessitei para explodir de vez e sair de mim mesmo durante dois minutos e pouco, comungando dessa demência colectiva com um grupo de gente que saltava como se tivesse molas em vez de carpos e falanges. Graham Coxon deu cora ao meu relógio, e de repente parecia um coelhinho da Duracell, abraçado a três espanholas, bradando uma só vogal que se espalhava pelo parque da cidade do Porto até aos ouvidos de quem trabalhava na refinaria àquela hora. Tinha sido já uma experiência catártica e transcendentes, a espaços celestes, que vivera na hora e meia anterior. Mas aqueles dois minutos, dois agitados, abençoados e libertadores minutos, alimentavam a fornalha da minha vontade há anos. A minha cabeça, eterna prisioneira, sempre encontrou em "Song 2" a solução para se desembrulhar, para fugir na fuga da fugida de dois minutos que concentram assim tudo aquilo pelo qual vale a pena pular e dar cabo do nosso bem estar físico em prol de um som que nos controla qual homem das marionetas.

Os Blur têm nessa canção um marco musical comparável à Nona de Beethoven, ao "Peer Gynt" de Grieg ou à "Yesterday" dos Beatles. Ficará para sempre como o nosso património musical e emocional. Não consigo explicar porque gosto de Blur. Sei a razão de viver fascinado pelo trio de Oakland que Billie Joe Armstrong lidera entre um e outro acesso etílico, mas os muchachos do Essex entraram pela minha vida sem eu dar licença, mantendo-se à força da sua música do caraças. Há um génio particular na criação bluriana, que mistura um estilo popular com o gosto pessoal de perseguir sonoridades diferentes, e inovar. Passada a fase Britpop (um céu e inferno particulares, condensados em dois anos), os álbuns dos Blur são sempre diferentes, e procurando novos planaltos musicais: no álbum homónimo, o rock indie norte-americano destilado pelo quarteto britânico; "13" é a experimentação com trezentos mil sons, num cut/paste que resulta no mais sensível e genuíno álbum da carreira; e em "Think tank" explora-se a world music, enquanto Albarn reflecte o seu próprio percurso pessoal, sem a oposição de um ausente Coxon, nos Gorillaz. Um percurso que me tornou não só fã, mas também uma pessoa com melhor gosto musical e a necessidade de um dia poder agradecer, em gritos e esperneios, o que aqueles quatro me tinham dado.

E foi assim que se uma andorinha não faz uma primavera, milhares de hipsters podem compor uma, e florir ali para os lados de Matosinhos em adoração àquelas bandas obscuras e artistas esquecidos que compõem a sua personalidade irónica e desgarrada. Eu mal queria saber disso: sabia ao que vinha. Fui sozinho, em peregrinação, de mochila às costas e pernas destreinadas. Mas fui; e esperei as horas que eram necessárias. Esperei para ver raparigas e rapazes entregues à cena pop, como se não houvesse outra alternativa. Depois de "Beetlebum", senti-me dessincronizado com o mundo, embora confiasse que as minhas não Adidas me fizessem chegar ao céu de caramelo onde me poderia acertar novamente. Não houve pausas para beber café ou ver televisão: a ternura entre o público e o quarteto, onde Alex James era epítome de coolness e Dave Rowntree o baterista com a fiabilidade do caseiro de uma casa de campo, nos fazia sonhar que naquele parque, podíamos passar toda a uma vida. Mas tudo tem um fim, até mesmo os séculos. Foi uma tristeza vê-lo desaparecer debaixo da passagem que se estendia por cima do palco, mas o seu regresso provou que haverá sempre um amanhã, universal, onde gritamos woo woo e voltamos onde comecei: quatro acordes. O mundo explode, dezasseis anos têm finalmente alguma justiça e eu sinto na boca algo de parecido com felicidade. Não é bem o mesmo, mas o borrão nos meus olhos é muito parecido com lágrimas. Obrigado Damon, Graham, Alex e Dave.

quarta-feira, maio 29, 2013

Sociopatia




A ala de oncologia de um hospital foi criada para ser a sala de aula do curso de sociopata. Quando entramos e olhamos a sala de espera, é obrigatório fazer crescer em nós uma distância emocional em relação à miséria. As cadeiras estão cheias de pessoas em diversas fases de tratamento, e vemos desde indivíduos com a saúde suficiente para se sentirem quase invencíveis e optimistas, até espécies de árvores encarquilhadas, ainda não velhas, mas conhecendo que a sua folha está caduca, e o Outono dará lugar a um Inverno de descontentamento de quem as amam. É como se uma súcubo cruel passeasse pela divisão, dando beijos de morte a toda a gente. Alguns, sortudos, levam apenas com chochos leves, deixando apenas um leve travo a acre e amoníaco. Um punhado tem o azar de ser vitima do linguado mais desagradável de todos, que revira não apenas a boca, mas todo o corpo numa convulsão que apaga o brilho que há nos olhos e a dignidade última que é podermos estar erguidos pelos nossos próprios meios.

Podia ser só isto. Mas no caso dos HUC, o edifício de oncologia tem dois andares adicionais.

A visita ao intermédio prolonga esse sentimento de biasma, onde já nem se consegue sentir medo, que é um primo muito afastado da esperança, em grau zero. Existe resignação, e espera, e ainda assim o espaço para a incerteza que as situações extremas ainda têm. Existe uma gigantesca clarabóia que dá a ilusão de não estarmos dentro do que seja, mas sim num elísio espaço, com uns toldos e cadeiras, como se fosse a esplanada onde alunos de um mesmo curso se reúne nos intervalos das aulas. As conversas parecem de adolescentes: fala-se de Radio, de como correm os testes de Quimio e das novas tecnologias da TAC, um novo Ipod que coloca o som realmente dentro do cérebro. No entanto, tal como a clarabóia, serve apenas para disfarçar o desconforto, um faz de conta requintado e misericordioso. É um acordo de cavalheiros entre colegas da mesma canalhice, ao compreender que não se pode estar ali a falar Daquilo a toda a hora e a todo dia, mesmo que seja Daquilo, a partir do momento em que o mundo lhes cai em cima, que todos os dias e todas as horas se vão preencher a partir de então. Tenta-se fugir Daquilo, mas dos outros que sabem Daquilo, porque só vão conseguir falar Daquilo e de nada mais, à tonelada.

Assisto a isso todos os dias; e assisto com a desconfortável sensação de saber mais sobre o real estado Daquilo do que quem tem de carregá-lo. Vejo sorrisos de abençoada ignorância, quando me apetece cair por dentro e desfazer-me. Felizmente, como disse ao início, a ala de oncologia cria sociopatas. Ou, no meu caso, reforça-os. Se nunca ninguém fez uma defesa da falta de empatia como uma dádiva social, serei eu o primeiro. É tão ou mais útil do que o seu oposto, quanto mais não seja porque nos permite ser nós mesmos, completos, em situações que claramente nos ultrapassam em curvas. Só podia, porque se a vida fosse uma recta, não chocávamos tantas vezes.

terça-feira, maio 28, 2013

O real escreve-se também com frases


Amanhã vou escrever uma carta que nunca vais ler, porque sempre acho que não tinha carta branca para que fizesse parte dos teus hoje. Vais estar na ponta da minha caneta, no fim dos pensamentos, no meio da página. Mas essa totalidade vai ficar entre mim e a minha vergonha. Porquê? Porque sou egoísta, e isso é uma boa forma de nos salvarmos quando a perdição está em nos darmos assim, de um todo logo, completamente faseado.

sábado, maio 25, 2013

Frases inúteis: 5º versículo


A tua cara pode bem ser uma fonte ou uma campa. A sede é a mesma.

sábado, maio 04, 2013

O amor mais que perfeito é aquele que não existe: 8 frases



Sentada na rocha, pareces uma sereia com um o canto da perdição mudo nos teus cabelos. É apropriado que queira ser o marinheiro a viajar nessas ondas, mas tento não cair novamente em redemoinhos, ainda por cima no topo de um monte. Se te voltas e sorris, não estou mais perdido do que encontrado, mas ainda assim tens o bom senso de manter o olhar longe da minha fraqueza. É em piloto automático que me sento a ver até onde consigo estar longe, sem aproximar a minha distância da proximidade que quero ter da segurança do que está longe. São horas, digo. Horas de quê? De acertar o meu relógio. Levantas-te e o teu sorriso é o basta para me desacertar os lapsos de tempo num compasso cujo maestro é a arritmia.

Frases inúteis: 4º versículo



Tu, a monção de censura, acabaste de chumbar o estado do meu orçamento emocional para este ano.

Um pequeno apontamento acerca da estupidez


Todos têm defeitos que os descabelam, e um dos que me coloca possesso é a estupidez; e aqui, quando falo de estupidez, é da voluntária e orgulhosa: o indivíduo que é idiota puramente burgesso e labrego de discurso e ideias, e ainda assim tem a mania de que sabe coisas e melhor ainda, deve ser escutado e respeitado. Estou a fazer esta separação, porque quero ser justo para com aqueles que, mais simples, não sabem mais porque não podem. Porque a vida não lhes foi simpática, ou então porque não querem e vivem bem assim, respeitando as suas limitações, mas mantendo uma curiosidade saudável pelo mundo. Há quem lhe chame sabedoria popular ou simplicidade, mas eu prefiro tratar isso como saúde mental. Afinal, se não formos curiosos, resta-nos pouco como seres humanos, e como gente. 

Tenho defendido nos últimos meses que uma guerra à inteligência tem existido de há uns anos para cá. Não apenas nas altas esferas, como se gosta de pensar quando dedos apontam a governantes e testas de ferro, mas no cidadão comum. Tudo aquilo que possa ser considerado um pensamento complexo é encarado como "teorias", dito desdenhosamente como se fosse sarna a coçar e desparasitar o mais rápido possível para não chatear. Alguém que gosta de ler é um parvalhão que merece ser insultado na rua, e qualquer coisa de semelhante a raciocínio articulado leva com bocejos e aquele ar de quem acabou de sair da cama pela manhã. Mas depois, chovem queixas acerca do estado das coisas, no molhado das redes sociais, das mesas de café e no tête à tête das ruas. Não queremos ser chateados pelo pensamento, mas depois, exigimo-lo naquele que elegemos, porque, claro está, nós temos: os outros não. Coitados deles. Se aparece alguém que se mostra capaz de falar um pouco mais a sério, e de forma capaz, o rótulo da arrogância aparece com rapidez. É verdade que entre um arrogante estulto e outro versado não há grande diferença de atitude; há no entanto na realidade, que costuma ter, espanto um preconceito contra a incompetência.

Nem me quero referir às grandes batalhas que se travam entre Iluminismo vs Obscurantismo, num cenário que retrocede até aos século XVIII nalguns aspectos. Nem quero, inclusive, defender um castelo científico ao qual já apontei defeitos por várias ocasiões. Dirijo-me apenas à inteligência pura de cada um de nós: acordai. Se querem um país melhor, aprendam a pensar. não desprezem livros e letras, tenham curiosidade. Falam crescer espírito crítico. Não aceitem aquilo que vos põe à frente, nem mesmo que venha com o rótulo do Facebook. Aceitem opiniões alheias, conversem argumentando e não insultando, deixem que outras ideias passem por vós, quanto mais não seja para reforçarem as vossas estruturadamente. Não se entreguem à estupidez, por favor. Porque o que é demais, farta.

domingo, abril 28, 2013

Frases inúteis: versículo 3



Só gosto do amor passageiro na certeza de que és a condutora

Frases inúteis, versículo 2


Vou parar de dizer o teu nome repetidamente, ou morro de diabetes

Frases inúteis: 1º versículo


Não há anjos a voar quando olhas o céu. Simplesmente desvanecem-se quando se apercebem que te amam mais do que a Deus.

segunda-feira, março 25, 2013

Dolce droga


A propósito da descoberta de "Una mattina", há quase sete anos e meios, escrevi o seguinte acerca desse álbum: "A música é leve, e Einaudi parece tocar piano com a mesma gentileza que eu gostava que me lavassem o cabelo". No espaço de tempo em que coloquei o ponto final deste post  escrevi este, esse Einaudi, que é também Ludovico, tornou-se num dos maiores accionistas de tudo o que se passa na minha mente, e no que seja que congela as minhas emoções e as deixa expostas ao sol, de quando em vez, para me derreterem. No sobe e desce da minha cotação, do meu próprio índice, é ele o factor que evita crashes definitivos e me permite, uma e outra vez, voltar ao positivo, em vez de continuar no vermelho durante longos meses de uma economia de mercado em queda livre. Há uma relação de união siamesa entre a minha capacidade de renovar o meu humor e as cordas de piano que ele martela e estica ao ponto de me esticar também a mim até à varanda de uma qualquer paisagem que só existe no segredo que a sua musica partilha comigo.

A manhã transformou-se no amanhã, e num livro nocturno que num lapso de tempo lembrou uma onda, em dias de espuma, que rebenta num quarto fora deste mundo. As mãos de Einaudi deixam de tocar um piano, e passam a carregar nos meus botões. O pianista italiano é o meu quadro eléctrico: desliga os curto-circuitos dentro da minha cabeça, e carrega em alta voltagem aquilo que de criativo brota dela, permitindo-me equilibrar-me numa fina linha de desequilíbrio controlado. Não posso exagerar a importância de Ludovico para o meu bem-estar pessoal. Se uma pessoa pode ser uma pauta, ele desenha em mim boa parte das minhas notas, e em períodos muito negros foi mais do que um psicólogo. Bem sei que é costume retratar a importância da música em termos hiperbólicos, mas não aqui. Sem Ludovico, eu seria certamente um destroço humano mais acentuado; e por isso, vê-lo ao vivo era uma obrigação, em que falhei duas vezes, porque ainda que ele me torne um ser humano mais completo, não faz de mim uma pessoa mais corajosa para vencer os meus pequenos medos picuinhas, que me rebaixam e me aprisionam. Em 2013, venci-os, finalmente, e peregrinei, em direcção à cidade do Porto, para me sentar num auditório e deixar que o italiano fizesse de mim o que ele quisesse.

Ele fez. Tudo o que eu consenti, e mesmo aquilo que, em resistência, apenas cedi porque nunca deixaria de ser eu. Na música de Einaudi, descubro aquilo que escondo até de mim mesmo, e numa composição que voa, saltei para um pequeno lago de água salgada que produzi em golpes de vista catrapiscada. Foi uma experiência que a palavra "magnífica" apenas pode traduzir em sombras baças para os não-iniciados. Mas aqueles que, como eu, fazem de Einaudi um refúgio e uma fonte de prazer quase invisível, inefável, sabem do que falo. Em duas horas, saí deste mundo, e passei algum tempo (um lapso, até) fora daqui, num lugar onde viver é algo que pouco tem a ver com a sobrevivência, e a melhor das existências possíveis é uma só, sem qualquer vislumbre do que possa ser pior. Porque não existe. Pode conseguir-se isto com música e por num tempo em que nos querem reduzir a números, e a importância dos nossos gostos, escolhas e actos a aritmética económica, lembrarmos de que há momentos e actos que simbolizam a nossa divindade interior é mais importante do que nunca. Encontrar-me em Einaudi lembra-me disso, que ser agnóstico é precisamente o que me define como crente: o sentido é aquilo em que acreditamos, nada mais. Tudo o resto são ideias impostas; e nada disso está em Einaudi. Nele, encontramos o que quisermos, o que acreditamos e em pequeninos momentos, até aquilo que somos. Ludovico não é um génio musical, mas a sua música é uma lâmpada mágica onde cabem os desejos mais importantes do mundos: os nossos.

No final, os aplausos. Foi uma paga simbólica. Nunca na vida poderíamos devolver o que Ludovico Einaudi nos tinha dado, com a sua orquestra. Sorrimos todos uns para os outros, e nem nos conhecíamos. O pianista italiano sorriu-nos também. Agradeceu com uma timidez exuberante, e desapareceu do palco com os seus realizadores de sonhos. Naquele momento, estava eu, e não o outro eu. Podia ter dito tudo o que me ia na alma, se as pessoas certas ali estivessem. Em silêncio, fechei-me e guardei com aconchego as memórias daquele par de horas. Vão para aquele local especial onde guardo os sorrisos da minha avó, os jogos de futebol com molas aos 8 anos, o meu primeiro beijo dentro de um carro e uma pequena meia hora onde fiz um pão com alguém que podia caber na composição de Einaudi "Bye bye, mon amour". Há lá mais coisas. Mas as que disse, como a música de Einaudi, partilho-as com os meus amigos. As restantes, são minhas, e vão continuar a compor-me durante o resto da minha vida. Um pouco como os passeios no teclado de um certo italiano.

sábado, março 16, 2013

Período de reflexão


A pensar se vá ou não vá. Se for, já sei que vai ser aos trambolhões, e a tocar música saariana em xilofone ósseo com os queixos.

sexta-feira, março 15, 2013

Palermices em torno de infantilidades emocionais




Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.

                          Luís de Camões



Para um zarolho, a sua vista alcançava o que dez mil olhos não vêem toda uma vida. Os meus, pelo menos, só vêem isto de quando em vez, e fazem-se de cegos às visões claras da luz que, ironia, me cega. Jogar no escuro, e saltar à corda desfiada em traços brancos, jogando às escondidas a apanhar macaquinhos, chineses porque distantes. A distância é a da poesia que se aproxima do que sentimos e somos, para nos deixar entrever por debaixo da pala o que ignoramos.
Mas enquanto levarmos tudo na brincadeira, está visto que é da melhor criancice.

quinta-feira, março 14, 2013

O que é uma palavra



O novo século trouxe uma multiplicidade admirável de novos elementos que enriquecem as nossas vidas. No entanto, em companhia paralela, soltou igualmente na nossa existência mínimas alterações que, na sua pequenez, viram ao contrário algumas das nossas construções mentais. A bastardização de alguns termos é apenas uma releitura dessas mesmas alterações, dando de barato conceitos que já foram exclusivos ou pelo menos restritos, e agora se vêem invadidos por falsos ídolos e enganadores camaleões que se fazem passar por eles. Duas delas, que me irritam particularmente, são as palavras nerd e "génio".

A sério que me irrita o (ab)uso da primeira. Um qualquer indivíduo que viu todos os filmes da saga "Star wars" chama a si esse título, porque o paradigma dos últimos anos mudou: hoje, ser nerd é algo bem fixe, até porque a própria significação da palavra mudou. Basta alguém saber meia dúzia de tangas sobre um assunto mais obscuro e pimbas, é nerd. Ou geek, que é uma coisa diferente... É passar em lojas de informática ou telemóveis, e há lá um "Ponto Nerd" ou "Canto do Geek" ou algo semelhante. Há um aproveitamento comercial em redor do que é se "nerd", que apenas acontece porque se convencionou que nerd é cool. Não é. Por definição, não pode ser. Parte do encanto de ser nerd reside na falta de aptidões sociais e dificuldade de enturmar que apenas advém de muito tempo passado em casa a obcecar com objectos de pop culture ou erudição. Ser nerd é, por exemplo, não ir a um encontro com uma miúda porque na noite em que ela marcou isso contigo, dá um episódio de "The X-files" e por acaso, a Internet ainda é uma coisa da pré-história, e tu não tens video porque só apanhas a TVI na casa do forno da tua avó, e se perdes o episódio, corres o risco de nunca mais voltar a ver. Usando uma história que, obviamente nunca se passou comigo. Vocês sabem que não. Gostar de "The big bang theory" não faz de vocês nerds; mas ter lido livros de Carl Sagan ou Stephen Hawking sobre o assunto e com gosto, isso sim, já vos pode trazer algum bem. Como em tudo, para sê-lo, é preciso trabalho, dedicação e saber que a perda de virgindade não tem, de facto, um timing, e que andam miúdas lá fora, mas livros e filmes são objectos de devoção e dissecação que estragarão a vossa vida social, mas vos tornarão, a longo prazo, pessoas mais interessantes para quem realmente se deve interessar: vocês mesmos.

"Génio" atingiu também uma banalização que me aflige. Devia ser das palavras a ser usada com mais tempero, e no entanto, quão facilmente é brandida num jorro instantâneo de fascínio. Qualquer boa satisfação nos faz dizer de alguém que é um génio; uma simples piada que nos provoque uma risada faz-nos sair essa palavra; e surgem, assim em moldes de hipérbole, nomes que ganham contornos míticos e exagerados. Dei já como exemplo aqui, há uns anos, Quentin Tarantino e a sua mania de fazer mash-ups com filmes. A quantidade de vezes que lhe é colado o rótulo de genial é já o suficiente para se tornar num adjectivo automático quando se gosta de um filme do texano. Ora, para melhor se comparar e ter a distinção do que é ser genial, nada como numa semana nos embrenharmos na cabeça de um outro realizador cuja complexidade e valor da obra deita a de Tarantino por terra e cujo nome, colocada na mesma frase com este, só pode ter como motivo uma diferenciação cabal da habilidade de ambos: Stanley Kubrick. Ver "The shining", "Eyes wide shut", "Full Metal Jacket" e "2001 - a space odissey" na mesma semana é não só perceber a vastidão de inteligência e ideias que existe entre ambos (e outros supostos génios que todos os anos são brandidos nos escaparates), como pedir uma espécie de desintoxicação de cinema durante uns dias, pois ficamos tão habituados ao gosto de picanha argentina que mudar para bifes de pá só pode dar mau resultado no paladar e no sistema digestivo. Um Génio é alguém cuja obra permanece isolada, inalcançável, intemporal, que nos desafia completamente a pensar e a ver o mundo de uma maneira diferente, e desperta em nós 380 sóis a explodir, apenas para entendermos que fomos apanhados no respectivos buracos negros de fascínio no resquício da experiência.

Tarantino, não o nego, é bom, nerd. Mas comparado com Kubrick, como disse alguém, é um berlinde; e daqueles que nem têm muitas cores por dentro.

sexta-feira, março 01, 2013

Pipocas avinagradas



Para além de um tratado sobre o umbiguismo do mais alto calibre, onde as flutuações de humor entre deprimido e macambúzio desempenham papel que não é meramente decorativo, este blog tem revelado, ao caminhar em direcção ao seu oitavo ano de existência, a preferência por combater o falso moralismo e o politicamente correcto sempre que a oportunidade surge. Essa motivação já levou a que tudo levasse por tabela, desde sindicatos, protestantes, polícias, os Jogos Olímpicos de Pequim, supostos amigos dos animais, homens, mulheres, populistas e demagogos, entre outros. Muitos seres humanos, e até Miguel Sousa Tavares já por cá arroxou. Separados, são todos interessantes na sua matreirice, mas em conjunto, formam um grupo que em nada desmerece a Operação Gladio italiana no que toca a cinismo, se bem que fiquem a milhas na utilização ponderada da inteligência, nobre dádiva que nos dá tanto quanto exige.

"A pipoca mais doce", um blog que é o mais lido de Portugal (o que já de si diz bastante das prioridades e interesses daqueles que o criticaram há uns dias), tem vindo a ser sujeito a insultos inflamados, porque a senhora que o escreve, e comenta moda, fez, admiração, comentários de moda a uma menina, não sabendo na altura que esta era uma doente oncológica.  Não tendo acompanho em tempo real o comentário da nossa menina de milho frito aos gostos fashion da noite, presumo que quando deitou abaixo a indumentária de Anne Hathaway (não sei se o fez, mas qualquer cidadão decente e com opinião devia tê-lo feito), ninguém se terá erguido com o vigor da fúria que só a indignação ferve nos nossos punhos. Aposto que riram, ou abanaram a cabeça em caso de discórdia; mas um par de comentários a uma rapariga doente chegam para começar nas estações de "Moda é fútil" e acabar nos apeadeiros de "Que falta de respeito pelo ser humano!". Ora, estas pessoas estão a ler um blog de moda, logo não me parece que a questão de superioridade moral se coloque; e mesmo que só tenham apanhado a notícia mais tarde no Facebook, passaram os olhos e começaram a chamar nomes, o que também é muito pouco fofo quando se quer ter razão e marcar uma posição moralista. Suponhamos que se descobre amanhã que Passos Coelho tem cancro: quem andou a chamar-lhe nome deve sentir-se culpado? Não. Porque estar doente não dá direito a um passe contra críticas. E julgar que dá é ser paternalista e condescendente e o raio que o parta. Uma blogger de moda fala sobre moda... Nada mais. Se é esse o seu gosto, e o que a move, seja. A miúda estava vestida pindericamente? Não sei; mas por estar doente, merece-nos mais respeito do que alguém com saúde? Na minha opinião, não, porque isso é começar a colocar humanos em escalas diferentes, e já se sabe que quase todas as ideologias estranhas começam assim: quem merece estar acima e abaixo da linha. O quê, é uma questão de bom senso? Ler coisas no Facebook e fazer delas um palanque para parecer melhor humano?

Há uns tempos, uma outra blogger de moda criou celeuma por afirmar querer muito uma mala Channel. Não interessava que ela reiterasse que o modo de atingir este objectivo era trabalhando e poupando (ou seja, como deve ser): interessa é atirar lama. Apontar o dedo, falar mal, rebaixar alguém e subir na nossa conta usando isso. Se é horrível criticar a roupa de uma adolescente com cancro, usar essa situação para falarmos num megafone e fingir que somos melhores do que outros é algo de baixo e mostra como o Facebook é realmente uma rede social: pega na experiência mais pura de bairro, a maledicência, e amplia-a a uma escala que jamais foi vista em toda a história da espécie humana. O pior disto tudo, e o mais irónico, é que cada vez mais é moda.

P.S: De muito mais pideriquices se poderia falar: da atenção que a imprensa está a dar um assunto que é fait-divers de Internet; do processo que Sofia Alves que mover à senhora da Pipoca, que levará à primeira discussão no campo de Direito sobre o que é ter estilo ou não; ou do que transforma a própria blogger em alguém cujo gosto em roupa é tão infalível que a torna numa personalidade nacional. Mas tudo isso são pormenores acessórios, que vão escapando pelas frestas do chão: o que interessa é o fogo de artifício, o folclore e a fachada. Afinal, aquilo que é a moda e o seu pequeno mundinho.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Ao gosto


A terceira faixa do novo "In a time lapse" de Ludovico, o Einaudi, leva o nome de "Life", mas assina-se como bem mais do que uma palavra. Arranca-me pela raiz desde os primeiros acordes e as suas notas carregam por mim acima como uma manada de elefantes que decidiu não deixar em pé qualquer embondeiro da savana. Tudo em quatro minutos e vinte e três, concentrados no portento que é querer chorar e não saber. Mesmo com o meu MP3 num cemitério onde já erigi demasiadas lápides em louvor da minha falta de jeito, a cavalgada musical não me saía da cabeça encostada no lugar do Expresso, cabeça essa que por acaso me pertence, a caminho de Braga. Porquê? Porque quando viajo, é normalmente isso que sinto. Não vivo de um síndrome de permanente insatisfação com o lugar em que me encontro; mas penso que a rotina pesada é inimiga do conhecimento, e mesmo dar saltos no escuro, e no longe, não corresponda à minha natureza, cumprimento-me de cada vez que saio do casulo e bato as asas um pouco mais longe. O ar é um dos meus melhores conselheiros quando diferente; e é sempre diferente, nas cambiantes da luz e da satisfação. Quando o acto necessário de respirar nos enche as medidas, algo de estranho, e bom se passa.

Descubro em Braga que as amizades nunca são o que parecem. Não são construções de tempo lineares, e aplicam-se-lhes as mesmas regras da teoria da Relatividade de Einstein: é possível voltar atrás e colocar o presente no passado para descobrir alguns trilhos em direcção ao futuro. É tão simples aquilo que a simpatia pode fazer crescer em alguém, e o quanto é preciso vermo-nos de fora através de desconhecidos para percebermos que raio de ferrugem encrava os mecanismos com que tentamos construir a simples e bela deriva de conhecer pessoas e esperar se feliz assim. Talvez seja uma ilusão pensá-lo, e sei que quando fujo a mim mesmo, ao meu instinto, e me iludo, a coisa nunca corre bem. Mas de vez em quando, é necessário arriscar um estalo sonante para perceber quando confiar em nós e evitar levar outro. Aprendi-o há uns meses, reforcei-o agora. No geral, o género humano é confuso, metido em si e amedrontado, para além de levar muitas vezes longe de mais o acto de não emitir emoções e sentimentos (sei bem, pertenço-lhe). Mas no particular, há casos onde a única dor que podemos arrancar é a de sentar e esperar que passe, em vez de calcar com os pés um chão onde não há areias movediças, apenas a solidez com que construímos alguma certeza, pouca que seja, para correr ao nosso lado. Ou subir escadas até ao Bom Jesus.

Tudo num lapso de tempo. É o que temos, é que se passeia, é que nos pousa sobre a cabeça e faz pesar os momentos; e também o que torna as viagens de Expresso a parte decididamente menos transcendente de uma viagem. Einaudi devia ter também uma composição sobre isso.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

A expressão, antes da liberdade



Não consigo pôr de lado a minha opinião de que Miguel Relvas representa um tipo de decadência cínica. A culpa não é inteiramente dele: como país, ajudámos a construir e a aceitar, com a nossa passividade e o mau trato que damos à inteligência, estes ciborgues que se instalam no sistema nervoso central do sistema que nos governa. No entanto, o que direi a seguir é algo puramente de lógica e de raciocínio, baseado numa crença de que embora o mundo e os valores não sejam inteiramente subjectivos, como alguns relativistas algo idiotas querem fazer crer, há mesmo situações que são caleidoscópios à espera da perspectiva correcta.

Uma amiga minha defende que cantar durante o discurso de um político não lhe cerceia a liberdade de expressão, e está certa. Por natureza da profissão, um político terá sempre um exercício desse direito superior ao meu, por exemplo, que muito raramente na vida de tive um microfone à frente, e nunca para me dirigir a um potencial auditório de centenas de milhar para exprimir aquilo que realmente penso acerca do estado de país. Relvas e eu estamos no mesmo patamar no que toca a liberdade (embora isto seja discutível), mas no que toca à expressão, vai uma distância como daqui ao Brunei. É por isso que não consigo entender em que é que aqueles cidadãos que para lá foram usar "Grândoa, vila morena" com o uso que Zeca Afonso intentou afectaram a liberdade de Miguel Relvas. Este, no final, deve ter dobrado a folha de papel e regressou ao carro apenas melindrado por ter apanhado, surpresa, cidadãos descontentes com as suas argoladas constantes e reocupados com a situação de sobrevivência em que, na generalidade, se transformou a vida de quem continua a ser cidadão no próprio país. Se amanhã lhe abrirem o microfone nalguma reunião do PSD, ou conferência no Hotel Sheraton de cinco estrelas, ou numa comissão parlamentar, as palavras continuam lá, serão ditas e manter-se-ão iguais a tantas outras que ele já disse. Não é que eu seja muito mais original, mas tenho ao meu serviço apenas o Facebook e este canto onde só passo de vez em quando, e o meu público é muito restrito, na medida em que se quantifica nas poucas pessoas que me vão querendo ouvir. Na verdade, quem protestou fez um favor a todos: se há coisa que normalmente irrita, é a repetição, excepto quando usada por motivos artísticos, e se bem que Relvas seja um artista, não é um daqueles a que queiramos assistir.

Já que estou a falar sobre política, não posso deixar também de notar como a oposição é, de facto, das piores coisas da Democracia quando,como hoje, a política deixou de ter o monopólio da inteligência. É também por aqui, pela quantidade de labregos e energúmenos que ocupam cargos de relevo que a noção de Serviço Público se expõe a crítica facilitistas quando comparada com o Serviço Privado. A constante exigência de demissões, de forma a precipitar novo sufrágio, sem apresentar qualquer ideia ou conceito estruturado acerca da resolução da crise, e a falta de coragem de assumir ideias que fracturem realmente (quando já se viu que depois de Irlanda e Grécia, Portugal será nova vítima do fenómeno "Falhou nas outras, mas nesta tenho a certeza que fazemos o mesmo e dá!"), de ser criativo, cria em mim o tipo de dúvidas que até agora estavam reservadas às parvoíces internas da minha mente. Liberdade de expressão, dada a quem não tem grande coisa relevante a exprimir.

E depois, perguntam-me por que sou pessimista.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: sete frases


Regrido aos sete anos quando tenho de te falar. Ao longe, ao perto, é queima-roupa, mesmo que me faça sentir nu. Nem precisas de me olhar, pois eu próprio não sou cego ao que me trava. Sento-me e espero que passe, mas um pensamento de cordas feito amarra-me à cadeira, e eu deixo. É estranho como posso gostar de ti, e no entanto não gostar de gostar de ti enquanto desgosto de mim mesmo. Gostar (d)e ter medo. Preencho-me de sustos e torno-me num fantasma.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

(Delírios à noite)


Ora, quando estamos sossegadinhos no nosso canto, a existência, que assume as feições de um jocoso anão endiabrado, lança-nos de Ford Escort Boston por entre estradas e caminhos onde apenas os máximos conseguem enxergar alguma solução. Ainda por cima, o meu não tem os faróis em conformidade com as consistência do breu desde há muitos anos, e conduzir à noite acaba por se transformar num exercício com duas consequências: aumentar a minha hipermetropia e conseguir presenciar, por momentos, um best of dos melhores momentos que Stevie Wonder vê num palco, quando toca ao vivo.

Propuseram-me que escrevesse uma peça. Depois outra. Ficámo-nos por um test-drive de quinze minutos depois de conferenciar com as calendas de Roma, para ver no que dá. Se alguma vez escrevi peças de teatro? Claro, no 9º ano, quando adaptei o "Auto da Barca do Inferno" em verso livre(mente manhoso) para uma peça de zero espectadores. De nada vale dizer isto à remetente da encomenda, que diz ter grandes esperanças para a empreitada. As Calendas mostraram-se mais comedidas, mas igualmente dispostas a esbofetearem-me se não aproveitar a oportunidade. Interessa tentar, claro. Mesmo que me espalhe em grande... Viver é uma sugestão de espalhos até aprendermos a andar sem escorregar. Disse-me alguém, acho. Mas posso estar enganado. com tantos remetentes.

No entretanto, um outro projecto mantém um espaço da minha mente na peugada de José Cid, dez mil anos depois entre Vénus e Marte, e com direito a passagem na Dimensão Alternativa? Qual? Não sei, mas certamente uma onde uma obscura área que criei numa adolescência deprimente me possibilita ocupar algum tempo e alguma cabeça, se bem que ainda não a carteira. O Boss, figura das entrelinhas, diz-me que pode ir longe. Eu encolho os ombros e continuo a pesquisar e a escrever. Na televisão, figuras políticas incentivam ao empreendedorismo. O Boss empreende e eu prendo-me à ideia de que posso fazer disto algo de bom, de novo e de significativo. Um pouco como D. Miguel, rei abolutista, deve ter pensado quando lhe sugeriram armar as Guerras Liberais.

Como a minha cabeça adora puzzles em catadupa, achou que devia mudar a sua natureza. Parva. Até parece que não me conhece e não lidou com esta catadupa de reviengas durante a trintena de anos que demorei a construir quase nada. Insensato, estou a ponderar dar-lhe ouvidos. Criar e aceitar oportunidads. Pessoas de bem dizem que me querem ver feliz. Talvez seja mais fácil, assim sendo, a parte do ver do que a que me toca. Assim como assim, se tiver que tocar, que seja boa música. Ao menos, criam-se melodias que ficam, e que até aos surdos trazem prazer. Pelo menos, foi o que escutei algures, dentro da minha cabeça


terça-feira, fevereiro 05, 2013

Duas pequeninas linhas


Está na hora de fugir à própria fuga, e investir. Investir em acções de bolsa cheia de vontade. Quanto mais não seja, porque com mais dor, chega menos palha a este blog.

sábado, janeiro 26, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: seis frases


Descasca-me as camadas, corta-as e ignoras-as. No teu colo, deita a minha cabeça e barra-a com o calor das tuas mãos. Mergulha os teus dedos por entre o meu cabelo e sorri com o corpo. Separa os meus cambiantes, invisíveis mas ao teu alcance, e peneira as minhas inseguranças até restar apenas a minha certeza em ti. Mistura-te bem comigo, aquece-me com o o vapor que os teus lábios transformam em cola e transforma-me. Estou pronto a ser servido derretido.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: cinco frases


A caneta percorre o papel como eu gostava que os meus dedos desenhassem suspiros na pele que te reveste o brilho. Fixo na folha pequenas taquicardias que nunca aparecerão nos exames. De vez em quando, paro e tento acertar-me, mas deixas-me sempre errado. O pior é que me convenço de que estou certo, e que erro quando guardo os papéis na gaveta. É a minha vida, num papel químico estragado.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: quatro fases


O relojoeiro deu-lhe corda e explicou que só começaria a trabalhar quando chegasse a hora. A hora de quê? De ele trabalhar. Saí da loja, e vi-te cinco minutos depois: o meu coração fez tique-taque.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Os "amigos" do amigo



A tolice pode originar fenómenos fascinantes. Nesta perspectiva, o princípio de "Vox Populi" é um dos fenómenos mais fascinantes de todos. Em grande ou pequena escala, a regra "a maioria decidiu, é o melhor" tem redundado em decisões incompreensíveis ou, a longo prazo idiotas. Podia citar um caso recente, que conduziu à confirmação daquele velho lema "BAS" (Vítor Hugo, onde quer que estejas... RTM), mas prefiro chamar a atenção um outro mais geral e que se senta agora nu cadeirão em S. Bento, a manipular os destinos do nosso país.

Nada contra a democracia, aliás. É o sistema de governação mais justo, se bem que pode ser dobrado, pois conta com a participação geral. No então, não se pode classificar a democracia de "inteligente", porque se baseia no nosso comportamento (e, em raros momentos, na nossa inteligência). Nem precisamos de ir às urnas para confirmar este facto: as redes sociais onde passamos uma boa parte do nosso tempo e gastamos bastante energia intelectual atestam-no. O caso particular que me tem despertado a atenção é o do Zico, um cão alentejano (que, pelo que leio, é mais simpático e imaculado do que a irmã Maria de "The sound of music"). Leio na diagonal textos de "amigos dos animais", gente que defende, no que escreve, que um animal pode ser equiparado a um ser humano, e que por isso Zico não deve ser abatido. Não está escrito, mas fica subentendido que Zico deve também receber miminhos e um prato com Pedigree Pal.

Esta gente é idiota que dói. Convém revelar, antes que estereótipos sejam brandidos, que fui o orgulhoso dono de um cão durante oito anos. Esse cão morreu há três meses e meio. Nesse espaço, não consegui pegar nas minhas mãos para escrever sobre ele ou sobre o facto. Gostava realmente dele, e lamento não ter feito suficientes coisas por ele e com ele.Ainda me dói lembrar-me da morte em forma canina nos meus braços, e vislumbrar-lhe nos olhos, momentos antes, essa certeza de que a vida tinha posto travão e nada mais havia a fazer. Partilhar esse momento esmurrou-me lágrimas dos olhos, mas fez-me entender melhor o que passa pelo ânimo de um cão. Logo, eu não odeio animais. Não posso. Adorava o meu cão, uma criatura idiota que lambia a sujidade e preferia a chuva à protecção de um telheiro. Uma coisa que tive sempre presente na minha relação com o bicho é que estávamos em patamares muito diferentes: ele é uma criatura pura de instintos, eu um ser que recebi uma educação que me permite dominar esses instintos quando estes representam um perigo para mim ou para os outros. Um animal não é uma propriedade ou um objecto; e por muito que nos apeteça, às vezes, não é um escape para as nossas frustrações emocionais. É imprevisível e pleno de natureza. Ter um animal é um risco, precisamente por isto: porque não somos iguais. Nós podemos ser responsabilizados, eles não. O meu cão mordeu-me, várias vezes, e arranhou-me. Ninguém cá em casa o treinou para ser feroz: é a sua natureza. Tolice é pensarmos que podemos contorná-la ou desligá-la apenas porque nos relacionamos com eles. A beleza de ter um animal é podermos ler nele e nas suas reacções o que quisermos. Pensarmos que sorriem e que se dispõem a amar-nos, quando o laço que nos une é um pouco mais complexo do que isso. Os animais estão connosco numa relação de dependência e confiança. Por um caso de extrema fidelidade canina, há noventa e nove de que ninguém fala de cães que foram à sua vida.

Não acho que o Zico mereça ser abatido. Mas daí a torná-lo um mártir ou fazer dele uma criatura inofensiva que nunca morderia ninguém é apenas uma ilusão em que vive uma série de gente que acha que humanos e animais são irmãos e vivem neste planeta em igualdade. Pensar isto não é ser amigos dos animais: é um exercício de animismo perigoso, falso e que quando repetido muitas vezes, se torna numa verdade que é difícil abanar. Os "amigos dos animais" têm razão, se calhar: animais e humanos estão em níveis diferentes; mas se calhar, não todos os humanos; e principalmente, não da maneira como estes "amigos" me querem pregar,

sábado, janeiro 05, 2013

O amor perfeito é aquele que não existe: três frases


A minha natureza é inerte. É por isso que amar-te me coloca em vias de extinção. Protege a minha espécie.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Uma moedinha no meio dos olhos




A cidade moderna como exemplo de decadência é um cliché deprimente da arte moderna. Seja em "Blade Runner" ou "Se7en", a visão das nossas urbes surge contaminada por um mal-estar semelhante ao provocado pela visita a um balneário masculino que não é lavado há uma semana. O motivo apresentado, por regra, é a desumanização que a vida nas cidades provoca no ser humano. Parvos intelectuais. A razão é muitíssimo mais simples e é simbolizada por uma criatura que vagueia entre nós, mais perigosa do que um terrorista muçulmano, mais irritante que a criança nascida da união entre o Quimbé e o Nuno Eiró, mais sebosa do Jorge "Jabba, the Hut" de Brito: o arrumador de carros.

Nuca escondi o meu ódio particular a esta espécie de criatura. A palavra "ódio" não é hipérbole, pois dentro das minhas entranhas, misturam-se sucos gástricos e mentais que produzem o arreganhar de dentes típico de quem não pode ver determinada pessoa, coisa ou ameba à frente. Conduzir é, por acaso, algo que me relaxa. Adoro meter-me num carro, colocar música a tocar e conduzir, nem que seja para aviar uns recadinhos aqui perto. No entanto, quando, preparando-me para atracar o veículo, me deparo com uma dessas criaturas, a onda zen esbate-se no areal e dá lugar a caranguejos que me apertam o cérebro. Podem dizer que tenho problemas com homens de aspecto oleoso, mas não acontece isso. De facto, se me aparecer à porta um desses indivíduos a representar uma associação de não sei quê que recupera toxicodependentes, lido com eles com calma e pose. Posso não lhes dar dinheiro algum (porque desconfio de quase toda a gente que, não me conhecendo, me bate ao portão e me quer falar sobre droga), mas permaneço a menos de um metro e dispenso atenção. Corrigindo, eles roubam-me a atenção. Mas é por uma boa causa: por dois minutos, pareço humano.

O meu problema com o arrumador é o mesmo que tenho com mafiosos: são criaturas que se movem em franjas da sociedade onde a lei existe, mas se finge que não. Quando paira sobre nós a ameaça de danos materiais no veículo que tanto estimamos, caso não paguemos a moedinha costumeia, isso tem um nome: extorsão. Aliás, estamos a pagar o quê? A minha mãe dotou-me de dois olhos para encontrar o lugar que essa criatura das trevas me aponta! A moeda premeia a familiaridade com que o arrumador me berra à distância "Hei" como se fôssemos amigos? Não percebo bem. Nem sei quem se lembrou de cobrar às pessoas por absolutamente nada, a não ser o não cumprimento de uma ameaça nunca exprimida, sempre subentendida. É o que esquema perfeito: não podemos ir à polícia queixar-nos, porque não há nada a queixar.

Se estes tipos, em vez de arrumar carros, estivessem nua juventude partidária, o país seria desmantelado a um ritmo impressionan

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Pedido pungente que não envolve crianças, animais ou doenças terminais


É muito difícil de explicar um acesso de inferioridade, mas como toda a gente (tirando Mourinho, os filhos de Tony Carreira e Madonna) teve pelo menos um, presumo que percebam um pouco do que me apoquenta. Talvez não totalmente, eu nunca percebi muito bem de onde me vem isto ou o que o causa. Mas existe e tenho de lidar com ele. Não me é difícil admitir que tenho este problema. Quem lida e lidou comigo sabe quantas vezes me queixo disso, ao ponto de me tornar numa companhia pouco agradável. No entanto, só me apercebi do quão incapacitante e profundo este estado se tornou neste ano. Não houve um momento específico, um lapso de tempo ou momento de claridade turva que me indicasse que estou perto do fundo. Mas olhei e vi a falta de prazer que tenho em actividades e gostos de que desfrutava com largueza e autoridade, considerando como certa a minha personalidade baseada nesses pilares. Mas hoje, duvido. Duvido de mim bem para lá da capacidade: duvido até mesmo na existência e naquilo que me constrói e me edifica. Pior ainda: aproxima-se a semana do ano que mais me custa. O que peço neste pequeno texto é que tenham paciência. Tentem compreender e mostrem mais humanidade do que aquela que vos demonstro. Um bocadinho, pelo menos. Ajudem-me a ultrapassar estes sete dias e chegar a 2 de Janeiro pelo menos na mesma condição em que me encontro nesta noite de 23 de Dezembro. Eu agradeço-vos, de uma maneira ou de outra. Talvez a escrever, que ainda é das poucas maneiras com que alegro a populaça desse lado. Um obrigado de antemão.

Não se preocupem demasiado. Amanhã, deixarei aqui um apontamento sobre arrumadores de carros e verão que continuo intratável como sempre.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

O amor perfeito é aquele que não existe: duas frases


Sento-me, olho-te, desvio-me e evito. Por fim, aceito e temo e entrego-me e fujo, para voltar só porque regressar é a melhor parte de gostar.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

O amor perfeito é aquele que não existe: uma frase


Pego nas tuas palavras, faço a minha cama e deito-me numa almofada em forma de faz de conta.

quinta-feira, novembro 29, 2012

Hipermetropia



Já não é de agora que considero a disciplina de voto algo que vai contra qualquer tipo de comportamento democrático básico. Não é mais do que um conjunto de pequenas ditaduras, politizadas, que controlam as acções dos seus membros através da chantagem. O que está em jogo, para estes deputados, é o seu futuro na próxima legislatura; e num país como o nosso, que cria colónias extensas de homens e mulheres com uma espinha dorsal mais maleável do que plasticina, não é admirar que prefiram garantir a sua sobrevivência a cumprir o dever para que foram eleitos pelas populações. Que diabo, muitos de nós reclamam, mas fariam o mesmo. Da maneira como este clima de medo pelo futuro está instalado, ter opções para o futuro é um luxo a que só não se agarra quem é burro, ou em princípios. Esta estratégia não é mito diferente do pendor corporativista não oficial do Estado Novo: garantem-se favores a pessoas que nos favoreçam a politica e economicamente e mantém-se o status quo desejado, por muito que prejudique a população em geral.

O Orçamento de Estado de 2013 marca um momento interessante na democracia portuguesa: ninguém, a não ser 10 marretas no Governo, parece concordar com ele. A Oposição manifesta-se ruidosamente, o PS transfigura-se para Oposição só para poder protestar com aparente legitimidade e os deputados do PSD E CDS-PP aparecem melindrados, dizendo que é necessários rever algumas medias. No entanto, o máximo que conseguem reunir na sua revolta é uma carta com uma dúzia de chavões inofensivos que soa aos gritos desesperados daquelas crianças que fazem birra, mas sabem que vão comer sopa na mesma. Passa peça cabeça de alguém que não se concorde com algo que se vai aprovar? Aparentemente sim, e considera-se normal. Pedro Passos Coelho negou enfaticamente, numa entrevista que houvesse cisões na coligação, assoberbando que se tal coisa existisse, o CDS-PP não teria votado afirmativamente na proposta orçamental. O cinismo arrepia, porque até o Zé Tolas que só cumpriu a 4ª classe e cujo único Marx que conhece tem como primeiro nome Richard, reconhece as movimentações que serpenteiam no lusitano directório. Se antes tudo passava despercebido, agora só quem é verdadeiramente sagaz consegue criar uma capa fina de distracções; e Passos Coelho é mais óbvio do que uma boa de macadame num campo de algodão.

Nada que importune o primeiro-ministro. Com um braço-direito que representa o papel de Tom Hagen na família Corleone, embora sem a pinta de Robert Duvall, trucida escândalos atrás de escândalo, asneira atrás de asneira, com a confiança que só pode ser devida a um ego inchado como um balão de ego. Auto-confiança e governação não se anulam numa boa governação. Alguns dos nossos reis mais proeminentes tinham um ego que reduziria qualquer elemento masculino da "Casa dos Segredos" a um elemento de decoração, mas temperavam isso com bons conselheiros e uma capacidade de compromisso. É verdade que D. Afonso Henriques correu a mourama à espadeirada, mas quando pôde, resolveu a conquista de cidades pela via diplomática, permitindo a coexistência entre muçulmanos e cristãos (e muitas vezes judeus) no espaço da mesma cidade, com regras exigentes, mas direitos para as várias religiões; D. Dinis permitiu a presença de proscritos religiosos no nosso país, através da formação de novas ordens, e muitas vezes contra a vontade de boa parte dos reis europeus, conseguindo com isso uma vantagem que se revelaria importante na época das Descobertas; D. João II era um homem implacável, mas sábio o suficiente para permitir a presença de ciências exteriores à Cristandade no seu seio, o que contribuiu para a nossa superioridade temporária na Europa. Estes três exemplos reconheceram o óbvio; há via para lá do seu umbigo e num mundo de bem, pretende-se que o bom senso seja um auxiliar importante de governação.  Passos Coelho que não acredita nessas coisas: usa Vítor Gaspar como o seu conselheiro e tudo aquilo que delineou em plano bem antes de ser eleito como primeiro-ministro é feito em seu nome, e de uma entidade obscura que nega num dia o que disse noutro.

Estamos bem arranjados. Até porque não acredito no governo do povo como o mais justo. Não acredito na capacidade de decisão de uma entidade múltipla que revelou ao longo da História o bom senso de eleger Hitler, de apoiar Pol Pot e de carregar aos ombros Tony Carreira ao pedestal do estrelato. Ficamos com quê? O vazio; mas mesmo esse, calculo, corre o risco de virar paraíso fiscal. 

quinta-feira, novembro 22, 2012

É por, ahm, ali


Nunca me deu para pensar nos trinta anos, e continuo a achar algo ridículo que se faça dessa idade um ponto de crise existencial profunda. No entanto, é um facto que foi poucos dias depois de ter ultrapassado essa marca de idade que se me aflorou a destruidora vontade de reflectir sobre o meu rumo. Foi um acto de idiotice superlativa, pois claro, pois quando se é neurótico na escala em que actuo, essa simples dúvida precipita semanas de sofrimento atroz apenas comparável ao dengue na Madeira. Para um neurótico, uma dúvida não é apenas uma lacuna de conhecimento: cria uma manada de gnus cegos a cavalgar pela nossa mente, em círculos, a pensar que um gato doméstico toma proporções de leão feroz.

Não é que a pergunta seja de pouca monta: qual o meu rumo? Neste momento, sou honesto e afirmo que desconheço por completo. Cheguei a um ponto de total desmotivação pela vida que orgulharia o Clube de Niilismo de Bremen, pois não lhe encontro qualquer sentido, nem qualquer objectivo. Acredito que somos nós que orientamos o nosso percurso de vivência, que críamos os objectivos e que as nossas lutas para cumpri-los, entretecidas, formam aquele tapete aladinesco a que vamos chamando vida. No entanto, os retalhos da minha vida não existem. Não consigo criá-los, porque simplesmente não me apetece. Tomara que fosse algo de pontual; infelizmente, espalhou-se para todos os campos da minha vida. Dou por mim a perder orgulho naquilo que fazia de mim Bruno, e a sentir a fuga dos talentos que me faziam pensar que não era vulgar. Ou seja, estou a perder-me, e àquilo que considerava eu.

Ora, a partir do momento em que nos perdemos, como é que nos julgamos capazes de encontrar o resto? É aqui que a minha reflexão pára. Por isso, estou disposto a voltar a mim, seja o que isso for. A reler-me, a descrever-me, a descobrir-me. Nada de reinvenções, que são uma treta. Apenas parar e olhar-me. Não será bonito, mas aplicando uma regressa básica do engate, às vezes, para se conseguir a miúda bonita, é preciso passar algum tempo com a amiga feia. Era nesta altura que pessoas com menos classe fariam um trocadilho com uma das minhas alcunhas de infância. No entanto, este é um recanto onde a classe é tão necessária quanto um esfregão de palha de aço nas virilhas.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Razões




Depois de tirar o veneno, é isto; e até mais. Mas o mais está distante. No entanto, foi para isso que nasci com pés.

Be drunken
Always. That's the point.
Nothing else matters; If you would not feel the horrible burden of Time weigh you down and crush you to the Earth,
Be drunken, continually.
Drunken with what?
With wine, with poetry, or with virtue as you please.
but Be drunken.
And if sometimes on the steps of a palace or on the green grass in a ditch or in the dreary solitude of your own room
You should awaken and find the drunkenness half or entirely gone
Ask of the wind ,of the wave, of the star of the bird, of the clock of all that flies, of all that sighs, of all that moves, of all that sings, of all that speaks, Ask what hour it is, and wind, wave, star, bird or clock will answer you,

"It is the hour to be drunken
Be drunken if you would not be the martyred slaves of Time.
Be drunken Continually, with wine, with poetry or with virtue, as you please."

Baudelaire

terça-feira, novembro 06, 2012

As cinzas da Angela



O meu pai tomou na sua vida, tenho a certeza, decisões questionáveis. Ter-me poderá ter sido uma delas, de acordo com um certo segmento de conhecidos e ex-amigos; mas comprar o Correio da Manhã aos domingos, de há uns anos para cá, é reveladora de um atroz mau gosto que nunca suspeitaria existir num homem que devota a uma Vespa azul clara clássica um amor terno e paternal, passeando-se por ela na ruas de Ceira como quem acha que é dono de um qualquer feudo.

Ao domingo, o jornal traz um suplemento revisteiro que, custa-me dizer, inclui por vezes artigos interessantes. Por muito sensacionalista que o diário jornalístico seja, o seu apêndice domingueiro tem o senso notável de chamar a si bons temas de reportagem e alguns cronistas que trazem qualidade ao jornal (João Pereira Coutinho, mesmo que seja um direitista reaccionário; Adolfo Luxúria Canibal, uma surpresa para quem pensa que os Mão Morta são os Cradle of Filth portugueses), embora haja nomes dispensáveis (Pacman já lá não está, mas ainda permitem a Joana Amaral Dias a triste ilusão de que percebe algo de cinema e pode escrever sobre o assunto). A edição desta semana trazia um curioso artigo onde se pedia a diversas figuras públicas (sim, porque sem as suas palavras sábias, a sociedade morreria... e a revista não venderia) para escrever o que diriam a Angela Merkel, que daqui por uma semana visitará este extremo da Europa. Pois claro que é um passe para gente que percebe bastante de barulho, e pouco de tudo o resto, dizer enormes barbaridades. São José Correia revela sapiência quando afirma que não quer dizer nada (quando não se sabe do que se fala, estar calado, o silêncio e o recolhimento são as maiores virtudes), Rui Reininho invectiva-a a ir a sítios sobre os quais ele próprio já escreveu musicalmente, e o asqueroso Mário Nogueira, um sindicalista em versão parasita, igual a muitos outros que a minha mãe descrevia à mesa quando era pequeno (e substituíram, no meu imaginário, o Papão) lembra a Merkel, com um gosto questionável, os juramentos de Nuremberga.

Bastam uns minutos de passeio pela avenida pública do Facebook para descobrir que nem Nogueira está sozinho na suas patetices  nem a articulação de três ideias diferentes parece estar na moda em Portugal desde, pelo menos, o início do século XX. A primeira-ministra alemã é comparada a Hitler e vestida de nazi variadas vezes, e as suas palavras e imagem distorcidas até um ponto que me parece ridículo, que é, aliás, uma palavra que vai descrevendo o nosso país em várias situações, à falta de uma mais meritória e agradável. Já várias vezes comentei a estupidez e perigo de se cruzarem situações actuais com os espectros do totalitarismo que têm muito pouco a ver com as mesmas. Em Portugal, não é novo. Salazar é tornado zombie quando convém, e o Estado Novo parece estar aí à esquina a cada medida impopular. Nos últimos anos, publicou-se também bastante literatura acerca do ditador de Santa Comba Dão, mas como o historiador António Araújo teve a oportunidade de comentar numa excelente entrevista que li há tempos, a maior parte é lixo e mostra-se incapaz de lidar correctamente com este período da nossa História. É, aliás, questionável que tenha ficado completamente no passado, mas porque, ao contrário do que pensamos, ele não desapareceu realmente. Merkel, como símbolo da nossas frustrações (cargo que vai passando de corpo em corpo conforme os boatos que circulam no Facebook) é vítima desta tendência, que ultrapassa o nosso país, e chegou até à Grécia, num conjunto de manifestações patetas e inquietantes no seu perigo.

Angela Merkel tem a culpa de duas coisas: ter eleições para o ano e ser alemã. Os alemães são, sem dúvida qualquer, o putativo vilão dos últimos cem anos europeus. A 1ª Grande Guerra foi-lhes imputada (falsamente) e na 2ª Guerra Mundial, vencem sem dificuldade o prémio estilo vilanesco e o de plano mais horrível para dominar o mundo. Desde 1945 que a Europa tem cobrado isso à Alemanha. Mesmo que, da França à Polónia, todos tenham dado uma mãozinha e ajudado o senhor Adolfo com gosto (principalmente quando se tratou de caçar e matar judeus), os alemães idealizaram o plano. Portanto, foram 60 anos a lembrar infâmias e a chantagear emocionalmente, e não só, um país a quem foi cortado tudo. Para a adesão à CEE, por exemplo, a França chegou a exigir que o seu vizinho germânico nunca deixasse o PIB interno superar o francês; e até muito recentemente, era expressamente proibido o rearmamento alemão. O país teve de pagar uma enorme dívida do primeiro grande conflito mundial, e ainda de reerguer-se dos escombros no segundo. Quando se fala que o plano Marshall a Alemanha e que ela deve a mesma benesse aos restantes países, é preciso não esquecer que esse mesmo plano ajudou todos os países europeus que o desejaram. A diferença é que num espaço muito curto, e partir de um quase zero, os alemães voltaram à sua posição natural de dominadores económicos da Europa e seu principal motor nesse campo. Eu não simpatizo particularmente com o carácter alemão, mas respeito-os muitíssimo. Eis uma nação que foi deitada completamente abaixo por duas vezes, passou crises económicas cataclísmicas, e regressou sempre. Quando voltou, e se notou que sem ela a Europa não passaria de uma miragem, abdicou da sua moeda (a mais poderosa do Continente) em prol de uma divisa única. A conjuntura do euro acabou por beneficiá-la de certas maneiras que prejudicam países mais pobres, mas se eu tivesse abdicado da minha estabilidade financeira, depois de décadas de trauma e trabalho duro, quereria ter alguma compensação que garantisse a durabilidade da minha economia. Mas lá está, não sou político em Portugal.

A Alemanha cometeu erros na sua gestão desta crise. Sim, porque ninguém se engana quanto a quem está realmente a dar ordens na UE. No entanto, foi ela quem, durante muitos anos, contribuiu para os cofres europeus com os fundos que se acabaram por desbaratar no sul da Europa e não só. Merkel sofre do problema de ter de ser, ao mesmo tempo, chanceler do seu próprio país e líder de um continente inteiro de maneira não oficial; e as posições são muitas vezes incompatíveis. Anda ela numa corda bamba, a tentar equilibrar ambos os interesses, sabendo que o seu próprio país está a entrar num endividamento preocupante (parte da culpa é das suas responsabilidades para com a UE) e que lhe querem passar a conta da crise na forma de Eurobonds, que dizem basicamente queum punhado cria dívida, mas ela é dividida por todos e não se fala mais nisso. A Alemanha precisa da Europa muito menos do que a Europa precisa da Alemanha.

Que me recorde, não foi Merkel quem criou, no pós 25 de Abril, as condições ideias para os monopólios visíveis e não visíveis que dominam e mirram a nossa economia; nem que desbaratou fundos comunitários como se não houvesse amanhã; nem que criou endividamento de forma preocupante; nem que falhou aposta atrás de aposta no nosso desenvolvimento económico; nem que culpa a Troika e elementos exteriores de medidas e politicas que destroem a nossa capacidade de desenvolvimento, e estão fora de qualquer memorando.

Quem quer lançar tomates a Merkel e a acusa de nazi e prepotente e arrogante está, de forma indirecta, a fazer uma certa desculpabilização da nossa portuguesa incompetente. Como noutras alturas da nossa História, a culpa é do outro: do mouro, de Castela, de Espanha, dos Franceses, dos Ingleses... Há sempre uma estátua gigante para onde podemos apontar e atirar os nossos demónios. Para que continuemos a ser os portugueses vítimas; e Merkel calha bem nesse papel: a sua cara até parece esculpida em granito.

terça-feira, outubro 30, 2012

Bobines e bobines e bobines



Ainda existe um estigma em ir ao cinema sozinho. Não conheço praticamente ninguém que não me revire os olhos quando afirmo, e sem qualquer tipo de constrangimento, de que gosto do acto de ir em solitário para o interior de uma sala de cinema. Penso que isso deve ao lado social do cinema, e à maneira como encaramos o mesmo mais como entretenimento do que como arte. Se afirmasse, por exemplo, que me queria sentar no Louve, a ver a Mona Lisa em total solidão ninguém estranharia. Afinal, é uma obra de arte. É pintura, certo? Se é pintura, é arte; o cinema é uma actividade que envolve pipocas e refrescos. O mais próximo que temos de comparação será um piquenique; e é sabido que a não ser que as mãos de Monet estejam envolvidas, um piquenique jamais será arte.

O solitário do cinema tem tudo contra si, a não ser que seja, de facto, um eremita cuja mente se formatou nos planaltos ermos da solidão. Ao cinema, vai-se em grupo. Pares de namorados, magotes de amigos, famílias.. A ida ao cinema é uma experiência comunal, e no entanto, lá vai ele, de certa maneira corajoso, sabendo que não vai simplesmente ver um filme: enfrentará, pois claro, os mesmos espectros que, de todas as maneiras, lhe escapam costumeiros.

Eu gosto de ir ao cinema só, honestamente. Na verdade, tenho descoberto que, tirando uma ou outra ocasião, até me permite analisar melhor o que estou a ver. Tenho uma tendência para me distrair que é lendária, no mesmo sentido em que o desequilíbrio de Alexandra Solnado é lendário, e ter alguém ao meu lado no cinema pode ser o começo de uma bela relação de amizade com a minha verborreia. Tenho gostosos mecanismos de raciocínio instalados na minha cabeça que me tornam um opinador razoavelmente bom; no entanto, também existem em mim outros mecanismos, de auto-sabotagem, que equilibram a balança e me impedem de ser o Kal-El de Ceira.

Reparem bem que comecei por falar em como se tornou infame ir ao cinema sozinho, e onde eu vim parar na torrente da conversa. O melhor é parar.

Ou daqui a pouco, ainda me ponho a discorrer sobre beterrabas.


segunda-feira, outubro 15, 2012

Cordeiros



Reli palavras que te escrevi há alguns meses, e não sei quando fui mais parvo: se na alturas em que as pus num papel, se no momento antes em devia ter sido concreto e achei que um caderno era a melhor forma de mostrar o fogo de artifício de chinês que me deixa a mente embicada quando te olho. Esperar é um trapézio, mas escrever é uma rede de segurança que torna longa a espera. Eterna, mesmo. As palavras não são um atalho, apenas uma longa rotunda que prolongam a circulação, com duas faixas, e cuja saída pode ser muito, muito perigosa pelo trânsito numeroso e persistente.
É mais confortável sentar-me e ler o que te queria dizer. O que pensei que te quis dizer, e o que guardei por adorar jogas às escondidas comigo mesmo. À espera que me marques.
Um dois três Bruno.
Mas continuo escondido. É da maneira que o jogo se prolonga.

sexta-feira, outubro 12, 2012

Acordo com o Diabo


Paulo Portas e a presença dos CDS-PP no Governo lembram-me a lenda sobre o acordo de Roger Bacon com o Diabo, onde em troca de vasto conhecimento científico, o segundo ficaria com a alma do primeiro, excepto se o corpo de Bacon não morresse nem no interior, nem no exterior de um mosteiro. Assim sendo, o monge e cientista inglês passou os últimos dias numa sala construída nas paredes do mosteiro onde professava. A esquizofrenia de Paul Portas é essa mesma sala da parede.

quinta-feira, setembro 27, 2012

"Breaking bad"



Até onde pode chegar um homem movido pelo desespero e pela frustração? A julgar por todo o arco narrativo de "Breaking bad", bem longe. Talvez até um ponto onde esse homem se descobre a si mesmo, na mais estranha das viagens de auto-iluminação que um professor de Química de uma pequena cidade norte-americana pode imaginar na sua vida banal, com uma família normalíssima e um quotidiano que é pouco mais do que trabalhar, ver televisão e beneficiar dos prazeres pequenos, que combatem as desilusões maiores que não se vêem. Como todas as iluminações de clarividência, há um momento charneira que tudo precipita, no caso deste homem a descoberta de um cancro potencialmente terminal. Ora, de modo a garantir a subsistência da família após a sua morte, um esquema surge: cozinhar anfetaminas, usando os seus conhecimentos de Química, e aliar-se a um ex-aluno que as trafica.

É este o mote para "Breaking bad", uma série sobre um caminho para o sonho americano traçado sem bússola, acima de tudo moral. É um percurso de um ponto A para outro ponto qualquer que não se sabe muito bem; e levando até ao limite a moralidade, permite descobrir de que matéria realmente são as pessoas feitas. Num jogo de escondidas consigo mesmo, Walter White, o professor de Química que se vê confrontado com uma escolha extrema, entra numa epopeia, à boa maneira dos herói antigos, em busca, acima de tudo, daquilo que acha que a vida lhe deve. A série, admirada acima de tudo como um thriller moral muito bem esgalhado e a coolness em pessoa, é acima de tudo sobre personagens que pensam que a vida lhes deveu algo durante anos. Seja a mulher de Walter, que por debaixo do seu disfarce de contente com pouco, anseia por outra realidade de conforto; o parceiro de Walter, Jesse Pinkman, deseja coisas que até agora não sabia que queria; e todos os restantes ou são meios ou obstáculos, nada mais.

Todo este percurso é traçado, narrativamente, desde a primeira temporada, com acontecimentos que ramificam uns dez ou vinte episódios mais à frente, sem esforço, mostrando o trabalho excelente efectuado pelos argumentistas da série, em particular Vince Gilligan. Gilligan ganhou proeminência com o seu prolífico trabalho em "The X-Files", tendo assinado alguns dos melhores episódios desta série, onde se podem reconhecer alguns temas e estilos de "Breaking Bad" ("Pusher"emula alguma da tensão cerrada presente no conflitos pessoais de "Breaking bad"; "Memento mori" traça a dor palpável que o cancro pode causar no mundo de alguém; "Monday" é um episódio rashomoniano, onde alguém ljuta uma e outra vez para impedir que a realidade tal como a conhece desabe) e embora as séries pareçam distantes, ambas partilham um gosto pelo imaginário de "americana". Por muito boa que seja a substância, tal como numa reacção química, ela só explode porque existe um catalisador. Se Aaron Paul, no papel de Pinkman, é excelente, e mesmo que mais à fente Giancarlo Esposito crie um memorável vilão em Gus Frings, esta série é do poderoso Bryan Cranston, um mosntro de representação que come a série toda, a digere e atira na nossa cara como uma bala poderosa: a maneira como compõe um Walter White monstruoso, mas terno; egocêntrico, mas dedicado à família; simples na sua ambição, mas complexo nos seus impulsos, é das melhores coisas que a televisão nos oferece. É um espectáculo à parte, e pouco mais há a dizer.

"Breaking bad" tem várias morais a retirar. A que deixo é: não deixem o desespero toldar a vossa vida. Principalmente quando o passado se quer alimentar do vosso futuro.

quinta-feira, setembro 20, 2012



Eu mereço mais do que me quero dar. Sou a pior pessoa a escolher prendas para mim mesmo. Devia haver um fim para os ciclos viciosos, que fazem do vício a única estrada para a felicidade que conhecemos.
Há mel nos favos; mas porque queremos ignorar os ferrões das abelhas, quando são mais do que a doçura que podemos obter?

Vou pensar nisto e já cá volto.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Poderes mágicos



Um sono eterno do Homem é tornar-se naquilo que impossivelmente será que se torne. É esse o apelo das histórias de heróis e de super-heróis, e uma distinção importante entre ambos. Enquanto que os primeiros são reconhecidamente normais, mas amplificados, os segundos são claramente anormais por possuir aquil que para nós reclamamos apenas em sonhos: voam, correm mais rápido do que a luz, são imortais, são indestrutíveis, têm uma força extraordinária. Na nossa visão, são mágicos. Isto porque dois séculos de cientismo nos colocaram na planície da normalidade e do nulo. Somos matéria, e a matéria, como é consabido, apenas é magica se estiver num reactor nuclear ou num bico de Bunsen.

Não podia discordar mais. Nós temos poderes mágicos, e não falo daquele que Paulo Coelho inventa para manter o cash flow constante. O maior deles é o de dar vida aos objectos. Não tento fazer entrar o animismo no mundo das coisas normais; apenas destaco que somos o único ser que consegue carregar os objectos que usa de personalidade. Se forem como eu, não-vivos que vos rodeiam têm a vossa memória, a vossa vida, os vossos pensamentos. De cada vez que os vêem ou tocam, sabem que pertencem claramente ao vosso mundinho que criaram dentro deste maior. Não consigo ser materialista nisto. Sou um verdadeiro sentimentalão, e guardo tralha, apenas porque foi importante para mim. Distingo-a e reconheço-a nas mínimas nódoas e amolgadelas, e lembro-me perfeitamente quando, onde e de que maneira causei o efeito dos seus defeitos.

Foi por isso que enfrentei com uma dor diferente da do meu pai, e da minha mãe, a notícia de que o meu irmão se espetara no Ford Escort Boston cá de casa.Este vetusto bólide, máquina de guerra que conduzo orgulhosamente por entre máquina de alta cilindrada se for preciso, foi o primeiro carro que conduzir. A sua aparente morte estragou-me o dia. Vivi aventuras com aquele carro que posso contar, e outras que nem por isso. Nos cinco anos que dei por mim a dirigir por entre o sítio mais perigoso do nosso país (a sua rede de estradas), foi este veículo a minha cara; o seu velho motor enrugou ainda mais com os meus maus-tratos, e outras rugas surgiram na sua carroçaria. Em cada uma delas, um erro, um pecado, um arrependimento, uma ruga em mim mesmo por pensar no que me aconteceria ao chegar a casa. Aquele carro é um verdadeiro sobrevivente, e um depósito de histórias, secretas ou não, que envolvem toda a gente cá de casa. Já todos bateram ou deram um toque com ele; e no entanto, qual imortal, lá regressa ele, pronto para mais um round, afastando com guinadas uma morte que se anuncia todos os anos, quando chega a data da inspecção. Ouve-se do juiz paterno "É desta que ele chumba", e nunca é.

Gosto de pensar que a máquina sabe que, por muitos outros carros que tenhamos comprado para substituí-lo, ele será a minha preferida, e o pronto-socorro quando as outras claudicam e falham. Aí, ele estará lá fora, estacionado. Foi lá que o encontrei, após ter escapado, garboso, a nova tentativa de assassinato. O motor ainda tosse de vez em quando, a embraiagem é o último nível do "Takeshi's castle", mas ele mexe, e avança. Sem a nossa vida, ele estava morto; mas se ele morresse, a nossa vida era menos vida e mais morte.  Parece estúpido, mas não consigo deixar de pensar nisto assim. É melhor do que julgar que qualquer coisa é facilmente descartável. Isso sim, é mais máquina do que gente.

segunda-feira, agosto 13, 2012

domingo, agosto 05, 2012

Produção Fictícia


Há uma ligação directa entre o teu sorriso e o meu coração a saltar batidas. O cardiograma não explica, mas a minha cabeça sabe bem do que se trata.