terça-feira, setembro 30, 2014
Setembro
O meu pai faria hoje 58 anos. Melhor, faz hoje. Coloco o meu pai no passado, mas apesar da marcha irrevogável do tempo, está em meu poder deixá-lo no presente. Muitas vezes esquecemos que não controlamos tudo, mas a nossa percepção é isso mesmo, nossa. Viver o ontem ainda hoje é uma escolha, e se bem que a prisão do passado é perpétua, não tem que se sempre má. Por isso, somo pequenos actos de rebelião. Quando visito o meu pai, falo com ele como se o encontrasse em casa, ou seja nada. Mas imagino-o a olhar de quando me vez, como se me visse saído de Marte, e a voltar a atenção novamente para algures que o confortasse mais com a realidade; e hoje mesmo, levei um pequeno bolo, com uma vela, e cantei-lhe os parabéns como se ainda estivesse ali para ouvi-los e começar a bater palmas desalmadamente a gozar, cantando fora de tom e de ritmo, só para desvalorizar uma data à qual, claramente, atribuo mais importância do que ele lha daria.
Eu sabia que Setembro seria o mês de todos os portentos. Para além de um aniversário eterno, os meus pais fazem anos de casados; o meu avô Carlos fez anos no primeiro dia do mês, e ainda em Agosto, mas celebrado invariavelmente no mês seguinte, a minha avô Lurdes também celebraria um aniversário. Começo a ter demasiada gente importante a concentrar-se em tão pouco tempo. Quem se ri é o Natal, que passa a ser, por comparação, muito menos deprimente. Quem vão não volta, mas o problema maior é que nunca sai, e não conseguimos esquecer quando queremos. São sombras, por vezes fugazes, e quanto mais o tempo passa, mais desaparecem os contornos e bem podemos estar certos da sua realidade enquanto gente, mas a dúvida é se aquilo que fica é o que era, ou simplesmente o que acreditamos e fixámos com tudo o que dizem e contam e como queremos recordar. Quando o tempo se dilui, sobra a nossa versão do que é real, e uma ponta de insegurança invade sempre as nossas histórias e memórias. Eu creio que estou certo, que o Vítor, o Carlos e a Lurdes são quem eu me lembrava, e que todas as histórias aconteceram como as escrevo e conto, e que quem parte é uma certeza, e não um fantasma, que por muito que ainda lembre o meu pai, que ainda nem sequer soube morrer, os meus avós também lá estão onde quero guardá-los, quando me tento localizar a mim mesmo, nesta procura da minha individualidade, da qual eles fazem parte, desde as molas ao cimo da escada às sestas na sala e ao colo da Lurdes. Isso também faz parte.
A melancolia vai preencher o vazio do meu pai durante algum tempo. O universo tem um horror ao vazio, e sendo o nosso coração um cosmos, é natural que o abomine também. Já não choro, embora esteja tentado em ocasiões, não só quando Setembro acaba, mas bem para lá disso. Naquele rectângulo, cabem flores e pedras; mas também caibo eu, acima de tudo. Não é só a melancolia que preenche o vazio, são as pessoas também; e não tendo eu, mesmo com a altura, espaço para tapar o contorno do meu pai, consigo ao menos que uma campa não seja só frio e tristeza: é também espaço para cantar os parabéns a quem não pode sobrar as velas, mas incendeia o meu interior.
segunda-feira, setembro 29, 2014
A deriva do universo
Quando uma pessoa decide voltar a ser duas, o mais difícil não é deixar o outro: é voltar a estar connosco. Nem se consegue ficar sozinho, porque parece que não está ninguém onde ficámos; procuramos sempre regressar a outrem quando, de facto, nem sequer existimos. Há um corpo, há uma ideia qualquer de nós, mas não acontecemos. Recuperar isso é a parte mais difícil de partir.Queremos ser adjectivos, mas eles são grandiloquentes e não nos servem de nada, porque as palavras só amam quando do outro lado as abraçam. Palavras que encontram ausência são vazias e não desejadas. Por isso, surge a necessidade de sentar, chorar e durante uns bons tempos, exprimir tudo o que queremos, tudo o que sentimos através de verbos. Na inacção, a acção é uma boa maneira de mostrar que algo mexe, e não estamos bem mortos; e se de facto não estamos mortos, existimos, e podemos partir à nossa procura.
Sinto-me assim. Não sei bem que sou, nem sequer em que ponto estou. Gostava de poder deixar palavras bonitas sobre reconstrução, sobre progresso, mas quanto mais escrevo e quanto mais sinto, mais encontro o meu coração em todos os lugares menos o esquerdo do peito, e a maior prova de demência é usar precisamente o coração como símbolo de tudo o que me levaram, quando devia estar a colocar-me nisso. Não me levaram tudo, mas o que me deixaram foi a incerteza de estar completo.Há dias que se passam melhores do que outros, e se não sentimos que arrancaram algo à mãozada, é porque não demos sequer o que devíamos. É o meu único consolo: queria provar que era capaz de amar alguém, e consegui fazê-lo. O problema é que só eu é que reparei: do outro lado, silêncio, e partida; e fiquei eu, com tudo metido numa mochila e com guia de marcha depois ser atingido por um míssil teleguiado e os estilhaços sumirem na sua pequenez anã de lágrima vazia. Recolhê-los demora tempo, porque muitos não estão mais. Amar outra pessoa é basicamente uma desconstrução, e cada lego desmontado é uma certeza que não se voltará a colocar na ordem certa. Volta-se de uma relação com outra estrutura, e muito diferente de quando entrámos. Isto se alguma vez voltarmos de todo. Muitos permanecem numa nuvem qualquer, porque querem ficar o mais parto do céu que conhecem. Quem aí mora não sabe que se atravessar a nuvem encontra as estrelas, e nessa espera, torna-se num buraco negro que acaba até por sugar o céu estrelado, fazendo-o desaparecer.
Nesta nave espacial que é o blog, sinto-me em órbita de mim mesmo. Cada frase é uma tentativa de me alcançar e descobrir. Cada ponto final encerra uma ideia que abre três, e sinto como se estivesse a fazer a minha própria psicanálise através dos olhos de alguém doente. O diagnóstico ainda não é definitivo e só é reservado a mim mesmo. O que me mói, o que me farinha é qualquer coisa que ela me tirou, e também qualquer coisa que ela me deixou. Não estar, ainda assim ocupa um espaço que ressoa nos cantos côncavos da circunferência universal. Ela como uma gigante vermelha, eu como uma anã branca. Do Big Bang, sobrou a nossa poeira, reorganizando-se numa supernova. Duas supernovas, ainda nebulosas. Sentado aqui, da torra de vigia universal, ainda não consigo ver o que cria a minha. Continuarei sentado, e o meu público, vocês, em gravitação permanente. Ela virou meteoro, em rota de colisão com o planeta de "nem quero saber".
quinta-feira, setembro 25, 2014
Danos colaterais
No princípio do verbo surge a mágoa. A meio, os predicados da saudade; e entre o meio e o fim, a fúria substantiva de quem procura frases para não se ofender por ter amado outrem. A boa intenção é um inferno quando está cheia de pequeninas arestas de pequenas raivas cuja cabeça espreita sem nunca ser vista. Um dia, nasce e não pode ser ignorada. Tudo o que antes foi paraíso e sétimo céu é agora o quinto dos infernos. Onde a certa altura os dedos cravaram beijos nas palavras, hoje pregam estalos em pontos de exclamação! As interrogações não são sussurradas, mas lá dentro, numa caverna, ecoam em brados e urros, e não têm uma forma eloquente ou sequer humana. São sinceridades, tão verdadeiras como o amor que se teve, e que até se tem, mas que por demasiado tempo foi um gorro das cabeças das arestas. Chega o calor da refrega, e o gorro não é necessário: fica apenas o frio da acusação e tudo o que não quis dizer, nem mesmo a mim mesmo, e sai vaporoso num ou noutro assomo de lucidez.
Não quero dizer o que me deixa zangado. Sabe-lo. Preciso apenas da zanga para ruminar a tua pele e não senti-la várias vezes ao dia, sem que exista. Quando te vejo na rua, agora, irrito-me. Não estás lá e estás ao mesmo tempo, e irrito-me a dobrar porque nem sei se te quero real ou virtual. Na maior parte dos dias, não te quero mesmo, ou querendo-te longe, até te quero mais. Mas já é só querer, e o que desejo mesmo é querer-me mais do que te quero. Consigo-o até. Falei em prédios, em rios e em árvores, mas tudo isso sou eu. Saber-me importante, saber-me já de pé vale mais do que conhecer onde te deitas ou moras, e o que fazes, e se me preocupo contigo é porque levaste comigo partes importantes que parecem não ter reparação, mas o tempo é mecânico que cobra demasiado, mas nunca falha. As peças em falta serão substituídas, e é com isto que não me consigo zangar. A grande tempestade a que agora me entrego tem o seu sabor, não tão doce quanto sentir saudades do caramelo que te esconde da espuma dos dias e que saboreava de cada vez que beijava a tua pele, mas o gosto da liberdade de finalmente me conseguir entregar ao assomo de peito que ruge quando te vejo a ir embora sem regresso. Deixo de chorar e formo um alambique de fúria, que se tornará num outro tipo de aguardente.
Por isso, cerro um punho. A mão que um dia te foi cama e sofá, e chegou a ser mesmo almofada. Olho para os dedos meio vermelhos, em fruta, e deles brota um sumo que me consome e é combustível para trezentas mil imprecações sob a forma de olhares. Os meus olhos, que um dia te fizeram festinhas, agora gostavam de te pôr a vista em cima para saltarem das órbitas. Sabem o que viram, e o quanto precisavam de te ter visto quando lhes negaste isso. Pedir desculpa e saberes que te compreendo são areia na tua mão. Pensei que sabia o que sentia, mas descubro que apenas estou a começar a chegar aos termos finais do meu ecossistema sentimental. Armo-me e parto à caça, mas não é de ti: é de mim em vias de extinção. Já não o vejo há quase três meses, mas ele voltará. Não peço desculpa por seres o isco: é apenas justiça poética.
Num verso escrito a ácido, e com aquilo que é verdadeiramente o amor: um bocadinho de ironia, um bocadinho de sarcasmo, e o resto é descobrir o que se é para se encontrar quem se gosta.
segunda-feira, setembro 22, 2014
Nem aí, nem aqui
A realidade adiantou-se-me, porque me atrasei na tua cara. A humidade desceu sobre a terra, e o peso da noite deixava os humores alheios exaltados. Mas à volta daquela mesa, mesmo enquanto as tuas palavras criavam a distância entre tudo o resto e o nosso espaço, a tua cara atrasava-me o olhar. Tentei desviar, dando aos meus olhos a tarefa de se entreterem com qualquer outra coisa, fosse procurando cores em paredes alheias, ou mesmo dando-lhes dentes para que devorassem a lubricidade que se sentava numa ou noutra cadeira, confundindo a noite com qualquer outra coisa indefinida, mas fútil. Mas o único quadro tinha como moldura a linha de circular, sem princípio e fim, e com tudo o que há de mais importante no meio: dois olhos sendo árvores, o nariz um socalco que recebia a luz de uma lua que nem as nuvens conseguiam afastar da tua pele, e na tua boca eu imaginava uma língua em forma de barco, que me conduziria ao estuário onde desaguam os teus lábios.
Pensando na tua boca, parei. O desconforto afastou os meus olhos com os seus dedos, porque de súbito fui tomado pela imagem da minha boca na tua, e de como a tua cara seria tapada pela minha, e a crespidão estragaria precisamente esse quadro que vira. A minha presença em ti, mesmo que só de poucos centímetros acima da epiderme, soava a implacável blasfémia; e esse templo de esoterismo mágico, de segredos cabalísticos em doses cavalares, pareceu-me de súbito passível de ser conspurcado pelo que sou. Pelo minha imperfeição, pelo que sou agora, naquilo que me tornei, no desarranjo que me leva a olhar para a tua face como se olha para uma montanha que o sol acabou de beijar, depois de ter dançado com a lua um tango de amor repetível. Sem que me repelisses, eu próprio fechei-me, e recuei. Os meus olhos pregaram-se na madeira da cadeira; mas a tua cara continuava fixa, os teus olhos deixando-me em parafuso, a tua energia em curto-circuito na minha inabalável vontade. Entre o que olho e o que desejo, está o que posso; e é um facto que posso pouco contra a tua presença.
Levantar-me era pecar contra mim; avançar era pecar contra ti; rogar por ti não se faz a ninguém; resta-me esta confissão, de quem quer e não faz. O meu acto de contrição é olhar para a curvatura do teu rosto, marcando as pequeninas rugas que o teu cabelo, como uma cortina, desvela e deixar-me viver na pequenina dor do desejo que não se cumpre, da vontade sobre a qual não se age, e naquele arrependimento que os dias tornam num bloco de granito inamovível, que já rolou monte abaixo e não se pode tirar jamais porque está lá e não se pode viajar no tempo para deslocar. Na noite que avança, a tua cara é tudo isto, mas é também a esperança de que se consigo concentrar-me no que dizes e no que mostras, é tempo em que não penso em quem já não está. Concentro-me no que existe de facto, e não no que podia ser. Tento convencer-me de que pensas o mesmo. Aliás, passo o resto da noite nessa ingrata tarefa, e invento fábulas que permitam às pontas dos meus dedos encontrar um final feliz no começo do teu toque. Acontecem, de quando em vez. São pequeninos contos, mas todas as grandes histórias começam com uma frase.
A tua cara já foi um ponto final. Agora, é interrogação que me exclama uma pergunta: se der um passo, tropeço? Se der dois, corro? Ou fracturo na mesma se ficar parado, a olhar, em vez de reinventar o meu ciclo vicioso cara a cara com a nascente das coisas secretas?
sexta-feira, setembro 19, 2014
30 frases
A hora em que não penso em ti é aquela que ainda não começou. Contigo, só desperdicei o tempo que não gastei. Colhi as flores da tua pele num campo da minha visão. Votámos sim nas urnas da nossas bocas, de livre vontade e com o poder da decisão que aquele espaço invisível, mas cósmico, entre dois olhares confere a quem se ama. Línguas de fogo em bocas de incêndio não conseguem ter rescaldo final. Fiquei por ti pela ponta dos cabelos, na ponta dos dedos, no fundo das costas. Não penso em ti, logo não existo. Não te dou palavras, logo sou analfabeto. Não vou atrás de ti, logo não tenho sentido de orientação. Ponho-te num pedestal, quando és uma deusa caída. Procuro em ti um tesouro, no teu mapa enganador, onde o "X" está em todo lado. Não te amar parece fútil, mas viver sem ti dá-me uma riqueza que não pensava. Eras a moeda corrente que pagava as minhas contas algures no cofre em forma de coração. Viajámos sem nos movermos, mas também estivemos parados num movimento perpétuo que afinal tinha um prazo. Soube sempre onde estavas, até que me perdeste. Paciência de Job num suplício de Tântalo. Eras um labirinto, e perdia-me nas tuas curvas. Guardavas os meus segredos, mas também me revelavas tudo. Eras esquerda e direita, e não sei como acabávamos sempre por seguir em frente. Deitavas-te sobre mim, como um túmulo que anuncia ressurreição. Eu deitava-me sobre ti, e era um cobertor que anuncia lençóis desfeitos. Deitávamos-nos lado a lado e tombava o dominó. Talvez sejas agora uma miragem no meu horizonte da memória.Talvez esteja a ver demasiada magia no teu espectáculo de ilusão. Talvez tenha adormecido quando me piquei na roca do teu adeus. Ou então, gosto de viver uma fábula de efabulação, em que era uma vez eu e tu, a fazer de conta que não somos eu e tu, e podemos agora ser outros para nos voltarmos a conhecer e fazer tudo de novo. A moldura dos nossos braços mostra agora uma natureza morta. Mas o Inverno está apenas a fazer o turno enquanto não chega a Primavera. As quatros estações em seis meses, o sol todo num beijo, e neve quando não voltaste. Tudo na vida é um ciclo, e quase sempre preparatório.
terça-feira, setembro 16, 2014
Glaciar
Lembro-me de estar estendido e de a cama ser o mal menor. Lembro-me de os lençóis serem pedra, e de me pesarem. Lembro-me da carta que me escreveste, e talvez a metamorfose tenha começado aí. Não era suposto. De facto, nem a carta era suposta, e a hora em que decidi vasculhar o bolsos do casaco estava adiantada em relação a mim mesmo e ao que consigo aguentar de ti. Consigo, mesmo com o frio a congelar-me os lábios, retroceder todos os passos, desde que me deixaste o casaco à porta de casa, numa caixa de cartão, até ao dia em que me "esqueci" dele em tua casa, e esperei que o trouxesses, mas passaram dois anos e não te lembraste se calhar. Ou se calhar, esqueceste-te das recordações, tudo propositadamente, e quando se esquece de propósito, é sem querer que nós tenhamos um. Não sei por que motivo o casaco ganhou o efeito boomerang. Na carta, não vinha nada disso. Só palavras e obscuridades, mais breu do que a noite que começa a cobrir-me; e para além da carta, o casaco trouxe uma pequenina dose de navalhas, em todo o tecido. Mal o agarrei, uma delas começou a rasgar-me o que tenho cá dentro e não é feito de músculos. Sangrou, mas ninguém viu.
Olho para trás de mim, e a casa está a uns trezentos metros. O frio congela-me, mas se calhar renasci frio quando te foste embora, e aguento bem. A tarefa olímpica de me levantar corre bem. Os meus pés ainda respondem, e à vez, tentam levar-me para a casa. O vento pára, de repente. É como se a montanha percebesse que tudo tem limites, mesmo a dor, e que nos compreendemos. Certamente que, quando a neve se deita sobre ela, a montanha deve desejar que esta desapareça, e a deixe nua para que se enamore do sol e da lua, numa promiscuidade milenar que não posso conceber, mas aceito, porque os meus pés fazem agora parte dela. Cada pegada minha é calor que deixo na montanha; e cada metro de terra, na superação da adversidade, é quente em mim, na vontade de não sentir o teu peso de nenhuma maneira, e de nem pensar porque é que um caixote com um casaco pode virar a vida de um homem ao contrário como se fosse um terramoto, ou uma manápula gordurosa e viril que prende os tornozelos e me agita. Por sorte, desta vez caí sobre neve.
Os últimos metros são vertigem. A porta luminosa esbate e por momentos penso não conseguir. Uma vez transposta a ombreira, podia desmaiar. Não o faço, ainda assim. Já te dei alegrias demais nada vida e porque a escolha é minha, a minha mão pega no cutelo com dois braços e a tua forma, e lança-o à tempestade. Quando cai, a terra treme. Ou então, são só os meus pés, aliviados, ou mesmo com saudades, ou então são as duas coisas, e enquanto te quero beijar, também quero abraçar uma montanha sem ti, numa casa só minha. Ambas se misturam, mesmo quando não podiam estar mais separadas. Junto-me ao que resta de mim, de outras bulhas e pulhas, e fecho a porta.
Lá fora, o casaco cobre-se de neve e a montanha, no seu processo lento de deglutição das dores de parto do mundo, dá paz à tua alma. Mas como sempre, o que a montanha leva acaba sempre por devolver. Quando fecho a porta, não tenho a certeza de que abra a minha para sair. Talvez. Não sei. No entretanto, enrolo-me num cobertor e o sofá vai-me contar uma história. Era uma vez eu e tu. Viveram, e felizes. Foi para sempre, porque nada acaba realmente: apenas se troca.
sábado, setembro 13, 2014
D
A minha mão sempre foi mais leve na tua. Mesmo quando tudo o mais pesava, e agarraste-ma no que de mais pesado nos pode cair em cima, os dedos eram penas, numa palma de algodão e tudo o resto era ar. A tua pele sempre transformou a minha carne em vôo, em algo até mais leve do que o céu. Pelo menos, era assim que me enganava. Há qualquer coisa de mentira e de ilusão no amor, e é por isso que é mágico. Quando se ama, concede-se o engano e volta-se ao tempo em que a nossa criança acredita em histórias que não fazem sentido. A ideia de que duas pessoas se possam entregar uma à outra é tola no absoluto, mas é o desafio do impossível que nos precipita na leveza de duas mãos que se agarram. A tua agarrada à minha era isto: um faz de conta muito sério, para mim e para ti, tão real quanto a densidade das nossas bocas juntas, acrescentando linhas a esta história. Na mão, a linha da vida; na boca, o desalinho da pequena morte. A memória dos teus lábios nos meus é um estado de graça, apesar de tudo. Desconheço para onde vai o amor quando some, mas comigo nunca chega bem a desaparecer. Desconfio que se reúne num pequenino ventrículo que bombeia o sangue mais depressa quando me cruzo com uma imagem tua. Empurra com as suas mãos, agora pesadas e fortes, essa vida pelo meu corpo que se torna pequeno demais para ti, e para o espaço que nele ainda ocupas. Nunca se tem realmente alguém, mas é-se morada desse alguém, e ainda não foste embora, mesmo que já não estejas. A tua leveza está nessa capacidade de seres com toda a força aquilo que não podes.
Nunca te cheguei a descrever, porque para mim nunca foste: eras o efeito. Ainda és. Algures na tua cara reside um ponto que trata de mim como se fosse precioso, e esse ponto é meu. Não sei se o vês, se alguma vez o viste.Tratava de mim e lembrava-me de como pode existir algo fora das tripas do mundo. O amor sente-se, aliás, mais nas tripas do que no coração. Naquele novelo de fio desfiado que me percorria o peito em longitude de cada vez que sorrias. Sinto mais saudades do que em ti é grande, e para os outros pequeno. Da tua maneira de fazer birrinha, das pontas dos teus dedos a fazer cordéis dos meus pêlos, de um sorriso que era uma cama e da cama onde acordava outro sorriso. Sinto saudades das tuas sardas ao sol, e daquele único cabelo branco do lado esquerdo, e não vou negar de cada vez que caías comigo eu não conseguia acreditar que alguém aceitava a minha dor como uma honra ou uma benesse, como algo que é mais importante do que a sua própria habilidade de dar ao mundo um sentido através da felicidade. É do pequeno que sinto mais saudade, não de tudo o resto. O pequeno és tu, toda cheia de mínimos legos de personalidade, colados e indesmontáveis. Como a própria ausência do amor, uma força imparável. Um glaciar com lava dentro. Tu, afinal.
Não sei mesmo como é que as palavras te podem alinhavar. Nem sequer se te incendeiam no fogo eterno que transformaste em forma humana. As letras são apenas sons que se fazem, e quando se colocam numa página em branco, servem apenas de batuque, num código morse entre pessoas que não te conhecem nem te viram, e ainda assim se vêem forçadas a apertar a mão à força da impressão que me deixaste. Não é justo para eles, mas é aquilo com que menos importo. Porque não há justiça, e nós sabemos. Porque estas coisas acabam quando acabam, e quando não existe nada mais a pará-las a não ser um lapso de tempo que as trava. Ambos vamos ao chão e quando levantados, no chão estamos pois de um céu descemos. Regressar é a pior parte do fim. Ninguém nos pode tirar o caminho que se faz, mas a viagem é onde se quer estar, e voltar nunca faz parte do plano. Não posso dizer que te deixei, ou que me deixaste. Apenas que voltei, e que embora tenhas partido, sei que voltaste, de qualquer forma; não sei se onde querias estar, mas pelo menos onde precisas de reiniciar o caminho. Custar-nos-á caminhar por outra estrada que não a do nosso sol e não sei quando estarei sequer preparado para te deixar na tua. Saber e fazer são verbos muito diferentes de aceitar. Mas lá chegarei, pernas ao caminho e depois das lágrimas, fica o suor.
No entanto, o pedacinho do ventrículo continua a ser teu, tal como um espaço num pequeno canto da minha cama onde não me coloco. É o teu espaço, onde a persistência da memória esquece tudo o mais, e estou contigo porque me deixas e me queres. Na hora do lobo, podemos ser as lobas um do outro, numa alcateia de beijos a uivar dentro de mim e de ti.
quinta-feira, setembro 11, 2014
O valor
Existe uma lista na minha cabeça quando os dias são rastilho. Recolhe tudo aquilo que me impede de me fechar à vida. Com tanto balanço negativo que aqui aparece, a pergunta deve surgir várias vezes sobre o que ainda me mantém de pé, passando na linha dos dias como quem faz equilibrismo. Em primeiro, um cinturão negro em sarcasmo. Isso é óbvio. Em segundo, tudo que em baixo se amontoa num tesouro íntimo.
O olhar de orgulho da minha mãe quando chega a casa nas últimas semanas e encontra um filho com emprego. As natas de Condeixa. A luz que só se encontra quando, num quarto sonolento, se resolvem as pontas soltas de uma história dentro da cabeça. Seguir pela recta da Portela, a 80 à hora, num pequeno sorriso doloroso aberto pela "Wicked game". Sentir o coração debaixo do palato quando ainda penso nela. O meu reino no cimo de uma montanha, com Einaudi como meu escudeiro. Os farrapos de delícia em forma de tempo que antecedem o fósforo que acende dois lábios confessando sem palavras a vontade de se quererem. A vista do meu sótão. O sofá depois do trabalho. Os headphones na cabeça e o mundo desaparece. A mão que dou e puxa alguém de um poço, e esse alguém sorri com um obrigado e a existência ganha então razão. O próximo filme de David Fincher, seja ele qual for. Puré de batata feito em casa. As pevides compradas na praia. Sentir-me baptizado pela delícia de cada vez que mergulho mar. Sentir o efeito das minhas palavra no outro. Não acreditar que essas mesmas palavras ajudam quem seja, mas abraçar-me a mim mesmo no conforto de um agradecimento alheio de como a minha dor não me desarma em vão, Conseguir pôr a dor a trabalhar para mim. Escrever histórias que não podem ficar na minha cabeça. O céu limpo no cimo do Cântaro Magro. As minhas pernas a tremer no Pico Ruivo. Regressar onde me querem. Desorientar-me no livro onde me encontrei com o susto de mim. A possessão demoníaca do movimento Alegretto da 7ª de Beethoven. "Os Maias" uma vez por ano". JFK duas vezes por ano. Transmitir conhecimento, e reconhecer aqui que estavas certa. Os Penedos de Góis. Mostrar-me do outro lado da lente, aprisionando o mundo na liberdade do meu olhar. Aquelas pessoas mais rápidas do que a realidade, mais fascinantes do que o complexo e mais entusiasmantes do que o desejo. A Casa da Música a 23 de Março de 2013. Todas as vezes que pude aplaudir três indivíduos de Oakland que criaram uma casa de árvore dentro da floresta que é a minha racionalidade. A memória das molas na escada da minha avó Lurdes, e dela própria como uma cadeira onde me podia sentar com a certeza de que ser amado fazia parte da vida de criança. Quando outra ela me convidou para fazer pão. Beijar quem se ama. A volta ao corpo em 80 gemidos. Conversas em modo screwball. O prazer da inteligência e de alguém com quem se pode realmente aprender. Arroz doce quente. O entusiasmo de outros por coisas que valem a pena. Eu na cama e a chuva em código morse na janela, deixando mensagens na minha imaginação. Fruta fresca. O pedestal da boa televisão. Quando o encontro entre duas pessoas faz um sentido que não proibido. Ser eu.
A lista continua. Múltiplas razões, variados destinos, uma pequena caixa de madeira forrada a infinito Quando em modo infra, abrir. O que se vive parece ter imediata justificação entre tudo o que a pele guarda, regista e confere. O vale dos hemisférios é o único local onde me sento de olhos fechados e consigo ainda assim ver o universo. O cosmos numa lista que não se pode agarrar.
sexta-feira, setembro 05, 2014
Um casaco para todas as estações
Não me consigo lembrar de quando me tornei morada da tristeza. Olho para as minhas fotos em criança e pareço feliz. A minha infância foi um evento de felicidade: interessa menos ter sido amado por quem me regou, mas mais ter sentido o desejo por existir. Uma fotografia no meu quarto, com os meus avós maternos, capta o meu olhar na máquina, enquanto, sem braços, o Carlos e a Lurdes me envolvem de uma qualquer maneira que não se explica bem em palavras num blog. A imagem capta-a, e esse enlevo descreve como a minha infância não foi um berço de melancolia inesperada. Não fui uma criança triste. Batalhas de laranjas com os meus tios, o prazer de devorar livros, estar no mundo aberto e fechado do meu quarto, partilhar uma amizade com um urso de peluche, guardar amigos, sentir-me contente com o que tenho, possuir curiosidade pelo mundo...
Não sei mesmo quando a tristeza começou a pagar renda, mas não nasceu comigo. Algures, pelo caminho, escancarei-lhe a porta. Nunca tive, até há pouco tempo, qualquer problema sério. Desconheço a origem, e isso perturba-me. Preocupa-me mesmo que algo tão destruidor se tenha instalado e me ocupe, em avanço cancerígeno, num desejo que mal posso controlar. Não chega a ser depressão, e aleija demasiado para lhe chamar apenas incómodo. Mal está. O desalento poucas vezes se consegue traduzir em palavras válidas. Tudo parece cliché, desde o poço negro até à maré escura, também porque ser macambúzio já se tornou num estado quase banal. A minha tristeza apenas é banal por não ser especial. Por ser normal para mim, já deixou de ser um estado, e muitas vezes é a vida que levo. Sobrevive-se criando outro em nós, que vive a vida por nossa vez, mas o eu com que temos de conviver à noite, antes de dormir, continua na sua pequenina masmorra, por si construída.
Lembro-me de uma noite, há um tempo, quando chorei no peito dela. A única razão pela qual recordo, e porque aqui o menciono, é o carácter único desse momento: transparente e puro, belo e destruidor. Vi-me como era. Vi como a tristeza faz parte de mim, e nos minutos em que a amei com lágrimas, entendi só em lampejos o que me deixa triste: não saber o que sou eu, não caber na pele que me concederam, nem sequer perceber bem àquilo a que pertenço. Dois braços deslizaram e construíram o que não tenho naquele aperto. Sobra a tristeza que carrego, e que nem sequer é desalento, ou desesperança, mágoa ou desânimo. Não é uma sombra, não é um lago, não é um mar. Não é amigo, nem inimigo. Não cai em cascata, não jorra em torrente, nem sobra mentiras ao ouvido. Nem sequer me seca, ou esmaga. Não me abre um buraco para me tapar com lençóis de tristura, não me deixa aflito, nem mesmo em pânico. Não goteja, não rebenta, não ganha raízes, nem sequer brita em flores do Mal.
Os fardos carregam-se, mas a tristeza nem isso é, porque a determinada altura, à escolha, podemos abandonar o fardo. Talvez a melhor maneira de defini-la esteja nessa noite onde me vi do outro lado do vidro esbatido, ou de cada vez que olho a foto do meu pai no recanto de casa onde os que não vivem continuam a existir em imagem. É cruzar o alívio da alegria de ter alguém que me compreende e onde me posso deitar no conforto de ser o meu próprio lar com a frustração de não poder partilhar os frutos do sacrifício de um homem, a surgirem pouco depois de eles terem partido. Um paradoxo onde habito e sou ao mesmo tempo actor num drama em dois actos: no primeiro, vejo-me como um solitário; no segundo, procuro a companhia de outros e retorço-me cadavericamente na minha alma quando não a tenho.
O terceiro acto deste drama acontece de todas as vezes que mastigo a tristeza de estar à frente de um polígono de terra e penso naquilo que quero dizer a quem não ouve. Nos poucos minutos em que consigo estar composto a poucos metros de ti. Quando a tristeza que procuro definir tem uma forma bem sólida, bem concreta e não me foge mais. Está ali, É um espaço de tempo onde a tua cara é a imagem dessa tristeza, e ao invés de me roer com esse buraco de não saber, posso dar à tristeza a tua forma. Talvez a memória do prédio triste que sou não me ocorra, mas sei qual o andar onde moras. Falta-me o espírito para ser feliz à distância de um botão, mas enquanto morares, sei que a minha tristeza não é fútil, nem destrói. Bóia, à tona de ti, também dela, com braços mais compridos do que o tempo.
E também com tudo o resto que cria o mundo espectral onde viver é uma ousadia e um acto arrogante de soberba. A tristeza mistura tudo isso. Até mesmo a hipótese de um dia dar lugar à alegria.
terça-feira, setembro 02, 2014
Botões
1.
Os seus lábios percorrem uma estrada imaginária que da boca dela conduz pelo pescoço ao vale do peito. Rapidamente nascem gemidos surdos, crescendo a pouco e pouco e em flor, a boca daquela faz das paredes metálicas os lençóis com que se contêm os gritos morde-se e guarda uma explosão que rebentaria o elevador, mas mais certo era continuarem na mesma a levitar. Uma língua no sítio certo dá asas, e naquele momento, numa vertigem para lá do horizonte do umbigo, alguém a tornava num anjo. Um anjo de pernas bambas, a sofrer de alegria, mas um anjo ainda assim. As pontas dos dedos criaram uma crespa floresta na cabeça daquele que conhecia por David, mas que naquele momento se chamava tudo aquilo que o dia a dia lhe negava.
13
Um fecho faz tombar mais defesas do que uma catapulta, mas também ele se lançou num ataque, e às tantas já não sabia o que a fazia tremer mais, se a canção do bandido ou a mão que se dá no momento de aperto. Mas senti-la noutro plano, talvez sendo outra pessoa, ainda que permanecendo a mesma que conhecia, tornava as suas calças no mais desconfortável dos adereços. Ainda pensava ele nisso, e já ela descobria como pô-lo à vontade.
27
Subir. Descer, O elevador ia mesmo para que andar? Que elevador? O que é um elevador? Será um elevador a fazê-lo sair do corpo de cada vez que está dentro dela? Terá um elevador tantos botões quanto os gemidos que ela lhe arranca? Terá a corda do elevador tanta tensão como a que ela lhe tirou do peito quando lhe sussurrou "Fode-me"? E será que se alguma vez fizessem amor, seria tão bom como quando fodiam? Os corpos eram os mesmos, mas quando se faz amor, não se chamam nomes a quem se ama, a não ser que só se goste um bocadinho, e que aquele momento em que as mãos vêem mais longe do que os olhos, ou em que o planeta é uma auto-estrada de pele que segue pelas coxas em direcção ao sabe-se lá onde, é apenas um momento que nos arranca de nós, mas sem nunca abanar.
44
Ela não sabia se o amor se pode viver de gatas, e quando lhe via os olhos, sabia enquanto ele se retesava, e não lhe dava descanso, nem era no amor em que pensava. Mas o elevador era mesmo esse lugar, onde se puxa o cabelo sem se querer mal, onde as putas são aquelas de quem se gosta e onde ele deixava de ser o seu marido, e era apenas um ele livre de tudo, e ela não era a esposa que tinha o jantar pronto a horas, porque no dia a seguir havia que cumprir o dever de ser mulher. Ali, eram ambos um cheiro indefinido do que já foram, e continuavam a ser, mesmo que o mundo lhe tivesse tirado isso, ou pelo menos pensava. No elevador, o mundo não entrava, e estavam num universo, bem maior do que o mundo, onde a comunicação era feita através de um código morse das pontas dos dedos
59
As pernas tanto tremem que caem, e enquanto deslizam pelo elevador até ao chão, ele segura-lhe os cabelos. Sofia liberta-se ao de leve. Não consegue sequer sentar-se, e mantém-se no limite da rigidez, sem ousar tocar o chão com nada mais do que os pés. Ele ajeita as calças. Olha o relógio, são 4 da manhã. Ergue-se, e tenta vestir-se, mas ela ajuda-o, num pretexto mais para deslizar as suas mãos na cidade de um prédio único. Sorriem e lentamente, deixam de ser ele e ela, e passam a ser eles, novamente de regresso à responsabilidade de enfrentarem juntos a ideia de que um casal não pode foder num elevador.
65
Beijam-se. As portas abrem-se e estão exactamente no andar onde começaram. Na sua cabeça, subiram 100 andares, mas o seu corpo rebentou tectos, e foi visitar uma galáxia ali mesmo ao lado do sol. Estava calor lá.
quinta-feira, agosto 28, 2014
Um sem-abrigo com casa
Verde a perder de vista em todas as direcções, nem uma montanha por perto e ali, no meio de nenhures, ele era uma casa sentada. Casas erguidas habitam-se, casas sentadas alugam-se, pelo menos até estarem prontas para serem habitadas outra vez. No silêncio das horas, a recordação do início não existia e há muito que se hipnotizara com o movimento da erva de cada vez que o vento a penteava. Alta como a casa sentada, a erva ocupava-se das distracções e casa existia apenas para si, ainda não para o mundo. Uma casa, quando se senta, continua a ter quartos e corredores, mas os primeiros estão fechados e os segundos escorregadios. Quando sentada, o melhor mesmo é evitar entrar na casa, e por isso mesmo esta se tranca, sem precisar de ninguém para fazê-lo. Fecha-se e fica ali, parada onde ninguém se lembra de procurar.
Chegara a altura de limpezas. Trocar alcatifa por chão de tacos, porque dos ácaros da alcatifa já a casa não precisa. Os tacos limpam-se melhor, deixam que todo o pó e o cotão se acumule e possa ser varrido de uma só vez, duas no máximo: uma para espantar a sujidade, outra para não deixar que a primeira se engane a si mesma. Momento é também de passar um pano nos azulejos, sujos e baços como se tivessem sofrido um banho prolongado de água, numa submersão completa, total e voluntária. As vontades pagam-se, e a dívida do azulejo era medida em manchas. Umas saem com mais facilidade, para outras não chegam apenas o pano e o líquido. É preciso algo mais que não tem agora em casa. Guarda na lista de compras e um dia destes vai conseguir. O agora não tem a mesma urgência do amanhã, mas é muito mais importante do que o ontem. Todos eles são um pequeno lampejo na sala da eternidade, que ninguém pode limpar, nem sequer fechar ou sequer conceber. A casa sentada apenas pode conceber um pequenino rodapé e tentar não estragar, porque a eternidade não dá mesmo para arranjar.
No sótão, o maior desarranjo. No sótão, nem o vento pode entrar ainda, que está tudo em pantanas e e a brisa recusa-se a ser responsável pela arrumação. Só a neve, e o sótão enche-se de neve até ao tecto. Preso no espaço e dando-se à frigidez das emoções que foram um dia caldeira vulcânica, o gelo é a única ocupação capaz de arrumar tal confusão. Mas como os glaciares abrem vales entre os caminhos que não existem, também demorará tempo até que se concentre ordem suficiente para que os passeios no sótão, de onde se têm as vistas mais vitais e importantes da casa sentada, possam voltar a ser livres e sossegados. Até lá, o gelo faz o seu trabalho, e fecha-se a porta ao resto.
A casa sentada continua fechada. Ele não sabe quando estará pronta, e dificilmente passaria alvará a si próprio se lho pedissem. Numa rajada. o vento abre-se em dois mares e ao fundo, o sol poente aponta-lhe o dedo, faz-lhe cócegas no nariz e de repente, apenas num momento que é fumo que se agarra com força aos dedos, as ruínas sentem que podem ser novo uma casa erguida. Nesse raio de sol está o segredo da velocidade da escuridão, e de como a luz, veloz, demora a entrar em casas sentadas. Sem interruptores, sem quadro funcional e sem janelas, é impossível.
No entanto, as frinchas mínimas cortam o breu do Eu; e mesmo sentado, de pé 1 metro e tal de andares ganham pilares de sabedoria na beleza da queda.
sábado, agosto 23, 2014
Só mais isto
Gostava de deixar uma palavra ao público deste cantinho de deboche literário onde escrevo, e que tem alguma dificuldade em encarar alguns textos que tenho escrito ultimamente. Bem sei que preferem os momentos de pura estupidez e debalde onde destilo veneno e me mostro portentoso em cascar no que é alheio. Asseguro-vos que não perdi isso. Aliás, como perder com tanta coisa a acontecer no mundo e que merece açoite (guerras religiosas; leis da propriedade intelectual que favorecem tanto as artes como a eliminação da homossexualidade; o desafio do balde de belo pelos costados abaixo; Cristiano Ronaldo como bitola dos interesses da nação; o BES, sem piada que só o nome já é suficiente; Manuel Machado a transformar Coimbra numa cidade saída do mundo "TRON", mas com menos sentido)? Permitam, ainda assim, que vos explique porque virei de repente uma cópia barata de Paulo Coelho cruzado Nicholas Sparks, com a menopausa da Danielle Steel.
Os dois maiores medo que possuo na vida não são tão estranhos como a minha personalidade poderia fazer antever: a morte/decadência e a solidão. Simples, não? Ver um parente vosso enfrentar e sucumbir ao primeiro não me sossegou um pouco. Tal como sentir o meu interior sucumbir a brutal apocalipse provocado por uma arma de destruição maciça com duas pernas não contribuiu muito para me esquecer do segundo. Os pormenores de ambos são meus, e já divulguei mais do que devia num espaço público que se tornou confessional pelos simples facto de sentir que ajuda outros com problemas semelhantes. Não sei se consigo ser exemplo para alguém, mas se no meio desta derrocada conseguir pelo menos, fornecer pedras para construir um mundo melhor, não se perde tudo. Honro a memória de ambas as pessoas que perdi, uma de forma mais definitiva do que outra. Isso é muito importante para mim. A dor ressuscita os medos, mas também pode ajudar, se a trabalharmos bem, a ser algo mais do que dor: a ser progresso. Sem progresso, a dor é apenas uma bola escura de alcatrão derretido que nos envolve, sem piedade e sem sentido.
Não posso, ainda assim, mentir e dar a ideia de que não ando a ver o mundo com óculos escuros. Ando. Há dias de enorme desesperança e desencanto, de não ver sentido, de achar que isto não leva a lado algum, e que se leva, qual é o sentido? Ser apanhado de surpresa e ver tudo ruir, desde o que se fez ao que se quer fazer? Sempre tive esse medo da morte, porque me pareceu o anti-clímax mais idiota de todos. Caminhar para um buraco. De que adianta caminhar então? Não sei. Adorava ter um discurso optimista, mas nunca foi meu tom... E o medo e trauma que a morte me causa amplia os terríveis momentos de solidão onde uma pequenina linha separa uma ida para o trabalho da simples posição fetal na cama de olhar perdido na parede. Isto de se viver é o que é, e não há muito mais do que ir aproveitando os dias, mesmo que não apeteça nada e que a maior vontade seja a de desaparecer. É a ambiguidade de estar um: estar só como fuga ao mundo, e também como o caminho mais certo para a infelicidade. É isto que me ocupa agora, é isto que vivo.
Por isso, caros fãs do ácido, peço paciência. Estou mais desarranjado do que o costume, e vai demorar. Não sei bem que terceira via existe para fugir a dois becos sem saída, mas ela aparecerá. É possível. Talvez provável. Está no horizonte. Distante, ainda assim, mas na linha da vida na palma da mão que se tenta agarrar a algo.
quinta-feira, agosto 21, 2014
Bocadinhos
Eles não sabem, mas têm dois colegas de trabalho. Um escreve e faz figuras tristes; o outro senta-se ao ombro do primeiro e diz-lhe "Não percebes nada disto, e não sabes. Estas letras são todas uma merda, ninguém vai gostar, não tens outro remédio senão reescrever tudo". Mas o primeiro continua, e pesquisa. Escreve mais e mais, o trabalho acumula-se, uns pensam que ele é alucinado mas isso de que interessa se o trabalho aparece feito, e ali todos são alucinados de uma forma ou de outra, e assim anulam-se uns aos outros, ninguém estranha e vêem dois a trabalhar quando só um é que escreve, e o patrão não sabe que está a ter dois a trabalhar pelo preço de um, num código do trabalho à chinesa. Fora dali, o segundo vai à sua vida, e o primeiro fica, segue para casa e só por curiosidade, expõe ao mundo o que afinal lhe custa tanto a caber na cabeça que é de talento e não de tormento. Outros gostam. O primeiro é o último a sentir uma pequena vitória, mas sente-a
Já passou um mês, e continuo a disfarçar. Estás debaixo da terra, mas sou eu quem continua a sentir-se dentro de um buraco. Todos os dias, quando venho do que é dele por direito de pai, faço uma linha torta, e esboço-me com os pés num chão que é areia movediça, e envolve aquele número que sei de cor, com as flores que nem consigo cheirar e a vela que apaga e acende, e nunca se queima. Não consigo entender, mas também não há que entender. Há que seguir, e tu sempre foste mais de ir em frente do que parar para perceber. Tento que venhas comigo, levar-te de cada vez que dou um passo para fora de casa, e nos momentos em que não sou uma parte sequer do meu melhor, desculpo-te porque a culpa nem é tua, que para além de não estares cá estiveste quando eu devia ter sido mais do que há em mim de maravilhoso, que calhar não vias porque não te importavas, e se não fosse maravilhoso era teu na mesma e não fugias disso. Porque me tinhas feito, e porque nunca te passou pela cabeça que por muito descabelado, estranho ou irreverente que eu fosse, não seria aquele a quem chamavas "filho". É nessas alturas que sou só mesmo eu, sem ninguém ao ombro, e como não rezo para o vazio, nem oro ao que não faz sentido, levo um joelho ao abismo que te tem, deposito com a mão o beijo que nunca deixei de ter dar, e tenho-me noutro lado, onde não estás, mas por outro lado até estás, porque não vais embora enquanto eu disser o teu nome, ou me lembrar da tua cara. Enquanto eu for eu, e a minha memória for o jardim marinho onde podes nadar no conforto do teu mar. Sem mais ninguém, só contigo e sem vozes a moer.
Tu só podes ter o bocadinho mais curto. Alongar-me sobre ti em mim é dar-te espaço, que não é de fuga mas de apanhada. Agarraste-me. Tens-me em dias pares que são ímpares na quantidade de dor que me dão no beijo que não damos e naquela risota com que me fazias regredir aos tempos em que não conhecia outra coisa que não caramelo. Não falar sobre ti é fingir que não existes. A mudez é esquecer-te. Por isso escrevo textos tão longos sobre o que não articulo, e o que não posso sequer calcular noves fora quando estou feito num oito. Ainda me afogas em imagem fixa. O mergulho é a compulsão da dor, e esquece-se que o bom mesmo é não senti-la. Hoje banho-me nela. Amanhã, a toalha do futuro vai-me secar de ti, até à próxima vez em que fores a minha preia-mar. Semana após semana, cada vez menos. Mas cheia de todas as vezes que me cobre.
terça-feira, agosto 19, 2014
Ruído
Estava algures longe dali. Por isso o barulho o incomodava tanto. Queria crer que no silêncio, ao menos, dava por si num qualquer outro local onde ela não aparecesse. Deixa-se alguém, mas é só na vida e na morte: nunca na ressurreição. Ressuscita por aí, nos nossos tempos mortos, e vem bem a tempo de nos matar em horas adiantadas, atrasando-nos o caminho e o tempo. Antes, quando a via, pensava numa pena; agora, era uma espada, que já nem fazia parte da sua luta. Imaginá-la com outro era ter vertigens debaixo de terra, ou ver-se em transe numa festa onde o barulho assalta os sentidos e furta os momentos, deixando-nos nus perante a vergonha da solidão. Ali, despido, com as colunas a estardalhar o que resta do espaço de sanidade onde ainda habitava, vi-te, na múltiplas valências do meu choro, onde encontrei outras lágrimas que desconhecia. Sem qualquer motivo, o barulho eras tu, em gritos por vezes, em gemidos noutras, e a confusão de tudo o que vivi em ti, e vivo ainda fora do que éramos. No barulho, eras surda ao que lamentava, e nem as minhas lágrimas, como decibéis salgados de punhal em riste, conseguiram retratar a fotografia que me tiraste naquela noite em que o teu peito foi a minha tela de lágrimas, quando me deste corda ao cabelo como quem acelera um relógio, e deixaste que te tocasse e beijasse porque nos beijos os abismos são de mergulho e não de queda; e eu, que sou ele, viveu aí momentos que nem o barulho podia roubar.
Mas antes que pudesse, saiu da festa. Porque havia gente, e não havia ela. Muitas elas havia, algumas que queriam ser ela no olhar, mas não as via. Estavam ali. Ele não as queria. Enquanto caminhava pela rua, não sentiu a mínima vontade de voltar, ou sequer de estar com outra ela. Apenas de se sentar, reorientar a bússola e não se perder mais uma vez. Era impossível, mas sempre sem que fosse impassível ao desejo que rasteja e envolve. Ela é um abraço que fica e prende. Ele recebe, sem nunca cobrar, mas também sem pedir, ainda que no entanto não a negue. Sentado, longe do barulho, abraçado por quem não está, é pela primeira vez que se equilibra e não escuta nada, a não ser ele mesmo a traçar os seus próprios pensamento.
Finalmente sou eu, e ele. Talvez, por fim, queira deixar de ser Ela. Hoje sim.
Amanhã é sempre um não em potência.
segunda-feira, agosto 11, 2014
A escada em caracol
Nunca me esqueci do dia em que a minha professora de Português do Secundário brindou um trabalho escrito com um 19, e anotou "Se o Bruno trabalhar, poderemos ter aqui um grande escritor intelectual". O pretensiosismo nasce cedo, e este tipo de observações, vindos de gente que admiramos, são solo fértil. Mas não vieram apenas coisas más ao mundo através da doutora Helena Castro: foi ela que me incentivou a gostar de escrever, descobrindo algures num rapaz confuso e meio perdido uma aptidão a alinhar palavras em carreira. Sem ela, provavelmente nunca me teria aventurado nessas vidas. Já antes gostava de construir histórias, mas nada de agradável: apenas amontoados de coisas que nem eram ideias. Foi essa professora que fez nascer tudo o que me brotou numa fonte da Língua que algumas vezes seca, nunca murcha: os "Óscares", o NLDR, este e outros blogs, guiões que estão arrumados e nunca sairão dos cantos escondidos, tudo o que ajudei a inspirar em gente conhecida e em jovens... Aquilo que por vezes chamam dom, e eu sempre classifico como a dor de me ver falhar em estrondo quanto tento ir além das minhas possibilidades.
Desde então que não me concebo, ou defino, sem o uso da palavra. Já passou de ser apenas útil: estendeu-se como um segundo cérebro com quem troco ideias e defino rumos; onde aprofundo o que penso e me aventuro em jogos de palavras conversando com a única entidade que me pode entender; quando estou em pleno conforto e descanso, sem medo do que eu próprio penso; como meio de me revelar sem me expor de facto, ou de abrir noutros o meu sentimento sem que deixe de ser, ainda assim, deles o que sentem. A escrita não é, na minha vida, apenas expressão: é um canal que me une ao mundo e uma bolsa de valores onde a minha cotação está em alta, e me impede de achar que sou, por completo um falhanço. Claro que nunca consigo ser exactamente o que a minha escrita merece, e por isso rastejo de quando em vez neste tapete em branco, atirando palavras a ver se colam, mas que apenas borram tudo. Sei que não parece a quem lê, dos elogios que leio, mas várias vezes este acto é fisicamente doloroso. Uma dor parva de primeiro mundo, que não se compara ao Ébola, mas é a minha dor. Sinto-a e ela acaba por alimentar o que falta neste mundo de letras. Tudo o que me dói transforma-se em frases. Tudo o que me alegra conduz a textos; e se as palavras, ainda assim, são tantas vezes um arremedo do que se pode sentir (as minhas lágrimas retratam melhor a perda do meu pai do que 70 odes marítimas, e os beijos com que mergulhava a Daniela em mim são mais amorosos ao vivo do em Times New Roman), não posso negar que me completam e que transmitem mais do meu mundo do que eu próprio consigo.
Esta semana, comecei a ser pago pelo me trabalho em palavras. Pego em mundos e em informações, e pedem-me que transmita a desconhecidos o que neles existe de fascinante. Não é comum termos emprego a fazermos algo em que somos realmente bons, e onde estamos confortáveis, Sento-me e os meus dedos ligam a minha cabeça ao mundo, faço turismo numa página vazia e os pontos são, ao mesmo tempo, finais e de interesse. Na tarefa de descobrir o mundo, uso o que a ele me liga. Os meus colegas não sabem, nenhum deles, mas se lerem este texto poderão ter uma ideia.
Há quem faça retratos a carvão. Cada post, no meu caso, é um traço atómico, e revela as minhas explosões, cisões e multiplicações dos átomos que me formam.
segunda-feira, agosto 04, 2014
Não ser
Quase todos os textos que leio acerca de separações são pirosos que doem. Em primeiro, porque são mal escritos, e isso é compreensível: é difícil escrever bem quando o coração nos entope tudo porque cresceu demasiado. Nem é uma crítica, mas sim a empatia de quem já se viu tão assoberbado pelo que sente que apetece tantas vezes sumir, morrer um pouco, talvez uns dias, e voltar apenas quanto todos foram embora e podemos ficar ali com aquela dor cristalizada ainda ardente, num prazer perverso de nos encontrarmos na miséria, e mesmo assim sermos ricos em vida que flui e mesmo moendo, produz ouro.
Em segundo, porque revelam tantas vezes uma sentimentalidade piegas e superficial, atirando palavras para enterrar a tristeza passageira que se cura uns dias depois, quando se conhece X ou Y e o carrossel volta a girar, até virar novamente carros de choque. É como se quisessem rebentar de sentimento, e encontrassem apenas teias de aranha no sótão do ventrículo superior esquerdo. À falta de sangue fervente e vulcânico, inventa-se uma erupção, que soa a falsa por ser demasiado lúcida, que é aquilo que a dor não oferece nem é. Doer é tantas vezes não perceber sequer que temos algo que realmente não temos, mas vem aí. Apanha-nos por tabela e às três tabelas encesta-nos. Sem espinhas.
Em terceiro, porque não são verdadeiramente textos de separação. São de intervalo. Existe algures nas entrelinhas a esperança de regresso, e nenhum ponto é final: apenas parágrafo. Algures na dança das palavras, existe um compasso de espera, que disfarça o desespero, e caminha um trilho onde os sinais se confundem, mas se segue sempre em frente. Nem que seja até à falésia. Lá em baixo, um mar ruge e grunhe, mas é transparente, e por isso, à falta de chão, salta-se, e o mergulho desconhece-se. Nunca mais se ouve falar de quem tenta, excepto algum tempo depois, quando algo dá à costa e não se reconhece. Aparenta ser o que pensou que era. Mas já não é. Já foi com as marés e não volta.
Não irei por aqui, portanto. O que existe, guardo para quem de mim não se separa, e para o meu único amparo, que sou eu. Há tanta, tanta dor em mim, com tudo o que me cai e tudo o que me tiram, e que se calhar me tiro, que começo a perder o poder de transparecer para vós o quão vazio me sinto. Não quero escrever mal, não quero soar piegas e não tenho esperança. Está fora de mim conseguir dar-vos o que merecem, e o que vos conforta ou sobressalta. Não vos consigo dar isso, e por isso me desculpo. Desta vez, faltam-me palavras e faltam-me frases. Só existem sinais de pontuações, e todos eles mal aplicados. Sinto que fui mal redigido, e preciso de uma correcção.
Por isso, peço perdão. Farei uma revisão e quando acabar, prometo, pelo menos estrutura e texto. Prometo-me, para mal dos vossos pecados e das minhas virtudes.
sexta-feira, julho 25, 2014
Campas de desconcentração
Visitar a nova morada do meu pai devia ser uma experiência de devastação por encomenda. Aliás, qualquer ida ao cemitério não será agradável por vários motivos: a ideia permanente do fim da vida, o ambiente pesado do local, muitas vezes o frete da própria ida. Os portões do cemitério são os portões dos nossos medos e da dor contínua de ter perdido alguém. Logo, quando enfrentei o quente sol do fim de tarde para prestar a devida homenagem uma semana depois, qualquer pessoa não seria considerada doida se pensasse que a coisa me ia custar.
E custou. Durante os minutos em que lá estive, olhei para o chão, muitas vezes sem saber o que dizer a mim mesmo e no tipo de conversa que eu e o meu pai tínhamos como poucos: o silêncio. A minha cabeça tem a tendência para divagar e não é o luto que a pára. Distraio-me com a facilidade dos esquilos. O meu pai sabia disso, e irritava-o amiúde, principalmente quando as coisas ficavam foras do sítio ou me esquecia de ir aviar aquela tarefa que ele considerava mais importante do que o fim do mundo. No fundo, acredito que não levava a mal. A extrema responsabilidade que ele vestia como um casaco despia-a eu como se fossem uns chinelos a voar pela sala. Se a sua consciência sobreviveu de alguma maneira se pudesse aperceber que a minha cabecinha continua naquela velocidade cavalar que ele tanto abominava, ele não levaria a mal. Ou então, convenço-me eu disso, sei lá. De qualquer forma, um dos contras da morte é inibir quem dela usufrui de ter uma opinião nas discussões. Por isso, Vítor, esta ganho eu.
Um beijo é entregue à terra pela minha mão e depois daquele quarto de hora, alguém normal teria saído do cemitério, com um ar circunspecto que é devido a quem se rodeou de morte e sabe que tal se entranha bem mais na alma do que na roupa. Mas, como devem saber por me ler em demasia, eu não sou normal, nem creio que alguma vez o tenha sido. Por isso, entreguei-me a uma fascinação que me domina: campas de cemitério. Não é que queira levá-las para casa ou dormir sobre as mesmas, mas a minha curiosidade ganha vida na proximidade de campas. É paradoxal, mas existe. Penso que talvez se deva ao meu gosto pela escrita e por tudo o que é história. Através de fotos, datas e informações que recolho depois, construo uma narrativa das vidas que a pequena necrópole de Ceira guarda. Há histórias de dor, com pais a ver morrer dois ou três filhos; ou uma criança com oito anos que falece e mantém, na foto, o sorriso de quem não conhece o mistério da morte. Há pessoas que nasceram ainda na monarquia e são enterradas antes da ditadura, outras durante a mesma, e algumas delas chegam ainda a conhecer o que é viver em democracia. Há a campa mais antiga do cemitério (que, pelo que vi até agora, é de 1901) e a mais recente (que era a do meu pai, mas no entretanto deixou de ser). Um dos vizinhos do Vitó, aliás, é alguém que também o era enquanto vivo, o que é uma simetria curiosa. Tudo o que de triste e macambúzio me nasce quando entre naquele local de morte entrega-se ao criador que dentro da minha cabeça sempre construiu histórias e me distraiu com elas. A mente que o meu pai, talvez sem compreender, nunca me tentou negar ou mudar, é a que me ajuda a suportar a sua perda, num local que tem tudo para me afundar.
Devia sentir-me esquisito, mas não sinto. Não sei se é fetiche, talvez não o seja, mas é algo que me ajuda a lidar com a dor. Sempre me apoiei em muletas bem estranhas quando coxeio, e esta é mais uma. Nem me importo. Ele também não. Aliás, com tudo o que de mim viu ou ouviu, até acharia algo bastante normal. Mesmo no meio do seu silêncio, ele nunca foi homem que se deixasse impressionar pelo que saía da minha cabeça. Apenas diria "filho da puta", mas com o tom de quem tinha visto um triplo mortal à rectaguarda feito por uma vespa.
quarta-feira, julho 16, 2014
Pai
A minha mãe não sabe, mas os meses que antecederam a morte do meu pai viram-me a tentar escrever um texto de elogio fúnebre a esse homem que, durante 31 anos, foi um estóico senhor que me teve como filho e mesmo assim, parecia ter orgulho nisso. A ideia não veio de um sentido de homenagem, mas sim de raiva. Quando um homem que é de facto bom morre, o mundo não devia encolher os ombros, e nós que nele vivemos temos a obrigação de subir a um ponto alto e berrar aos vales que a vida ficou mais pobre. Dos poucos funerais a que fui, ficou-me a secura das homilias sacerdotais tão cheias de palavras ocas e de floreados religiosos vazios que nunca conseguem descrever a dor real, e injustiçam quem, num caixão, foi uma vez um homem não só cheio de vida, mas que carregava em si, e sem se preocupar com qualquer tipo de moral bafienta, a noção do que é ser uma excelente pessoa hoje em dia.
Ao longo do tempo, no entanto, acabei por não cumprir essa vontade. Previa que, chegado o dia, eu não estivesse em grandes condições para anunciar como a perda do meu pai era mais do que a morte de alguém; para além disso, outras pessoas precisariam de mim numa capacidade menos oral. Verdade é que não me lembrei muito disto nos dois dias de maratona emocional que marcaram o ritual da ida do meu pai para algures que não o nosso convívio. Passou tudo numa espécie de zumbido estático, cumprimentos maquinais, alguns agradecimentos menos sentidos do que outros. Pessoas chegaram e partiram, algumas conhecidas e outras menos, e ainda um punhado delas cujo simples contacto físico e palavras me levantaram de um buraco menos irredutível do que aquele onde o meu pai se encontra agora. Apenas na manhã do funeral relembrei a urgência de recordar a todos a perda a que assistíamos, e curiosamente, tal aconteceu quando me apercebi de que não era necessário um carril de palavras nessa conclusão. Entrei numa igreja repleta de gente, ainda com mais algumas dezenas de pessoas no exterior. Era uma segunda-feira, dez e meia da manhã e espantei-me com tamanha moldura humana nesta homenagem surda ao Vitó. Isto diz muito sobre como o meu pai era visto e o que deixou por onde passou.
Não tentarei descrever aqui o que tornava o meu pai num homem com falhas, mas, acima de todas elas, num ser humano de coração excepcional. Nem sequer me alongo no tamanho dos seus paradoxos e contradições, que sempre fizeram dele um mistério para mim. Não me lembro de alguma vez tê-lo ouvido referir-se-me com orgulho, mas nunca me senti uma desilusão aos seus olhos: alimentei tal ideia porque jamais me senti à sua altura naquilo que os homens adultos chamam a si quando têm de assumir a responsabilidade de ser também pelo outros. Nenhuma vez falou comigo sobre os factos da vida, mas esteve, de facto, na minha vida. Sem ele, não teria tido uma infância normal e uma adolescência estruturada e só em adulto pude perceber o valor desta situação, quando, como professor, encontrei crianças com vidas destruídas porque os seus pais não tinham sequer um décimo da humanidade e da responsabilidade com que o meu me escudou. As nossas semelhanças não são muitas, e dizia várias vezes, à laia de piada, que em termos literários, não havia para o meu pai vida além do "Correio da Manhã". Ainda assim, tal como eu tentava percebê-lo e ao que o movia, também dei com ele numa noite a vasculhar livros sobre discos voadores que na altura devorava . Não que o meu pai fosse fã das letras, ou sequer da cultura: era alguém muito mais à vontade num mundo pessoal a construir coisas em vez de entendê-las. Mas era nesse mundo que se sentia ele e que sorria, e estranha ironia trágica que os primeiros sintomas da doença lhe tenham tirado precisamente as ferramentas com que construía esse mundo, e o instrumento que lhe permitia comunicar, mesmo que a espaços, o que pensava para além de si mesmo.
O que aprendi com o meu pai não me foi dito. Numa surda compreensão, entendi o que estava certo e errado, o que não deve ser feito e o exemplo de como uma infância difícil e pouco carinhosa não são desculpas para que os filhos sejam uma consequência de tal percalço. O meu pai amou-nos como entendia o que era o amor de um pai, e foi para lá das suas limitações na demanda de não nos ver a ansiar por algo que merecíamos e não tínhamos. Sinto sempre que podia ter vivido bem mais, mas se assim fosse não o teria feito nas suas próprias condições, termos e pormenores. Não teria sido nem o Vitó, nem o Simões, nem o Vitinho. Não teria tido aquela igreja cheia para se despedir, nem provocado choro a homens feitos a tal ponto que um confronto com o seu mortal invólucro fazia nascer a dor mais arrasadora e pungente que revolve vidas pacatas e que se vêem confrontadas com a nossa mortalidade e o absurdo inerente à vida desde que nascemos. Várias vezes ouvi a minha mãe gemer num choro que nada disto era justo. Que a vida não tinha sentido, e que não havia lógica.
A verdade é que não há lógica, e só algo deu sentido à passagem demasiado breve que o meu pai teve por este planeta: nós. O que ele construiu, o que ele deixou. Eu e o meu irmão como projectos de vida que se prolongam e perpetuam a sua memória; a dor da minha mãe como a prova visível do que o meu pai significava para todos; as condolências de uma multidão incapaz de fazer sentido de uma tragédia pessoal maior do que tudo e que ainda assim se juntam para celebrar não a morte de um corpo debilitado, mas sim a frondosidade perene de uma rija árvore que sobre todos nós ainda paira. Em criança, via o meu pai como uma floresta. Tudo o que presenciei nos últimos meses não me rouba isso. No cemitério, todos pensarão na morte. Mas na minha mente,onde o meu pai não morre e está sentado num banco, com os olhos no horizonte de um mar que sempre lhe foi uma cama balouçante onde o mundo parecia, por momentos, ganhar a poesia que não encontrava facilmente nos seus dias, ele continua a ser também uma floresta que paira sobre as ondas, onde posso correr e encontrar-me com ele, ouvindo nos suspiros das folhas tudo o que não me conseguia dizer, e no canto dos pássaros aqueles trejeitos de voz que o tornam no meu pai, e não no vosso.
A partilha do meu pai convosco acaba aqui. O meu egoísmo não deixa que se escape mais. É meu, não na sua morte, mas no que existe para lá da biologia. A da vida secreta das lágrimas. Onde a única coisa que morre é a dor e só para fazer nascer algo de muito mais belo: a vida eterna que o valor de um homem bom permite existir.
Ou seja, no que faz dele um pai, um marido e um amigo que não morre sem ressuscitar. Vence a morte, e ao mesmo tempo sublima a vida. O Vítor nunca se imaginou como alguém maior do que a vida. Mas é isso que o torna muito mais gigante do que a Morte nos pode roubar.
Choro.
domingo, julho 06, 2014
Reticências, dois pontos e ponto e vírgula
Há tempos em que nem sabemos muito bem que dor nos atinge, porque tantas caem sobre o nosso corpo e nem sequer são uma só, continuam a ser várias, e por isso doem cada uma por sua vez. Impossível é dizer muitas vezes qual a dor que nos dói. Podia não interessar, mas conta para, pelo menos e no meio da dormência que inevitável se segue a todo este grito de múltiplas agulhas que me atinge, eu ter alguma sanidade e sentir que o meu cérebro, e tudo o que seja que rege a minha paleta emocional, sabe onde está e o que faz. Enquanto assim não for, todo o dia é santo nas lágrimas e o diabo a sete em tudo o mais. Até me coser com qualquer linha que aperte o que me transborda, estou preso por arames e marioneta do que não domino, mas que, ó injustiça, faz dos meus olhos um domínio desolador. Em qualquer hora se chora, e se verte para fora o que me apodrece por dentro. Em nenhuma altura há esperança, mas ainda não se encontrou uma cavezinha onde more o desespero. Quanto mais se vive, mais se percebe que viver e suportar são mais sinónimos do que apêndices.
Não sou nenhum linguista da existência. Tantas vezes tento descrever o que me revolve, e em quase todas fico aquém de colocar num formato sólido o que não pode ser nem quantificado, nem sequer moldado. É constante o fluir, é impossível agarrar. Sempre pensei que escrever seria a única forma de me sossegar e de sentir que controlo aquilo que ninguém pode guiar. Por isso, os meus textos sempre me pareceram mais acidentes do que qualquer outra descrição. Talvez explique porque há sempre gente que goste de olhar para eles, por vezes até com admiração, mas sinto sempre que não tenho pernas para dançar com a dor. Ela vai sempre ultrapassar-me e crescer até uma altura desmesurada e caótica a perder de vista, fugindo sempre aos meus dedos e à minha imaginação.Fica um pequeno pó no chão, e com pó pouco se constrói e tudo se pode destruir e vergar. O pó dar dor não se aspira: só cresce, num bolor fecundo que come as nossas juntas, corrói o nosso tecido e por fim nos dá a escolher entre ser espectador da nossa destruição ou colaborador no mesmo espectáculo de marionetas onde ela me prende por arames. Nenhum é a escolha certa, mas enquanto o correcto está num local onde não olho, escondo-me atrás de dois errados, que não fazem um certo, mas não me deixam errar em vão.
Por isso me sento sozinho, a não acertar. O meu metro e oitenta seis é pequeno demais para tudo o que me acontece. Que um corpo de ossos e músculos tenha espaço para a existência é o milagre maior do nascimento. Talvez por isso cresçamos: quanto mais se vive, mais se dói. Por isso é que nesta altura, gostava de ter um siamês.
terça-feira, julho 01, 2014
Um dor imperfeita
Eu acordei mais tarde do que o rio, mas é ele quem tem sono. Parece que dorme, parado, estático, a servir-me de espelho. O que vejo não é grande coisa, e aí o sono do rio ganha a todos os meus despertares. É como se as águas se rissem na minha cara, e não precisam de dentes. Aposto que pudesse, o rio usava os peixes na mão e apontava-me um dedo na cara, alinhando as pedras numa dentição perfeita, reluzente e zombateira, como quem se ri das desgraças dos outros certos de que os outros nada mais podem fazer que não seja estar sentado e não ter sono. É cedo demais para estar aqui parado, mas não é como se tenha mais para fazer a não ser memoriar e morder-me os braços na procura de sentir alguma coisa mais que não a quente e cómica flutuação numa imensa piscina de alcatrão. Não sei se estaria melhor a flutuar no rio: o alcatrão sempre me prende a algures, e o meu problema maior é andar à deriva.
Agora que penso melhor, ter como companheira esta torrente de água que, indiferente aos impressionismos da minha cara. se desenrola e abre ao mundo não foi o que se pode chamar de ideia de jeito. A impassibilidade fluvial não se compadece da minha dor. O rio não sente, eu sinto demais, e tento não sentir demais apenas reconhecendo, tarde demais, que não querer sentir é o somatório de várias desistência numa operação cujo resultado é ficar aninhado a um canto a olhar as paredes como se fossem cordas de salvação. Agarrar para si a dor é pedir boleia ao desespero quando se quer apanhar a dormência. Não que o rio entenda isso: ele lá vai, indiferente, e nem sente as curvas, ou os declives, ou os rápidos, ou as barragens. Apenas vai. Gostava de ser assim, de ir, e nem me aperceber das barragens. Infelizmente, existe em mim uma barragem enorme, de reservatório cheio e que só sai de vez em quando. Não explode, mas jamais por falta de acumulação. A mágoa acaba por ser como o cimento, cuja densidade e compressão garante a sua sobrevivência. Nem este decurso aquoso a rebenta ou amacia. Por fora, sou pele; mas por dentro sinto-me esse cimento que me mantém em pé, e ao mesmo tempo faz de mim um tapete onde limpa os pés e continua sujo, podre.
Já vi que o rio não me leva a dor. No máximo transportar-se-á a si mesmo, e só isso é muito. A falta de vontade faz com que me mexa, e os meus pés saem da margem do rio e chegam ao carro. Quando me sento ao volante, penso por momentos precipitar-me sobre o rio, na esperança de me tornar na água que nem de si sabe, mas não quero levar a dor onde ela não é nem pedida, nem necessária. Vivo-a sem ser doença para os outros. Está comigo, na minha barragem, e todos os dias verto um bocadinho, para que não expluda. No carro, a primeira mudança é metida, e este parte rumo a onde quero. Ou seja, parte para onde me parto na esperança de voltar a ser um.
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