terça-feira, outubro 30, 2012

Bobines e bobines e bobines



Ainda existe um estigma em ir ao cinema sozinho. Não conheço praticamente ninguém que não me revire os olhos quando afirmo, e sem qualquer tipo de constrangimento, de que gosto do acto de ir em solitário para o interior de uma sala de cinema. Penso que isso deve ao lado social do cinema, e à maneira como encaramos o mesmo mais como entretenimento do que como arte. Se afirmasse, por exemplo, que me queria sentar no Louve, a ver a Mona Lisa em total solidão ninguém estranharia. Afinal, é uma obra de arte. É pintura, certo? Se é pintura, é arte; o cinema é uma actividade que envolve pipocas e refrescos. O mais próximo que temos de comparação será um piquenique; e é sabido que a não ser que as mãos de Monet estejam envolvidas, um piquenique jamais será arte.

O solitário do cinema tem tudo contra si, a não ser que seja, de facto, um eremita cuja mente se formatou nos planaltos ermos da solidão. Ao cinema, vai-se em grupo. Pares de namorados, magotes de amigos, famílias.. A ida ao cinema é uma experiência comunal, e no entanto, lá vai ele, de certa maneira corajoso, sabendo que não vai simplesmente ver um filme: enfrentará, pois claro, os mesmos espectros que, de todas as maneiras, lhe escapam costumeiros.

Eu gosto de ir ao cinema só, honestamente. Na verdade, tenho descoberto que, tirando uma ou outra ocasião, até me permite analisar melhor o que estou a ver. Tenho uma tendência para me distrair que é lendária, no mesmo sentido em que o desequilíbrio de Alexandra Solnado é lendário, e ter alguém ao meu lado no cinema pode ser o começo de uma bela relação de amizade com a minha verborreia. Tenho gostosos mecanismos de raciocínio instalados na minha cabeça que me tornam um opinador razoavelmente bom; no entanto, também existem em mim outros mecanismos, de auto-sabotagem, que equilibram a balança e me impedem de ser o Kal-El de Ceira.

Reparem bem que comecei por falar em como se tornou infame ir ao cinema sozinho, e onde eu vim parar na torrente da conversa. O melhor é parar.

Ou daqui a pouco, ainda me ponho a discorrer sobre beterrabas.


segunda-feira, outubro 15, 2012

Cordeiros



Reli palavras que te escrevi há alguns meses, e não sei quando fui mais parvo: se na alturas em que as pus num papel, se no momento antes em devia ter sido concreto e achei que um caderno era a melhor forma de mostrar o fogo de artifício de chinês que me deixa a mente embicada quando te olho. Esperar é um trapézio, mas escrever é uma rede de segurança que torna longa a espera. Eterna, mesmo. As palavras não são um atalho, apenas uma longa rotunda que prolongam a circulação, com duas faixas, e cuja saída pode ser muito, muito perigosa pelo trânsito numeroso e persistente.
É mais confortável sentar-me e ler o que te queria dizer. O que pensei que te quis dizer, e o que guardei por adorar jogas às escondidas comigo mesmo. À espera que me marques.
Um dois três Bruno.
Mas continuo escondido. É da maneira que o jogo se prolonga.

sexta-feira, outubro 12, 2012

Acordo com o Diabo


Paulo Portas e a presença dos CDS-PP no Governo lembram-me a lenda sobre o acordo de Roger Bacon com o Diabo, onde em troca de vasto conhecimento científico, o segundo ficaria com a alma do primeiro, excepto se o corpo de Bacon não morresse nem no interior, nem no exterior de um mosteiro. Assim sendo, o monge e cientista inglês passou os últimos dias numa sala construída nas paredes do mosteiro onde professava. A esquizofrenia de Paul Portas é essa mesma sala da parede.

quinta-feira, setembro 27, 2012

"Breaking bad"



Até onde pode chegar um homem movido pelo desespero e pela frustração? A julgar por todo o arco narrativo de "Breaking bad", bem longe. Talvez até um ponto onde esse homem se descobre a si mesmo, na mais estranha das viagens de auto-iluminação que um professor de Química de uma pequena cidade norte-americana pode imaginar na sua vida banal, com uma família normalíssima e um quotidiano que é pouco mais do que trabalhar, ver televisão e beneficiar dos prazeres pequenos, que combatem as desilusões maiores que não se vêem. Como todas as iluminações de clarividência, há um momento charneira que tudo precipita, no caso deste homem a descoberta de um cancro potencialmente terminal. Ora, de modo a garantir a subsistência da família após a sua morte, um esquema surge: cozinhar anfetaminas, usando os seus conhecimentos de Química, e aliar-se a um ex-aluno que as trafica.

É este o mote para "Breaking bad", uma série sobre um caminho para o sonho americano traçado sem bússola, acima de tudo moral. É um percurso de um ponto A para outro ponto qualquer que não se sabe muito bem; e levando até ao limite a moralidade, permite descobrir de que matéria realmente são as pessoas feitas. Num jogo de escondidas consigo mesmo, Walter White, o professor de Química que se vê confrontado com uma escolha extrema, entra numa epopeia, à boa maneira dos herói antigos, em busca, acima de tudo, daquilo que acha que a vida lhe deve. A série, admirada acima de tudo como um thriller moral muito bem esgalhado e a coolness em pessoa, é acima de tudo sobre personagens que pensam que a vida lhes deveu algo durante anos. Seja a mulher de Walter, que por debaixo do seu disfarce de contente com pouco, anseia por outra realidade de conforto; o parceiro de Walter, Jesse Pinkman, deseja coisas que até agora não sabia que queria; e todos os restantes ou são meios ou obstáculos, nada mais.

Todo este percurso é traçado, narrativamente, desde a primeira temporada, com acontecimentos que ramificam uns dez ou vinte episódios mais à frente, sem esforço, mostrando o trabalho excelente efectuado pelos argumentistas da série, em particular Vince Gilligan. Gilligan ganhou proeminência com o seu prolífico trabalho em "The X-Files", tendo assinado alguns dos melhores episódios desta série, onde se podem reconhecer alguns temas e estilos de "Breaking Bad" ("Pusher"emula alguma da tensão cerrada presente no conflitos pessoais de "Breaking bad"; "Memento mori" traça a dor palpável que o cancro pode causar no mundo de alguém; "Monday" é um episódio rashomoniano, onde alguém ljuta uma e outra vez para impedir que a realidade tal como a conhece desabe) e embora as séries pareçam distantes, ambas partilham um gosto pelo imaginário de "americana". Por muito boa que seja a substância, tal como numa reacção química, ela só explode porque existe um catalisador. Se Aaron Paul, no papel de Pinkman, é excelente, e mesmo que mais à fente Giancarlo Esposito crie um memorável vilão em Gus Frings, esta série é do poderoso Bryan Cranston, um mosntro de representação que come a série toda, a digere e atira na nossa cara como uma bala poderosa: a maneira como compõe um Walter White monstruoso, mas terno; egocêntrico, mas dedicado à família; simples na sua ambição, mas complexo nos seus impulsos, é das melhores coisas que a televisão nos oferece. É um espectáculo à parte, e pouco mais há a dizer.

"Breaking bad" tem várias morais a retirar. A que deixo é: não deixem o desespero toldar a vossa vida. Principalmente quando o passado se quer alimentar do vosso futuro.

quinta-feira, setembro 20, 2012



Eu mereço mais do que me quero dar. Sou a pior pessoa a escolher prendas para mim mesmo. Devia haver um fim para os ciclos viciosos, que fazem do vício a única estrada para a felicidade que conhecemos.
Há mel nos favos; mas porque queremos ignorar os ferrões das abelhas, quando são mais do que a doçura que podemos obter?

Vou pensar nisto e já cá volto.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Poderes mágicos



Um sono eterno do Homem é tornar-se naquilo que impossivelmente será que se torne. É esse o apelo das histórias de heróis e de super-heróis, e uma distinção importante entre ambos. Enquanto que os primeiros são reconhecidamente normais, mas amplificados, os segundos são claramente anormais por possuir aquil que para nós reclamamos apenas em sonhos: voam, correm mais rápido do que a luz, são imortais, são indestrutíveis, têm uma força extraordinária. Na nossa visão, são mágicos. Isto porque dois séculos de cientismo nos colocaram na planície da normalidade e do nulo. Somos matéria, e a matéria, como é consabido, apenas é magica se estiver num reactor nuclear ou num bico de Bunsen.

Não podia discordar mais. Nós temos poderes mágicos, e não falo daquele que Paulo Coelho inventa para manter o cash flow constante. O maior deles é o de dar vida aos objectos. Não tento fazer entrar o animismo no mundo das coisas normais; apenas destaco que somos o único ser que consegue carregar os objectos que usa de personalidade. Se forem como eu, não-vivos que vos rodeiam têm a vossa memória, a vossa vida, os vossos pensamentos. De cada vez que os vêem ou tocam, sabem que pertencem claramente ao vosso mundinho que criaram dentro deste maior. Não consigo ser materialista nisto. Sou um verdadeiro sentimentalão, e guardo tralha, apenas porque foi importante para mim. Distingo-a e reconheço-a nas mínimas nódoas e amolgadelas, e lembro-me perfeitamente quando, onde e de que maneira causei o efeito dos seus defeitos.

Foi por isso que enfrentei com uma dor diferente da do meu pai, e da minha mãe, a notícia de que o meu irmão se espetara no Ford Escort Boston cá de casa.Este vetusto bólide, máquina de guerra que conduzo orgulhosamente por entre máquina de alta cilindrada se for preciso, foi o primeiro carro que conduzir. A sua aparente morte estragou-me o dia. Vivi aventuras com aquele carro que posso contar, e outras que nem por isso. Nos cinco anos que dei por mim a dirigir por entre o sítio mais perigoso do nosso país (a sua rede de estradas), foi este veículo a minha cara; o seu velho motor enrugou ainda mais com os meus maus-tratos, e outras rugas surgiram na sua carroçaria. Em cada uma delas, um erro, um pecado, um arrependimento, uma ruga em mim mesmo por pensar no que me aconteceria ao chegar a casa. Aquele carro é um verdadeiro sobrevivente, e um depósito de histórias, secretas ou não, que envolvem toda a gente cá de casa. Já todos bateram ou deram um toque com ele; e no entanto, qual imortal, lá regressa ele, pronto para mais um round, afastando com guinadas uma morte que se anuncia todos os anos, quando chega a data da inspecção. Ouve-se do juiz paterno "É desta que ele chumba", e nunca é.

Gosto de pensar que a máquina sabe que, por muitos outros carros que tenhamos comprado para substituí-lo, ele será a minha preferida, e o pronto-socorro quando as outras claudicam e falham. Aí, ele estará lá fora, estacionado. Foi lá que o encontrei, após ter escapado, garboso, a nova tentativa de assassinato. O motor ainda tosse de vez em quando, a embraiagem é o último nível do "Takeshi's castle", mas ele mexe, e avança. Sem a nossa vida, ele estava morto; mas se ele morresse, a nossa vida era menos vida e mais morte.  Parece estúpido, mas não consigo deixar de pensar nisto assim. É melhor do que julgar que qualquer coisa é facilmente descartável. Isso sim, é mais máquina do que gente.

segunda-feira, agosto 13, 2012

domingo, agosto 05, 2012

Produção Fictícia


Há uma ligação directa entre o teu sorriso e o meu coração a saltar batidas. O cardiograma não explica, mas a minha cabeça sabe bem do que se trata.

sexta-feira, julho 27, 2012

A alma e a gente




Criou polémica, num tempo não muito distante distante, o momento de julgar Leni Riefenstahl na sua morte. A divisão foi notória, e notou-se um certo desnorte nas massas mediáticas, que se confrontavam na visão definitiva desta mulher. Por um lado, eis alguém que só terá tido Albert Speer como superior no esforço de construir uma visão do regime nazi espelhado na arte e na imagem, uma pessoa que contribuiu definitivamente para a eternidade do fascínio com o nazismo, e que, para além disso, tinha tido até uma amizade pessoal com várias figuras do regime alemão, Hitler incluído, nesse período; por outra, surgia uma artista fascinante, uma das cineastas tecnicamente mais dotadas da primeira metade do século XX, pioneira e quase criadora de regras elementares do cinema documental, e que na fase do pós-guerra, quando a associação com o nazismo arruinou uma possível carreira cinematográfica, forjou um interessante percurso fotográfico, na captação da vida marinha e do modo físico de várias tribos africanas. Como julgar uma personalidade com tal complexidade? Alguém cuja obra podemos louvar, admirar e até querer que permaneça escrita na eternidade do tempo que há-de vir, mas que no entanto, tem um passado político questionável, no mínimo? Por onde pegar? O que importa mais: o talento ou a consciência? E quem somos nós para julgar moralmente alguém tão completamente fora do nosso tempo? Somos humanos, pois claro; e fará sempre parte de nós o instinto da superioridade moral e do analfabetismo histórico e temporal. É isso que nos transforma na espécie mais arrogante que já existiu.

Portugal viu-se confrontado com este dilema na semana passada, quando correu pelo Facebook que José Hermano Saraiva, antigo ministro do Estado Novo, e que nunca escondeu não só uma forte simpatia por Salazar, mas também um certo saudosimo do tempo do Estado Novo, tinha falecido. O nosso moderno tribunal social moderno, essa rede social onde boato soa a verdade e qualquer grunho sem a habilidade de pensar complexamente pode ditar sentenças com a certeza própria dos levianos, rapidamente se pronunciou, e os veredictos de culpado e inocente desfilaram, paralelos e em guerra. Em breve, a polémica tornou-se séria, e mostrar pesar pela morte do historiador era passar por simpatizante do fascismo. No dia seguinte, só para reforçar o horror do professor Sarava, este já era comparado aos médicos nazis, sem qualquer tipo de piada. Eu acho fascinante esta aparente... purga que é feita dos homens que colaboraram no Estado Novo, por parte de indivíduos que têm, claramente, uma memória muito corta e vaga, o que é irónico pelo trato que dão a alguém que, num programa específico, visitavas os horizontes dessa mesma memória.

Não tento, sequer, analisar quem foi ou melhor, o que simboliza José Hermano Saraiva. Politicamente, é público para quem trabalhou e quais as suas posições. O espantoso é que nunca o tenha negado, nem sequer feito um mea culpa que muitos outros realizaram sem sinceridade. Pode-se dizer muita coisa dos homens saídos do período mais negro da nossa História do século passado; no entanto, alguns mostraram um carácter que já não existe na democracia, o que não deixa de ser, obviamente, irónico. É incrível também como Saraiva, que, repito, sempre assumiu publicamente as suas ideias e o seu passado, tenha navegado por entre as águas turvas do PREC e do 25 de Novembro, e de todas as intrigas de esquerda (gostoso, quando Cunhal nos quis transformar num estado de tipo estalinista... E viu-se algum desses moralistas a brandir tochas contra o santo comunista português? Claro que não: no imaginário popularucho, a esquerda é uma religião sem ópios, mas com muito povo), transformando-se numa incontornável figura dos nossos media. Um cientista incontornável? Longe disso, para quem faz da ciência histórica uma missão; mas poucos (ninguém, diria) divulgou tanto um gosto pela cultura, pelo saber e pela memória como ele o fez.

Não tenho vergonha de admitir que admiro José Hermano Saraiva, e não tenho qualquer problema com isso... Porque o teria? Tornar tudo o que é histórico num teste ideológico acabará simplesmente com vazio. Toda a gente, e sem exagero, tem um lado negro por onde pegar. Mandela era um terrorista, por exemplo; a Volkswagen, a Siemens e a Hugo Boss trabalharam para os nazis; Miguel Ângelo era um misantropo que odiava mulheres e as considerava seres inferiores; Byron dormiu com a meia-irmã; D. Dinis fornicava com tudo quanto mexia; a religião católica matou milhões de pessoas; o comunismo também; Sá Carneiro foi ministro de Marcelo Caetano; Picasso batia na suas mulheres; Wagner tinha um fascínio por governos ditatoriais, e Beethoven amava a figura de Napoleão; Saramago fez purgas no DN, em jornalistas que não eram comunistas. Quer-se dizer... A sério, podemos estar aqui dias a fio a citar nome, associações e eventos e de uma maneira ou de outra, há uma maldade latente ou uma grande mancha de pecado a cobrir a sua reputação.

Quem quiser julgar os homens moralmente, está no seu direito. No entanto, esse direito acaba quando se começam a julgar outras pessoas por admirarem esses mesmos homens pelas graças do seu trabalho. Eu sou humano.. Também julgo personalidades dessa maneira. Não sou nenhum sacrista ou santo. Mas quanto mais leio sobre homens e vilões, mais me sinto fascinado, e de compreensão aberta, aos pontos que formam uma opinião, e o momento onde um trabalho brilhante ou marcante é esquecido por um pecado, mesmo que grave. Nixon, um presidente profundamente competente na gestão de política interna e externa, deitou tudo isso a perder por causa de Watergate; e é disso de que nos lembramos hoje. Os homens constroem a vida em função da recordação e da memória do futuro. No caso de José Hermano Saraiva, abomino as suas falhas científicas e também o papel que teve durante o Estado Novo; mas acho admirável a maneira como se reinventou e teve a capacidade de renascer numa altura de morte de muitos que estiveram no seu papel, permanecendo no imaginário português como um excelente divulgador cultural que era, sem que o fantasma do "outro tempo" desaparecesse, transformando-o numa figura odiada e amada, em simultâneo, mas de inegável marca. Admiro-o, porque despertou um homem uma curiosidade pelos feitos dos homens e dos tempos, e porque inculcou em mim a mesma queda para o teatral que uso quando ensino História.

Conheço muita gente que passou pelo 25 de Abril como revolucionário, e que hoje se entretém a destruir o país, debicando-o, amolentando-o, acabando com ele. O muito citado presidente da AAC no tempo em que Saraiva era o vilipendiado Ministro da Educação das cargas presidenciais foi, e é, um homem de mão do PS, que passou de cargo em cargo, a construir reputação política, e contribuindo para a teia de interesses que nos destrói, fazendo o percurso contrário ao do comunicador; e para esse não há ameaças ou vaias, mas louvores quando a crise académica surge como motivo de celebração de uma resistência suposta ao regime, verdadeiramente propulsionado por motivos bem mais prosaicos. A História é uma verdade, mas para quem procura ler, e não mandar bitaites; e a memória é essa bruma definitiva, fixada por amnésicos. Coisa gira, esta.

P.S: É curioso que o próprio José Hermano Saraiva tivesse a própria noção das suas limitações e do seu papel, Numa entrevista ao sobrinho, José António Saraiva (um indivíduo asqueroso e chico esperto, esse sim), referiu que não era modéstia quando se referiu ao irmão António José Saraiva (uma das figuras intelectuais mais brilhantes do século passado) como o Sol, sendo ele a Lua. Diz ele: "Não é falsa modéstia dizer que o ele era muito melhor do que eu. Era mesmo assim. Ele tinha uma luz própria, intensa, que iluminava tudo. E eu limitava-me a reflectir a luz dele. Era assim que eu sentia..." Claramente, um homem sem qualquer noção de si próprio.

quarta-feira, julho 18, 2012

A culpa dos prazeres


Há dias em que gosto da dor de me lembrar de ti. Mas apenas porque tem um fim.

sábado, julho 14, 2012

Carris são mais a minha praia


Não sou Marcel Proust, e descobri isto aos 10 anos. Por isso, não uso madalenas para despoletar as minhas torrentes de recordações (também não tenho histórias assim tão interessantes que pensam encher milhares de páginas). Sou bem mais modesto, e nem sequer preciso de pastelaria. Como descobri na quinta-feira, apenas necessito de uma passagem de nível.
Foi numa fortuita passagem pelo Carriço, aldeia já no distrito de Leiria, que tal espécie de local me transportou de regresso à minha infância, habitando o interior de um Peugeot 306 dos antigos. Felizmente para a minha companhia, não se procedeu ao fenómeno físico do rejuvenescimento, pois o embaraço causado teria sido insuportável para mim, cuja barba já me aumenta uns anos precisamente, lá está, porque não sou Marcel Proust.

Uma passagem de nível em particular transportou-me para as minhas férias de crianças, onde a Praia do Pedrógão era o arquipélago das Seychelles da minha família. Consistentemente, durante dez anos ou mais, voltávamos na primeira quinzena de Agosto, período que será para sempre associado a férias no meu calendário biológico. Casa arrendada, meia casa às costas, e a ideia preferida do meu pai para relaxar: passar o dia inteiro na praia, a torrar. Lembro-me de um parque infantil colocado logo à entrada da praia, onde passava a manhã. Lembro-me do Nuno, um rapaz que conheci e com quem partilhei brevemente o entusiasmo pela colecção "Biblioteca do Escuteiro Mirim", e a inveja que senti quando ele me disse que tinha acabado a colecção, sem eu sequer ir a meio. Os vinte volumes que hoje possuo dão-me uma sensação de ter cumprido uma cruzada de infância. Lembro-me de ir ao banho às quatro da tarde, lanchar às quatro e meia, comer um gelado às cinco e picos, e mandar mais um mergulho antes de regressar a casa às sete. Lembro-me de broeiros no Verão, e de pevides daquelas salgadas e que não se encontram nos hiper-mercados hoje, e só podem ser adquiridas na praia. Lembro-me de jogar à bola com um malandro que hoje actua num clube da 1ª Divisão, e de uma sarrafada que lhe dei, e de ter ficado triste depois. Lembro-me da minha avó; e também me lembro do meu avô; e como eles hoje só habitam nestas memórias, é o único sítio onde não me importo de passar horas numa praia ao sol. Lembro-me do "passeio dos tristes", à noite. Lembro-me de uma cassete dos Diapasão, que passava todos os dias, durante um ano específica. Lembro-me de ficar em casa da dona Idalina a ver os Jogos sem Fronteiras, à segunda-feira, e de como ela não se importava. Lembro-me de, já crescido, ter ido ao banho nu no mar, longe de toda a gente. Pelo menos, era o que pensava, até gentes, que não eram de miragem, começarem a passar no areal. Lembro-me de almoçaradas na Mata do Urso, e do quanto odiava aquilo, e do quanto passei a gostar uns 20 anos depois, quando lá voltei mais uma vez, mas para fazer uma cache. Lembro-me de ficar em casa a ver a Volta a Portugal, na hora de calor, e de o Joaquim Gomes ser o meu ciclista preferido. Lembro-me de um futebol com postes feitos de montes de areia. Lembro-me de conseguir dar mais de 1000 toques com uma raquete, e pensar que era o maior da minha aldeia. Lembro-me de ir uma vez ao banho com bandeira vermelha, e ondas duas vezes a minha altura, e me ter sentido bem menos como o maior da minha aldeia.
Lembro-me, acima de tudo, quando não tinha as perturbações nervosas suficientes para alimentar um blog, quanto mais dois.

A maneira como boa parte da nossa infância se pode condensar num pedaço de carris com madeira em redor pode parecer triste e redutor; mas se tivermos em conta as vezes em que a recordação da infância transforma a nossa idade adulta em algo do género, talvez seja apropriado.

quarta-feira, julho 11, 2012

S(O)NS



No dia em que os nossos médicos vão receber um tratamento hagiográfico por parte da imprensa, permitam-me que deixe uma pequena história que se passou comigo este ano.

No início de Outubro, magoei o meu pé. Duas semanas depois, consultei um médico privado, que trabalhava num hospital público, e me reencaminhou para si mesmo. Passou-me uma ecografia para fazer no hospital três meses depois. Eu, convencido de que tinha feito um ligeiro entorse, não me importei.
Em Janeiro, lá estava no hospital e sem ter de esperar eternidades, fui atendido. A médica entrou, acompanhada de uma estagiária, que tirava notas e bebia da sabedoria da sua colega mais velha. Deitei-me na marquesa, e depois de me dizer um olá muito rápido e me perguntar zero acerca do meu problema, continuou a falar do médico X, que estava a faezr não sei o quê e era mau.
A ecografia decorreu como uma mini-aula, sendo o meu pé o acetato. A médica mais velha explicou 1001 maneiras de se desenvencilhar nos ligamentos e ossos do pé e depois deixou a petiz experimentar a diversão. Findada esta, desligou a máquina e comentou com a jovem uns sapatos lindíssimos que vira no dia anterior numa loja no Fórum
E mandou-me embora.
Dentro daquilo que pensei serem os meus direitos, perguntei se havia algum problema no meu pé.
Despreocupadamente, a senhora informou-me que tinha feito uma ruptura de ligamentos. Com o mesmo ar com que falara daqueles sapatos magníficos. Concluiu que quando voltasse ao hospital, me solucionariam o problema. Fisioterapia e assim. Um bom dia e passe bem.
Estou em Julho, e a ecografia que esta senhor fez não estava no sistema informático do hospital, e como o meu médico não pôde consultá-la, marcou-me nova consulta, para a semana. Uma consulta pela qual terei de pagar mais sete euros e meio. Melhor, teria, porque vou prescindir dela. Depois de mais de meio ano, o pé já nem me dói, e parece-me que não há muito que possam fazer por eles agora.
Da próxima vez que um médico se quiser fazer de anjo branco dos portugueses, uma paulada é pouco.

Porque esta pequenina história que contei também é o Serviço Nacional de Saúde.

Auto de fé


Com o passar dos anos, fui aceitando com mais naturalidade que há pessoas possuidoras de opiniões bem distantes das minhas. Não querendo fazer um falso retrato de mim, descrevendo-me como uma pessoa diplomática e cordata, tenho a noção de possuir hoje uma flexibilidade maior para aceitar pontos de vista diferentes dos meus. É algo que se vai conquistando com a idade, e, acima de tudo, conhecendo pessoas mais inteligentes e capazes do que nós em explicar aquilo em que acreditam de forma lógica e coerente. São raras de encontrar, estas pessoas, e sinto-me alguém melhor por ter encontrado até agora um número notável de indivíduos assim. Acredito que conhecer pessoas que são melhores do que nós (e existe sempre alguém melhor do que alguém) faz-nos crescer e evoluir.

Existem, assim, ideias que continuo a abominar, pois não penso haver razão lógica qualquer para que se sustentem. A existência de corridas de touros é uma delas. Outras luminárias tentaram já explicar o fascínio que espetar farpas no lombo de touros exerce sobre pessoas que, seja concedido isso, não se limitam apenas a um estrato social, como argumentam alguns amigos dos animais. Desde o camponês mais ignorante até ao CEO mais ignorante, todos gostam do espectáculo; e não podiam ter arranjado melhor paladino na defesa da causa do que Miguel Sousa Tavares, o indivíduo que negou corrupção no futebol português por parte do seu clube mesmo na cara das evidências, e se entreteve a roubar parágrafos inteiros da sua obra "Equador" ao livro de um par de escritores franceses. A minha antipatia por esta figura é por demais conhecida e a única coisa positiva na sua truculência e falta de senso, anulada a espaços, é a de fazer a sua mãe uma mulher ainda mais extraordinária. Penso que um dia alguém falará da relação que a minha própria mãe tem comigo em termos semelhantes, mas eu, ao menos, não tenho um mau gosto clubístico tão grande.

Como a falta de senso não só não inibe alguém de escrever em jornais, mas até aumenta as suas possibilidades no mundo da crónica jornalística, Tavares publica no Expresso uma crónica semanal, e há umas semanas, o tema foi a destruição do património público do país, na sua vertente animalesca. Touradas, caça, pesca e circos com animais vêem-se zurzidos e enjaulados por este Governo, como se fossem os próprios animais que degradam. Temerariamente, concedo ao homem de voz cava razão num ou noutro ponto menor, como seja o extremismo a que a caça e a pesca, que na sua maioria são feitas por gente que de facto dá uma utilidade às peças capturadas (come-as) sofre de Associações de Direitos de animais. No dia em que um tipo não puder usar uma cana de pesca, algo da nossa natureza morrerá. A Natureza é como é, e a solução para esta se manter é viver num equilíbrio com ela, não alterando a ordem natural das coisas tornando-nos menos capazes do que somos.

Mas depois, entram as restantes actividades, e Sousa Tavares utiliza para defendê-las a lógica economicista que critica nas medidas deste governo, por exemplo. Eu desconheço, de facto, a força económica dos circos, mas reconheço que a tourada é importante, turisticamente, para certas zonas do país. Agora pergunto: que terra de pessoas de bem quer ser conhecida por ter desenvolvido como máximo expoente cultural um espectáculo que degrada, maltrata e mata animais com o único intuito do espectáculo? OU de senhores e senhoras, que vestindo-se à boa maneira dos marialvas, pretendem atingir uma superioridade em relação a algo que nunca terão na vida? É isto uma actividade económica? Hoje em dia, tudo o que seja degradar é uma actividade económica, por isso não estranho que este nobre escriba não distinga as duas coisas; e o mesmo se aplica ao circo, esse espectáculo deprimente, onde os animais são chamados à arena para fazer umas habilidades patetas, e quando retirados dela, recolhem-se a uma jaula, acorrentados e vulgarizados. É incrível como Sousa Tavares gaba a nobreza dos animais, sem se aperceber precisamente de que faz parte dos montanheses de Danton.

A piéce de resistance vem no último parágrafo, onde é lançado o argumento mais comum para defender este género de espectáculos: a tradição. Em relação a isto, e para acabar, digo o costume: Portugal possuiu, ao longo da sua longa História, várias tradições que foram extintas por se considerarem datadas. Uma delas eram os autos de fé, onde pessoas consideradas hereges eram levadas para os largos centrais das cidades, julgadas e queimadas vivas, perante o júbilo da multidão e alegria da assistência. Havia grandes cortejos, e os elementos mais influentes da sociedade apareciam e gostavam. No entanto, algures no século XVIII, achou-se por bem acabar com isso, apesar da sua popularidade e tradições de mais de 300 anos, porque era desumano e idiota. Ficámos com o lamento de se acabar um costume tão bom e antigo, mas a vida é assim; e para além disso, ó Miguel, o Hemingway, que tanto gabou a tauromaquia, também achou que uma boa solução para resolver os problemas da vida era dar um tiro de caçadeira na cabeça. Tira daqui as conclusões que quiseres, pá.

sábado, junho 23, 2012

Ronaldo é a melhor coisa que aconteceu ao mundo desde a criação do mesmo


Vive-se por estes dias em Portugal uma guerra civil, que vai passando despercebida, mas que reflecte, mais do que qualquer grupo ou evento, a nação em que nos tornámos. Falo do confronto quase fratricida em redor da selecção nacional e do seu profeta, um burgesso extremamente talentoso com uma bola nos pés cujo nome é Cristiano Ronaldo. Esgrimem-se opinião contrárias, e quem as dá, não pode voltar atrás. O indivíduo que ouse criticar esse grupo de bravos, excelsos e perfeitos protótipos da perfeição será apedrejado na praça pública das palavras com a mesma força com que Bruno Alves varre as pernas dos adversários. Ou estás connosco, ou contra nós; e se estás contra nós, não podes gostar do teu país, nem orgulhares-te dele. Dizer que Ronaldo desperdiça golos fáceis é um crime; chamares a atenção para as desatenções habituais de João Pereira é mais infame do que o Holocausto; e no fim de contas, o Varela, mesmo sem jogar um rabicho nas partidas onde entrou, marcou um golo de sorte que te deve calar a boca e proibir-te de dizer o que seja dessa malta.

Ora, não é isto uma estupidez? Claro que é; mas é uma estupidez que pedimos e a que não podemos fugir! Afinal, quem é que aceitou este paradigma de ligar os humores e feitos de jogadores de futebol à alma de um país? Fomos nós, ajudados por campanhas publicitárias gigantes e a habitual dedicação da classe política em forjar uma ligação com o povo através do desporto, já que não consegue fazê-lo pela competência das suas decisões. Lentamente, caminhámos durante anos até chegar aqui, desde que o Benfica começou a ter sucesso internacional no tempo do senhor grisalho e moralista. Os feitos de atletas são celebrados ad nauseam pela máquina mediática, de uma forma que não se vê noutras áreas, salvo raras excepções.

Quis-me alguém convencer que não é muito diferente do que acontecia há muitos séculos, quando o país rejubilava com façanhas guerreiras, e batalhas épicas. Por muito que o argumento seja falacioso, não é real, e nunca se poderia chegar ao nível do que se vive agora. Custa-me imaginar Afonso Henriques, saído de zurzir violentamente alguns muçulmanos, ameaçando de porrada um alferes só porque este tinha dito que Gualdim Pais era um mete nojo. Provavelmente, o próprio Gualdim Pais tê-lo-ia feito. Mas se formos aler as crónicas da altura, Gualdim Pais era um Chuck Norris, e quem o insultasse... Bem, estava por verdadeira conta e risco. O que interessa é que já fomos portugueses diferentes na forma como convivemos com as críticas dos outros e a sua diferença. O referido Henriques, afinal, permitiu a coabitação entre cristão, muçulmanos e judeus nas suas cidades, dando direitos a todos (e mais deveres a alguns) e compreendendo assim que isto de sermos uma carneirada não beneficia ninguém. Reconhecendo que os judeus tinham o dinheiro e os muçulmanos um assombroso conhecimento tecnológico, criou as bases para um desenvolvimento, embora lento, de um país recém-criado. Algo que outros reis posteriores viriam a desprezar, para mal dos pecados lusos.

É assim tão necessário ligar a qualidade do nosso país à prestação de 23 atletas? Para um povo que presta atenção a poucas coisas extra futebol, talvez. Os golos de Ronaldo são o banho tónico de ego que alguns precisam, e malhar em pessoas que criticam esses emigrados na Polónia e na Ucrânia talvez seja a única oportunidade que alguns sentem de se sentirem superiores a alguém no seus dia a dia, e pôr em prática um dos desportos preferidos dos portugueses: o "fazer ver", também conhecido como o "eu bem te disse!". Se for este o motivo, estes novos hipsters da bola têm a minha simpatia. Mesmo que há um mês e picos, quando saíram convocatórias, tivessem criticado as mesmas lontras que louvam agora. Não considero nada, nem ninguém acima de qualquer crítica; e espanta-me como num país de classe política tão medíocre (e são eles, que nos representam ao máximo naquilo que interessa no exterior), a maior preocupação seja com uns tipos de que dão o couro pelo país, admita-se isso, mas só durante um mês; depois, voltam aos seus clubes para continuarem a ganhar balúrdios e continuar na crista da onda.

Critiquei e critico o que achar válido nesta selecção, e isso não faz de mim mau português. Um verdadeiro patriota questiona, não louca cegamente. Interroga-se e pensa, não se insere num rebanho. Tenho pena que isso sejam defeitos e não qualidades, neste nosso Portugal. E para mais, isto não é uma questão de vida ou de morte, ou um crime de lesa pátria: é futebol. Apenas e só.

E penso que só Jorge Valdano e Luís Freitas Lobo conseguem ver no futebol mais do que ele realmente é.

domingo, junho 17, 2012

Montejunto, 1982


Numa fase estranha da minha vida, estava determinado em perceber como é que a vida funciona, nos seus meandros e ligações; mas quanto mais respiro e sigo em frente, mais as coisas se me trocam e dão a volta. Planos desfazem-se e ultrapassagens por cima surgem súbitas, alterando tudo o que programo ou julgo acontecer.
É uma lotaria; principalmente quando a última coisa que esperaria me dá a possibilidade de um emprego.
É um fenómeno.

O olfacto da visão

Há qualquer coisa que me seduz em páginas velhas. Estou a falar de um tipo de papel, que hoje não se usa, a fazer lembrar mais a passagem do tempo do que a branquidão dos espaços nebulosos. Tem um cheiro particular, ao contrário da matéria-prima actual, onde as letras parecem mais inscritas do que impressas. A própria leitura possui um gosto místico, como se absorver fosse uma palavra mais apropriada do que ler quando pegamos em tais tomos.
E o melhor é que não perdem o cheiro; nem sequer o prazer do toque. É pequeno, mas se fosse grande, se calhar não era tão meu.

quinta-feira, junho 07, 2012

Grass roots movement


Já por várias vezes esparralhei nesta parede opiniões acerca da obsessão salazarista que nos percorre, como nação e população. A cada medida política que nos desagrada, brandimos memórias desses tempos e apodamos figuras e situações como perfeitamente naturais num período de Estado Novo permanente onde o 25 de Abril foi apenas um soluço. Penso que, de facto, uma passagem de 50 anos não será suficiente para acalmar este medo, ou arma demagógica, conforme o seu foco de contágio. Penso que o Estado Novo ainda se mantém ainda hoje, não o nego, mas de maneiras muito mais subtis, seja no aparelho económico, ou numa atitude esclerosada de maioria moral que nos afecta mais do que pensamos.
No entanto, ao desenrolar-se um dos mais graves incidentes do Portugal democrático, parece impossível não regressar a esses tempos, como inspiração. A história básica e oficial do "caso Relvas" é já conhecida de todos, e vários opinadores com uma superior capacidade de análise que eu não tenho foram divulgando o seu ponto de vista sobre o assunto, muitas vezes até ao ponto de exaustão. Tenho acompanhado a carreira de Miguel Relvas ao de leve, desde os tempos do Barrosismo, e sempre tive a ideia, penso que correcta, de ser um sabujo sem espinha, que sobrevive no mundo político. Graças à sua amizade de muitos anos com o actual Primeiro-Ministro, ocupa agora um dos cargos principais do aparelho de Estado, e de semana em semana, diz asneiras e contradiz-se. É isto, afinal, o ganha-pão de muitos políticos. Faz parte do seu métier. É por isso que cada vez mais os políticos são não o farol dos nossos problemas, mas sim o palhaço que nos entretém e distrai.

Por isso, o que me preocupa em todo este caso, e a sua verdadeira gravidade, não está no facto de poder ter existido uma promiscuidade e conluio entre indivíduos para favorecimento mútuo. É grave, sim; mas não é novidade; e ao contrário de países como Espanha ou Islândia, ou mesmo Itália, o lusitano povo vem apenas para a rua juntar-se e berrar um pouco. A situação não mudará assim. Onde a canalhice de tudo isto assume proporções épicas é na utilização de um sistema de serviços secretos como perdigueiro pessoal. Novamente, não é caso único numa democracia. No cliché mais democrático do mundo, os EUA, J. Edgar Hoover fez isto durante quase 40 anos; a isto mesmo se dedicaram algumas outras democracias ocidentais no período de Guerra Fria. à medida que a desclassificação de documentos secretos é uma realidade, descobrem-se podres que certamente fariam envergonhar gente moralmente elevada; mas a Guerra Fria é uma espécie de área cinzenta no Ocidente, e varre-se para debaixo do tapete. No entanto, ao explodir em pleno século XXI, num mundo aparentememte pacificado, este escândalo rebenta, e as suas implicações vão muito para além de quem jantou com quem, e quem foi investigado.

Em primeiro, até que ponto são permeáveis os nossos serviços de segurança? Se um simples telefonema de um antigo espião é o que basta para serem accionados mecanismos que deviam servir, puramente, a segurança nacional, como podemos confiar nesta salvaguarda tão importante quando a maior parte dos combates de hoje são contra forças clandestinas organizadas? Em segundo, que tipo de influência junto da nossa segurança podem ter indivíduos que não lhe pertenceram? Levam informações quando se instalam nos seus novos e lucrativos empregos? Usam-na para obter vantagens nos seus negócios? Sendo assim, teremos nós, portugueses, privacidade real? Em terceiro, espanta-me a facilidade com quem um membro do Governo, assim de repente, obtém informações sensíveis com o objectivo de condicionar um dos pilares de uma democracia, por muito doente que esteja nos dias de hoje; e também me espanta a cara de pau desse mesmo indivíduo, que contorce uma narrativa para se adaptar a novos acontecimentos descobertos, e lhe é permitido que continue a exercer um cargo que lhe dá poder de decisão sobre algumas das questões que mais dividem o país, como seja a extinção de freguesias. Os limites de confiança que nós temos nos aparelhos governativos forma esticados ao ponto da não existência, e ainda assim, essa linha que já não existe retesa-se, invisível

John Locke é um filósofo político que aprecio bastante. Sei que não está na moda ler filosofia política. É muito mais giro retirar as nossas posições políticas de comediantes e comentadores de sound-bites; no entanto, por muito que eu adore Jon Stewart, Stephen Colbert e, no caso nacional, Ricardo de Araújo Pereira, sei que os fundamentos daquilo que é a teoria do poder de estado vem de obras que radicam em ideias do século XVIII, como as elaboradas por Locke. Nos seus dois Treatises of Government, Locke expõe basicamente tudo aquilo que é contemporâneo, numa altura em que ainda chamaríamos de moderno. A constituição portuguesa é um índice daquilo que o filósofo inglês escreve, e que homens como Silva Carvalho e Miguel Relvas deviam temer. O princípio mais básico é, claro, o do contrato social, que muito sumariamente explica que a única razão pela qual um Governo tem poder se deve ao contrato estabelecido com as massas de que este só estará bem entregue nas mãos de homens capazes, que governam em função da felicidade e bem-estar dos demais. Defendendo que todos temos direito a Vida, Saúde, Liberdade e Posses, Locke seria um crítico deste estado de coisas se por acaso não tem nascido há 200 e tal anos; e no seu Segundo Tratado, deixa ainda claro, com uma lógica implacável, que quando o poder em questão não cumpre o contrato social, a população tem o direito de pegar em armas e deitá-lo abaixo. Também isso existe na constituição portuguesa.

Com tudo isto, ainda bem que Locke não tem telemóvel ou telefone; seria muito chato chamar um cadáver a depôr numa comissão parlamentar.

sexta-feira, junho 01, 2012

Grass roots movement: prólogo


Um dos maiores escândalos do Portugal democrático tem-se desenrolado em frente aos nossos olhos, e a única coisa que os Media nacionais têm feito é montar um circo, a ver quem se arroga em maior palhaço. Amanhã, dsenvolvimentos.

terça-feira, maio 22, 2012

Last House call



É sempre triste quando assistimos ao último episódio de uma série da qual gostamos; mas a noção de "último episódio" pode variar. Por exemplo, o meu "último episódio da série "House M.D." será, talvez, o season finale da 4º temporada. No entanto, para a Fox e mundo no geral, o médico pendurou a sua bengala em definitivo ontem. A nossa diferença de perspectivas assenta num princípio de que já falei por aqui: desde há algum tempo que a série "House" tem sido desinspirada em termos de história, mas interessante em absoluto no confronto épico entre a equipa de argumentistas e Hugh Laurie. Enquanto os primeiros andam há 4 temporadas a tentar destruir um dos personagens de televisão mais complexos, Laurie, com talento e galhardia, tem-no mantido interessante e objecto de curiosidade.

Hoje já não é novidade, mas quando surgiu, "House" era uma série irreverente. Seis anos já deram para nos habituarmos ao rezingão da bengala, mas em 2004, haver um personagem arrogante e abrasivo a liderar uma série era diferente. Não é que fosse a primeira vez que tal acontecia: "Profit", uns anos antes, usara este esquema, mas fora um fracasso. Nas comédias, o esquema é habitual. "Seinfeld" utiliza 4 personagens principais cheiinhas de defeitos e picuinhices, mas a comédia lida melhor com estes personagens como fonte de riso. Agora, o drama televisivo, e ainda por cima hospitalar, a ser varrido por sarcasmo e 
ridicularização? Parecia blasfémia! Mas vingou, provando que o nosso gosto como espectadores mudou bastante. Sem ela, não haveria "Lie to me" ou "The mentalist", entre outras. A grande novidade da série era utilizar precisamente o esquema do procedural médico tradicional, mas concentrando o protagonismo num só personagem, que não podia ser mais diferente do clássico bonzinho de bata branca. Correndo o risco de usar demasiadas características particulares e estranhas (ele toma comprimidos a toda a hora! ele usa uma bengala! ele recusa-se a usar bata), o personagem superou tudo isso para se tornar num símbolo daquilo que gostámos de poder dizer e fazer, mas não conseguimos. De facto, até esquecemos que a principal razão pela qual tudo é permitido a House é, precisamente, por ser parte de um trabalho de ficção.

Gregory House é um médico arrogante, cínico, sarcástico, desagradável e ácido que espalha lemas como "Os pacientes mentem, toda a gente mente" ou "Não é o meu dever gostar dos pacientes, é meu dever curá-los". Trata os doentes que lhe vêm parar às mãos com um desdém incrível pelos seus sentimentos e encara-os como puzzles clínicos prontos a resolver. Ele passa quase toda a série sem exibir qualquer característica visivelmente redentora, a não ser a sua absoluta inteligência, que House vê como um dom que lhe desculpa todos os desvarios. Na verdade, House é muito parecido com Sherlock Holmes, e até a dinâmica existente na série entre House e Wilson, o seu melhor amigo, é muito semelhante à que Arthur Conan Doyle estabeleceu para Holmes e Watson, o seu assistente nos livros. House tem falhas como ser humano, mas o seu carácter é marcado por uma deficiência física, o músculo da barriga da perna esquerda morto devido a falha médica, e uma posterior dependência de comprimidos contra a dor. É um handicap físico que lhe causa as suas falhas como ser humano.

No seu melhor, a criação de David Shore teve um ritmo alucinante com série e alguns dos one-liners mais inspirados da última década. De facto, juntamente com o Rayland Givens de "Justified" e da galeria de personagens das séries de Joss Whedon, Gregory House foi porventura o mais espirituoso personagem num drama da década que passou. No seu pior, quando se decidiu a tornar a sua obra naquilo que precisamente parodiava, "House" transformou-se numa ode a um sentimentalismo bacoco que pouco tinha a ver com o personagem. A falta de inteligência de quem escrevia a lidar com a típica fuga da felicidade de House, sem no entanto deixar de construir um arco narrativo de evolução, levou a que Shore e companhia nunca se decidissem se iam dar alguma felicidade ao personagem, ou o deixavam afundar num poço de negrume; e quando se decidiram por torná-lo feliz, nalgumas poucas vezes, acabavam com essa trama em penadas muito mal amanhadas e que destruíam toda uma mística e credibilidade que tinham construído. Não ajuda que dos secundários, apenas Robert Sean Leonard brilhe (e Lisa Edelstein, nos seus melhores períodos como Cuddy). De resto, apenas Olivia Wilde esboçou alguma reacção; e sempre achei estranho que Omar Epps não conseguisse, em oito temporadas, transformar o seu Eric Foreman em algo que ficasse na memória dos espectadores.

Por isso, não lamento que a série acabe. Na verdade, o seu fim foi há já algum tempo, e apenas se estaria a adiar o inevitável. É pena que um dos projectos mainstream mais interessantes da televisão norte-americana se tivesse desviado do seu curso. O seu último episódio oficial, aliás, tem todos os defeitos que a série foi ganhando, e um final que é simplesmente uma fuga (literal e metafórica) para o destino de House, com partes tão fora da lógica do personagem que não pude deixar de pensar que foi um dos jardineiros da Fox quem escreveu aquilo  Fica, ainda assim, um personagem absolutamente memorável, que servirá certamente de termo de comparação nos tempos futuros. Mas lá está, isto pode não ser verdade. Porque, como todos sabem, "Everybody lies".

terça-feira, maio 15, 2012

Criancices



Ontem, estava eu sentado, descansadamente numa cadeira, quando me passaram uma menina de um ano para os braços. Fiquei sem saber o que reagir. Era como se me tivessem responsabilizado pela integridade de um vaso Ming, pressão que leva os meus apêndices superiores a tornarem-se gelatina durante uns minutos.

Tentei não entrar em pânico, e peguei nela da mesma maneira que tinha visto uns chimpanzés a segurarem nas suas crias há uns anos, no Zoo de Lisboa. Na minha ideia, as crianças até ao ano e meio são muito parecidas com animais, reagindo mais do que raciocinando e sentindo. A criança não desgostou e espantosamente, não se desmanchou num enorme pranto. Talvez porque eu lhe pegava feito chimpanzé, e ter de facto uma parecença corporal com estes bichos. De qualquer forma, eis que um elemento do sexo feminino estava no meu colo e não desatou a fugir. Está um santo para cair no altar.

A petiz olhou-me várias vezes, admirada. Presumo que tenha reconhecido uma daquelas figuras fábulas que lhe lêem em histórias de adormecer. Eu tentava disfarçar algum desconforto. Não estou habituado a ter nas mãos a parcela mais importante da vida de outras pessoas. No entanto, à medida que os segundos passavam, fui achando a coisa engraçada, e a pensar no quão espectacular pode ser um bébé, principalmente quando os outros são responsáveis por tratar das partes mais chatas de tal encargo. Fazer caretas e brincadeiras faz-nos sempre sentir melhor, quando o bébé ri; no entanto, nunca pude deixar de sentir pena dos indivíduos que assoberbam uma criança com tolices, quando se nota que a última coisa que esta precisa é de meia dúzia de adultos a dizer "olá" com voz ajuda e trautear cantigas e lengalengas num linguarejar que teria feito os ursinhos carinhosos virarem para o lado negro, tal a vergonha.

Ora, foi nesta altura de pensamentos cínicos que a mãe adicionou à cena o adereço perfeito: um biberon cheio de leite. Escapou num mistura de ordem e pedido "Tenho de ir lá, dá-lhe de comer", e desapareceu de cena; e eu fique, literalmente, com a menina nos braços. Olhares nas mesas do baptizado viraram-se na minha direcção, como se fosse pedido a Cristiano Ronaldo que recitasse o primeiro canto dos Lusíadas, e a tragédia iminente salivasse os sentidos na esperança do horror. Fiquei como que um boneco, a quem é dado um adereço a meio de uma cena de improvisação. Lá inclinei o biberon e a miúda, num piloto automático admirável, envolveu-o com as suas mãozinhas de cerâmicas e abocanhou a pipeta. Os seus dedinhos ficaram brancos, da força com que se agarravam ao plástico, e por isso, coloquei a minha mão para dar uma ajuda. Estava o cenário montado: Bruno a dar o biberon a uma bébé.

Choveram as bocas do costume, apelou-se ao meu sentido paternal. Respondi com três ou quatro bojardas roçando a ilegalidade segundos as regras de conduta. Mas nos meus braços, uma criaturazinha que tem algum do meu ADN diluído nas veia, era a expressão e a boca mais dorida de como não estou tão distante assim das habilidades paternais quanto penso. Pelo menos, quando tenho de fazer de pai durante vinte minutos. Ajeitei a garota, numa posição mais sentada, e equilibrei-a no meu joelho, esperando que o leite desaparecesse e nada mais sobrasse do que uma memória de fome num plástico

A Carlota acabou e a mãe, vendo isto, nem sequer a retirou dos meus braços. No entanto, achei que a experiência tinha acabado por ali. Passei-a a alguém e levantei-me para me ir embora. O pensamento de eu não ser a única criança na minha existência assustou-me. Por outro lado, talvez tenha sido por isso não houve choro ao meu colo. O reconhecimento imediato de espíritos irmãos é normalmente um anestésico ignorado pela ciência.