terça-feira, fevereiro 12, 2008

E os burros somos nós?


Num inquérito feito a 3000 jovens britânicos, 47% afirmaram que Winston Churchill foi uma personagem de ficção. É bom relembrar que Churchill foi o vencedor da variante britânica do concurso "Grandes portugueses" e espero que aqueles que se alarmaram com o facto de Salazar poder ressuscitar e liderar um exército de Pides num assalto deestemido a Lisboa possam agora descansar em paz. A glória é passageira, como dizia Camões.
Mas a juventude britância não se fica por aqui: 27% dos inquiridos acha que Ricardo Coração de Leão não existiu, o mesmo se sucedendo a Florence Nihtingale, Gandhi, Charles Dickens e Cleópatra. Para equilibrar a coisa, 65% crê que o rei Artur era real e liderava uma Távola Redonda de cavaleiros. Ainda segundo este inquérito, há quem ache que Sherlock Holmes se passeou pela Londres do século XX resolvendo crimes; e que Eleanor Rigby, personagem de uma canção dos Beatles, também era de carne e osso. Robin Hood também saiu da ficção para passar à realidade. Não sabemos se com a aparência de Kevin Costner ou Errol Flynn.
Algo em mim deseja que um inquérito deste tipo seja levado em Portugal, mas o desconhecimento generalizado relativamente ao nosso imaginário mítico-histórico faz-me crer que os resultados não seriam tão engraçados. Claro que podemos considerar esta transfiguração de figuras imaginárias em reais pelo nosso eterno desejo ingénuo de realmente acreditar que as referências que temos do Bem sejam realidad,e num mundo que cada vez mais nos parece dar figuras superficias e cenários de pesadelo. A coragem, audacidade e dedicação de Robin Hood; a inteligência e sagacidade de Sherlock Holmes (que tem um interessante paralelo com outra personagem ficcional dos nossos dias, o doutor Gregory House); o carisma do Rei Artur. A nossa sede de imitar modelos leva-nos a crer que este ssão reais.
Infelizmente, a realidade é muito mais intrincada que qualquer obra de ficção. Que o digam Churchill e Gandhi.

Em terra de cegos

Em 16 anos de escutismo, nunca fui guia ou chefe de uma equipa. Pessoas com ambições ou sede de protagonismo poderiam guardar rancor ao ter algo assim no seu currículo, mas eu sempre aceitei isto como a ordem natural das coisas. Acredito que nem toda a gente pode ser um bom guia ou chefe, e eu muito menos. Antes que comecem "Olha o malandro, com o paleio do costume a botar-se para baixo!", não estou a negar que tenha qualidades. Apenas que aquilo em que sou bom se ajusta mais a alguém que dá o seu contributo numa equipa. Ser líder não é comigo: faltam-me dinamismo, carisma, responsabilidade, optimismo constante... Enfim, tudo aquilo que os bons líderes têm.
Por isso, quando este fim de semana, num curso de formação para dirigentes do CNE, a minha patrulha me elegeu como guia, ri aparvalhadamente; depois entrei numa espécie de sabedoria folcórica psicaélica, para logo a seguir recusar. Insistiram. Sem escolha, revelei-me e expliquei, mais palavra menos palavra, o que escrevi em cima. Escondi apenas um facto: muitos dos meus colegas de patrulha, e a falar a verdade boa parte daqueles que estão a fazer o curso comigo, nunca foram escuteiros. Logo, quando olham para mim, esperam algumas palavras sábias; pedem conselhos; perguntam-me "O que é que tu fazes por lá?", com aqueles olhos de quem acha ir ouvir a última revelação sobre o que é o escutismo, um segredo qualquer que Baden Powell levou para o túmulo e só eu sei. Mas não sei. Não sou sequer o modelo de bom escuteiro, por várias razões que guardarei para um post a ser escrito se um dia já não for mirim. Não tenho respostas, e sobretudo não me sinto confortável quando se espera algo de mim. Tenho uma repetitiva tendência de desiludir as pessoas. É crónico. Sim, é um grande handicap para quem está responsável por um conjunto de miúdos, que olham para nós, seguem o nosso exemplo, querem aprender connosco.
Mas após a insistência, aceitei. Enfim, porque não? Uma novidade. Detesto novidades, mas será que irei experimentá-las quando estiver morto? Além disso, poderei finalmente responder a uma pergunta que me coloco às vezes: que tipo de líder sou eu? Não sei, mas como guia da equipa Cuco, só tenho de ter o cuidado de não levar o nome da equipa a sério e evitar armar-me aos cucos.

Farewell and adieu unto you, Roy Scheider



Quint e Brody foram embora. O "Orca" está por tua conta, Hooper.

sábado, fevereiro 09, 2008

"It´s "Lord of the flies" time now"

Vou estar fora o fim de semana, por causa de um dever que tenho a cumprir, mas não vos deixo abandonados. A substituir-me, aquele que considero ser o padrinho do meu blog: o senhor James Ford, a.k.a Sawyer. As meninas adorarão a mudança, os rapazes também: afinal, isto inclui praticamente toda a gente que visita o meu blog.
E como? Com a vossa própria alcunha, atribuída pelo garanhão himself! Entrem no "Sawyer nickname generator" e saibam de que são realmente feitos. A forma como este homem arranca referências de pop-culture de um largo espaço de nada é um prodígio da natureza. Aproveitem e partilhem com todo o auditório, Lambchops!

http://abc.go.com/primetime/lost/index?pn=nickname

P.S: A interminável capacidade criativa do chesty blond, fica exposta nest vídeo. Não duvidem do seu poder! O meu preferido é, de longe e à larga, "The artist formerly knwown as Hernry Gale". Faz-me ter um ataque de soluçoes interior sempre que o ouço.

Hitch

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

O escritor e as personagens

É público (e se não era, o último post tornou-o) que Woody Allen é dos meus realizadores predilectos. No entanto, nenhuma das sua sobras se encontrava na minha lista de filmes preferidos, pois acho que ele é melhor como argumentista que como realizador propriamente dito. Eu gosto mais de tipos visualmente espantosos e Allen é bastante simples, embora engenhoso, no seu estilo.
No entanto, uma visita ao Youtube lembrou-me de uma obra sua que está, concluí após alugns minutos, nos filmes que mais gosto:"Deconstructing Harry", o último filme de Allen na sua fase "A vida é uma merda do caralho!" e que é um exercício de análise de relações que acabam mal e de tudo o que pode estar mal na personalidade de uma pessoa só possível no mundo de sarcasmo ácido que Allen proporciona. Tudo isto com um grande elenco, como é seu apanágio, e Allen a interpretar, obviamente, um escritor, que passa em paralelo as histórias reais e as suas versões ficcionadas nos seus livros. E um filme com frases como "No, I don't think you're paranoid. I think you're the opposite of paranoid. I think you walk around with the sick delusion that people like you.", ou "Tradition is the illusion of permanence" é e sempre será um grande filme.
Claro que não se aconselha a quem não gosta de Woody Allen. Mas para todos os outros, apreciem uma das melhores cenas do filme, quando Allen desce ao Inferno. Atentem na voz do elevador.

Self loathing jews




Larry David num filme de Woody Allen? Dá vontade de dizer: "I hate myself, but not because I'm jewish!" Quanta neurose pode um filme só suportar?

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

"Le scaphandre et le papillon"


Uma coisa que quem discute cinema gosta de fazer, mesmo que não se aperceba, é a generalização. Eu faço isso, várias vezes. Quando "Le scapahndre et le papillon" saiu, foi estabelecida uma comparação imediata com "Mar adentro", de Alejandro Amenabar, porque ambos tratam de assuntos semelhantes: homens confinados às suas camas, com pouco controlo sobre o seu corpo, embora a sua mente permaneça saudável. "Mar adentro" quis ir para lá do filme sobre o drama de um homem: é, também, um planfleto sobre o direito à eutanásia, visto que essa era a grande luta do personagem principal do filme, o galego Ramón Sampedro.
No entanto, esqueçam-se de "Mar adentro" quando virem este filme: as semelhanças começam e acabam no confinamento dos dois personagens principais. "Le scaphandre et le papillon" é, antes de mais, um evento multi-cultural: realizado por um norte-americano, Julian Schnabel, escrito pelo inglês Ronald Harwood, fotografado pelo polaco Janusz Kaminsky (habitual director de fotografia de Steven Spielberg) e interpretado pelo francês Mathieu Amalric, é um esforço de colaboração que tenta contar a história de Jean-Dominique Auby, o editor francês da "Elle" que, aos 45 anos, é atirado para a cama por um acidente vascular cerebral e acorda preso dentro do próprio corpo (vítima de um síndroma raro conhecido por "locked-in"), completamente lúcido, mas apenas capaz de mexer o olho direito. O filme não escolhe caminhos fáceis: podia ter dado uma grande volta, mostrando o que passava exteriormente a Auby, com os médicos, a família, os amigos, o impacto que este evento tem neles. Mas não: tudo o que vemos é apenas e só a partir da perspectva de Auby; e isto eleva o filme relativamente a "Mar adentro", na minha opinião. Desenrolando-se em duas dimensões (a presente, dentro do hospital, e as memórias da vida de Auby antes do acidente), o filme traça-nos o retrato de um homem que enfrenta o que lhe acontece com um estranho estoicismo. Na verdade, o filme é suportado pelo retorcido sentido de humor da personagem principal, que comenta dentro da sua mente o que vê e o que lhe fazem, rindo por vezes de piadas sobre a sua condição, as quais são censuradas pelos que o rodeiam. Somos conquistados pelo espírito deste homem de forma natural, sem grandes gestos de humanidade destinados a obrigar-nos a reconhecê-lo. E desde comentários aos atributos físicos das enfermeiras, até chamar nomes a pessoas que o vêm ver e tratam como um coitadinho, muitas coisas retiram este homem do cliché do "deficiente".
O filme acompanha o processo através do qual Auby tenta quebrar o seu escafandro e comunicar com o mundo, tornando-se numa borboleta (daí a metáfora que dá título à fita.) Julian Schnabel é acima de tudo pintor (o que ajuda a compreender muitas das metáforas visuais que ao longo do filme nos transmitem a sensação de prisão de Auby), e realizador apenas em part-time, e utiliza maioritariamente o ponto de vista do personagem principal para filmar as situações do filme, com piscares de olhos e tudo (que são essenciais para o filme, não revelo porquê), e isto coloca-nos exactamente onde Schnabel quer: presos com Auby. Nada disto soa a chico-espertismo, o que aumenta o seu efeito. Quando chega a hora de mostrar a vida de um Auby normal, o filme escolhe o pai, a família e a amante para o fazer. Ao colocar uma amante, posta em comparação com esposa devota, Schnabel mostra não ter medo de perder o nosso apoio ao personagem, e sabe que nos tem perfeitamente seguros, mas isso dá azoa momentos bastante desconfortáveis para o espectador. Digo isto de uma forma positiva. Mas é na relação com o pai de Auby (interpretado de forma superlativa, embora em poucas cenas, pelo enorme Max von Sydow) que atingimos o coração real deste filme.

Justamente nomeado para os Óscares em diversas categorias que contribuem grandemente para o sucesso do filme (fotografia, montagem e claro, o argumento de Ronald Harwood, clínico, preciso, baseado na obra homónima que Auby ditou apenas com o olho direito), fica a faltar, tavez aquela para melhor filme, ou mesmo melhor actor. O trabalho de Amalric é espantoso, porque ter de concentrar todo o seu esforço interpretativo no olho direito é um trabalho dificílimo.
E nós estamos lá o tempo todo, nesse esforço.

Constatação

Às vezes, as pessoas não têm nem metade da simpatia daquela que julgam ter. É curioso. Aplica-se a outras qualidades, mas a simpatia tem o seu caso à parte.

Fight Club

Perante a greve de argumentistas que grassa como uma epidemia galopanta (e que, helas, parece estar a conhecer o seu fim... Mantenham-se ligados), aqueles que são obrigados a terem programas originais e não repetições, ainda por cima se esses programas são diários, têm de fazer das tripas coração para criar algo que prenda os espectadores. No caso dos talk-shows, poucos eventos seriam mais espectaculares do que a reunião daqueles que são, indubitavelmente, os três melhores apresentadores de entretenimento da televisão norte-americana: Stepehn Colbert, Jon Stewart e Conan o'Brien. Se essa reunião se der tendo como pano de fundo uma luta de meninos como na Primária, melhor ainda. Os motivos e desfecho são explicados no seguinte vídeo. Quem ganhará?

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

"Sweeney todd"


À primeira vista, juntar um cineasta com o estilo visual de Tim Burton e o género musical pode parecer um erro de casting. No entanto, os mais atentos à obra do realizador devem ter reparado que a principal fronteira entre os dois mundos é o facto de os actores não cantarem. As bandas sonoras de Danny Elfman, em conjunto com o ritmo próprio das obras de Burton, dão um sentido musical a alguns filmes do realizador. Na verdade, Burton tem pelo menos 2 filmes onde há números musicais: "The corpse bride" e "Charlie and the chocolate factory". Podíamos incluir "The nightmare before Christmas", mas apesar da crença geral, Tim Burton NÃO realizou este filme, apesar de a sua imaginação ter sido uma das suas forças motrizes. A responsabilidade é do animador Henry Selick.
"Sweeney Todd" era o musical da Broadway que estava à espera que Burton assumisse finalmente esse talento que lhe estava latente. A história é à medida do realizador: um barbeiro é condenado injustamente por um crime que não cometeu. Depois de alguns anos, regressa à sua cidade, Londres, para se vingar daqueles que lhe roubaram a vida. Tudo iss envolvendpo navalhas da barba e emapadas de carne, com sangue, canibalismo e homicídio à mistura. Isto pode não parecer a matéria da qual se fazem os musicais de palco, mas não foi Filipe la Féria o autor do libreto, mas sim Stephen Sondheim, que é uma espécie de demónio dentro da Broadway.
A partir daqui, Tim Burton apressa-se a construir um território que lhe é familiar (uma Londres do século XIX com a decadência urbana das obras de Charles Dickens e um negro gótico dasde Edgar Allan Poe, o que diz bem daquilo que esta obra entronca em si) e um background com que pode lidar, trata dos números musicais. O filme não embarca em grandes coreografias, com bailarinos aos pulos, antes se centra naquilo que os personagens cantam e nos movimentos cénicos que lhes estão ligados. Isto liga-nos ao musical como história, e não como espectáculo. Para isso, está lá Burton: é o seu toque que eleva toda a hbistória para outra patamar, com hemoglobina a jorrar pelas frincas da casa e personagens que se Sondheim não escreveu com os filmes do realizador em mente, há certamente um elo criativo entre os dois. A forma como encena todo o macabro como uma comédia negríssima, algures entreb o cinema de terror britânico da década de 40 e os seus próprios filmes iniciais (como "Beetlejuice") é espantosa e apesar de não ter visto o musical original, não fiquei com grande vontade. Eu gosto de musicias, mesmo aqueles com coreografias, mas tenho de amiditir que este é o meu tipo de musical.
Os actores não são cantores consumados, mas não precisam de o ser, pois a abordagem de Burton centra-se muito mais na interpretação dramática. Depp, como Sweeney Todd, é perfeito como fantasma ambulante. Todd já está morto bem antes de o filme começar. O seu único objectivo é vingança e se algum sentimento ainda reside dentro dele, é o ódio. Depp, para além de tornar aquilo que diz convincente, transmite esse vazio da personagem através da linguagem corporal, principalmente na economia de movimentos, que só parece mudar com se vê com navalhas de barbear nas mãos. A Miss Lovett de Bonham-Carter é o seu contraponto ideal, uma mulher que rompe os seus limites morais por amor a um homem que não pode amar onde está: um poço vazio e outro cheio. Destaque também para Alan Rickman, a fazer de vilão. Mas hei, é Alan Rickman, certo? Ele podia ler um prontuário que eu estaria boquiaberto a olhar.

Ideal para quem não gosta de musicais tradicionais, para dadores de sangue e pessoas que tenham um sentido de humor muito retorcido. Acreditem, vão precisar de um.

domingo, fevereiro 03, 2008

Há quem já nasça ensinado



Justine Lowe, grávida de cinco meses, estava ansiosa por ver o sue filho no interior do corpo. Quando olha para o ecrã da ecografia, eis que este a decide cumprimentar. Vai longe, o rapaz...

Ai estás? Então, parabéns!

Há mulheres cuj facto de nos relacionarmos com elas implica que uma parte de nós esteja disposta a esperar tudo, mas mesmo tudo. Sejam quais forem as razões. Embora não a conhecendo pessoalmente, acredito que Sarah Silverman é uma delas. Para quem não conhece, é uma menina que fez um filme satírico intitulado "Jesus is magic", que continha canções como "Give the jew grils toys" e "The porn song".
Para além disso, nos últimos MTV movie awards, teve o gosto de teorizar que Paris Hilton, antes de ir para a prisão, tinha pedido para pintarem as barras de celas de pénis, para se sentir mais confortável. Uma doçura de mulher.
Portanto, quando o namorado Jimmy Kimmel, que apresenta um late night talk-show na ABC fez anos e ela fez uma prenda de anos para lhe oferecer em directo, esperava-se algo de tremendo. No entanto, ninguém estava preparado para isto.

Esta mulher é um mimo.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Os abismos da demência


O que se segue é o relato de uma doença que me afecta de há tês anos e meio para cá. Embora não seja considerada pelos médicos como incapacitante, sinto que me dificulta a minha vivência do dia-da-dia, seja no concretizar de pequenas tarefas do quotidiano, seja na relação com as pessoas. Ao ínício, não me apercebi da sua gravidade, e muito menos da sua existência, mas quando se tornou inegável o seu efeito destruidor e malicioso na minha pessoa, tive de admitir que estava doente. Pesquisas recentes declararam-na incurável e sinto que nunca a conseguirei vencer realmente. O meu consolo é de que somos muitos, e espero que o meu testemunho possa ajudá-los a encarar a vida com naturalidade, mesmo com este problema. É possível, eu sei que é. Pelo menos, tento convencer-me disso.

O ataque mais recente começou há dois meses, e prolongou-se. Estava ao computador e li uma notícia no site IMDB: a 4ª season de "Lost" estreia a 31 de Janeiro. Imediatamente se apoderou de mim uma euforia semelhante aos estados mais positivos da doença bipolar. A vontade de trepar paredes apenas foi impedida pelo triste facto de que não sou o Homem-Aranha; e estive a ligeiros segundos de me sentir verdadeiramente feliz. Aliás, foi esse o momento em que me apercebi, para lá de qualquer outra explicação, que o mal dormente despertara novamente e estava a ter um ataque avassalador e impiedoso da Lostomania

Ao início, aqueles à minha volta julgaram que eu estava a alarmar-me por nada. Há uma piada recorrente sobre mim referindo-se à minha hipocondria. "Quantas doenças já tiveste tu nos últimos anos? Ele foi o sarampo Green Day; ele foi a Indianacela; ele foi a hepatite Zodiac; tu és uma minha de ouro para a indústria farmacêutica!" No entanto, tiveram de se convencer que estava a falar a sério: dava por mim a meter "Lost" em conversas que não tinham nada a ver com o assunto ("E esta medida do Governo de fechar uma série de maternidades? Acham que os Others podem estar ligados a isto por causa do problema com as mulheres grávidas?"), queria baptizar o meu cão de Locke, em honra de um dos personagens da série; tinha crises semelhantes às de Tourette, onde apodava todos aqueles que não vêem "Lost" de "ceguetas, burros que não sabem o que estão a perder"; ou dizia coisas tão assustadoras como "Prefiro um episódio de "Lost" a uma rapariga."

Procurei ajuda. Tentei arranjar vida fora de "Lost", encontrar-me com pessoas, com raparigas. Tentar voltar a ser um homem normal. Infelizmente, não resultava. Via "Lost" em todo lado e quando tse referia algo da doença, reagia com aspereza. Alguém que disse "Um gajo no outro dia disse que eu era parecida com a Kate do "Lost", foi recebida com um "Mas tu estás doida ou parva? Alguma vez te podias parecer com a Kate???" Embrenhei-me em trabalho, mas começava sempre o meu processo de ter ideias para as tarefas com a pergunta "Mas como é que poderei enfiar "Lost nisto"?"; quis ir para a droga, mas à cabeça vinham-me imagens do Charlie na estação Through the looking glass. Nada me desviava do procesos de auto-destruição que tomava conta de mim.

Foi então que chegou 31 de Janeiro. Estava no auge da doença: suores frios, sobre-excitação, o pensamento de que enquanto eu estava a conduzir, alguém, do outro lado do Atlântico, já estava a saber o que acontecia afinal depis de o Jack comunicar com o navio. Um instinto homicida apoderava-se de mim e colocava em risco qualquer condutor que se cruzasse comigo pelo caminho. Mal cheguei a casa, corri para a sala do computador e deixei um recado ao meu irmão, para que tirasse "Lost" assim que acordasse, como se uma divindade qualquer me tivesse dito aquilo ao ouvido e o mundo acabasse se ele não cumprisse essa tarefa. Mesmo enquanto adormecia, passou-me pela cabeça estar até às tantas à espera que alguém metesse o episódio na net e eu fosse o primeiro em Portugal a tirá-lo e a vê-lo. Mal acordei, nem pensei no pequeno-almoço: estaria já o episódio sacado? Desilusão suicida: não.

Revoravoltas e mais reviravoltas, caminhei para um lado e para o outro, tive visiões messiânicas do Eusébio rejuvenescido 40 anos e mostrando aos jogadores do Benfica como se joga à bola.

No momento, em que realmente senti o episódio nas mãos, a doença estava a cavalgar-me pela sveias e cedi ao seu controlo. Abri o ficheiro, carreguei "Play" e quando ouvi aquela voz familiar a dizer "Previously, on LOST...", estive perto do orgasmo.

O que se passou nas horas seguintes é um borrão na minha cabeça. Quando dei por mim, estava a patinar pela Sá da Bandeira abaixo, com um sombrero na cabeça, todo nu e uma guitarra às costas, gritando "You all everybody! You all everybody!"

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Errata

A Raquel fez bem em alertar-me, pois esqueci-me de avisar quando escrevi o texto: a crítica ao filme "Into the wild" tem valentes spoilers, capazes de fazer crescer em vocês um instinto homicida relativamente à minha pessoa. POrtanto, não leiam se quiserem ver o filme completamente em branco ou não conhecerem a história verídica que lhe dá origem. Obrigado.

Parece que sim, que é já amanhã

quarta-feira, janeiro 30, 2008

"Into the wild"


Um rapaz saído da universidade está farto da vida que leva, das mentiras à sua volta, da artificialidade do seu mundo. O que decide então fazer? Munido de uma mochila, decide ir à boleia até ao Alasca.
Esta é a história que dá origem ao filme "Into the wild", de Sean Penn. O rapaz é Christopher McCandless e esta sua decisão, e posterior concretização dessa mesma decisão, já inspiraram outras adaptações. Na verdade, este facto está umbilicalmente ligado a este blog. A primeira vez que ouvi falar dela foi num episódio da série "Millennium", cujo tíutlo era precisamente "Luminary", que, para quem não repara, é o nick com que assino os meus posts e comentários noutros blogs. O facto de alguém, de livre e espontânea vontade, abandonar tudo o que tem e lançar-se à aventura, fascinou-me, e tem tudo para fascinar qualquer um habituado a viver num mundo de rotina onde nada muda. Que alguém tenha a coragem de quebrar essa rotina e fazer algo de tão radicalmente diferente desperta algo em nós.
Despertou, definitivamente, em Sean Penn, que andou dez anos para fazer este filme. Durante esta década em que certamente demorou a convencer quem lhe financiasse uma fita que tem mito pouco de convencional, teve tempo para se deter nas razões que levam alguém a cortar os laços com tudo o que conhece. Mostra.nos um rapaz fascinado com livros, com aquilo que os outros dizem, que sonha viver algo superior a ele e parece sentir um apelo qualquer que o lança em frente.
McCandless permanece uma contradição longo do filme todo. Dá desculpas para a sua obsessão em querer chegar ao Alasca: primeiro, o mau ambiente familiar; depois, a insatisfação com a sua vida e a procura de uma felicidade sua; por fim, o puro apelo da natureza. A história, que inclui narrações em off de McCandless e da sua irmã mais nova, começa in media res, já com o personagem a chegar ao Alasca, e utiliza o artifício do flashback, para nos relatar as desventuras de McCandless pelo percurso. Estas vão desde o espantoso (descer o rio Colorado em caiaque até ao Golfo do México), à experiência de vida (trabalhar para um latifundiário de espírito livre, interpretado por Vince Vaughn) e ao tocante (os encontros com um casal de hippies, um velho que se fechou para o mundo e uma jovem cantora de um acampamento de hippies). McCandless tem realmente a oporutnidade de nos mostrar que sim, que ele tem razão. Mas estranhamente, apesar de tocar na vida das pessoas, foge delas, obcecado com a sua grande aventura no Alasca. É aqui que reside ao mesmo tempo a força e fraqueza de "Into the wild": se por um lado Penn nos permite olhar para McCandless e concordar ou discordar dele, conforme a nossa visão de vida, por outro não resiste a torná-lo num herói e um exemplo, mesmo quando parece óbvio que estamos perante alguém que é inteligente, destemido, arrojado, mas que é afinal de contas um adolescente e está a fugir a problemas através de um grande artifício. Isto torna-se evidente que McCandless não consegue aceitar que é mais útil aos outros estando com eles, e não partindo em busca de um objectivo pessoal que se vai tornando cada vez menos necessário quando ele provou o seu ponto de vista e arranja realmente uma maneira de viver que lhe agrada. McCandless parece procurar a solidão e chega ao final do filme a concluir que a felicidade só é plena quando partilhada pelos outros. No fim de contas, ele deu uma grande volta para concluir algo que já sabia. Deixar a irmã para trás, quando ela mais precisava dele perante a azeda relação entre os pais, prova o quanto a sua obsessão o leva a esquecer-se disso. E no momento final do filme, em que o jovem está prestes a expirar e imagina o que estarão aqueles que encontrou nas suas viagens a fazer nesse instante, essa parece ser a lição mais óbvia do filme.
Admito que tinha alguma reservas realtivamente a Penn como realizador, ainda para mais quando me parecia exagero a quantidade de louvores e nomeações que este recebia num ano com tão bons filmes. Mas estava errado: visualmente, Penn está excelente. Claro que há 3 factores que ajudam a isto: a magnífica direcção de fotografia de Eric Gautier, que consegue uma luz e enquadramentos excepcionais; a montagem de Jay Cassidy, precisa e de certa forma selvagem; e claro, o outro personagem principal do filme, e porventura o grande recado subtil deste: a paisagem norte-americana, com as montanha,s os desertos, as extensões nevadas e as suas personagens, que tornam o país tão complexo. Visto no grande ecrã, há planos que são de cortar a respiração e Penn sente mesmo o que está a filmar, deslumbra o espectador com as belas imagens que consegue e amplia assim a odisseia do personagem cuja história conta. Claro que há falhas: se Penn cortasse meia hora ao filme, não se perdia nada, e por vezes, perde-se em pormenores de realização que são visualmente cool, mas que não adiantam nada à história, antes a enfraquecem. No entanto, o sentido épico de paisagem, reminiscente de Terrence Mallick (o homem de "Balanns", "Days in heaven" e "The thin red line", todos eles filmes que as grandes paisagenjogam um papel importante) e a excelente direcção de actore,s que advém da qualidade própria como intérprete. É aqui que entra a nossa ligação com o filme, o actor Emile Hirsch, que está espantoso como Christopher McCandless. Para além de desempenhar todas as acrobacias físicas do filme, e os desafios fisiológicos que a fome acarreta, é também exemplar na demonstração conjjunta de raiva com a vida e aquele optimismo estúpido que caracteriza aqueles que pensam saber a verdade sobre a vida. Entre os secundário, destaque para o nomeado para o Óscar Hal Holbrook, que acrescenta ao seu Ron Franz, militar reformado que perdeu mulher e filho e se echou para o mundo, uma sensibilidade extra que não estava no argumento. Isso é a marca de um grande actor.
Uma das coisas mais importantes que aprendi na vida foi de que mais importante que o ponto de partida e o de chegada, é o percuso que se faz entre os dois. Acredito nisso; McCandless nem por isso, apesar de ser a prova viva da verdade desta teoria. Quando se apercceu disso, passou de prova viva a prova morta. Da forma mais prosaica, estava a 20 quilómetros de um centro civilizado quando morreu. Não se encontrava toalmente no meio de nenhures, no lado selvagem: estava perto de nós. Por isso alguns acreditam que, ne verdade, tudo foi uma espécie de suicídio, que só morre à fome quem quer. Sean Penn acha que ele é um herói e morreu levando a sério tudo o que acreditava. Eu acho que ele, como qualquer um que tem sonhos, não vê bem os obstáculos do caminho.; e assim sendo, morreu sob o peso deles. A vida e as suas consequências: há poucas coisas mais naturais e selvagens que isto.

Rappers do norte

terça-feira, janeiro 29, 2008

Os parvos


Quem lê este blog, sabe que sou escuteiro. Gosto de o ser, por razões pessoais, mas sou bem capaz de apontar o dedo a falhas no movimento e pessoas dentro do movimento, como também já o fiz aqui várias vezes. Também tenho sentido de humor. Já brinquei com o escutismo e já me ri com brincadeiras acerca do escutismo. De facto, acho que o famoso sketch "A minha vida dava filme indiano", do Gato Fedorento, é brilhante a convocar o estereótipo generalizado acerca do escuteiros para conseguir uma piada muito bem conseguida, que nada tem a ver com uma crítica ao escutismo. E até podia ter a ver: critiquem o escutismo, não me afecta pessoalmente. Continuarei lá até me sentir satisfeito e em simultâneo, usarei o adjectivo mirim e rirei de algumas parvoíves que alguns escuteiros fazem.
Uma cadeia de lojas, a Media Markt, decidiu faezr um anúncio baseado no conceito "quem não é parvo, compra nas referidas lojas". Para isso, reúne vários estereótipos da parvoíce: a Miss loura; o militar, o político; e o escuteiro. Como sempre, o escuteiro é o parvo. Mas se nos três primeiros casos eu compreendo como surge a associação básica e primária com a parvoíce, gostava de saber onde isto entronca na condição escuta. Vejamos: a sociedade em geral reconhece-nos desembaraço manual, certo? Certo; a sociedade em geral reconhece que somos um grupo com valoes definidos e bem ordenados, logo supostamente coerentes (reparem no supostamente)? Reconhece; temos dezenas de milhares de pessoas nas nossas fileiras, certo? E seria uma idiotice estatística considerar que são todas parvas, certo? Certo.
Portanto, sobram-me várias hipóteses: os escuteiros são, por norma, religiosos. A minha opinião sobre a religião é por demais conhecida, mas se é essa a razão pela qual somos parvos, a Media Markt parece desconhecer que mais de 90% da população partilha essa fé e, claramente, vão fazer um mau negócio aqui. Há também a farda. Sim, é cómica, mas já alguém viu o equipamento das selecções de rugby? Alguém goza com eles? Não; é por cantarmos? A música é uma coisa parva? Porque se for, não quero viver neste mundo.
Se me conseguirem explicar qual a origem do estereótipo da parvoíce e ele me parecer lógico, estou à vontade para concordar com toda a gente que sorri quando se fala nos escuteiros. A sério. Eu nem me sinto ofendido pelo anúncio: não adianta nada à ideia generalizada que há sobre o escutismo, e posso garantir que há escuteiros mesmo parvos. Eu sou, obviamente, um deles, mas há quem me supere. Na realidade, pelo facilitismo com que se pega na figura do escuteiro, o maior parvo acaba por ser a empresa que contratou os publicitários que idealizaram o anúncio. Qualquer escuteiro parvo faria uma coisa daquelas num Fogo de Conselho, e sem ser pago.

Parece que sim, que só faltam 3 dias