sexta-feira, março 28, 2008

Teasing

quarta-feira, março 26, 2008

Benning


Benjamin Linus, da série "Lost", é proventura o melhor vilão da actualidade televisiva. A sua vilania vai para lá da mesquinhez dos seus actos e da incapacidade que temos em confiar nele: o facto de conseguir ler perfeitamente as pessoas e conseguir prever os seus actos futuros baseado nessa habilidade é o que mais arrepia e aspecto e, num mundo onde existe um monstro de fumo negro, complicações magnéticas, baralhações do continuum espaço/tempo e um homem que tem flashes do tempo que há-de vir, essa é a parte mais sobrenatural de "Lost". Porque ninguém consegue ler as pessoas de forma tão clara.
Conheço uma ou outra pessoa que o fazem razoavelmente bem. Espanta-me a maneira como o fazem, mas acertam nas suas previsões. Algum calo de relações humanas ou simplesmente perspicácia natural ajudam a explicá-lo. Escusado será dizer que eu não tenho nem uma, nem outra. À minha incapacidade de ler pessoas, junta-se o facto de estas serem todas complicadas e imprevisíveis. Quando se julga conhecer alguém, eis que nos puxam o tapete debaixo dos pés e ficamos ali no chão, à nora, sem saber muito bem o que se passou. Mas não vimos isso chegar.
Ora, nos últimos tempos, tenho-me abstido de falar de um assunto que era o pão nosso de cada dia desde o início deste blog: a minha vida pessoal, suas desventuras e o eterno Mar dos Supersargaços em que esta navega. Foi propositado, até porque tinha assunto sobre o qual escrever. No entanto, tomei a decisão de que algumas coisas que sentia e vivia devia guardá-las para mim. Uma opção. Continuo a achar isso, mas algumas reflexões que tive durante esse período andam a saltar demasiado alto para que as continue a prender com uma corrente, como faço ao meu cão.
Começo por frisar desde já um facto na minha personalidade que é por demais evidente: sou emocionalmente imaturo. Algumas mulheres mais espirituosas terão logo a piada "Claro, és homem", mas isto mostra que, além de gostarem da piada fácil, têm muito pouca capacidade de auto-análise. A minha imaturidade emocional, que me faz, aos 25 anos, lidar com os sentimentos como se tivesse 12, é normal: eu não lido muito com pessoas, ainda por cima no caso de sentimentos ais extremos. Por isso, aprendi algo que é universalmente conhecido: quando raspamos em alguém de forma mais intensa, mesmo que seja por pouco tempo ou com intenções que nada têm a ver com sentimentos, não podemos prever o resultado. Só uma obrigatoriedade, que é a de que vamos arranjar problemas. Para nós e para a outra pessoa. É inevitável, é tão certo como o Edcarlos falhar aquele golo de baliza aberta. Eu pensava que não, mas é verdade, verdadinha.
Uma outra ideia que tinha era a de que só eu é que era emocionalmente imaturo, ou que tinha incapacidade em lidar com os meus sentimentos e os dos outros. Ok, sou egocêntrico. Já sei, não precisam olhar co esse ar reprovador. Há mais gente assim. O interessante é encontrar pessoas que não são nem melhore,s nem piores do que eu a lidar com o que sentem. São apenas diferentes, e nós temos de expandir a nossa mente se quisermos perceber porque é que algumas pessoas agem da maneira como agem. Por ves, há que pareça estar desculpar-se perante nós, quando na verdade está a dar desculpas a si própria. Eu sei o que isso é, também me acontece. Mas eu estou aqui a admitir isso.
Ok, afinal não sou tão emocionalmente imaturo como penso. Podia ser bem pior.
Por fim, para não alongar mais isto, descobrir que não somos aquilo que dizemos ser é interessante. Cria um dilema moral que dá dores de barriga (literalmente), mas uma vez que nos habituamos, percebemos que há mais na vida do que aquilo que está no ecrã de um computador. Não que passemos a perceber melhor as pessoas por causa disso, mas de repente, a vida parece-nos mais suportável e andamos mais calmos durante um tempo.

Ah, uma lição extra: o Dr. Dre, através do Ben Folds, tem toda a razão. Não é, Vitó?

sexta-feira, março 21, 2008

Satisfação pessoal

Estou sem telemóvel há uma semana e posso dizer, orgulhosamente, que ainda não entrei em paranóia, nem me deu vontade de bater num professor.
Acho nalgumas coisas que ainda pertenço ao século XIX . Quando eu entrar na modernida, ou seja começar a trepar pelas paredes, avisarei. Até lá, a novela continua.

Perfil: Jesus Cristo


Não é fácil ser o Messias. Que o digas Jesus Cristo. "O pior mesmo é quando nem nos chamam pelo nosso nome. A minha mãe baptizou-me de Emanuel!" queixa-se, meio a brincar. De facto, a alcunha vem do seu tempo de convivência com os apóstolos, ou como Jesus gosta de recordar, "Um pouco como a série "Entourage", mas sem Hollywood". Cristo tinha uma péssima pronúncia francesa, pois nunca andara na escola. Em vez de dizer "Je suis", dizia "Je sus". E a coisa pegou. Pedro foi o principal responsável. Galhofeiro como era, tratou logo de espalhar a brincadeira por toda a Galileia. O próprio Cristo só se apercebeu quando foi aclamado em ramos por Jerusalém. Por isso é que inicialmente nem pensou ser ele o Messias. Pensara que, na realidade, era um vizinho seu chamado Brian.

Quando estamos prestes a comemorar 2008 anos sobre a sua morte, Jesus relembra como um dos jantares mais conhecidos de sempre esteve até para não acontecer: "O Tiago estava para reservar o restaurante, mas entretanto, um centurião tinha conquistado a Dalmácia e de repente, havia comezainas por todo o lado. Apenas arranjámos aquele à última hora, porque eu conhecia o dono e ocasionalmente, transformava-lhe alguns barris de água em vinho."
Sempre que é entrevistado, a sua recusa em falar em todo o processo que conduziu à sua execução é clara: "Não gosto de alimentar polémicas sobre o estado da justiça na Palestina." No entanto, adianta que o Sinédrio não terá conduzido o processo da melhor maneira, e que Pilatos era, nas suas palavras, "um banana." E não fala da ressurreição, porque "os verdadeiros mágicos não revelam os seus segredos." Adianta, porém, que guardar o seu corpo físico depois da morte foi uma prerrogativa de que não abdicou: "A mente pode ter as ideias e as aspirações todas, mas o corpo é que se diverte."

No entanto, Cristo revela-se frontal em tudo o resto. Quando instado a comentar o trabalho de outros colegas, não há papas na língua: "Maomé é um porreiro, um amigalhão, mas irrita-se com facilidade. Mas eu percebo-o: se eu tivesse milhões de pessoas a deturpar a minha mensagem, também ficava naquele estado. O Buda é muito mais calmo, é um parceiro de sueca extraordinário, porque nunca sabemos o que está a pensar. No entanto, ultimamente, tem andado mais tenso. No outro dia, apanhámo-lo mesmo a dizer "Bolas", só para verem o grau de exasperação a que chegou." Comentando também o cristianismo hoje, Jesus é claro: "Podia estar melhor. Se eu quisesse que fôssemos todos extremistas, não me teria chateado com os fariseus e deixava tudo como estava. Acham que isto tem piada?", pergunta-nos, mostrando as chagas. "Quando vou fazer jogging com o meu pai, começa a doer a partir de uma certa altura e ele farta-se de gozar comigo, a correr de costas. Como pensam que me sinto quando um velhote com centenas de milhar de anos me ganha numa corrida?"
Sobre Maria Madalena: "Não confirmo, nem desminto. O Dan Brown é que é esperto!"
No final da entrevista, Jesus Cristo exigiu que lhe fizéssemos um inquérito de Verão, embora estejamos a entrar apenas na Primavera. "Famoso que é famoso tem de responder a um inquérito de Verão nos dias que correm. E quem é o gajo mais famoso do mundo, quem é?" questiona, enquanto aponta discretamente para si.

Local para uma férias de sonho: "O Lago Tiberíades. Se não fosse isto da missão messiânica, ia viver para lá. Mas lá está, deixava de ser um local de férias se lá morasse."

Com quem não passaria férias: "Com o Herodes. Chatinho, o homem."

Praia ou campo?: "Campo. Já tive areia que chegue, e para tirar aquilo no banho, não é nada fácil. Perdia mais tempo nisso do que a compôr parábolas."

Que roupa usa mais no Verão?: "Túnica branca. Espera, isso uso eu todo o ano."

Comida e bebida preferidas: "O pão e o vinho. Desculpem, sou um nostálgico."

Livro preferido: "Neste momento, ando a reler a obra completa de Arthur C. Clarke. Falei com o tipo ontem e ele moeu-me a cabeça! Mas normalmente, gosto de coisas mais ligeirinhas, como os livros em que inventam sobre a minha vida. Gosto de me rir, sobretudo, sou um amigo da paródia. Na verdade, fui eu que inspirei a ideia de Santana Lopes ter sido primeiro-ministro. Não pensei era que as pessoas acreditassem que a brincadeira era a sério."

Filme preferido: "Academia da Polícia 5". Estou a brincar, eu disse que era um gozão. Gosto muito do "Fight club", porque me lembra a camaradagem masculina do apostolado; e também do "E.T" e "Alien Ressurrection", porque nunca tive oportunidade de ver alguém a ressuscitar do lado de fora. No entanto, não apreciei "A paixão de Cristo". Se eu tivesse levado uma coça daquelas, nem comigo podia, quanto mais com a cruz. O Mel Gibson precisava de andar com um mono de madeira com 300 e tal quilos no lombo. Aí, ia ver o que era."

Banda preferida: "Adoro Jesus and Mary Chains. Também estou muito numa onda de Madredeus, ultimamente."

Se não tivesse esta profissão, qual escolheria?: "Carpinteiro. Tinha muito jeito para aquilo, mas infelizmente, não pude conciliar."

O que espera que Deus lhe diga quando entrar no céu?: "Só agora?"

La mala educacion


Não sei qual o ângulo pelo qual devo abordar o caso da professora "brutalizada." Normalmente, quando escrevo neste blog sobre casos da vida real a sério, retorço-os um bocado, acabando por dar um toque de humor negro à coisa. O problema é que toda esta situação é um desfile de anedotices pegadas.
Quando leio a palavra brutalizada, espero algo de violento. Imaginei a professora a levar estalos, ou a ser deitada ao chão. Isso sou eu, que tenho sempre expectativas altas. Em vez disso, ela anda de um lado para o outro, como uma aluna a tiracolo, a gritar agarrada ao telemóvel e a berrar como se tivesse 2 anos e quisesse o biberão, só que utilizando vocabulário extremo que, nem mesmo nos dias de hoje, crianças de 2 anos conhecem. Claro que o verbo "brutalizar" fica sempre bem na venda de uma notícia, principalmente quando somos o "Expresso".
Não estou aqui a desdramatizar o caso: a miúda não merecia um par de estalos, merecia que a Inquisição Espanhola aparecesse e a levasse por uns minutos. Na verdade, toda a turma merece isso. O rapaz que filma o acontecimento com um telemóvel (o que dá um tom irónico à situação) ri-se, comenta alarvemente o que se passa, chama "gorda" e "estúpida" a duas colegas que se colocam à frente da câmara, apenas porque querem afastar a colega da docente... Enfim, um festival.
A DREN (Direcção Regional de Educação do Norte) parece não ter Internet, ou saber o que é o Youtube, pois disse não ter conhecimento da situação até hoje de manhã, quando uma cidadã enviou um e-mail à instituição. O próprio Conselho Executivo da escola Carolina Michaelis no Porto (que ou muito me engano, ou ficou classificada no último top das dez melhores escolas públicas do país, caindo assim o velho mito que estas situações só se dão em bairros de delinquentes ou estabelecimentos de ensino perdidos no meio de lugares onde a civilização não chegou) só teve conhecimento através da própria DREN, o que deixará os professores da escola extremamente descansados. E pelos comentários que li ao vídeo no Youtube, vamos ter aqui grandes discussões sobre a forma como educamos as nossas crianças, mas pelos caminhos errados: em vez de abordarmos o laxismo com que se trata a avaliação dos alunos; e o falhanço do sistema de ensino como forma de integrá-los a todos de maneira semelhante; e a formação deficiente e teórica dos docentes; e a própria acção dos pais junto dos filhos; em vez disso, grita-se que nunca deviam ter sido retirados crucifixos das escolas, e que as penas físicas deviam voltar.

Peço desculpa: tentei não anedotizar isto, mas eu avisei que seria impossível.

Ter olho para a questão


Amiudemente me apanham aqui a louvar quem cria e escreve séries. É merecido. Mas uma posição tão importante, seja em televisão, seja no cinema, é a de director de casting. Ter de escolher os actores certos para os personagens é mais complicado do que parece. Alguém imagina, por exemplo, outro actor que não Leonarod di Caprio em "Titanic"? Ou outra que não Julia Roberts em "Pretty woman"? Esteve para acontecer.
No entanto, o director de casting supremo é não só aquele que sintoniza papel com actor, mas que vai mais longe e vai arrancar os intérpretes das entranhas do desconhecido, criando-lhes uma carreira. O prémio de "supremo" terá de ir para Alexa L. Fogel. Eu não sei quem é, nunca a vi, mas foi ela quem escolheu os actores de "Oz", espantosa série ambientada em cenário prisional (7 anos antes de "Prison break"), de um realismo extremo, excelentemente bem escrita e bem à frente do seu tempo. Poucos se lembram, mas este foi o primeiro hit de culto da então tímida HBO, que é hoje um canal de cabo poderosíssimo e de quem se esperam as coisas mais transgressores. Pois amigos, a transgressão começa aqui: desde criminosos que não são totalmente maus, linguagem extrema, violações, nudez masculina, homossexualidade, uso de drogas ou conflitos-étnico-religiosos a sério, a caixa de Pandora foi aberta aqui.
O conjunto de actores que deu literalmente o corpo ao manifesto é hoje conhecido de boa parte dos telespectadores através de outros programas, e essa é uma das marcas de genialidade desta série. Passa na SIC Radical, às quintas à noite, e este blog aconselha vivamente.
Os actores de "Oz" entram em "Lost", "The wire", "Law and order", "Rescue me", "Scrubs", "Band of brothers", "The sopranos", "Dexter", "24", ... Um regalo.

quarta-feira, março 19, 2008

A curta

Já realizei várias coisas que se podem comparar a curtas-metragens. Tenho demasiado respeito pelo cinema para lhes dar um nome tão pomposo, mas tudo o que fiz para os míticos Óscares é, desde os filmes com mísero meio minuto até aos gloriosos épicos de 20 minutos que dão pelo nome de "Ceira witch project" e "Crimes invisíveis" tem um lugar aqui guardado, como pequenos andores que me transportam mais além naminha criatividade.
O Fantasporto e a TMN fizeram o favor de organizar um concurso em que o comum cidadão, armado da câmara de uma telemóvel e obdecendo à temática do terror e do fantástico, tem de filmar uma curta-metragem com o tempo máximo de 3 minutos. Dentro da minha cabeça complicada, 3 minutos é muito pouco. Mas encorajamento geral, vindo de diversos quadrantes, fez-me vencer essa maquineta derrotista e preguiçosa que trabalha dentro de mim e deitar mãos à obra.
O resultado é uma obra de demência óbvia e um regressar a outros tempos. Deu-me um prazer enorme filmar isto, a sério, foi como se tivesse regressado uns anos atrás. Apesar das limitações do telemóvel (o que se reflecte na qualidade visual), creio ter feito algo que pelo menos entretém. A história? Tentem descobrir por vós próprios, será um teste à minha própria capacidade como realizador. O desafio maior que se pode fazer a alguém que é palavroso por natureza é ter de usar o mínimo de palavras possível para contar uma história. Penso ter sido razoavelmente bem sucedido.
Os meus agradecimentos aos meus acolegas do Thíasos, o grupo de teatro que é dono do meu coiro às terças e quintas à noite e que, por uma hora, me deixou ser o patrão do coiro deles. Espero não os ter envergonhado, embora, claro, isso seja utópico.
Sem mais delongas, cá está ela. Espero que gostem e votem. Quanto mais não seja, por despeito.

Rendez-vous with Rama


Não conheço muito acerca de Arthur C. Clarke. Sabia que era ele o autor da short story que deu origem a "2001: uma odisseia no espaço", a genial obra de Stanley Kubrick. Há alguns dias, um amigo meu fez-me chegar às mãos um daqueles produtos que ele considerava de primeira necessidade e parecia assumir contornos vitais na definição da sua infância. Era uma série documental chamada "The mysterious world of Arthur C. Clarke", onde o escritor patrocinava um conjunto de reportagens sobre os mais variados fenómenos bizarros. De imediato, ao ver o genérico, viajei até à minha infâncioa e lembrei-me de que sim, também eu já assistira aquilo. Escondido debaixo de camadas e mais camadas de inconsciente, estava Clarke, ali, deitado no fundo da minha cabeça, ele próprio um mistério.
Talvez seja o facto de o ter redescoberto agora que lhe provocu a morte, eu tenho esse poder kármico (no entanto, permitam-me que me inocente de outro óbito de hoje, o do realizador inglês Anthony Minghella: já conhecia "O paciente inglês", "O talentoso mr. Ripley" e "Cold mountain"). Eu e Clarke partilhamos uma coisa, e não é, obviamente, a genialidade: é a curiosidade. Era isso que o movia e, em certa media, é isso que também me move, mesmo qaundo tudo na vida se augura sombrio. Diagnosticado comum tipo de poliomielite desde os anos 60, Clarke foi ganhadno dificuldades em mover-se; porém, acho que era um sintoma de que o sue corpo não podia acompanhar a mente. De certeza. O homem que coleccionava ficheiros com referências a caveiras de cristal, dragõs marinhos, serpentes gigantes, chuvas estranhas ou OVNI era como um Cahrles Fort dos tempos modernos, apenas mais popular, mas igualmente bem humorado perante aquilo que não conhecemos.
E ele conseguiu finalmente o que queria: uma maneira de ver respondidas todas as suas perguntas. Deste mundo misterios e do outro também. Se ele existir claro. Clarke projectava sempre a sobra da dúvida.

quarta-feira, março 12, 2008

Lição dos últimos tempos


Menosprezo o impacto das minhas acções na vida dos outros. De várias maneiras. O que quer dizer que também me menosprezo.

segunda-feira, março 10, 2008

Memórias

Muita gente me diz que ser adepto do Benfica é condenado a ser feliz apenas no passado, pois é lá que estão as alegrias. Na realidade, imagino-as plantadas num quintal e eu passeando por entre elas, como se fosse o refúgio de um louco feliz.
Numa altura em que o meu clube está longe de estar bem (e é imitado, como sempre de forma rasca, pelo "Sportem"), estou sentado à sombra de uma das minhas grandes memórias como benfiquista: esta aqui em baixo, e que já referi algures no ano passado. A diferença é que, desta vez, há imagens.

Final grades


Tudo o que é bom tem um fim, mesmo a melhor série da actualidade: "The wire tem hoje o seu último episódio. Acabou-se a literatura em forma de televisão nos nossos ecrãs. A série que Barack Obama confessou ser a sua preferida, o que tendo em conta o habitual tacto em não confrontar directamente lobbies instalados por parte de candidatos presidenciais, é uma afirmação elucidativa da sua linha de pensamento. "The wire" é um dos únicos fóruns públicos de discussão dos problemas das cidades actuais.
E tem personagens inesquecíveis e uma escrita de calibre balzaquiano. Por isso é mesmo boa.
Mas tinha de acabar: citando Omar Little, "It's all in the game".

domingo, março 09, 2008

sábado, março 08, 2008

Um dia delas?


Eu aplico ao Dia Internacional da Mulher a mesma lógica que aplico na minha mente ao dia dos namorados: os dias internacionais ou comemoram efemérides ou então flagelos. Por muito que o meu lado Gulherme Leite queira aqui fazer uma piada com o género feminino, abster-me-ei. Mas não porque não tenha um fundo de verdade.
Posto isto, arrepio já caminho: eu gosto de mulheres. Não lhes bato. Não as discrimino. Não as vejo como objectos. Faço piadas sobre elas, mas hei, elas também fazem, portanto comungamos do princípio da igualdade entre sexos. Faço tarefas que, por força da tradição, são despachadas para o sexo feminino: trabalhos na cozinha, estender roupa, lida doméstica; e a coisa que mais facilmente faz subir em mim a minha libido é a inteligência da rapariga. Ok, minto, é a segunda coisa.
Estamos entendidos, não estamos? Gosto de mulheres e enfim, não encaixo no cargo de porco chuavinista. Logo, um pedido às mulheres que querem advogar e falar de feminismo e queixar-se acerca do tratamento péssimo que os homens dão às mulheres: eu sou homem e consigo ver na mulher um ser igual a mim. Se querem pregar que as mulheres têm direitos e merecem igualdade, estarei lá para dizer que sim e concordar; apenas não ateiem o fogo em mato ardido: nada arde e ainda desgasta o terreno. A sério.
Outra coisa: feminismo não é bazófia acerca de como as mulheres são mais inteligentes que os homens. Se é para isso, salto fora do barco e não contem comigo. Também não é dizer: "Nós, complicadas? Vocês é que são uns complicados do caraças!". Deixem-me corrgir: nós somos ocasionalmente idiotas. Não confundir isso com complicação. Há um homem que gosta de duas raparigas e não se decide? É idiota; há um homem que vos confunde pois não se decide se é homossexual ou heterossexual? É idiota; há um tipo que gosta de vocês, mas não consegue estar convosco? É idiota... E também faz parte do grupo da segunda pergunta. Uma coisa é idiotice; outra é armadilhar os homens com perguntas como "Este vestido fica-me bem?" (um dos caminhos do Inferno vai dar a um quarto onde uma mulher pergunta isto); ou, num lampejo súbito e inexplicável (e muitas vezes, nem vocês mulheres nos explicam), não falarem para nós durante uma semana. Isso é complicação, e quando nos queixamos, é porque não percebemos. Não é porque sejamos machistas ou vos odiemos: é porque não vivemos nos vosso mundo. E desculparem a vossa complicação com a nossa intolerância é, há que dizê-lo idiota. Se o vosso desejo é igualdade, há coisas em que vos aconselho a não serem iguais a nós.
Também vos odeio ocasionalmente. A todo o género por igual. Canto "Bitches ain´t shit", quero imprimir t-shirts e tudo com a frase.
E depois, apaixono-me, e passo uma amnistia a todas por igual.

Enfim, é isto. Agora, venha histeria, irritação e porrada para o otário.

quinta-feira, março 06, 2008

À lupa


Nunca vos deu um daqueles acessos de nostalgia que vos obriga a remexer em coisas velhas?
Sim? Ainda bem, porque a mim não. Mas pus-me antes de ontem a ouvir "Lupa", originald e Sérgio Godinho, editado em 2000. Há muito que aquelas múscias não estimulavam o meu cérebro.
Godinho é um excelente escritor, literalmente falando, de canções. As suas letras contnuarão a fazer sentido e a serem obras de arte daqui a 1000 anos, se este planeta ainda girar. "Lupa" tem uma das músicas que mais gosto, cujas palavras me passam a língua pelo lóbulho da orelha. Chama-se "Dancemos no mundo" e sempre que a ouço, tenho de me sentar e bater o pé várias vezes. Podia colocar a música, mas prefiro centrar-me nas palavras. São as que mais vezes nos passam ao lado.

Isto é como tudo, não há-de ser nada
a minha namorada é tudo que eu queira
mas vive para lá da fronteira

Separam-nos cordas, separam-nos credos
e creio que medos e creio que leis
nos colam à pele papéis

Tratados, acordos são pântanos, lodos
Pisemos a pista, é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo sem corpo visível
dançar como amigo se fosse possível
dois pares de sapatos levantando o pó
dançar como amigo só

Por ódio passado que seja maldito
amor favorito não tem importância
se for é de circunstância

Separam-nos crimes, separam-nos cores
a noite é de horrores, quem disse que é lindo
o sol-posto de um dia findo

Sozinho adormeço e em teu corpo apareço

Pisemos a pista, é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo sem corpo visível
dançar como amigo se fosse possível
dois pares de sapatos levantando o pó
dançar como amigo só

Em passos tão simples trocar endereços
num mundo de acessos, ar onde sufocas
lugar de supostas trocas

Separam-nos facas, separam-nos fatwas
pai-nossos e datas e excomunhões
acondicionando paixões

Acenda-se a tua luz na minha rua

Pisemos a pista, é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo sem corpo visível
dançar como amigo se fosse possível
dois pares de sapatos levantando o pó
dançar como amigo só

terça-feira, março 04, 2008

Cavalos

É uma opinião muito pouco consensual, mas "Millennium" é uma grande série de televisão, das melhroes e mais criativas que já vi. Estreou em 1997 e em três temporadas, antecipu, de uma assentada, as séries que carregam forte na medicina forense e os dramas místicos sobre sociedades secretas. O autor? Deus )para quem nnãoe stá familiarizado, Chris Carter)
O maior ponto fraco de "Millennium" era a sua heterogeneidade enquanto conjunto: de facto, cada temporada parece uma série à parte, habitada por dois ou três personagens comuns. Se a primeira temporada é uma análise pura da essência do mal e a terceira um manuel de sobrevivência ao desepero, a segunda é a que aposta mais na mitologia do chamado "Millennium group", uma empresa privada que tem interesses altamente obscuros e que serve como motor da série no seu todo.
O último episódio desta temporada contém uma sequência que ficou gravada na minha mente desde a primeira vez que a vi e que se tem tornado impossível de esquecer. Um dos personagens, a visionária Lara Means, interpretada por Kirsten Cloke, está trancada num quarto de hotel, enquanto uma aparente epidemia mortífera grassa no exterior. Acaba de lhe ser revelado o que acontecerá no Apocalipse. O que se segue são nove minutos de um tour de force apocalíptico apropriadamente ao som de "Horses", de Patti Smith. São nove minutos que nunca irei esquecer e que me deixam com pele de galinha de cada vez que os vejo.
Os cavalos também lá estão. Quatro. E assim como em 1997, também nos dias de hoje eles se passeiam pelo nosso planeta.

Empreendimento

O tema do resto de ano pioneiro vai ser a cor, em todas as suas valências e significados. Fica aqui, para celebrar isso, um videoclip com um engenhoso trabalho de câmara, de uma das mais recentes cantautoras femininas a triunfar na cena musical indie norte-americana: Feist. O realizador é Patrick Daughters e a canção é simplesmente "1,2,3,4". Entra no ouvido à primeira.

segunda-feira, março 03, 2008

Esquisito


Sentir que estão neste momento diversos eus a viverem várias vidas deles dentro da minha. Não conseguir descobrir qual desses eus sou mesmo eu. E saber que nenhum deles é o eu adulto que devia estar a enfrentar a minha vida neste momento.
No entretanto, cada um deles me vai trazendo coisas diferentes, que já não tinha há algum tempo, ou que nunca tive. Como se a minha personalidade tivesse decido estilhaçar-se e dar uma volta por avenidas na vida que, burro, não queria percorrer. E agora que as percorro, tenho de finalmenten me perguntar o que sou eu, quem sou, o que quero. Olhar em volta e ver opções das pessoas e perguntar se estas são "normais" e se eu quero ser "normal". Se o ser "normal" me basta; ou se, pelo contrário, a "normalidade" matará alguns dos meus eus, sem que outros saiam fortalecidos.

Pois é, já estavam fartos de cinema e sentiam falta destas merdas, não é? :)

sábado, março 01, 2008

Conectivity

A Converse faz 100 anos em 2008 e para celebrar o facto, a empresa (que pertence à Nike, não sabia disto) decidiu fazer uma campanha baseada em ícones que estão ligados ao uso da famosa marca de sapatilhas. Todos diferentes, todos ligados uns aos outros por um par de calçado.



Da esquerda para a direita: Hunter S. Thompson, Dwayne Wade, Sid Vicious, M.I.A, James Dean, Karen O., Common, Joan Jett e Billie Joe Armstrong

Intermission



"Longview", Lea Delaria (o original pertence aos Green Day)

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Conclusões de uma noite de Óscares


1 - Os Óscares começam a tornar-se cada vez mais uma Academia do mundo. Nenhum dos intérpretes vencedores nas categorias de interpretação são americanos: Day-Lewis é irlanfês e Tilda Swinton é escocesa, o que em si não é grandemente estranho, mas o espanhol Bardem e a francesa Marion Cottillard são de uma esfera europeia que não tem uma presença assim tão forte em Hollywood. Isto pode ser explicado por vários factores, a começar pelo trabalho de estudos nacionais na promoção dos seus filmes nos EUA. O fenómeno estendeu-se para as categorias técnicas, onde a maior parte foi limpa por europeus , alguns a trabalhar em filmes europeus, outros em produções norte-americanas. Se os americanos não se põem a pau, a festa deixa de ser mesmo deles.

2 - Os Óscares tiveram a sua audiência mais baixa em 20 anos. Têm surgido várias justificações para este facto, desde a baixa popularidade dos filmes nomeados até ao apresentador, que tem um nicho demográfico específico para o seu humor. Mas a verdade é que há dois grandes culpados, a meu ver: a própria Academia e, incrivelmente, os grandes estúdios. A Academia manté o memso modelo de cerimónio há uns 50 anos, quando o que era Grande era sinónimo de Popular. Hoje em dia, vivemos numa época de transmissões televisivas em que uma cerimónia com quase 4 horas não resulta. Na verdade, o déficit de atenção que vai afectando o cidadão do século XXI acaba com qualquer hipótese de esta resultar. Eu próprio, que tenho acomapnhaod várias cerimónias nos últimos anos, reconheço que a principal dificuldade é aguentar os prémios menos importantes, e os númeors de dança, e afins. Bem cortado, o que interessa nos Óscares podem encaixar-se em duas horas, talvez um pouco menos. Por este andar, qualquer dia os Óscares tornam-se numa espécie de Natal dos Hospitais, o alvo de piadas de stand-up comedians facilististas.
Os grandes estúdios são culpados, porque fazem o que é costume: não apoiam os filmes menores, que habitualmente têm mais qualidade e são nomeados. Sendo assim, é óbvio que não chegam ao público. O objectivo dos Óscares é precisamente reconhecr mérito artístico. É estúpido pedir à Academia que nomeie filmes conforme a sua popularidade. Se assim fosse, teríamos "Transformers" a receber o prémio de Melhor filme, e eu não queor imaginar que tipo de silêncio embaraçoso se estabeleceria no Kodak Theatre se isso acontecesse. "Juno" provou, este ano, de que o público norte-americano não é tão estúpido como parece: é. afinal, um filme palavroso, sobre uma adolescente grávida, e com um aspecto indie que rendeu mais de 100 milhões de dólares, o que o torna um hit. Mesmo filmes como "No country for old men" e "There will be blood" rondaram os 50 milhões de dólares em receitas, o que é bastante bom para filmes tão negros, complexos e violentos. Urge uma reflexão sobre este aspecto, que será importante não só para os Óscares, como também para os estúdios e, por conseguinte, para o futuro do cinema.

3 - 3 Óscares para "The Bourne ultimatum", mesmo sendo técnicos. 0 para "Transformers". Mesmo nas catgeorias técnicas, a qualidade efectiva de um filme começa a pensar.

4 - Jon Stewart esteve brilhante. Muito mais à vontade que na sua primeira aparição como host há dois anos, esteve aquilo que o seu papel requere: o dono da casa que recebe os convidados, atira umas alfintedas, enquanto os faz sentir bem acerca da festa onde estão.

5 - Nunca tinha reparado em como Tilda Swinton é mesmo estranha; e os irmãos Coen parecem extraterrestres caídos neste planeta.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

A resposta

Depois de Sarah Silverman ter anunciado o seu segredo envolvendo Matt Damon, é a vez de Jimmy Kimmel, o seu namorado, revelar algo ainda mais escandaloso. A novela promete continuar.

sábado, fevereiro 23, 2008

E cá estão elas!

Os Óscares são já amanhã. Há um mês, aquando do anúncio das nomeações, olhei para a tigela de água do meu cão, qual Nostradamusiso que olhando a bacia de zinco, e espreitei o futuro das nomeações. O meu fiel companheiro canino, infelizmente, tem o hábito de deixar pedaços da sua comida a boiar na tigela, e por isso as previsões turvaram um pouco. Espero que desta vez, as coisas saiam mais correctinhas.
Aviso que será difícil nalgumas categorias. Se há Óscares que já estão entregues desde há pelo menos três semanas, outros estão aí para lançar a confusão e a discussão. Aliás, os prognosticadores de prémios adoram confusão, inventando-a até onde ela não existe. Tem surgido uma corrente que está a tentar inventar vencedores para melhor filme, quando esse prémio está mais que decidido.
Tentando encurtar o paleio, que eu sei que sou muito palavroso, deixo aqui uma lista daqueles que prevejo serem os vencedores da 80ª edção dos Óscares.

Melhor filme: "No country for old men" - A única margem de dúvida é a habitual, porque já se sabe, até ao contar dos cestos, é vindima. Mas ele tem ganho a esmagadora maioria dos prémios percursores dos Óscares, tem apoio crítico, tem toda a gente com os irmãos Coen. Pouca gente acredita numa reviravolta.

Melhor actor: Daniel Day-Lewis, "There will be blood" - É que nem que Cristo desça à Terra e diga que el não leva o prémio. Aquele que estavam a prever como spoiler na categoria, George Clooney, já veio anunciar que Lewis tem mesmo a melhor interpretação do ano.

Melhor actriz: Julie Christie, "Away from her" - A coisa parecia certa até há duas semanas, mas entrevistas a alguns votantes anónimos e prémios recentes lançam Marion Cotillard como ameaça. De facto, eu até a colocaria aqui, senão fosse a aversão da Academia em dar prémios a interpretações em língua estrangeira.

Melhor actor secundário: Javier Bardem, "No country for old men" - Nem que Hal Holbrook chore.

Melhor actriz secundária: Cate Blanchett, "I'm not there" - A grande encasinação da noite. Qualquer uma pode realmente ganhar, embora a pequena Saoirse Ronan, por "Atonement" seja a que tem menos hipóteses. Cate Blanchett e Amy Ryan têm dividido entre si a maior parte dos prémios e são por isso as grande favoritas, mas nunca é de subestimar o aura que as categorias secundárias de intepretação têm como prémio carreira. Por isso, Ruby Dee tem algumas hipóteses. Tilda Swinton ganhou o Bafta e paira a dúvida sobre se isso poderá significar algo aqui. No entanto, as duas nomeações de interpretação de Cate Blanchett mostram que a mulher é adorada e glorificada em Hollywood. Esse maior profile deverá dar a vantagem sobre a desconhecida Amy Ryan, que, entre outras coisas, entra na grande série "The wire" e só por isso, merecia qualquer coisa.

Melhor realizador: Joel e Ethan Coen, "No country for old men" - Apesar de ser raro uma dupla de realizadores ganhar um Óscar (que me lembre, só aconteceu com "West side story"), a lógica prevalecerá. Só se Julian Schnabel conseguir o voto de simpatia todo é que algo de estranho poderá acontecer.

Melhor argumento original: Diablo Cody, "Juno" - Tem sido a grande senação do ano, com um argumento diferente e original. No entanto, atenção a Tony Gilroy e o seu "Micahel Clayton.

Melhor argumento adaptado: Ronald Harwood, "The diving bell and the butterfly" - Outra grande encasinação. Os Coen e Paul Thomas Anderson estão nomeados e são, à partida, os grandes favoritos. O guião de "Atonement" tem também o seu valor pela dificuldade em adaptar um livro onde a fronteira entre a realidade e a ficção é tão ténue. No entanto, a tarefa mais complicada era mesmo a de Ronald Harwood, que teve de transformar em filme um livro de pensamentos misturado com memórias. Para além disso, este filme é amado e Ronald Harwood, há uns anos, conseguiu fazer uma gracinha, ganhando com "O pianista" quando ninguém o esperava.

Melhor filme de animação: "Ratatouille" - Mais que lógico, visto que se este filme aparecesse nos 5 nomeaods para melhor filme, não seria crime algum.

Melhor documentário: "Sicko" - Este parece-me que é entre a obra de Michael Moore e "No end ins sight", um dos 4 documentários sobre a guerra do Iraque nesta categoria. No entanto, parece-me que o facto de a mesma academia que vaiou Moore há 5 anos, aquando do seu discurso contra a guerra quando este ganhou por "Bowling for Columbine", ser este ano assumidamente anti-belicista nas sas escolhas, poderá dar-lhe a vitória.

Melhor filme estrangeiro: "The counterfeiters", Áustria - E ainda gostava que me explicassem como é que "Persépolis" e "4 meses, 3 semanas e 2 dias" não estão aqui....

Melhor fotografia: Roger Deakins, "The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford" - Outra categoria com cinco possíveis vencedores: Roger Deakins luta contra si próprio em "No country for old men", Seamus McGarvey, em "Atonement", Janusz Kaminsky, em "The diving bell and the butterfly" e Robert Elswitt em "There will be blood". Elswitt ganhou o prémio do Sindicato de Cineamtografia e seria em teoria o grande candidato, mas não reconhecer Roger Deakins num ano em que tem dois excelentes trabalhos, parece-me criminoso, mesmo tendo em conta o que a academia tem feito nos últimos anos (vide: Eduardo Serra em "Girl with a peal earring"). Assim, quero acreditar que será com o filme com melhor fotografia de 2007.

Melhor direcção artística: "Sweeney Todd: the demon barber of Fleet strett"

Melhor montagem: Christopher Rouse, "The Bourne ultimatum" - Seria uma vitória justa, para um filkme que já ganhou o prémio do Sindicato de Montagem. Roderick Jayens (ou melhor, os irmãos Coen com um pseudónimo) poderão estragar a festa, mas acho que a Academia vai recompensar um filme ao qual deram mais duas nomeações em categorias técnicas.

Melhores efeitos especiais: "Transformers"

Melhor guarda-roupa: "Atonement"

Melhor caracterização: "La vie em rose"

Melhor som: "Transformers"

Melhor montagem sonora: "No country for old men"

Melhor banda sonora - Dario Marianelli, "Atonement"

Melhor canção - "Falling slowly", "Once"

Melhor curta-metragem de animação - "I met the walrus"

Melhor curta-documental - "La corona"

Melhor curta-metragem - "At night"

E é assim... :)

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Cantorias


Mayra Andrade é uma jovenzinha que se define como cabo-verdiana (li isto em qualquer lado...) que assim só por acaso, está nomeada para os prémios de música da BBC, na categoria de revelação do ano. Ou seja, daqui a uns anos vai ser um fenómeno, pois canta bem, tem boa música e ainda por cima é gira.
Dia 29 de Fevereiro, ela vai actuar em Coimbra, em pleno Paviljão Multi-Usos, no âmbito de uma digressão que está a fazer por Portugal. O bilhete custa 10 euros. Esta moça, que daqui a uns anos também será um fenómeno, vai; o gandulo aqui também. Quem quiser vir, é dizer. É aproveitar, antes que tenham de pagar um balúrdio para assistir a um concerto dela...

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

"There will be blood"


Paul Thomas Anderson, desde que surgiu, tem sido apontado como o herdeiro de uma série de grandes realizadores, desde Scorsese a Robert Altman. Se isto, por um lado, atesta o seu enorme talento como cineasta, por outro reduz o valor da sua originalidade, e coloca-lhe um peso acrescio de ter de manter a comparação. Nas crítcias que leio a "There will be blood", Anderson volta a ser comparado a outro grande realizador da História do cinema, John Ford, e aí eu pensei: o que faz este homem para que seja equiparado a 3 artistas tão diferentes no seu estilo e nas suas temáticas? Está claro que isso é a prova definitiva da polivalência de Anderson como homem do cinema. "Boogie nights", "Magnolia" e "Punch-drunk love" têm como única ligação concreta passarem-se em S. Fernando Valley, a zona da cidade de Los Angeles onde normalmente se desenrolam os seus filmes.
"There will be blood" pode até passar-se em S. Fernando Valley, mas uns 100 anos antes de todos os filmes de Anderson terem lugar. Quando o filme começa, estamos na California de 1892 e acompanhamos um prospector chamado Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) em plena actividade de exploração. Os primeiros 20 minutos são absolutamente mudos e de uma economia de caracterização de personagem absolutamente notável: quando Plainview cai num poço de extracção, parte uma perna e encontra um pedaço de prata, julgamos que a sua maior pressa é ir ao médico. Claro que sim, mas só depois de se arrastar atéà cidade mais próxima e se dirgir ao Gabinete de Prospecção para registar a sua descoberta. Plainview é um maníaco do sucesso e da riqueza; é profundamente obcecado com os seus objectivos; e não parece haver grande espaço para sentimentos no seu interior. Está lançado o mote para um longo de estudo de personagem que dura duas horas e meia. Seguimos a carreira de Daniel e do filho adoptado H.W, que seguem comprando terras onde se situam lençóis de petróleo, por toda a Califórnia. É nesse percurso que encontram aquele que é o outro grande personagem da história, Eli Sunday, auot-imposto pastor evangélico, que funda um pequeno culto numa aldeia onde se encontra um larog lençol de petróleo que Plianview quer explorar. O confronto entre estes dois personagens é o que faz avançar a segunda metade do filme e coloca, simbolicamente, duas forças em confronto: o capitalismo, representado pela sede de riqueza de Plainview, e a religião, simbolizada por Eli Sunday. No entanto, ambos são colocadas desvirtuadas: Plainview vai a extremos na sua ânsia, seja a extorquir aldeões das suas terras, seja na sua maneira de ser anti-social, onde chega a dizer que a razão pela qual quer se rico é para nunca mais ter de falar com ninguém. De facto, este é um homem cujos únicos lampejos de humanidade são vistos através da sua relação com o filho, mas isto apenas ao início. Á medida que o filme se desenrola, sentimos que perdemos Plainview por completo, para um buraco mais escuro que o petróleo que procura. Eli é a religião manipulativa, um falso profeta com manias de grandeza, mas que se auto-ilude. Usa as pessoas para conseguir ser alguém na vida e vê em Daniel uma fonte de dinhieor que poderá elevar a sua Igreja da pequenez de um lugar perdido no meio do deserto. O confonto de vontades entre estes dois homens, na luta pela influência nas pessoas de Little Boston e posterior uso mútuo daquilo que ambos têm de melhor, ressoa obviamente dois dos grandes pilares do espírito americano, o direito de cada um a enriquecer e a imensa força da religião na vida das pessoas. Anderson consegue, assim, um raro exemplar de épico intimista, grande nas ideias e temas, pintado a pinceladas largas, mas nunca se afastando do seu centro de gravidade, que é, Daniel Plainview.
Acho que falar do trabalho de Day-Lewis neste filme é uma imensa redundância. Vão ler aqui o que já leram noutros lados: o homem é o maior, ponto final. Trabalha muito pouco, mas quando aparece, pega em personagens que nunca ningguém se lembrou de criari, transfigura-se e dá performances tão boas que nos fazem querer levantar a meio e bater palmas pelo que estamos a ver. Paul Dano é que merece palvras elogiosas e tem recebido poucas, pois é difícil desviar a atenção do Day-Lewis show. Dano consegue ser carismático como pastor e patético como personagem, um paradoxo que nunca deixa de ser credível. Para além disso, nunca perde o pé quando tem de se confrontar com "the man" himself. No entanto, a interpretação de Lewis quase faz esquecer aquilo que torna este filme verdadeiramente poderoso: Paul Thomas Anderson. Naquele que é o seu melhor filme (e com a carreira deste homem, é muito dizer isto), Anderson, que é habitualmente palavroso e utiliza uma fartura de gimmicks visuais, consegue ser seco, profundamente visual de uma economia de planos absolutamente impresssionante. Vê-lo utilizar apenas um plano para uma cena quando realizadores de menos categoria utilizariam 5 ou 6 deixa um cinéfilo abismado. Não vou dizer crimes de lesa-majestade, como que Anderson é melhor que Fincher (como realizador, não é), mas este filme prova, a quem tinha ignorado "Magnolia" e o muito subestimado "Punch-drunk love" que Anderson está a caminho de se tornar num dos grandes da história do cinema recente. Só alguémde categoria terminaria um largo épico numa cena que desenrola entre dois personagens numa sala, com quase um quarto de hora de diálogo. A sério.

Um filme que, pelo menos assim a frio, não é um dos melhores filmes da História do Cinema. Para lá caminhará. Não pertenço à categoria de fãs hiperbólicos de Anderson. Mas "There will be blood" é desde já uma das grandes obras cinematográficas do século XXI, sem dúvida, um filme com uma pulsão barrativa fora do comum e um daqueles personagens fascinantes capazes de criar culto no Youtube e de permanecer connosco muito depois de o filme terminar. E sim, também vocês vão sair da sala com vontade de gritar "I drink your milkshake! I drink it up!!!".

domingo, fevereiro 17, 2008

Queixem-se!


"Tropa de elite" ganhou o Urso de Ouro, que premeia o melhor filme em competição do prestigiado Festival de Berlim. Quando estão a concurso "There will be blood" (que já vi, deixarei a crítica amanhã) e o novo documentário de Errol Morris (que, calculo, continue a senda de brilhantismo do melhor documentarista da actualidade). E nem que não estivessem: o filme brasileiro é agitado, quanto muito, com um vazio de mensagem correspondente à quantidade de propaganda que faz às vedetas do filme, o BOPE. Nem sequer se pode gabar de ter uma excepcional de realizaçÕ. Fernando Meirelles escreveu a Bíblia em 2002 com "Cidade de Deus" e os apócrifos não têm tido grande qualidade.
Agora queixem-se que os Óscares são injustos e bendigam os sempre infalíveis prémios europeus. Força!

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Sobre o amor


É melhor ser o amante ou amado? Nenhuma das duas, se o colesterol passar dos seiscentos. Quando me refiro ao amor refiro-me, evidentemente, ao amor romântico – ao amor entre homem e mulher, e não entre mãe e filho, ou entre um rapazinho e o seu cão, ou entre dois criados de mesa.
O que é maravilhoso é que quando se está apaixonado se sente um impulso para cantar. Deve-se resistir a isso com todas as forças, e deve-se também ter o cuidado de evitar que o macho ardente “recite” as letras das canções. Ser-se amado é, evidentemente, diferente de se ser admirado, pois pode-se ser admirado à distância, mas para amar verdadeiramente é preciso estar no mesmo quarto que a outra pessoa, agachado atrás das cortinas.
Para se ser um amante verdadeiramente bom tem de ser simultaneamente terno e forte. Forte até que ponto? Suponho que chega ser-se a ser-se capaz de levantar cerca de vinte quilos. É preciso não esquecer que também para o amante a amada é sempre a coisa mais bela que se pode imaginar, mesmo que um estranho não a possa distinguir de uma qualquer variedade de salmonídeos. A beleza está nos olhos do espectador. Se o espectador tiver falta de vista, pode perguntar à pessoa que estiver mais perto quais as raparigas mais giras. (Na verdade, as mais giras são na maior parte das vezes as mais chatas, e é por isso que algumas pessoas acham que Deus não existe.)

in "Prosa completa", Woody Allen

terça-feira, fevereiro 12, 2008

E os burros somos nós?


Num inquérito feito a 3000 jovens britânicos, 47% afirmaram que Winston Churchill foi uma personagem de ficção. É bom relembrar que Churchill foi o vencedor da variante britânica do concurso "Grandes portugueses" e espero que aqueles que se alarmaram com o facto de Salazar poder ressuscitar e liderar um exército de Pides num assalto deestemido a Lisboa possam agora descansar em paz. A glória é passageira, como dizia Camões.
Mas a juventude britância não se fica por aqui: 27% dos inquiridos acha que Ricardo Coração de Leão não existiu, o mesmo se sucedendo a Florence Nihtingale, Gandhi, Charles Dickens e Cleópatra. Para equilibrar a coisa, 65% crê que o rei Artur era real e liderava uma Távola Redonda de cavaleiros. Ainda segundo este inquérito, há quem ache que Sherlock Holmes se passeou pela Londres do século XX resolvendo crimes; e que Eleanor Rigby, personagem de uma canção dos Beatles, também era de carne e osso. Robin Hood também saiu da ficção para passar à realidade. Não sabemos se com a aparência de Kevin Costner ou Errol Flynn.
Algo em mim deseja que um inquérito deste tipo seja levado em Portugal, mas o desconhecimento generalizado relativamente ao nosso imaginário mítico-histórico faz-me crer que os resultados não seriam tão engraçados. Claro que podemos considerar esta transfiguração de figuras imaginárias em reais pelo nosso eterno desejo ingénuo de realmente acreditar que as referências que temos do Bem sejam realidad,e num mundo que cada vez mais nos parece dar figuras superficias e cenários de pesadelo. A coragem, audacidade e dedicação de Robin Hood; a inteligência e sagacidade de Sherlock Holmes (que tem um interessante paralelo com outra personagem ficcional dos nossos dias, o doutor Gregory House); o carisma do Rei Artur. A nossa sede de imitar modelos leva-nos a crer que este ssão reais.
Infelizmente, a realidade é muito mais intrincada que qualquer obra de ficção. Que o digam Churchill e Gandhi.

Em terra de cegos

Em 16 anos de escutismo, nunca fui guia ou chefe de uma equipa. Pessoas com ambições ou sede de protagonismo poderiam guardar rancor ao ter algo assim no seu currículo, mas eu sempre aceitei isto como a ordem natural das coisas. Acredito que nem toda a gente pode ser um bom guia ou chefe, e eu muito menos. Antes que comecem "Olha o malandro, com o paleio do costume a botar-se para baixo!", não estou a negar que tenha qualidades. Apenas que aquilo em que sou bom se ajusta mais a alguém que dá o seu contributo numa equipa. Ser líder não é comigo: faltam-me dinamismo, carisma, responsabilidade, optimismo constante... Enfim, tudo aquilo que os bons líderes têm.
Por isso, quando este fim de semana, num curso de formação para dirigentes do CNE, a minha patrulha me elegeu como guia, ri aparvalhadamente; depois entrei numa espécie de sabedoria folcórica psicaélica, para logo a seguir recusar. Insistiram. Sem escolha, revelei-me e expliquei, mais palavra menos palavra, o que escrevi em cima. Escondi apenas um facto: muitos dos meus colegas de patrulha, e a falar a verdade boa parte daqueles que estão a fazer o curso comigo, nunca foram escuteiros. Logo, quando olham para mim, esperam algumas palavras sábias; pedem conselhos; perguntam-me "O que é que tu fazes por lá?", com aqueles olhos de quem acha ir ouvir a última revelação sobre o que é o escutismo, um segredo qualquer que Baden Powell levou para o túmulo e só eu sei. Mas não sei. Não sou sequer o modelo de bom escuteiro, por várias razões que guardarei para um post a ser escrito se um dia já não for mirim. Não tenho respostas, e sobretudo não me sinto confortável quando se espera algo de mim. Tenho uma repetitiva tendência de desiludir as pessoas. É crónico. Sim, é um grande handicap para quem está responsável por um conjunto de miúdos, que olham para nós, seguem o nosso exemplo, querem aprender connosco.
Mas após a insistência, aceitei. Enfim, porque não? Uma novidade. Detesto novidades, mas será que irei experimentá-las quando estiver morto? Além disso, poderei finalmente responder a uma pergunta que me coloco às vezes: que tipo de líder sou eu? Não sei, mas como guia da equipa Cuco, só tenho de ter o cuidado de não levar o nome da equipa a sério e evitar armar-me aos cucos.

Farewell and adieu unto you, Roy Scheider



Quint e Brody foram embora. O "Orca" está por tua conta, Hooper.

sábado, fevereiro 09, 2008

"It´s "Lord of the flies" time now"

Vou estar fora o fim de semana, por causa de um dever que tenho a cumprir, mas não vos deixo abandonados. A substituir-me, aquele que considero ser o padrinho do meu blog: o senhor James Ford, a.k.a Sawyer. As meninas adorarão a mudança, os rapazes também: afinal, isto inclui praticamente toda a gente que visita o meu blog.
E como? Com a vossa própria alcunha, atribuída pelo garanhão himself! Entrem no "Sawyer nickname generator" e saibam de que são realmente feitos. A forma como este homem arranca referências de pop-culture de um largo espaço de nada é um prodígio da natureza. Aproveitem e partilhem com todo o auditório, Lambchops!

http://abc.go.com/primetime/lost/index?pn=nickname

P.S: A interminável capacidade criativa do chesty blond, fica exposta nest vídeo. Não duvidem do seu poder! O meu preferido é, de longe e à larga, "The artist formerly knwown as Hernry Gale". Faz-me ter um ataque de soluçoes interior sempre que o ouço.

Hitch

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

O escritor e as personagens

É público (e se não era, o último post tornou-o) que Woody Allen é dos meus realizadores predilectos. No entanto, nenhuma das sua sobras se encontrava na minha lista de filmes preferidos, pois acho que ele é melhor como argumentista que como realizador propriamente dito. Eu gosto mais de tipos visualmente espantosos e Allen é bastante simples, embora engenhoso, no seu estilo.
No entanto, uma visita ao Youtube lembrou-me de uma obra sua que está, concluí após alugns minutos, nos filmes que mais gosto:"Deconstructing Harry", o último filme de Allen na sua fase "A vida é uma merda do caralho!" e que é um exercício de análise de relações que acabam mal e de tudo o que pode estar mal na personalidade de uma pessoa só possível no mundo de sarcasmo ácido que Allen proporciona. Tudo isto com um grande elenco, como é seu apanágio, e Allen a interpretar, obviamente, um escritor, que passa em paralelo as histórias reais e as suas versões ficcionadas nos seus livros. E um filme com frases como "No, I don't think you're paranoid. I think you're the opposite of paranoid. I think you walk around with the sick delusion that people like you.", ou "Tradition is the illusion of permanence" é e sempre será um grande filme.
Claro que não se aconselha a quem não gosta de Woody Allen. Mas para todos os outros, apreciem uma das melhores cenas do filme, quando Allen desce ao Inferno. Atentem na voz do elevador.

Self loathing jews




Larry David num filme de Woody Allen? Dá vontade de dizer: "I hate myself, but not because I'm jewish!" Quanta neurose pode um filme só suportar?

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

"Le scaphandre et le papillon"


Uma coisa que quem discute cinema gosta de fazer, mesmo que não se aperceba, é a generalização. Eu faço isso, várias vezes. Quando "Le scapahndre et le papillon" saiu, foi estabelecida uma comparação imediata com "Mar adentro", de Alejandro Amenabar, porque ambos tratam de assuntos semelhantes: homens confinados às suas camas, com pouco controlo sobre o seu corpo, embora a sua mente permaneça saudável. "Mar adentro" quis ir para lá do filme sobre o drama de um homem: é, também, um planfleto sobre o direito à eutanásia, visto que essa era a grande luta do personagem principal do filme, o galego Ramón Sampedro.
No entanto, esqueçam-se de "Mar adentro" quando virem este filme: as semelhanças começam e acabam no confinamento dos dois personagens principais. "Le scaphandre et le papillon" é, antes de mais, um evento multi-cultural: realizado por um norte-americano, Julian Schnabel, escrito pelo inglês Ronald Harwood, fotografado pelo polaco Janusz Kaminsky (habitual director de fotografia de Steven Spielberg) e interpretado pelo francês Mathieu Amalric, é um esforço de colaboração que tenta contar a história de Jean-Dominique Auby, o editor francês da "Elle" que, aos 45 anos, é atirado para a cama por um acidente vascular cerebral e acorda preso dentro do próprio corpo (vítima de um síndroma raro conhecido por "locked-in"), completamente lúcido, mas apenas capaz de mexer o olho direito. O filme não escolhe caminhos fáceis: podia ter dado uma grande volta, mostrando o que passava exteriormente a Auby, com os médicos, a família, os amigos, o impacto que este evento tem neles. Mas não: tudo o que vemos é apenas e só a partir da perspectva de Auby; e isto eleva o filme relativamente a "Mar adentro", na minha opinião. Desenrolando-se em duas dimensões (a presente, dentro do hospital, e as memórias da vida de Auby antes do acidente), o filme traça-nos o retrato de um homem que enfrenta o que lhe acontece com um estranho estoicismo. Na verdade, o filme é suportado pelo retorcido sentido de humor da personagem principal, que comenta dentro da sua mente o que vê e o que lhe fazem, rindo por vezes de piadas sobre a sua condição, as quais são censuradas pelos que o rodeiam. Somos conquistados pelo espírito deste homem de forma natural, sem grandes gestos de humanidade destinados a obrigar-nos a reconhecê-lo. E desde comentários aos atributos físicos das enfermeiras, até chamar nomes a pessoas que o vêm ver e tratam como um coitadinho, muitas coisas retiram este homem do cliché do "deficiente".
O filme acompanha o processo através do qual Auby tenta quebrar o seu escafandro e comunicar com o mundo, tornando-se numa borboleta (daí a metáfora que dá título à fita.) Julian Schnabel é acima de tudo pintor (o que ajuda a compreender muitas das metáforas visuais que ao longo do filme nos transmitem a sensação de prisão de Auby), e realizador apenas em part-time, e utiliza maioritariamente o ponto de vista do personagem principal para filmar as situações do filme, com piscares de olhos e tudo (que são essenciais para o filme, não revelo porquê), e isto coloca-nos exactamente onde Schnabel quer: presos com Auby. Nada disto soa a chico-espertismo, o que aumenta o seu efeito. Quando chega a hora de mostrar a vida de um Auby normal, o filme escolhe o pai, a família e a amante para o fazer. Ao colocar uma amante, posta em comparação com esposa devota, Schnabel mostra não ter medo de perder o nosso apoio ao personagem, e sabe que nos tem perfeitamente seguros, mas isso dá azoa momentos bastante desconfortáveis para o espectador. Digo isto de uma forma positiva. Mas é na relação com o pai de Auby (interpretado de forma superlativa, embora em poucas cenas, pelo enorme Max von Sydow) que atingimos o coração real deste filme.

Justamente nomeado para os Óscares em diversas categorias que contribuem grandemente para o sucesso do filme (fotografia, montagem e claro, o argumento de Ronald Harwood, clínico, preciso, baseado na obra homónima que Auby ditou apenas com o olho direito), fica a faltar, tavez aquela para melhor filme, ou mesmo melhor actor. O trabalho de Amalric é espantoso, porque ter de concentrar todo o seu esforço interpretativo no olho direito é um trabalho dificílimo.
E nós estamos lá o tempo todo, nesse esforço.

Constatação

Às vezes, as pessoas não têm nem metade da simpatia daquela que julgam ter. É curioso. Aplica-se a outras qualidades, mas a simpatia tem o seu caso à parte.

Fight Club

Perante a greve de argumentistas que grassa como uma epidemia galopanta (e que, helas, parece estar a conhecer o seu fim... Mantenham-se ligados), aqueles que são obrigados a terem programas originais e não repetições, ainda por cima se esses programas são diários, têm de fazer das tripas coração para criar algo que prenda os espectadores. No caso dos talk-shows, poucos eventos seriam mais espectaculares do que a reunião daqueles que são, indubitavelmente, os três melhores apresentadores de entretenimento da televisão norte-americana: Stepehn Colbert, Jon Stewart e Conan o'Brien. Se essa reunião se der tendo como pano de fundo uma luta de meninos como na Primária, melhor ainda. Os motivos e desfecho são explicados no seguinte vídeo. Quem ganhará?

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

"Sweeney todd"


À primeira vista, juntar um cineasta com o estilo visual de Tim Burton e o género musical pode parecer um erro de casting. No entanto, os mais atentos à obra do realizador devem ter reparado que a principal fronteira entre os dois mundos é o facto de os actores não cantarem. As bandas sonoras de Danny Elfman, em conjunto com o ritmo próprio das obras de Burton, dão um sentido musical a alguns filmes do realizador. Na verdade, Burton tem pelo menos 2 filmes onde há números musicais: "The corpse bride" e "Charlie and the chocolate factory". Podíamos incluir "The nightmare before Christmas", mas apesar da crença geral, Tim Burton NÃO realizou este filme, apesar de a sua imaginação ter sido uma das suas forças motrizes. A responsabilidade é do animador Henry Selick.
"Sweeney Todd" era o musical da Broadway que estava à espera que Burton assumisse finalmente esse talento que lhe estava latente. A história é à medida do realizador: um barbeiro é condenado injustamente por um crime que não cometeu. Depois de alguns anos, regressa à sua cidade, Londres, para se vingar daqueles que lhe roubaram a vida. Tudo iss envolvendpo navalhas da barba e emapadas de carne, com sangue, canibalismo e homicídio à mistura. Isto pode não parecer a matéria da qual se fazem os musicais de palco, mas não foi Filipe la Féria o autor do libreto, mas sim Stephen Sondheim, que é uma espécie de demónio dentro da Broadway.
A partir daqui, Tim Burton apressa-se a construir um território que lhe é familiar (uma Londres do século XIX com a decadência urbana das obras de Charles Dickens e um negro gótico dasde Edgar Allan Poe, o que diz bem daquilo que esta obra entronca em si) e um background com que pode lidar, trata dos números musicais. O filme não embarca em grandes coreografias, com bailarinos aos pulos, antes se centra naquilo que os personagens cantam e nos movimentos cénicos que lhes estão ligados. Isto liga-nos ao musical como história, e não como espectáculo. Para isso, está lá Burton: é o seu toque que eleva toda a hbistória para outra patamar, com hemoglobina a jorrar pelas frincas da casa e personagens que se Sondheim não escreveu com os filmes do realizador em mente, há certamente um elo criativo entre os dois. A forma como encena todo o macabro como uma comédia negríssima, algures entreb o cinema de terror britânico da década de 40 e os seus próprios filmes iniciais (como "Beetlejuice") é espantosa e apesar de não ter visto o musical original, não fiquei com grande vontade. Eu gosto de musicias, mesmo aqueles com coreografias, mas tenho de amiditir que este é o meu tipo de musical.
Os actores não são cantores consumados, mas não precisam de o ser, pois a abordagem de Burton centra-se muito mais na interpretação dramática. Depp, como Sweeney Todd, é perfeito como fantasma ambulante. Todd já está morto bem antes de o filme começar. O seu único objectivo é vingança e se algum sentimento ainda reside dentro dele, é o ódio. Depp, para além de tornar aquilo que diz convincente, transmite esse vazio da personagem através da linguagem corporal, principalmente na economia de movimentos, que só parece mudar com se vê com navalhas de barbear nas mãos. A Miss Lovett de Bonham-Carter é o seu contraponto ideal, uma mulher que rompe os seus limites morais por amor a um homem que não pode amar onde está: um poço vazio e outro cheio. Destaque também para Alan Rickman, a fazer de vilão. Mas hei, é Alan Rickman, certo? Ele podia ler um prontuário que eu estaria boquiaberto a olhar.

Ideal para quem não gosta de musicais tradicionais, para dadores de sangue e pessoas que tenham um sentido de humor muito retorcido. Acreditem, vão precisar de um.

domingo, fevereiro 03, 2008

Há quem já nasça ensinado



Justine Lowe, grávida de cinco meses, estava ansiosa por ver o sue filho no interior do corpo. Quando olha para o ecrã da ecografia, eis que este a decide cumprimentar. Vai longe, o rapaz...

Ai estás? Então, parabéns!

Há mulheres cuj facto de nos relacionarmos com elas implica que uma parte de nós esteja disposta a esperar tudo, mas mesmo tudo. Sejam quais forem as razões. Embora não a conhecendo pessoalmente, acredito que Sarah Silverman é uma delas. Para quem não conhece, é uma menina que fez um filme satírico intitulado "Jesus is magic", que continha canções como "Give the jew grils toys" e "The porn song".
Para além disso, nos últimos MTV movie awards, teve o gosto de teorizar que Paris Hilton, antes de ir para a prisão, tinha pedido para pintarem as barras de celas de pénis, para se sentir mais confortável. Uma doçura de mulher.
Portanto, quando o namorado Jimmy Kimmel, que apresenta um late night talk-show na ABC fez anos e ela fez uma prenda de anos para lhe oferecer em directo, esperava-se algo de tremendo. No entanto, ninguém estava preparado para isto.

Esta mulher é um mimo.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Os abismos da demência


O que se segue é o relato de uma doença que me afecta de há tês anos e meio para cá. Embora não seja considerada pelos médicos como incapacitante, sinto que me dificulta a minha vivência do dia-da-dia, seja no concretizar de pequenas tarefas do quotidiano, seja na relação com as pessoas. Ao ínício, não me apercebi da sua gravidade, e muito menos da sua existência, mas quando se tornou inegável o seu efeito destruidor e malicioso na minha pessoa, tive de admitir que estava doente. Pesquisas recentes declararam-na incurável e sinto que nunca a conseguirei vencer realmente. O meu consolo é de que somos muitos, e espero que o meu testemunho possa ajudá-los a encarar a vida com naturalidade, mesmo com este problema. É possível, eu sei que é. Pelo menos, tento convencer-me disso.

O ataque mais recente começou há dois meses, e prolongou-se. Estava ao computador e li uma notícia no site IMDB: a 4ª season de "Lost" estreia a 31 de Janeiro. Imediatamente se apoderou de mim uma euforia semelhante aos estados mais positivos da doença bipolar. A vontade de trepar paredes apenas foi impedida pelo triste facto de que não sou o Homem-Aranha; e estive a ligeiros segundos de me sentir verdadeiramente feliz. Aliás, foi esse o momento em que me apercebi, para lá de qualquer outra explicação, que o mal dormente despertara novamente e estava a ter um ataque avassalador e impiedoso da Lostomania

Ao início, aqueles à minha volta julgaram que eu estava a alarmar-me por nada. Há uma piada recorrente sobre mim referindo-se à minha hipocondria. "Quantas doenças já tiveste tu nos últimos anos? Ele foi o sarampo Green Day; ele foi a Indianacela; ele foi a hepatite Zodiac; tu és uma minha de ouro para a indústria farmacêutica!" No entanto, tiveram de se convencer que estava a falar a sério: dava por mim a meter "Lost" em conversas que não tinham nada a ver com o assunto ("E esta medida do Governo de fechar uma série de maternidades? Acham que os Others podem estar ligados a isto por causa do problema com as mulheres grávidas?"), queria baptizar o meu cão de Locke, em honra de um dos personagens da série; tinha crises semelhantes às de Tourette, onde apodava todos aqueles que não vêem "Lost" de "ceguetas, burros que não sabem o que estão a perder"; ou dizia coisas tão assustadoras como "Prefiro um episódio de "Lost" a uma rapariga."

Procurei ajuda. Tentei arranjar vida fora de "Lost", encontrar-me com pessoas, com raparigas. Tentar voltar a ser um homem normal. Infelizmente, não resultava. Via "Lost" em todo lado e quando tse referia algo da doença, reagia com aspereza. Alguém que disse "Um gajo no outro dia disse que eu era parecida com a Kate do "Lost", foi recebida com um "Mas tu estás doida ou parva? Alguma vez te podias parecer com a Kate???" Embrenhei-me em trabalho, mas começava sempre o meu processo de ter ideias para as tarefas com a pergunta "Mas como é que poderei enfiar "Lost nisto"?"; quis ir para a droga, mas à cabeça vinham-me imagens do Charlie na estação Through the looking glass. Nada me desviava do procesos de auto-destruição que tomava conta de mim.

Foi então que chegou 31 de Janeiro. Estava no auge da doença: suores frios, sobre-excitação, o pensamento de que enquanto eu estava a conduzir, alguém, do outro lado do Atlântico, já estava a saber o que acontecia afinal depis de o Jack comunicar com o navio. Um instinto homicida apoderava-se de mim e colocava em risco qualquer condutor que se cruzasse comigo pelo caminho. Mal cheguei a casa, corri para a sala do computador e deixei um recado ao meu irmão, para que tirasse "Lost" assim que acordasse, como se uma divindade qualquer me tivesse dito aquilo ao ouvido e o mundo acabasse se ele não cumprisse essa tarefa. Mesmo enquanto adormecia, passou-me pela cabeça estar até às tantas à espera que alguém metesse o episódio na net e eu fosse o primeiro em Portugal a tirá-lo e a vê-lo. Mal acordei, nem pensei no pequeno-almoço: estaria já o episódio sacado? Desilusão suicida: não.

Revoravoltas e mais reviravoltas, caminhei para um lado e para o outro, tive visiões messiânicas do Eusébio rejuvenescido 40 anos e mostrando aos jogadores do Benfica como se joga à bola.

No momento, em que realmente senti o episódio nas mãos, a doença estava a cavalgar-me pela sveias e cedi ao seu controlo. Abri o ficheiro, carreguei "Play" e quando ouvi aquela voz familiar a dizer "Previously, on LOST...", estive perto do orgasmo.

O que se passou nas horas seguintes é um borrão na minha cabeça. Quando dei por mim, estava a patinar pela Sá da Bandeira abaixo, com um sombrero na cabeça, todo nu e uma guitarra às costas, gritando "You all everybody! You all everybody!"